BLOGGER TEMPLATES AND MyYearBook Layouts »

14 de setembro de 2026

EDGELORD - Cap. V - Arco da Perseverança

Ao contrário do castelo suntuoso no topo da colina, aquela igreja-fortaleza usava rochedos terrosos, extraídos diretamente de pedreiras locais. Seus paralelepípedos eram um tanto irregulares, mas ocupavam a área de forma inteligente, sem firulas ou ostentações desnecessárias. A estrutura austera lembrava o Forte Shan, em Shén-Li — ampla, funcional e desenhada para ser defensável a qualquer custo.

Eu realmente não conseguia encará-la como uma "igreja" tradicional. Mas havia algo ali... um peso no ar. Talvez eu estivesse apenas sendo sugestionado pela história da região? Afinal, apesar de Pallas ser um dos deuses mais antigos e reverenciados do continente, tudo ali começara com Cardullion, o Bode Bárbaro — um deus de quem ninguém esperava nada e a quem ninguém dava valor. Talvez essa essência humilde tivesse moldado as fundações do lugar.

O que estou dizendo? Eu não precisava especular: eu podia comprovar.

— Xitarro... — pedi, indicando a quina de uma construção vizinha. — Vigia nosso amigo inconsciente por favor.

O monge acomodou o homem deitado numa quina coberta de sombra. Aproximei-me e o ajudei a posicionar o sujeito de forma mais confortável contra a parede de pedra.

Só então caminhei até o meio da rua.

Fechei os olhos por um segundo e os esfreguei com força. Quando os abri, canalizando o dom que o meu juramento me concedera, a poeira e a lama da realidade se dissiparam. Eu via as galáxias e as correntes etéreas fluindo entre nós e o infinito.

Agora, eu via a igreja exatamente como ela deveria ser. 

Dizem que os deuses da radiância são associados à cor azul, como a Trindade das Aves em Shén-Li. Ali, porém, apesar do marrom poeirento que dominava todos os aspectos do solo e das paredes, a luz mística que emanava das rochas era de um verde profundo e pulsante — a marca inconfundível dos deuses da natureza e da resiliência primordial. Eu imaginara que encontraria o vermelho, sinal dos deuses da guerra... mas não. Era uma energia em estado puro e natural.

A aura parecia uma aurora boreal emergindo do topo das torres quadradas, serpenteando e fluindo entre os mourões e os arcos de pedra como se o próprio vento tivesse se tornado visível.

É... dava para perceber que aquele templo não fora erguido sem dificuldade. Houve gente empenhada em tornar o caminho mais complicado do que precisava ser. Ainda assim, a Igreja da Perseverança ficara de pé. Sobrevivera a obstáculos que pareciam ter exigido mais paciência do que deveriam, a implicações pequenas demais para merecer tanta atenção e a situações que, em vez de testar a fé, pareciam testar quanto tempo alguém conseguia continuar tentando antes de perder a vontade de viver. Mas eles perseveraram. Talvez fosse essa a parte mais importante daquela história: não fora uma construção favorecida pelo destino ou pelo caminho fácil. Fora uma construção que persistiu apesar dele.

Quando a visão mística se esvaiu e o efeito do juramento passou, pisquei e voltei para onde Xitarro esperava. O mendigo gigante estava sentado, coçando a barba emaranhada.

— É real, amigo — falei para o monge, sentindo um nó na garganta pela solenidade do que vira. — Eu vi o peso que está cravado nessas pedras. E... espere. Quando foi que o nosso agregado acordou?

— Ele esteve acordado o tempo todo — respondeu Xitarro calmamente, ajustando sua postura. — Pediu para eu lhe dar um tempo enquanto você olhava para o nada...

— Bem... obrigado — sorri para o grandalhão, que apenas encarou a fachada do templo e soltou um arroto ressoante que estremeceu o ar da rua. — Agora, vamos ver o que este prédio pode fazer por você.


Àquela observava a estátua da frente, a mais protuberante do conjunto. Era uma entre treze, cada qual com quatro metros de altura, esculpidas com um talento moderado. Ainda assim, uma delas parecia terrivelmente familiar.

— "A Honra da Infantaria Pesada de Bearlord" — traduziu Estebán, lendo a placa em entalhes arcaicos. — No idioma dos anões de Dol'oan. Era a elite de Glen Bearlord, os únicos capazes de ter executado o ataque preventivo que garantiu a vitória dele... derrubando o castelo de cartas de Cyrak. Militarmente falando, foi algo ousado e brilhante, mas...

Cruel — completou Àquela, num tom baixo. — Não valeu a pena.

Estebán preferiu não contestar. Então, desconversou.

— Agora, sabendo o que sei de Amellie, tudo faz sentido — o Senhor do Sombrio ergueu os olhos, acompanhando o traçado da estrada. Em menos de meia hora estariam no povoado. — A presença da Gladius Aeternum é intensa, mas isso a torna confusa. Difícil de ver com precisão. A lâmina está tentando se ofuscar e eu achei que era a distância desde meu pacto... Bem, eu estou fazendo o mesmo agora. Ela não sabe quão perto estamos.

— Ela sabe que chegaremos, mas não quando? — confirmou Àquela.

— Sim. E agora vem a parte mais difícil... Ao menos para você, querida.

A arqueira baixou o semblante.

— Pensei que iríamos apenas os seguir à distância...

— Gladius Aeternum conhece minhas capacidades. Eu eventualmente iria deduzir que ela me rastreia, e estaria articulando o grupo para se mover assim que eu me aproximar demais. Queria poder afirmar com certeza que eu mesmo concluiria isso por conta própria, mas, se aquela espada tentar algo contra Bentho, esta distância atual é inaceitável.

— Isso não interfere na tal "profecia"? — Àquela questiona.

— Nada interfere.

— E eu terei de ir sozinha?

— Como em Hálcora — ele confirmou. — Ela não pode rastrear você, e vai deduzir que eu estou usando das regras do jogo contra ela. E você não vai tentar conversar desta vez... vai agir. Sem tempo para confusões ou fugas.

— Você está me mandando disparar flechas em nosso filho... sabe disso, não é?

— Se ele estiver vestindo a armadura, não precisa se segurar. A Vigília Sombria vai protegê-lo — comentou Estebán. — Mas eu tive uma ideia melhor.

— Que bom... — ela suspira, aliviada por um segundo.

— Capture o garoto-gato.

A arqueira ergueu as sobrancelhas, pega de surpresa.

— O Catfolk é absurdamente rápido e imprevisível — explicou o Senhor do Sombrio. — Mesmo se você conseguir imobilizar o Bentho, não vai conseguir escapar do felino. Mas se você capturar o rapaz e fugir com ele, eliminando a vantagem da velocidade do trio... Bentho virá atrás de você sem pensar duas vezes. Corra na minha direção e "a gladis" não terá opções de manipulação. Com nós dois juntos, asseguraremos o garoto.

— "Sequestrar o melhor amigo para atraí-lo a uma armadilha"... — Àquela soltou um riso sem humor, com evidente desgosto. — Esse é o "Lord Blunt" de quem eu me lembro.

— E se for este o Lord Blunt de quem Gladius Aeternum espera... manteremos o disfarce de Amellie impecável — pontuou Estebán. — E isso tira um pouco da carga do segredo de Amellie.

— Eu ainda... — Àquela voltou a encarar as estátuas de pedra. — Não consigo afastar a sensação de familiaridade dessa estátua...

— Khao.

— Não, Estebán, não é ele! — Àquela forçou a visão sobre a fisionomia do guerreiro esculpido. — Khao jamais conseguiu ter uma barba, então...

— Eu digo que Khao está se aproximando.

Àquela deu um salto, sobressaltada.

Pela estrada coberta de poeira, aproximava-se o Capitão da Nova Guarda. Olhar duro e fixo para a frente, passos lentos, contidos e pesados.

— Agora não... — resmungou Àquela. — Bentho está tão perto...

— Eu... não sinto a presença dos Tenentes — Estebán parecia genuinamente preocupado. — Rhoy eu concebo que consiga se esconder adequadamente, mas...

— Ele não pode saber que o Bentho e os garotos estão aqui... — comentou Àquela. — Vamos atraí-lo para o penhasco do Norte e despistá-lo.

— Esta é a terra nativa de Khao — cortou Estebán. — Ele a conhece melhor do que nós, despiste é inviável. Ele pode interferir e Bentho escapará na confusão de novo. Isto termina aqui.

Estebán começou a marchar firme na direção do capitão.

Ele sentia que algo estava profundamente diferente. A aura ancestral do bárbaro sobrepunha-se à do soldado. O fato de estar aparentemente sozinho pesava. E, diferente de todos os outros inimigos de Lord Blunt, Khao vivera por demais. Ponderara e martelara cada derrota ao longo dos anos. Mesmo com a abissal diferença de poderes entre eles, o Senhor do Sombrio respeitava aquele que mais tempo se dedicara ao preparo do duelo.

O homem que esperou por dezoito anos.

Foi então que algo segurou a mão de Estebán, impedindo-o de ir de encontro ao seu caçador.

A mão de sua esposa.

— Não lute — disse ela, enfim. 

— Você... — Estebán virou-se, confuso. Remeteu a quando ele fez tal pedido à esposa na Montanha Morta. — Tem certeza de que quer tentar desta vez? Eu compreendo que...

— Está diferente — comentou ela, a voz suave. — Ele está sentindo dor.

