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4 de julho de 2026

EDGELORD - Cap. X - Arco da Montanha Morta


 A montanha continuou rugindo, ecos da avalanche.

Não era mais um desabamento, mas um animal colossal terminando de respirar.

Pedras menores ainda desciam pelas encostas, ricocheteando umas nas outras antes de desaparecer no vale.

Três quilômetros adentro, pelos corredores, minas e salões esquecidos, a vibração alcançou Estebán e Lady Àquela.

Os dois aceleraram o passo.

Aquilo não parecia um acidente.

— Estebán... — perguntou a arqueira. — Alguma armadilha?

— Não...

A resposta saiu rápida demais.

Não havia nenhuma armadilha naquele trecho.

Pelo menos... nenhuma.

Nos primeiros dias como Lord Blunt aprendera que fortalezas raramente caíam para invasores. Quase sempre caíam para seus próprios ocupantes. Hobgoblins obedeciam. Orcs, mercenários e homens, nem sempre.


Foi por isso que construiu o Salão da Derradeira Paz.


O aposento mais confortável de toda a masmorra.

Também o mais mortal.


Bastaria um único comando para fazer a montanha inteira desabar sobre quem estivesse ali.

Mas era impossível.

Não bastava conhecer o mecanismo. Era preciso reunir uma sequência de condições que só ele dominava.

Gladius Aeternum poderia descobrir o gatilho?


O restante...

Não.

Não havia como.

Caminharam mais um quilômetro.


A poeira engrossava o ar. Fragmentos de rocha ainda caíam do teto. Cada passo trazia um novo tremor, menor que o anterior, mas suficiente para lembrar que a montanha ainda se acomodava.

Estebán parou de procurar explicações.

Restava apenas uma.

Alguém havia fechado o Salão da Derradeira Paz.




— Beba, Bentho.

Abri os olhos sem entender onde estava.

Amellie segurava um frasco vazio. O gosto amargo ainda estava na minha boca.

Limão? Não...

Poção de cura.


A avalanche!


Sentei num salto. Conjurei Gladys por instinto.

— [Seu idiota! Você resolveu se matar junto?] —  Ela berra para mim.

— Calma! — Xitarro ergueu as mãos para me acalmar. — Você abriu a cabeça. Espere a porção fazer efeito!

Ele estava sentado sobre um cobertor, desfazendo um torniquete improvisado na própria perna. Ao lado dele, dois frascos vazios de poção.

A perna parecia quase normal.

Olhei em volta. A lona vermelha envolvia tudo. Havia tapetes no chão, uma chaleira soltando vapor num canto e um saco de dormir tão largo e macio que mais parecia uma cama.

Era... aconchegante. Espaçosa...

Muito aconchegante. Até elegante.

Agora eu entendia por que Amellie nunca deixava ninguém entrar ali.

— Onde estamos?

— Na minha barraca. — ela respondeu baixinho.

Franzi a testa.

— ... Não.

Apontei para o teto.

— Estamos soterrados?

— Tecnicamente... — ela mordeu o lábio.

— Mostra pra ele. — interrompeu Xitarro, cruzando os braços.

Amellie suspirou como quem aceitava uma sentença. Abriu a lona da entrada. Do lado de fora... rochas. Só rochas.

Uma parede cinzenta compactada onde deveria existir um mundo. As rochas pressionavam a barraca por todos os lados. Mesmo assim...

Nenhuma delas entrava.

Ali dentro fazia uma temperatura agradável. O ar era limpo, e nem poeira havia.

Fechei a lona devagar. Assombrado.

... — Olhei para Amellie. Eu abri a boca e gesticulei... mas NADA saiu de minha boca.

— Eu posso explicar. — Ela ergueu um dedinho.

— Espero sinceramente que possa. - Xitarro resmunga... Nunca o vi agindo assim.

Ela coçou a nuca.

— Lembra quando atravessamos o pântano?

Xitarro respondeu antes de mim.

— O das moscas.

— Isso.

— Das sanguessugas.

— Isso.

— Dos zumbis.

— Isso.

Ele apontou ao redor.

— E aqui dentro tava quentinho e cheiroso.

Desculpa. — Amellie baixa o semblante.

— Eu fui picado em lugares muito pessoais. — Xitarro insiste.

— Eu sei... — Ela cobriu o rosto.

Respirei fundo.

— Então... — eu insisti que ela confessasse.

— Então… todas as vezes que acampamos... Eu conjurava uma Tiny Hut dentro da barraca. — ela explica. — Minha magia mais poderosa.

— Antes de qualquer coisa... isto é incrível. — Apontei para a lona. — Agora...

Cruzei os braços.

— Vamos conversar sobre a parte em que você nunca compartilhar.

Ela apertou as mãos uma na outra.

— Sabe quando você conhece uma pessoa... E não sabe se a amizade vai dar certo...

Assenti.

— ...aí você esconde uma coisinha. Só por garantia.

Continuei ouvindo.

— Depois... dá tudo certo.

Ela sorriu, constrangida.

— Só que aí passou tanto tempo que contar a verdade parece muito mais estranho do que continuar escondendo.

Olhei para Gladys.

Xitarro ainda parecia processar a injustiça das moscas.

Então respondi:

— ... Eu sei exatamente como é. — Eu respondi enfim. — Está tudo bem.

Amellie sorriu, aliviada.

Ela achou que eu estava falando da magia.

Não estava.

Porque eu também escondia uma coisinha. E, a cada dia que passava... Parecia tarde demais para contar.


O antigo salão da Derradeira Paz agora era apenas uma parede de pedras comprimidas.
O túnel havia desaparecido.

Lady Àquela passou a mão pela superfície irregular. Segurando o fôlego, temendo colapsar em choro se o soltasse de vez.

— Não sobrou entrada.

Estebán não respondeu. Fechou os olhos. Procurou.

Sob toneladas de rocha... uma presença.

Inconfundível.

Gladius Aeternum. Ela estava lá. Alguns metros à frente. Fazia quase dois meses desde a última vez que ele a ergueu, para salvar Bentho.

Seu coração acelerou.

— Encontrou alguma coisa? — Àquela percebeu.

Ele assentiu devagar.

— Gladius.

A arqueira respirou aterrorizada.

— Então Bentho... O que isso significa?

Estebán ergueu lentamente a mão.

Pela primeira vez em muitos anos...

Estebán intimamente rezou para fracassar.

— Gladius Aeternum.
    Eu sou Lord Blunt.
            Décimo Terceiro Portador.
    Venha.

O silêncio respondeu. A espada não veio.

Durante um segundo inteiro, Estebán apenas permaneceu imóvel.

Então soltou o ar que nem percebera estar prendendo.

— Graças a Aetíades...

Àquela franziu a testa.

— Você... Queria que ela não viesse?

— Se Gladius me reconhecesse, seria porque o Décimo Quarto teria perecido...

Ele abriu os olhos.

— Então Bentho ainda está vivo. — Estebán se senta, exausto.

Àquela retirou a pequena esfera mensageira do bolso.

— E Amellie?

Estebán balançou a cabeça.

— Se ela pudesse responder... já teria respondido. — Ele permite-se relaxar. — Ou não pode, ou não é conveniente para nosso complô, indicando algum controle da situação, mesmo que nós dois não concebamos "como".

Ela guardou a esfera outra vez.

Os dois voltaram a encarar a montanha.

Silêncio.

— Então abra um caminho. — disse Àquela. — O que está esperando?

Estebán apoiou a mão na pedra.

Sentiu seu peso.

Sentiu suas fraturas.

Sentiu os vazios escondidos em seu interior.

E retirou a mão.

— Você consegue! — Incentiva a esposa.

— Não é isso. Consigo até destruir esta montanha. — Olhou para a arqueira de forma pesarosa. — O problema é que Bentho pode estar do outro lado da primeira rachadura. Ou em um vão instável que colapsaria. Estou cego quanto a isso.

Àquela compreendeu imediatamente. Qualquer golpe errado... Seria o último.

— Precisamos encontrar o vazio antes da pedra. — Àquela observava as microfrestas.

Estebán fitou o maciço à frente.

— Precisamos de... Alguém que conheça a língua da rocha e sua natureza. Alguém com mente analítica e bons instintos... — O marido dá com os ombros. — Precisamos de alguém que saiba "ler" uma montanha.

Àquela completou:

— Como Rhoy. — ela concluiu também.

— ... E só nós dois não podemos mover com segurança essas pedras. — Estebán olhava para o chão com impotência. — E precisamos de mais mãos, em especial, fortes o bastante para remover toneladas de rocha sem derrubar o resto.

Silêncio.

Os dois permaneceram calados.

Porque ambos já sabiam.

— Khao.

— ...e os Tenentes.

Àquela sorriu de lado.

— Vai ser humilhante.

— Vai. — Estebán também sorriu. Ele olhou uma última vez para a montanha. — Eu vou engolir meu orgulho e me submeter, se isso os convencer ... Nos ajudar a salvar Bentho.

— Nós dois vamos. — A arqueira concorda. — Eu devo buscá-lo… Ou você?

— Ele suspeitaria de armadilhas, e não nos ouviria. — Estebán debruça-se sobre seus joelhos. — Melhor que chegue aqui e nos veja. Eles estavam em nosso encalço, devem chegar em breve.


— Bem, me diga COMO você tem magia para ERGUER uma montanha?!? — Xitarro abriu um buraquinho no teto da lona e tentou empurrar as pedras para cima.

