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20 de outubro de 2026

[EDGELORD] CAP I - O Limbo das Sombras

A pancada seca do metal contra a névoa ressoava através do tempo.




Enxofre. Poeira antiga. O cheiro invadia as narinas, misturado à respiração arfante de um homem que lutava para permanecer de pé. Ao redor, o silêncio absoluto de quem apenas observava. Por duas vezes um portador da *Gladius Aeternum* cruzou as dimensões. Por duas vezes a *Vigília Sombria* estaria na forja além do Submundo.

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## PASSADO


Para enfrentar os últimos dois, Aoi Ayro precisou sacar a katana.

Durante anos, as agressões dos Famintos haviam sido esparsas. Afinal, só existia uma pessoa viva em todo o Limbo das Sombras. Agora, havia duas.

Lord Blunt permanecia de pé, inabalável. Não procurou cobertura, não sacou a espada, sequer esboçou uma reação. A defesa dos dois ficou inteiramente a cargo do samurai.

— Está ferido, guerreiro?

Ayro balançou a cabeça. Guardou os próprios pensamentos para si.

— A armadura de minha irmã me protegeu.

— Ah. Então você é o irmão.

O jovem bruxo percorreu a postura do guerreiro com um olhar analítico, mas não arrancoubreação. Havia algo de provocação na pergunta seguinte.

— O mais velho? É o chefe? Pelo que entendo de sua cultura...

— É complicado. — Ayro recolheu a katana. — Mas, formalmente, não. Ela é a líder da casa. Eu sou seu guardião.

— Você poderia ter me pedido ajuda... Contra os famintos.

— Sim, poderia. — Ayro inspirou fundo antes de falar, recuperando a compostura e o fôlego.

— E não pediu.

— Você não ajudaria. — O samurai respondeu rápido, como se tivesse aceitado a realidade.

Blunt hesitou um segundo e então soltou uma risada escarnecedora.

— Por eu ser fraco?

— Não. Porque está ocupado demais me analisando.

O bruxo se calou por um instante.

— Você percebeu? — Balançou a cabeça, quase divertido. — Isso é raro. Costumo ser bem mais discreto.

Ayro removeu a proteção do antebraço. Apesar da armadura, um dos Famintos conseguira tocá-lo. A dor era debilitante, gélida. Passaria.

— Você só enxerga duas categorias no mundo: servo ou inimigo. Enquanto não puder me chamar de servo, vai me analisar como um potencial inimigo.

— Está errado, samurai. — O humor de Blunt adquiriu uma tonalidade soturna. — Não vejo ninguém como servo. Apenas inimigos que ainda não criaram coragem para me desafiar.

Ayro estava cansado. Ferido. Ainda assim, levantou-se e se colocou entre o bruxo e a névoa. Era mais alto que o jovem de cabelos negros a quem prometera proteger.

— É uma forma muito triste de viver.

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## PRESENTE





O estalo do ferrolho de madeira pesada ecoou pelas paredes de pedra.

O som trouxe Bentho de volta. O gosto metálico de sangue seco persistia em sua boca, e o frio sobrenatural do abrigo parecia piorar a cada respiração. O bunker era inteiramente feito de pedra, como se alguém tivesse escavado o interior de um cubo maciço de nove metros de aresta. Uma porta pesada de madeira reforçada, trancada pelo lado de dentro. Uma janela estreita, à altura dos olhos. Nada mais.

Bentho imaginou aquele arqueiro como um velhote de barba cumprida e cabelos brancos. Em vez disso, viu um homem relativamente jovem. Vinte e poucos anos, talvez.

— Poderia repetir? — Amellie insistiu. — Seu nome.

— Aoi Ayro. — O samurai já verificava a estreita abertura da janela, respondendo no automático.

— Uau... Então *essa* é a voz? — murmurou a barda, ligando as pontas. — Mais intensa que o seu Khao, Bentho!

— Minha mão melhorou! — anunciou Xitarro, flexionando os dedos. — Ainda dói pra caramba, mas já consigo mexer!

— O que eram aquelas coisas lá fora? — Bentho perguntou, limpando o suor da testa.

— Famintos. — Ayro não se virou. — Os que morreram de fome ou sede. Os que já não tinham energia para continuar. São os mais numerosos do Limbo. Devoram os vivos e outros espíritos, mas perdem o interesse depressa quando não encontram vida e energia.

— [Repita: Domo arigato, Ayro-sempai] — instruiu Gladys na mente do garoto.

— "Sem pai"? — Bentho resmungou em voz alta, encarando juvenil a espada negra. — Está tentando me fazer ofender o cara? Não basta o que me fez passar com o Monsenhor?

— Respeite a Espada Eterna! — repreendeu o samurai, com uma firmeza que não admitia discussão. — É sua professora, e guarda sabedoria incalculável.

— Eita! — Bentho piscou. — Você achou um fã, Gladys!

— Claro. Você esteve aqui com Estebán! — Amellie se adiantou, encarando o estranho com evidente desconforto.

— Quem é Gladys? E quem é Estebán? — Ayro deu de ombros. Seu olhar, entretanto, já examinava Bentho. A postura. A maneira de sustentar o peso. Os pequenos sinais de cansaço que o garoto tentava esconder.

O trio se entreolhou.

— Ora, ora... — Amellie coçou a cabeça. — Tantas histórias do Limbo, e o velho Lord Blunt nunca lhe contou o próprio nome? Sabe o quanto Cyrak tinha inveja de você, senhor Ayro? Blunt era "o cara legal entre os caras legais". Quando alguém assim paga pau para outro nós só podemos...

— Vocês três são barulhentos. — Ayro interrompeu, desatou as pesadas talas dos ombros e se recolheu a um canto do bunker. Sentou-se no chão estéril, cruzou as pernas e repousou as mãos sobre os joelhos. — Fiquem quietos, só assim os Famintos irão embora. Só alguns minutos é o que eu peço.

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## PASSADO


A névoa soprou contra o rosto de Ayro, gélida o bastante para cortar a pele.

À frente, os passos de Blunt esmagavam a cascalheira. Rápidos. Impacientes.

— Podemos ir mais depressa, Ayro-sama.

— "Sama" não é o pronome adequado — Ayro afirmou. — Me dá autoridade sobre você. Está tentando mexer com meu ego?

Blunt deixou um sorriso de deboche escapar.

— Movimento é sinal de vida e ação — respondeu o samurai, sem alterar o ritmo. — Vida atrai Famintos. Ação atrai Furiosos... E falta de sorte atrai Pestilentos.

Blunt inclinou a cabeça, organizando as informações.

— Furiosos são vítimas de emoções agressivas como guerras e lutas. Pestilentos, os mortos por doenças. Acertei?

— Parcialmente.

— As formas mais comuns de morrer, "fome, guerra e doenças". — Blunt explicou seu raciocínio.

Ayro lançou-lhe um olhar. Havia nele uma ponta involuntária de admiração.

— Os Furiosos são aqueles que morreram sob uma emoção intensa. O combate é apenas uma delas. Não recomendo tentar adivinhar tudo. Pode cometer um erro crasso.

— Teremos tempo para aprender os meandros do Limbo. — Blunt se adiantou, impaciente. — Apenas me leve até sua irmã. A "maior armeira viva"...

— Minha irmã não é a maior armeira viva.