— Àquela... ele é perigoso e imprevisível — insistiu Estebán, tensionando os ombros. — Vocês dois se feriram muito no passado. Eu posso assumir esta luta.

— Não haverá luta.

Àquela segurou as duas mãos do esposo e, mantendo o olhar firme no horizonte, começou a marchar sozinha na direção do capitão.

Demorou alguns passos para que Estebán percebesse, assombrado, o que a esposa acabara de depositar em suas mãos desarmadas.

O próprio arco dela.


Sacrilégio! — gritou Xitarro, apontando para o pórtico do templo com o rosto pálido.

— O... O quê?!? — O cavaleiro à nossa frente se assombrou.

— Ele quis dizer "Santuário", não "sacrilégio" — corrigi rapidamente, puxando o monge pelo ombro. — Nós três viemos pedir a proteção de Cartallas.

Um cavaleiro e dois acólitos se aproximaram a passos firmes. Sem fazer perguntas, a dupla de acólitos partiu para nos substituir, tomando o pesado e semiconsciente mendigo para dentro da fortificação. Não emitiram um único resmungo sobre o peso... deviam estar com a musculação em dia.

— Cartallas vai agradecer-lhes, forasteiros — o cavaleiro falou por fim, encarando a cena. — Entrem. O Santuário está concedido. Vamos trazer um pouco de água... vocês parecem exaustos.

Xitarro deu um sorriso aliviado para mim. Quase podia ler sua mente dizendo "nós conseguimos"... Mas eu me detive no limiar da porta.

— N-nós dois estamos armados — comentei, indicando a espada e minhas adagas. — Precisam reter as...

— Bobagem — o cavaleiro deu de ombros. Tratava-se de Rúnvald, um firbolg alto e corpulento de pelagem castanho-acinzentada, com cabelos longos e desgrenhados presos atrás da cabeça. O rosto era largo, de traços bovinos e gentis, com pequenos chifres curvados para trás. Seus olhos tinham uma expressão tranquila, quase sonolenta, mas extremamente observadora.


— Shén-Li, correto? Sou excelente com sotaques — continuou Rúnvald. — Seu Aetíades exige que entrem desarmados?

— Bem, sim — respondi.

— As terras de Bearlord ainda estão sendo acalmadas — ele riu, sem dentes. — Só alguém com merda na cabeça não tem uma...

Xitarro soltou um riso de puro nervoso.

— A-algum problema? — Rúnvald franziu os chifres.

— O senhor falou... "mer..."... numa igreja... — o garoto-gato justificou-se, ainda atônito.

— E...? — O cavaleiro divertiu-se com a ingenuidade. — Teme que Cartallas vá jogar um raio na minha carrapeta por causa de um palavrão?

— "Carrapeta"? — Xitarro estranhou a palavra.

— Eh... — interferi, limpando a garganta. — É o mesmo que "cu".

Xitarro desabou na gargalhada, cobrindo a boca.

— Ele tem quatorze anos — expliquei para o firbolg. — A "quinta série" dele acabou de cumprimentar a "quinta série" do senhor.

— Sem problemas... — O firbolg estendeu a mão enorme para o monge. — Você se encrenca mais com Cartallas se se chamar de "bonito" com fingimento do que se chamar ele de "arrombado" com sinceridade.

Xitarro caiu na gargalhada de novo, a ponto de eu precisar segurá-lo pelo cotovelo para ele não tropeçar no próprio rabo.

Isso é tão errado... — o felino arfava, quase sem fôlego. — Me desculpe!

Enfim, entramos.


Estebán estava tenso. A esposa, desarmada, estava diretamente no caminho do implacável Khao. A diferença de estatura entre os dois era tremenda; ele parecia uma montanha prestes a esmagar uma flor de sal.

— Khao... você está bem? — ela começou, tentando manter a voz firme. — Onde estão seus tenentes? Algo aconteceu com eles?

O capitão não disse uma palavra.

— Fale comigo, Khao! — ela insistiu, dando um passo à frente.

O gigante parou. Mais um único passo e ele trombaria na loira. Ele se detinha por um segundo, os olhos escuros fixos nela, sem piscar.

Então, deu um passo para a esquerda.

E continuou em sua marcha silenciosa.

Estebán por um instante pensou que ele era o próprio destino caminhando. Seus olhos se cruzaram com os do capitão por uma fração de segundo, mas o capitão estava mesmo afetado: não havia ali a prepotência característica, nem a fúria ocasional de um bárbaro. Havia um vazio absoluto no semblante do homem.

O Senhor do Sombrio deu ele mesmo um passo para o lado, permitindo que o gigante seguisse além dele, incólume.

Àquela foi logo atrás, precisando apressar o passo para alcançá-lo. Estebán apenas observou de longe, intrigado. O Capitão a ignorou por longos metros, até que enfim parou.

Seu olhar repousou sobre as estátuas — os monumentos na entrada do povoado de Bearlord. Concentrou-se especificamente no homem barbudo representado na estátua da frente.

— Você conhecia esse homem? — Àquela arriscou, aproximando-se com cautela.

— Conheço... — A voz de Khao finalmente saiu. Parecia vir do fundo de uma caverna; grave, arranhada, nada familiar.

Àquela observou melhor aquela representação em pedra. Com um refinamento limitado de lapidação, exibia uma armadura de cota de malha reforçada com placas e rebites. Representava um sujeito consideravelmente encorpado. Ela deduziu tratar-se de um dos oficiais do antigo exército de Glen Bearlord...

... E, de repente, Àquela se lembrou das antigas conversas sobre o passado.

De quando Khao e ela não atiravam flechas, barris e beholders um no outro. De quando a farda não pesava tanto e Khao se permitia ficar vulnerável e nostálgico ao redor de uma fogueira.

— É o "Sargento"? — ela perguntou, sentindo um aperto no peito. — É esse o homem que fez você deixar o seu lar?


Khao teve uma reação quase espasmódica, como se acordasse trancado de um transe. Ele olhou para a sua antiga companheira de armas e declarou, seco:

— Volte para casa e se entregue, loira — ele resmungou. — Ou não. Eu não ligo.

Khao voltou a caminhar, contornando as estátuas e avançando em linha reta rumo ao povoado. Àquela assistiu em choque, imóvel onde estava.

Enfim, Estebán se aproximou devagar e colocou a mão no ombro da esposa.

— Eu estou legitimamente sem explicação — ele falou, franzindo o cenho. — O que foi isso?

— Ciúmes, Estebán? — Àquela comentou, sem desviar os olhos das costas do gigante. — Com medo de não ser mais o maior inimigo de Khao?

— O quê?!?

— Desculpe... — Ela esfregou as sobrancelhas, soltando um suspiro pesado. — É algo pessoal para ele. Ele tem uma rixa mortal com um desses soldados...

— Historicamente falando... Sabe quem é o único "soldado" do antigo exército de Glen Bearlord que sobreviveu à guerra, não sabe? — O Senhor do Sombrio comentou, a voz caindo num tom sombrio.

Àquela se assustou. As peças se encaixaram com uma clareza aterrorizante em sua mente. Ela o conhecera... lá em Yalatanil.

— Não... Não pode ser aquele sargento! — Ela empalideceu no mesmo instante, encarando o marido com os olhos arregalados. — Khao pode estar em perigo!


Rúnvald nos fez atravessar um micropátio antes do salão de missas, que ocupava pelo menos metade do espaço total da igreja.

Bancos organizados em quatro fileiras, separados por três alas com tapetes rústicos, concentravam a atenção em um pódio num palanque ligeiramente elevado, acompanhado por arcos que levavam ao interior do templo. Uma galeria funcional estendia-se tanto no térreo quanto no segundo piso. Fomos guiados à esquerda, para uma reentrância com uma cama improvisada, um balde ao lado e o cheiro de incensos de canela fortes tentativa de diminuir o fedor de gororoba e cerveja choca. O manguaceiro já estava lá, sendo acomodado pelos acólitos.

— Não vão dar algum energético ou um "lay-on-hands" para ajudar o cara? — perguntei, vendo o estado do sujeito.

— Ele vai estar bem em duas horas... — Rúnvald comentou displicentemente. — Uma vez por ano... Estamos acostumados.

De novo?!? O que diabos era aquilo? Mantra?

— Bem, se não for incômodo... — adiantai-me, ajeitando o cinto. — Como conseguimos uma audiência com o Monsenhor?

Rúnvald parou, atônito, encarando-me de cima a baixo.

— Sério? — Será que eu falei alguma coisa errada? Minha heráldica era péssima... vai ver o homem mais foda da igreja precisa de mais que estranhos chamando ele.

— ... Só se ele não estiver indisposto no momento — tentei aliviar a ousadia.

— Pode-se dizer que ele está bastante indisposto no momento — Rúnvald soou terrivelmente irônico. — Mas certamente vocês serão os convidados dele para o almoço. Querem um tour pelo arsenal enquanto esperam?

— Você disse... Arsenal? — Eu sussurro assombrado, e ciente da ironia.


Então, virando a quina do corredor, entendi exatamente onde estávamos.

— Essa é a armadura do Monsenhor?!? — espantei-me.

Era uma vitrine de madeira escura e vidro, embutida contra a parede de pedra. Dentro dela, exposta sobre um suporte quase invisível, repousava uma armadura completa.