— Não é a lona que faz o Tiny Hut. — Amellie explica. — Bardos usam magia da Palavra da Criação. Eu... a partir de um ritual bem complicado, puxo um "cobertor" feito da "Película do Vazio"...

— Um ... O que?!?

— É complicado explicar para leigos... — ela balança a cabeça. — Bentho... quer ouvir?

— Desculpe... — Eu me explico. — Gladys estava dizendo "não se preocupe nós vamos ficar bem"... Mas acho que ela falava para a Armadura, já que nós vamos morrer de fome e/ou sede em alguns dias, e eles não...

— Bem, Bentho esteve no vazio comigo, quando o Eyespy nos fez desaparecer...

— "Eyespy"?!? — Xitarro estranha.

— O Beholder — Amellie resmunga. Não era um beholder, mas o catfolk parecia não aceitar isso.

— Ah...

— Então... Pense... — Ela puxa um tapete. — Que nosso mundo é esse tapete... Todas as dimensões, tempo, espaço... Eu faço uma breve curva deixando uma camada ínfima de "nada" como a barreira de uma tenda.

— E você pode nos mandar para o "vazio", já que pode "dobrar" essa barreira?!? — Eu pergunto.

— Um dia, talvez... — ela fala com nostalgia. — Hoje eu não tenho tanto poder assim... E acredite: Por que iríamos para o...

— Eu vi a mansão duas vezes — Eu sorrio.

— A Mansão?!? — Ela estala o dedo. — Sim, a minha Mansão está lá fora! Acho que me segue, está sintonizada a mim!

— Ah, agora você tem uma mansão?!? — Xitarro protesta. — Ficar no pântano está se tornando inaceitável!

— Eu... — Amellie parecia escolher as palavras. — Não criei a mansão. Nem tenho mais poder para acessá-la. Mas, bem, ela responde a mim se acessar... Posso explicar outro dia. Mas não temos como alcançar o vazio...

— "O Vazio"? — eu pergunto. — Aquele lugar que o Eyespy nos mandou? Eu ... Acho que posso...

Xitarro e Amellie olham para Bentho.

— Quando fiz o juramento com Katzophlis, ganhei um novo Smite. — explico. — "O Smithe de banimento". Excelente para mandar demônios e aberrações embora, mas nunca imaginei fazer turismo da paulada. Quem eu atinjo é enviado para o vazio, e depois eles ressurgem no inferno de onde eles vieram. Claro, preciso bater em vocês com uma arma... Estou fazendo "brainstorm" aqui.

— Não ia funcionar, mesmo se não fosse um problema ter a "Espada Negra de Lord Blunt" atravessando nossas cabeças... — Amellie comenta.

— Pode ser outra arma… — insisto. — Estou jogando idéias para ver o que cola…

— Não é isso... — Amellie resmunga. — Nós três somos desta dimensão. Mesmo se sobrevivêssemos  ao ataque, iríamos para o vazio por alguns instantes, e voltaríamos para cá logo em seguida... Ou pior: em um lugar já semicolapsado. 

— Amellie... — Xitarro olha ao redor. — Você não disse que esta "barraquinha" vem do vazio?

A barda ia responder, mas olha para o ritual. Olha para mim e Gladys. Seus olhos subitamente brilham.

— Xitarro... Acho que você achou um loophole herege na palavra da Criação!

Ela se estica até uma composição ritualística de cristais e pó de coral. 

— Caramba, nós vamos extrapolar uma quantidade irresponsável de regras, apelar para o "Rule of cool"... — Ela estava quase hiperventilando. — EU particularmente faço bem essa barraquinha, mas, quando estava aprendendo e ficava imperfeita, ela era quase física... bem, um alvo. E alvos...

— Podem tomar cacetadas minhas! — começo a compreender. — Mas e a gente?

— Estaremos DENTRO da barraca! — Amellie aponta. — Não somos o alvo, mas vamos ser arrastados para lá por estarmos na "barriga" dela! Mas vai ser violento...

— E a gente não conseguia nadar lá. — lembro. — Não teríamos um ponto de apoio... como...

Xitarro pega seu bastão, e liga o "travamento", fazendo-o fixo no vazio.

— Temos, sim.

— Na mansão talvez tenhamos como sair... E, se não tiver, teremos mais recursos lá do que aqui... e também mais tempo. Vamos trocar de prisões, mas há esperança!

— E pensar que... — eu comento. — ... Que, se não tivéssemos despistado meus pais e capitão Khao, ficar aqui seria melhor que à deriva no vazio... Algum deles poderia nos resgatar.

Amellie hesita um pouco.

— Mas eles não estão vindo, não é? — ela pergunta. 

Eu ouço a espada.

— Gladys acha que não. Que o "Ferro Frio" despistou o "sentido Blunt".

— Bom saber... — Amellie resmunga.

Amellie sopra a poeira de coraline de Nova Ethiópia, e move os cristais alguns centímetros. Para mim, parecia pouquíssima coisa, mas eu sinto. 

Os Olhos do Vigilante.

Entre a lona e a rocha havia uma película rubra. Quase um véu etéreo... Eu sabia o que precisava acertar.

Xitarro amarra nós três. Eu me preparo. Escolho um canto em que eu ficasse mais no centro da abóbada. 

Ergo Gladius Aeternum. Amellie assegura que todos os nossos pertences estavam seguros, exceto a barraca de lona que teria de ficar para trás.

Eu suo um pouco...

Mas então ...

Ergui Gladius Aeternum.

Respirei.

Pela primeira vez...

Eu não queria acertar um inimigo.

Queria acertar uma barraca.

— Banishing Smite.


A espada desceu.


Próximo Episódio: "A Mansão Perpétua de Cyrak"

2 de julho de 2026

[Dicas de jogador] Quem ataco primeiro?

 

+1 ponto +2 pontos +3 pontos
É perigoso Fácil de acertar (CA baixa) Fácil de eliminar (PV baixo)
Possui magia de área Possui múltiplos ataques Está ensanguentado (Bloodied)
Está concentrando uma magia Você está atacando com vantagem É um atacante puro ("Swing Creature")
Está ameaçando um aliado que precisa se mover Ainda não agiu nesta rodada Possui Ações Lendárias
Está atacando com vantagem

Um guia para iniciantes sobre Economia de Ações

Quando um jogador começa a jogar RPG tático, geralmente pensa assim:

"Vou atacar o inimigo mais forte."

ou

"Vou atacar quem está na minha frente."

Embora isso funcione às vezes, existe uma estratégia muito mais eficiente, utilizada por jogadores experientes: escolher o alvo que oferece o maior retorno para a equipe.

Esse conceito nasce de um dos princípios mais importantes dos jogos de combate por turnos: a Economia de Ações.

O que é Economia de Ações?

Imagine duas equipes.

Equipe A

4 heróis

Equipe B

4 monstros

Em uma rodada, cada criatura realiza aproximadamente uma ação.

Logo:

4 heróis = 4 ações

contra

4 monstros = 4 ações

Agora imagine que, logo na primeira rodada, um monstro é derrotado.

Na rodada seguinte teremos:

4 ações dos heróis

contra

3 ações dos monstros

A vantagem já começou.

Se outro cair...

4 ações

contra

2 ações

A batalha começa a ficar muito mais fácil.

Por isso dizemos que:

A criatura mais perigosa é aquela que ainda poderá agir.

Eliminar inimigos rapidamente reduz o número de ataques, magias e habilidades que seu grupo sofrerá ao longo do combate.

Por que focar dano?

Suponha que você possa causar 30 pontos de dano.

Opção 1

Você distribui:

10 em um goblin

10 em outro

10 em um terceiro

Resultado:

Todos continuam vivos.

Na próxima rodada...

Os três atacam.

Opção 2

Você concentra:

30 pontos em um único goblin.

Resultado:

Ele morre.

Na próxima rodada...

Apenas dois atacam.

Você causou exatamente o mesmo dano.

Mas recebeu menos ataques.

É por isso que eliminar um inimigo costuma ser mais eficiente do que machucar vários.

A Matriz de Foco

Para ajudar nessa decisão, podemos atribuir pontos aos inimigos.

Quanto maior a pontuação, maior deve ser sua prioridade.

O significado de cada critério

  • +3 | Fácil de eliminar

Se você pode derrotar um inimigo agora, faça isso.

Uma criatura morta não ataca, não lança magia e não protege aliados.


───


  • +3 | Ensanguentado

Em muitos sistemas, significa que o inimigo perdeu aproximadamente metade dos pontos de vida.

Ele está perto da derrota.


───


  • +3 | Ações Lendárias

Chefes frequentemente agem fora do próprio turno.

Cada ação lendária equivale, na prática, a várias ações adicionais.

Reduzir sua vida rapidamente costuma ser prioridade máxima.


───


  • +2 | Ainda não jogou

Eliminar um inimigo antes do turno dele equivale a "cancelar" uma ação inteira.

É um enorme ganho para sua equipe.


───


  • +2 | Múltiplos ataques

Um monstro que ataca três vezes por rodada representa muito mais perigo do que outro que ataca apenas uma vez.


───


  • +2 | Fácil de acertar

Ataques desperdiçados diminuem a eficiência da equipe.

Quando possível, priorize alvos nos quais suas chances de sucesso são maiores.


───


  • +1 | Magias de área

Mesmo que o conjurador ainda não tenha lançado sua magia, ele pode atingir vários personagens de uma só vez.