O bruxo parou. Virou-se devagar.

— O que disse?

— Sou o único ser vivo no Limbo das Sombras — informou Ayro, com a mesma serenidade de antes. — Passei anos sendo atacado pelos espíritos deste lugar até aprender a coexistir com eles. Sua presença provocará mais...

— Eu me referia que... Quer dizer que sua irmã NÃO está aqui? — A voz de Blunt subiu de tom. A *Gladius Aeternum* começou a emitir uma luz roxa, pulsante e perigosa.

Ayro sorriu. Um desafio silencioso.

— Eu disse que você estava tentando adivinhar. Que cometeria erros. — O samurai não pareceu notar, ou não se importou, com a fúria e a ameaça velada do bruxo. — Sou o único vivo. Minha irmã é a maior armeira. Mas não a maior armeira viva.
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## PRESENTE

O chão do bunker tremeu.

A temperatura despencou. O ar tornou-se tão gélido que a respiração dos três se condensou em névoa branca.

— TÁ CHEGANDO! — berrou Xitarro, espiando pela janela. — Parece uma mais sinistra que os com fome!

Bentho e Amellie correram para a abertura. O monge colou o rosto à fresta, tentando enxergar através da névoa.

Ayro permaneceu imóvel, os olhos fechados.

— Esse é diferente! — urrou Bentho. Os pelos de seus braços se eriçaram sob a pressão espiritual. — É alta! Azul e branco...

— Senhor Ayro? — A voz de Amellie falhou ligeiramente. — Esse parece diferente...

O samurai abriu os olhos.

— Abram a porta.

— Tem certeza?! — Xitarro hesitou, a mão tremendo sobre o ferrolho.

— Vocês vieram procurar a criadora da Vigília Sombria. A armeira Hamme. — Ayro ergueu o rosto na direção da porta. — Ela está aqui.

— M-mas... — Xitarro batia os dentes, encarando o vulto colossal que avançava pela névoa, congelando o solo a cada passo. — Mas é mais um espírito!

— Fantasma — corrigiu Ayro, com uma solenidade quase fúnebre.

A porta se abre.

A névoa do Limbo recuou ligeiramente da soleira da porta, revelando uma figura alta, envolta em trajes de forja tradicionais e reluzindo em um tom azul-prateado astral. A presença de Aoi Hamme trazia um calor estranho oriundo de seu brazeiro, quase acolhedor, que contrastava com o pavor natural do Limbo.


— Ayro-san — disse Hamme. A voz do fantasma soou como o badalar de um sino de vento em uma noite tranquila. — Você trouxe convidados barulhentos.

— P-perdão, senhora fantasma! — Xitarro recuou, tenso.

— Não peça perdão. — Ela sorriu maternalmente. — Eu gosto do barulho. Sinto falta dele.

— Ufa... — Bentho sorriu para Amellie. — Um sisudo e uma pessoa que gosta da gente. Depois da Morgan e do Capri, estava preocupado.

— Bentho... — Amellie não parecia compartilhar do alívio. — Ainda é cedo. Mochila. Agora.

O rapaz, alheio ao aviso, abriu-a e despejou o conteúdo no chão.

Os fragmentos retorcidos da *Vigília Sombria* tilintaram contra a pedra, espalhando uma fuligem fria e gasta.

Hamme parou de sorrir.

O silêncio que se seguiu foi tão denso que mesmo a existência dos espíritos famintos no exterior pareceu abafada. A cabeça do fantasma inclinou-se devagar. Primeiro para a esquerda. Depois para a direita. Os olhos azul-prateados percorreram cada fivela partida, cada juntura esmagada e a placa do peitoral, rachada como vidro temperado.

Um dos dedos longos e diáfanos de Hamme ergueu-se, tremendo em uma indignação contida.

— ...Ayro-san.

— Hai.

— **O QUE É ISSO?!**

O grito não fez apenas o ar estagnar; fez a névoa na soleira da porta ser arremessada para trás. Xitarro se escondeu atrás de Bentho. Bentho se escondeu atrás de Amellie. Amellie, sem ninguém para usar de escudo, cobriu o próprio rosto.

Hamme deu um passo à frente, e a temperatura do bunker caiu dez graus de uma só vez. A linguagem da nobreza de Hatamon fluiu de sua boca como uma avalanche de lâminas:

— **NANI WA KORE?! DARE GA KORE O KONNA SUGATA NI SHITA?!** — apontou para os destroços, a voz oscilando entre o choque estético e o desgosto técnico. — **KONO KINZOKU NO ATSUKAI WA NAN DA?! KOKORO GA NAI NO KA?! TE GA NAI NO KA?!**

— Hai — respondeu Ayro, com uma calma quase milenar.

Hamme virou-se para ele, os olhos faiscando em azul-astral.

— **HAI JANAI!**

— Hai — o samurai repetiu.

— **AYRO-CHAN!** — o fantasma protestou.

— O pactuado, Hamme — disse o samurai, suavemente, no idioma do continente. — O segundo encargo. Era obviamente consertar a primeira armadura.

Hamme congelou. Por um instante, o fantasma teve a expressão de quem acabara de se lembrar de uma promessa antiga e amarga. Duas encomendas em troca da companhia para o irmão. A primeira já fora um suplício — forjar aquela abominação de estética estrangeira, pesada e sem elegância, a pedido de um bruxo cínico.

Descobrir que a segunda encomenda era remendar a própria aberração arruinada era um insulto pessoal.

— ...*Sou datta* — murmurou ela, entredentes. A contragosto, a memória do dever pesou-lhe nos ombros. Mas a raiva não diminuiu. — *Wakatta. Wakatta kedo!*

Ayro baixou ligeiramente o olhar. Havia uma sombra imperceptível no rosto do samurai. Ele não a apressava pela armadura; pedia-lhe paciência porque sabia o que viria depois. Cada martelada que ela desse naquela armasura seria um segundo a menos que passariam juntos.

Ignorando a tristeza silenciosa do irmão, Hamme começou a circular os destroços, erguendo cada pedaço com a delicadeza de quem segurava um cadáver profanado.

— Quão sortudo é o sucessor de Lord Blunt? — A fantasma resmungou. — Só vou poder afirmar na forja, mas não sinto sangue quente. A *Yamikaze*... "Vigília Sombria" provavelmente está morta!






17 de outubro de 2026

Ayro & Iroh

Uma coincidência de meu personagem de L5R (recem-introduzido em EDGELORD) ser homófono do adorável tio Iroh de Avatar.

















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parte 2

13 de outubro de 2026

[EDGELORD] Prólogo - O Limbo das Sombras

O portal se abriu entre as névoas do Limbo das Sombras, rasgando o tecido da realidade com um chiado úmido.


A névoa azul, espessa e gélida, limitava a visão a poucas centenas de metros, mas a sensação era a de uma planície infinita e desolada — um vazio sepulcral onde o próprio ar pesava contra o peito, denso de opressão.

Três silhuetas surgiram da passagem, hesitando em dar o próximo passo. Antes que pudessem avançar, o samurai de pesada armadura azul adiantou-se no vapor. Ele berrou uma ordem-saudação em um idioma gutural, arrastado e estranho... mas os três invasores não pareceram entender. Ou simplesmente não estavam dispostos a escutar.

