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6 de maio de 2026

[EDGELORD] - O PIRATA SOLAR & O HERDEIRO DA ESCURIDÃO II

 


— [Estou dizendo, foi por falta de opção. Nunca tentamos isso… pegar um bruxo descendente direto do anterior… mas tivemos tanta sorte com Lord Blunt… até os últimos dezessete anos de “pai de família”. Sim, o menino Bentho é uma decepção atrás da outra.]

Eu sou Gladius Aeternum. A Espada Eterna.

Fui empunhada por treze bruxos, com resultados variando entre derrubar muralhas, conquistar fortalezas e fundar cidades… até o limiar da dominação do mundo. Sou a ponte entre o Mundo dos Mortais e o Submundo, onde uma entidade de múltiplos olhos, ouvidos e presas escuta meus relatos e, quando satisfeita, concede poder ao meu portador.

Neste exato momento, no entanto, estou no fundo do Rio de Shén-li.

Descartada.

Moros, o Melodramático — décimo segundo portador — me lançou em um poço de desejos uma vez, para dar sorte. Aquilo foi a maior humilhação da minha existência.

Até hoje.

— [O Bentho está me chamando novamente, meu mestre.] - Falo sentindo a vibração. Assumo a obtusa forma de Greatsword de novo.

— [Farei como ordenado: uma parada na Montanha Morta, exposição aos Olhos da Aberração e então—]

A vibração corta a água ao meu redor, forte o suficiente para deslocar lama e atenção.

— [Ele deve estar com problemas.] — deduzo, mas sem muito entusiasmo em ajudar. Mera obrigação do pacto. — [Resolvo isso e retorno a ligação.]

A presença do meu senhor se dissipa, e eu abandono o leito do rio.


✧ PARTE II ⚓ “Herdeiros” ✧

Normalmente, eu ressurgiria diretamente nas mãos de Lord Edgy — décimo quarto portador… e causa recorrente da minha azia. Mas já ensaiamos este cenário depois dos Corvos em Huo-fen: mãos presas, situação comprometida, expectativas baixas.

Emerjo acima do convés de um navio que decide ser duas coisas ao mesmo tempo e não se compromete com nenhuma delas. Madeira clássica, reforços metálicos indecisos, estruturas que parecem obedecer a outra lógica. Piratas circulam como se aquilo fosse normal, o que, por si só, é preocupante.


E então eu o vejo. Lawful Evil Zero… Ora. Uma celebridade entre os artefatos milenares!

Confesso que não esperava encontrar outro longevo em campo. Muito menos um com histórico consistente de apunhalamentos estratégicos. A reputação procede — o alinhamento também, ao que tudo indica. Considero, por um instante, iniciar uma conversa apropriada entre relíquias… Mas o meu portador continua sendo uma prioridade ambulante de problemas.

Ajusto minha trajetória. Alvo: amarras. Execução direta.

Só então registro o estado completo da situação.

Ele está com as mãos presas. E os pés. E, considerando a postura, a dignidade também não saiu ilesa.

…De novo.

Aetíades sagrado.

Corrijo o ângulo no último instante e corto primeiro as amarras das mãos. As dos pés ficam para depois; há limites práticos até para milagres.

— [Lorde Edgy] — anuncio, com entusiasmo que a minha "Nova voz" exige. — [sua arma retornou].

Sabem, Ser a narradora é um desperdício do meu talento.

A partir daqui… o problema volta a ser dele.


Aposto que todos se surpreenderam quando Gladys se materializou acima do navio.

Eu não.

Quer dizer… Sim, mas de um jeito diferente.

Se não estivesse com a armadura dessa vez, provavelmente teria perdido os pulsos. Do jeito que foi, bastou um corte limpo para me livrar das amarras das mãos. Os pés vieram logo depois — com um leve atraso estratégico que prefiro não comentar.

— Edgy… Você estava farmando aura? — Amellie perguntou, com aquela calma irritante de sempre.

— N-não… — murmurei, ativando um Lay on Hands. — Acho que isso resolve gás lacrimogêneo também… né?

Respirei fundo.

Resolveu.

Ótimo. Informação útil para o futuro.

— Porque uma espada cair do céu e ficar parado por cinco segundos… — ela inclinou levemente a cabeça — …quatro a mais do que o necessário para acertarem sua cabeça… Costuma estrapolar a arte de aurafarming e ser só exibicionismo.

— Eu só—

— Depois você explica. — Ela não esperou resposta. — Capitão, uma palavrinha?

O Capitão Lizzo a puxou alguns passos para trás, educado e charmoso como nas histórias, como se não estivesse cercado por caos e um fanboy recém-desamarrado.

— Senhor Edy, certo? — disse ele, apontando com o queixo para mim. — Vá dar uma olhada no tombadilho. Retorno já.

— É… Edgy, capitão. - eu bato uma meia-continência constrangida.

Ele já não estava mais me ouvindo.


— [Então, escudeiro… o que eu perdi?] — Gladys comentou, com o mesmo tom de quem sai por quinze minutos e encontra a casa pegando fogo.

— Por que me chamou de escudeiro? — ah. Tá. Khao. Respirei fundo. — Em resumo: Conheci meu ídolo, passei vergonha na frente dele, e sobrevivi.

— [Não me diga que você nos embaraçou na frente de LE-0.]

— Eu falava do capitão... — Resmungo estranhando. — O Danton não mencionou o robô… Nem que o Lizzo era do clã Filler. E eu olhei bem nos olhos do capitão. Não tem “Olho da Morte”.

— [Temo que, assim como com Lady Àquela e Lord Blunt, sua idolatria opere com filtros… imprecisos.]

— Isso explica muita coisa. — baixo a cabeça.


Mais à frente, o Capitão Lizzo e Amellie conversavam em tom mais baixo. Ele ouvia com interesse prático; ela, com aquele cuidado de quem sabe exatamente o que está entregando.

— Sério? Esse cabeça oca? — ele soltou uma risada curta, olhando na minha direção. — Você era figurona na Igreja da Perseverança, e migrou para o enlatado e o chita? Perdeu aposta?

— Falando na Igreja… — Amellie desviou, suave — “aquilo” não voltou, não?

— Cem por cento "mundo dos vivos" para este pirata, madame — respondeu ele, batendo de leve na própria bandana. — O Monsenhor é melhor com maldições do que ele admite. E isso aqui… — puxou o tecido um pouco — …é um disfarce honesto.

Ele fez um gesto curto, encerrando o assunto.

— Agora me fala do “Lord Blunt júnior”. — prossegue, meio que coletando informações.

Amellie ergueu uma sobrancelha.

— Como você soube?

— Do quê? Que ele comprou um cosplay no mercado de pulgas do Senhor da Escuridão?

Ela se inclinou e sussurrou algo no ouvido dele.

Lizzo não reage na hora.

O olhar fica parado por um segundo a mais do que deveria.

Ele pisca.

Uma vez.

Devagar.

— …é filho dos dois?


Mais à frente, vejo aquela moça de óculos me observando.

Jovem. Muito bonita. Postura discreta demais para alguém naquele navio. E principalmente, não olhava com desprezo para mim.

…Perfeito.

Danton mencionou alguém assim. “Muito bonita e inteligente”. Cérebro da operação de Lizzo.

Talvez eu ainda consiga salvar minha reputação junto à tripulação. Se a tripulante "bonita" falar bem de mim, talvez eu possa recomeçar com o capitão.

Aproximo-me com o que considero meu melhor sorriso — o que a armadura permite, pelo menos.

— A senhorita deve ser a Imediata da tripulação do Capitão Lizzo — digo, voz de veludo calibrada. — Sua beleza é lendária, mas ainda assim não faz jus à—

— As latas estavam gostozinhas?

— Perdão? — Eu realmente não estava esperando aquilo.

— Você queria comer as latas, ou era para outra coisa? Era sua família?!? — ela continua, como se estivéssemos no meio de uma conversa, e nada do que ela falava fazia sentido... Ao menos para mim, fora da cachola dela. — Você foi embora e nem conversamos!

Pisco. Uma vez.

— Eu… Certamente me lembraria, senhorita...

— Estranho — ela inclina a cabeça, confusa de verdade. — Você estava diferente. Mais silencioso.

Antes que eu consiga responder, ela segura meu elmo pelos chifres. Meu corpo inteiro acompanha o movimento sem qualquer negociação.

Forte.

Muito forte.

Não "forte para uma garota", mas "Forte para fazer queda-de-braço com o capitão Khao" de forte.

De repente, estou a centímetros do rosto dela. Olhos curiosos. Nenhum esforço aparente.

— Nossa… — ela murmura — tem uma pessoa aqui dentro agora.

Começo a suspeitar que o “cérebro da operação” estava em curto-circuito.

— HEY, EDGY! — a voz do Capitão Lizzo corta o convés. — Deixa minha passageira em paz! Ela pagou pela viagem, coisa que você ainda não fez! Mil perdões, Senhorita Mary Sue. Vou manter ele longe de você.

— Não é preciso, capitão — respondo rápido demais recolhendo um pouco da dignidade. — Eu me mantenho longe.

"Bem longe". penso em completar.

- [Não ousaria acusa-lo de "competente" ou "sortudo"] - Gladys comenta. - [Mas ao menos ele começou a acertar seu nome... Sério, mesmo para SEUS padrões você está errando tudo!]