Extremamente pesada. As placas de aço eram prateadas, polidas pelo tempo e cobertas por ornamentos gravados nos ombros, peitoral e pernas. O desenho mais chamativo estampava o peito: uma cabeça de bode com grandes chifres curvados. O rosto metálico parecia quase vivo, com olhos estreitos e uma expressão severa. Por baixo, tecidos verdes e castanhos ricamente bordados sobressaíam-se; um manto escuro caía pelas costas, enquanto uma longa faixa branca trazia bordado o símbolo de Cartallas, grande o suficiente para ser visto a léguas.

— É a cerimonial e de tempos de guerra total, mas não viu tanta ação assim — comentou o firbolg. — Mas se quer ver o que derrubou Caruthers e o Titã que aprisionou Phyrros, o Deus do Fogo... está ali atrás.


Espadas largas eram a minha especialidade. E aquela coisa enorme... era quase um escudo com pomo e cruzeta. Um ricasso protuberante, uma gema redonda azulada e três tipos de metal diferente ao longo da lâmina. Mesmo assim, exibia trincas que indicavam ter sido testada até o limite. Aquela lâmina viu ação...

Diferente da armadura, não havia proteção para ela. A lâmina estava apenas recostada sobre a parede de pedra. Na base, uma placa de latão trazia a inscrição:

— "Avalanche!" — suspirei. — Parece bem pesada...

— Mais ainda — Rúnvald riu, cruzando os braços. — Quer tentar levantar?

— Você não vai se encrencar? — insisti.

— Preocupado se alguém invadiria esta fortaleza, pegaria a espada pessoal do Monsenhor e fugiria? — Ele deu de ombros. — Se alguém conseguisse tal feito, seria um homem que não conseguiria dormir em paz sabendo quem o caçaria. Já eu... Só acho que você não a tira do chão.

Bem, eu não a levantaria aquela lâmina... se fosse uma questão puramente muscular.

Mas eu sou um Hexblade. É a força da minha personalidade e da minha determinação que guia e empunha a minha lâmina.

Para o absoluto choque do Cavaleiro Rúnvald, segurei o cabo de Avalanche com uma única mão e, num arranco limpo, a ergui bem acima da minha cabeça!

— [Não fique convencido...] — Gladys resmungou dentro do meu crânio, ciumenta como sempre. — [É só uma tábua de ferro velhaca!]

— Não... não é uma tábua... — murmurei, sentindo o ar rarefazer.

Imediatamente, o meu corpo... o chão... o corredor inteiro começaram a vibrar.

— Isso é impossível! — Rúnvald exclamou, descruzando os braços num salto. — Você sintonizou com a Avalanche?!?

— [Uma barra de ferro convencida e sem personalidade! Não é um verdadeiro artefato como eu!] — Gladys insistia em minha cabeça, mesmo eu estando maravilhado. — [Só deixa essa tranqueira aí!]

— Bentho... — Xitarro chamou baixinho, as orelhas dobradas para trás. — Abaixe isso aí!

— Isso é vento?!? — perguntei, sentindo os cabelos levantarem. — Não... é Gravidade! Ela... Ela gera a sua própria gravidade?!? É como ter uma montanha nas minhas mãos e...

Tentei baixá-la... Mas o peso gravitacional me puxou rápido demais.

BOOM!

A ponta da lâmina atingiu o piso de pedra. Uma onda de choque invisível e devastadora estendeu-se em pulso pelo corredor.

Quadros nas paredes despencaram.

A vitrine de madeira e vidro da armadura do Monsenhor estilhaçou-se em mil pedaços.

O balde de vômito do mendigo voou e rolou por cima de Xitarro — que só não foi banhado pela gororoba porque usou seus reflexos felinos para dar um salto mortal para o lado. Apenas a cama de madeira maciça onde o bêbado ressonava era pesada demais para ser lançada ao ar.

Um silêncio constrangedor e denso tomou conta do corredor coberto de poeira e cacos de vidro.

Rúnvald caminhou devagar, tomou a espada da minha mão sem dizer uma palavra e encarou o estrago. Por fim, suspirou:

— Eu vou pegar algumas vassouras.

— Nós vamos ajudar na limpeza... — comentei, engolindo em seco.

Obviamente — ele corrigiu, apontando o dedo na minha cara. — As vassouras são para vocês!

Eu e Xitarro fomos deixados lá, a sós com o mendigo e a bagunça.

— Bentho... — Xitarro censurou, limpando a poeira dos ombros. — Parece o navio dos Piratas Solares de novo... Vão precisar amarrar você?

Agora também são piratas... — o bêbado resmungou virando de lado e puxando o balde de volta. — Que turminha, menina!

— Bem, a culpa foi deles por nos dar santuário sem perguntar primeiro... — brinquei, tentando aliviar o peso da culpa. — Mas depois de tantas confusões, entre o Castelo Negro, Huo-Fen, Hálcora, o pântano, a Montanha Morta e a Mansão de Cyrak, eu acho que peguei o padrão.

— E qual seria?

— Um: Eu faço algo, dois: Dá confusão... — fui enumerando nos dedos. — Três: Tento fazer algo para dirimir, a confusão aumenta... E repete. Mas se a gente só aceitar a confusão que já fizemos, a coisa não piora. Concorda?

Xitarro coçou o queixo, avaliando a lógica duvidosa.

— Você consegue ficar parado?

— Vou considerar o desafio — puxei dois bancos de madeira do canto do corredor. Sentei-me em um e ofereci o outro ao monge.

Nos sentamos em silêncio, esperando Rúnvald voltar com as vassouras. Ou que Amellie aparecesse com a etiqueta e o bom senso que nos faltavam...

... Até que fomos sobressaltados por um urro monstruoso vindo do pátio externo:

— SARGENTOOO!!!

— SAIA AQUI FORA, SEU MERDA!

Eu... estava horrorizado. Sentira o chão da igreja tremer sob a vibração daquela voz.

— Eu... conheço essa voz — murmurei, com o sangue congelando nas veias.

Xitarro levantou-se num salto, escalou a parede de pedra com a agilidade de um felino e espiou por uma janela longa e estreita, três metros acima de nós. Quando desceu, caiu de pé, mas com o rosto completamente pálido.

— É... — disse ele, a voz falhando ligeiramente. — Ficar parado não ajudou. O Capitão Khao nos achou.

11 de setembro de 2026

EDGELORD - Cap. IV - Arco da Perseverança

 [Entre quatro e cinco anos atrás...]

O Monsenhor Capri Mordman, um dos homens mais poderosos daquelas terras, abriu os portões duplos de carvalho com um baque furioso.

— Eu nunca quis tanto SOCAR uma MULHER antes! — ele urrou, a voz ressoando pelas vigas do teto. O seu poderoso punho cerrado como se pudesse comprimir um carvão em diamante.

Eu corri atrás dele, tentando fechar as portas atrás de nós o mais rápido possível para que ninguém nos corredores ouvisse o surto de cólera do meu amigo.

— Fale baixo! — pedi, num sussurro desesperado. — E não, você não vai socar a Lady Ydal Bearlord!

— Tem razão... Seria rápido demais! — Ele se largou numa poltrona de couro na antecâmera cedida a nossa igreja em Bearlord, bufando e gesticulando. — Vou esganar... Apertar aquele pescocinho de franga. Não com toda a minha força, só o suficiente para ela definhar enquanto eu assisto!

— Capri, ela só tem essas provocações soltas agora! — Eu suava frio, tentando impedir que aqueles ataques de fúria ficassem à vista da nobreza local. — Você viu a carta que o capitão Jackie mandou de Portos Dourados. O Triunvirato está com você. A Ydal não tem como deter a expansão da Igreja agora!

— Olhe só... — Ele começou a rir, uma risada amarga que misturava fúria, ironia e consternação. Ele apontou para uma jarra de cristal transparente sobre a mesa, contendo um líquido vermelho-vivo. — Ela mandou uma JARRA de VINHO para nós! Isso é provocação direta!

— É mera cortesia diplomática! — tentei defender.

— Você tem quatorze anos, e eu sou amaldiçoado por Ênya! — ele observou, encarando o recipiente com desprezo. — É para provocar!

— E... E se for só um suco de fruta? Um ponche?

Eu mesma não acreditava no que estava dizendo, mas Capri parecia insultado pela simples insinuação.

Ele estendeu o dedo indicador e tocou na superfície do líquido. Nem precisou olhar para saber o resultado. Quase instantaneamente, a cor avermelhada desvaneceu, e o conteúdo se converteu em água cristalina.

— Obrigado, Ênya! Sua vaca! — ele resmungou para o teto. — Estou dizendo... Nós temos mais homens que a Marquesa. E os nossos homens são melhores que os dela! Os poucos que restam a ela são, em boa parte, devotos de Cartallas. Eu deveria simplesmente terraplanar aquele castelo com aquela franga dentro!

— Ótimo! — resmunguei, cruzando os braços e elevando a voz para iguala-lo. — E depois, tome Portos Dourados também! E por que parar lá? Shén-Li está além das montanhas! Crie você mesmo um império ao seu redor!

Eu me esgueirei por trás da poltrona dele e sussurrei, na altura de seu ouvido:

— Você me aleijaria e me colocaria numa cadeira de rodas também?

Capri se levantou num pulo, atordoado, como se tivesse levado um tapa.

— Não foi legal, Amellie! — protestou ele, ajustando a túnica.