— Qual de vocês... é o Portador da Gladius Aeternum? — o samurai ordenou de novo. Desta vez, usou o idioma do continente, mas os vocábulos saíram duros, trincados, como se ele forçasse a língua a articular sons de um mundo já esquecido.

Um jovem de cabelos negros e pele morena deu um passo à frente do grupo. Em sua mão direita, ele estendia uma espada longa e delgada, cuja lâmina pulsava em uma luminância roxa e soturna.

A Gladius Aeternum. A Espada do Pacto.

— Você ousa me enfrentar, Iorikijin? — o jovem perguntou, com um tom de voz que não aceitava contestação.

O guardião removeu o elmo, revelando feições rígidas. Olhos amendoados, pele oliva e longos cabelos tingidos de branco, presos em um coque severo.

— Você não está sozinho... não é? — observou o guardião, apertando o cabo de sua lança.

— Tenho dois servos, e uma horda atrás de mim — o jovem retrucou, frio. — O que você tem?

— Se uma horda atravessar a passagem... — o samurai fez uma pausa, buscando as palavras corretas no idioma imperfeito, mas a ameaça passou com clareza cristalina — ...todos os mortos se voltarão contra você.

O jovem silenciou por um segundo. A cabeça levemente inclinada, como se escutasse um sussurro invisível vindo do aço de sua espada. Para os bruxos daquela linhagem, a Gladius Aeternum era mais do que uma arma: era a mentora, a vontade soberana das forças do submundo guiando seu hospedeiro.

— Como assim "todos os mortos"? — o jovem desafiou.

— O Limbo das Sombras não coaduna com a vida. Só morte — declarou o samurai, ajustando a base dos pés no solo estéril. — Aqui estão todos os que já morreram, desde muito antes da Era dos Deuses Antigos. Para cada pessoa viva na sua terra... há sete mil mortos aqui. Sempre que um soldado da sua horda tombar neste solo, ele se tornará mais um soldado servindo aos mortos. Você pode se julgar poderoso, Portador da Espada Eterna... mas o triunfo é matematicamente impossível.

Ao lado do jovem bruxo, a figura que o acompanhava em silêncio deu um passo à frente. Usava um pesado capuz negro, com grossas correntes caindo sobre os ombros. Quando ergueu a cabeça para encarar a escuridão, a luz mágica revelou uma franja escura sobre olhos de um vermelho vivo, presas protuberantes e uma mão direita completamente desprovida de carne — apenas ossos alvos e articulados.

— A legião de malditos pode servi-lo neste caso, meu senhor — deduziu o ser de capuz, a voz suave e soturna. — Não há vida entre os meus.

O jovem líder fez um gesto sutil com a mão livre, descartando a sugestão. Em seguida, ergueu o queixo, encarando o guardião de armadura azul.

— Se uma horda entrar, causará um distúrbio por excesso de vida — o bruxo raciocinou alto. — Mas e se um homem entrar sozinho? Haverá distúrbio?

O samurai hesitou. O olhar amendoado varreu o jovem com uma mistura de cautela e respeito involuntário.

— Sim... haverá — declamou o guardião, por fim. — Mas esse distúrbio será... controlável.

O jovem voltou-se para a entrada do portal. Atrás do ser de capuz, a terceira figura aguardava: uma fera imponente, um guerreiro de ombros largos e presas expostas, exalando a violência bruta de um predador de elite da Marca Rubra.

— O tolo está armando uma armadilha, meu senhor — a fera rosnou, o tom grave fazendo o ar do Limbo vibrar. — Ele acha que se só o senhor entrar, ele terá alguma chance de vencê-lo.

— Não sinto malícia nas palavras dele — o bruxo respondeu, sem sequer se dar ao trabalho de olhar para trás. — O que me incomoda é que ele não parece ter medo.

Um silêncio pesado caiu sobre o grupo. Ninguém ousava interrompê-lo.

— A Gladius Aeternum diz que ele foi instruído — explicou o portador da espada. — E que eu devo seguir sozinho.

— Meu senhor, como seu _senescal_... — o vampiro de capuz começou a intervir.

— Sim, usar a "semântica" dos mortos seria uma opção conveniente, Henfyl — o bruxo o interrompeu com firmeza. — Mas eu vou seguir sozinho ainda assim. Dê-me os projetos da Vigília Sombria. Depois, recuem com as tropas até as Cavernas de Han-do. Eu vou voltar mudado, irreconhecível, deste lugar... mas você me reconhecerá pela *Gladius Aeternum*. Ajub... você cuidará da disciplina da Horda na minha ausência.

O senescal vampírico retirou das mangas largas um estojo cilíndrico de couro negro e o entregou ao seu mestre. Ao lado, o bruto general da Marca Rubra bateu o punho fechado contra o peito com força suficiente para criar um hematoma, dando dois passos para trás em sinal de absoluta submissão.

O bruxo embainhou a espada com um estalo seco, guardou o cilindro no manto e deu o primeiro passo além do portal, adentrando definitivamente o domínio dos mortos.

Aquele jovem parecia pequeno demais para o poder que ostentava, quase insignificante diante do samurai coberto pela pesada armadura de talas de metal tradicional. Os olhos de serpente do garoto analisaram o ambiente infinito, o ar gélido e, por fim, o guardião que ousara ficar em seu caminho.

Com a voz firme, cortante e desprovida de qualquer hesitação, ele declarou:

— Eu sou Lord Blunt.




### **O PRESENTE**

— Temos gravidade... e o som parece normal — comentou Xitarro, encarando a vastidão e estalando o dedo para testar os próprios ouvidos. — Mas o chão parece... "carne".

Olhei para baixo. Uma névoa intensa, púrpura e rasteira, cobria o solo até a altura das canelas, impedindo-nos de ver os próprios pés. Sacudi a capa, forçando uma corrente de ar. O vapor dissipou-se por um instante.

Olhos. Pequenos olhos negros e opacos, espalhados por uma superfície púrpura-escura. Alguns fechados, outros nos encarando fixamente através do ar denso.

Xitarro e eu saltamos para trás. Amellie, ao contrário, agachou-se sem hesitar.

— São cadáveres. Vorme púrpura.

— Uma ponte de cadáveres de vormes? — Xitarro franziu o cenho. — Que poético...

— Eu não achei poético! — reclamei.

Amellie ignorou e tocou a superfície gélida.

— Não há como eles sobreviverem aqui, por isso morreram. E... Pelo tempo que caminhamos... — ela olhou para trás, onde a cortina gélida já cobria nosso rastro. — ...devem ser vários agrupados.

— Quantos? — perguntou Xitarro.

— Dezoito... talvez vinte — calculou ela.

— Vinte vormes púrpuras? — reagi.

— Aproximadamente.

O vapor fluía pelos vincos da pele morta, dando a falsa impressão de que se mexiam.

Continuamos andando em linha reta. Amellie parou subitamente e olhou para trás. A névoa abriu uma brecha, revelando o mesmo padrão exato de olhos e peles laceradas. As mesmas vinte vormes, em uma repetição geométrica impossível.

— Interessante... — murmurou a barda.

— Não é interessante — retruquei com nojo.

Amellie sorriu.

— É um pouco interessante, vai.

— Estou vendo a saída! — Xitarro gritou, apontando para além da neblina.

— [A partir daqui vai haver "o distúrbio"...] — Gladys comentou em minha mente.

— Devagar, Xitarro! — alertei. — A Gladys está avisando algo...