Xitarro se aproxima, cauteloso.

— Chefe… Por experiência própria… Provocar gente num navio costuma dar problema. Quando eu fiz isso, fiquei náufrago numa ilha por cinco anos.

— Eu não sou uma criança, meu caro. — Falo recuperando um pouco da compostura. - Estou numa maré de azar, só isso. Basta controlar meus impulsos até acalmar as coisas e... OLHA AQUELE QUADRO NO TIMÃO!!!

Xitarro tentou me impedir de correr escadaria acima. Não foi rápido o bastante.


Eu cesso alguns degraus antes. Aquele homem musculoso eu conhecia. Capitão Ben Filler, do "Sem Inspiração". Segundo da linhagem do clã. Filho do Comodoro Benjamin Filler. Procurado em outros mundos.

…E abraçado a uma moça-ciborgue… Curiosa.

— Quem é a piranha? — eu pergunto.

E imediatamente eu ouço COMO as palavras que saíram da minha boca. E amaldiçoo meu vernáculo.

— E por… “Piranha”… — tento consertar, virando para trás com cuidado — obviamente me refiro à temática da senhora ciborgue. Um motivo agressivo, predatório e adequado a uma pirata… Criaturas carnívoras de água doce… Nada que envolva qualquer tipo de julgamento moral ou social—

O Capitão Lizzo já estava atrás de mim. A menos de um metro. Olhar neutro.

O convés inteiro em silêncio. Amellie fazendo "facepalm". Acho que até o vento parou para ouvir minha execução.

—E que… Considerando minha sorte, provavelmente ela seria... — Eu continuo, e gesto contínuo aponto para o capitão. Meio que adivinhei a resposta que veio.

— Minha mãe. — Ele fala.

— Claro que seria isso… — murmuro para mim mesmo. — Isso faz o senhor meio-ciborgue? Meio-peixe? Meio...

— Adotado. — Ele estava sendo civilizado. Bom sinal.

— Muito nobre deles. — retruco.

Lizzo caminha lentamente até parar do meu lado.

— Qual é a de pais e suas obsessões com quadros de casal no trabalho? — ele fala, com algum humor na voz. — Ao menos, não posso reclamar. Aqui, um não está flechando o outro.

— Amellie te falou? E dos perrengues de ontem? — falo resignado, deduzindo que se referia ao quadro no Castelo Negro. Ele acena com a cabeça. — Deve ser legal ter a família em sintonia, trabalhando no mesmo time. Não uma heroína, um megavilão e ... O que quer que eles achem que eu sou.

— Sabe que eu fui adotado por causa de seu pai? — ele replica.

— Lord Blunt deixou muitos órfãos em seu tempo... — resmungo.

— No levante de Dezoito anos atrás, Lord Blunt procurou meu avô. Queria fechar os mares com uma Frota dos Filler. Cortar qualquer apoio concebível a Shén-li. Existia a chance de isso aqui virar um paraíso pirata, se ele tivesse tomado a capital, e foi por muito pouco.

Ele dá de ombros.

— Então meu avô decidiu preventivamente plantar raízes. Fez meus pais formarem uma família, adotarem um filho com sangue local, e me tiraram de um orfanato de Huo-fen. Me ensinaram o ofício. Quando o levante acabou e as pretensões foram frustradas, o clã reduziu presença. Eu fiquei para trás com o que sobrou.

— Fascinante — digo, com sinceridade suficiente. — E agora … Eu vou me afastar sem tocar no timão e arruinar sua rota.

LE-0 te derrubaria antes de chegar ao timão — ele responde, apontando para a gávea. O droid acena de volta, com o arpão gigante exposto.

— Justo... — Eu começo a caminhar, devagar mas mais aliviado. Eu não sei se teria a paciência dele tratando com um moleque imaturo como eu...

— [Sério? Xitarro enterrou sua armadura, e você ainda o carregou para fora da ilha!] — Gladys comenta.

— Capitão, uma coisa… — digo, já mais recomposto, enquanto me junto a Amellie e Xitarro na frente do castelo de proa. — Eu me inspirei bastante na sua operação.

Ele não responde. Só escuta.

— Consegui montar algo parecido, até. — aponto para Xitarro. — Uma fera.

Xitarro inclina a cabeça, sem saber se aquilo foi elogio.

— E… — olho para Amellie — …uma estrategista competente. Inteligente. Discreta.

Pausa.

— Discreta? — Amellie resmunga, com as mãos indo à cintura.

— Eu ouvi esses comentários da tripulação. — Lizzo deixa um riso escapar. — a frase correta é "Uma garota bonita e Inteligente que comanda a operação". Certamente deméritivo, mas não consegue constatar o óbvio da senhorita Amellie sem parecer asqueroso, senhor Edgy?

— Bem... — Eu fico um tanto constrangido. Amellie se diverte com meu desconcerto. —  Então ou estou mal informado… ou o senhor está trabalhando desfalcado.

Lizzo se aproxima de Amellie.

Depois, olha com interesse Xitarro. Focaliza acho que nas orelhas felinas dele.

Um canto da boca sobe por baixo da bandana.

— Eu sei exatamente de onde veio isso. — Ele vira o rosto, sem pressa. — Ouviu isso, imediata?

A porta do castelo de popa se abre.

Sem som de passos.

Só madeira rangendo.

Uma silhueta surge na penumbra.

Alta.

Ferina.

Imóvel por um segundo a mais do que o necessário.



3 de maio de 2026

[EDGELORD] - O PIRATA SOLAR & O HERDEIRO DA ESCURIDÃO I


Eu vou abrir um pequeno parêntese aqui, porque isso ajuda a alinhar expectativa.

Em anime, existe um formato chamado OVA (Original Video Animation). São episódios lançados fora da televisão, geralmente direto em mídia física, e quase sempre com mais liberdade criativa. Isso significa que eles podem brincar com escala de poder, testar ideias diferentes ou até contar histórias paralelas que não afetam diretamente o cânone principal.

Como eu estou escrevendo, o termo mais adequado seria algo como OWA (Original Written Arc). A lógica é a mesma: um arco opcional, não-canônico, que você pode pular sem perder nada essencial da história.

Este aqui é exatamente isso.

Eu comecei Edgelord como um aceno a um personagem que eu queria muito jogar, mas não pude por causa de Caruthers. Só que, quando isso virou uma saga, eu percebi que tinha a oportunidade de fazer justiça não só a ele, mas a vários outros personagens que ficaram pelo caminho. O Arco IV, por exemplo, vai trazer de volta nomes como Ayro e Capri com o peso que eles merecem.

Mas, por enquanto, eu quero me permitir algo diferente.

Este arco existe porque eu quero testar ideias, introduzir personagens novos e colocar mais poder na mão de quem já está aqui — sem precisar me preocupar com as amarras do enredo principal.

Em outras palavras: você pode levar isso como parte do mundo… ou só como um “e se”.

Agora, dito isso—

vamos reimaginar um trio que merecia muito mais.

✧ PARTE I ⚓ “Deixa em Branco” ✧

[Algumas horas antes]

A proa cortava a água com a elegância de uma lâmina bem afiada. O Capitão apoiava o peso do corpo na madeira salgada, um olho no horizonte e o outro preso ao telescópio. O vento puxava seu casaco como se tentasse arrancá-lo dali, como se o mar soubesse de algo que ele ainda não queria encarar.

No vidro, a baía de Hálcora surgia… calma demais.

— Hm. - Ele resmunga. Ajusta o foco.

As águas estavam coalhadas de barris. Coisa demais fora do lugar. Multidão no cais. E então — homens. Armaduras-uniformes da Nova Guarda. Subindo da água como se o próprio mar os tivesse cuspido de volta ao mundo.

O Capitão não sorriu. Abaixou o telescópio só o suficiente para falar, sem tirar os olhos da cena.

— *Lawful Evil Zero!* — Urrou por baixo da bandana. Não era só o nome. Era acusação.

Lá no alto, na gávea, veio o chiado familiar de vapor escapando, seguido por uma rotação metálica que parecia mais entediada do que alerta.



— Chamado recebido com 87% de entusiasmo operacional, meu capitão!

A unidade de bronze se revelou na borda, múltiplos braços ajustando ângulos que ninguém havia pedido.

— Você está olhando o porto ou catalogando nuvens de novo?

— As nuvens apresentam padrões hostis potenciais. Aquela ali se assemelha a um coelho ameaçador.

O Capitão fechou os olhos por um segundo. Respirou fundo. Quando abriu, o mar ainda estava lá… e os homens também.

Mais deles.

— Abaixa daí e presta atenção — disse, seco. — Temos companhia. E não é do tipo que paga uma rodada no Olho da Maré.

Um breve silêncio. Depois, metal em atrito com cordas descendo rápido demais para algo com seis braços.

LE-0 aterrissou no convés com precisão cirúrgica… dois passos à esquerda do ideal.

— Análise iniciada. Detectando hostis emergindo da água. Classificação: apenas inconvenientes.

O Capitão girou o telescópio de novo, acompanhando o movimento.

— “Inconvenientes”? Aquilo ali são tenentes da Nova Guarda. E estão bem no nosso porto. Eu os vi daqui de baixo! Como você, lá em cima, não viu?

LE-0 inclinou a cabeça com um rangido quase pensativo.

