Bem-vindo a Hál… Co... Não, não cheguei ainda.
Curiosidade inesperada: A cidade de Hálcora foi fundada por **Valerius, o Vaidoso**, o Dragonato, que foi o 10º usuário da linhagem da espada Gládius Aeternum.
Ela é o entreposto fora das Muralhas do Anel externo. Alguns acham até que ela nem pertence a Shén-li... Ou ao menos dizem isso para justificar não pagarem impostos.
A Nova Guarda interfere quase nada nessas terras. Fica no extremo oposto ao Castelo Negro, e por isso, acaba sendo um porto constantemente visitado por...
- Piratas?!? - exclamo. Eu estava na indumentária de Lord Edgy, seguia pela estrada da Boca do rio para o sul, para Hálcora, onde encontraria Amellie. Como estava indo na mesma direção, fui me inteirar com outro viajante, agora a meu lado.
- Sim, muitos. - o nome dele era Dalton. É um mascate, pele alva e orelhas pontudas, não era elfo, mas não deve ser 100% humano. Mas não quis comentar na hora. - Já ouviu falar de Capitão Lizzo? é frequentador assíduo de lá!
- “Lizzo o Esguio”? - eu comento conhecia as histórias. - O imediato que traiu Barba-suja, que foi o capitão de Dragão do Trio Quimera! Uma lenda!
- O Puto que saqueia os oceanos de Shén-li a Yoriki... - Ele me ajuda a subir em um desnível. - ... mas nunca tem um tostão sobrando. Daí o nome "lizo".
- Como será ele gasta tanto saque? - pergunto.
- É um mistério... - ele comenta. - Mulheres? Jogos? Patrono profano? Não pode ser bebidas, senão teria morrido na primeira semana. Alguns falam de uma maldição. Outros...
Ele faz um olhar sereno e pesaroso.
- Caruthers.
- Caruthers. - Resmungo junto. Escarro e cuspo no chão, como tradição.
Caruthers o Orangotango vermelho, o Deus da Mesquinharia. É uma entidade cruel e obcecada em fazer o mal... Não importa o nível: Desde criar em segredo o Império e por onze anos aterrorizar as Zonas Selvagens, até a impedir um jogador aleatório de ganhar uma provinha de feira de cidade do interior. Quando alguém tem um momento de azar absurdo, e resmunga "Caruthers", todos resmungam de volta, e escarra. Em solidariedade, e como mantra para afastá-lo.
- Desde que ele matou Barbasuja, ele oculta seu rosto, e usa uma bandana no rosto. Só se vê os olhos... E dizem que o Olho Esquerdo dele ... é o Olho da Morte! - Ele faz uma pausa enfática.
- Senhor... Dalton, certo? - Eu começo. - Eu me chamo Lord Edgy, e devo dizer que eu ... Não quero ser herói em sua cidade.
- Com armadura negra e de chifres? Quem acharia que você é um herói? - Dalton parece pasmo.
- Você se surpreenderia... - resmungo, lembrando de minha temporada em Huo-fen. - Bem, além do saques, como é a equipe de Capitão Lizzo?
- A tripulação? - ele coça o queixo. - Bem, ele tem acho que dois tripulantes de destaque... Se não me engano... Um é uma moça muito bonita e inteligente, o cérebro da operação.
- Como "Janete Quá" - eu rio comentando para mim mesmo. - Temos muito em comum... Lizzo e eu. Ocultamos o rosto, delegamos... E seria um bom exemplo de vilão bem-sucedido. Não teria como confundi-lo com boa pessoa. Não haveria nada errado em comparar algumas idéias dele.
- Acho que ele tem um último tripulante... A Fera.
— “A Fera”… — repito, provando o peso do nome. — Parece… sinistro.
— É mais que isso — diz ele. — Uma criatura meio homem, meio animal. Caos puro em movimento. Velocidade, garras… Quando alguém não obedece às ordens de Lizzo, ele solta a Fera. Tipo, Lizo matou um capitão lendário, mas a Fera faz coisas que o Capitão das Mãos Vazias não ousaria!
- [Lord Blunt era um senhor frio de controle.] - Gladys interfere seca, quase didática. -[Mas gente errática… só responde ao caos. Ele sempre mantinha alguém como Ga-shi para cumprir esse papel. Para ser “a Fera”.]
