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7 de março de 2026

[Edgelord] Mito de formação: Amellie parte 2

 Parte 2 - o Devorador de Nomes


 Foi a melhor idéia que eu já tive. Àquela estava acostumada a ser reverenciada, agora era uma competidora pela atenção da professora.

 E surpreendentemente, Cadete Mamãe tinha personalidade. Entusiasmo. Em pouco tempo era meu melhor aluno, e com isso levantava a barra mais para o alto. Como um monitor, eu tinha uma segunda voz para Àquela treinar. Ensinei ele a estender a vocalidade a ponto que ele podia razoavelmente imitar outros.

 Seria um bardo de razoável-a-bom, se não tivesse colocado na cabeça que seria um paladino de Shén-li.

Mas isso eram as tardes. As noites, eu queria um tempo para mim.

 O Palácio da Nova Guarda era muitas coisas — fortaleza, quartel, tribunal — mas definitivamente não era um bom lugar para um bardo entediado.

Não havia instrumentos para dedilhar. Nem músicos pelos corredores. A biblioteca, quando enfim a encontrei, revelou-se pouco melhor: fileiras intermináveis de tratados técnicos. Logística militar. Manutenção de armaduras. Arquitetura de muralhas. Estratégias de patrulha. Tomos grossos e severos, escritos por homens que pareciam desconfiar profundamente da ideia de entretenimento.

Suspirei e puxei um volume ao acaso.

Bandoleiros nas Estradas de Lian-Zhou: Relatório das Campanhas de Lord Blunt.

Nada leve. Mas era o menos árido que encontrei.

Abri o livro e comecei a folhear distraidamente. Relatos de emboscadas, rotas de contrabando, nomes de líderes de bando. Aos poucos, parei de ler o texto e comecei a imaginar as lacunas. Quem eram aquelas pessoas antes de virarem bandidos? Que tipo de vida levava alguém a escolher as estradas e o risco constante da forca?

Talvez desse uma boa história.

Eu já estava inventando diálogos inteiros na cabeça quando uma sombra caiu sobre a mesa.

Um livro pousou diante de mim.

Levantei os olhos.

O arquivista-chefe Estebán ocupava a cadeira oposta com a tranquilidade de quem sempre soube que chegaria naquele momento.

— É a coisa mais lúdica que temos — disse ele.

Olhei para o volume.

Capa de couro vermelho, claramente artesanal. As bordas gastas pelo manuseio, mas bem cuidadas. Não parecia um tratado. Nem um manual.

Passei os dedos pela lombada.

— Capa feita à mão… — comentei. — Um diário?

— Leia a antecapa.

Abri o livro.

A primeira página trazia uma caligrafia elegante, serifada, quase cerimonial.

O Devorador de Nomes.

Ergui uma sobrancelha.

— O menestrel Cyrak nunca escreveu esta epopeia. — folheei mais algumas páginas, mas soava reepreensível. — Parece… apócrifo.

Estebán se recostou na cadeira.

— O autor foi testemunha ocular. — disse simplesmente. — Está no direito de relatar. Guardou o manuscrito por muitos anos como lembrança.

Fez uma pequena pausa.

— Sabe declamar o discurso final? Quando Cyrak confrontou o Devorador… enquanto Lord Blunt se esgueirava para dar o golpe decisivo?

Fechei o livro por um instante, pensativa.

— Pelo que ouvi… Cyrak improvisou tudo. — respondi. — E nem conseguia repetir o discurso depois que o monstro caiu.

Estebán inclinou levemente a cabeça.

Então começou a recitar.

"Eu sou Cyrak, o Conquistador 

o eco nas cortes douradas,

o sussurro que antecede rebeliões,

o verso que fez reis ajoelharem e amantes se levantarem.


Meu nome não é uma palavra.


É um refrão.”

— O senhor leu isso recentemente? — perguntei.

— Não abro esse livro há vinte anos. — Estebán respondeu sem hesitar. — Amaldiçoado com memória eidética.

Ele apoiou os cotovelos na mesa, como quem consulta uma estante invisível.

— “Eu sou excesso. Sou hipérbole encarnada. Sou metáfora ambulante. Sou a vírgula que impede o fim da frase. Tente me nomear — e verá que meu nome se multiplica.”

Folheei o manuscrito rapidamente.

Ipsis litteris.

— Cyrak enfrentou um ser ancestral que devora egos — comentei, passando os olhos pelas páginas. — E, em vez de ocultar o nome verdadeiro… ele o berrou. Entregou tudo. Ego, história, identidade. Fez um devorador de existências ter indigestão.

— Enquanto isso… — completou Estebán — o estoico Lord Blunt compartimentava o próprio ser. Atrás de pseudônimos. Dentro de uma mente labiríntica. Avançando como uma muralha de ferro frio.

Assenti.

— Uma aliança improvável.

— Uma aliança de necessidade. Uma aliança dada ao Ocaso. — corrigiu ele. — Dois dos poucos seres no mundo capazes de enfrentar aquela criatura.

Fez uma pausa.

— Mas sabe qual foi a lição que Lord Blunt tirou disso?

Levantei os olhos do livro.

— Estou curiosa.

Estebán inclinou-se um pouco sobre a mesa. O gesto era pequeno, mas tinha algo de predatório.

— Cyrak é perigoso.

A frase ficou no ar entre nós.

— Mesmo se Cyrak gostasse dele? — retruquei. — Mesmo se admirasse aquele campeão das trevas marchando contra o mundo?

Estebán apoiou o queixo na mão.

— Eis a parte mais triste. - Seus olhos se perderam por um instante em algum ponto distante da biblioteca. — Cyrak nem precisa querer causar mal. Ele apenas… causa.

Fez um pequeno gesto com a mão, como quem folheia décadas.

— Bearlord. Cardulion. Cahuthers. Cinco reinos antes dos quinze anos.

Ele me olhou de novo.

— E viveu oitenta e sete.

Baixei o olhar para o manuscrito. Era uma análise incômodamente boa.

Depois de um tempo, falei:

— Sentimos sua falta no funeral do mago.

Estebán não respondeu imediatamente.

— Eu não pude ir. — disse por fim. — Não posso deixar o castelo.

Fez uma pequena pausa.

— Mas fui correspondente de Myrlen nos últimos anos. Quando a doença começou a avançar.

Ergui os olhos.

— Todos esses anos?

— Amizades como aquela são difíceis de conquistar. — respondeu. — E deveriam ser preservadas.

Se recostou na cadeira, pensativo.

— Assombroso como Cyrak conseguiu desperdiçar a dele.

O silêncio se estendeu entre nós.

— Nos últimos anos — continuou ele — Myrlen se arrependeu de muitas coisas. Do mal que fez. Do mal que permitiu. Mas acho que você já sabe disso.

— Sim… — murmurei.

Normalmente eu teria uma resposta pronta. Uma observação espirituosa. Um comentário capaz de desmontar o clima pesado da sala.

Agora não tinha nada.

Estebán me observou por alguns segundos.

— Eu não sou tolo, senhorita Silverleaf. — disse finalmente. A frase não era acusação. Nem exatamente ameaça. — Estarei sempre com minha guarda levantada.

Ele empurrou o manuscrito um pouco mais para perto de mim.

— Mas Myrlen sentia, ao mesmo tempo, arrependimento… e orgulho de Amellie Silverleaf.

Fechei o livro com cuidado.

A encadernação era simples: couro e costura firme, feita com precisão quase acadêmica. Nada ornamental, mas impecável.

Narrado pelo próprio Lord Blunt.

Valia uma pequena fortuna.

O Conselho Regente provavelmente daria cambalhotas de indignação ao descobrir que aquele manuscrito havia saído das muralhas do castelo.

E agora estava nas minhas mãos.

{Ouça o Monólogo de Cyrak que destruiu o Devorador de Nomes em SUNO.COM}


Metade da manhã já havia passado. Depois das aulas de Couture e Poise, a sala ainda cheirava a incenso leve e tecido recém-passado. Eu ajudava Àquela a recolher almofadas e alinhar cadeiras para a segunda parte das lições.

Ela estava inquieta. Não era difícil perceber.

A arqueira lendária, a capitã da Nova Guarda, a mulher que enfrentara monstros e generais… estava nervosa como uma debutante.

Finalmente criou coragem.

— A senhorita viaja muito, obviamente — disse, ajeitando um pano que já estava perfeitamente alinhado. — Não pensa em… se acomodar algum tempo?

Levantei os olhos.

— Tipo… em Shén-li?

Oficialmente, era minha primeira visita à cidade.

Oficiosamente… eu poderia ensinar a ela onde ficavam os verdadeiramente melhores bares, os becos mais barulhentos e os músicos mais interessantes. Conhecimentos herdados de uma outra vida, enterrada sob camadas de tempo.

— Eu penso que… — ela continuou, escolhendo as palavras com cuidado — você é o pacote completo. Refinada, culta, aventureira… e não tem medo. Viu boa parte do mundo. Deve ter uma carta de pretendentes…

Soltei uma pequena risada.

— Que é isso! Olhe para mim. Eu tenho só…

Olhei para mim.

Minhas mãos.

A altura da mesa.

Dezesseis anos.

Nossa.

O tempo voou.

Por um instante senti algo estranho — como se uma memória antiga tivesse tropeçado dentro de mim e caído de cara no chão da realidade.

— Vou ser direta então — disse Àquela, tão nervosa que nem percebeu minha pausa. — Não sei se reparou no Bentho… mas eu suspeito que—

— Poderia me dar um segundinho?

Não esperei resposta.

Saí do salão.

O corredor estava fresco e silencioso. Caminhei alguns passos até parar diante de uma janela estreita, olhando o pátio da Nova Guarda.