— Sugestão: manter curso atual. Testar resistência estrutural dos alvos.

— Sugestão recusada. — O Capitão ajustou o rumo com um gesto curto ao timoneiro. — A gente briga quando precisa. Não quando é idiota.

Ele estreitou o olhar. algo novo chamava sua atenção.

— Tá vendo aquele mandrião enorme subindo o pier? Aquela com o braço de pedra?

Silêncio tenso. LE-0 também… por aproximadamente meio segundo.

— 12% de chance de ser o comandante identificado como “Capitão Khao”. Parabéns, Capitão. Evitamos um problema maior que Balmon atrás da tecnologia da Imediata.

— Sim, eu evitei, não você, meu vigia na gávea! — murmurou ele, sem tirar os olhos do telescópio.

— Correção: eu estava em posição elevada estratégica.

— Olhando nuvens.

— Coelhos ameaçadores.

O capitão constatou que o navio corrigiu a direção, e deslizou como mais um no horizonte de Hálcora, na direção rio adentro. Discreto demais… Por pouco poderiam ter sido avistados. O vento voltou a soprar como se nada tivesse acontecido. Virou levemente o rosto na direção da máquina.

— Essa conta como terceira traição! - ele aponta no meio dos quatro olhos da entidade.

LE-0 ergueu dois braços em protesto imediato, enquanto os outros quatro hesitavam, como se aguardassem consenso interno.

— Não, capitão! Três é um número importante para mim!

— Terceira, já falei!

— Mas nem chegamos perto dos Guardas! — rebateu, quase ofendido. — Por favor! Deixa a minha terceira ser mais elaborada!

O Capitão apenas empurrou o telescópio contra o peito metálico do droid e virou as costas.

Caminhou até o castelo de proa e espiou por uma das janelas.

— Não podemos parar no porto, Imediata — resmungou. — Segue para o “Chamado Musical”.

— Tem certeza, capitão? — veio a voz feminina, provocante, por entre engrenagens e luzes improváveis, de onde apenas um par de pernas descalças e uma ferramenta despontam. — Quanto crédito tem essa tal de Amellie Silverleaf com você?

Régio — respondeu ele, sem esforço. — Ciúmes, imediata?

— Sou só amiga da sua família, capitão. — Uma pausa. — A questão é que sei que nosso ouro não está sobrando para favores.

O Capitão soltou um meio sorriso torto.

— Nunca está. Só prepare rotas de como tirar a gente de lá quando der errado.

De trás, LE-0 inclinou a cabeça.

— Confirmando: plano oficial é “dar errado”?

O Capitão nem olhou.

— Não. O plano é parecer que foi de propósito.

LE-0 processou por um instante.

— Estratégia registrada como: confusão elegante.

— Agora sim você está prestando atenção.


[O Presente]



Meu nome é Bentho.

 Minha alcunha é Lorde Edgy.

“Herdeiro da Escuridão.”

 …Ou era “Terror”?

Terror soa melhor. Menos óbvio. Menos… ele.

Fundei a Ledgyão, um grupo de elite, E, até agora, sou provavelmente o menos impressionante entre eles. 

Amellie Silverleaf é uma cortesã e escriba talentosa. Descobri, há poucos dias, que também é aventureira… e espiã. De múltiplos talentos.

 Atende por “Janete Quá”.

Xitarro é um catfolk sem treinamento formal. Ainda assim, luta como se tivesse sido moldado para isso. Seus instintos são rápidos, sua técnica, absurda.

 E sua devoção à minha causa… desconcertante.

Eu o chamo de “O Fera”.

Saímos de Hálcora em fuga. Não foi uma retirada elegante. Foi o tipo de saída que deixa portas abertas, nomes marcados e pessoas muito interessadas em nos encontrar de novo. Atrás de nós, o Capitão Khao e um destacamento de elite da Nova Guarda. Os melhores de Shén-li.

E, além deles…

Meus pais.

Dizer assim quase engana. Parece pequeno.

Não é.

Se alguém pode impor ordem ao próprio Khao, é a Arqueira Lendária Lady Àquela.

 E o outro…Meu Pai, é o Maior Vilão da… vocês já sabem. O inevitável Lord Blunt.

Temos por objetivo agora cruzar o Rio de Shén-li, não ser pego por nenhuma dessas facções, e alcançar a Montanha Morta, ou o projeto “Ledgyão” termina antes de começar. Estávamos em uma balsa cheia de peixes puxado por um rebocador quando… 


THUNK.

A embarcação inteira treme. Eu e Xitarro quase vamos para a água.

Amellie… nem pisca.


Uma embarcação surge na curva do rio, vindo da direção de Hálcora.

Rápida.

Direta.

Intencional.

Olho para o alaúde de Amellie.

Olho para ela.

Era isso?

Ela estava… chamando? Uma mensagem mágica carregada pela música, não deve ser algo improvisado. Deve ser um sistema de comunicação complexo, e lastreado por favores e negócios. 

Arranjando uma carona?

Claro que estava.



A corda do arpão ainda vibrava quando a proa da outra embarcação tomou o campo de visão inteiro. Foi uma tomada. Metal contra madeira. Tensão no rio.

E lá, na proa do navio que agora tinha-nos na mão, estava ele. Alto. Corpo de bronze polido com entalhes quase ornamentais, como se alguém tivesse decidido que uma arma de guerra precisava ser elegante, mas não necessariamente humanóide. Seis braços articulados saíam do torso com precisão antinatural, cada um terminando em ferramentas diferentes — lâminas, garras, mecanismos de disparo. No centro do peito, um núcleo azul pulsava com luz constante. A cabeça… múltiplas lentes, algumas brilhando, outras apagadas, como olhos que não concordam entre si.

Vapor escapava em intervalos curtos. Nada ali parecia seguro.

Os braços repousavam em ângulos imperfeitos, como se obedecessem por obrigação. O arpão cravado na nossa balsa era desproporcional. Guerra transformada em ferramenta. LE-0 inclinou a cabeça alguns graus.

Analisando.

O rebocador já se afastava... a junção dele foi rompida sem cerimônia, fugindo com o que podia, sacrificando a carga: A balsa, “nós”, e os peixes.

— Confirmação de captura parcial — disse a coisa, sem entusiasmo. — Carga: peixes. Passageiros: Status de pagamento: duvidoso.

Ele girou dois braços, ajustando a tensão da corrente com precisão milimétrica.

— Prioridade atual: peixes.

Xitarro rosnou baixo ao meu lado.

— Ei! Nós não somos “carga secundária”.

— Correção — respondeu LE-0, sem sequer olhar diretamente para ele. — Vocês são “variáveis não remuneradas”. Os peixes, ao menos, não discutem termos.

Amellie deu um passo à frente, calma demais para alguém sob ameaça de um arpão do tamanho de uma decisão ruim.

— Eu tenho crédito com Jackie. Já nos comunicamos.

Houve um pequeno silêncio mecânico. LE-0 congelou por meio segundo. Depois, ajustou a postura.

— Silverleaf, eu suponho? Identificador “Jackie” detectado como possível intimidade junto a autoridade superior. — pausa — Nível de confiança: inconvenientemente alto. Bem-vinda ao "Deixa em Branco".

Ele soltou um chiado curto.

- "Jackie"?!? - Eu olhei para Amellie.

Xitarro deu um passo à frente, avaliando a distância, o metal, as rotas de salto.

LE-0 virou a cabeça na direção dele.

— Consulta: o felino é castrado?

Silêncio.

- Não. Meu nome é Xitarro!

— Cara… que maneiro… - Eu comento, deixando enfim a realidade de nossa proxima aventura ser notada. - Esse cara aí, isso é tipo um Virgíli—

O cotovelo de Amellie me acertou nas costelas.

— Não — disse ela, ainda sorrindo para nosso abordador. — Nem começa.

— Eu só ia—

— Não.

Ela não olhou para mim. seu sorriso desconfortavelmente amarelo. Agurardou LE-0 olhar para outra coisa.

— Ele é um droid clássico. Uma forma de vida artificial, de muito muito tempo atraz. — ela me informa. — Vigília Sombria é um autômato feito por uma pessoa. Não tem vida.

Outra pausa.

— Compare os dois e você pode ser cancelado. — ela conclui.

— Can... O que é isso?!?

— Só ... Vista a armadura para não sentir a necessidade de comparar os dois e nos fazer passar vergonha.


O casco do navio se erguia acima de nós, com linhas que não pertenciam totalmente a este mundo. O nome estava pintado na lateral.

Ou quase.

Franzi o cenho.

— “Deixa em Branco”…? — leio na lateral.

Amellie seguiu meu olhar com um sorriso divertido da peculiaridade.

— Tradição.

— Tradição?

— O clã pirata Filler se espalha por reinos, mares… Até outros mundos — disse ela, casual. — Mas não consegue dar um nome definitivo aos próprios navios.

Alguns marujos atravessaram sem cerimônia, descendo até a balsa e começando a recolher os peixes. Amellie e XItarro vão na frente. Eu fico para traz, Virgílio se fechava sobre mim peça por peça, ajustando, selando, transformando. O peso familiar retornava aos ombros. Me tornava Lord Edgy mais uma vez.

Quando finalmente avancei, precisei passar por LE-0.


Era uma… coisa.