- Sim, excelente sugestão... - eu pondero. O mascate pensou que era com ele.
- [Contudo, Lembra-te que Ga-shi tentou roubar Blunt e te matar, certo?]
- Eu acho que a minha Ledgyão precisa de... Um "fera"... - Eu penso em voz alta.
- Bem... - Dalton pondera um segundo. - A gente vai passar pelo Ermitão de Hálcora... Acho que bate como "fera"! Se você o levar embora...
Eu paro no meio do passo. Havia um Fera em Hálcora?
Quanto tempo faz?
Não sei.
A mente corre.
Eles estão chegando. Paciência.
Reduza o universo.
Parado.
Quieto.
Vazio.
Um passarinho pousa na minha mão. Entre meus dedos, com minhas garras recolhidas.
Ele não sabe.
Sou galho. Sou nada.
Guarde a tempestade.
Ainda não.
Posso pegar. É fácil.
Mas não é o que eu quero agora.
Espero.
A cabeça coça. Não pensa. Não pensa.
... ah...
Ele vem. Rápido.
Melhor.
Tenho fome.
De carne.
Estava a menos de duas milhas da entrada de Hálcora. Paramos na praia. Ao longe, duzentos metros, posso ver uma ilha. Duas palmeiras, uma moita... Forço a visão... há algo lá... Pode ser uma barraca... pode ser um mendigo... pode ser "a fera".
- Ih... Água... - a experiência de afogar na fuga do Castelo negro me ocorre. - Tem como conseguirmos um barco?
- Não precisa. - Dalton ri.
- Não quero nadar de armadura até aquela ilha.
- Aquilo não é uma ilha. É a ponta de um enorme banco de areia - Dalton explica. - Na maré alta, a água não passa do joelho. Agora Dá para ir caminhando... O Ermitão lá escolheu ficar lá uns ... três ou cinco anos acho, sem contato com ninguém. Bebe água da chuva, come peixes e pássaros.
- Você viria comigo? - pergunto.
- Perdão, Senhor Edgy... - o Mascate passa a mão na testa. - Eu é que não chego perto do eremita. Todos em Hálcora o evitam.
- Entendo... - falo enfim. - Grato, senhor Dalton.
"Deve ser um ser perigoso", eu penso.
"É um chato de galocha", pensa Dalton.
Acho que a armadura mágica deve ser resistente à ferrugem, mas ainda assim me programo para limpar a salmora quando chegar em Hálcora. As águas são barrentas e escuras, mas o piso é firme. Areia dura por baixo.
O Ermitão de Hálcora está de costas para mim. Usa um traje maltrapilho, uma paródia de capuz. Vejo que todas as palmeiras são cortadas, da base às folhas. A Moita possui múltiplos cocos entreabertos.
- [Invoque-me...] - Gladys sugere.
- Se preciso. - retruco.
A criatura balança a cabeça levemente. Estava longe, mas ele parecia ter ouvido, ou percebido algo que não registrou. Decido limitar meus planos ao pensamento. Estava bem longe...
Mas me aproximando.
O cheiro dele era ocre. Mas sua posição era estável. Eu tentei fazer alguns exercícios monásticos com o capitão Khao - Sim, ele foi monge mais jovem, difícil imaginar ele sendo "zen" - e ele estava tão parado, que via quando um passarinho saltitava ao seu redor.
A primeira parte do corpo dele que vejo é a ponta das patas... Sim, patas. Dedos felpudos, e flagrei longas unhas negras despontando... Ele cercava o passarinho...
Eu ouço um chiado dos céus.
Só vejo um borrão. Um predador deu um rasante, e tomou o pássaro das mãos da Fera.
E a Fera reagiu. Um de seus braços girou no ar como um chicote, e suas garras outrora vazias, agora fincava uma ave de porte médio-a-grande sem vida.
- "Isso é um Falcão Mergulhão de Shén-li!" - eu penso, comentando com Gladys. - "Sua velocidade máxima em mergulho é 340 km/h. 100 M/S. E ele pegou sem piscar!"
- [De onde tirou esses números?] - Critica Gladys. - [Eles... Bem, honestamente, parecem certos].
- "Há um almanaque de COISAS VELOZES que os cadetes usam para comparar às flechas de minha mãe." - Comento, mas ficando preocupado. Ele era rápido, e cruel aparentemente. - "Vamos... manter distância dessa fera".