───


  • +1 | Concentração

Muitos efeitos importantes dependem da concentração.

Dano pode obrigar o conjurador a perder a magia.


───


Quando ignorar a matriz?

Ela é uma ferramenta, não uma regra absoluta.

Vale a pena mudar o alvo quando:

• um aliado corre risco imediato;

• um inimigo está prestes a concluir um objetivo importante;

• existe uma oportunidade tática excepcional;

• o mestre apresenta uma mecânica específica da batalha.

A matriz organiza o pensamento, mas o contexto sempre vem primeiro.


───


Um pequeno roteiro para sua vez

Antes de atacar, pergunte a si mesmo:

1. Posso eliminar alguém agora?

2. Quem ainda não agiu?

3. Existe um conjurador mantendo uma magia importante?

4. Quem possui múltiplos ataques?

5. Em quem minhas chances de acertar são maiores?

6. Qual inimigo tem a maior pontuação total?

Se fizer essas perguntas em toda rodada, você naturalmente começará a tomar decisões mais eficientes.


───


Conclusão

A maioria dos iniciantes escolhe um alvo pela proximidade ou pela aparência de ameaça. Jogadores experientes enxergam o combate como um quebra-cabeça de ações: cada inimigo derrotado representa uma ação a menos contra o grupo.

A Matriz de Foco não elimina a necessidade de pensar, mas oferece um método simples e objetivo para transformar decisões intuitivas em escolhas estratégicas. Com o tempo, você perceberá que vitórias consistentes raramente vêm de causar o maior dano possível. Elas vêm de causar o dano certo, na criatura certa, no momento certo.




1 de julho de 2026

[Monstro da Semana] Kentaro-no-oni

 Onis (antigamente ogremage) são versáteis mas possuem baixo poder em relação a suas contrapartes gigantes de cr igual. Mas é porque você não está usando ele direito.



Segue Kentaro-no-oni. Não um NPC, não um "Monstro da Semana" ordinário... mas um encontro perigoso e sutil, que pode aumentar a dificuldade de toda a dungeon por si só!

O ar era denso, carregado com aquele cheiro metálico de pedra que nunca viu o sol. Meus pulmões reclamavam da umidade enquanto avançávamos pelo corredor estreito que, sem aviso, se abria em uma antessala silenciosa demais para o meu gosto.

Eu levantei a mão, sinalizando para o grupo parar.

À direita, um gongo de bronze maciço, marcado por séculos de pancadas, repousava sob um aviso pintado em tinta vermelha descascada: **ALARME**. E logo ali, no centro de uma mesa imunda, o responsável pelo barulho. Um halfling. Ou o que restou de um. Ele roncava com a boca aberta, profundamente alheio à nossa invasão. Ao seu lado, um bastão de ferro curto, o seu "Kanabô".

*"Cuidado,"* sussurrei para o ladino. *"Ninguém dorme tão bem em um lugar tão ruim."*

Meus olhos mapearam a sala. Vi os sulcos profundos no chão — marcas de algo imenso sendo arrastado — e as frestas finas nas paredes, como olhos negros nos observando. Mas o pior era a abertura maior adiante. Aquilo não era um corredor; era um túmulo cavado à força bruta.

Tentei neutralizar a ameaça. Aproximei-me para silenciar o pequeno guarda antes que ele tocasse o gongo, mas, no momento em que minhas mãos se fecharam sobre o vazio, a carne dele se desfez. O halfling virou névoa fria, escorrendo por entre meus dedos e fugindo para dentro de uma das rachaduras na parede.

Um baque pesado ecoou do outro lado da pedra. O "peso" da criatura havia voltado.

— *"Por favor,"* uma voz gutural, vinda das profundezas do peito de um gigante, vibrou através da fresta. — *"Esqueci meu Kanabô. Poderia passá-lo para mim por aqui?"*

Um olho imenso, do tamanho de um broquel, colou-se na abertura da parede. Ele piscou, nos medindo. Eu senti o peso do ferro na mesa e o peso daquele olhar.

— "Um Kanabô é uma arma de honra... e de destruição," eu respondi, mantendo a voz firme apesar do suor frio. "Se eu o devolver, o que garante que não será a primeira coisa a atravessar nossos crânios?"

A criatura soltou uma gargalhada que fez as canecas vazias na mesa tremerem.

— *"Eu gosto de você. Não é violento, mas não é burro. O correto seria tentar me matar. Era o que eu esperava. Não ia funcionar, mas eu... respeitaria."*

— "Sou um homem pragmático," retruquei, pegando o bastão. Era pesado, denso. "Diga-me, 'Tocador': se passarmos sua arma, você nos deixa seguir em paz, ou o gongo ainda faz parte do seu contrato?"

— *"O Homem Calvo não sabe de vocês porque não toquei o gongo ainda,"* ele bufou, uma fumaça gélida saindo pela fresta. *"Há valor na esperteza. Eu lhe proponho um segundo acordo: eu lhe digo o que encontrarão além dos arcos... mas após passarem, eu tocarei o gongo. Quero ver vocês correrem."*

Olhei para o bastão e depois para o arco de pedra escura. A verdade em troca do caos.

— "Aceito o desporto," eu disse, deslizando o bastão pela fresta.

Assim que o metal tocou o lado de lá, ouvi o som de aço crescendo, expandindo-se para sua forma colossal. O gigante cumpriu sua parte. Falou das runas que explodem sob os pés, do mímico disfarçado de barril e dos mortos que vigiam as tochas de crânios negros.

— "E quem devemos agradecer por esse mapa das minas?" perguntei antes de partirmos.

— *"A qualquer momento, em uma pausa para fôlego ou no calor do sangue, vocês podem ser atacados por Ketaro-no-Oni,"* a voz dele parecia agora vir de todos os lugares ao mesmo tempo. *"Ele não é visto se não quiser. Mas quando quiser... ele vai querer o seu sangue."*

— "E quem é esse Ketaro?"

O olho gigante desapareceu na escuridão.

— *"Eu sou Ketaro-no-Oni."*

O silêncio voltou, mas agora era pior. Viramo-nos para o arco e corremos. No instante em que cruzamos o limiar, o som do gongo explodiu atrás de nós, anunciando para toda a masmorra que a caçada havia começado.



Ketaro-no-Oni

Large Fiend (Giant, Oni), Lawful Evil
Armor Class 18 (Natural Armor)
Hit Points 188 (16d10+80)
Speed 40 ft., Fly 40 ft. (Hover)
STR 22
(+6)
DEX 14
(+2)
CON 20
(+5)
INT 16
(+3)
WIS 15
(+2)
CHA 18
(+4)

Saving Throws Str +10, Con +9

Skills Athletics +10, Deception +8, Intimidation +8, Perception +6, Persuasion +8, Stealth +6

Damage Resistances Cold, Fire

Condition Immunities Frightened (while invisible)

Senses Darkvision 120 ft., Passive Perception 16

Languages Common, Giant, Infernal, Yokai

Challenge 9 (5,000 XP)

Regeneration

Kentaro regains 3 hit points at the start of each of his turns if he has not taken damage since the end of his previous turn. This trait ceases functioning until the beginning of his next turn if he takes acid damage.

Shapechanger

Kentaro magically assumes the appearance of a Small or Medium humanoid, or returns to his true form. His equipment, including his Kanabō, changes size with him.

Unlike Disguise Self, this ability does not allow Kentaro to impersonate specific individuals. He may resemble a generic member of a race—such as a tired halfling, a traveling human, or a wandering dwarf—but never a recognizable person. His voice, mannerisms and identity remain his own.

Gaseous Form

As a bonus action, Kentaro assumes a supernatural gaseous form (as the spell, without concentration), allowing him to drift through narrow cracks and passages. He cannot attack while gaseous.

Hunter's Code

Kentaro follows a strict personal code. He does not kill unconscious prey, does not deliberately break agreements made in good faith, and always announces himself before what he considers the "final hunt." Respect, wit or audacity may earn advantage on Charisma checks made to influence him.

Multiattack

Kentaro makes two Kanabō attacks or one Kanabō attack and casts an innate spell.

Kanabō

Melee Weapon Attack: +10 to hit, reach 10 ft., one target.

Hit: 21 (3d8+6) magical bludgeoning damage. If the target is prone, surprised or incapacitated, it suffers an additional 10 (3d6) damage.

Cone of Cold (Recharge 5–6)

60-foot cone; DC 17 Dexterity saving throw; 36 (8d8) cold damage on a failed save, or half on a success.

Skull Crusher (Recharge 5–6)

One Medium or smaller creature within reach must succeed on a DC 18 Constitution saving throw or take 36 (8d8) bludgeoning damage, fall prone and become stunned until the end of its next turn. On a success, the target takes half damage and suffers no additional effects.

Legendary Actions (3/round)

  • Move. Kentaro moves up to half his speed.
  • Sudden Blow (Costs 2). Makes one Kanabō attack.
  • Whisper from the Dark (Costs 1). One creature he can see within 60 ft. must succeed on a DC 16 Wisdom save or become frightened until the start of its next turn.

Lair Action — The Gong

On initiative count 20 (losing ties), while inside his hunting grounds, Kentaro may strike the Gong or invoke its supernatural echo. Choose one:

  • All hostile creatures become deafened for 1 minute.
  • Hostile creatures have disadvantage on Dexterity (Stealth) checks until the next round.
  • One creature that hears the Gong must succeed on a DC 15 Wisdom saving throw or become frightened until the start of Kentaro's next turn.