— Eu sei... Pesado demais — me desculpei na hora. — Sinto muito. Mas quando você fica furioso, só o absurdo consegue entrar nessa sua cachola!

Ele respirou fundo, soltando o ar devagar até os ombros relaxarem.

— Certo. Vou me comportar — aceitou, por fim. — Obrigado... Agora... tem certeza que não quer vir comigo?

Eu hesitei.

— É meio mórbido demais... — usei como desculpa.

— É o cadáver do Menestrel Yawe Cyrak! — ele insistiu. — O meu batalhão morreu para colocá-lo naquele esquife!

Precisei de um esforço colossal de concentração para não reagir como a minha memória antiga exigia àquela observação.

— Você... Pode me dizer como era... o verdadeiro Marquês de Bearlord? — perguntei, mudando de assunto. — Você sempre dizia que odiava o homem... e tudo o que ele fez com você, com seus companheiros e com o seu povo...

Capri não pareceu abalado apesar da sensibilidade que aquele assunto deveria ter.

— Não leve a sério o meu discurso de "cutucar a carrapeta do demônio" — ele falou com certa leveza. — Sim, todo soldado tem suas rusgas com o superior. Mas isso não significa que não o respeitávamos. Ao menos em um exército saudável, isso é o normal.

— Mas ele ordenou que a sua companhia atacasse o exército bárbaro do Cyrak — observei. — Só você sobreviveu, e por pura sorte!

— O homem tinha uma visão, um ângulo estratégico — Capri comentou, olhando para a janela. — Não podemos julgar o passado apenas pelo que sabemos hoje. Ele ganhou a guerra a um preço alto, e isso lhe pesou pelo resto de seus anos. A cura vem com o presente e o futuro, não com o que não pode mudar. Eu sou a prova disso. Fui curado por Cardullion e hoje posso ajudar outros a se curarem.

Ele caminhou até o batente da porta dupla e se deteve por um segundo. Então, trancou a porta ficando dentro do cômodo.

— Então, talvez você esteja certa... — concluiu por fim. — Cutucar uma ferida antiga indo prestigiar o corpo exposto de um inimigo morto não seria saudável. E não vamos desperdiçar essa caríssima jarra de água pura que a Marquesa nos mandou, não é?

— Podemos beber em taças — comentei, rindo fraco.


[O PRESENTE]


A Igreja da Perseverança já era uma das três maiores religiões do continente. E olha que sua consolidação tinha pouco menos de cinco anos.

Quando penso nisso, lembro o quanto Amellie é foda.

E ela está na minha "companhia maligna". Fingindo que eu sou o chefe...

Xitarro, por sua vez, tinha sido previsto para se tornar o Exemplar dos Monges. Pau-a-pau com Lord Blunt, Menestrel Cyrak, Arquimago Myrlen, Fausto Katzophlis de Meliny...

Eu achei que tinha recebido um power boost desde os Piratas Solares. ~Ainda~ sou o menos impressionante da Ledgyão.

— Cara... a gente passou pela Igreja quando chegou e nem viu! — comento percebendo após a indicação que era um prédio grande de alvenaria bem na entrada da cidade, mas parecia tudo, menos um templo.

Estou arrastando, junto com Xitarro, um mendigo malcheiroso que pesa algo próximo de meia tonelada.

— Eu achei que era uma fortaleza quando passamos, ou um estábulo. — Xitarro responde. — Talvez até fosse o castelo que a senhorita Amellie ia visitar a viúva ber-sei-la-o-quê.

Você disse... — O bêbado começa a falar. — Amellie foi ver Bearlord?

— Sim, a gente fala um nome, você diz "você disse" e repete a última coisa que a gente falou! — dou um esporro. — É feio escutar a conversa dos outros, sabia?

— B-Bentho? — Xitarro me cutuca.

— Tá... tá... desculpa, tiozinho. — Respiro fundo, dando um tapa amigável no mendigo. — As últimas horas foram meio estressantes para mim. Não deveria descontar em você. Entre a armadura de Lord Blunt que eu destruí e...

— [Corvos de Morval.] — Gladys interrompe meus pensamentos. Eu paro.

— Como é?

— [Corvos de Morval.]

— A gente está do outro lado do continente em relação a Huo-fen! Se sobrou alguém sequer em em Hálcora, não é...

— Só... olha para a frente, Bentho — Xitarro insiste.

Olho.

Ah.

Déjà vu.



___

Eu lembro que tinha todo um plano na cabeça na primeira vez que vim a Bearlord ao lado de Capri. Iria desgarrar da comitiva da Igreja. Esgueirar-me até o mausoléu, roubar de volta os melhores itens e levar um cacho de cabelos. Aquilo poderia ser a solução para o meu corpo original...

... Mas tive medo.

Eu podia dar a justificativa que quisesse — que precisaria abandonar a Igreja, que seria perseguida — mas a verdade era mais simples: foi um medo primitivo de encarar meu antigo corpo morto. Algo que teria de fazer agora, se quizesse ter uma audiência com Ydal.

Glen Bearlord queria o duelo. Acho que foi exatamente por isso que Cyrak o recusou, mesmo sabendo que venceria com pouca dificuldade. Quando o Marquês finalmente alcançou o acampamento principal dos bárbaros, Cyrak já estava morto... e eu "renascia" em um solar em Yalatanil.

Glen Bearlord se certificou de que o cadáver era genuíno; afinal, tinha todos os motivos do mundo para suspeitar de algum truque do Menestrel. Depois, restaurou o corpo a uma forma apresentável, o lacrou num esquife com seus itens pessoais e prestou os devidos ritos ao inimigo... Uma dignidade que, ironicamente, a própria esposa viria a lhe negar.

Mesmo com a Marca falida pela guerra e por suas consequências, Bearlord ergueu o mausoléu original para expor o corpo de Cyrak, além da estátua em homenagem à Infantaria da Montanha, sacrificada em nome da vitória. Ele investiu tudo para reanimar a moral de suas forças e, mais tarde, viu-se forçado a aceitar contratos mercenários em lugares como Portos Dourados para tentar se reerguer. Foi em uma dessas campanhas — na Guerra de Kazu Marzu contra os goblins — que Glen Bearlord encontrou seu fim.

Capri já não era mais um soldado de Bearlord na época, mas estava lá. Ainda não era o líder da Igreja, mas providenciou os primeiros arranjos para comunicar a Marquesa... E só agora eu descobria que aqueles tinham sido os únicos.

— Tamar, posso conversar um pouco com você?

— Claro, senhorita.

O chefe da guarda destoava completamente dos poucos guardas maltrapilhos que eu via enquanto era conduzida pelas áreas satélites do castelo. Não era apenas o equipamento bem-cuidado, mas a postura. Ele dissera que fora da Igreja; provavelmente tinha treinamento de cavaleiro e um senso de justiça que o lugar há muito esquecera.

— Como está o ânimo geral da fortaleza?

Tamar hesitou, ajustando a braçadeira de couro.

— Melhorou nos últimos anos — comentou, com a voz baixa. — Não há mais protestos populares nas portas por conta dos saques nas estradas, embora os habitantes mais tradicionalistas ainda reclamem do retorno dos bárbaros. Mas...

— ... Mas esses eventos são consequência da presença do Capítulo de Cardullion e seus cavaleiros andantes, não da administração da Marquesa — completei.

— Acredito que a Marquesa seja grata ao Monsenhor... — disse ele, medindo as palavras. — Graças a isso, podemos nos dedicar a outras atividades de que a região necessita.

— Conseguiu atrair companhias mineradoras? Exploradores? Geógrafos?

— Milady, eu... prefiro não...

— ... Não difamar a inaptitude de sua mestra? Como diria meu atual empregador: "Justo"... — interrompi com suavidade. — Eu entendo e não o culpo. E eu ficaria muito satisfeita em ter um defensor do seu calibre, e com a sua lealdade.

Eu olhei diretamente nos olhos dele.

... E senti que ele entendeu.

Entendeu que havia uma fagulha ali. Algo perigoso, silencioso e indispensável... algo que precisaria ser feito muito em breve.

___

Cinco homens estavam no caminho. Pareciam particularmente ameaçadores, talhados para a violência e prontos para ela. Não meros "posers"... 

— Okay... vocês são um pouco grandes para ladrões — observo. — E nem nos cercaram ainda. Temos corredor livre atrás de nós!

O homem que parecia ser o chefe sorri.

— Oh, vá em frente. Tentem correr. — Ele abre os braços. — Adoramos uma perseguição!

Okey, ele parecia falar sério...  e eu acho que vou roubar essa fala. Ficou muito maneira.

— Somos as Cinco Máscaras de Don-o-Ron! — Um ao lado dele comenta. 

— Você disse Don-o-Ron?! — Xitarro arregala os olhos. 

— Você também vai começar com isso de "você disse seilaoque"? — Resmungo com o monge.

— Bentho... Don-o-Ron é o "meu guaxinim" — Ele me lembra. — Aquele que você e Amellie acham que eu inventei! 

O líder se aproxima.

— Você deve ser Xitarro, o catfolk que concluiu a Era do Fogo Frio libertando nosso novo senhor.

Caramba.

A maluquice da história de Xitarro era real?

Ou pelo menos os ladrões cara-pintada acreditavam...

— Bem, senhores "Cinco Máscaras"... — largo o mendigo nas mãos de Xitarro. — Primeiro: excelente nome. dedicação ao tema...

Olho para as máscaras.