A ideia de “ter uma Fera” parecia grandiosa.
Assistir uma… não.
O focinho mergulha na carcaça. Presas rasgam. Vísceras. Frio. Ele devorava a ave.
Isso não é símbolo. É realidade. E eu… não sabia lidar com isso.
Forte Jian era controle. Multidões que eu ajudava como cadete, ainda humanas.
Até os ratos de Huo-fen e os Corvos de Morval pulando para sua própria destruição contra mim pareciam civilizados perto disso.
Mas aqui? Era um primitivo.
E, ainda assim—
Isso levaria terror aos meus inimigos.
Eu preciso "disso".
— Oi…
A palavra escapa de minha boca antes do plano. Não ia adiantar ser eloquente. Mas eu deveria ter pensado melhor.
Por um instante, juro que ele desaparece.
Some. sem traços
Gladys salta para minha mão.
Giro. Estaria em minhas costas? Nada. A ilha inteira tem menos de cinco metros quadrados, onde ele…
— [Na palmeira!] - Gladys alerta.
Rolo para trás.
Olho para cima a tempo de ver.
Ele escala como um animal, ignorando peso, gravidade, lógica. As garras cravam, rasgam, descem — controlando a queda em saltos curtos.
Os olhos.
Âmbar em chamas sob o capuz. Fixos em mim.
Uma voz enferrujada, como se não fosse usada há anos:
— Você… é um náufrago também?
— N-náufrago? — engulo seco. — Não, eu…
— Onde está seu barco?
A cabeça dele gira, desalinhada e inumana, enquanto desce.
Vejo por fim a cauda. Longa demais. Flexível demais.
— Eu não vim de barco! — aponto a espada. Outro se intimidaria, ele ignorava. Meus olhos eram o que ele mirava. — Eu caminhei até aqui!
Ele para. Inclina a cabeça. Parecia rir um pouco.
— O homem de metal… que caminha na água…
A voz muda. Curiosidade. Era insanidade? Ou era quase infantil.
— Você poderia… se quisesse… caminhar de volta?
Desafio? Loucura?
— Posso. — respondo, firme. Precisava me impor. — E vou!
Ele toca o chão.
De quatro.
Então se ergue.
Alto. Mais alto que eu. Longo. Desproporcional.
E…
Submisso.
As mãos se fecham. O capuz cai.
— O senhor… poderia me levar com você?
Aquilo me desarmou.
Era um Catfolk. uma raça animalesca, muito arisco, originário de uma ilha própria e cheio de mistérios. um Guepardo, pelo que me parece. Seria uma forma de me fazer baixar a guarda?
- Por que você não… - Eu estava perdendo minha “voz de Edgy”. Só aponto para a costa… Dá para ver Dalton ainda andando apressado na direção de Hálcora.
- Eu não sei nadar, senhor. - ele explica.
- Eh, eu tenho dificuldades também, mas é raso.
- Raso? - ele olha para mim como se eu estivesse usando palavras alienígenas.
- Você … Poderia ter simplesmente … - Eu olho ao redor. Carcaças de animais. Restos de barris antigos roidos. As palmeiras arranhadas de cima a baixo. - Há quanto tempo você este aqui?
- Para cada dia… - ele aponta a palmeira maior, com o tronco cortado por linhas verticais curtas e irregulares. - eu faço um corte.
- [Eu conto 1.521 cortes, mas pode ter perdido pedaços.] - Gladys analisa rapidamente. - [Por volta de quatro anos e dois meses… bem mais que três minutos]
- Você está dizendo que… - Algo estava errado. - Sua idade, ermitão?
- Quando cheguei ia fazer dez.
Meu deus… Quatorze anos… Ele tinha quase dois metros de altura mas…
- [Catfolks amadurecem mais rápido que humanos.] - Informa Gladys. - [Ele é formalmente mais velho que você!]
- Isso é uma pegadinha? - retruco. Algo era bom... ou ruim demais para ser verdade naquela história. Caruthers?
- Pe-ga… - ele hesita em responder.
- Você, fera… - decido impor minha maturidade. - Onde foi o ...
- Xitarro.
- Hã?
- Meu nome é Xitarro. Não “Fera”. A não ser que queira que meu nome seja “Fera”. Parece um nome legal…
- F-fiquemos com “Xitarro” por hora. - eu baixo a espada. - Você disse que é um náufrago? Náufrago de quê?