Como Usar Kentaro ao Longo da Dungeon

Kentaro funciona melhor quando aparece pouco.

A presença dele deve ser sentida antes de ser vista.

Algumas ideias:

  • tochas apagando sozinhas;
  • correntes balançando;
  • passos acima do teto;
  • comida mexida durante descanso;
  • marcas do Kanabô em paredes;
  • o som distante do gongo;
  • névoa atravessando frestas;
  • cadáveres esmagados recentemente.

Quanto menos vezes ele aparecer diretamente… mais os jogadores pensarão nele.


Armadilhas e Emboscadas de Kentaro

Ataque durante combate

Kentaro adora atacar enquanto o grupo luta contra outra criatura.

Especialmente:

  • conjuradores distraídos;
  • personagens caídos;
  • arqueiros isolados.

Ataque pós-descanso

Ele espera o grupo relaxar.

Então:

  • o frio aumenta;
  • o gongo toca ao longe;
  • e um Cone de Gelo atravessa o acampamento.

O Corredor Congelado

Kentaro congela escadas ou corredores estreitos.

Enquanto os jogadores tentam manter equilíbrio, ele usa invisibilidade para empurrar personagens ou separar o grupo.


O “Alarme Falso”

Kentaro toca o gongo propositalmente… mas não aparece.

O grupo fica esperando uma emboscada imediata.

Ela nunca vem.

O objetivo é apenas impedir descanso e criar paranoia.


A Isca

Kentaro deixa:

  • comida fresca;
  • um tesouro pequeno;
  • um cadáver recente;
  • ou uma porta aberta.

Ele quer ver:

  • quem lidera;
  • quem é ganancioso;
  • quem se separa do grupo.

Considerações Finais

Kentaro funciona porque ele muda a natureza da dungeon.

Depois da antessala:

  • corredores deixam de ser apenas corredores;
  • sombras deixam de ser apenas sombras;
  • silêncio deixa de ser seguro.

Os jogadores não enfrentam apenas uma masmorra.

Eles estão sendo observados por algo que:

  • conhece o território;
  • conhece o medo;
  • e acha divertido ver aventureiros tentando sobreviver.

E o pior:

Eles aceitaram entrar no jogo.



24 de junho de 2026

EDGELORD - Cap. IX - Arco da Montanha Morta

Poucas horas atrás...

O PACTO DA MONTANHA MORTA

— Isso foge do Ethos dele.

— Lá vem você com o Ethos. — Estebán esfrega as têmporas. — É exatamente por isso que eu odeio bardos.

— Porque importa. — Amellie bate o pé. — Literalmente "O Irmão que Obedeceu". Me ajude aqui, Àquela...

— Não fale comigo... — A arqueira fecha o cenho.

A barda encolhe um pouco.

— Vocês transformam tudo em história. Tudo em tema. Tudo em metáfora. — Blunt resmunga. — Pessoas morrem e você responde com "estrutura narrativa".

— Se ele quisesse só "ser mau e destruir o mundo", ele poderia levantar a bunda do trono dele, vir atrás de nós. — Amellie explica. — Pense na motivação dele antes de marcar como o culpado!

— Então me diga. — continuou Estebán. — Se não ele, quem é o culpado?  O Mordomo com um candelabro?

Àquela não estava gostando de ver "Lord Blunt" e "Menestrel Cyrak" em discussões vilanescas. Mas não deixou de pensar no que eles falavam.

— Ele é um "entretainer clássico", que segue código próprio de conduta maligna. — A arqueira decide opinar. — Não faria algo sem uma garantia de que a "lei" o cobre. Seja a própria, seja a dos deuses.

Estebán olha para a esposa, e sorri.

— Ele tem garantia.

A barda não respondeu.

— Ele sabe que não importa o que façamos. Nem nós. Nem os deuses. Nem qualquer outro agente. Esta etapa já está vencida.

Amellie joga a cabeça para trás e bate palmas.

— Você matou a charada, Blunt. — O sorriso de Amellie desapareceu. — O Eyespy não foi uma maldade aleatória. Foi uma parte de algum ritual. E haverá outras.

A arqueira olhou de um para o outro.

— Espera. — Ela levou alguns segundos. Então seus olhos se arregalaram. — Falam de uma ... Profecia?

Amellie mordeu o lábio. Estebán fechou os olhos.

— Bem... — Àquela se junta aos outros dois formando um círculo conspiratório. — Como impedimos essa profecia?

Os dois pareciam lutar contra algo. A barda olha com "piedade" para a arqueira. Estebán não consegue encarar a esposa.

— Vocês heróis são adoráveis. — Amellie falou, com a mesma expressão de alguém observando uma criança tentar discutir com a chuva.

— Não faça isso. — advertiu Estebán, com a voz grave. Era Lord Blunt emergindo de sua persona em defesa da esposa.

— Me desculpe... Mas... — Amellie segura o sorriso. — Ela acabou de perguntar "como impedir uma profecia".

Àquela apontou para ambos.

— Porque é exatamente o que deveríamos fazer!

Estebán respirou fundo.

— Querida... Profecias não funcionam assim. — Ele fala com paciência. — Uma profecia é um momento do destino inexorável.

— Então impedimos esse momento. — A esposa insiste. A barda volta a rir. — Por que não estão levando a sério isso?

— Porque até as tentativas de impedir já fazem parte da profecia. — O marido explica.

Àquela abriu a boca para responder.

Fechou.

Abriu de novo.

— Isso é absurdo. — A arqueira protesta.

— Tão absurdo quanto lutar contra um Eyespy, mas acontece... — Amellie comenta. — Heróis passam séculos tentando impedir profecias. Nunca conseguem.

— Isso não pode ser verdade! — Àquela protesta. — Das histórias que eu vivi... E das que li... Nove de cada dez vezes os heróis derrotam os tais "vilões proféticos"!

— Os vilões é que são idiotas. — Amellie abriu um sorriso. — Pense bem: eles "vencem" a parte que estava escrita. A profecia sempre se cumpre. Dez em cada dez vezes.

— Eles perdem apenas na etapa seguinte. — completou Estebán. — Depois que a profecia termina.

Ele abriu um sorriso sem humor.

— Quando o destino finalmente tira as mãos do tabuleiro. E é para esse momento que nós três vamos nos preparar.

Amellie relembra as primeiras trocas de idéias. De o que Gladius estava planejando. Procuraria sinais... mas por hora, ela seguia um "Bon senso".
Estebán deu uma idéia geral do que estava por vir. Se a espada fizesse algo perigoso, ela estaria pronta para interferir.

Ao menos, era o que esperava.




18 de junho de 2026

Copa Edgelord

 




Àquela e Estebán não combinaram uniformes

O Main Trio na arquiba cada dos Vilões
Capitão Khao, e o Tenente Larincher num Barril

"Vai Força das Trevas!"

Uniforme da Nova Guarda










17 de junho de 2026

[Item mágico] Bastão de Densidade Variável de Xitarro

Bastão de Inércia Absoluta

Item maravilhoso (cajado), muito raro (requer sintonia)

Uma haste metálica aparentemente simples, marcada por um anel giratório gravado com runas de peso, equilíbrio e permanência.
Enquanto não estiver sintonizado, funciona apenas como uma clava mágica +1.
Após a sintonia, revela seus verdadeiros poderes.

Arma Adaptável

Como ação bônus, você pode alterar a forma da arma entre:
  • Clava
  • Bordão
  • Lança
  • Bastão de combate
A arma conta como mágica.

Monstros e personagens com características que utilizam cajados ou bordões podem usar suas habilidades normalmente.

Densidade Variável

Como ação bônus, gire o anel de ajuste para escolher um dos modos abaixo:
  • Leve
A arma ganha a propriedade Acuidade.
Seu alcance de salto aumenta em 3 metros.
  • Equilibrada
Modo padrão.
Sem alterações.
  • Pesada
A arma causa +1d8 de dano de concussão.

Além disso, criaturas Grandes ou menores atingidas devem passar em um teste de Resistência de Força (CD = 8 + bônus de proficiência + modificador de atributo usado no ataque) ou ficam Caídas.

Você só pode causar esse efeito uma vez por turno.

Trava Inercial

3 cargas. Recupera 1d3 cargas ao amanhecer.

Como reação ou ação, você pode pressionar o anel de travamento.

A arma torna-se absolutamente imóvel no espaço.

Funciona como um Bastão Imóvel comum, exceto que suporta até 4.000 kg.

Uma criatura pode tentar movê-lo realizando um teste de Força CD 30.

Impacto de Massa Concentrada

Uma vez por descanso curto ou longo, quando você acerta um ataque corpo a corpo com a arma, pode aumentar instantaneamente sua densidade.
O alvo sofre:
+4d8 dano de concussão
e deve realizar um teste de Resistência de Constituição.
Em caso de falha, fica Atordoado até o início do próximo turno do usuário.
Em sucesso, não fica atordoado.

EDGELORD - Cap. VlII - Arco da Montanha Morta

 Todos os músculos de Ornub estavam rijos.

A última coisa de que se lembrava era da melodia:

"I Spy a Huge Statue..."

Depois disso, apenas escuridão.

Agora estava deitado sobre a pedra fria, o corpo pesado como chumbo, enquanto Vlana lia um pergaminho debruçada sobre ele.