Respirei fundo.

Uma vez.

Duas.

Aquilo estava ficando perigoso.

Não o tipo de perigo que envolve monstros antigos ou duelos em pontes estreitas.

Outro tipo.

Bentho com sua sinceridade desajeitada.

 Àquela tentando parecer composta enquanto claramente conspirava como uma mãe orgulhosa.

 As aulas. As conversas. As risadas.

Família.

A palavra ecoou na minha cabeça como um sino rachado.

Eu já tinha visto esse padrão antes.

Eu chegava.

 Encantava.

 Agitava o mundo ao redor.

E então as coisas… quebravam.

Reinos. Amizades. Confianças.


Castelos-fortalezas não costumam ter os luxos de uma mansão, mas aquele tinha um pequeno lavabo separado do banheiro.

E o lavabo tinha um espelho.

E o espelho era meu confidente.

Passo a mão pelo peito, avaliando o volume.

“Pequenos caroços”, concluo mentalmente.

Desço as mãos pela cintura.

“Algumas curvas… mas ainda reta demais”, murmuro.

Levanto um pouco a saia e observo as pernas.

“Isso não são pernas. São salsichas.”

Então ergo o olhar.

Amellie Silverleaf me encara do outro lado do espelho. Deflorando postura delicada e olhos vivos. Para qualquer observador, ela seria simplesmente… bonita.

— Ah, não… — suspiro.

Cruzo os braços, estudando meu próprio reflexo.

— Eu sei exatamente o que estou fazendo. Catalogando defeitos, exagerando proporções, ignorando o conjunto…

Inclino a cabeça.

— Eu sou adorável.

Faço uma pausa.

— …e ainda assim estou aqui procurando problemas.

Respiro fundo, derrotada pela conclusão inevitável.

— Pronto. Confirmado.

Aponto para o espelho.

— Eu sou oficialmente uma garota.

Myrlen, o Exemplar dos Magos que me amaldiçoou, avisou que chegaria aquele momento de decisão. Se tudo desse certo, eu teria recuperado meu corpo àquela altura. Mas não. Eu fracassei.

Estava ocupada me desculpando com Cardullion, e depois adotei aquele maluco bêbado. Curei ele, o tornei um campeão, e arrumei sua igreja, e emendei daí em uma vida de aventuras por três anos. Eu vim para Shén-li por achar que novos ares me devolveriam a claridade...

... Mas acho que perdi tempo demais.

Não vejo forma de retornar, e o Mundo já aceita Amellie... Mais do que jamais aceitará Cyrak.

Escrevo uma carta para me despedir de Lady Àquela. Peço a Esteban que entregue, pois não queria entregar em pessoa e precisar me justificar.

Decido não explicar que sim, eu vi que o pequeno “Cadete Mamãe” estava caidinho por mim, por isso não concentrava na formação, nos seguia como um cachorrinho, e era o aluno mais esforçado que eu tive em quase noventa anos. E que ela daria uma boa casamenteira se a história de “ser o rosto do Coração do Mundo” não desse mais certo...

Escrevo também ao Conselho regente que não: Suas dúvidas estavam infundadas. Àquela era uma defensora do Acordo. O Palácio negro defendia Shén-li e nada mais.

Tentei me afastar.

Shen-Dao, a capital, era enorme, e um bom lugar para me esconder um tempo. E por dois anos comecei a chamar de lar.

Comecei a fazer conexões.

E então, uma noite em que fui me aventurar em Huo-fen, me deixei capturar pelos Corvos de Morval, para descobrir quem era o patrono secreto deles. Quando decidi que era hora de ir embora com o que eu consegui levantar, o destino me atrapalha outra vez.

... E lá estava eu, com o florete na garganta de outro prisioneiro...

- "Cadete mamãe?" - o jovem ficou mais alto, mais forte, mais homem. Devia ter 17 anos agora.

- S-senhorita Amellie?!?






[Edgelord] Mito de formação: Amellie parte 1

 PARTE I - a Professora de Ópera



[se possível leia ouvindo Amellie's Jam]

- Bem-vinda a Shén-li! O Coração do Mundo!

O entusiasmo dela é cativante.

Lady Àquela foi quem me recebeu nas muralhas que guardam o acesso ao Aro Externo. É uma mulher de beleza marcante — loira, de traços firmes e maduros. Deve ter algo entre trinta e trinta e cinco anos, imagino. Biologicamente, pelo menos vinte anos a mais que eu.

Sua armadura é impressionante. Toda trabalhada no tema da águia, com placas que evocam asas. Ainda assim, nada nela parece meramente ornamental: cada peça transmite a sensação de ter sido feita para a guerra. É um raro equilíbrio entre funcionalidade e beleza.

Quando ela se move, entende-se por quê. Lady Àquela não veste apenas aquela armadura — ela a encarna. É o próprio símbolo da Nova Guarda… de Shén-Li.

- E então? - ela fala, quebrando o protocolo. - Seja brutalmente honesta comigo!

Isso foi há dois anos atrás.

Meu nome, ao menos por agora, é Amellie Silverleaf de Yalatanil. Tenho dezesseis anos.

Passei os últimos três dividida entre cortes e igrejas, entre aventuras perigosas e uma busca desesperada por alguma forma de reverter uma maldição que insiste em me acompanhar.

Ainda assim, ali estava eu — diante das muralhas do Aro Externo — como convidada de honra da mulher mais importante de Shén-Li.

- Você não vai querer isso ... - Ameaço ela.

- Senhorita Amellie, o Conselho Regente tem alto estima em sua opinião. - Lady Àquela "A Dama do Arco", estende a mão para me ajudar a descer da carruagem. Bem militar... Bem "masculina". Devo quebrar isso...

- Certo... - despejo enfim. - Sua segurança nessa frase brega demonstra que é um Mantra!

Ela está assombrada. Eu AVISEI que ela não estava pronta.

- Bem, "Coração do Mundo" é nosso lema. - ela defende. - Todos no Reino recebem visitantes com isso.

- Você faz isso há Dez anos?, imagino...

- Quinze. - ela me corrige. Eu sabia que eram quinze. Eu errei de propósito. Quero que o tempo seja bem assimilado.

— Sua fala não hesita. Já soa natural, quase instintiva. O seu gestual é cativante… mas… — faço uma breve pausa e então aponto. — Os olhos se entregam.

Indico com o dedo as belas safiras que brilham em seu rosto.

- Os "olhos"?!? - ela parecia confusa.

- Você fala, mas não "compra" a mensagem. Não acredita nela. - concluo.

Ela recupera a compostura. Se torna uma militar de repente. Busca refúgio onde ela se sente segura... Devo definitivamente tirar isso dela.

- Talvez seja sua presença aqui....

- Explique... - eu estimulo.

- "Coração do mundo" soa... Imperialista. - ela confessa enfim. - A forma que nos referimos ao resto do continente... "Zonas Selvagens"... Acho que temo ser julgada.

Não era isso...

- Hmm... É isso. - eu sorrio.

- Agora você... Amellie Silverleaf, escriba da Igreja da Perseverança, que derrubou um titã e destruiu o Império de Caruthers...

— Não devem ter muitos bardos na sua companhia. Nós só damos suporte aos pesos-pesados — digo, com uma falsa modéstia que não faço muita questão de esconder. — O Monsenhor foi quem fez o trabalho pesado.

Dou de ombros, quase despreocupada.

— Aliás, a Igreja se formou depois da queda do Império… por causa da queda do Império. Eu só fiquei com a parte burocrática. — Inclino levemente a cabeça. — Se já conheceu um arquivista, sabe bem como somos chatos.

Ela acha que eu não vi o brilho no olhar dela. Achava que eu não sabia de nada, inocente. Mas eu tinha feito a lição de casa. Nada iria me surpreender.

- Bem, de uma "lenda" para a outra... - ela fala. - Bem-vinda a Shen-li, Senhorita Silverleaf. genuinamente. Eu estou nas suas mãos. Como Capitã e como aluna.

- Certo. - eu sorrio. - Então, vamos começar com o lendário Castelo Negro.

A mão dela vai instintivamente aos arreios de seu cavalo.

- ... Como uma DAMA! - interrompo ela. - A capitã está de licença de imediato. - Aponto para uma fila de soldados. - Pegue alguns para guiar minha... Melhor: NOSSA carruagem. Abrir as portas, e tudo mais.

- Eu... Adoraria. - fala enfim.

— Só evite o cadete número sete… — digo, apontando discretamente. Meu olhar clínico captara algo… estranho. — Está fora de formação.

A capitã reage como uma águia que avista movimento no campo. Vira-se imediatamente para onde indiquei. A linha inteira de cadetes se recompõe num estalo.

— Eu… vou dar um jeito naquele cadete.

Foi fabuloso de assistir.

Ela marchou na direção deles como uma general — ou talvez uma deusa da guerra — e parou bem diante do garoto que eu havia notado. Ele claramente acabara de assumir posição. O elmo estava torto, um passo adiantado demais, e o rapaz suava como se estivesse prestes a enfrentar um dragão vermelho. O Monsenhor teria uma síncope ao vê-lo.

— Cadete, apresente suas armas!

Ele melhorou um pouco. Estendeu a lança cerimonial com firmeza aceitável. Ainda assim, havia algo estranho: os outros jovens da fileira pareciam conter um sorriso. Havia um ar de zombaria no ar. Eu estava perdendo alguma coisa.

— Cadete — continuou a capitã — o Capitão Khao concedeu sua licença de uma semana, conforme programado?

— Sim, senhora! — respondeu ele, seco e marcial.