— E essas máscaras de guaxinim são tatuagens permanentes?

Um dos homens no fundo se arrepia.

— Você é louco?! É pintura lavável, claro! Temos vida fora da Guilda!

— Vocês ... Vocês são infinitamente melhores nisso do que meu último encontro com uma "guilda de ladrões", devo dizer. — Cruzo os braços, admirado. — Até usam espadas de verdade, e não tonfas!

— O que seria "tonfas"? — pergunta outro. Vou chamá-lo de *Máscara nº 3*.

— É uma arma idiota... — Esfrego as sobrancelhas. — Como eu descrevo para vocês... Bem pensem em...

— Bentho, eu tenho uma aqui. — Xitarro senta o cachaceiro atrás de um barril e abre a sacola.

— O... POR QUE você guardou uma dessas coisas?

— Lembrança de nossa primeira aventura junto em Hálcora! — O monge comenta. Ele saca a tonfa e joga para *Máscara nº 1*. O homem pega o objeto no ar com competência.

Olha para o cabo longo.

Olha para o cabo curto transversal.

Vira a arma de cabeça para baixo.

— Tipo... — ele começa. — É um martelinho de madeira? Precisa mirar a pecinha na testa de alguém?

— Não. — Respondo. — Eles seguram pelo cabo menor e giram o maior em grip invertido. Ou usam no antebraço como um escudo.

Os cinco se entreolham.

Silêncio.

— Mas... isso é imbecil.

Obrigado! — eu e Xitarro agradecemos em uníssono.

*Máscara nº 1* joga de volta a arma.

— Podem ficar com essas "fonfas". — Ele aponta para nossas mochilas. — Mas deixem todo o resto.

— Ah, cara... achei que a gente estava se dando bem.

— E estamos, vocês são divertidos! — diz a *Máscara nº 4*. — Mas negócios são negócios.

— Só me dá um segundinho para falar com meu associado? — Levanto um dedo. Não espero resposta.

___





Eu... estava... horrorizada.

Não cheguei a entrar no "meu" mausoléu à época em que vim com Capri, mas imaginava um prédio cerimonioso e respeitável. Grande, até. Mas o que encontrei agora... era a porcaria de um **SALÃO DE BAILE!**

Ouvia-se uma lira arranhada por uma senhora de talentos medianos bem na entrada. Os soldados dali usavam camisões em vez de uniformes e armaduras — pareciam garçons improvisados, não guardiões!

E o chão... assoalho de madeira nobre! Ela devia ter trazido do Distante Norte ou de Shén-Li. O fluxo de moedas de impostos claramente melhorara desde que a Cavalaria estabilizara a região, mas gastar aquilo num salão suntuoso e profano era simplesmente obsceno.

E lá estava a peça principal.

Não num altar reservado, mas no centro do salão como uma mesa de frios, imediatamente abaixo de um "trono" singular.

O cadáver do Menestrel Cyrak. Em um esquife de cristal.


— A escriba da Igreja... — disse Ydal, com um sorriso refinado que não chegava aos olhos para não provocar pés de galinha. — Como o tempo voa. A juventude tem esse hábito vulgar de parecer radiante sem precisar de esforço, não é? Aproveite cada segundo, Amellie... a decadência é uma cliente muito pontual para quem não tem onde investir.

— Minha senhora... — respondi, engolindo o empenho. — Acho que... evitei por tempo demais ver este esquife...

— Já ouviu falar das "viúvas de Cyrak"? — ela perguntou.

Após o encontro com Morgan, eu não me surpreenderia se Ydal já soubesse da verdade... mas não, era pura vaidade aristocrática.

— Elas são tão famosas quanto o próprio menestrel — pontuei.

— Todas falsas! — retrucou Ydal, abanando-se com o leque e expondo um decote desnecessariamente generoso em seu vestido azul. — Pois ele só morreu por uma! Não concorda? Só uma, sua última amante em vida, poderia clamar esse título.

— Minha senhora... — segurei o fôlego. — Devo dizer... vocês dois se mereciam.

— Pena que só o conheci quando já estava comprometida com meu pobre Glen... — ela começou, dedilhando o vidro com unhas pintadas.

— A senhora não me entendeu — eu a interrompi, sem sequer elevar a voz. — Poucos conhecem Cyrak como eu. Eu achava que ele era o ser vivo mais egoísta que os Deuses Antigos já haviam colocado nestas terras... Mas vejo que ele era apenas o segundo.

— Segundo? — Ela franziu o cenho.

Troquei um olhar rápido com Tamar.

— A injustiça é que, se a senhora não estivesse comprometida com Glen Bearlord, Cyrak jamais daria atenção a você... — complementei. — O que é uma pena. Eu imagino vocês dois como um glorioso e poderoso casal, fazendo a vida um do outro miserável *ad eternum*.

Ela começou a fechar a cara, dando os primeiros sinais de ofensa. Finalmente ela falava a mesma língua que eu! Eu estava a segundos de apenas dizer que ela era "feia e boba".

— A jovenzinha já foi mais educada no passado...

— A senhora quer ver um truque de mágica? - eu cortei com um ar inocente.

Ela arqueou as sobrancelhas, quase desprendendo um dos cílios postiços.

— Bem... poderia compensar essa sua língua ferina com algo assim.

— A senhora jamais abriu este esquife, nem o danificou, eu suponho? — perguntei.

— Ele é hermeticamente selado em cristal — a dama concordou. — Passei horas sobre ele no dia em que chegou. Conheço cada centímetro desta peça como conheço meu próprio corpo.

— Alguma vez tirou o anel da mão esquerda dele?

Ela se debruçou para olhar. Irônico para alguém que "conhecia cada centímetro" precisar conferir.

— É um anel mágico. Com uma carga da magia *Despedaçar* — expliquei. — Desde que o bruxo Morro, décimo Segundo portador da Gladius Aeternum, morreu por não conseguir atravessar uma claraboia no palácio da Rainha dos Malditos, Cyrak usava esse anel em vez de confiar no próprio corpo contra vidro temperado. Ele fugiu do seu marido usando esse truque, se não me engano, quando foram flagrados na primeira vez.

— Eu admito que não percebi... — ela se afastou, desconfiada. — Mas não calunie um evento sem saber ...

Ela achava que eu não tinha visto o sinal discreto que dera. Os "guardas-garçons" estavam se aproximando devagar... Mas o meu plano só funcionaria com eles a três metros de distância de mim, dou-lhe o tempo.

— Pois bem... — concluí. — Aprendi um truque na Montanha Morta...

Espalmei minhas mãos. Direita sobre a esquerda. Girei as palmas, invertendo a posição num movimento invisível aos olhos destreinados.

*Truque de Mãos*.

O anel de *Despedaçar* do Menestrel Cyrak já estava brilhando no meu próprio dedo. Ela constata um pouco atrasada, que não estava mais na mão do cadáver selado.

— GUARDAS! — ela urrou. — UMA LADRA!

Sempre havia ao menos uma carga guardada nesses anéis de loot.

Bati a mão com o anel contra o esquife de cristal e acionei o encanto.

Uma esfera trovejante explodiu ao meu redor. Ydal e seus guardinhas foram projetados para trás, com estilhaços de cristal cortando-lhes a pele e o ar. Sofri eu mesma um baque secundário pela onda de choque, mas permaneci de pé, firme no coração daquela explosão.

O esquife evaporara em mil pedaços.

Eu estava, finalmente, diante do meu antigo corpo.

— TAMAR! GUARDAS! — urrava a Marquesa no chão. — TODOS AQUI, AGORA!

Peguei o punhal na cintura do cadáver. A arma de apoio.

— Olá, *Dançarina*...

Sussurrei o comando. A adaga de prata saltou da bainha e voou em disparada até a entrada do salão, girando no ar contra qualquer um que se aproximasse. Os primeiros reforços que tentaram atender ao chamado foram pegos totalmente de surpresa. Não era um ataque mortal, mas, sem preparo, eles ficaram rendidos e acuados na alcova de acesso por preciosos segundos.

Passei a "saquear" a minha própria carcaça.

O chapéu emplumado — mestre em disfarces e ilusões.

Meu sabre... tantas lembranças, tantos duelos.

As botas de couro fino — precisaria vesti-las mais tarde...

O Anel de Estocagem. A pulseira com pó do sono.

E o principal prêmio... o Alaúde de Mogno atingido pelo trovão de Khyrator. Aquele cujas notas uma vez levaram a Velha Etiópia às lágrimas...

Um único acorde no instrumento original... e minha magia era maximizada.

Um grupo reservista vinha acelerando pela entrada dos fundos. Canalizei o *Padrão Hipnótico* através do alaúde. Uma luz espiralada tomou o corredor e todo aquele flanco paralisou em desespero, preso em ilusões escabrosas.

Os guardas-garçons originais recuperaram-se do ataque trovejante e avançaram sobre mim...

... Mas o Chefe Tamar interveio. Espada longa em punho, desarmando-os e brandindo a lâmina com a maestria de um veterano de guerra.

— O que você PENSA que está FAZENDO, TAMAR?!? — protestou a Marquesa, atônita.

Não sei, madame! — ele retrucou, chutando um dos seus ex-subordinados ao chão. — Pode ser loucura provisória, pode ser um encantamento contra meu melhor julgamento... — Um soldado tentou passar por ele para me alcançar, mas Tamar o deteve com um golpe de ombro violento que o fez capotar de costas. — ... Ou eu posso estar simplesmente retomando as rédeas das minhas convicções!