— Funcionou, capitão! — Ela retruca. Estava visivelmente sem fôlego. — Ornub não é mais uma estátua!

— O ... O que aconteceu? — O meio-orc se levanta com dificuldade.

— Bem... — Larincher arranca um tufo de "flores/cabelos" de sua cabeça. Igualmente consequência da luta. — Eu disse que aqueles tentáculos pareciam "cabelos de medusa"... e daí...

— Recuamos — Khao resume com raiva. Havia uma "gosma ácida" escorrendo da armadura dele, gotejando no chão e fazendo pequenos buracos. — Achamos alguns itens que nos ajudou, mas estávamos esperdiçando recursos com um... "subchefe". 

— Sabemos que você é um fã do capitão, Ornub... — o Gnomo fala jocosamente. — Mas podia parar em uma das mãos, ao invés do corpo inteiro...

— Eu... — O meio-orc encara o Punho do capitão. — Peço perdão por ser um estorvo, meu líder. Na antiga horda, eu seria...

— Você não é mais da tribo que seguia Blunt, tenente. Você não é seu pai. — Khao rosna impaciente. — Você é um bom soldado da Nova Guarda. Não posso falar o mesmo de "Lady Àquela".

— Capitão... — Arleta aponta para uma passagem secreta se abrindo próximo. 

Uma placa de pedra deslizou pela parede.

Todos se viraram ao mesmo tempo. Larincher arranca mais uma flor que brotava em seus cabelos. Vlana aponta a varinha. Khao posiciona-se adiantado.

Rhoy surgiu da passagem secreta como se estivesse voltando de uma caminhada. 

— Achei um caminho que contorna o Eyespy. — O anão fala. — Sigam-me.

— C-como você conseguiu achar isso? — Khao estava assombrado. — Nós passamos uma hora procurando saídas!

— Vai soar estranho... — Rhoy admitiu. — Mas e se eu disser que achei um guaxinim falante?



— [Aetíades seja louvado, você voltou!] — Gladys parecia berrar na minha cabeça.

Acho que minha "telepatia" estava mal sintonizada.

— Quanto tempo eu...

— [Mais de uma hora!] — ela protesta. — [Eu já estava fazendo planos para um décimo quinto bruxo!]

— Por que não volta para o meu pai? — eu rio.

— [Depois de perder o filho dele?] — a espada resmunga. — [Ele me derreteria e me transformaria em um sino!]

Respiro fundo.

Estava bem.

Melhor do que bem.

Melhor do que nunca.

— [Temos companhia.]

O som de passos ecoou pelo corredor antes que Amellie e Xitarro surgissem na curva.

— Olha só o que eu achei brincando de esconde-esconde! — Amellie brinca, apontando para o monge.

— Eu achei um guaxinim falante! — Xitarro ri. — E você, Bentho? Tirou um cochilo?

— Estou... recarregado. — Respondo enfim. — E esse cofre? Não abriram ainda?

O sorriso de Amellie desaparece.

— Estamos tempo demais nesta masmorra. — Ela cruza os braços. — E ainda não sabemos como abrir uma coisa dessas.

— Deixa comigo! — Xitarro estica as garras e se aproxima da fechadura.

— Xitarro, querido... — Amellie começa, paciente. — Não é tão simples assim. Você...

Eu a interrompo.

— Acho que ele consegue.

Ela me encara, surpresa.

O monge apoia uma orelha contra a porta de metal e cutuca a fechadura com as garras.

Por um instante, nada acontece.

Então uma sequência de estalos metálicos ecoa lá dentro.

Clik.

Clac.

Tlec.


Tlec.

Clanc.

— Consegui! — Ele comemora. Agarra a beirada e começa a puxar, mas a porta não se move.

— O que foi? — a barda estranha. — Está pesada?

Os dois sacudiam a porta. Ela parecia destrancada, mas não se movia mais que um centímetro.

— [Se estiver travada, é melhor esquecer.] — Gladys resmunga em minha cabeça, apressada. — [Já tivemos lucro com essas coisas aqui fora. Vamos embora logo...]

Eu me levanto. Passo as mãos pelos olhos por um instante e, por um segundo... vejo galáxias.

Tudo o que era.

E tudo o que não era.

— Bentho?

Amellie dá um passo para trás quando eu me aproximo. Eu me concentro em uma das travas que reforçavam o cofre. Um anel de metal dessa trava, mais especificamente.

Estendo a mão. Giro a peça. Então a removo toda a trava como se não tivesse peso. Ela não estava presa a nada, mas impedia que a porta abrisse.

A porta despenca para a frente, quase esmagando Xitarro.

Eu largo a trava no ar.

Ela permanece flutuando imóvel como se apoiada numa estante invisível.

— Isso é um bastão imovível?! — Amellie ri. — Estebán, seu cachorro malandro!

— Não é um bastão imovível... — respondo.

Apanho a peça no ar. Era uma barra delgada de metal com pouco mais de meio metro de comprimento, cujo anel que ajustava seu peso ficava perfeitamente ao alcance dos dedos de quem a empunhasse.

Eu a movimento com firmeza enquanto giro o anel.

As extremidades se estendem, uma após a outra.

A barra cresce.

Transforma-se em um cajado.

Amellie e Xitarro observam em silêncio.

Eu giro o cajado em seu eixo, e me viro razoavelmente bem. Eu tinha treinamento com cajados... Mas não com aquele.

Golpeio o chão.

O impacto é brutal.

A ponta delgada de aço sulca a pedra e abre rachaduras como se o golpe tivesse sido desferido pela cabeça de um martelo de guerra.

— É um bastão de densidade variável?! — Amellie identifica. — Isso é raríssimo!

— Uma boa arma para monges. — Eu falo, arremessando-o para Xitarro.

O felino agarra a arma, animado. Era seu primeiro loot desde o dia que saiu da ilha. Mas ela encolhe de volta às proporções de uma clava.

— Ué... Quebrou? — ele estranha.

— Armas mágicas precisam de tempo para se sintonizar com seus usuários. — Amellie explica. — Fique treinando e estudando ela. Aos poucos, vai começar a responder.

— Mas... Por que Bentho não precisou disso?

Amellie congela por um instante. Ela enfim percebeu que a arma havia respondido a mim imediatamente. Eu queria explicar.

Mas o tempo estava acabando.

Entro no cofre.

— Bentho... cuidado! — ela alerta.

— Pergaminho mágico escondido... — arremesso um tubo de madeira para ela, com o papiro. — Achei também uma Bolsa do armazenamento... Hmm, munição mágica de handcrosbow... Precisamos comprar um handcrosbow!

Eles entram logo atrás.



O interior era pouco mais que uma reentrância escavada na rocha, isolada pela pesada porta de metal.

Barras de ouro, Joias, Pratarias. Tudo empilhado sem qualquer cuidado.

Mas meus olhos já procuravam outra coisa.

Uma estátua horrenda ocupava o fundo do compartimento. Contudo, eram os olhos dela que chamavam minha atenção. 

Aproximo-me.

Destravo um par de anéis ocultos no rosto da escultura. Havia magia neles. Eu podia sentir.

— Um para a dama. Um para mim. — digo, entregando um deles a Amellie.

— Igualmente, vai precisar de sintonia... — ela começa.

Então para no meio da frase.

— E não deveria funcionar com a manopla de Virgílio...

Aproximo o anel do dedo.

As placas metálicas da manopla que cobriam minhas falanges se afastam sozinhas.

Como pétalas de uma flor de aço se abrindo.

— [A armadura evolui com você e resguarda os itens.] — Gladys comenta. — [Deve ter pelo menos a capa de dragão negro e um Talismã da Saúde nela. Mas esses só funcionam com seu pai.]

— Eu... — exponho a mão enquanto a manopla cresce ao redor do anel. — Sinto como se ela recebesse um encantamento meu... e o guardasse. Poupa um spell slot.

Meus olhos ardem.

Levo uma mão ao rosto.

A sensação desaparece tão rápido quanto veio.

— Acho que... Passou, por hoje. — constato.

— Bentho... — Amellie me observa por alguns segundos. — Você estava detectando magia...

Ela aponta para a manopla.

— E usando itens mágicos sem precisar de sintonia?

— Eu... Acho que sim. — comento. — Parecia natural para mim.

— [Ah, que Bophades rasgue suas entranhas!] — Gladys rosna. — [Você pegou nível de paladino?!]


— Eu... — sorrio.

Precisava explicar aquilo para Amellie e Xitarro também.

— Conheci um homem. Um forasteiro chamado Kaztophlis...

Os olhos de Amellie se arregalam.

— O forasteiro que foi o Exemplar dos Paladinos! — Ela o identifica. — O Voto dos Vigilantes.

Ela cruza os braços.

— Sim. Isso explica muita coisa.

— [Nem para virar um "Conquistador", "Quebra-votos" ou algo mais sinistro!] — a espada explode em frustração. — [Bem... Podia ser pior. Em Meliny existem votos como "Luz", "Amor" e "Pôneis Coloridos"!]

Eu rio... Não esperava esse comentário da espada. Amellie ignora completamente.

— Bentho... — ela respira fundo e volta a olhar o tesouro. — Mesmo com a Sacola do Armazenamento, é coisa demais para carregarmos.

Ela começa a apontar os itens.

— Prioridade para as roupas do baú, joias e objetos mágicos. Eu fico com as esferas. Xitarro leva o bastão. Um anel para cada um de nós que usamos magias. Mais tarde eu estudo o pergaminho.