- Atrás da moita. - ele aponta para o leste da ilha
A “moita” não é uma moita.
É um abrigo improvisado — galhos, folhas, restos. Bem volumoso, era quase ¾ da ilha.
Dou a volta.
E vejo.
—
Não é destroço.
É um navio.
A uns cinquenta metros da faixa de areia — casco ainda firme, largo, um único deque. O mastro, partido. Tudo saqueado, limpo… mas estruturalmente intacto.
Não afundou.
Não quebrou.
Contudo, o banco era mais fundo alí, e tinha alguma correnteza. precisaria nadar, e a lembrança da fuga do Castelo Negro me retorna.
- Ouça Fera. Eu sou Lord Edgy, e você não está tentando me passar a perna, está?
- Pegar uma carona é “passar a perna”? - ele pergunta.
Se a ingenuidade dele for mesmo um ato, ele poderia ensinar ópera a Amellie
- Não.
- Então, não. O senhor vai “Pernar a Passa” em mim? - ele pergunta. O que responder a isso?
- Eu estou aqui para torna-lo um capanga. E...
- Tudo bem
- Você… Não sabe o que é Capanga, sabe?
- É alguma coisa má? - ele deduz. Era pouco vívido, mas mais esperto. Algo em minha voz deixou claro que era um acordo de consequências.
- Bem, SIM! - eu urro. - Você vai estar a meu julgo, vai fazer minhas ordens. Vai levar terror a meus inimigos! Então pode se dizer que sim. Será algo que você carregará na consciência como ... "mau".
- Mas … você me levaria daqui, não é? - ele fala. - Então, pode ser.
- [Por Pyrro e Enya, vamos embora!] - rosna Gladys. - [Deve ter orfanatos em Hálcora, ou abrigos, ou pet shops!].
Algo estava estranho naquela história. O povo evitava o Ermitão, e ele apanhou um falcão, e saltou três metros. Ao menos fisicamente, ele era uma fera.
O “Filho de Arquivista” em mim olha para o navio. Manifestos. Cartas. Registros. História.
Mas nadar até o barco de armadura seria complicado.
- Passo para trás, Xitarro. É uma ordem. - não ia baixar a guarda tão cedo.
A criatura recolheu-se atrás da Palmeira
- Vigília Sombria, modo Sentinela. - eu falo. A Armadura se abre no peito, e eu deslizo para fora. Só agora sentia o sol forte sobre a pele. A “fera” se encolhe assombrado. - Faça companhia ao jovem.
A cara esquelética de Virgílio gira para o catfolk.
- [Acha mesmo que “faça companhia” é um comando compreensível?] - Gladys me provoca.
- Só quero que ele ache que tem alguém de olho. - falo enfim. - Xitarro, eu já volto.
Mergulho nas ondas.
A maior parte do caminho depois disso, a água na cintura. Não muito difícil.
Mais adiante, afunda de novo. A corrente puxa.
Encontro apoio num trecho coberto de mexilhões. Subo.
—
O convés está vazio.
Botes: levados.
Cordas: cortadas.
Marcas de garras.
Não foi uma fuga apressada. Foi abandono calculado.
A cabine… vazia.
Cartas náuticas — inúteis para mim. Nenhum documento formal.
A cabine do capitão… também limpa.
Exceto a cama.
Embaixo do colchão, um diário.
— Data de… quase cinco anos atraz. — comento com Gladys, que apoio na batente. — Uma família catfolk embarcou em Hálcora… pai, mãe e uma criança catfolk.
O capitão escreve que era a primeira jornada de cabotagem de Dol’oam a Shén-dao. Os “gatos” viajariam dali para Yalatanil, o reino élfico.
E então… “o terror”.
"A criança hiperativa. Corria por todo o barco. Desamarrava todas as cordas. Falava sem parar. Nem os pais conseguiam controlá-la. Ela era incapaz de ficar sentada por mais de cinco segundos…"
— [Chaaato…] — comenta Gladys. — [Pule para a parte em que ele está preparando uma emboscada para comer as SUAS tripas.]
— Gladys, o Mestre Achima ensinou sobre crianças assim. — digo, preocupado. — Mandou não diagnosticar, mas… Elas precisam de cuidados especiais. E não acho que esse capitão esteja dando o devido…
A página seguinte está coberta de tinta. Marcas de pata pequenas.