A Marquesa tentou correr em direção à saída... mas eu cortei sua rota.

Ou melhor, uma imagem ilusória minha cortou.

Ydal viu-se subitamente cercada. Quatro de mim, idênticas e sorridentes, bloqueavam cada saída.

Forcei-a a recuar passo a passo, até que ela tropeçou e caiu sentada em seu próprio "trono".



— V-você não pode ser a mesma Amellie com quem tratei por tantos anos! — gaguejou ela, encarando as ilusões. — V-você é uma impostora desbocada... uma ladra desprezível!

— Você está certa... — Aproximei-me, debruçando meu rosto a centímetros do dela. — Eu sou a Condessa do Crime, Janete Quá...

Ydal fechou os olhos e cobriu o rosto, encolhendo-se como se fosse receber um tapa.

Apenas me levantei, rindo fraco. Quem eu não havia derrubado, Tamar já tinha nocauteado no chão do salão. O capitão cobria meu recuo, e me acompanhava.

— E, segundo Cyrak... — pontuei, ajeitando o chapéu emplumado enquanto caminhava para fora do mausoléu. — Você *ronca*!

___

Recuo até Xitarro e o bêbado semiconsciente.

— Okey, estamos carregados de gemas para o Portal da Igreja... — Eu relembro. — Então, sermos assaltados não é uma opção para restaurar a Virgilia Sombria. 

Não vou nem falar nada... - "gorfa" o mendigo bêbado.

— Bentho... — Xitarro fala baixo. — É idêntico a Hálcora, quando fomos emboscados pelos Corvos.

— Bem... não tanto.

— Você estava sem poder usar a armadura. — Ele olha para os homens. — Estava tentando me proteger...

— Neste caso, eu quero poupar o mendigão ali. — Aponto para o bêbado. E ele parece estar tentando se levantar... melhor que os mascarados o ignorasse...

— Eu posso com eles. — Xitarro fecha os punhos. — Eu assumo a dianteira. Você me cobre com os raios da espada.

— Sei não. — Observo as Cinco Máscaras. — Eles obviamente são melhores que os Corvos tem até espadas de verdade!

— E eu fiquei mais forte desde Hálcora! — Ele dá um passo à frente. — Você disse que eu devia ser o rival do Capitão Khao, mas não me deixa pegar uns bandidos?

Você disse Khao? — resmunga o mendigo. 

Olho para ele censurando.

Desculpe. — ele acena, e volta a nos ignorar.

Volto meu olhar para as Cinco Máscaras. Realmente poderíamos correr, deixando o manguaçeiro para trás. Xitarro com certeza conseguiria despistá-los. Eu, talvez.

Mas carregando aquela massa de músculos e cerveja seria impossível. Seria falta de honra deixá-lo para trás. E também pegaria mal o futuro Senhor do Sombrio ser expulso de mais uma cidade.

— Vou tentar o que fiz com os lobos — digo enfim. — Intimidar eles.

— Melhor não... — Xitarro insiste.

Melhor não... — o bêbado concorda, acho.

— [Comigo, são três votos.] — Gladys sussurra na minha mente.

Olho para os três.

— Okay, Ledgyão... — Aponto para Xitarro. Depois para o bêbado. — ...e Agregado.

O cachaceiro ergue uma sobrancelha.

— Sugestão anotada. Mas vou tomar uma decisão executiva agora.

E começo a andar na direção das Cinco Máscaras.

— Eu sou Bentho, principal servo de Lord Edgy, o Herdeiro da Escuridão, e portador do arsenal de Lord Blunt. Portanto, pensem muito bem antes de decidir se realmente querem descobrir o que acontece quando alguém desafia o homem que carrega o poder de dois dos maiores nomes do Sombrio. Podemos fazer negócios no futuro, mas não com vocês faltando pedaços! Estamos entendidos?!

Devo ter falado muito maneiro... porque os cinco começaram a ficar brancos.

Xitarro colou nas minhas costas, gaguejando.

Será que eu intimidei ele também?

— EU PERGUNTEI!

Eu estava na crista da onda. Materializei Gladius Aeternum na minha mão e gritei:

— ESTAMOS ENTENDIDOS?!




— P-perdão, mo-mo-mo-senhor... — Máscara 1 respondeu. Acho que ele quis dizer “meu senhor”. — Não o reconhecemos.

Ele guardou as espadas. Os demais ou as atiraram fora ou simplesmente correram para longe.

Hmm... minha lenda já chegou até aqui?

— Como eu disse... — dou de ombros. — todos cometem erro e ...

— Vamos voltar para o Assentamento Ymosso. — ele fala, enfim, abaforado. — Não vamos voltar ao povoado. Prometemos!

— Ei! — resmungo. — Não é para tanto! Eu estava pensando em fazermos uma alian...

**BAQUE.**

Só ouvi um som pesado atrás de mim, comparável à avalanche da Montanha Morta.

Em algum momento, o velho bêbado tinha se levantado atrás de mim, enquanto eu intimidava as Máscaras. Ficou de pé por alguns segundos, cambaleando, até despencar pesadamente para trás.

E agora estava roncando.

— Pôrra, Xitarro! — resmungo. — Eu estava ocupado... por que não pegou ele?!

— B-Bentho... — o cara ainda estava abalado. Devo diminuir minha aura na próxima vez.

— Ele poderia ter se machucado... ou machucado algo menor, como... uma casa! — resmungo. — Bora indo. Estamos quase lá. E, dormindo, ele enche o saco menos.

— [Ah, isso vai ser divertido...]

— O quê, Gladys?

— [Te conto depois.]

3 de setembro de 2026

O EPISÓDIO PERDIDO e o fim secreto de Cavaleiros '80

 O Episódio Perdido de Cavaleiros ’80 — e os Planos Secretos para a Terceira Temporada



Existem campanhas que terminam com um grande final.


E existem aquelas que simplesmente... param.


A Saga Cavaleiros ’80 pertence à segunda categoria.

Durante anos, alguns dos maiores mistérios da campanha ficaram enterrados nos arquivos conceituais do Mestre: anotações, ideias de episódios, batalhas que nunca aconteceram e, principalmente, uma terceira temporada que chegou a ser planejada — mas jamais chegou às mesas.

Hoje, graças aos fragmentos preservados nos arquivos, podemos finalmente reconstruir aquilo que poderia ter sido.

E tudo começa com ALF.

EDGELORD - Cap. III - Arco da Perseverança


Bem-vindos ao Povoado de Bearlord.

A minha raiva só aumenta.

Passamos pelo trecho em que minha corda se partiu e, coisa de três horas depois, a escalada se torna absurdamente fácil. Depois encontramos uma trilha que levava diretamente ao castelo de Bearlord.

Foi quando Amellie se separou da gente.

Eu sou uma toupeira.

Nada disso precisaria ter acontecido.

— Eu estou vendo umas casas... — Xitarro fala enfim.

Eu meio que "acordo".

Estava acostumado às cidades muradas de Shén-li. Muralhas sobre muralhas, torres, portões, bairros inteiros protegidos como se alguém pudesse simplesmente aparecer do horizonte e decidir invadir.
Mas aquele povoado jogado ao sopé de um platô maior — que devia abrigar o palácio do marquês — era tudo o que compunha Bearlord. O "CEP" da região, por assim dizer.

— Bem... "caótico" — observo, olhando as ruas tortas e sem estrutura planejada, calçamento irregular de pedras redondas. Haviam um "centro" com prédios mais altos e alguns becos, como se aquela "cidade" tivesse história: Um tempo em que era próspero, e um tempo que largou a mão do controle e seu crescimento se tornou irregular, ainda assim um ar de vazio.

— Sei não... Na Ilha dos Gatos é assim também. — Xitarro informa, pisando no calçamento pela primeira vez desde a escarpa.

— "Ilha dos Gatos" é de onde você vem?

— Sim.

— Não tem outro nome? — Eu coço a cabeça confuso.

— Não.

— E quem vocês cultuam lá?

— O Deus Gato.

— E qual o nome dele?

— Não entendi... — O catfolk me olha surpreso.

— Tipo, o Deus Águia é Aetíades, o Deus Carneiro é Pallas, o seu guaxinim é Don-o-Ron...

— Ah... — Xitarro pisca. — Só chamamos ele de "Deus Gato" mesmo.

Curioso... "Ilha dos Gatos que cultuam o Deus Gato".

— E ele é deus do quê?

— Da gente.

— Tipo... de "ser gato"? Não sei... Ter nove vidas, caçar ratos... Novelos de lã?

— Sabe, nunca pensamos muito nisso... — Xitarro coça o queixo, contemplativo. — Já tem deuses para cada coisa da vida. Acho que ele só fica deitado, preguiçoso, no alto de sua árvore-templo.

— Hmm... Justo — falo enfim, dando de ombros. — Acho que vi uma taverna ou algo que o valha ali na frente. Não vai ser nenhum "Olho da Maré", mas quem sabe o que vamos encontrar aqui, não é?

Pois é. A gente não tinha a menor ideia.






Amellie sempre tem um vestido extra. Este era curto. Pouco prático para escaladas... mas, em muitos aspectos, civilizado.

Os povos das montanhas são acolhedores à sua própria maneira. Uma casinha simples na subida do platô permitiu que ela entrasse para um "banho" rápido após a jornada. Ela se empolgou e decidiu tingir o cabelo em uma cor mais escura. Lembrava que fez exatamente o mesmo da última vez em que esteve em Bearlord...