Àquela percebeu o murmúrio contido ao redor. Vi surgir em seus lábios um pequeno sorriso — o tipo de sorriso de quem aprecia um certo… exercício de autoridade.

— Então você vai nos acompanhar na saída da cidade e depois seguirá para a casa de sua família. Estou errada?

— Sim… Não! Digo, não senhora!

O pobre diabo estava completamente perdido.

— Então vai ser meu escudeiro nesta viagem. Vai guiar meu cavalo ao lado da carruagem… e vai defender a convidada com a sua vida. Entendeu?

— Sim, senhora!

— Gosto de como você me chama de “senhora”, cadete.

Ela parecia crescer diante da formação inteira.

— Mas quando estiver oficialmente de licença… vai me chamar de "mamãe".

A fileira inteira quebrou. Risos sufocados escaparam apesar de todos os esforços heroicos de disciplina. Sem sucesso.

Tenho quase certeza de que o cadete sete encolheu uns dez centímetros de pura vergonha.

- Que tal isso? - Àquela fala. - Domínio, autoridade...

- Fabulosos... - Eu aplaudo simbolicamente. - Mas não sabia que você era "dessas".

- "Dessas"?!?

- O "Cadete mamãe" tem idade para ser seu filho... - Eu comento. - É legal aqui em Shén-li? Devo comunicar alguém?

Eu vejo Lady Àquela, A Arqueira Lendária, a campeã do Levante de Lord Blunt, ficar vermelha como as escamas de Pyrros.

- Pelo amor de Aetíades, não é isso!!! - ela urra. - O que você pensa de... BENTHO! O Cadete Mamã... O Cadete Sete é meu filho! Digo, de sangue, vida real! Acabou de entrar na guarda! Sentido Bentho!

Os colegas de Bentho, bem como alguns mais veteranos se caem de rir. Cadete Sete para o que estava fazendo e posta-se em posição de sentido. Acho que herdou muito mais do pai, mas percebo a simpatia materna nele.

- Isso explica... - eu provoco. - Vou ficar de olho no "Cadete Mamãe" para você, milady.

---

Oficialmente, eu estava em Shén-li para ajudar na tal “chancelaria da fronteira”.

Com o Império de Caruthers reduzido a cinzas, reinos novos estavam surgindo por toda parte. O Conselho Regente queria transformar antigas “Terras Selvagens” em parceiros — e a Igreja da Perseverança, recém-fundada por Monsenhor Capri, era uma dessas pontes.

Eu mesma tinha ajudado a organizar a Igreja. Divulgar a palavra de Cartallas, negociar com nobres hostis, resolver problemas deixados pela Era do Fogo Frio… até convencer Lady Ydal a tolerar nossa presença em suas terras. Era o tipo de currículo que fazia diplomatas suspirarem.

Então me mandaram treinar Lady Àquela.

A Arqueira Lendária era a face perfeita da Nova Guarda — respeitada, admirada, quase impossível de odiar. Se alguém poderia abrir as portas de Shén-li para o resto do continente, era ela. Mas um velho senhor feudal de Yoriki não se impressiona com uma flecha oportuna no Senhor da Escuridão.

Esse era o motivo oficial.

O motivo real era outro.

O Conselho Regente não confiava totalmente na Nova Guarda. Encontros estranhos, rumores, pequenas inconsistências. Nada concreto — mas suficiente para levantar sobrancelhas.

Então me enviaram para observar.

Uma missão dentro da missão.

... E olha que eles nem imaginavam que eu já sabia sobre Estebán.

---

Eu janto toda a noite com Lady Àquela e sua família. Ela é bondade pura no coração... Este reino não merece alguém como ela. Bentho, o "Cadete mamãe", é extremamente empolgado, mas está intimidado por eu estar aqui. Guarda tudo o que está pensando por causa da "estranha"... Exceto uma coisa:

 O quão desconfortável é seu pai.

 Estebán é um "arquivista", como eu.. Ironia. Seu comportamento é o típico calado, sisudo, sempre ocupado. Chega tarde para as refeições e sai antes de todos. Para um garoto de... Chutaria 15 anos... Ele queria alguém ativo e másculo, como aquele brutamontes do Capitão Khao. Pobre coitado... Bem, cabe à família, não a mim, mostrar como ele estava errado.

Manhãs: nossas aulas são Couture e Poise. Pausa, retoma com Diálogo. Um pouco de etiqueta feminina... para salões chauvinistas. À tarde, debate e Oratória para salões não tão chauvinistas. Ela precisava saber impor Shén-li. Era difícil. Ela é amável e buscava aceitar os outros... Precisaria tirar isso dela também.

Mas o período seguinte, a tarde começava com... Actour

Roleplay.

Ela precisa COMPRAR o que vende. Não só repetir "bem-vindos a Shén-li, o Coração do raio-que-o-parta"! Precisava entrar na Personagem. Ser alguém que olha o abismo e manda cair dentro.

— Cena! — anuncio, batendo palmas uma vez. — Você recebe dignitários estrangeiros. Todos octogenários. E todos parecem mais interessados nas suas pernocas do que no tratado de cooperação que você deveria apresentar… o qual você mal compreende.

Àquela pisca, pega de surpresa.

— T-tem algum palanque? — pergunta. — Algo para me esconder? Ficar só da cintura para cima?

Inclino a cabeça.

— Você tem certeza que quer fazer isso?

Não era exatamente um desafio. Era uma escolha. Usar as pernas como arma… ou removê-las da equação. Não havia resposta errada, exceto se tomasse e se arrependesse.

Ela pensa demais.

— Eu consigo…

— Fale como o personagem! — corto imediatamente. — Nada de general pensando antes da batalha.

Ela se enrijece.

Então bato palmas de novo.

— Evento aleatório! — anuncio. — Alerta de intrusos. Gritos de batalha. O palácio está sendo invadido. Já estão no corredor.

Àquela não hesita dessa vez.

— Eu pego o palanque e arrasto para bloquear as portas!

Ah, aí está.

— Você consegue. Fácil — digo. — A porta está lacrada. Mas os dignitários… velhos, frágeis… estão em pânico.

Ela vacila outra vez.

— Mas… acalmar os dignitários é o correto? Instinto de preservação…

Perdi ela de novo.

Empurro uma cadeira simples para o centro da sala.

— Nova sidequest. Sua missão agora é mantê-los vivos. Suba e faça um discurso.

Ela encara a cadeira.

— Para acalmá-los? Prepará-los?

Balanço a cabeça.

Escolher é parte do jogo.

Ela ainda está pensando quando—

Então, "Clang".

Um escudo de enfeite no corredor é derrubado ruidosamente, anunciando um espião. Àquela fecha o cenho.

- Apareça, Bentho! - ela fala impaciente.

 Eu demorei a lembrar, mas de repente, lá estava o Cadete Mamãe.

- E-Eu ouvi gritos... - ele tenta justificar.

- Eu estou ocupada com aulas.

- de quê? - ele pergunta.

A Arqueira Lendária, campeã de batalhas, heroína do Levante… parece subitamente uma estudante pega colando.

— De… — ela começa.

Pausa.

— Ópera!

"Opera"? devo ter levantado uma sobrancelha.

- Eh, faz sentido... - Bentho assente com uma seriedade impressionante. - Me perdoe por...

— "Cadete mamãe" — digo rapidamente — poderia ficar um momento?

- Tem... Certeza, Senhorita Amellie? - havia censura no olhar dela. Ela não queria expor tanto suas fragilidades, ou do seu governo? 

- Você não vai poder sempre escolher a... "Audiência da ópera". - Por que em nome de Bophades ela escolheu "ópera"? - Você está envergonhada com o julgamento dele? Ótimo! Temos que quebrar sua vergonha! até onde ouviu, Cadete mamãe? envergonhe a Dama do Arco!

- Bem... - ele introduz até onde ouviu. - Na sua música, invasores estavam no portão. Precisa lidar com alguns homens indecorosos ou ...

- Bom, vá até aquela cadeira, e tome o lugar de sua mamãe...

Ele obedece, duro como se soubesse que ia receber uma reprimenda quando eu saísse. Vejo as safiras nos olhos de Àquela brilharem com reprovação silenciosa.

— Então, cadete — digo —, o que faria?

— Quantos deles podem lutar? — ele pergunta.

— Nenhum. — respondo. — Todos são velhos.

Ele franze o cenho.

— Mas a vida deles está em risco!

— Bentho… — murmura Àquela.

— É o cenário — respondo. — Velhos amedrontados. Proteja-os.

Ele sobe na cadeira.

— Não!

Silêncio.

— Eu… não sei que discurso faria… — diz ele. — Mas eles deveriam lutar! Eu daria minha vida por eles… mas não aceito que eles nem tentem!

Ele olha ao redor, procurando algo.

— Eles deveriam pegar pedras! Paus! Ou—

CRACK

Ele pisa na cadeira.

A cadeira quebra.

Bentho segura uma das pernas como se fosse um cacetete.

— Ou ISSO!

Silêncio absoluto.

O garoto percebe, de repente, o que fez.

— E-eu… desculpe… — começa a tentar remontar a cadeira.

— Você ia distribuir pernas de cadeira para os velhos imaginários? — pergunto, séria.

— Mãe, senhorita Amellie, eu—

Eu o abraço.

O pobre coitado não sabe o que fazer com as mãos.

— Cadete mamãe… você comprou a ideia!

- O ... O que?!? - Àquela olha, num misto de assombro... e inveja.

— Imaginação — declaro. — Esse é o combustível. Você acredita no cenário… e todos acreditam com você. Cadete Mamãe... Aceitaria ser meu segundo aluno de... Eh... Ópera? Sua mãe precisa de um parceiro, e eu de uma musa!

