Meu pai é o Maior Vilão do Mundo... mas a Hierarquia do Medo tem Alguém Acima Dele...
Bem-vindos a Halcora, a Pérola Valiriana.
A manhã em Hálcora subia devagar, como a própria avenida que cortava a cidade de ponta a ponta.
A ladeira principal começava estreita, quase tímida entre casas de pedra e varais coloridos, mas logo se alargava em uma via viva — comerciantes gritando preços, crianças correndo entre carroças, marinheiros subindo com pressa e descendo com histórias. Tudo fluía em duas direções: gente, mercadoria… e destino.
No alto, onde a rua parecia tocar o céu antes de despencar até a enseada, ficava a velha fábrica de barris. Madeira, ferro e ritmo. Martelos batiam em cadência, aros eram ajustados com precisão, e o cheiro de carvalho fresco se misturava ao de vinho e óleo. Barris recém-prontos eram empilhados em fileiras organizadas, aguardando transporte.
De tempos em tempos, carroças pesadas partiam dali. Carregadas e rangendo até o limite.
Lá embaixo, após alguns solavancos, a avenida se abria para a enseada, onde o mar refletia a luz da manhã como uma lâmina tranquila. Navios balançavam suavemente, indiferentes ao vai e vem da cidade.
___
Xitarro estava se debatendo.
Um som estranho — meio riso, meio sufoco — escapava dele enquanto algo o atacava sem misericórdia. Eu acho que incorporei isso a um sonho que estava tendo, mas saí do sono profundo ao perceber que era real; acordei de sobressalto.
Gladys materializa em minha mão. Eu me posto sentado, apontando para...
Amellie, fazendo cócegas em Xitarro.
— S-senhorita Amellie?! — eu soltei, completamente fora de eixo. — Virgílio!
Resmunguei para a armadura autômata, ainda meio alto… mas lembrando vagamente de que tínhamos “consertado” ela na noite anterior.
— Eu disse para vigiar a porta! - resmungo.
— E eu entrei pela janela! Ela foi literal! — ela corrigiu, sem a menor culpa. — E adorei seu novo amigo! Um “olá” para a fanbase furry! six-pack com zero gordura corporal…
— Pensei que seu nome era "Janete" ou algo assim… — Xitarro murmurou, recuperando o fôlego entre uma risada e outra.
— Pois é, nosso ~intrépido líder~ não entende o conceito de “identidade secreta”… — ela respondeu, de ótimo humor.
Eu estava feliz. Com Amellie ... Ou "Janete Quá", a Ledgyão estava completa! Éramos uma unidade, enfim. Então, a barda estendeu dois rolos de papel na minha direção.
— Feliz aniversário!
— Você lembrou! — eu disse, abrindo um sorriso automático. Admito um pouco animado demais. — Na verdade, é só na próxima quinta, mas—
Amellie congelou por meio segundo.
Sorriso amarelo.
— E-eu estava brincando… — ela corrigiu rápido. — Eu trouxe presen... você está brincando, não está?
— Eu… não… — agora eu estava constrangido. — Você passou alguns meses na minha casa… Imaginei que aprendeu o dia de ... esquece. O que é isso?
Desenrolei o “presente”.
Era Lord Edgy.
Na minha configuração de armadura.
Procurado.
— Parabéns, Herdeiro da Escuridão! — Amellie anunciou, teatral. — Você é oficialmente inimigo público de Shén-Li!
— E… isso é bom? — Xitarro perguntou, ainda meio perdido.
— Eu lutei muito por isso… — respondi, com um orgulho que talvez não fosse saudável. — Não se preocupe. Em Hálcora não tem atividade da Nova Guarda. Como você conseguiu isso, Amellie?
— Estavam pendurando na Estrada da Muralha... com... Isto — ela me estende um novo cartaz.
Eu já tinha visto. Era meu rosto, o nome "Bentho".
A diferença era que, em vez de "Procurado", estava "Desaparecido".
— "Bentho Oeste" pode voltar a ser um charlatão agora... — ela ri. — Espero que você não estivesse com ciúmes de si mesmo.
Ela parecia leve... mas eu estava preocupado.
— Qual é o ângulo? — pergunto. Da mesma forma que ela me perguntou ao expor meu projeto.
— O quê? — ela estranha.
— Momento um: Bentho está sendo procurado; momento dois: não está mais, mas Edgy é um procurado... O que mudou?
— Seus pais devem estar mexendo os pauzinhos nos bastidores… — ela respondeu.
Meus pais.
— Me dê o cartaz do "Bentho", por favor.
