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19 de abril de 2016

Sombra do Pântano

Um preâmbulo (não sei se será um capítulo oficial ou um prelúdio) do vindouro livro.




Ninguém viu o sol nos primeiros meses desde que renascera. Sentiam apenas a luz e o calor, a irradiar do alto do céu que alternava entre o cinza e o branco. Mas de repente, um último pulso de energia luminosa o fez ser visto mesmo através das nuvens. O calor irradiou dos céus até a terra, derretendo o gelo, estimulando o regresso das plantas e dos animais. As raças antigas ainda demorariam em confiar plenamente que a superfície do mundo estava de volta...

 E uma última vez, a humanidade se comportou como rebanho. Ao menos era essa a intenção, o destino.

 Os portões do Templo do Destino, uma estrutura piramidal de mais de cem metros de altura, mas quase plana tão ampla era sua base. Paredes cravadas em padrões artísticos inimagináveis, um labor antiquíssimo, mas que nos milênios que se seguiriam, quando redescobertos, levariam o que até então seria uma comunidade dos mais elevados seres de seu tempo a um salto de conhecimento sem precedentes.

 Mas agora, era o que futuramente seria conhecido como "curral". Milhões de indivíduos em um estado de graça, semi-hipnótico, marchavam para fora desses portões, pisando na verdadeira terra pela primeira vez. Seus movimentos erráticos eram ordenados por aqueles únicos que foram dignos de receber o total e completo dom da consciência quando a humanidade era engenhada. Os Homens de Três Olhos.Assim chamados devido à peculiaridade que os distinguiam dos demais: um terceiro olho desperto no meio da testa.

 Cetros que usavam de som e luz apenas para manter o lapso de atenção em que o rebanho precisava para serem conduzidos ao exterior. De lá, pontos preparados abriam portais para aqueles destinados a regiões mais longínquas pré-determinadas do mundo, mas a grande maioria marcharia do gélido norte para o centro do mundo, e de lá, se espalhariam naturalmente. Não havia predeterminação para os Homens. Ironicamente, este era seu destino.

 Os triclopes deveriam acompanhar, estudar e, enfim, fazer florescer o potencial daqueles seres. Com muito esforço, alguns entendiam que eram seus iguais, mas para a história do mundo, a Era dos Antyquons estava se encerrando. Seu orgulho estreitaria sua visão, e os fechariam para a grande marcha que estava a se iniciar.

 Mas ainda demorariam. Havia aqueles que tentavam doutrinar, e aqueles que tentavam reinar. Restos das memórias da era dentro do templo sobreviviam no íntimo dos primeiros humanos, e tinham para os Homens de Três Olhos um respeito referencial, mas também um temor instintivo, uma inveja natural, e um ressentimento irracional. Variavam com os indivíduos, mas o cerne, os Antyquons e os Humanos que herdariam o mundo estavam destinados a se afastarem.

 Afinal, eram parecidos demais.

 Catraxx Tret não via os demais de seu clã ou de nenhum outro dos Antyquons ha dez anos naquele momento. Sabia que os Mensageiros haviam abandonado sua tarefa. Sabia um mínimo das comunidades vizinhas pelos relatos dos caçadores da sua tarefa. Clamava para si o título de "Pastor" e sob sua tutela, quatrocentas pessoas descobriam a região do Vale de Catraxx - Obviamente batizado pelos seus seguidores com o seu primeiro nome, ignorando não ser sua identificação adequada - e traçavam os primeiros passos do nomadismo. As mulheres acabavam mais interessadas em suas lições de plantação, buscar abrigo, e fazer utensílios. Os homens, guerreiros e caçadores por natureza, preferiam a exploração, e o jogo de vida-e-morte com as feras. Alguns até olhavam com cobiça a posição do Pastor Catraxx, mas sabiam que ele estava além dos meros feitos de força bruta dos valentes da tribo do vale. Não entendiam como, nem porque, mas sabiam.

 Um dia, seria o fim do pastoreio de Tret. Seja pela velhice finalmente o alcançando, seja se recebesse novamente chamado dos seus iguais e decidisse aceitar, seja algum dos seus protegidos finalmente se tornando um guerreiro, ou líder, ou um assassino apto a tirá-lo da equação, aquela tribo seguiria sem ele. Em seus sonhos, conseguiria trazer uma esposa dos Antyquons para gerar uma prole, uma dinastia. Que seus descendentes aguardassem a humanidade alcançar a elevação dos Antyquons e vivessem como os Homens de Três Olhos vivem. Em paz. Em Elevação.

 Mas aquele sonho era transgressor. Não era essa a missão. Não foi o que lhe foi ordenado pelos anjos da chama púrpura. Por isso escolheu para si o título de "pastor" e não algo mais opulento como "guardião", "líder", "Rei". Guiaria, se certificaria de que eles estavam seguros e prosperariam, E só. Sem trono, sem dinastias.

 Aquele não era o destino de Catraxx Tret. E não seria daqueles quatrocentos.

