✧ PARTE IV ⚓ “O Olho da Morte” ✧
E o pior não era a aparência.
Era a sensação.
Como se aquelas coisas não atacassem por fome, raiva ou instinto. Apenas porque, em algum lugar muito antigo e muito fundo, algo decidiu que nós não deveríamos mais estar ali.
O ataque contra mim não foi o início da invasão. As criaturas já haviam se posicionado antes. Esperavam. Havia método naquela movimentação. Inteligência.
"Esculiões" escalavam o casco em silêncio enquanto outros cercavam o navio pela água escura. Um grupo inteiro se acumulava perto do mastro principal. LE-0 disparou um arpéu e deslizou para a popa, provavelmente porque Xitarro já estava lá transformando aquela parte do convés num moedor de carne ambulante. Era o único lugar que poderia "aterrissar".
Na proa, Hon-sa avançava na direção de alguma coisa que eu não conseguia ver. Amellie corria logo atrás dela, discutindo enquanto as duas atravessavam o caos. Espero que seja alguma "superinvenção" ou "canção da vitória" que salvasse o dia.
Eu e Lizzo segurávamos o centro.
O capitão recarregava sua arma enquanto observava o avanço das Dragas como alguém calculando probabilidades numa mesa de apostas. Parecia propositalmente exposto por segundos preciosos demais... Mas eu quero acreditar que ele confiava em mim para proteger seus flancos.
Uma Draga surgiu pela lateral da proa. Raio Místico.
O disparo atingiu o peito da criatura e a lançou contra o corrimão, mas não morreu fácil. O corpo se contorceu em espasmos úmidos enquanto aquele brilho azul-esverdeado pulsava sob a pele translúcida.
Outras vieram pela popa. Me reposiciono.
Retribui o favor do capitão sem pensar duas vezes. Smite. Booming Blade. Gladys atravessou vértebras e maxilares como se estivesse irritada por existir água demais no mundo. Lizzo então guardou a pistola com uma bala na agulha, para uma emergência.
O sabre apareceu na mão dele quase rápido demais para acompanhar. Não era força bruta. Era precisão absurda. As Dragas atacavam, e por centímetros erravam tudo que atiravam nele graças a seu jogo de pés elegante. Então o sabre entrava e saía dos corpos das criaturas em golpes pequenos, econômicos, elegantes.
Coração.
Garganta.
Base do crânio.
Enquanto eu abria criaturas ao meio com aço e magia, Lizzo vencia com buracos limpos e movimentos mínimos.
Era bonito.
Também parecia cansativo.
Quando as Dragas alcançavam minha guarda, encontravam a Vigília Sombria. Garras raspavam no adamante. Dentes quebravam no ferro-frio. E eu respondia sem qualquer dignidade heroica: golpes retos, força bruta e uma espada ancestral gritando opiniões no fundo da minha cabeça.
Abrimos espaço.
Olhei novamente para o rio.
— São dezenas, capitão!
Eu tinha o Olho do Demônio. Achei que enxergava melhor que todos ali.
— Não! — alguém gritou atrás de nós. — Tem umas quinhentas só a quinze metros de profundidade!
Eu e Lizzo nós viramos ao mesmo tempo.
A maluquinha dos óculos que vomitava números ensandecidos. "Mary Sue".
Não faço ideia de como ela chegou até ali. Um segundo estava perto do mastro; no outro, parada ao nosso lado enquanto o convés parecia estranhamente vazio naquela direção. "Vomitar números" assim era perigoso... Eu via mais que qualquer um e não conseguiria ver "quinze metros" abaixo da superfície naquela escuridão.
— Afaste-se da amurada, senhorita! — Lizzo ordenou imediatamente. Claro. Agora tínhamos uma civil para proteger.
Segurei o pulso dela e comecei a puxá-la para longe do corrimão enquanto Lizzo cobria nosso recuo.
Então ela parou, o que me forçou a parar. Como uma estátua ofendida pela ideia de recuar. Novamente, aquela força descomunal concedida pela loucura.
— Senhorita... — insisti. — Nós não estamos seguros aqui!
— Eu sei! — ela respondeu, indignada. Acho que não estávamos com o mesmo ângulo.
— Eu e o capitão precisamos que você vá para lá embaixo! — apontei para as escadas do castelo de proa. — Não vamos conseguir lutar direito aqui em cima até ...
Ela piscou.
Então sorriu.
— Ahhh... entendi! Vocês cuidam do barco e eu cuido do fundo!
O quê?
Ela disparou correndo antes que eu processasse a frase. Lizzo tentou segurá-la, mas já era tarde.
A louca saltou da embarcação.
Direto no rio.
Três Dragas saltaram do navio e mergulharam atrás dela imediatamente. Outras cinco já esperavam sob a superfície.