Ferramenta demais para ser alguém. Preciso demais para ser ignorado. Se colocassem lado a lado com Virgílio, mesmo na forma esquelética, eu inverteria quem é a "mera máquina" e quem poderia ter vida. Certamente seria cancelado (seja lá o que isso seja, Amellie parecia preocupada), então, que ele fique como armadura pela duração da estadia.

Quando alcancei o convés, entendi. O Deixa em Branco era um navio… mas não só.

A madeira estava lá — casco largo, linhas clássicas, curvas familiares. Só que tudo era atravessado por outra lógica. Reforços metálicos cortavam o convés em padrões que não seguiam necessidade estrutural alguma. Cabos não iam apenas às velas; conectavam-se a estruturas que pareciam reagir ao ambiente. Se alguém como Balmon visse aquilo, provavelmente ficaria mais irritado do que impressionado.

As velas não eram pano. Eram lâminas translúcidas, tensionadas como asas de libérila colossal  abertas à força. Às vezes capturavam o vento. Às vezes não. Ainda assim, vibravam, como se operassem em outra frequência.

À frente, o convés se dividia em níveis. Canhões tradicionais estavam posicionados lado a lado com mecanismos que eu não sabia nomear. Um brilho constante vinha do interior do navio, pulsando de forma regular, presente demais para ser ignorado.

Havia tripulação.

Alguns humanos. Alguns claramente não. Outros difíceis de classificar. Nenhum parecia deslocado. Todos pareciam… acostumados. Como se aquele absurdo fosse rotina.

Xitarro já estava encostado em um canto, observando a água — ou os peixes, talvez. Não sei o quanto estar de volta a um navio mexia com ele. Perto dali, uma bela moça de óculos e vestes discretas me observava com atenção calculada.

Amellie seguia com o capitão.

— Lorde Edgy, Herdeiro da Escuridão… — ela anunciou, com naturalidade irritante. — Este é o Capitão Jack Filler. Mas você o conhece por—


— CAPITÃO LIZZO!!!!

O silêncio veio imediato.

Curto. Denso.

Depois disseram que eu desafinei.

Posso culpar a acústica do elmo.

Ainda assim… não foi minha melhor entrada.

Comecei a avançar na direção dele, rápido demais para parecer casual. Já estava no terceiro passo quando LE-0 reagiu.

Boleadeiras prenderam meus pés.

O chão veio antes de qualquer reação.

Um laço travou meus braços antes mesmo de eu processar a queda.

E então veio o gás.

Totalmente desnecessário.

— Okey… fanboy ou é um suposto herói querendo me capturar? — pergunta o capitão, se agachando ao meu lado, analisando com interesse prático.

Amellie respondeu sem hesitar:

— Fanboy.

Ele estalou a língua.

— Tsk… eu preferia um caçador de piratas. Mais controlável.


Ele é Esteban. Lord Blunt, o Mais poderoso bruxo do mundo, Senhor da Guerra e da escuridão. Agora, observa enquanto a sua esposa subia a vela do Esquive. Era pequeno, discreto e veloz… Se estivesse completamente operacional. Mas o casal não conseguiu se afastar de Hálcora antes de serem avistados pela Nova Guarda. Capitão Khao arremessou uma lança em chamas quase cento e cinquenta metros. Atingiu a vela, que durou um bom tempo, mas eventualmente os buracos das brasas a tornaram inúteis.

— A minha capa não é grande o bastante para cobrir… — diz Àquela, sem olhar para trás. — Ao menos cruzamos a corrente. Vamos alcançar o lado certo… más só temos impulso e correntesa.

— Sim. — a resposta de Lorde Blunt vem seca. — E quase um dia de caminhada fora do curso.

Há um breve silêncio entre os dois, pesado o suficiente para não ser ignorado. Eles estavam unidos pela sua causa nos últimos 17 anos. Temiam como a sequência da conversa parecesse troca de acusações. Estebán começou.

— Teríamos alcançado Bentho… se Khao não tivesse interferido. 

O nome permanece no ar por um instante.

— Você deveria ter me contado sobre Amellie. — Àquela retruca, por fim, mantendo o tom controlado. — Eu estava incentivando a amizade dos dois. Sabe como isso me faz parecer?

— Não era segredo meu para contar, e ela guardou o nosso até o dia de hoje. - A resposta é imediata, sem hesitação. Ele já não olha mais para ela. Sua atenção retorna a Hálcora, ao ponto exato onde perderam a vantagem.

— Bem, ao menos você me convenceu que Amellie é pior que Khao para Bentho... — A Dama do Arco ainda estava furiosa.  

— Eu esperava perseguição a esta altura… — Estebán desconversa. — Khao deveria já ter conseguido uma embarcação no porto.

Seus olhos se estreitam, calculando distâncias, tempo, possibilidades.

— A menos que não esteja nos seguindo. Tenha decidido ir atrás de Bentho... - O pensamento o preocupa um instante. 

— Estebán… — Àquela finalmente se vira. Sabia que a única coisa que Lord Blunt temia era não poder proteger ela ou o filho. A Esposa revela a implicância ante uma preocupação genuina. — VOCÊ sempre foi o alvo de Khao, não Bentho. Agora que deixamos o castelo, “Lord Edgy” é secundário. Ele deve estar lidando com os feridos… com os barris. Fazendo o trabalho dele.

— Não Khao. Não conosco tão perto. — Algo não fecha. A sensação vem primeiro, antes da lógica. Ele acompanha o rastro da Gladius Aeternum e percebe uma discrepância difícil de ignorar. — Ele poderia dividir forças para cuidar das casualidades. Enviar tenentes… Algo está prendendo Khao em Hálcora.

Então seu olhar desce para o rio.

Não é um gesto brusco, mas deliberado, como quem procura confirmar uma hipótese incômoda.

A água segue o curso normal, arrastando o esquife danificado sem resistência. Ainda assim, há algo errado. Ele não vê, mas reconhece a presença como reconheceria um feitiço mal executado ou uma armadilha antiga.

— Sinto ... O perigo nessas águas. — murmura. — Khao só nos deixaria fugir se algo mais urgente estivesse acontecendo... Hálcora terá a proteção de Khao e seus tenentes. Você tem a mim... mas Bentho...



30 de abril de 2026

Major Fracture M&M 3ª

 



Elias Vargas.

CLASSIFIED

MAJOR FRACTURE

FILE: MF-11 | STATUS: ACTIVE | DESIGNATION: MULTI-ENTITY COMBAT UNIT

"THE ARMY OF ONE MAN"

ABILIDADES

STR 5
STA 6
AGI 4
DEX 3
FGT 8
INT 3
AWE 4
PRE 2
      

DEFESAS

DODGE     10
PARRY     11
FORT      10
WILL       9
TOUGH      8
      

ATAQUES

UNARMED STRIKE   +14 | DMG 5
FRACTURE BURST   AREA | DC 21
      

PERÍCIAS

ATHLETICS        +13
CLOSE COMBAT     +14
RANGED BURST      +9
MILITARY EXP     +13
INSIGHT          +10
PERCEPTION       +10
INTIMIDATION      +6
      

VANTAGENS

LEADERSHIP
TAKEDOWN 2
TEAMWORK
POWER ATTACK
ACCURATE ATTACK
IMPROVED INIT
ASSESSMENT
FEARLESS
DIEHARD
      

PODERES

[DUPLICAÇÃO TÁTICA]
DUPLICATION 8 (HEROIC, MENTAL LINK)
> ATÉ 8 UNIDADES ATIVAS
> CONSCIÊNCIA COMPARTILHADA
> OPERAÇÃO AUTÔNOMA SINCRONIZADA

[DESCARGA DE FRATURA]
DAMAGE 11 (AREA BURST, TRIGGERED)
> ATIVA NA GERAÇÃO DE DUPLICATAS
> INTENSIDADE ESCALÁVEL

[REABSORÇÃO]
REGENERATION 5 + HEALING 5
> RESTAURA DANO E FADIGA
> REQUER ABSORÇÃO DE UNIDADE

[REDE DE CONSCIÊNCIA]
SENSES (MENTAL LINK)
> PERCEPÇÃO DISTRIBUÍDA TOTAL
    

MF-DOSSIER//PL11//TACTICAL-EVALUATION//MULTI-ENTITY-SUPERIORITY//AUTHORIZED-PERSONNEL-ONLY// DATA-FRAGMENT-LOG: A7X-9912-BR//VISUAL-INTEGRITY: PARTIAL//REDACTED//REDACTED//

24 de abril de 2026

[Edgelord] Rave

 











22 de abril de 2026

DICAS PARA MESTRES #06

 Negociação em D&D além do “passou/falhou”

uma adaptação inspirada em Draw Steel

Como estou de férias num resort, nãontem EDGELORD esta semana.


Se você já mestrou ou jogou D&D por algum tempo, provavelmente já esbarrou em uma situação estranha: a narrativa aponta claramente para um resultado… mas o dado decide o contrário.


Eu já passei por algo ainda mais extremo.


Em uma campanha, o grupo chegou a um hub e precisava de uma informação essencial. Encontramos o NPC certo — alguém que tinha a informação e queria compartilhá-la. Ainda assim, por força do hábito, o mestre pediu um teste de Persuasão. Rolamos mal. Resultado: o NPC simplesmente não nos ajudou e uma sidequest inteira foi perdida.