Continua

5 de março de 2026

EDGELORD - Cap. IV - Arco da Ledgyão

Meu Pai é o Maior Vilão do Mundo e eu perdi a armadura dele em cinco minutos


Sabe, "Bentho Oeste" é um cara afrável.

O povo de Huo-fen sempre procura uma oportunidade de "se dar bem" sobre forasteiro, e eu estava com algumas moedas sobrando. Acho que meu pai, na noite que revelou ser Lord Blunt, comentou que ele se fazia de vítima para medir as águas de suas futuras conquistas. Eu era mais bem-apessoado. Eu tento a abordagem um pouco mais afável. Sim, sei que eles estavam tomando vantagem de mim. Eu sempre percebo, e até dou corda, mas não é surpresa...
- [Foreshadowing...]
- O que, Gladys?
- [Nada... Nada...]
- Onde eu estava? Oh, sim.

Bem-vindos a Huo-fen. A Cidade Arsenal.

Se Shén-li é o coração do mundo, Huo-fen, eh, fica a leste da capital, a norte de Hálcora. Posso ver dos pontos altos a Barragem, as Muralhas do Ciclo Interno, e ao longe, a Montanha Morta.

Há dezessete anos, Lord Blunt, que alguns conhecem como "Estebán", e eu conheço como "Pai" , começou por esta cidade um levante que chegou muito próximo de dominar o mundo. A população local aceitou a mentira da derrota dele, e toda a propaganda. Mas com um twist curioso... 

Eles respeitam o que Blunt tentou fazer. 

Bem, eu estou tentando me tornar um super vilão eu mesmo, mas mesmo antes, o fosso gravitacional da lenda de Lord Blunt... O visual impactante... São marginalmente atraentes. A Nova Guarda usou isso para mostrar os grandes desafios da era de ordem que eles representavam, as ameaças que eles mantinham longe de nossas muralhas. Mas a mensagem se perdeu por aqui.

Ainda assim: Os Corvos Mensageiros de Morval eram tudo que tinham de "organizado". Alguns bairros tinham seus "corvinhos" na forma de crianças rebeldes sem causa que queriam parecer perigosos, e pintando com tinta lavável o corvo em seus rostos. Mas havia uma estrutura interna, que se escondia atrás de garotos que queriam só pegar um pouco de pão a mais, ou desculpas para brigar na rua com tonfas. Mas pelo que levantei na minha primeira noite como Bentho do Oeste, jamais fizeram uma ameaça séria à Nova Guarda. Se o Capitão Balmon quisesse mesmo se empenhar, poderia muito bem dar cabo deles.

Eu, secretamente LORD EDGY, O PRODÍGIO do PERIGO, achei onde eles se escondiam...

- [Estou quase sentindo falta do "Herdeiro da Escuridão"...]
- Nem todo mundo já nasce como, "Gladius Aeternum"....
- [Então você SABE meu nome e só erra para me provocar...]

O Açude que coleta as águas da Barragem (que eu salvei indiretamente dois dias atrás) se torna um pequeno rio navegável, com purificadores alquímicos ao longo de um canal que cruza a cidade e se torna um córrego que deságua em Hálcora, uma cidade portuária fora do Anel Externo, o complexo de muralhas defensivas. Não é navegável após isso, mas, depois da purificação, leva água para fazendas entre o anel externo e interno, compensando o pesadelo industrial que é Huo-fen.

E num desses maquinários purificadores, engenhados por Balmon da Torre da Bigorna, os Corvos montaram uma sede, um "compound". A estrutura da máquina era alvenaria de primeira, e de lá, puxadinhos de tijolos e tábuas faziam uma pequena vila coberta, uma cicatriz na área ribeirinha de tratadores de couro e carne. Pelas minhas interações com a guarda local, não me surpreenderia se os técnicos que deveriam verificar essas casas estivessem recebendo um "por fora" e não reportando.

Mas isso faz sua entrada um labirinto de tambores fedorentos, mas um bom ponto de vigília.

- [Eu pensei que você não ia mais ser herói, Bentho!] - Gladys fala.
- Eles não sequestraram uma donzela, pelo que eu sei. - comento. - Os Corvos possuem uma agente dupla na Nova Guarda, e parece que algo deu errado há uma semana e eles a capturaram...
- [Hmm... bate com a data da invasão de Ga-shi...]

Eu congelo.

A noite em que meus olhos se abriram. Haveria relação?

- Eu juro que não pensei nisso... - Resmungo. - Nós fugimos antes do inquérito terminar e saber como os seguidores de Blunt conheciam nossa rotina... Me conheciam. Mas será que essa é a pessoa que causou tudo isso? 

- [Só me prometa que não vai salvar a donzela e receber uma recompensa de... Depois de um banquete vem o quê? Um título de barão?]

- Eu vou trazer ela para a nossa causa... Fazer uma espiã minha... - começo a projetar. - Espiões não são cozinheiras ou velhinhas querendo heróis. Eles querem proteção negociada, quando tudo o mais falhou. Ela vai se sujeitar a mim! Lord Edgy!

- [Não que eu leve fé nos rapazes de tonfas com a cara tatuada, mas ainda assim sua legião é só você e eu. Qual seu plano?]

- Você esqueceu uma pessoa... - eu falo triunfante. Baixo uma mochila pesada que eu carregava.

- Virgilio...

Nada acontece.

- Tá tá... - rosno. - "Vigília Sombria"! Saia do Modo Mochila, entre no Modo Sentinela.

Algo na minha mochila se desembaraça. A armadura começa a se formar. Meio que "para no meio". Era mais esqueleto que armadura, mas… Bem, seguia ordens, certo?

- [Você vai arriscar a Armadura de Lord Blunt?] - Gladys observa.


- Eu aprendi a lição... - falo triunfante. - Vigília Sombria, ouça bem e obedeça ao pé da letra: Preste atenção a isto: (puxo dois baldes de lata para perto dele) Sua ordem é: dê... (faço umas contas de cabeça) Trezentos segundos. Dado isso... Atire esses baldes próximos a onde eu estiver... PRÓXIMOS mas não em mim. Tenha certeza que fará barulho e não possam ser ignorados por quem quer que esteja falando comigo. Depois disso: Dobre-se em modo mochila e se esconda nos barris até eu voltar.

- [Por que Cinco Minutos?]

- Cinco? Eu pensei que... - Não quis confessar que errei a conta. - Deve bastar. "Bentho Oeste" vai fazer algumas amizades, e do nada, um barulho. Isso distrai eles, e eu me esgueiro no forte.

- [Você sabe que "Virgílio" já está contando, não é?]

A cabeça do autômato estava fazendo "cliques" como um daqueles relógios de mola com temporizador.

- Aff... é difícil. - resmungo. - Vigília Sombria. Pare contagem e memorize o prompt.

Ele para e olha para mim.

- [Eu acho que vou com você...] - fala Gladys. - [Bentho Oeste vai estar cercado e mal assessorado...]

- Não posso chegar no meio dos ladrões com uma espada épica!

- [Você é proficiente em quê mais?]

- Hmm... Bastão...

- [Nem a pau algo de madeira...]

- A adaga é minha arma-de-apoio normal. Mas por quê a...

Gladys encolhe num impulso. Eu me assusto. Ela virou um punhal fino, um pouco mais que um abridor de cartas.

Bom saber. Bentho Oeste passaria por um bandoleiro de verdade usando armas leves. Alias, ainda assim melhor que as Tonfas.

- [Reative o "tick-tack"] - Gladys me relembra.

- O tick... Oh, sim! Virgílio… Vi… 

- [Tenho confiança que nada vai dar errado...]



Balmon é o capitão de influência em Huo-fen. Achima sabia lidar com os eruditos, Àquela, com o povão, e Khao com os militares. Sobrou a baixa burguesia e as guildas profissionais, e esse ramo era natural para ele. Como um engenheiro de Dol'oan, do clã chamado "Torre da Bigorna", era o emprego dos sonhos.

A Nova Guarda não era a polícia regular ou a força militar. Ela dava suporte à Chancelaria das Armas, como um braço armado de elite, e só respondiam diretamente ao Conselho Regente. Tinha alguns privilégios. E Balmon adorava privilégios.

Como a sua Sede ser numa cidade, não em um palácio nas fronteiras, longe do contato humano. Ou poder criar coisas como a Caixa de Músicas atualmente tocando em seu escritório. Ou os visualizadores que "imprimiam" os cartazes... Como aquele do garoto Bentho que ele olhava naquele instante, genuinamente consternado…

... Ou o rádio de curto alcance. Nunca suplantou os dispositivo de mensagem mágicos que Achima, Era usado quando a Nova Guarda suspeitava de bloqueio arcano ou precisava de grande volume em pouco tempo. Mas um desses, que ficava ativo na sala do Capitão Anão, tocava agora.

- Quem está aí? - Balon pergunta displicente.

- Sou eu. Àquela. - a voz feminina sai com ruídos.

Balmon para a máquina de música. 

- Você está usando uma das minhas?!? - ele fala sorrindo. - Você fez este anão de meia-idade muito feliz, Lady Àquela! E aí?

- Você deve deduzir pelo alcance do rádio que eu estou aqui em Huo-fen. - ela começa. - O que você sabe?

- Eu sei que estou BRAVO com Khao e Achima. Me deixando no escuro! - rosna o anão. - O que houve com o garoto Bentho?!? Está tudo bem?

Do outro lado da rua, Lady Àquela e Estebán em almeidas do forte, olhando a janela do escritório à distãncia segura. Queriam ter certeza de que Balmon seria confiável. Eles viram o poster de Bentho, e o anão não ter mentido dava algum crédito que ele estava isento nas ações de Khao.