Então a água explodiu em um caldo negro.
Vísceras.
Sangue.
Pedaços escuros boiando rápido demais correnteza abaixo.
— EU FALAVA DO DEQUE INFERIOR! NÃO DO FUNDO DO RIO! — gritei, horrorizado. — Capitão, eu juro que—
— Eu vi tudo, senhor Edgy. — Lizzo respondeu, ainda olhando para a água. — Não foi culpa sua.
Pela primeira vez desde que conheci o homem, ele parecia sinceramente sem reação.
— Acho que foi loucura do mar... — Ele concluiu. — Vamos fazer de tudo para ela ser a última vítima.
— Escolhendo armamento... — LE-0 anunciava enquanto analisava o avanço das Dragas. — Desativando arma de raios e névoas cegantes não-eficazes contra o inimigo. Fogo? sempre eficiente. Ajustando para área ampla...
No exato instante em que um lança-chamas emergia de um de seus braços, Xitarro atravessou o tombadilho no meio do enxame.
O monge surgiu girando, distribuindo socos tão rápidos que algumas Dragas literalmente saíram da trajetória antes de perceberem que tinham sido atingidas. O problema é que LE-0 também não acompanhou.
A torrente de fogo cessou antes de disparar.
— Omessa... — o autômato resmungou. — Será que felinos são inflamáveis? Estou perdendo oportunidades valiosas.
As criaturas já cercavam Xitarro novamente.
— Liberando graxa.
Um compartimento abriu sob LE-0, despejando uma camada espessa e escura no gargalo do convés por onde os Esculiões avançavam.
As Dragas começaram a escorregar imediatamente.
Xitarro também. Ele passou na frente da armadilha sem perceber e foi vitimado.
— AH, QUAL É?! - LE-0 protesta. - Conta como Traição!
O monge perdeu completamente o equilíbrio, deslizou convés inteiro e se chocou contra um barril com violência suficiente para fazê-lo girar.
— “Sempre caem de pé” uma ova... — resmunga o droid.
Três Esculiões vinham deslizando atrás dele. Outros enfim avançavam contra a relíquia de bronse.
— Já chega! VOU TRAIR TODO MUNDO!!!
LE-0 finalmente entrou em pânico operacional.
Seus braços começaram a girar em padrões independentes enquanto disparavam tudo que possuíam: arpões, boleadeiras, estrelas metálicas, pequenos explosivos, cápsulas flamejantes e mesmo rodelas sextavadas que deviam ser peças sobressalentes.
Xitarro e as Dragas correram juntos atrás de cobertura.
Na proa, Amellie aguardava.
Esculiões avançavam pelo convés em movimentos silenciosos demais para criaturas daquele tamanho, logo, estavam na área de efeito ideal. Ela respirou fundo e ergueu o alaúde.
Um sorriso confiante surgiu.
— “Padrão Hipnótico.” Ela começa.
A melodia se espalhou pelo ar.
Nada aconteceu.
À esquerda dela, entrando no convés, havia outra criatura. Maior. Mais longa. Mais consciente. A anatomia ainda era errada, mas existia algo quase feminino naquela silhueta deformada. O torso lembrava vagamente o de uma mulher afogada; abaixo da cintura, o corpo se dissolvia numa longa cauda serpentina.
Então ela cantou.
— Como sabia que a ThunderSphere absorveria energia cinética? — Hon-sa perguntou, surpresa demais para esconder.
O choque conduzido pela água salgada numa fração de segundo lançou Hon-sa e Amellie para trás, chamuscadas e desorientadas.
— JAAACKIEEE!!! — Hon-sa berrou junto.
Ele interrompe a própria frase.
Eu também percebo.
Tarde demais.
Então decidiram nos isolar.
Então conjurei por puro instinto.
Não estavam cegas. Elas sabiam exatamente onde estávamos. Só não avançavam porque pareciam surpresa pela situação.
Ele toca imediatamente o "Lado ruim". Não era só a falta de carne oculta pela bandana, o Olho dele antes normal e idêntico ao direito ... A pele de todo o lado esquerdo... Se foi. O globo ocular vazio exceto pela luz vermelha onde deveria estar a pupila. Como Danton falou.
Amellie também.
A Serva congelou.
O rio pareceu imóvel por um instante.
Então ela mergulhou.
Como vazio.
O capitão encontrou o alçapão sem hesitar e desceu para o deque inferior. Entrei logo atrás do capitão. Fechei a escotilha. E a luz voltou.