Esse tipo de cena não é raro, especialmente com mestres menos experientes ou muito rígidos com regras. Mas ele revela um problema importante: o uso inadequado dos testes sociais.


Aliás, eu já abordei o básico de interações sociais neste outro texto:

Dragão de Plutônio: D&D 5e. - Como conduzir interações sociais

Considere este artigo o Advanced dele.


Aqui, quero ir um passo além e propor uma adaptação prática para D&D inspirada em sistemas mais modernos, como o Draw Steel, que tratam negociação de forma mais narrativa e menos binária.


---


O problema: quando o dado quebra a história


O erro central naquele exemplo foi simples:


«Não havia incerteza real.»


Se o NPC queria ajudar, o teste não deveria determinar se a informação seria dada, mas sim como isso aconteceria.


Testes sociais em D&D muitas vezes são tratados como interruptores:


- passou → acontece

- falhou → não acontece


Isso funciona para ações físicas, mas falha ao lidar com comportamento humano.


---


Princípio fundamental


Só peça rolagem quando houver risco real e consequências interessantes.


Se o resultado óbvio da cena já está claro, não role dados. Resolva na ficção.


---


A adaptação: negociação com graus de sucesso


A seguir está uma forma simples de adaptar negociações em D&D para algo mais robusto e narrativo.


1. Escolha o atributo e a perícia


- Carisma (Persuasão) → convencer, negociar

- Carisma (Enganação) → mentir

- Carisma (Intimidação) → pressionar

- Sabedoria (Intuição) → entender o outro


Regra prática:

Quem influencia usa Carisma; quem resiste pode usar Intuição.


---


2. Defina a atitude do NPC


Antes de qualquer rolagem, como falei no Artigo original:


- Amigável → CD 10

- Neutro → CD 15

- Hostil → CD 20+


Ajuste conforme o contexto:


- Pedido absurdo → aumenta a CD

- Boa argumentação ou vantagem narrativa → reduz a CD ou joga com vantagem.


---


3. Use graus de sucesso


Em vez de “sim ou não”, use margens de resultado:


- +10 ou mais → sucesso completo

- +5 a +9 → sucesso com benefício extra

- 0 a +4 → sucesso com custo

- −1 a −4 → falha

- −5 ou menos → falha com consequência negativa


---


4. Nunca bloqueie conteúdo essencial


Se a informação é necessária para a história avançar:


- o grupo sempre obtém a informação

- o teste define qualidade, custo ou consequência


---


5. Falhas também movem a história


Uma falha não deve travar o jogo, mas complicá-lo:


- informação incompleta

- informação enviesada

- custo inesperado

- criação de novos problemas


---


Revisitando o exemplo (versão corrigida)


Mesma situação:


O grupo encontra um NPC disposto a ajudar.


Em vez de rolar para “ver se ele ajuda”, o mestre pede um teste para definir como isso acontece.


Possíveis resultados:


- Sucesso alto → o NPC fornece tudo + detalhes extras

- Sucesso normal → fornece a informação necessária

- Sucesso com custo → ajuda, mas exige algo em troca

- Falha → fornece a informação, mas incompleta ou imprecisa

- Falha crítica → fornece a informação, mas cria complicações


A sidequest não desaparece. Ela muda de forma.


---


Negociações em múltiplas etapas (opcional)


Para cenas mais importantes:


- limite a 3 testes

- cada teste altera a posição do NPC

- o resultado final define o desfecho


Isso cria uma dinâmica dramática sem transformar a cena em combate.


---


O maior ajuste aqui não é mecânico, mas conceitual:


«O dado não deve decidir se a história acontece, mas como ela acontece.»


Quando você aplica isso, negociações deixam de ser obstáculos arbitrários e passam a ser ferramentas narrativas.


E, talvez mais importante, você evita momentos como aquele que eu descrevi no início — quando um NPC disposto a ajudar simplesmente… decide não ajudar por causa de um número ruim.


Isso não é desafio. É ruído.


E RPG bom não precisa de ruído para criar tensão.

14 de abril de 2026

[Edgelord] Mito de formação: O Nascimento da Montanha Morta

 A Agonia da Fera Colossal: 

O Nascimento da Montanha Morta


Nos tempos em que os Deuses ainda caminhavam entre os homens, e o horizonte não era uma linha, mas uma fronteira viva, erguia-se a Guerra dos Dois Horizontes.

E nela, dois nomes eram mais temidos que exércitos:

Aetíades e Bophades, os Irmãos do Limiar.

Enquanto pisassem o solo de Chiller, eram inquebráveis. Não apenas fortes, mas parte da própria terra. Ferir um deles era como tentar cortar o vento com lâmina.

Os invasores de Hel-thor entenderam cedo:
não venceriam os irmãos… lutando honestamente.

O Estratagema de Hel-thor


Do além-mar, trouxeram algo que não deveria existir.

Uma criatura colossal.
Antiga. Silenciosa. Paciente.

Um titã de carne e pedra que dormia de olhos abertos, cuja pele imitava montanhas e cujas costas podiam sustentar florestas inteiras.

Eles a posicionaram na foz do grande rio.

E esperaram.

Quando o chamado da batalha ecoou, Aetíades e Bophades avançaram — confiantes, como sempre foram. O chão sob seus pés era firme.

Mas não era Chiller.

Era carne estrangeira.

O Primeiro Sangue


Naquele falso solo, pela primeira vez, lâminas encontraram carne divina.

E o impossível aconteceu.

Os Irmãos sangraram.

O impacto não foi apenas físico — foi um abalo no próprio tecido da guerra. Durante eras, Aetíades e Bophades haviam sido absolutos, intocáveis, quase conceitos em forma de guerreiros.

Agora… eram carne.

Mas os invasores cometeram um erro fatal.

Porque os Irmãos do Limiar não eram invencíveis apesar da batalha.

Eles eram invencíveis por causa dela.

O sangue caiu quente sobre a superfície da criatura.
E, junto com ele… veio a fúria.

Não uma fúria cega — mas algo mais antigo. Mais profundo.
Uma resposta primordial à violação.

Eles lutaram feridos.
E por isso lutaram com o dobro de fúria.

Cada golpe carregava dor.
Cada movimento, resistência.
Cada respiração, uma recusa em cair.

Se antes eram como a terra — firmes e eternos — agora eram como um vulcão em ruptura.

Imparáveis.

A criatura sob seus pés começou a reagir, intoxicada pelo sangue divino. Seu corpo colapsava enquanto os irmãos avançavam, não recuando um único passo.

Os inimigos, que haviam esperado ver deuses sangrarem…
testemunharam algo pior:

Deuses que sangram — e ficam mais fortes por isso.

E assim, mesmo feridos, mesmo pela primeira vez vulneráveis…

Aetíades e Bophades venceram.

Não porque não podiam cair.

Mas porque, naquele momento,
se recusaram a cair com uma fúria que o mundo ainda não havia visto.

A Queda da Fera

A fera estremeceu.

Não de dor comum, mas de rejeição absoluta.

O sangue dos Irmãos do Limiar era puro demais, antigo demais, real demais para aquele corpo que não pertencia àquele mundo. Era veneno. Era sentença.

A criatura morreu lentamente, em convulsões que dobraram o horizonte e rasgaram o rio.

A Montanha Morta

Quando o titã cessou seus movimentos, seu corpo não desapareceu.

Ele ficou.

E apodreceu.

Sua pele escureceu até um negro opaco, frio ao toque, como se a própria morte tivesse se solidificado ali. Seus sulcos se encheram de água parada, dando origem a pântanos densos e venenosos.

Assim nasceu a região que seria temida por eras:

A Montanha Morta

O Ferro Frio e o Ferro Quente

Da carcaça da criatura, dois legados surgiram — opostos como os próprios horizontes em guerra.

Ferro Frio

Seus ossos fossilizados se tornaram um metal negro, pesado e silencioso. Um material que não refletia luz… e parecia devorar magia.

Armas feitas dele não brilhavam.

Elas apagavam.

Foi com esse ferro que Blunt ergueu a Torre Alta — uma prisão feita não para conter corpos, mas para sufocar o próprio espírito. Diz-se que suas paredes ainda sussurram com ecos da fera que lhes deu origem.

Ferro Quente

Onde o sangue dos irmãos se acumulou, o minério reagiu.

Não esfriou.

Nunca.

Ali, o ferro pulsa, como se tivesse coração. Vermelho nas profundezas, vivo, instável — carregado de um poder que não pode ser forjado sem sacrifício.

Hamme, a Armeira de Hatamon, foi a primeira a compreender o segredo:

Somente o sangue dos aasimares herdeiros de Aetíades poderia despertar o ferro adormecido… e transformar ferro frio em ferro quente.

Foi assim que nasceu a lendária armadura:

Vigília Sombria

Não apenas proteção.
Mas memória viva da guerra.

EDGELORD - ARCO DA LEDGYÃO - EPÍLOGO




 A balsa de peixes subia o rio. nós achamos uma extensão mais tranquila para ficar, fora das vistas do rebocador.

Estávamos quase no meio do rio, onde a margem oeste era uma linha negra recortando o horizonte… a Montanha Morta. À leste, Hálcora já tinha desaparecido, como se nunca tivesse existido.