— [Sabe como no Vazio não havia nada, e de vez em quando algo caía lá? Por isso, fora bolsões como a Mansão, não havia sequer gravidade?]

— Lembro — concordei em silêncio.

— [No Limbo das Sombras, é como se o universo não tivesse espaço para a vida] — Gladys filosofou. — [Ter um ser vivo aqui é como acender uma vela em um quarto hermeticamente fechado. Vai causar um grande distúrbio na escuridão. E a escuridão reage. Sendo três seres vivos a mais quando o natural é zero...]

— Entendo... — ponderei. — Seremos um grande chamariz da "morte" conceitual do Limbo. Talvez eu devesse ter vindo sozinho...

— Isso não é uma opção, Bentho — Amellie cortou.

— Por que só você pode fazer suas "aventuras" solo?

— Eu prefiro ir junto também — Xitarro acenou, embora parecesse esquisito. Ele olhava intensamente para Amellie, com uma postura rígida.

— [De qualquer forma... é tarde demais] — Gladys interrompe. — [Portais são diferentes das passagens de Han-do. Chegamos...]

Foi o tempo de Xitarro pisar além da última carcaça do Vorme púrpura para o cenário sob nossos pés se dissolver em névoa.

O ar clareou ligeiramente, revelando uma planície vasta e vazia, cortada por correntes de ar gélido... e dezenas de vultos enfileirados ao nosso redor. Eles não eram apenas translúcidos; eram silhuetas sombrias e massivas, desprovidas de feições, exceto por pares de olhos que brilhavam com uma luz azul gélida e aterrorizante na escuridão enevoada.

Um deles avançou — correndo e flutuando ao mesmo tempo em um movimento antinatural. Xitarro reagiu por instinto e desferiu um soco direto no que seria o queixo.

A entidade se desfez em fumaça, mas Xitarro soltou um berro de dor. A pele da sua mão escureceu na hora, com um aspecto necrótico e doloroso.

— O que era aquilo?!? — Amellie se adiantou. — Xitarro, deixa eu ver essa mão!

— Está queimando! — ele protestou.

Saquei Gladys e abri fogo. Meus raios místicos derrubavam os vultos com facilidade. Eram visivelmente mais fracos que humanos normais, o que me permitia rebentar vários com disparos divididos... mas a quantidade era absurda. Eles iam nos soterrar eventualmente.

— Amellie, a barraquinha! — falei com urgência.

— Não dá para levantar a estrutura tão rápido! — ela informou, tentando recuar.

— Não toquem neles! — Xitarro avisou, franzindo a testa. — E não deixem eles tocarem em vocês! Não vou poder usar esta mão, nem o bastão...

Um vulto se aproximou pela lateral. Usei Gladys para um corte defensivo, pretendendo apenas afastá-lo, mas um mero roçar da lâmina fez a criatura se desintegrar. Nada aconteceu comigo ou com a espada.

— Com armas é tranquilo! — berrei. — Amellie?

Ela mexia rápido em um anel no dedo.

— Todos perto de mim!

Não sei que tipo de encantamento ela ativou, mas um estalo e uma vibração eclodiram do anel, abrindo uma clareira de três metros ao nosso redor e destruindo os vultos mais próximos.

— Eu tive uma ideia — Xitarro comentou.

Com a folga momentânea, Amellie foi examinar o punho do monge, enquanto ele sacava algo da cintura usando a mão boa.

Uma arma mais leve. Uma...

Aff. Uma tonfa.

— Sério? — resmunguei.

— Bentho, foco! — Amellie me advertiu.

Eram muitos. Não mantinham formação e nem colaboravam entre si e, ainda assim, nos cercavam por todos os lados. Precisávamos entender como avançar. Como bastava um toque para dissolver os vultos, Xitarro seria nossa melhor vantagem por seus golpes rápidos, mas estava limitado a uma só mão. Meu "dano massivo" era um exagero desnecessário para alvos tão frágeis, e as magias de Amellie precisavam ser racionadas.

De repente, quatro vultos explodiram em sequência. Onde antes estavam as criaturas, flechas azuis estavam cravadas no solo.

Flechas?

M-mãe?



Um arqueiro em uma pesada armadura de placas samurai, laqueada em um azul profundo e ornamentada com dourado, posicionava-se além da multidão de espectros. Seus longos cabelos brancos escapavam por baixo do capacete imponente. Ele disparava com uma velocidade assustadora usando um arco longo decorado em dourado, a ponta de cada flecha brilhando com uma intensa energia azul, idêntica aos olhos dos vultos que ele destruía. Ele não estava cobrindo nossa posição; estava "cavando" um corredor na nossa direção.

Ele berrou algo em um idioma estridente:

— *Ugoki o tomenaide. Kotchi ni kite!* — urrava ele. Um vulto tentou emboscá-lo pelas costas, mas com um movimento quase invisível, o guerreiro sacou uma katana, decepou a entidade e a guardou de volta na bainha antes mesmo do corpo desvanecer. — *Watashi ga engo surukara!*

— Ele está falando em Ioriki? — perguntei.

— "Dança"?... não... "Mexam-se!" — Amellie tentava traduzir sob o barulho do combate. — Não é Ioriki, é a língua arcaica original! É Hatamon!

— Acha mesmo seguro irmos na direção dele e ficarmos todos juntinhos? — Xitarro hesitou. — Se algo aqui mandar uma magia de puz em área...

— Ele é a única coisa neste UNIVERSO que parece não querer comer nossos cérebros! — decidi. — Ele fez um corredor! Amellie no meio, Xitarro e eu cobrimos os flancos!

Avançamos. Os vultos pareciam ter uma visão péssima; demoravam a reagir à nossa mudança de rumo. À medida que nos aproximávamos, o homem de armadura azul guardou o arco, sacou uma longa lança e começou a girá-la sobre a cabeça com uma precisão hipnótica. Os espectros que se aproximavam explodiam ao menor contato com a haste. Outros hesitavam, como se, diferente de minhas agressões, reconhecessem aquele ataque, aquele agressor.

— Vanguarda! — ele ordenou em tom imperativo, apontando para Xitarro e percebendo que sua língua nativa não funcionaria. — Adiante! Abrir caminho em meia-marcha! Vocês dois... um passo atrás de mim. Abaixa!

— Qual é! — resmunguei. — Eu vou com o Xitarro na...

*TOC!*

Tomei uma pancada seca na testa. Acho que foi acidental. O cabo da lança do cara de cabelo branco me atingiu em cheio enquanto ele girava o armamento afastando os inimigos. Eu estava atrapalhando...

— Um passo à esquerda, dois atrás! Agachado! — ele urrou com raiva disciplinada. — Vanguarda!

— "Vanguarda" sou eu? Beleza... — Xitarro obedeceu. O monge avançou, desferindo golpes rápidos de tonfa com a mão boa. Eu temia que ele ficasse isolado, mas o samurai o seguia feito uma sombra, mantendo um raio de giro seguro que impedia qualquer cerco.

— Avança mais rápido, Bentho! — Amellie me empurrou para a frente. — Não perca contato!

Entendi a dinâmica. Era uma formação tática estranha — indivíduos com funções completamente distintas atuando em sinergia perfeita. Até Amellie estava perfeitamente protegida no centro da geometria para nos manter com coisas de bardo. Nunca fizemos exercícios tão complexos em Fort Jian...