— Bem... — estico os ombros. — Gladys também está com pressa...

Olho da barda volta-se para a espada.

— É bom ver vocês duas concordando tanto ultimamente. — Eu comento.

— É... grandes mentes pensam iguais... — Amellie lança um olhar estranho para Gladys. — E eu ainda quero ouvir a história do guaxinim de Xitarro...




Há menos de uma hora...

O PACTO DA MONTANHA MORTA


Meu nome ... É Amellie. Eu me decidi por isso. Mas meus pecados carregam nome de outro.

Eu sabia que não seria bem recebida.

Ainda assim, ter duas das maiores potências do reino me encarando como se eu fosse um dragão ancião era... intimidante.

— Onde está meu filho, Cyrak? — Àquela pergunta, sem rodeios.

— Logo ali na curva do corredor. — Respondo com deboche. — Está embrulhado, usando uma fita roxa na cabeça e um cartaz escrito...

Elevo a voz:

— EU NÃO VOU TRAIR MEU AMIGO!

— Sem piadas. — A voz de Lord Blunt era fria e ameaçadora.

— Sério, Estebán... — inclino a cabeça. — Você contou para ela?

— EU recebi você em MEU LAR! — Àquela explode. Ela... Ela parecia prestes a chorar! — Eu incentivei Bentho a sair do casulo para acabar nas mãos de ... De um ELFO PERVERTIDO DE NOVENTA ANOS?!

— Eu me ofendo com isso. — aponto para mim mesma. — Sou meio-elfo.

— Você tem histórico de provocar homens poderosos. — Estebán comenta. — Mas a mim? Foi de longe seu pior erro.

Inspiro fundo.

— Imagino que ela pretenda colocar uma flecha em cada um dos meus olhos e que você despache o que sobrar para o colo de Bophades... — digo, tentando manter a voz firme. — Mas um condenado pode fazer algumas perguntinhas antes da execução?

Nenhum dos dois responde.

— Eu sei que você está rastreando a Gladius Aeternum. — digo enfim. — Mas aqui dentro... no coração da montanha, e esse ferro frio... isso cortaria a conexão?

— Não. — responde Estebán.

Uma pausa.

— Esse era o plano? — Estebán se permite rir. — Achava que meu vínculo era tão fácil de ser desfeito?

— Não o meu plano. Só fui na onda. — Engulo em seco. — O plano é da Gladys.

— Quem é "Gladys"? — Àquela franze a testa.

— Blunt... — abaixo as mãos. — Acho que a Gladius Aeternum está jogando com todos nós.

Os dois permanecem em silêncio.

— Ela mentiu para Bentho diversas vezes.

— Impossível. — Estebán rebate. A "mão mágica" pairando ao seu lado perde parte da tensão. — A Espada do Pacto obedece ao portador. Ela oferece aquilo que seu coração deseja. Não possui agendas próprias.

— No começo eu achei que era você controlando a espada em algum jogo doentio. — Confesso. — Mas Bentho e a gente passamos por coisas...

Procuro as palavras.

— Coisas que você jamais permitiria que acontecessem com seu próprio filho.

O olhar de Estebán muda.

Só um pouco.

— Como o Eyespy? —  Ele deduz. Cruza os braços. — Sim. Eu também estranhei isso.

— Não acredite nela... Nele! — Àquela rosna. — Mentir sempre foi a especialidade dessa ... Coisa!

— Eu não posso contar isso ao Bentho. — Eu confesso. — Tudo o que eu digo, a espada pode ouvir pelo vínculo mental. E, se eu estiver certa, ela pode reagir.

Respiro fundo.

— Vocês dois são a minha única opção.

Àquela parece prestes a responder.

Mas Estebán segura o arco dela.

— Sabe o que isso significa "Amellie"? — pergunta o Senhor do Sombrio.

Ele dá um passo à frente.

— Quando Bentho descobrir...

Sua voz permanece calma e ameaçadora.

— Vai interpretar isso como uma quebra de confiança.

O silêncio pesa.

— Tão grave quanto a minha. — Ele enumera. — Tão grave quanto a de Àquela.

— O quê? — Àquela se vira para ele, chocada. — Você não está sugerindo isso, está? Isso não faz sentido!

— Tem certesa, Àquela? A espada só obedece um dos bruxos. — diz Estebán olhando meus olhos. — Certamente não é a mim que ela escuta.

Uma pausa.

— E Bentho parece ser apenas um instrumento. Morro morreu aos meus pés. Todos os meus antecessores mortais se foram.

Meu estômago afunda. Eu entendo o que ele sugere.

— Apenas um teria autoridade sobre aquela arma acima da minha... ou da de Bentho.


15 de junho de 2026

EDGELORD - Cap. VII - Arco da Montanha Morta

 — Eu sou Lord Edgy, Terror da Escuridão...

— [Bentho, está monologando de novo...] — Gladys fala em minha mente. — [Mas "Terror da Escuridão" é de longe a melhor das variações de seus títulos].

— Eu sei... — Bentho comenta. — Eu estou melhor, acho. Mas a Armadura... Virgilio... Ela está estranha.

— [Você notou?]

— Notei.

— [Curioso...] — Gladys comenta. — [Depois da disassociação da realidade, geralmente vem uma "hiper-associação" com a realidade. Você ganha foco, e maior perspicácia].

— E você Sabia que isso ia acontecer?

— [Sabia] — Gladys comenta. — [O que mais lhe ocorre, versão "sábia" de Bentho?]

Eu respiro.

— Amellie disse que não lia sobre o "Eyespy" havia décadas... — Aquilo me incomodava. — Mas ela tem menos de vinte anos... Isso é estranho...

— [Bem, sim!] — Gladys parecia interessada. — [Eu mesma não acredito que EU não percebi isso...]

— Você não confia em Amellie... — Eu comento. — Nem meu pai.

— [Ela sabia sobre minha voz com Blunt, esqueceu o nome do samurai do Limbo das Sombras... Mas como?] 

— E você está me manipulando neste momento para ficar contra ela...

— [Devo admitir que tenho meus receios...] — A espada tenta florear. — [Mas se eu estivesse, garoto, você nem perceberia. Eu sou mais esperta que você...]

Eu rio.

— [Sério.] — ela insiste. — [Não tem como você esconder nada de mim... Talvez agora, com hiperfoco... mas isso vai passar.]

— Poderia me chamar de "Escudeiro"... e imitar Khao uma vez mais? — eu a provoco.

— [O ... O que?!?]

— Faz, por favor!

— [Você mentiu para mim sobre a voz?]

— E sem "hiperfoco" — Eu relaxo.

Eu ainda buscava meu lugar no mundo.

Podia não saber intelectualmente, filosoficamente. Apenas instinto. Agora eu posso explorar isso.

Eu fui de garoto travesso na Torre do Castelo Negro a um homem que lutou contra invasores dragas. Que confrontou uma aberração cósmica.

Eu estava pronto para o próximo nível.

E meu corpo decidiu me acompanhar.

Eu desapareci lentamente de dentro da armadura... Deixando Virgílio para traz.

— [Essa não ... eu perdi o moleque!]


Arletta permanece no corredor de acesso. Larincher e Ornub cercam o capitão que tomava o centro da câmara circular. Sombras de outros dois circundavam o ambiente oculto pelas formações naturais.

— Você derrubou uma cidade na minha cabeça! — Khao rosna, apontando para Àquela.

— Foram só barris. — Àquela rebate imediatamente.

— TODOS os barris!

— Deixa de ser chorão. — Ela cruza os braços. — Eu sei que você está ganhando tempo para Vlana e Rhoy ficarem em posição nos flancos. Acha mesmo que Estebán não percebeu isso?

— Estou genuinamente curioso para ver as Contas de Contrafeitiço em Cadeia funcionando. — O Senhor do Sombrio observa a estalagmite onde a maga elfa se esgueirava buscando um flanco, e pisca com intimidade desconcertante.

O silêncio dura apenas alguns segundos. Estebán então toca o braço de Àquela.

— Não lute desta vez.

Ela vira a cabeça.

— O quê?

— Você é o alvo deles, não eu. - Estebán comenta com leveza. - Acho que para eles é pessoal. Eu sou o objetivo final, mas você é o meio.

— Estebán...

— O acordo era impedir que Lord Blunt causasse danos permanentes aos seus amigos. - Ele observa Khao. Depois os outros. — E sinceramente... Neste momento, você parece muito mais disposta a causar danos permanentes do que eu.

Ornub engasga uma risada.

Khao não.

— Que conveniente. — o capitão cruza os braços sorrindo. — Perdeu a armadura. Perdeu a espada. Agora resolveu descobrir a diplomacia?

O braço de pedra range.

— Agora finalmente podemos descobrir quanto sobrou sem o arsenal, e sedentário por dezessete anos.

Estebán suspira como um professor cansado ouvindo um aluno insistir num erro básico.

— Khao... Estamos no coração de uma montanha com resquícios de ferro frio. — O Senhor do Sombrio abre os braços. Sua voz fica mais grave. A escuridão parece responder. — Centenas de metros de rocha reforçada acima de nós.

O chão vibra quase imperceptivelmente.

— Sem testemunhas.

Outra vibração.

— Sem colaterais.

Pequenos fragmentos de poeira começam a cair do teto. As sombras entre as colunas parecem se alongar.

— Aqui é exatamente onde sou mais perigoso.