Amellie dedilhava o alaúde. Pequenas músicas mágicas, quase distraídas. Ajudavam a relaxar.

Mas quando o silêncio se firmou de vez, o mais improvável dos bardos tomou a manhã para si.

- ... E então... - Xiatrro contava aquela história em que Cahuters colocou Capitão Lizzo para lutar contra um lagarto elétrico que ignorava seus talentos. - Quando o lagarto morreu, eles abriram e viram que... NÃO TINHA NADA!

A história estava um caos. E está fora de contexto, sem coesão. Uma barda como Amellie deve perceber sem esforço, mas ela gargalhava mesmo assim.

— Acontece que o LAGARTO NUNCA teve reflexos de trovão! — Xitarro conclui, triunfante. — A culpa disso era…

Uma breve pausa combinada.

- CAHUTERS! - urramos todos, sorrindo. Depois, escarramos e cuspimos. 

— E Bentho lhe contou essas histórias todas em uma noite no Olho da Maré?! — Amellie pergunta, entre risos.

— Quando eu estava em Forte Jian, chegou um cadete daqui de Hálcora cheio de aventuras de Barbasuja, Ben Filler, e Capitão Lizzo. — explico. — Eram divertidas, nem pensava que essa gente saqueava navios e cidades costeiras. Era só... aventura livre no mar.

— Vamos cogitar trocar o projeto “Ledgyão” por um navio? — ela pergunta, ainda dedilhando, como se a ideia fosse metade brincadeira, metade tentação.

— Ah, Xitarro não sabe nadar, e minha armadura é uma âncora. — respondo. — Quero muito ter uma aventura pirata um dia… mas precisamos nos firmar em terra primeiro. E, para isso…

Eu saco Gladys.

— A senhora deve ter algo para nos falar, não é?

A tensão tinha diminuído o bastante. estávamos fora de perigo. Então, era hora de ver o que deu tão errado.

— [Bem…] — Gladius Aeternun começa, hesitante. — [Existe uma chance… não zero… de que Lord Blunt esteja nos rastreando, já que ele tem um pacto comigo anterior ao seu.]

— Gladys confirmou. — traduzo. — Meu pai está nos rastreando.

— E por que ela não avisou antes? — Xitarro pergunta.

Eu ouço e repasso.

- Ela diz que "Estebán" estava preso ao castelo e achou que jamais sairia... E... Ela me insultou com algo sobre "ela poderia ter esperado mais".

- Nossa organização não vai prosperar se um inimigo como Estebán puder sempre nos encontrar. - Amellie toma a dianteira. - Espada… consegue romper a ligação com Blunt? 

Eu espero ela responder.

— [Eu não posso cortar unilateralmente. Mas, se ele perder o sinal, estaremos livres. No Castelo Negro, ele me mantinha isolada com Ferro Frio nas paredes. E o Ferro Frio vem de… olhem para o oeste.]

Eu olho. Entendo.

A Montanha Morta… — digo. — Gladys acha que a Montanha Morta vai interferir na conexão de meu pai.

Amellie ergue as sobrancelhas.

— Certo. Eu conheço uma trilha até a Marca de Bearlord um dia rio acima. Tem alguns… inconvenientes, já aviso.

— Gladys diz que precisamos ir pelo subterrâneo. — continuo. — Estar cercados pelos veios originais de Ferro Frio. Precisamos ... atravessar as minas. E acho que vai ser pior que "inconvenientes"...

— Ela… disse isso? — Amellie estranha. Mas guarda o que quer que pensasse para si.

— [Bentho…] — Gladys hesita. — [Eu tenho a voz de Estebán? Ele é haltenor, sabia?]

— Não, Gladys. Não é a voz de meu pai... — eu resmungo desanimado.

— A espada está tentando descobrir de quem é a voz? — Xitarro se inclina, curioso demais. — Quem é, Bentho? Quem é?

— Pss… — Amellie corta. — Isso é pessoal.

Pois é.

Gladys nunca explicou direito quando eu ouvi a voz da minha mãe pela primeira vez. “A pessoa que mais respeitamos.”

Uma posição perigosa.

Agora… todos sabem.

Preciso encerrar isso. E sabia o que responder. Estive pensando bastante. Era minha equipe... Mesmo a mala da espada.

— Eu ouço… Khao.

— [Como é que falam nas academias? “maneiro, franguinho”?] — Gladys se intromete.

Xitarro franziu a testa, como quem tenta montar um quebra-cabeça com peças de outro jogo.

— O Capitão Khao? Mas… isso não faz sentido. Ele queria te prender. Igual à sua mãe. Por que não gosta de um e gosta do outro?

Eu solto um meio sorriso, desses que não chegam aos olhos.

Cruzo os braços. Inclino a cabeça. Explico.

— Não é igual. — digo. — Khao queria responsabilizar Lord Edgy. Não prender por prender… mas tratar como um homem que fez escolhas… e deve paga por elas... Eu não vou obedecer, obviamente, mas posso respeitar isso. Já a minha mãe… — dou de ombros — via um garoto. Um problema ambulante que precisava ser contido.

— Então é bom ser procurado? E quem caça a gente é… respeitável? — Xitarro pisca, lento. — Ser vilão e capanga é muito contraintuitivo... 

Aquilo claramente não era o tipo de diferença que ele costumava notar.

Amellie demora um segundo a mais do que devia.

— Uma voz te cobra. — ela murmura. — A outra te diminui.

Silêncio.

                Eu concordo com a cabeça.

Amellie estava quieta demais.

— Isso… — ela começa. — Isso é culpa minha.

— O quê?! — meu coração dá um salto curto demais. Será que ela ... — Amellie, eu não falei…

— Uma coisa que Estebán me disse… dois anos atrás, no Castelo Negro. — ela não me olha. — Que coisas ruins acontecem ao meu redor. Você vivia em uma feliz ignorância… seus pais eram o casal mais estável que eu já conheci… então eu me envolvo… e você… Lady Àquela é a pessoa mais doce que…

— Eu não odeio minha mãe. — corto, rápido demais. — Amellie, isso é só mais uma das nossas histórias… “Narrativas”. As pessoas achariam conveniente demais. Mas eu sempre soube que estaríamos em lados opostos. Eu até… — hesito — fantasiei como lidaríamos com isso.

Eu pisco.


Um balão de fuga.

Corda rangendo.

Lord Edgy subindo pelos céus de Shén-li.


A Arqueira Lendária chega atrasada.

— “Da próxima vez, Lady Àquela!”


E haveria outras.


Eu pisco.

Volto à balsa.

— Mas a gente resolve. — digo, mais para encerrar do que para convencer. — A mentira deles começou isso. A incapacidade de me entender alimentou isso. Eu vou superar. Só preciso de tempo… vou resolver. E preciso de você e Xitarro a meu lado.

— [Resolve?] — Gladys entra animada demais. — [Você vai é PAGAR POLICHINELOS, Escudeiro! Quero ver suor! Muito suor! Tom de comando!]

Eu respiro fundo — rápido demais — e, antes que ela continue, atiro a Espada Eterna no rio.

Xitarro se assusta. Quase salta atrás dela, mesmo sem saber nadar.

— Ele pode materializar a espada, Xitarro! — Amellie lembra, colocando a mão no ombro dele antes que faça algo ainda mais estúpido. — Acho que… está na hora de mais uma história de piratas…

—  Conhece alguma história de piratas, Amellie? — eu pergunto mais leve. Fizemos um progresso. E eles acreditaram no que eu falei. 

—  Porque não... Vivermos uma?


Um arpão colossal crava na lateral da balsa.


THUNK.


A embarcação inteira treme. Eu e Xitarro quase vamos para a água.


Amellie… nem pisca.


Uma embarcação surge na curva do rio, vindo da direção de Hálcora.


Rápida.

Direta.

Intencional.

Olho para o alaúde.

Olho para ela.

Era isso?

Ela estava… chamando?

Arranjando uma carona?

Claro que estava.

Claro que estava.



SEMANA QUE VEM: 
EDGELORD, OVA 01
O PIRATA SOLAR VS O HERDEIRO DA ESCURIDÃO!

10 de abril de 2026

EDGELORD - Cap. IX - Arco da Ledgyão

 Por um segundo achei que Hálcora, pérola valiriana, se tornaria um cemitério a céu aberto ou seria empurrada mar adentro... Ou ao menos coberta pela "Escuridão Enlouquecedora de Blunt". Eu não queria que isso acontecesse... mas agora eu até que preferia, considerando a alternativa.

A cidade pode perseverar. Eu estava condenado.

Vou adotar o "Qual é o seu ângulo?" como filosofia pelas próximas horas de vida em que estiver vivo. Enxergar o problema pelos olhos de alguém é excelente para entender o que fazer com seu projeto ou mesmo antever os passos de seus adversários.

Os cartazes contavam uma história.

Primeiro, eu fujo do Castelo Negro com o Arsenal de Lord Blunt. O Conselho Regente não  podia simplesmente anunciar isso sem causar confusões, admitir a "mentira conveniente" da fundação da Nova Guarda. Enquanto eu estava tentando galgar alguma luz em Huo-fen, eles devem ter tentado as formas "sutis" de me encontrar e apreender.

Quando tudo falhou, precisaram colocar meu rosto em um cartaz. Precisava formalizar a caçada humana.

Meus pais não devem ter ficado felizes.