— [Respeite a voz da experiência, garoto...] — Gladys interveio em minha mente. — [Demos sorte. *Ele* ainda está aqui!]

— "Ele ainda está aqui?" — repeti, confuso.

Os olhos de Amellie se arregalaram.

— Impossível... — ela exclamou. — "Dai-doi-jai-joi"? "Ai Oia aí"? Ou...

— Você está tendo uma convulsão? — estranhei.

— Eu esqueci o nome dele! — Amellie estava quase eufórica. — A "voz da Gladys" na mente do seu pai!

— Caminho livre e uma "casa forte" à frente! — Xitarro berrou, apontando para uma estrutura na névoa.

— Eu cubro vocês! — o samurai gritou, agarrando-me bruscamente pelos cabelos e puxando-me para a frente para quebrar a formação em uma arrancada rápida.

Passei batido pela porta da estrutura. Amellie, no entanto, deteve-se por meio segundo na entrada, encarando os olhos amendoados do guardião.

Ele a encarou de volta e declarou, com a voz grave:

— Watashi wa ... Aoi Ayro desu




11 de outubro de 2026

[Silas] adesivos do Silas

 
















9 de outubro de 2026

EDGELORD - Cap. FINAL - Arco da Perseverança

prólogo:

Cinco soldados marchavam a passos largos pela trilha irregular do povoado de Bearlord. A população inteira continuava trancada em casa; afinal, era feriado local e ninguém ali era doido de fazer qualquer trabalho útil antes do meio-dia. O destino do pequeno destacamento era a Igreja da Perseverança. Junto ao pátio, um cavaleiro anão, seu escudeiro, um cavalo e uma mula descansavam no poço, refrescando as montarias. No pórtico principal, a silhueta avantajada de um firbolg parecia conversar com alguém escondido na sombra da entrada.

— Rúnvald está no comando. Ótimo — comentou o cabo à frente do grupo, ajeitando o cinto de couro rasgado. — Ele é prático, não perde tempo com besteiras. Se o tal do Veneg estivesse no comando, seria duas horas de encheção de saco ...

— Seja rápido do mesmo jeito — o soldado ao lado resmungou, limpando o suor da testa. — É quase meio-dia. O Monsenhor ainda deve estar jogado em alguma sarjeta, mas pode voltar logo...

A chegada da patrulha a pé do palácio chamou a atenção dos acólitos. Embora, no papel, os Homens de Armas de Bearlord fossem a autoridade militar da Marca, a Cavalaria de Cartallas sempre os superou em números, recursos e, principalmente, no respeito do povo. Ainda assim, por pura cortesia institucional, aqueles sob a flâmula da Marquesa eram ouvidos. Claro que, assim que dobravam a esquina, eram devidamente esculhambados.

Os dois guardas da frente se destacaram, pisando firme para demonstrar uma autoridade que não sentiam. Só pararam quando Rúnvald deu um passo lento para o lado, desaparecendo.

Outro homem adiantou-se da sombra do pórtico, tomando o lugar do cavaleiro.

Ele trazia a insígnia de comando reluzindo no peito. E, mesmo que não a trouxesse, o tamanho do sujeito não deixava dúvidas. 

Era o Monsenhor. 
Sóbrio.


— V-Vossa Santidade! — engasgou o cabo, travando a marcha no ato. — Imaginávamos que o senhor estaria... ausente hoje.

— Fui forçado a encerrar minha folga algumas horas mais cedo, soldado — Capri, uma torre humana encarando os homens da flâmula do urso, respondeu com um desagrado quase palpável. — O que a Marquesa quer conosco a esta hora?

Os guardas se entreolharam. Aquele era, disparado, o pior cenário possível.

— Milhões de perdões, ó, Cicatriz do Titã — o segundo guarda interveio rápido, vendo o superior mudo de pavor. — Há algumas horas, a Marquesa sofreu um assalto em seu castelo... E este foi o único motivo da nossa vinda até aqui.

— Um assalto?!? — Capri ergueu uma sobrancelha. — Rogo a Cartallas que ela esteja bem de saúde...

— A Marquesa está física e moralmente abalada, e obviamente insatisfeita com a segurança.

— Eu não seria suspeito de ato tão vil, seria? — o Monsenhor cruzou os braços maciços.

Os dois hesitaram por um segundo longo demais.

— O senhor está acima de qualquer suspeita quanto ao caso — o cabo retomou a voz, pigarreando. — Mas um dos dois criminosos usou a identidade de uma antiga associada sua. A senhorita Amellie Silverleaf.

— Amellie nos deixou há pouco mais de dois anos. A Marquesa sabe disso — Capri pontuou, a voz calma. — Ela tinha quinze para dezesseis anos. É uma idade em que as pessoas mudam muito. A Marquesa tem certeza absoluta de que era ela?

— Certeza? Não, não tem ... — continuou o guarda, ajustando o elmo. — Mas, como usaram o nome dela, achamos que poderiam tentar contaminar a relação da sua estimada organização com o nosso comando... Já o segundo envolvido...

Enquanto falavam, os dois guardas esticavam o pescoço, tentando espiar pelas laterais do gigante.

Capri, sem pressa alguma, olhou para trás.

Rúnvald estava pacientemente ajustando um par de manoplas novinhas da Ordem nas mãos do Senhor Tamar — que até poucas horas atrás era o respeitado Chefe da Guarda de Bearlord. Agora, o homem ostentava no peitoral o emblema reluzente do Capítulo de Pallas.

Os guardas encararam a cena. Encararam Tamar. Encararam o Monsenhor.

Capri continuou sem esboçar absolutamente nenhuma reação.

— Eh... é a vida — o cabo resmungou, soltando um suspiro derrotado. — O senhor prefere que voltemos ao castelo dizendo que o senhor se recusa a devolver suspeitos, ou que o senhor não os viu e nós não temos motivo para duvidar da sua palavra?

— Vocês terão substancialmente menos problemas burocráticos com a segunda opção, creio eu — o Monsenhor comentou, ajeitando a túnica nos ombros. — Mais alguma coisa que minha ordem possa fazer pela Marca?

— Não, Monsenhor. Muito grato pelo seu tempo — o segundo guarda adiantou-se, agarrando o cotovelo do cabo e já o puxando para trás. — Nos vemos na missa amanhã cedo!

Os cinco deram meia-volta em sincronia e começaram a regressar pelo paralelepípedo, numa marcha acelerada que quase virou corrida.




O Monsenhor

-__- Okey... eu já estava razoavelmente acostumado a ficar amarrado, e algo no solo sagrado impediu Gladys de vir me libertar desta vez. Mas a Amellie estava visivelmente furiosa. E Xitarro... bom, estava sendo o Xitarro, tentando usar a cauda para coçar atrás da orelha.

Éramos os "convidados de honra" nos aposentos pessoais do Monsenhor. Após meia hora nos deixando a pão e água para "pensarmos no que tínhamos feito", ele finalmente retornou. Desceu a escadaria vestindo a indumentária completa de líder da Igreja. Ele se deteve no topo dos degraus — como se já não fosse terrivelmente mais alto do que todos nós juntos — e declamou, a voz ressoando nas vigas do teto:

— Então o Herdeiro de Lord Blunt, fugitivo de Shén-Li e portador da Gladius Aeternum, cruzou a Montanha Morta e vem à MINHA igreja para usar o MEU portal místico para restaurar a Vigília Sombria?!? — proclamou ele, apontando o dedo na minha direção.