... Mas, daquela vez, ela tinha vindo apenas como a "negociadora" do Monsenhor, tentando fazer com que a nobreza local tolerasse a presença da Igreja. Capri esteve ao seu lado o tempo inteiro, e a Marquesa Ydal estava de péssimo humor.

Amellie teve receio naquela época. Acabou jamais tocando no assunto principal. Nunca houve oportunidade.

Madame Morgan, no entanto, havia mostrado recentemente que pessoas como elas deveriam criar a oportunidade. Bem, Ydal não era nada como Morgan, mas o quanto dessa hesitação era apenas o preconceito herdado da memória antiga de Cyrak? Talvez houvesse um ser humano por baixo da fachada superficial e egoísta da atual marquesa de Bearlord.

— Essa é a Senhorita Amellie?! — exclama um homem assim que ela se aproxima do portão de ferro do castelo. Ele era... familiar. — A senhorita virou uma bela mulher!

— Obrigada... Senhor...?

— Chefe Tamar! — ele se apresenta, prestativo. Foi gentil ao perceber que a barda não o reconhecia de imediato. — Fui frequentador da Igreja e hoje sou o chefe da guarda de Bearlord! Seu criado!

— Bela carreira, Chefe Tamar! — Amellie cumprimenta, oferecendo seu melhor sorriso diplomático. — Estive fora por tempo demais. Vim prestar meus respeitos à marquesa. A estrada estava terrível, então preferi começar por aqui.

— Ah, claro — Tamar ri, ajeitando o peitoral de couro. — Deve se lembrar que dia é hoje, não é?

Amellie estranha a pergunta, arqueando uma sobrancelha.

— Eh... Domingo? — ela arrisca, tentando puxar pela memória. — Três dias desde o aniversário de Lizzo e... Oh, não.

— Pois é! — Tamar dá uma gargalhada alta. — É hoje que a maldição do Monsenhor é suspensa! A cidade inteira se tranca! A senhorita fez muito bem em evitar o povoado!

Amellie sentiu o sangue congelar por um segundo. Ela tinha esquecido completamente do "feriado" do Capri.

Se Bentho e Xitarro fizerem besteira... aquilo seria um erro fatal.




— Eles estão fechando?!? — Xitarro observa.

As janelas da taverna já estavam lacradas. Do lado de dentro do estabelecimento, dava para ouvir o barulho frenético de vassouras e rodos raspando o assoalho.

A taverna em si não mostrava nenhum nome na fachada, apenas a placa de madeira com a gravura de uma caneca balançava em silêncio sob a fraca iluminação de uma lanterna. Mas, antes mesmo de chegarmos à entrada, um vulto enorme veio rolando porta afora, aterrissando com um baque pesado sobre alguns barris de lixo encostados na parede. Um homem que julgamos ser o taverneiro ou um senescal tentava conduzi-lo, mas perdeu o equilíbrio — ou a força — no final.

Ele estava nu. Logo atrás, um segundo homem de avental vinha correndo com o que parecia ser um poncho improvisado, feito da costura tosca de várias toalhas de mesa. O primeiro cobriu a modéstia do pobre diabo com o poncho.

— Não encontrei suas roupas, meu senhor... — o sujeito do avental justificou para o pelado descabelado, enquanto tentava ajeitá-lo sentado contra a madeira. — Não faço ideia de como o senhor conseguiu perdê-las... mas veste isso aqui por enquanto...

— Com licença... — Xitarro adiantou-se, pisando com cuidado. — Vocês estão fechando?

O homem abandonou momentaneamente o enorme maltrapilho confuso e se voltou para mim e para o Xitarro.

— Oh, forasteiros! Tinha de ser! — ele resmungou, enxugando o suor da testa com o braço. — Sinto muito, mas só vamos poder abrir à noite.

— Mas... estamos famintos! — Xitarro comentou, desanimado. — Tem outra taverna por aqui?

— Bem, tem três ao todo... fora a minha. Podem até arriscar, mas, pelo horário, nosso amigo aqui já deve ter passado por todas elas. — Ele deu um tapa leve no ombro do homem ébrio, que mal parecia registrar o toque.

— Ele é só um homem — eu comentei, cruzando os braços. — Não tem como ter comido o estoque de comida da cidade inteira!

— Não, não a comida — o taverneiro corrigiu. — Mas o álcool sim, pela semana... e a consequência disso é... Bem...

Ele puxou a porta da taverna para nos mostrar.

O cheiro pujante, ácido e azedo nos atingiu de frente como um soco no estômago. Lá dentro, um pequeno esquadrão de limpeza usando máscaras de praga esfregava com fúria manchas terrosas espalhadas pelo chão, pelas mesas e... pelo teto?! COMO?!

— O que aconteceu aqui?! — me assombrei, sentindo um alívio imenso no segundo em que ele bateu a porta de novo, reduzindo o fedor a sobrevivíeis 8%.

— Faz parte... — o taverneiro deu de ombros, acostumado. — Uma vez por ano. É um pequeno preço a pagar: por trezentos e sessenta e quatro dias de ordem, a gente aguenta um dia de putelância.

Só uma vez por ano... — o calibrado repetiu num balbucio, oscilando a consciência e pendurando a cabeça para o lado. Eu não entendia nada...

Eu... Imagino que aquilo que eles falavam eram palavras. Mas a ordem delas não comunicou-nos nada.

— Bem... — Xitarro falou tristonho, levando a mão ao estômago. — Meu apetite acabou, de qualquer forma. Quer ir direto para a igreja agora, Bentho?

— Vocês vão à Igreja da Perseverança?! — O taverneiro se animou na hora, os olhos brilhando. — Poderiam fazer a gentileza de levá-lo com vocês? Cartallas vai abençoá-los regiamente por isso!

— Bem... acho que ele precisa de roupas, um banho, um exorcismo... — eu comentei, olhando para aquela montanha de carne caída pelas tabelas. — Ajuda aqui, Xitarro.

— Bentho, pensei que a gente não ia mais fazer "caridades"... — o monge murmurou no meu ouvido.

Eu esperei o taverneiro dar dois passos de volta para dentro para responder baixo:




— Pois é... — resmunguei. — Mas, sem a Amellie aqui para abrir as portas, a gente precisa de uma boa desculpa para pedir santuário na Igreja da Perseverança! Esse panguando deve servir.

Você disse... Amellie?! — resmungou o bêbado, mexendo uma das orelhas.

— Esquece que ouviu esse nome, moço... — reclamei, já me aproximando dele. — Vai ter algum noviço lá que vai jogar você na água benta e...

— Ele é maior que o Khao? — Xitarro interrompeu, avaliando a largura das costas do sujeito.

— O quê?!

— Eu achei que o seu Capitão Khao era o maior humano que eu já tinha visto... — ele insistiu, sério. — Mas este cara é maior!

— Não — eu neguei de imediato. — Ele está só... mais largado, esticado no chão. Todo mundo fica mais comprido quando está sendo carregado.

Passei um dos braços pesados dele sobre os meus ombros, quase dobrando os joelhos com o peso. Xitarro fez o mesmo pelo outro lado, soltando um ganido curto pelo esforço. E assim, aos trancos e barrancos, fomos arrastando o gigante bêbado rua afora.






Era a primeira vez que Amellie visitava o mausoléu de Glen Bearlord. Ele não existia durante os primeiros tratados da Igreja com Bearlord, quando veio ao castelo.

O Senhor Urso.

Seu último inimigo.

Uma alcova na ala norte dos portões de pedra, logo depois da guarita onde encontrara Tamar. Uma reentrância que poderia ser usada, em tempos de grande atividade, como barricada, oficina ou enfermaria. Por isso, era estranho haver ali uma estrutura destinada a permanecer. Mais estranho ainda que aquele fosse o destino final do maior nobre da região.

Amellie já havia visto o quadro desgastado pelos elementos que adornava a parede: Glen montado em Avelã, a ursa atroz, coberta de armadura. Mas aquela pintura deveria estar no alto da lareira do salão de banquetes. Não naquela alcova escondida.

— Chefe Tamar... — ela pergunta. — Não tem uma pedra, ou alguma coisa, indicando onde enterraram o corpo?

— O corpo do Marquês ficou em Portos Dourados — ele informa.

— Vocês não o trouxeram de volta? — Amellie se surpreende. — Eu sei que o Monsenhor tinha providenciado o envio de um mensageiro com a ursa e os pertences dele. E a Guerra de Kazu Marzu terminou há anos...

Tamar hesita.

— A Marquesa não... teve a oportunidade de prestar as devidas homenagens ao fundador.

Amellie sente o peso das palavras. Era uma mentira, tecnicamente. Não uma mentira para enganá-la, mas para proteger sua senhora de algo que o próprio Tamar parecia condenar.

Ela olha novamente para a alcova.

— Esta alcova escura, mal arrumada... — observa. — É tudo o que sobrou da lembrança dele?

— Sim — Tamar suspira. — Até a ursa foi largada na ravina. Tivemos problemas com ela atacando caravanas por um tempo, mas passou. Não sei se morreu ou se aprendeu a conviver conosco.

Ele dá de ombros.

— Faz tantos anos que, a esta altura, provavelmente morreu de velhice, a pobrezinha. Mas seria pior com os cortes de custos que a mestra... Melhor não comentar.