- Estou com problemas, Balmon... - Àquela fala tristonha. - Você está sozinho?

- Estou.

- Falo em tudo... a Sede, está vazia?

- Sim, todo mundo foi para casa. É seguro, mas o que houve? Estebán? Ele está tranquilo com isso? Sabemos que ele precisa delegar a nós o problema, né? 

Àquela olha para o marido, que não deveria ter deixado a torre. Insinuava que o fim do pacto ainda não chegou a Huo-fen. Balmon parecia não saber que ele declarou guerra outra vez.

- Ele não... Ele não pode me ajudar, Balmon... - ela mente enfim. - Meu filho está em perigo... eu choro... a cada...

- Ah, minha querida! - Balmon senta-se junto ao rádio. - Você deve estar arrasada...

- Eu bem que ... - Àquela funga um pouco. - Poderia usar uma limonada... com hortelã… Sua cidade é muito abafada!

- Bertha vai ter uma prontinha para você quando chegar aqui. - Balmon fala confortador.

Àquela encara Estebán com seriedade. Era o que queriam estabelecer.

- Como ela faria a limonada se não tem ninguém no prédio? - revela enfim, desfazendo o ato.

Um silencioso xingamento de frustração é visível na expressão do anão.

- Eu... Eu quis dizer que posso chamar ela... - o anão tenta corrigir.

- Adeus, Balmon. - A voz de Esteban era a que assumia o rádio, antes de um ruido de quebra.

O Capitão fica pálido... frio.

Ouvira não o arquivista, mas Lord Blunt.

- GUARDAS!!! - Balmon urra.

Do guarda-roupa, de trás da mesa, das portas de acesso... Múltiplos soldados da Nova Guarda e da guarda local inundam o escritório. O anão em pânico, se afasta da janela. Ele apontava… Ele deduzia de onde viria…

E de repente, a escuridão caiu naquele andar inteiro.

Era inofensivo, mas os soldados não saberiam disso por muito tempo. Mesmo sabendo, precisam tatear para sair. Tempo perdido em que o casal desapareceria na noite.

Mas Balmon estava hiperventilando.

Ele se lembra, dezessete anos atrás. Quando ele e seu grupo achava que poderia enfrentar Blunt. O Senhor do Sombrio tinha magias táticas para Achima, e métodos bélicos para superar a força de Khao. Àquela era suplantada por puro ferro defensivo… Mas ele, e suas máquinas, foram só avassalados.

E Blunt até então, só o achava um incômodo no caminho de seu objetivo.

Agora, o anão ousou tentar emboscá-lo.



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Vigília Sombria estava acocorada atrás de um barril. Seguindo instruções.

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Os baldes aos seus pés, a serem atirados quando contador chegasse a 300. Precisaria estar próximo da entidade classificada como "Sangue de Blunt".

139...

Erro.

Um operador de saneamento urbano local recolhia baldes e barris de lixo. Pegou justamente os dois que deveriam ser atirados. Isso era uma quebra de sub-rotina.

Vigilia Sombria entra sub-protocolo: Recuperar os baldes.

Interromper contagem e retomar em 140.

O lixeiro que recolhia as latas atiravam-nas no fundo da carroça, serviço urbano da cidade, com o susto de sua vida quando aquele "morto-vivo de aço" emergiu no meio dos barris. Ele caminhava cambaleante e mudo em sua direção.

Em pânico, ele salta no cavalo e tange-o. O veículo não era rápido, ainda mais com todo o peso na carroça.

A subrotina de Vigilia Sombria exige que ele deixe aquele local, e siga em perseguição. Recuperar as latas era ordem principal, sobre todas as outras.



- Saudações, caros tatuados! - Me apresento. Depois se arrepende disso. Queria evitar marcar seu rosto com um corvo, então lembrar disso era um problema. - Soube que novatos na cidade podem se apresentar, e buscar oportunidade e...

- Proteção da lei?

Um dos "Corvos" fala. Parecia mais eloquente com as palavras.

- Eh, como, meu consagrado? - Pergunto fingindo ingenuidade.

- Você é o tal "Bentho", não é? - ele ri. Outros dois apontam com um sorriso.

- V-vocês sabem meu nome... - pondero enfim. Dei algo por volta de quatro minutos... a Distração chegaria em breve, precisava de tempo. - Posso perguntar se isso é uma boa notícia ou má?

Eles demoram um pouco.

- A sua SORTE... - o chefe fala, desenrolando um cartaz. - É que não deram recompensa por você ainda.

Foi a primeira vez que vi o cartaz.

"Bentho". "Procurado". e meu rosto.

Shén-li era o mais próximo de "utopia" que se poderia ser. Não que a Nova Guarda ou as Chancelarias das Armas e da Justiça não tenham seus indivíduos de interesse, mas o procedimento de cartazes, era para potenciais servos de Blunt, ou perigos nacionais.

Bentho Oeste era um deles...

Enquanto Lord Edgy era um herói local.

Era estranho eu ter inveja de mim mesmo?

- I-isso serve como um cartão de apresentação, imagino... - tento jogar com as cartas na minha mão.

- Claro que não! - resmunga o chefe. - Você está muito queimado! Não queremos a Nova guarda em nossa cola!

- Eu... compreendo. - falo enfim. - Afinal, você deve ter as mãos cheias com o vigilante tal.

- Do que é que está falando? - acho que atingi um brio. 

- Eu ... - Meu plano era me apresentar como "intermediário de Lord Edgy, mas por hora, com a reputação de "Bonzinho", preferi fazer o oposto. - Soube que perderam cinco músculos por causa de um forasteiro... Querem mesmo abrir mão? Afinal... ele pode aparecer em ...

- [Cinco minutos, Bentho.] - informa Gladys.

- Digo, Aparecer a… Qual... Quer - alongo o quanto pude. - Lugar...

Virgílio deveria ter jogado as latas.

Mas nada.

- “Aparecer a qualquer lugar”? - Beleza… Tendo meu português corrigido por um trombadão. Achima me colocaria no canto da sala com chapéu de burro.

Virgílio era a distração que eu precisava. Eu ia correr para a porta do complexo quando estivessem distraídos. Agora, eu pareço um louco e com bandeira de alerta. Não iriam me ignorar.

Mas agora me ocorre... Não só estou exposto e cercado… Como perdi a Armadura de Lorde Blunt!

___

Em uma curva infeliz, a carruagem de dejetos bate na quina de um prédio subindo a calçada. fica presa.

Virgilio se aproximava.

Felizmente ao lixeiro, seu barulho atraiu uma pequena multidão, vendo a criatura correndo na direção dele.

- É um Monstro! - urra alguém.

- Chamem a Nova Guarda! - urra outro.

- Eu tenho um Machado! - um terceiro.

Virgílio ignorava a ameaça a sua integridade. Só precisava recuperar as latas.

Ele é interrompido, antes da multidão.

Mary estava dormindo na estalagem imediatamente antes da curva. Ela iria a Halcora na manhã seguinte, mas decidiu averiguar a comoção e foi a primeira a alcançar o estranho monstro. 

Ela era uma moça muito bela e recatada, mas estava de camisola, e usando os óculos enormes que protegiam seus olhos, mas tinham outras funções. Ela agarra Vigilia Sombria pelo chifre e, com um braço só, detém a perseguição.

- Este é o Elmo de Lord Blunt... - ela fala. - É o Genuino!

- Elmo de Blunt?!? - alguém comenta. - O Lord Edgy não usa esse elmo?

- Eu gosto do Lord Edgy. - comenta outra pessoa.

- Estão loucos?!? - o lixeiro em pânico, pegava um dos machados. - essa monstruosidade quer me matar!

Mary olha bem a fundo aquela luz vermelha que fazia as vezes dos olhos de Virgílio. Ele não tentava revidar, nem demonstrava agressão. Só queria seguir na direção da carroça, do lixo, das latas. Ela compreende.

- Acho que não... - defende a Aasimar. - Ele só quer as latas. Elas estão vazias, certo? Dê algumas para ele, e tudo deve ficar bem.

- Tá maluca?!? - o Lixeiro protesta.

- Essa forasteira está mancomunada com o monstro! - comenta outro.

- Sério, ele não quer machucar ninguém! - insiste Mary, se irritando com a falta de empatia.

- Mas nós VAMOS machucar ela! - fala o Lixeiro. - E se ficar no caminho, mocinha... Você se machuca ANTES.

Mary perde a paciência.

Tira os óculos.

 … 

De longe, todos vêem um clarão azul, e uma vibração seca que correu pela rua tal qual uma onda de choque, poderes absurdos.

Do silêncio, passos metálicos.

Virgílio levava tantos baldes consigo que mal conseguia caminhar sem tropeçar. Acelerava, pois o limite de tempo era essencial.

Do alto da ladeira, Mary Sue aparece, coloca os óculos de volta, e acena se despedindo daquela figura curiosa.



Fui desarmado, amarrado, e guiado para o interior do complexo. Não como eu queria, mas estava improvisando.  

- [E aí, Bentho, como está o plano?]

- Eu prefiro esta situação a tapinhas nas costas por heroísmo... - comento, mais para Gladys, mas não perdia o sono de ser ouvido pelos dois que me arrastavam.

- Calado, moleque! - um dos que me guiava complexo adentro empurra.

- [Sei que você pode me invocar à mão, mas consegue lutar com as amarras nas costas?]

Não respondo a Gladys. Eram só dois agora. Mas tinha pelo menos doze ao todo no complexo. E também queria evitar ser visto com a espada de Lord Edgy. E uma espada em uma mão amarrada nas costas não ia ajudar muito. Mesmo os feitiços que ganhei com o pacto dependia de gestuais.