Quase todas as informações posteriores foram perdidas — restam apenas as últimas duas.
“Malditas cartas vagabundas! Bati num banco de areia! A tempestade me fez encalhar, e vai ser tão caro desatolar que vale mais a pena comprar um novo barco.”
“E adivinha… a maldita criança-gato estava no topo do mastro! A gente gritava, e ela não descia! Quando bateu, foi ‘estilingada’ para o mar. Está escuro. Não podemos ver nada. Não me sinto bem dizendo isso, mas… já vai tarde!”
— [Bem, isso valida a história dele…]
— Por Aetíades sagrado… — engulo seco. — Não acabou, Gladys… isso é…
“Novidades. Enquanto evacuamos, um dos práticos avistou o moleque. Ele caiu numa ilha — ou banco de areia seco, não sei dizer.”
Eu leio saltando frases.
“Depois de algum tempo, ainda conseguíamos ouvir os miados frenéticos dele.”
“Alertamos os pais. Eles pegaram um escalé e foram embora.”
“Eles não nos ouviram. Ou, mais provavelmente… ouviram. E ignoraram.”
“Não tinha como não terme ouvido. Nós ou ele…”
Não consigo ler mais.
Sento na cama fétida.
O diário pesa nas mãos.
— [Isso é maquiavélico.] — diz Gladys, fria. — [Uma criança problema. Abandonada deliberadamente.]
— Eu sei…
Engulo o nó na garganta.
— [Use isso.]
Fecho os olhos. Sei o que a Espada dos Treze Tiranos vai sugerir.
— [Mostre a ele o mundo como ele é.]
— [Mostre que foi rejeitado.]
— [Que foi descartado.]
A voz dela afia.
— [E ele será seu.]
Abro os olhos.
Volto para a ilha.
Virgílio está enterrado até o pescoço na areia. Não vou poder vestir até tirar toda a terra.
Xitarro está na “moita”. Ao me ver, encolhe-se — sabe que fez algo errado.
Estou bravo.
Mas não consigo me irritar.
— Xitarro… seu pai é Tan’pro, e sua mãe é Leona? — Pergunto. Esse nomes, encontrei isso no diário do capitão.
— Sim! — ele responde, animado. — Você os conhece?
— Não. - Eu escondo discretamente o diário na mochila. - Ainda não.
— Eles sempre diziam que eu estava com pressa para tudo! Para comer! Para beber! Então… — ele hesita — eles estavam vindo. Eu só não era… paciente.
— Paciente? — pergunto.
— Eu esperei algumas horas. Aí o sol saiu… e eles não chegaram, e o sol foi embora. — Ele fala com naturalidade. Aceitação. Eu… não.
— Então eu sentei. - ele continua, postando-se em posição de lótus e fechando os olhos, demonstrando para mim como foi obediente. - Me acalmei. Me comportei como eles pediam. E… o tempo passou melhor.
— Xitarro… — respiro fundo. — Eu tive um… “Professor” com problemas de temperamento chamado Khao. Hoje, ele é um grande homem porque aprendeu a controlar os impulsos com mestres quando era pouco mais velho do que eu.
Faço uma pausa.
— Você… aprendeu isso sozinho? Espontaneamente nesta ilha enquanto esperava alguém vir buscar você?
— Sim.
Olho ao redor.
A ilha.
Aquela piada cruel do destino. Tantos que sabiam que ele estava aqui e deixaram para lá. Mas era um lugar de paz. Onde ele precisou aprender a sobreviver dos elementos. Conhecer o próprio corpo. Como os primeiros monges das Montanhas Castanhas em ambientes ermos e cruéis.
— E-eu ainda vou ser seu capanga… Certo? - Ele pergunta. Eu deveria estar deixando algum sentimento vasar. Ele temia que eu tivesse mudado de idéia e o deixasse na ilha.
— Capanga… É… — inspiro fundo. — Quando estou na armadura, eu sou Lorde Edgy. Você é capanga dele. - Eu pauso. — E o que combinamos… continua valendo.
Ele assente.
— Mas, sem a armadura… — continuo — eu sou Bentho.
Olho direto para ele.
— É importante que você entenda: somos pessoas diferentes, Bentho e Edgy. É como eu opero, certo?
— E eu sou seu capanga também, Bentho?
— Não. — respondo, firme. — Eu vou ser seu… amigo.
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