Amellie permanece em silêncio. Estava assombrada.

Glen Bearlord fora uma figura malquista nas altas cortes do Império. O que, considerando o revisionismo histórico da revelação de Caruthers, era um elogio. Acabou relegado àquelas terras duras e difíceis, levando consigo a esposa, Ydal, e a ursa. Tentou impor suas graças colonialistas, e equilibrar o estilo de vida metropolitano de Ydal com saraus e festas.

Foi assim que Cyrak se envolveu com aquela família. Com Ydal. E provocou a fúria do nobre.

Eles poderiam ter duelado. Por mais que Glen fosse um militar competente, Cyrak era o Exemplar dos Bardos. Mas aquilo seria simples demais para Cyrak. Egomaníaco como era, ele transformou tudo em espetáculo: "A Guerra de Bearlord" e todas as suas repercussões.

Roubou o animal sagrado dos bárbaros. Despertou sua consciência para manipulá-los. E então perdeu o controle da criatura.

Bearlord e sua infantaria fizeram um ataque preventivo. O animal escapou. E se tornou Cardullion. Bárbaro. Deus da teimosia. Um terço do atual Cartallas.

Os bárbaros supersticiosos viram naquela fuga um mau presságio. Cyrak estava cercado: de um lado, o exército dos bárbaros; do outro, os homens de Bearlord.

A fuga era impossível. Em vida.

Se ele soubesse que Myrlen havia danificado o homúnculo... Seu clone... Aquele que retornaria à vida quando o original perecesse... Talvez tudo tivesse sido diferente. 

Talvez não houvesse... Amellie.

Bearlord foi um líder melhor que Cyrak a despeito de suas limitações, e triunfou. De uma forma absurda, Cyrak com outros olhos e outra vida agora olha seu velho inimigo sendo desrespeitado em sua própria casa e sente por ele.

— A Marquesa vai recebê-la agora, senhorita — Tamar estende a mão para indicar o caminho, liberando um mensageiro que lhe trouxe o aviso enquanto a barda estava perdida em pensamentos sobre as circunstâncias. Ela ergue os olhos.

— Serei recebida ... No castelo?

— Melhor — ele aponta para uma passagem de pedra para o pátio interno. — No mausoléu do Menestrel Cyrak.

31 de agosto de 2026

A evolução de Hon-sa

 

EDGELORD - O PIRATA SOLAR


CAVALEIROS '80


30 de agosto de 2026

Kentaro-no-oni para Shadowdark

KENTARO-NO-ONI

O Terceirizado do Terror • O Caçador da Névoa

###
Para saber o lore e como usar:
Vera o ARTIGO KENTARO PARA D&D
A galera do Valhalla anda achando D&D "baunilha" demais...
LV: 10 AL: Caótico/Leal (L) AC: 15 (Armadura Natural) HP: 60
ATK: 2x Kanabô +7 (2d8+4) ou 1x Cone de Gelo
MV: P (Voo / Forma Gasosa)
ATRIBUTOS: S +4, D +2, C +3, I +2, W +1, Ch +3

Habilidades Passivas & Especiais

• Regeneração: Kentaro recupera 5 HP no início do seu turno, a menos que tenha sofrido dano por Ácido na rodada anterior.

• Forma Gasosa: Ação Bônus. Transforma-se em névoa supernatural (ou retorna à forma física). Pode passar por frestas e buracos mínimos. Não pode atacar enquanto estiver em forma gasosa. Transformação e movimento na forma gasosa não causa ataques de oportunidade.

• Muda-Forma: Pode assumir a aparência de um humanoide genérico pequeno ou médio (ex.: halfling cansado, anão viajante). Nunca personifica indivíduos específicos. Mantém a própria voz e personalidade.

• Cone de Gelo (Reabastece 5-6): Cone Próximo (Near). DC 15 DEX ou 6d6 de dano de Frio (metade se passar).

• Código do Caçador: Nunca mata alvos inconscientes e cumpre acordos feitos em boa-fé. Testes sociais baseados em sagacidade, barganha ou honra ganham Vantagem.

Módulos Opcionais de Condução (DM)

1. O Caçador na Penumbra (Uso Móvel / Tensão)

Surge em forma gasosa por frestas durante ou após um combate/descanso. Ataca por 1 ou 2 rodadas (focando em alvos isolados), causa dano com o Kanabô ou Cone de Gelo e recua em névoa. Não luta até a morte.

2. O Gongo de Sangue (Covil / Câmara Preparada)

No início de cada rodada na câmara do gongo, o som ecoa. Todos os aventureiros devem fazer um teste de DC 13 WIS ou ficam Aterrorizados até o fim do próximo turno. Furtividade torna-se impossível no local.

3. Encontro de Chefe (Batalha Final)

Se ativado para o confronto definitivo, Kentaro ganha 1 Ação Lendária/Reação extra por rodada: Golpe de Oportunidade (ataque de Kanabô fora do turno) ou Sopro Congelante Instantâneo (recarrega imediatamente o Cone de Gelo).

29 de agosto de 2026

[MONSTRO DA SEMANA] "Lord Blunt" por Omar Yarol

Fato: OMAR YAROL, no Interludio de ontem criou um LORD BLUNT muito mais intimidante que meu Estebán. Então decidi imaginar como um bardo charlatão imaginaria "O Maior Vilão do mundo" (que para ele deve ser um CR4). E Eis o "Falso Lord Blunt", um oponente ocasional para colocar na sua campanha, excelente em duelos (exceto contra O Maioral) mas limitado se enfrentar um grupo. 

Falso Lord Blunt

Humanoide Médio (draconato), caótico e maligno


Classe de Armadura: 16 (armadura natural, manto de placas)

Pontos de Vida: 95 (10d8 + 50)

Deslocamento: 9 m


FOR DES CON INT SAB CAR
16 (+3) 12 (+1) 20 (+5) 10 (+0) 12 (+1) 16 (+3)

Testes de Resistência: Con +7, Car +5

Perícias: Intimidação +5, Arcana +2, Percepção +3

Resistência a Dano: Necrótico

Sentidos: Visão no Escuro 18 m, Percepção Passiva 13

Idiomas: Comum, Dracônico, Infernal

Nível de Desafio (ND): 4 (1.100 XP)  |  Bônus de Proficiência: +2


Ancestral Dracônico. O Falso Lord Blunt tem vantagem em testes de resistência contra ser Amedrontado. Além disso, sua aparência dracônica e presença sobrenatural concedem vantagem em testes de Carisma (Intimidação) feitos para ameaçar criaturas que possam vê-lo.

Maldição da Lâmina Sombria (1/Combate). Como ação bônus, o Falso Lord Blunt amaldiçoa uma criatura que possa ver a até 9 m por 1 minuto. Enquanto a maldição durar, ele recebe os seguintes benefícios contra o alvo:

  • Recebe +2 de bônus ao dano contra o alvo;
  • Obtém um acerto crítico com 19 ou 20 no dado;
  • Recupera 7 PV quando o alvo chega a 0 PV.
A maldição termina antecipadamente se o Falso Lord Blunt morrer.

Guerreiro da Lâmina Maldita. O Falso Lord Blunt usa Carisma para suas jogadas de ataque e dano com sua espada amaldiçoada. Sua espada conta como mágica.

Ações

Ataques Múltiplos. O Falso Lord Blunt realiza dois ataques de Espada do Falso Lord.

Espada do Falso Lord. Ataque Corpo a Corpo com Arma: +7 para atingir, alcance 1,5 m, um alvo. Acerto: 10 (1d10 + 5) de dano cortante, mais 3 (1d6) de dano necrótico.

Explosão da Lâmina Negra (Recarga 5–6). O Falso Lord Blunt canaliza energia sombria através de sua espada. Cada criatura à escolha dele em um raio de 3 m deve realizar um teste de resistência de Destreza CD 14. Em caso de falha, sofre 13 (3d8) de dano necrótico. Em caso de sucesso, sofre metade do dano. Nota: esta habilidade substitui o Multiataque na rodada.

Conjuração

O Falso Lord Blunt é um conjurador de 5º nível. Sua habilidade de conjuração é Carisma (CD 14 para resistir às magias; +6 para atingir com ataques mágicos).

  • À vontade: Eldritch Blast, Mage Hand, Minor Illusion
  • 2/dia cada: Armor of Agathys (2º círculo), Hex, Misty Step
  • 1/dia: Darkness

Reação

Escudo da Lâmina Maldita. Quando uma criatura que ele possa ver o atinge com um ataque, o Falso Lord Blunt pode adicionar +2 à sua CA contra aquele ataque, possivelmente fazendo-o errar. Se o ataque errar, o atacante sofre 3 (1d6) de dano necrótico.


Tática de Combate

Rodada 1 (O teatro começa): Abre com Maldição da Lâmina Sombria no alvo que parece mais perigoso (não necessariamente o mais frágil, pois ele quer provar que é um verdadeiro "Lord"). Se houver tempo de preparação prévia, entra no combate com Armor of Agathys já ativo.

Rodadas Seguintes: Mantém um padrão estável de dois ataques por rodada. Utiliza Misty Step se for cercado, derrubado, ou para alcançar conjuradores na retaguarda.

Uso de Darkness: Reservado para momentos estratégicos (contra ataques à distância, para cobrir uma fuga ou isolar o grupo), evitando virar uma mecânica frustrante no combate.