— Como você... — Amellie arregalou os olhos, surpresa. Em seguida, virou-se para mim com um olhar assassino. — Bentho... eu mandei você não falar nada com NINGUÉM até eu retornar!

— Não falar com os Cavaleiros! — protestei, tentando me ajeitar nas cordas. — Eu estava conversando só com o Xitarro! Aquele... aquele bêbado semiconsciente que arrastávamos estava ouvindo sem autorização! Acredite em mim, a gente até descascou ele por isso!

— Por Bophades, Bentho! — Amellie jogou a cabeça para trás. — Você fez um loredump melhor do que o meu! Não faltou detalhe nenhum!

— Olha quem fala! — Capri interrompeu do alto da escada, cruzando os braços gigantescos. — Você ASSALTOU a Marquesa de Bearlord?!?

— Assaltou?!? — eu me espantei, encarando a barda. — E aquele papo de "fazer emendas" e "fazer valer o que jurou a Madame Morgan"?

— Eu JURO que tentei, mas aquela dondoca é intratável! — Amellie baixou a cabeça, o tom murchando. Em seguida, voltou a encarar o Monsenhor. — E do que VOCÊ, dentre todos os homens do continente, está reclamando, Capri? Há três anos você berrava que queria "esganar aquela franga"!

— Eu queria esganar ela ONTEM! mas não o FIZ! — bufou o Monsenhor, espalmando o corrimão da escadaria. — e EU sou o porra-louca da dupla! Você é quem deveria ser a metade estável! Como me faz uma idiotice dessas?"? O que foi que você aprontou lá dentro?

— Eu explodi a esquife de Cyrak na cara dela.

Um silêncio absoluto e constrangedor caiu sobre a sacristia. O poeirão da sala até parecia ter parado no ar.

— Isso... — Capri começou, massageando o queixo. — Isso é muito melhor do que esganar...

— Eu não fiz nada de errado... — Xitarro arriscou do meu lado, com a voz bem baixinha.

— Mesmo?!? — Capri o encarou com pura ironia. — Sabia que a criminalidade, tanto nos povoados quanto nos ermos, subiu quatro mil por cento nos últimos cinco dias devido ao suposto retorno de *Don-o-Ron, o Deus Guaxinim dos Ladrões*? Todos citando um certo catfolk chamado "Xitarro" como o profeta da causa? E pelo que entendi, você é um ... pirata náufrago ou... admito que eu estava muito bêbado na sua parte do relato.

— Eles não são piratas, Capri! — Amellie saiu em nossa defesa. — Só pegamos uma carona com o Jackie há algumas semanas.

— O Capitão Lizzo? — Capri espantou-se, relaxando a postura por um segundo. — Como aquele garoto está?

— Muito bem... — Amellie sorriu, nostálgica. — Ah, e eu finalmente conheci a tal imediata dele... Mas não gostei dela.

Deixei um riso abafado escapar. Os dois ficaram em silêncio um segundo, me encarando.

— Achou algo engraçado, Filho de Blunt? — Capri rosnou, cravando os olhos em mim.

— A dinâmica de vocês dois... — confessei, olhando do Monsenhor para a Amellie. — É... muito sincera. Eu realmente não esperava nada disso.

Capri deu outra bufada, tentando parecer contrariado, mas já estava completamente desguardado.

— Vou libertar vocês três agora, e manter o santuário concedido. — resmungou, por fim, descendo o restante dos degraus. — Amellie, o seu antigo quarto ficou para o Rúnvald. Vai se virar com as estadias temporárias.

— N-nós vamos poder usar o portal? — perguntei, sentindo a esperança acender.

— De forma alguma! — Capri retrucou, sem hesitar.

— Monsenhor... um amigo precisa disso! — protestei, inclinando o corpo enquanto ele começava a soltar os nós das minhas cordas. — Ele salvou a minha vida duas vezes... Eu devo essa a ele.

Capri terminou de libertar a Amellie e caminhou na minha direção, ajeitando as placas pesadas dos ombros.

— Deixa eu ver as joias, então.

— Estão com o Xitarro.

O Monsenhor pegou a bolsa de armazenamento — detendo-se por um segundo ao constatar que o garoto-gato já tinha tirado as próprias mãos das amarras há tempos, embora preferisse não dizer nada — e virou o conteúdo sobre a mesa de madeira rústica, Olhando com cuidado enquanto espalhava nosso saque com um estrondo.

— Opalas e diamantes negros. Isso é o que alimenta a matriz do portal... deve dar para pelo menos dois usos. Ida e volta — disse ele, separando as pedras reluzentes com os dedos calosos. — Os diamantes regulares são a doação de vocês à igreja.

— DOAÇÃO?!? — nós três protestamos em uníssono.

— Muito provavelmente vou ter que consumir essas pedras para trazer vocês de volta à vida! "Limbo das Sombras"... — resmungou o Monsenhor para si mesmo, cerrando os olhos. — E as safiras nós vamos mandar para o palácio, para a Marquesa esquecer de vez os eventos desta manhã...

— Mas... isso é o NOSSO loot! — reclamei, esfregando os pulsos vermelhos.

— Masmorra da Montanha Morta? Erguida por Lord Blunt? — Capri comentou, sem nem olhar para mim.

— Sim... Então, tecnicamente é antecipação de herança!

— Lord Blunt "tecnicamente" não seria um nobre exilado e proscrito, cujos bens pertencem por direito ao Estado de Shén-Li? — ele completou.

Nenhum de nós respondeu.

— Shén-Li, a quem estamos tratando há anos como aliados comerciais e militares? — continuou o Monsenhor, empurrando as gemas para o canto da mesa. — A meu ver, esse tesouro é tão ilegal quanto se vocês tivessem tirado do bolso do próprio Aetíades. Não quero as moedas com cunhagem oficial para não me enrolar mais do que já estou. Podem ficar com o que restou.

— Desde quando você se tornou esse "personagem político"? — Amellie observou, tombando a cabeça para o lado.

— Necessidade — o Monsenhor colocou o que restou das moedas e gemas de volta na bolsa e a atirou de volta para Xitarro. — Afinal... Você foi embora, Amellie.

A barda baixou a cabeça, o sorriso irônico desaparecendo por um instante.

O som grave de um sino ressoou do lado de fora, ecoando pelas paredes da catedral e indicando o meio-dia.

— "Obrigado, Ênia, sua vaca!" — Capri murmura, parte como prece, parte como resmungo insatisfeito. — Podemos almoçar agora. No fim da tarde o portal estará pronto.

Cardullion


— Uma bíblia de Cartallas... — Rúnvald entregou o livro encadernado em couro surrado a Xitarro. — Espero que o seu interesse na nossa igreja não seja só para ter passe livre para falar palavrão.

— Eu passei cinco anos... dos dez aos quinze, preso em uma ilha de quinze metros quadrados — Xitarro respondeu, folheando as páginas com cuidado para não enganchar as garras no papel antigo.

— Hmm... — O firbolg coçou o cavanhaque grisalho, emitindo um som grave do fundo do peito. — É... você se qualifica no requisito "Perseverança".