Mas então, algo aconteceu. Balmon estava tentando abafar por algum motivo.

Os Corvos de Morval não vieram a Hálcora atrás de mim ou de Amellie, mas de Lord Edgy. E estavam muito melhor equipados. Balmon deve ter fornecido. Eu descobri que ele tinha alguma influência sobre eles. Tudo indica que me pegar parecia algo prioritário, e que escrúpulos seriam maleáveis, e Balmon era alguém que poderia fazer isso.

... Então, por que de repente ele quis amenizar? Por que, aos olhos de Huo-fen, Bentho só estava "desaparecido"?

Ele estava com medo de alguém. 

Meu primeiro pensamento foi o pior: Esteban, o verdadeiro Lord Blunt, teria deixado o palácio. O Senhor das Trevas e da Guerra. Balmon nunca escondeu o quanto o Levante o afetou. Se fosse o caso... Se meu pai estivesse envolvido, ele tinha poder para rasgar o continente. Pessoas iriam morrer. Isso seria terrível, não é?

Agora, descubro que foi só a minha mãe. Shen-li podia dormir tranquila. Quem ia morrer era eu.



— Lady Àquela, que-ri-da! — Amellie praticamente transfigura-se em uma dama sorridente e passa na minha frente. 

Minha mãe, Lady Àquela, estava tão focada em mim que só agora reconheceu nossa "professora de ópera" e detem seu avanço.

— V-você envolveu a Senhorita Amellie nisso?! — ela urra. Estava ainda no platô imediatamente antes de nós, a pouco mais de cem metros.

— Querida, visual retrô? Arrasando! — ela comenta. Realmente, minha mãe não estava usando a armadura da Nova Guarda. Eu mal notei. — Vejam todos! É a Arqueira Lendária! A Dama do Arco está em Hálcora!

Amellie pensou rápido ante minha hesitação. E foi brilhante.

Ela deve ter usado algum truque sutil. Sua voz foi projetada em alguns pontos, e a presença da "celebridade" foi notada. Hálcora estava cheia. Era uma manhã agitada. As pessoas começaram a andar encantadas e surpresas. Primeiro um ombro empurrado, depois um passo hesitante, até que o fluxo natural da avenida se fechou ao redor dela.

— Certo, Edgy, preciso de sua atenção... — Amellie, vendo que conseguiu atrasar minha mãe, se volta para mim. — Precisa decidir... Sei que é algo muito pessoal, mas é hora de agir. E eu estou com você.

— O quê?! — ainda não fazia sentido. Aquela roupa. A mesma do quadro no salão. A versão dela que derrotou Lord Blunt. — Isso é… sério? É Àquela contra Edgy? Agora? Ainda no Segundo Arco?!?

— Se escolher lutar, nós lutamos. Se quiser fugir, vamos nessa! — Amellie estava sendo a sóbria da dupla. — Mas, um ou outro, não podemos ficar aqui embaixo. Sua mãe é uma arqueira em terreno elevado, com linha de visão. O mando de campo aqui é dela... E muitos civis podem levar um raio ou flecha por acidente. Precisamos colocar a luta em nossos termos, em nosso terreno.

— T-tem razão. Me segue. — comecei a me mover. — Média distância favorece ela. Eu e o Xitarro fomos emboscados num beco aqui perto, talvez—

Eu já havia andado uns bons cinco metros, quando percebo que Amellie não estava me seguindo.

Olho preocupado. Minha mãe ainda estava lá, cercada por "fãs". Mas não estava impressionada. O fato de não estar berrando conseguia, paradoxalmente, me deixar mais preocupado.

— Amellie?!

A barda estava parada em um passo. Boca semiaberta.

— O que foi que...

Eu me aproximo.

Os olhos dela mexiam freneticamente, mas nada mais. Ela não falava... Não respirava.

Estava paralisada.

E eu sei que minha mãe até tinha flechas que emulavam efeitos. Mas não foi ela...

— Essa ... Não pode ser...

Eu me coloco na frente de minha capanga paralisada e encaro minha mãe. Minha mente correu pelas possibilidades.

-> ouça esta parte ao som do tema de Lord Blunt

Flechas especiais de outro arqueiro oculto.

Artefatos.

Capitão Achima... Outro usuário de magia.

Qualquer coisa.

Qualquer coisa seria melhor do que—


Meu Pai é o Maior Vilão do Mundo... E ele está aqui.

Pessoas querendo olhar Lady Àquela esbarravam em Estebán, ignorando que estavam no caminho de Lord Blunt. Mas a mão firme dele mantinha um feitiço de concentração em Amellie... 

— [Saiba que eu vou colocar a culpa toda em você, Bentho] — fala Gladys. Se era para ser engraçada ou séria, irrelevante.

— "Eu ouvi isso..." — era a voz de Blunt. Ele estava telepaticamente no nosso "canal". O que isso significava? - Eu só vim buscar o que é meu.

Mais um para atrapalhar o monólogo?

— Bentho... Ou você sobe até aqui, ou NÓS DOIS vamos até aí, e só vai ser pior! — minha mãe fala, apontando para mim. — Sua escolha, rapazinho!

— Só se afaste da barda! — Meu pai fala pontualmente. - Devagar!

Eles não acertaram alguma coisa, porque eu vi quando minha mãe olhou confusa para ele.

— Esteban, sério? Vamos focar em disciplinar nosso filho antes de...

— BLUNT! ÀQUELA!!

Como... COMO tudo poderia ficar ainda pior?!?

-> Leia esta parte ao som da Nova Guarda 

Meu pai não reagiu, mas minha mãe sacou duas flechas, armou o arco e voltou-se para trás deles.

Para o topo da ladeira, imediatamente à frente da fábrica de barris.


Era capitão Khao, O Punho de Concreto, o Colosso das Montanhas Castanhas, surgindo com os raios do sol no topo da ladeira, acima de todos. E com ele um pequeno coro da Nova Guarda... Todos eles tenentes de primeira linha. 

— E ainda me trouxeram ao infame Lorde Edgy! — ele gargalha convencido. — E nem é meu aniversário ainda! O seu é na quinta, não é, Bentho?!

— Fique FORA DISSO, Khao! — Lady Àquela urra.

— Senão o que?! Vai furar meus pés de novo?

"De novo"?

— Amellie... eu realmente preciso de sua ajuda aqui... — eu sussurro.

Os olhos dela sinalizavam algo, mas era impossível interpretar.

— Àquela... Livre-se dele... — Meu pai comenta. — EU posso fazer isso, mas não sem causar um estrago enorme.

— Solte a professora de ópera e use sua "mão mágica" em Khao! — ela resmunga.

— Jamais.

Minha mãe encara a surpresa.

— Khao tem duzentos quilos e ameaça afundar sua cabeça com um punho de concreto há dezessete anos. O pior que senhorita Amellie fez foi criticar meu Cortilion...

— Amellie é mil vezes mais perigosa do que Khao jamais será! — meu pai fala. 

"Lord Edgy!" — urra o capitão do alto da ladeira. Ele tinha a vantagem de posição… não que isso importasse se meu pai resolvesse usar Loucura Sombria ou um banimento em massa. — Você vai subir aqui e se entregar à Nova Guarda! Vai receber o castigo como um homem! Eu ensinei você melhor do que isso, escudeiro!

O pior é que era verdade.

— Os PAIS DELE vão resolver isso! — minha mãe avança um passo, abrindo espaço à força. — Já falei! Este é o seu último aviso!

Nada intimidava Khao. Mas aquilo fez o batalhão recuar.

Por causa dela. Eu travei a mandíbula.

Khao me chamava de escudeiro. Errado… mas justo. Estava me responsabilizando.

Ela não.

Para ela, eu ainda era um rebelde sem causa a ser resolvido.

- [Suas opções são .... SHCKAAARRR" ,;.,;;, [~]´l ~ç,~~ç lç,

Um zumbido alto. Gladys estava falando e, de repente, ouço um chiado doloroso. 

Eu me encolho cobrindo a têmpora.

Percebo que meu pai reagiu também. Sentiu algo em Gladys. Infelizmente, não o bastante para libertar Amellie... 

E... O que seria do circo sem um palhaço?

Passando na frente da Nova Guarda, empurrando um enorme carro de feira, surge Xitarro.

Ele estava alheio a todos.

Passa entre minha mãe e meu pai pedindo "com licença".

E para na minha frente.

— Achei vocês! — ele fala com leveza. Àquela altura, tanto Khao quanto Lord Blunt estavam de olho nele. 

— Xitarro... agora não...

— Você falou "carro de fuga"... — ele ignorava o nosso aperto. — Isto é um "carro de repolho". Começa com "Carro". Será que serve?

— Xitarro... Amellie e Gladys estão fora de ação — aponto a barda com a cabeça. — E, no meio da ladeira, o casal simpático com quem você falou... São meus pais!

— Seu país?! — ele abre um sorriso, volta-se para eles acenando. — Oi, pais do EDGY! Eu sou o capanga do seu filho!

Bom saber! — urra Khao. — Vai fazer companhia a ele na cela!

— Sujeito simpático... — Xitarrro fala apontando para o Colosso. — E é enorme! O que aconteceu com o braço dele?