Ela me estende. Eu passo o dedo no papel e sinto a textura.
A maioria dos cartazes era gerada por magia. Materializados prontos, imagem e tudo, e não deixa diferença de textura. Mas não em Huo-fen. O engenhoqueiro orgulhoso, Balmon, preferia outro método.
Gravar. Queimar. Marcar. Máquinas, lentes… algum tipo de processo que eu nunca entendi completamente. Sei disso porque estive como cadete por alguns anos; sabia dessas coisas.
— Todos, exceto este, são mágicos — eu disse, levantando o cartaz de “Desaparecido”. — Este aqui… é do Balmon.
— Uh... estamos brincando de "detetives"? — Xitarro se aproxima curioso.
— A Estrada da Muralha começa em Huo-fen. Fazia sentido ter cartazes de lá... Mas se já sabemos que os cartazes de "Bentho procurado" são a ordem da capital, por que Balmon faria cartazes diferentes?
— Ele queria agradar alguém? — arrisca Xitarro.
— Ou ele estava com medo... — Amellie pensa. — Essas falsificações devem dar problema na "chefia" de vocês... Quem um capitão lendário temeria tanto a ponto de preferir ter de responder aos chefes?
Eu sabia quem.
E então Gladys falou em minha mente.
— [E ele está certo em ter medo.]
— Bentho? — Amellie sentia que algo me incomodava.
— Virgilia Sombria, me vista! — falo.
A armadura respondeu de imediato. As peças se moveram com precisão mecânica, engolindo Virgílio de volta à sua função original. Em segundos, Lord Edgy estava de pé onde eu estava.
— Xitarro — apontei para a janela — eles não te conhecem, tem de ser você. Preciso de uma carruagem, carroça… qualquer coisa que ande. Um carro de fuga. Vai!
Meu "capanga fera" não precisa de nova ordem. Vai com um sorriso no rosto. Só recolho a mochila e o que não tinha tirado na noite anterior. Começo a descer as escadas, confiante de que Amellie estava atrás de mim.
A avenida principal de Hálcora estava… viva.
Descemos até o segundo platô da ladeira. O fluxo de gente era constante. Comerciantes, pescadores, crianças correndo entre adultos distraídos. O cheiro de sal, madeira e comida quente se misturava no ar.
Era uma cidade.
Uma comunidade.
Gente de verdade.
E todos eles estavam em perigo por minha causa.
— Precisamos ir onde Xitarro possa nos encontrar! — Amelie protesta. Estávamos na avenida principal, no segundo platô desde a fábrica de barris.
— Aetíades Sagrado... a cidade está cheia! - estava ignorando ela. Colocando as idéias no lugar.
— Be… — ela se corrigiu rápido — Lord Edgy. O que está te preocupando?
— Eu cresci com os Quatro Capitães — comento. — Khao nunca temeu nada. Achima racionalizava tudo. Mas no Levante de Lord Blunt... Balmon teve um colapso...
— Só chegaram a mim as versões oficiais~. — Amellie franziu o cenho. — Foi tão mal assim?
— Lord Blunt mal reconheceu que ele existia. Balmon sempre foi ressabiado nas reuniões... Khao foi quem segurou o impacto… e nunca recuou. Dezessete anos, firme. Sempre lá. Ao contrário de minha mãe, que ...
— Bentho!
Ouço aquela voz aguda.
— Agora não, Gladys! — resmungo. — Balmon deve estar temendo…
— Não mova UM ÚNICO metro, menino!
Eu saco a espada eterna. Amellie chega a dar um salto para traz.
— Cara, eu nunca gostei do seu senso de humor… mas essa é a pior hora…
— [Eu estou calada, meu rei.] — Gladys respondeu.
Silêncio.
— B-Bentho… — Amellie disse, tensa — só você ouve a espada… mas isso… eu ouvi também.
Meu corpo travou.
Um segundo.
Dois.
Amellie explicou que Gladius Aeternum escolhia a voz de quem mais respeitávamos. Era assim que ela funcionava. Um truque psicológico do "diabinho no ombro". Mas isso deu uma confusão na primeira noite, quando achei que a espada era minha mãe.
Mas agora era o contrário.
Olhamos ladeira acima. No penúltimo platô antes da fábrica de barris.
Uma mulher avançava entre as pessoas sem pedir licença.
Cabelos loiros.
Olhos furiosos.
Um arco em mãos.
Lady Àquela. a Arqueira Lendária.
Ela não estava procurando.
Ela já tinha encontrado.