— O que exatamente significa a estampa desse bode no fecho? Esse "Capítulo de Cardullion"? — perguntei, apontando para as garras de ferro que prendiam o tomo.

Rúnvald soltou uma risada curta, que mais parecia um abalo sísmico no peito.

— Significa o braço rústico da fé, garoto. Os cavaleiros ligados ao Capítulo de Cardullion lida diretamente com os bárbaros das montanhas. Você queria o quê? Que eles usassem rapé e fizessem reverência de mesura? Se um cavaleiro tentar aplicar o dogma refinado de uma catedral em cima de um guerreiro tribal que perdeu toda a sua linhagem, ele leva um machado na testa antes de terminar a bênção.

Ele apontou para a própria armadura e completou:

— Eles são rústicos por necessidade, mas nunca desrespeitosos. Protegem as estradas, ampliam o alcance da igreja e ajudam esse povo a reencontrar o próprio destino. Para você entender a divisão: Eu sou ligado ao Capítulo de Pallas que é a nossa cavalaria regular; o Capítulo de Cartallas as extensões coordenadas pelo Monsenhor pessoalmente; e o de Cardullion são cavaleiros andantes e é a linha de frente na poeira.

— Faz sentido — comentou Xitarro, sem tirar os olhos do papel. — A rusticidade gera confiança.

— É mais do que isso — Rúnvald ficou sério, cruzando os braços gigantescos. — É reparação. O Império e a guerra de Bearlord quase varreram a etnia do mapa. O Monsenhor levantou esta igreja e o Capítulo de Cardullion para garantir que os sobreviventes e seus descendentes tenham para onde voltar, com cavaleiros dispostos a escoltá-los, erguer abrigo e falar a língua deles sem frescura diplomática. Se para ajudar esse povo a regressar à sua terra nós tivermos que ser meio rudes e comer poeira na estrada, que seja. Cartallas não se importa com a compostura das suas botas, mas com a firmeza do seu passo.

Ele balançou a cabeça, encarando o pátio silencioso onde a poeira da luta entre Khao e Capri ainda baixava. Enquanto o firbolg absorvia o peso da própria fala, inclinei meu corpo contra um pilar de pedra e puxei um palito do bolso.

— É... justo — comecei, limpando um dente com a ponta do palito —, mas olhando pelo lado prático do nosso lado da moeda... a má notícia é que, se surgirem esses tais "Máscaras de Don-o-Ron" em todo o lugar, eles vão suplantar os "Corvos de Morval" em questão de semanas em Shén-li. Isso significa concorrência mais competente para o nosso empreendimento, mais trabalho para a Igreja e Bearlord.

— E qual é a boa notícia? — Xitarro estranhou, erguendo os olhos do livro.

— A boa notícia: agora despistamos os meus pais e o Capitão Khao não está mais caçando a gente. Podemos finalmente voltar para Shén-Li assim que restaurarmos Virgílio na Terra das Somb...

— *Limbo* das Sombras — Rúnvald corrigiu, sem nem pestanejar. — Você sequer sabe o que é esse lugar, garoto?

— Hmm... O meu pai seguiu uma pista no começo da carreira dele para forjar a armadura original lá — puxei da memória, tentando lembrar das histórias vagas da infância. — A Amellie fala que ele até fez um amigo naquele lugar, o que eu acho bem difícil de crer... Não ter gente lá, mas meu pai fazer amigos.

— O Limbo das Sombras é um subdomínio do próprio Submundo — explicou o firbolg, a voz descendo uma oitava, como o som de cascalho rolando. — Pense nele como o domínio do vazio, uma passagem obrigatória para a terra dos mortos. Aqueles que têm a passagem livre sob a graça da Dama-Doji (a Garça, Deusa da Velhice e da Morte Natural) são os poucos felizardos que cruzam direto. Mas todas as outras formas de morte... as mortes de merda, violentas, injustas, ou aquelas em que a vítima deixou assuntos inacabados... todas deixam sua marca sombria por lá.

Ele fez uma pausa.

— A vida não deveria existir naquele lugar.

— A própria Gladys não sugeriu que era mais fácil chegar lá pelo Submundo do que tentar ir direto? — Xitarro relembrou, erguendo a cabeça do livro.

— Bem, o meu pai conseguiu... e ele nem era o todo-poderoso "Lord Blunt" na época... — argumentei.

— Mas ele já era um líder de Horda, e escolheu ir sozinho — Rúnvald insistiu, encarando-me com seus olhos calmos e profundos. — Talvez esse seja o seu verdadeiro talento dos Blunt... A sua forma de sobreviver. Fazendo cagadas incompreensíveis e pegando a Morte de surpresa.


O Gigante


O cheiro denso de incenso de resina misturado à umidade da pedra antiga preenchia o pequeno cubículo. Amellie estava sentada atrás da grade de madeira, o corpo tenso, pronta para disparar o cinismo habitual que sempre lhe serviu de escudo. Do outro lado da divisória, o silêncio de Capri era vasto como uma montanha. Amellie mudou muito desde que foi a Shén-li. E Capri sentia que algo faltava nela. E Amellie dentre tantas emendas que fez, jamais fez uma última.

— As outras igrejas usam isso como desculpa para roubar segredos de devotos e vendê-los por influência em cortes elegantes... Você sabe, não sabe? — Amellie perguntou, soltando um riso seco que morreu antes de alcançar seus olhos.

— Eu sou um péssimo sacerdote — a voz do Monsenhor ressoou do outro lado, grave e profunda, feito o rosnar de placas tectônicas se acomodando. — Não saberia o que fazer com um segredo nem se ele valesse moedas de ouro. E você tem uma língua de prata... poderia mentir o quanto quisesse e eu acreditaria. Só... fale o que precisa falar.

Amellie mordeu o lábio inferior até sentir o gosto metálico. A máscara de barda e a persona de Janete Quá começavam a estilhaçar.

— Eu sou um gigante — ela começou, a voz oscilando.

— Você já me contou histórias bem melhores que essa — interrompeu Capri, sem ponta de malícia, soltando uma risada abafada achando que ouvia apenas mais uma das baboseiras da amiga.

— Você me mandou confessar, não mandou?! Agora escuta! — Amellie explodiu em um sussurro furioso, encostando a testa na grade. — Eu sou colossalmente grande. Do tipo... em que vocês, mortais, são menos que formigas. Ou ao menos eu era. Eu pisava em vocês sem nem gastar pensamento. Gigantes não devem satisfação a insetos.

Uma lágrima quente escorreu por sua bochecha, mas ela a enxugou com ignorância, escondendo o rosto na penumbra. Na mente, flashes de um passado antigo voltavam: de quando enxergava os bárbaros como brutos de mil metros que podia manipular apenas amarrando uma corda no pescoço de um bode.

— E sabe o que isso me tornou? Sozinha. O tempo todo — a voz dela ruiu. — Todo mundo se aproxima porque o gigante é grandioso, mas ninguém aguenta olhar para o quanto ele é terrível. Sem amigos de verdade. Amantes ocasionais que viraram inimigos amargurados... Tribos inteiras que eu joguei umas contra as outras como se fossem peças de um jogo fútil. Até a morte... até a morte foi só um inconveniente técnico. A morte também era uma formiguinha pra mim.

Do outro lado, o som do riso de Capri sumiu. Ele fechou o cenho na escuridão do cubículo, em absoluto e pesado silêncio, absorvendo a assombrosa confissão que se desenrolava.