— Por favor, Xitarro... — eu rosno entre meus dentes. Um ruído indecifrável ainda emanava de Gladys. — Aquele é capitão Khao da Nova Guarda, e acho que quer prender todo mundo aqui. Meus pais não estão no nosso time. E uma batalha devastadora vai acontecer, e esta é a pior hora para ficarmos...

Xitarro era ingênuo.

Mas, de sua forma simples, sábio.

E, acima de tudo... era rápido.


O "carro de fuga" é chutado para a frente. Amellie já estava nele quando eu percebo. Eu sou empurrado e caio em cima, enquanto Xitarro simplesmente avança.

Lord Blunt, o maior vilão do mundo, tenta trocar a "hold Person" de Amellie e focalizar em meu capanga... Não consegue. Xitarro era um borrão. Um relâmpago vivo. Agora, o carro rodava ladeira abaixo, na direção da enseada.

Ato contínuo, Lady Àquela dispara duas flechas. Elas viajam anguladas, com um arco voltaico elétrico entre elas. Iria atingir todo o batalhão da Nova Guarda.

Khao adianta-se.

Estende o antebraço petrificado de forma defensiva bem no meio das flechas. O arco é interrompido, e o capitão parecia incólume. As flechas colidem com um "thuck" em algo além do batalhão.

— Você errou! — O capitão provoca-a.

Isso faz meu pai olhar para trás e se assombrar.

— Àquela ... Eu... Pensei que você não queria que EU matasse o Khao! — ele fala, olhando para a cidade, ladeira abaixo. — Ou que EU destruísse a cidade...

Aquilo atiça a curiosidade. Khao olha para trás.

A Nova guarda nunca foi o alvo.

um estalo seco de madeira tensionada sendo subitamente forçada além do limite. A carga empilhada diante da fábrica — barris recém-vedados, pesados de líquido e pressão — respondeu ao choque elétrico das flechas supostamente erradas, como um organismo acordando de forma violenta demais. A primeira fileira cedeu, os aros rangendo alto, e por um instante impossível tudo pareceu hesitar, como se a gravidade ainda estivesse decidindo se deveria agir.

Como um palácio de cartas, dezenas de barris e toras de escoramento caem sobre o batalhão, causando uma avalanche no topo da ladeira de Hálcora.

Antes de serem eles mesmos atingidos, meu pai envolve a cintura de minha mãe com o braço e dá um passo nebuloso, desaparecendo do caminho. 

-> Ouça esta parte ao som de Humor


— Ai  minha cabeça... — Amellie resmunga, recuperando o controle do próprio corpo. 

— Xitarro! Olhe para trás! — eu grito. — Não, Para a Frente! E ... Não! 

Saiam da frente! — Amellie usava algo que ampliava sua voz em um alerta. Era mais para nós não batermos em transeuntes ladeira abaixo, mas talvez salvassem algumas vidas.

o som chegou primeiro como um presságio e depois como certeza. A multidão se fragmentou em direções conflitantes, gritos substituindo o burburinho cotidiano, pessoas sendo empurradas pela urgência de sair do caminho sem saber exatamente para onde ir. O cheiro de vinho e óleo se espalhou rápido, misturado à poeira e ao sal do ar costeiro, enquanto os primeiros barris atravessavam o espaço onde, segundos antes, tudo ainda parecia sob controle.

E no meio disso tudo, o carrinho de feira arrancava, leve demais para competir, mas rápido o suficiente para escapar do pior da descida, carregando consigo não só a fuga improvisada, mas o ponto exato em que o impasse se rompeu de vez.

Lá em cima, onde a avalanche começara, já não havia mais formação, apenas sobreviventes tentando recuperar posição entre destroços e líquido escorrendo. E mais importante do que o dano imediato era o que ficava claro para todos os lados envolvidos:

aquilo não tinha sido um acidente.

Foi escolha.

E, a partir dali, ninguém mais estava parado.

Xitarro salta agilmente do carro, e começa a empurrar, aumentando a velocidade. Logo estávamos a uma distância segura... mas ainda em linha reta. Depois da enseada, só tinha o mar.

Eu via, na visão periférica, meus pais ressurgirem em um telhado próximo. Acho que estávamos ao alcance deles, mas nos atrasarmos por flechas ou magia significava sermos avassalados pelos barris e morrermos. E eu não sairia dessa tão fácil.

Quando o caos não poderia ser maior, percebemos que Capitão Khao, com um saldo impossível, emerge da avalanche. Mas aterrisa em um barril que rolava adiantado... Mas, com um equilíbrio impressionante, ele se mantém em cima, rolando com os pés.

— Esse cara é implacável! — Amellie comenta. 

— Xitarro, precisamos despistar o grandalhão! — eu urro, vendo que o catfolk tinha controle de nosso "carro de fuga".

— Despistar, certo — ele fala. — O que isso quer dizer? "Des ... Pis"...

— Qualquer coisa que faça ele não estar atrás da gente! — eu urro. 

— Certo. Volto já.

— Você o quê?!?

Xitarro dá um novo empurrão no carro e se afasta, e eu e Amellie estávamos nos segurando por nossas vidas num vagão desgovernado. 

Xitarro diminui a própria velocidade até emparelhar com a avalanche e vai... Conversar com o capitão Khao.

— Oi, bom dia... — ele fala. 

Khao estava controlando as passadas. Xitarro corria de costas. Devia estar tão confuso quanto nós.

— O que, em nome de Bophades, é isso?!? - ele resmunga.

— Senhor, poderia fazer um favor? — Xitarro falava, tranquilo e educafo. — Meu chefe precisa que você não nos siga por alguns minutos, poderia ser? Por favorzinho?!?

— Você é LOUCO?!? — Khao urra. — Já sei! Está "flexionando" sua velocidade, não é?! Você sabe com quem está falando?!

— O patrão falou um nome com "K", perdão, eu não peguei! Meu nome é Xitarro, mas atendo por "Fera". - ele estende a mão em cumprimento.

— Eu sou CAPITÃO KHAO! — O bárbaro nele rugia. As veias saltavam de seu pescoço em fúria. O barril abaixo dele começava a rolar mais rápido, afastando-se da avalanche. — O COLOSSO DAS MONTANHAS CASTANHAS! E eu sou MONGE também! Acha que é veloz, rapazinho!?

O barril trincava com o peso e a pressão que agora o colosso aplicava. 

O punho de concreto estendido, como uma quilha, melhora o equilíbrio. Cada vez mais próximo de Xitarro.

— Vou seguir você até O FIM DA TERRA!!! — ele salivava e urrava. Aplicava chi, fúria, cada iota de sua tremenda força para avançar. Ele era extraordinário.

— Bem... eu tentei.

Xitarro vira de costas, fica de quatro e... desaparece com o dobro da velocidade. Nem era uma disputa.



— BENTHO!!! — Amellie urrava.


— EU SEI! — Eu urrava.


— A ENSEADA! A ESTRADA ESTÁ ACABANDO! — Ela insistia.


— Eu estou no MESMO CARRO que você! — grito com raiva.


[#@$%¨#$¨%*&¨&#*] — chiava a espada em minha cabeça.


— Desculpa, Edgy, ele disse não. — Xitarro retorna, recuperando o controle. — Segura aí!

Com Xitarro controlando, nós viramos noventa graus à direita em uma ruela pouco antes do fim da avenida. 

Capitão Khao passa direto. Olhando assombrado para nós. Ele não tinha como fazer a curva.

Logo depois, a avalanche de barris, troncos e tenentes da Nova Guarda.

A enseada, enfim, chega. Khao rola por cima de um cais, que adentra mar adentro e, quando o cais acaba, é lançado ao mar.

Mal pode se levantar e viu o inferno de barris que o seguia. Ele precisa afundar nas águas para se proteger.

— Xitarro... — eu urro. — Olha para a FRENTE!!!

Havia uma carroça maior que nosso "carro de fuga", que acaba virando uma rampa.

Nós voamos.

Passamos por outro píer, na direção da Boca do Rio, e aterrissamos em um monte de peixes. Xitarro, felino, cai de pé. Amellie consegue um rolamento gracioso, amortecido pelos peixes.

Eu afundo como uma barra de ferro.

Uma sardinha entrou na fresta de meu elmo. O fedor é impressionante Preciso me desenterrar.

Arranco o elmo.

Estávamos em uma balsa de peixes, rebocada por um barco menor. Algumas dezenas de metros dos piers de Hálcora. 

Eu vejo meus pais em um telhado. Estávamos fora do alcance deles.

Amellie coloca a mão em meu ombro.

— V-você viu o que ela falou? — eu pergunto. 

— [Ela quer te botar de castigo e sem jantar... Que coisa ridícula].

— Como é?!? — eu pergunto.

— Como é o que? — Amellie estranha.

— Você não falou algo?

— Eu não. — ela afirma.

— Xitarro?!?

— Eu posso comer um peixe? — ele pergunta. — Perdemos o café da manhã...

— Eu ouvi alguém falando comigo...

— [Ah, então você voltou a me ouvir, Bentho?!?]

Eu puxo a Espada Eterna.

— Gladys?!? — eu estranho. — Por que você mudou de voz?

— [Eu já falei, a voz não é escolha minha... é sua] — ela resmunga. — [Estou soando diferente?]

Eu baixo a espada.

— Gladys não tem mais a voz da minha mãe.

Amellie leva a mão à boca.

— Bentho... Não...