O sorriso desaparece do rosto de Khao.

— Por quê?

— Porque finalmente posso admitir que estou vulnerável. Não tenho a Vigília Sombria para amaciar seus punhos... Mas, não preciso diminuir minha força. Como um predador antigo encurralado, com um único meio de continuar caçando.

A montanha responde com um estalo profundo. Como algo gigantesco mudando de posição.

— Eu forjei esse covil, que foi moldado para ser susceptível à realidade. Aqui eu posso reescrever o que é pedra e o que não é. Aqui, tudo o que despejar no ambiente só encontrará vocês como alvo! Aqui, eu sou Lord Blunt. Sem freios de remorso! É isso que vocês querem enfrentar?



Xitarro, sorridente, sai da câmera. Olha dos dois lados, e decide ir no caminho de volta. Acaba avistando a alcova na parede, que perdeu quando passou. Era estreita, discreta. Ao se espremer numa rachadura, um pequeno corredor desaparecia na escuridão surgia para ele.

Era o esconderijo perfeito!

Então, a passagem que era uma rachadura na parede se mostra mais perfeito ainda. O ágil monge avança até que alcança uma gruta natural, com um pequeno altar de obsidiana, e uma gaiola de ferro frio, pendurada acima dela por correntes.

Dentro da gaiola, um guaxinim do porte de um humano adulto.

— Eh... Olá? — arriscou Xitarro.

O guaxinim arregalou os olhos.

— FINALMENTE! — urrou. — DEPOIS DE QUATRO ANOS! O DESTINO DOS DEUSES ESTÁ—

— Shhhhh! — Xitarro interrompeu imediatamente.

O guaxinim congelou.

— ...O quê? 

— Fala baixo.

— Você me mandou FALAR BAIXO?! EU?!?

— Estou brincando de esconde-esconde.

— ... Esconde...

— Senhorita Amellie pediu para eu me esconder. Ela foi enganar meu melhor amigo e depois eles vão me procurar.

O guaxinim permaneceu em silêncio por vários segundos.

— Você está ciente de que está no coração da Montanha Morta?

— Sim... E... Quem é você?

— Você não sabe QUEM SOU EU?!? — Fala a criatura com arrogância. — EU sou aquele que você PROCURA! O ÚLTIMO DEUS PRISIONEIRO! E o Fim da ERA DO FOGO-FRIO FINALMENTE ...

— Você é um ... Deus? — Xitarro parecia incrédulo.

— Você .... Você achou que eu era apenas um "guaxinim falante"?

— Bem... Eu sou um gato falante!

— Eu sou DON-O-RON! — o Guaxinim fica em pé, no limite do espaço que aquela grade de ferro frio lhe permite. — O LADRÃO DE SOMBRAS! PADROEIRO DOS LADRÕES! O TERCEIRO DEUS DO TEMPO DO FOGO FRIO!

— "Tempo do... " — Xitarro lembra das histórias de Bentho. — Foram só dois deuses!

— N-Não! — corrige o Guaxinim. — Somos três! Caruthers usou a princesa e o trono para capturar nós três e fazer suas crueldades!

— Pyrros, deus dragão do fogo... — Xitarro enumera. — Enya, deusa vaca da agricultura... 

— E DON-O-RON! — Insiste o guaxinim, apontando vigorosamente para si próprio.

— Nunca ouvi falar... Mas... Isso explica... — Xitarro ri. — Em Shén-li inteira só tinha uma guilda de ladrões... e eles eram péssimos!

— Só UMA?!? — Ele parecia ofendido. — Terei MUITO o que fazer quando sair daqui!

— os "Corvos Mensageiros de Morval". — Xitarro ri.

— MORVAL! O CORVO?!? — Don-O-Ron parecia ofendidíssimo. — Ele é o DEUS DA NECROMANCIA! Ele não tem nada a se meter em meus negócios!!!



Eu caminhava. Não sobre pedra, não sobre ar. Nem mesmo sobre algo que pudesse receber um nome. A direção era uma decisão, não um movimento. Escolhia um caminho e ele surgia sob meus pés.

Olhei para trás.

A Montanha Morta pairava distante. Pequena. Aberta como uma maquete ou um mapa. Como se alguém tivesse removido os limites entre interior e exterior.

Vi a sala do Eyespy. Vi o vazio para onde ele havia nos expulsado. Objetos impossíveis flutuavam naquele não-lugar. A mansão de Amellie também estava lá. Projetada para fora dos limites da montanha.

Parte dela existia onde o mundo acabava. As luzes estavam apagadas agora. E, pela primeira vez, compreendi que aquilo me incomodava menos do que deveria.

Talvez porque algo dentro de mim estivesse mudando.

Foi então que percebi que não estava sozinho.



Galáxias atravessavam sua armadura como reflexos sobre metal polido.

Uma espada repousava diante dele.

As duas mãos apoiadas sobre o pomo.

A postura lembrava um guarda.

Ou um juiz.

Ou ambos.

— Estava esperando você, Bentho, filho de Àquela e filho de Blunt.

Sua voz não atravessou o espaço.

Foi o espaço que pareceu se reorganizar para acomodá-la.

— Você... é um Deus?!?

— Sou Mortal, como você. — Fala o estranho. — Apenas mais velho. Mais experiente.

Por algum motivo, aquilo pareceu mais sincero do que qualquer declaração de divindade.

— O Eyespy foi um teste. — Ele diz. — Estebán falhou no tempo dele, e trouxe muita dor em sua jornada. Mas você, terá uma nova oportunidade.

— Um teste?

— Não para medir sua força. Eu observo seu mundo desde o dia que decidi parar de viajar eu mesmo. — Ele fala com certo saudosismo. — É tão novo, mas com tanto potencial. Mesmo os aspectos mais sombrios de sua terra possuem tanta personalidade, como um projeto de paixão. Seja seu pai, seja deuses sombrios como Morval e Bophades. 

— Mesmo ... Caruthers?

A entidade sorri.

— Não. Vocês ficariam melhor sem ele.


Uma parede distante se move.

Khao cospe no chão.

— Sabia que era questão de tempo. — O capitão fala. Ele queria desabafar havia meses agora.

— Khao... — Àquela fecha os olhos.

— Não. Quero dizer isso. — Ele aponta para Estebán. — Você, eu já conhecia. É o mesmo tigre com outras listras!

Depois aponta para ela.

— Você... achei que estava deslumbrada. Que quando seu esposo mostrasse as garras, voltaria à razão.

A arqueira enrijece.

— Mas não. — O capitão balança a cabeça julgando. — Você sempre escolheria ele.

A frase atinge. Mais do que deveria, mais do que Àquela gostaria.

Mas Khao ainda não terminou.

— Minha verdadeira decepção é Bentho.

— Khao... — Agora é Estebán quem fica imóvel.

O capitão dá um passo.

— Eu realmente achei que aquele garoto era um quadro em branco.

Outro passo.

— Que podia fazer dele um homem melhor do que você.

Outro.

— Melhor do que eu!

O silêncio torna-se absoluto.

— Mas aparentemente estava criando só mais um tirano.

Àquela reage antes de perceber.

— Cale a boca. — A voz sai baixa. Perigosa.

Khao faz uma concha com a mão na orelha.

— O que foi, loira? Não ouvi. — Ele brinca.

Àquela inspira fundo.

E então grita:

— ATRÁS DE VOCÊ, SEU IMBECIL!!!

Estebán arregala os olhos.

Não para Khao.

Para Àquela.

— ...O quê? — Khao percebe a reação.

E isso o faz virar.

Devagar, com muito cuidado.

A poucos metros.

Uma pilha de ossos.

Um enorme crânio deformado.

Um único olho. E o olho pisca.

Hi you.

Khao dá um salto para trás.

— ESSA COISA ESTÁ VIVA?!

— Não... — Estebán olha para Àquela incrédulo e em choque. — O que você fez?!

— Não fui eu! — ela rebate imediatamente, sem demonstrar qualquer remorso. — Foi ele.

O grande olho gira. Confuso e pensativo.

— ...Did he just say that I'm alive?

— Nova Guarda! — Khao aponta para a criatura. — Novo hostil! Atenção! Arletta, tente traduzir!

Carne rósea começa a surgir entre os ossos.

Fibras musculares se esticam.

Veias aparecem.

Tentáculos começam a crescer do nada.

— Did he say...

A criatura ergue-se lentamente.

Flutuando.

— THAT...

Mais olhos se abrem.

— I'M...

O sorriso se alarga.

Antinatural.

— ALIVE?!

Os tentáculos se projetam em todas as direções.

O olho central abre-se completamente.

— I AM ALIVE!!!

— Você atirou o Eyespy contra a Guarda! — Constata o esposo com olhar furioso.

— Só... faça o "puuf" que a gente sai daqui! — Àquela fala com urgência, forçando a mão do esposo para a sua cintura. — Rápido!

Estebán hesita.

— Agora! — Ela insiste.

Vlana sente uma série de explosões em sequência em seu colar de contas, a ponto de sua placa peitoral esquentar com a energia quase queimando-a. As pétalas de contra-feitiço em cadeia são acionadas. Todas de uma vez. Poder suficiente para deter a magia da revoada de Yalatanil... Não impediu que, em uma nuvem sóbria gerada palo passo nebuloso, Blunt e Àquela se teleportassem para fora do cômodo.