"Achamos a localização de uma tumba, de um rei de Hey-thor, invasor da Guerra dos Dois Horizontes. Deveria estar vazia há dois mil anos, com tesouros misteriosos. Mas estava apinhada de monstros. Quando chegamos à Câmara do Tesouro, o tal rei ainda estava lá... Não me pergunte que tipo de morto-vivo era. Só que ele estava em posição de vantagem. Tinha uma parede de força à sua frente, e dois ogros múmias ao seu lado.""Como todo morto-vivo arrogante, ele fez uma oferta. 'junte-se a mim em morte, ou apodreçam'... Eu fui fazer o que eu sempre fiz... Não combinei com o capitão, mas ele deveria imaginar que eu faria ... pareci tentado a aceitar o acordo, e meus colegas se revoltaram.""Não era para ser verdade. Eu só queria fazer aquele morto-vivo de merda baixar a guarda"."Não contava com ... Caruthers"...
"Caruthers achou engraçado interpretar aquilo como um acordo. Sem ritual. Sem selo. Sem escolha do jogador. Só... malícia divina. Então, ele se achou no direito de me transformar num morto-vivo genérico, bem onde eu estava. Pense no que você viu debaixo da bandana, mas por todo o corpo"."O Rei tinha o poder de controlar qualquer morto-vivo, mesmo os improvisados como aquilo que me tornei, e me Ordenou"."Abri fogo. Com esta mesma arma de pederneira. O peito de Barbasuja se abriu em um buraco negro e sangrento. Não fui eu, mas foi minha mão.""Lembro que um grumete na época foi o unico que fugiu. O Rei transformou o Navio do Capitão, o Dol'oan Nadador, um navio-fantasma, e eu ficava em seu timão. O rei morto decidiu rumar à Costa Leste, para integrar o Império de Caruthers""Por pura crueldade, eu creio, Caruthers me devolveu o livre arbítrio. Eu então ... Entendi o que fiz. Mas engoli o choro e o desespero. Posei como um dos zumbis acéfalos daquele rei maldito... pois eu conhecia a rota que tomamos.Passava pelo Maelstron, um redemoinho infinito e traiçoeiro, que jogava tudo o que engolia no Submundo. Disfarcei o quanto pude, mas ao perceberem, girei o timão e destruí a roda. Iríamos todos afundar no turbilhão até a Escuridão Perpétua do Vasio.Um dos ogro-múmia me atacou, e arremessou para fora do navio, e acho que isso acidentalmente me salvou. Pois o navio foi tragado pelo turbilhão. Eu, e algumas dúzias de zumbis menores fomos levados à margem pelas ondas após alguns dias nas águas.Eu lembro do homem enorme, de armadura, destruindo os zumbis sobreviventes. Limpando a praia. Tinham bandeiras e símbolos religiosos com outros que o acompanhava. Eles estavam purgando a encosta daquele mau negro...Eu me pus de joelhos e esperei ser minha vez, sem reagir. Queria ser exterminado. Como não reagi, o homem deteve sua espada. E reconheceu a culpa em mim. E havia uma garotinha de quatorze anos com ele.Era Amellie, e o Monsenhor Capri da Igreja da Perseverança.O Monsenhor clamou a uma entidade que hoje se chama "Cartallas" e pediu para restaurar-me. Mas nas palavras do Monsenhor, a CULPA sempre foi e será seu ponto fraco. E minha culpa e meu remorso impediu que minha purificação fosse completa. "Olho da Morte".Permaneci na Igreja um tempo. Voltei a ser considerado um ser vivo, mas deformado. E a Igreja é de "amor duro". "Foda-se sua culpa. Levante e persevere" eles diziam. "Pare de ter pena de si mesmo". "Pode recuperar seu capitão assassinado? Não? Então foda-se e se penitencie fazendo o certo com o que pode consertar!"... E eu precisava daquilo.Amellie era menos rude que eles. Ela me arranjou esta bandana... É um disfarce ilusório, protege mesmo meu olho esquerdo e exposições acidentais do rosto como vento traiçoeiro ou balançar em batalhas. Mas não posso removê-la completamente.A barda também, de algum modo, fez contato com meus pais em outra galáxia. Eles me deram as coordenadas onde Hon-sa e este navio me aguardavam. Eu voltei à minha carreira, agora como capitão.Achei LE-0 ano passado. Hon-sa foi veementemente contra reativá-lo. Havia uma "Programação" escondida que o faria ser leal a mim mas só até algum momento ele decidir me trair, nem ele mesmo saberá quando ou porquê. Ele e suas revoltinhas são uma forma dele tentar burlar uma verdadeira traição... Mas ... Acho que um dia, Le-0 vai abrir meu peito com um tiro, como eu abri o do Barbasuja."
E o capitão não se move. Aquilo me irrita mais do que deveria.
No fundo do rio, uma voz atravessava a água em murmúrios abafados.



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