 Caçadores que ha algumas semanas foram ao leste chegavam, guiados por sentinelas das fronteiras do domínio de caça. Eles corriam do noroeste. Pastor Catraxx foi alertado e tratou de ir à Colina vermelha engolfada pela comunidade para ver melhor. Da direção que eles vinham, poderia ser do reino élfico isolado... Mas podia ser de algum lugar pior.

E Era.

 Sua prestigiosa memória e sua apurada visão reconheceram as sentinelas - guerreiros jovens que deveriam servir de intermediários entre caçadores em jornadas além do território do vale - como dois que estavam caminho para um pântano. Os caçadores que encabeçavam a corrida eram de um grupo de dez, mas agora só eram três. E deveriam estar ha pelo menos dois dias de marcha, mas corriam encabeçando o grupo.

 Poucas coisas fazem um homem extrapolar seus limites físicos. Uma delas era o pânico.

- Quero todos os homens e mulheres saudáveis aqui! - urrou o Pastor. - Peguem lanças e rochas! Mande velhos e crianças para a encosta da montanha!

 A ordem era ouvida por duas jovens que acompanhavam o pastor, e obedecida sem questionar. Era apenas uma dedução paranoica... Ao menos assim desejava que fosse. O Cajado do Pastor estava em sua mão, e seus olhos nos céus.

 Ás vezes, minúsculos pedaços do novo Céu azul surgia entre as nuvens eternas daquele primitivo mundo pós-inverno. Mas o "dia bom" até então era um teto baixo de nuvens brancas e sem chuva. A bola de fogo ardente que era o sol ficava visível por pura brutalidade de sua luz. Mas poucas centenas de metros de altura era um total mistério para o povo no solo.

 Mas o grupo de caça e as sentinelas do Pântano. Todos sabiam o que era o Pântano. Foi um obstáculo quando a comunidade chegou naquelas paragens. Mas preventivamente o Pastor evitou o contato do seu povo com aquela região. Não pelos seus perigos naturais inegáveis a uma grande peregrinação, mas por seu morador.

 Anos depois, já estabelecidos no vale, Catraxx Tret tentou fazer "boa vizinhança" com o Senhor do Pântano. Foi sábio o suficiente para mascarar a localização de sua tribo - desde jamais mencionar o Vale a ocultar cheiro e rastros. Ele se pôs com o seu grupo mínimo, e prestou homenagens na língua do seu anfitrião. Mas sua demonstração apenas atiçou a curiosidade e a maleficência daquele ser, que emergiu sorrateiro e poderoso como um vulto negro de dimensões impossíveis de medir.

 Felizmente, Tret sabia mais do que o idioma da criatura, e aproveitou a falta de prática dele com os seres humanos, bem como sua arrogância natural, e o atingiu com Magia ancestral. Magia que jamais demonstrou abertamente para sua tribo. Não era o bastante para lidar com o Senhor do Pântano, mas o intimidou o suficiente para ele se satisfazer com os seis asseclas que vitimou e deixou o Pastor e os dois últimos de seus protegidos voltarem em paz.

 Daquele dia em diante, o pântano era território proibido. Posto de sentinelas ficavam na proximidade com a missão perpétua de reportar qualquer incidente estranho daquela direção e proibir que os caçadores e guerreiros do Vale de Cartaxx se aproximassem do pântano. Algo que atemorizou tanto o implacável pastor obviamente provocou a curiosidade da tribo. E o relato confuso e impreciso dos dois sobreviventes deram ao misterioso antagonista a primeira das alcunhas que forjariam sua lenda...

 A Sombra do Pântano.

 Por isso, quando Catraxx corria para encontrar os sentinelas e os caçadores, seu olhar estava nas nuvens, e não no solo. Quando tinha lapsos de lucidez, voltava-se para quem estivesse ao alcance de suas ordens e orientava se armar ou fugir - dependendo de quem fosse.

 Mas mesmo dentre os Tríclopes que viriam a ser chamados de Antyquons, a capacidade de dedução e a projeção de eventos de Catraxx Tretorfis era uma lenda. Um dia, algum caçador desobediente, alguma sentinela incompetente, ou mesmo a curiosidade infantil e sádica do Senhor do Pântano o traria ao Vale.

 E aquele dia era hoje.

 A Sombra apareceu semidisforme nas nuvens. Um vulto negro no qual era fácil delinear as asas e a cauda que conferiam sua aerodinâmica. Aquela presença aterradora de tamanho impressionante revoava sem pressa ao redor do vale. Deveria ter seguido os sobreviventes para encontrar o vale. Devia ter os POUPADO para encontrar o vale.

 O Pastor Catraxx aciona os poderes ancestrais de seu cajado que esperava jamais ter de usar novamente, e com isso emite o poder do trovão pronto para uma luta de alto nível. Outrora, seus primitivos protegidos se afastariam dele nublados por seus conceitos supersticiosos e medo primitivo, mas nada que o Pastor fizesse traria mais horror que a monstruosidade alada a revoar, cada vez mais baixo, na direção da cidade.

 Catraxx sonhou ser um rei, e ter uma dinastia. Mas negava buscar aquele sonho por suas convicções. Mas agora tinha outro sonho que sabia que não iria realizar...

... Sobreviver com sua tribo ao assalto da Sombra do Pântano.

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