Seu "Ás na manga"... foi irrelevante. E nem foi para deter um dos maiores encantamentos do exemplar dos bruxos.

A criatura ergue-se acima de todos os que ficaram.

Rindo maniacamente.

— E EU SOU... — Pausa dramática. — A BEHOLDER!!!

— Capitão... — Larincher urra preocupado. —I-isso é ruim?

— EU NÃO SEI! — Khao berra. — EU NUNCA ACORDEI UM ANTES!




— Eu estava náufrago numa ilha na época. — Xitarro senta-se. — Não tinha fogo na minha ilha, então não senti a falta de Pyrros. Mas lembro que minhas palmeiras, que me davam água de coco, quase morreram, e Bentho falou que foi por causa da cornucópia de Enya ter sido roubada. 

— Então... — o Guaxinim se encolhe na cela. — Ninguém sentiu minha falta? por todos estes anos?

— Bem, não é bem assim. — Xitarro tenta apaziguar. — Quando o "Trio Quimera" libertou Pyrros, precisaram despertar um titã nas Zonas Selvagens, que causou todo o tipo de catástrofe. E para recuperar a cornucópia de Enya, acabaram acidentalmente libertando o Rei Blod, vampiro ancião. Vai ver, eles sabiam que se libertassem você, iam trazer algo ruim para o mundo, não acha?

O Guaxinim desvia o olhar culpado.

— Era isso, não era? — Xitarro provoca. — Caruthers fez algo ruim para o caso alguém o libertasse?

— A tranca da gaiola... — ele aponta. — Se abrisse, derrubaria um vidro no chão com um produto que ressucitaria a Montanha Morta, e provavelmente ela rolaria para cima de Shén-li.

— E você DEIXARIA isso acontecer? —  o Catfolk estava horrorizado.

— Eu admito que não pensei muito nisso... — Ele resmunga. — Eu não sou Aetíades! Cuido só de meus negócios.

— Olha, se você me ajudar com a tranca e impedir que "Ressucitem a Montanha Morta" — Xitarro rola os olhos. — Eu te tiro daqui... 

— Não acredito que estou rebaixado a fazer acordo com mortais, mas certo. — O guaxinim faz um gesto. — Isso deve lhe ajudar.

As garras de Xitarro saem espontaneamente. Elas pareciam mais finas, delgadas, como instrumentos de precisão.

— Imagino que não tenha um kit de destrancar. — O guaxinim fala. — Agora você os tem permanente em suas mãos, bem como o conhecimento para usá-los.

— Se o senhor tem poder para fazer isso... — Xitarro resmunga — por quê não só... "Teleporta" para fora?

— Se os Deuses interferem assim, chama-se "Deus Ex Machina". — ele explica, enquanto recolhia o frasco-armadilha. — Mortais devem cumprir missões em nosso nome. É um tabú.

— Pois... — o Felino começava a usar seus recem-descobertos talentos para abrir a gaiola. — Imagine se você, um deus, andasse no meio dos aventureiros resolvendo os problemas deles... Seria apelação, não é?

Uma idéia surge na mente do guaxinim.

— Sim... seria ... Apelação.



O Guardião se aproxima de mim. Suas dimensões estelares pareciam o tornar bem mais interagível. Era apenas um homem grande e poderoso, quase tanto quanto capitão Khao.

— Poderia dizer por quê deixou o Castelo Negro e começou esta jornada?

— Eu prefiro não dizer. — Eu resmungo. — E se você vê a história de deuses... Eu devo ser só mais um ratinho com angústias.

— O universo é tão grande quanto seus menores... "ratinhos". — Ele fala. — Devo arriscar: você não concorda com o que viu?

Eu silencio.

— Em termos gerais... Sim.

— E decidiu que o mundo precisava mudar? — ele insiste. — Não sabe ainda como... Mas quer ser parte disso?

— O senhor está aqui para me recrutar? — Eu deduzo.

Ele silencia.

— Em termos gerais... Sim.

Eu me volto para trás. Quero ir embora, mas não sabia ainda como.

— Se você quer um herói, veio ao lugar errado.

— Você não confia em "heróis". — ele fala. — Não vê diferença de um herói que mente e um vilão que é genuíno.

— Você também tem uma agenda. — eu falo. — Meu pai tem sua agenda. Minha mãe, a Nova Guarda. A única diferença é que eu CONHEÇO eles.

— Eu me chamo Katzoplys. Me conhece agora. — Ele fala. — Sim, eu tenho planos. Eu acho que sei o que é melhor para o mundo, mas não sou arrogante a ponto de achar que sei tudo. Que meu caminho é o único. Você é, Bentho, filho de Blunt?

Eu não respondo.

— Você já fez a iniciação aos paladinos, correto?

— Não fiz o Juramento. — eu afirmo. — E não farei à coroa de Shén-li, ou à família sagrada. Eu não sei se acredito mais neles.

— Acredita em si mesmo?

Eu não respondo.

— Não que você seja o mais sábio. — Ele coloca a mão em meu ombro. — Você sabe quando seus companheiros tem talento que você não tem. Isso é louvável. Você vai escutar, e aceitar quando não tiver as respostas. Mas quando as tiver, vai se assegurar que vai aplica-las? Mesmo contra seus pais? Seu reino? ou a mim?

— Eu... — Era interessante. Mas eu sentia algo, como quando Gladys jogava com meus desejos, oferecendo poderes. Mas ele não os oferecia. Não me tirava do caminho para alterações. Ele me deixava "segurar" o que eu precisava.

— Você tem uma bússola. Sua consciência. — O Katzophlis afirma. — Eu lhe proponho apenas oferecer ferramentas para combater o que está errado neste mundo... Que é o que você estava fazendo até hoje. Só que em outra escala. Você será o juiz, não eu. Muito do que você fez ao longo de sua jornada, eu censuro, mas dou a você a liberdade. Se for fiel a suas convicções, você estará no caminho correto, mesmo se erguer sua espada contra mim.

— Tem certeza que ... Qualquer um... deveria ter tanto poder?

O Guardião sorri.

— Ninguém deve, mas alguém precisa.

Eu fui Bentho, filho de Àquela. Treinado em forte Jian para proteger Shén-li como paladino. Mas não posso de livre consciência cumprir um voto em que não acredito.

Hoje, eu me curvo a um estranho.

Eu não sou protetor do reino, mas da realidade.

Eu estou em sintonia com a minha existência.

E sinto o que é certo e errado.

E faço o voto.

Consertar.

Ser a seta que aponta o caminho.

Ser um dos Vigilantes.


Estebán e Àquela emergiram na passagem para a câmara do tesouro, no extremo oposto do salão do Eyespy, que mais uma vez havia se transformado em um campo de batalha.

A arqueira precisou puxar o marido pelo braço para evitar que fosse atingido por um relâmpago que parecia rasgar a montanha de fora a fora.

— Estebán, o que está fazendo? — perguntou ela, pronta para continuar correndo na direção onde sabiam estar Bentho.

Mas Estebán ficou para trás.

Ele desamarrou um cinto carregado de frascos rubros e começou a remexer nas próprias vestes.

— Vou deixar para trás algumas poções de cura... E um pergaminho restaurador. — afirmou. — Isso mesmo, "Arqueira Lendária". Suas ações fizeram Lord Blunt ter piedade do Capitão Khao.

Àquela sentiu uma pontada de remorso.

— Eles vão ficar bem?

Estebán não respondeu imediatamente.

Esticou o pescoço para observar o combate à distância. Uma lufada de vento sacudiu seus cabelos. Com cuidado, lançou o embrulho improvisado para um canto da sala.

— Normalmente eu diria 60/40 de chance de sobrevivência. — analisou. — Mas Bentho e os amigos cansaram o Eyespy. Khao vai ficar bem.

Então voltou a caminhar corredor adentro.

Àquela o seguiu.

— Eu sou Lord Blunt. — disse Estebán enquanto se afastavam da batalha. — Eu aceitei isso, Àquela.

— Somos vilões agora. Nós dois. — respondeu ela.

— Bentho... Acho que algo mais sério está acontecendo. 

Estebán interrompeu a corrida.

— Khao ainda está próximo! — insistiu Àquela. — Não podemos ficar aqui!

— Querida... É nosso filho. — respondeu ele. — Precisamos ser o melhor que pudermos ser se quisermos protegê-lo. E ele não será receptivo, constatamos em Hálcora. Está em perigo, e não é apenas Khao. Não é apenas esta montanha.

— Ele tem a nós dois. — afirmou Àquela. — Querendo ou não, o Maior dos Vilões e a Arqueira Len...

Ela não conseguiu terminar.

— Eu aceitei as sombras. — disse Estebán. — Você só vislumbra este mundo, porque sempre se sentiu uma impostora desempenhando o papel da "face do reino", a heroína perfeita. Mas você é a Arqueira Lendária. A luz de Shén-Li. Alguém que pode deter... A mim, no meu pior.

A voz dele suavizou.

— Não tente me imitar. Seja aquela mesma jovem que confrontou o Monstro Conquistador. Eu... eu preciso daquela heroína. A verdadeira.

Os dois ficaram imóveis por alguns segundos.

Apenas se encarando.

Então uma terceira voz, familiar, ecoou pelo corredor.

— Bentho precisa daquela heroína também.

O Senhor do Escuro ergueu a mão imediatamente.

A Dama do Arco encaixou duas flechas na corda.


Amellie ergueu ambas as mãos em rendição.

— Eu só vim conversar.