- Sério que não teria recompensa por você? - ri o outro bandido que cobria o me empurrando, olhando o meu cartaz. - Bem, quando Balmon chegar amanhã pode decidir por recompensa, e teremos DUAS surpresas para ele.

- Você disse... Balmon? - eu me espanto. - Como "Capitão Balmon" da Nova Guarda?

- Sim, nosso melhor contratante. - fala o primeiro. - A gente fica de olho no submundo, passa pessoas complicadas para ele, e em troca, Ele alivia para nós.

- Não é o acordo que os veteranos tinham com Lord Blunt... - recupera o segundo. - Mas é muito bom. Sabe que Morval Menor que foi preso pelo seu amigo vigiçlante? já foi liberado!

- [Menos um herói, Bentho.] - provoca Gladys.

Okey… Mamãe, Khao e Achima traíram a filosofia do que nos ensinavam. Balmon estava fazendo acordo com os bandidos. Aquilo era revoltante.

Um quarto à minha frente parecia está aberto, e a julgar pela reação dos meus captores, não deveria estar. Um "Cadê o porra do Tulio?" é murmurado.

Eles entram me arrastando. Uma resposta: "Túlio" está no chão inconsciente.

Um barulho agudo atinge nós três. Som? Magia? Eu fico distraído, mas os dois capangas parecem completamente bêbado, sem equilíbrio.

Algo nas sombras. "Bong"... "bong". Parece algo maciço e oco.

Sim... a espiã que eu vim sequestrar, mal lembrava dela... Vejo a silhueta dela... Olhos brilhando o escuro. Um florete delgado aproxima-se de mim, cola em minha garganta com precisão de um cirurgião antes de uma insisão... Estou indefeso, e então eu ouço...

- "Cadete mamãe"?!?

Só uma pessoa no reino... no MUNDO... me chama disso.

- S-senhorita Amellie?!?





Vigilia Sombria retorna a seu posto. Com baldes em redundância.

Retornar a subrotina.

Erro. Não avisto o Sangue de Blunt.

Verificar a ordem: Estar com baldes, certo; contar até trezentos, certo; A ausência de Bentho para o arremesso é um impeditivo.

Mas apenas da etapa final.

Virgilio se acocora e volta.

140

141

142...
BREVE : PRIMEIRO SPINN-OFF 
DO UNIVERSO 
EDGELORD!


Capítulo IV

Capítulo IV

Meu Pai é o Maior Vilão do Mundo — e eu perdi a armadura dele em 5 minutos

1 de março de 2026

EDGELORD - Cap. III - Arco da Ledgyão


 "Meu pai é o Maior Vilão do Mundo. E ELE DEIXOU A APOSENTADORIA... Xííí"

Bem-vindos a Huo-Fen.

Se Shén-Li é o Coração do Mundo, Huo-Fen é o seu Funny Bone.

Há dezessete anos, quando a escuridão de Lorde Blunt emergiu das zonas selvagens, Huo-Fen foi a primeira a cair.

E eles… ficaram de boa.

Eu me chamo LORD EDGY. E meu título é...

É—

Ah, a quem estou enganando?

Vamos ver como eu derrapo hoje.



— [Então, Edgy…] — Gladys estava num humor crítico. — [Você decidiu salvar um garoto da barragem prestes a romper.]

— Ele estava chorando! A mãe dele estava chorando! — eu me justifico. — Como vou aterrorizar alguém se ninguém presta atenção às ameaças? ALias, tecnicamente eles estavam "implorando..."

— [Eu até toleraria isso…] — Era mentira. — [Mas relembre-me: como você salvou o menininho?]

Fico mudo, emburrado.

- [Vaaamos....] - ela insiste. - [E o que isso fez?]

- Uma ponte... Derrubando um cedro sobre o açude.

- [Uma ... Ponte]

- Eu não podia atravessar a nado uma barragem fazendo redemoinho, ainda mais de armadura. Quase me afoguei na fuga do Palácio!

- [E a ponte permitiu o quê?]

— ... Que os artesãos de pedra e os cimenteiros alcançassem a barragem antes que ela partisse.

Silêncio de quase dez segundos para eu pensar.

— [Um colapso civil e ecológico impedido indiretamente. Excelente trabalho, herói.]

— Não enche — viro o copo de bebida morna.

O "bêbado simpático a Blunt" que conheci nesta estalagem na noite anterior enfia um chapeuzinho de festa no meu elmo.

— [Voltemos ao garoto.]

— Não quero.

— [Quem era a mãe chorosa? Você deveria saber. Morou no Palácio da Nova Ordem.]

Eu suspiro.

— A mestra cozinheira da Família Sagrada, Amarania Bragar.


O salão abre espaço.

Uma mulher de pele clara, traços delicados e expressão marcante surge com reverência cerimonial.

E então colocam diante de mim um leitão inteiro.

Caramelizado. Maçã na boca e "luvinhas de coentro" nas patas.

A pele brilhava como âmbar derretido. Cravos, especiarias, redução de vinho, fios de açúcar puxado. Era peça central de mesa real.

Os presentes aplaudem.

— [Eu estipulo não menos que cento e cinquenta peças de ouro. Preço de mercado.] — diz Gladys, triunfante. — [Um presente diplomático disfarçado de gratidão.]

Eu encaro o caldo.

Doce e salgado. Não curto a mistura.

— [Está com fome?] — ela provoca.

— Um pouco…

Eu puxo uma cadeira e começo a remover o elmo.

— [Ah, vai revelar sua identidade secreta?]

— Não posso comer de elmo e—

Eu congelo.

— É ISSO. - eu grito de entusiasmo. Acabo chamando a atenção.

Os foliões param.

Eu espero retomarem a conversa.

— Lord Edgy é uma força da natureza — sussurro. — Eu afasto oportunidades de vilania e atraio necessitados. Mas Bentho… longe do Castelo e de Forte Jian… é só um qualquer querendo se provar.

— [Continue.]

— Posso me infiltrar. Observar. Escolher o momento certo. E quando eu tiver certeza de que não estou interrompendo um ritual de invocação do Lobo de Três Cabeças do Submundo…

— [Lord Edgy entra em cena.]

— Exatamente.

— [Pode parecer loucura, mas não vejo falhas imediatas.] - Estava tão na baixa que não ser criticado por Gladys era a primeira vitória da semana!

Eu me levanto. Ajusto a capa.

Saio da estalagem.


— Ei, Edgy! — grita o meu amigo de bebidas. — Esqueceu o porco!

Eu não olho para trás.

— Pode doar! - grito.


Silêncio enquanto eu deixava o lugar para me "transformar discretamente".


— Ele mandou DOAR?! esta IGUARIA?!? — o estalajadeiro pisca.

— Para quem? - pergunta a Mestra Amarania

— hmm... O orfanato ao lado da prefeitura… imagino.

Outro silêncio.

— A bondade dele não conhece limites?




Não pelas ruas largas — Estebán evitava avenidas desde que voltara a vestir o próprio nome. Seguiam por vielas de uma aldeia  intermediária, conhecidas apenas por quem já sitiou o reino… ou o defendeu. Àquela mantinha o capuz baixo, mas, já dentro do galpão, o deixou cair. A insígnia da Nova Guarda permanecia oculta sob o manto escuro, pesado nas bordas como se tivesse atravessado batalhas demais.

— Se ele souber o que sabemos, ele vai direto para Huo-Fen — ela disse, a mão apoiada no batente de madeira de um espelho antigo, alto demais para aquele depósito esquecido.

— Khao sempre vai direto — respondeu Estebán. — É a coisa mais admirável nele.

O atalho os levou a um velho depósito depois das fazendas do Arco Interior: madeira escura, janelas altas empoeiradas, ferragens enferrujadas. A fechadura ainda cedia ao mesmo toque discreto. Na porta, um cartaz de alistamento... Àquela odiava aquela imagem. Parecia, centrar mais nos seus seios do que na mensagem.

Lá dentro, o ar cheirava a óleo velho, couro e passado.

Estebán acendeu uma lâmpada a óleo presa à parede. A chama oscilou e revelou o que o tempo não ousara tocar: escudos empilhados, alguns com mossas profundas; um elmo apoiado sobre um caixote; espadas encostadas como sentinelas aposentadas; baús alinhados; um estandarte dobrado; mapas enrolados com marcas de campanha. Memorabilia da era do levante, tanto da Horda de Blunt como relíquias da Nova Guarda recen-formada. Não expostas como troféus, mas guardadas como lembranças que doem.

— Você guardou tudo — disse a Estebán, observando-a pelo reflexo.

Ela pousou a mão sobre o antigo arco recurvo encostado à moldura do espelho. Não o de capitã — o primeiro. O de aventureira, quando ainda lutava por moedas e não por bandeiras.

— Preciso trocar — disse, já soltando os fechos da armadura da Nova Guarda. O som do metal ecoou pelo galpão vazio, misturando-se ao estalar da lâmpada.

Peça por peça, a capitã foi desmontada.

Àquela vestiu a túnica antiga, que moldava-se diferente agora. O couro escuro marcava as curvas que o tempo e a maternidade haviam redesenhado. Ela ergueu o queixo, estudando a própria imagem com um meio sorriso. Não era vaidade. Era reconhecimento.

Fez uma careta breve.

— Está apertada nos quadris.

Estebán não conteve o sorriso.

— Você tinha dezessete anos a menos… e nenhum filho.

Ela lançou um olhar enviesado pelo reflexo.

— Está dizendo que engordei?

Ele se aproximou sem pressa. A luz quente da lâmpada desenhou sombras mais profundas em seu rosto — linhas novas, mais marcadas que na muralha anos atrás. Parou a alguns passos, como se admirasse não apenas o corpo, mas a história que ele carregava.