Amellie agora chorava sem contenção, descarregando o peso e a culpa de décadas de arrogância em um único e convulsivo desabafo.

— Mas um dia... eu encolhi — ela soluçou, abraçando o Alaúde de Mogno contra o peito como se fosse um escudo. — E agora eu vejo o mundo pela altura das formigas. Eu vejo as marcas do pé do gigante por toda parte. Vejo o quanto as pessoas o odiavam. Elas me contam sobre os crimes que esse gigante cometeu, sem saber que fui eu quem assistiu a tudo lá do alto, cabeça além das nuvens... E agora qualquer um poderia me pisar do mesmo jeito que eu pisava os outros. Eu tenho medo, Capri. Eu deveria ser pisada. Uma parte de mim queria continuar sendo o gigante — não para pisar nos outros, mas para conseguir não me importar... Só que agora eu me importo. Eu me importo com tudo.

O som da madeira pesada rangendo ecoou pela sacristia. Capri destravou a porta do confessionário e se colocou de pé. Ele era uma figura monumental, um colosso de carne e fardos. Ele abriu a portinhola lateral e olhou para baixo.

Lá estava Amellie. Pequena, encolhida, com o rosto encharcado de lágrimas.

— Eu adoraria esmagar a cabeça desse gigante... — disse Capri. Havia uma verdade brutal e honesta em seu tom. — Eu perdi irmãos de arma para esse mesmo gigante. Mas eu também esmaguei formigas que carregavam o meu próprio sangue nestas montanhas quando a fúria cega me levava. Sei bem o quão enevoante é ser gigante!

O Monsenhor estendeu uma mão gigantesca e calejada. Não para punir, mas para acolher.

— A Perseverança que eu aprendi a pregar não é sobre fingir que o gigante nunca existiu. É sobre aceitar que o gigante morreu e aprender a andar com o que sobrou dele. Aceitar e seguir em frente.

Amellie soltou um arfar profundo, o corpo tremendo enquanto sentia a gravidade do segredo finalmente se dissipar no ar, dissolvido naquela metáfora. Monsenhor achava que falava de algo, ou compreendeu tudo? Quem liga?

— "Eu sou um gigante"... — Capri deu um sorriso terno, quase paternal, voltando a fechar a portinhola. — Você continua sendo a melhor contadora de histórias que eu conheço, garota.

Amellie enxugou os olhos vivazes com a manga do vestido, soltando um riso fraco entre os últimos soluços.

— E você? Quando foi que virou um mentiroso tão talentoso?

Capri piscou, genuinamente confuso.

— Como é? Mentiroso EU?!?

— Eu quase acreditei quando você disse que era um péssimo sacerdote.

O silêncio voltou a tomar conta do confessionário, mas desta vez não havia peso. Pela primeira vez em duas vidas completas, a Primeira Escriba da história do Bode havia escrito o capítulo mais difícil e aterrorizante de sua existência: a sua própria absolvição.

Epílogo

— Eu preferia o outro alaúde... — Xitarro olhava com desdém para o Alaúde de Mogno. — Esse cheira a queimado... e morte.

— É menos charmoso, mas mais elegante... e absurdamente mais poderoso! — Amellie insistiu, abraçando o instrumento contra o peito com um brilho renovado nos olhos.

— Você tem certeza de que esse tal "Shadowlimbo" tem gravidade? — perguntei, ajeitando as alças da bolsa. — Depois do que passamos na mansão, perdendo ar, gravidade e som... Será que o Monsenhor não empresta a Avalanch...

— Não! — Capri urrou, antes mesmo que eu terminasse a palavra.

— [NÃO!] — Gladys ressoou na minha mente quase simultaneamente, vibrando a bainha em um acesso de puro ciúme.

Estávamos no salão principal de missas, diante de um arco macabro esculpido em ossos de marfim. Um círculo de gemas negras distribuído pelo Monsenhor queimava em chamas silenciosas, soltando uma fumaça densa que se transformava em uma névoa azulada. Lentamente, o tecido do espaço se rasgava, revelando a passagem.

— O portal fica aberto por uma hora — explicou o Monsenhor, observando o vórtice se firmar. — Como o solo do meu lado é sagrado, as chances de alguma aberração atravessar de lá para cá são baixas... Mas eu e os cavaleiros ficaremos a postos.

— Mesmo se acharmos a forja imediatamente, consertar uma armadura e restaurar a Vigília Sombria leva muito mais do que uma hora — relembrei. — Talvez dias, semanas. Pode fechar quando nós passarmos.

— Quando estivermos prontos... — Amellie meteu a mão no bolso, tirando um par de esferas mensageiras de cristal e entregando uma a Capri. — Avisamos por isso aqui. É só você reabrir o portal. Deixamos mais opalas com você.

— A missa de amanhã não vai ser bem agradável com esse trambolho atrás de meu púlpito... — Capri resmungou irônico, cruzando os braços gigantescos. — Mas desmontar e remontar pode ser um problema em caso de emergência.

— Monsenhor... — dei um passo à frente. — Eu realmente não consigo encontrar palavras para agradecer ao senhor por tudo... Pelo que fez com o Khao, por nos ajudar com o Virgílio...

Capri se agachou devagar para alinhar seu rosto colossal à altura dos meus olhos. Ele colocou uma mão sábia, pesada e serena sobre o meu ombro e aproximou a boca da minha orelha.

— Se você magoar a Amellie... — ele sussurrou, a voz caindo em um tom tão grave que fez meus dentes vibrarem. — Eu vou encontrar você e atirá-lo do topo de um penhasco. Não importa quem sejam seus pais.

Ele deu dois "tapinhas amigáveis" no meu ombro para disfarçar a ameaça, quase me enterrando alguns centímetros no piso de pedra.

— Próxima parada... — Xitarro sacou o bastão, girando-o no ar com um entusiasmo sanguinário. — Terra do Limbo das Sombras! E o que quer que esteja nos esperando lá dentro!

— Mas antes... — Amellie se adiantou, parando a um passo do portal e encarando Capri com um ar repleto de mistério. — Tenho uma última missão para você, Monsenhor.

— Eu já não estou fazendo muito, garota?

Amellie olhou para mim de canto de olho e sorriu.

— Preciso que você encontre três lendas da literatura... — comentou ela. — Inagami... Renai... e Omar Yarol. Você vai entender o porquê no caminho.

— Quer que eu mande um dos cavaleiros atrás de...

— Tem que ser você — Amellie insistiu, irredutível.

— Meu tempo de andarilho acabou! — ele bufou. — Eu sou a cabeça de toda...

— Se você não se divertir com o resultado, eu como meu alaúde! — Amellie sorriu, transbordando uma confiança enigmática.

— Se voltar com o alaúde velho, eu ajudo a temperar esse aí... — Xitarro concordo, soltando um riso gutural.

Capri resmungou e rolou os olhos, dando a entender, com a pior das más vontades, que faria o que foi pedido.

O arco de ossos estalou e o portal azulado se expandiu, largo o suficiente para a travessia. Chegara a hora de dar o passo em direção ao próximo capítulo.

Novos perigos.

Uma terra de mortos na borda do próprio Submundo... Quem será que iríamos encontrar por lá?




[HUMOR} A Grande Audiência ll