— Estou dizendo que você parece mais linda hoje do que nos portões do palácio.

Àquela sustentou o olhar dele pelo espelho. Havia confiança ali — não a bravata juvenil, mas a serenidade de quem sabe exatamente do que é capaz. A arqueira que enfrentara muralhas agora conhecia o peso de um filho dormindo no quarto ao lado.

— Não tente me distrair — murmurou ela, embora a voz tivesse suavizado. — Precisamos falar do que você pode… ou não pode… fazer.

Estebán passou os dedos pela moldura do espelho, marcado por impacto de lança. A poeira levantou-se no ar, dançando na luz. 

— Eu sei.

— Não, você sabe em teoria. Mas quero ouvir de você.

Ela amarrou o último fecho. Endireitou os ombros. No espelho, a ex-heroína estava ali outra vez. Mais contida, mais precisa. Menos símbolo, mais pessoa. Mais mulher do que estandarte.

— Não fazer mal à Guarda, mesmo Khao — disse Blunt, firme. — Eles acreditam no que estamos protegendo. Não machuque inocentes. Não transforme um porto numa cratera só porque fiquei irritado.

Ele fechou os olhos por um segundo.

Quando os abriu, não eram os de Lorde Blunt. Eram os de Estebán.

— Farei o mesmo acordo que fiz com o Conselho Regente. Serei pacífico… a menos que precise protegê-la.

Ela virou-se do espelho para encará-lo diretamente.

— E se Khao tentar nos prender?

— Não o matarei. -  ele começa disciplinado, mas não dura. - Mas o deterei com…

— Estebán. - ela repreende.

— Não o matarei. Ponto. — conclui ele.

O silêncio entre eles se tornou denso, preenchido apenas pelo estalar da chama e pelo peso dos escudos que testemunhavam.

— E Bentho? — ela perguntou, mais baixo.

Ali estava o verdadeiro núcleo.

A lâmpada oscilou com uma corrente de ar que ninguém sentiu.

— Eu o trarei para você. Contudo... Se qualquer ameaça real chegar ao nosso filho… — a voz dele mudou, não mais alta, mas mais profunda — a ira de Lorde Blunt será liberada.

Não havia teatralidade. Não havia promessa vazia. Era constatação.

Àquela desviou o olhar para o estandarte dobrado no canto, o símbolo do levante que ajudara a derrubar. Depois voltou ao espelho. A mulher refletida ali não era a jovem arqueira tremendo na muralha. Era alguém que escolheria a guerra de novo, se preciso.

— Se ele estiver em perigo… — disse a Dama do Arco, finalmente — eu mesma pedirei por Lorde Blunt.

As palavras ficaram suspensas no ar, entre escudos e memórias.

Ela não as disse como heroína relutante.

Disse como mãe.

E algo mudou ali.

Não foi a luz.

Foi o eixo.

Um pequeno, quase invisível deslocamento — como o instante exato antes de uma flecha deixar a corda.

28 de fevereiro de 2026

EDGELORD Cap. II - Arco da Ledgyão

Huo-fen, Cidade Arsenal

 "Meu pai é o Maior Vilão do Mundo. E ser vilão é, aparentemente, mais difícil do que eu pensei!"

Bem-vindos a Huo-Fen.

Se Shén-Li é o Coração do Mundo, Huo-Fen é a sua artéria coronária. (E sim, essa metáfora foi ideia da Gladys. Ela insiste em precisão anatômica.)

Há dezessete anos, quando a escuridão de Lorde Blunt emergiu das zonas selvagens, Huo-Fen foi a primeira a cair.

A cidade que alimentava o Coração do Mundo com seu ferro ardente ajoelhou-se sob o Punho de Ferro da Vigília Sombria — ordem foi a palavra escolhida.

E não é que teve gente que gostou?

Descobriram um amor súbito pela disciplina.

Pela vigilância.

Pela denúncia cívica.

Alguns chamam isso de ordem.

Outros chamam de prosperidade.

Hoje chamam de nostalgia.


Eu me chamo LORD EDGY, O FILHO DO TERROR.

Mas durante dezessete anos fui chamado de Bentho. Cresci admirando/temendo Blunt. Não do tipo "quando crescer serei um vilão tirano", mas a armadura era maneira, e ele foi uma ameaça global que precisou de pessoas extraordinárias para deter, eu queria ser extraordinário. Hoje, eu sei que o tal Blunt era meu pai. Estou usando a armadura. E quero ser um vilão tirano.

— [Durante a ocupação, aqui era triagem.] — comentou Gladys.

— Triagem?

— [Para decidir quem servia. E quem desaparecia.]

Engoli seco.

- Eu lembro que Balmon reclamava desta área... - comento. Estou com a armadura completa. Gladius em mãos. Uma casa, construída fora dos padrões, projeta à rua uma cobertura escura que me aproveito como uma alcóva. - Dizia que até tinha guilda de ladrões. Talvez seja o lugar mais perigoso de Shén-li...

- [Hmm... Postes com torchas de filamento, barris de lixo organizado...] - Observava a espada. Eu fazia sua ponta avançar para observar o ambiente. - [Se isto é o pior de Shén-li... vocês não aguentariam uma ocupação mais longa de Lord Blunt.]

Eu achava aquilo imundo e caótico. Mas não tinha referência, pois vivi entre fortes militares e o imponente palácio da Nova Ordem. Falem o que quiser da mentira conveniente, e da disciplina exacerbada de controle... Mas é um bom expoente. Ceder liberdades até parecia ... "justo" olhando por um filtro.

- [Lá vem...] - Gladys alerta. Eu a recolho. - [Pode preparar!]

Admito que esqueci o que acertamos. Mas da última vez que eu quis fazer as maldades e ignorei Gladys, acabei num porão cheio de ratos. Quis dar chance à espada que esteve em poder de 13 tiranos, o sexto deles era Malkor das Mil Vozes, derrubou as Sete Torres da Magia de Lian-Zhou. Claro, ele perdeu um duelo decisivo por causa das vozes em sua cabeça, que ele atribuía a "fantasmas". Gladys atribuía a esquizofrenia. Claro, ter uma espada falante legítima só piorou tudo.

Ouço passos. Pé, Pé, um objeto sólido. Pé, Pé, outra vez um baque de madeira. Era bem cadenciado. Eu espero estar próximo, e me revelo. Armadura sombria. Capa roxa esvoaçante. Um leve faiscar mágico. Eu era a Encarnação das trevas, pronto para abordar...

... Uma senhorinha de bengala.

- [Agora, Lorde Edgy!] - estimulava a Lâmina Eterna. - [Assalte-a!]

- A-assalto?!? - Exclamo.

- Por favor, não me mate! - urra ela debilmente, abrindo uma sacola, e tentando pegar seu conteúdo, mas com as mãos trêmulas dificultando desfazer o nó. Seus olhos estavam arregalados. Ela suava e chorava de medo.

- [Vai dizer que o Filho de Blunt está acima de vilania básica?] - protesta ela. - [Capangas custam dinheiro. Recursos para saques maiores. Tem de começar de algum lugar!]

- Depois do INCIDENTE dos RATOS, você achou que eu ia partir para ASSALTOS?!? - eu explodo. Era para ser para a Espada falante. Mas só eu a ouvia... Acho que, olhando para a pobre senhora, entendo como Malkor das Mil Vozes se sentia.

- Por favor, nobre senhor ladrão. - ela se ajoelharia se seu reumatismo permitisse. - Eu tenho Seis filhos e Vinte e Sete Netos!

- [Ouviu, Bento?] - insistia a espada. - [Ela já viveu bem! Não tem mais valor nessa terra!]

Meu Senhor Aetíades… O que eu estava fazendo?

Ignoro ostensivamente Gladys. Aquilo era... Pequeno... Mesquinho demais para um vilão da minha categoria.

- H-houve um engano... Senhora. - Tento acalmar a velha, afastando a sacolinha dela de volta. - Eu sou Lord Edgy, e eu não vou assaltar a senhora...

- ACHO BOM MESMO!

Cinco homens surgiram atrás de mim. Deveriam estar a algum tempo naqueles becos.

Corseletes gastos. Tatuagens de corvo no rosto.

- Então o enlatadinho está tentando assaltar no território dos CORVOS MENSAGEIROS DE MORVAL?!?

- [ Ah, eu lembro deles!] - disse Gladys. - [Seu pai recrutou pequenos criminosos como rede de informação local... Acho que o nome pegou...]

- Sim, a "Guilda de Ladrões" que Capitão Balmon tanto reclamava! - Urro, enfim. Ouvia os passos "apressados" seguidos do toque de bengala da velhinha fugindo. Ao menos, não teria que me preocupar com ela... 

- Somos a MAIOR das Guildas de Huo-fen, forasteiro! - Um segundo se adianta, precisando ser segurado pelo que parecia ser o líder. Ele parecia satisfeito de dizer aquilo...

- Vocês são a ÚNICA guilda de ladrões de Huo-fen. - Eu balanço a cabeça criticamente, sem levar a sério aqueles bandoleiros. - Talvez a única guilda de ladrões em toda Shén-li. Seu título é menos impressionante do que vocês pensam. Nomezinho bobo, aliás..

- [Ensina a eles, "Filho do Terror"] - Preciso me concentrar para não perder a compostura com mais essa de Gladys.

- Se é o pior que sua cidade pode oferecer... Que venham! - eu me ponho, poderoso. - Pois Lord Edgy aceita o desafio de.... Eh, isso são cacetetes?

Eu enfim reparo. Todos eles usam uns pausinhos que nunca vi na vida.

- São TONFAS, Paspalho! - ensina-me um terceiro.

Era um cilindro curto e sólido, com um segundo punho atravessado perto de uma das extremidades — como se alguém tivesse pregado um cabo lateral num cassetete. Era uma "tala ofensiva". Eu treinei com bastões, que eram pouco mais que longos galhos, e seriam muito mais eficientes que aquilo...

- Por Phyrros e Enya... - Resmungo, deixando os ombros descerem decepcionados. - Estamos na Cidade Arsenal! Forja do reino! Terra das armas de fogo e alquimia! Não pensaram em usar adagas? Uma carabina de tiro único? Olhem para mim... Olhem esta manopla! - Estendo a parte que reforçava punho e antebraço. - Ferro frio da Montanha Morta! Esta espada está transbordando de magia sinistra! E vocês querem vir para cima de mim com ... O que eu só posso definir como peças de uma cadeira desmontada?!?

Acho que eu ofendi algum brio de orgulho ladrão neles. Eles urraram e investem contra mim.

Deu com os ombros. E parti para o combate.


Àquela estava no pátio interno do Castelo Negro. Era um dos momentos que mais temia... Khao havia voltado.

Preferiu estar sozinha. Pediu à sua escudeira avisar ao marido do retorno do capitão como se fosse algo rotineiro, mas era mais para tirá-la de lá. Estebán provavelmente já sabia.

As muralhas estavam desocupadas.

O Capitão do Punho de Concreto deve ter tido pensamento parecido, pois estava sozinho também. Desmontou do seu cavalo, Amarrou ele mesmo em uma trave próxima, e foi ao encontro dela. Trazia um longo papiro em tubo na mão humana. Seu olhar estava furioso.

- Deveria ter confiado em mim, Àquela! - Ele urra. - Eu ia fazer o melhor para o garoto!

- D-devo deduzir que você acha que Estebán...

- Eu era um rastreador ANTES de me tornar um capitão! - Khao a interrompe. - Acha mesmo que eu não PERCEBERIA?!? - Era assustador. Mesmo com o famoso temperamento explosivo, o Bárbaro jamais faltou com respeito e cordialidade à Dama do Arco, a quem devia a vida no Levante de Blunt.

- Você não tem o que é preciso para cuidar e proteger o Bentho, Khao. - Ela fala, enfim. Com determinação de uma capitã.

- E-está insinuando que eu não tenho FORÇA para lidar com um cadete? - O homenzarrão estufa o peito com indignação.

- Não estou insinuando que é problema seria sua força! - ela urra. Afunda o dedo indicador na placa peitoral do colega - E isso não é uma ofensa! Você vai fazer o que é mais certo! Sempre foi o que quis fazer. Ser o herói da vez... Levar meu filho para o Conselho ou para a Família Sagrada... Dar fim a meu lar, e ir atrás de meu marido! Sinto, Khao... Mas eu não sou nobre como você. Eu ... Eu só queria ser uma guia urbana, espantar kobolds às vezes... Vocês me fizeram a "Arqueira Lendária". Eu cumpri este papel por DEZESSETE ANOS! O que é "certo" não é o que eu quero. Eu quero meu filho de volta ... Para mim!

Uma lágrima corria dos olhos de Lady Àquela.

- Àquela... - Khao se sentia culpado, mas irredutível. - Você... Me conhece muito bem...

Àquela sente um tom assustadoramente resignado na voz do capitão. Ela percebe o rolo na sua mão.

Ela toma-o, tremendo.

Era um cartaz de procurado.

Com meu rosto. O nome "Bentho".

- O que você fez... - a voz quase não saiu da garganta.

- Achima já enviou por magia a todos os entrepostos da Nova Guarda. - ele revela enfim. - Eu sinto muito. Mas você e Estebán não me deram escolha e...

- Khao seu idiota... - Havia medo na voz da dama do arco. - Este palácio recebe estas mensagens... e Estebán é o encarregado...



Os dois olham para a porta aberta.

O escriba já estava ali.

Sem papéis.

Sem expressão analítica.

Sem ironia.

Apenas sereno.

Contido.

— Agora vai ter algum gracejo? — provoca Khao, forçando coragem. — Eu disse que isso ia acontecer, Blunt.

— Sem gracejos. — responde Estebán, começando a caminhar firme. — Sem explicações. Sem jogos mentais. E não me chame mais de Blunt.

— Oh? — Khao alonga os ombros. — Chamo de quê, então?

Estebán passa por ele. continua caminhando rumo aos pórticos do castelo.

Não toca.

Não encara.

Lorde Blunt. — diz, finalmente. — E Lorde Blunt vai pegar o seu cavalo, capitão… e ir buscar o meu herdeiro.

Por dezessete anos, Khao esperou essa admissão.

Mesmo assim, o ar abandona seus pulmões.

— Dê mais um passo na direção do portão... — o capitão rosna, avançando ameaçadoramente — e o trato acaba, Blunt. Você sentirá o peso de Shén-Li sobre você!

Estebán alonga os dedos.

Anos sem usar magia em combate de alto nível. Algo como enfrentar um capitão, uma unidade militar, um exército...

Não faria diferença.

Ele não precisava de nada do que sabia fazer.

Bastava querer.

Khao ruge. Dor... Mas não foi Blunt:


Ambos os pés do capitão Khao são atravessados por flechas-tazers elétricas.

Cravaram o colosso no chão. E seus enormes músculos lhe faziam o desserviço de imobilizá-lo.

Silêncio.

Khao olha para baixo.

Depois para Àquela.

Ela ainda segura o arco estendido. Corda vibrando. Faiscas elétricas

Àquela parecia... Ainda mais surpresa do que ele.

— Me desculpe! — ela responde, quase atropelando as palavras. — Eu não queria que Estebán o machucasse!

— MEUS PÉS ESTÃO FURADOS, MULHER! - Khao aponta a ironia.

— Ele poderia fazer você arrancar as suas próprias amígdalas com a mão de pedra! Não seja dramático!

- Àquela, querida... - Estebán olhava surpreso, mas técnico. - Eu recomendo agora a flecha do Silêncio.

- A... - Àquela olha estranho, e saca-a por inércia e instinto.

- Para quê OUTRA flecha?!? - Khao pergunta. Ainda em choque. - Já não me flechou o suficiente?!?

Estebán toma um longo suspiro para responder.

- "A gloriosa elite da Nova Guarda, senhoras e senhores." - resmunga ironicamente. - Para não soar o alarme, é claro!

Àquela e Khao se detiveram outro segundo, um encarando o outro... Assimilando.

Khao enche os pulmões para gritar. Mas Àquela foi mais rápida. A flecha crava fora do alcance do seu companheiro, e tudo ao redor dele se torna silêncio. Ela precisa se afastar, até se aproximar do marido, já montado no cavalo.

- Vá, Estebán... - Ela fala. - Traga nosso filho de volta.

- E deixar você aqui? Para lidar com as consequências? - retruca o vilão. - Acabou, minha amada. Aceite.

Àquela começava a perceber o que fez. Paralisou o capitão. Permitiu a fuga de Blunt. Desafiou a ordem de Shén-li.

- Parece que... Perdemos nosso lar... - ela sentia a tristeza, mas não arrependimento.

- Onde você estiver, é meu lar, Àquela. - Esteban estende a mão para que a arqueira subisse com ele no cavalo. - Bem-vindo à Vilania, Arqueira Lendária.

Ela enfim monta.

O cavalo dispara.

E o Castelo Negro fica para trás.


Os ratos deram mais trabalho, mas demorei muito menos.

Preferi não usar o combo "escuridão" com eles. Só Smite, e dor.

Acho que lembrava que meu pai falou sobre um dos motivos dele se revoltar era que adversários eram burros demais para admitir que não tinham chance... Pois bem, eles continuavam tentando vir para cima. Um deles estava com fratura exposta, bebeu uma porção de cura e voltou à luta!

Foi mais um exercício aeróbico. A armadura era excelente contra "tonfas"... Mas devo ter alguns roxos na pele quando for dormir. Estava com o sangue quente ainda.

Aí, a coisa toda foi para o brejo.

Chegaram mais... Eram só três, mas estavam armadurados, tanto quanto eu. Não eram assaltantes.

Coldre com arcabuz de repetição, invenção de Balmon. Um Crossbow de cerco às costas.

Até como marchavam era uma formação militar correta, um ponta-de-flecha com dois cobrindo flancos. Não iam cair em truques, e me cercariam na primeira chance… E eu estava sem mana.

Atrás deles, e provavelmente o que atrasou a sua chegada ao local... a mesma velhinha de bengala.

- Foi esse aí, de armadura! - Ela apontou para mim.

- [Round seis? Sete?] - Gladis provocava. - [Alguém ligou o horde mode...]

- Chega... - eu levanto cambaleando, recuperando o fôlego. - Estou aqui. Podem se aproximar, e saibam que vocês estão perante...

- Lord Edge...Sim, Dona Sofia nos falou. - Adiantou o "ponta de lança". - Muito obrigado, senhor.

Ah, de novo não.

- [Você falou em voz clara que não ia assaltar a velhinha...] - riu Gladys, que novamente viu antes o que ia acontecer.

- Tom Gatto, O Garila Murray... Morval Menor - o que parecia o equivalente a "capitão" dele, fazia reconhecimento dos marginais que eu derrubei. - Cinco batedores dos Corvos Mensageiros de Morval. Todos com recompensa. Aqui está, com o agradecimento da chancelaria local, e Capitão Balmon de nosso ramo da Nova Guarda.

- Eu não fiz isso por seus créditos... - tento articular algum desafio. Passou por humildade.

- Sim, ele é muito desapegado! - "ajudou" dona Sofia. - Devia estar caçando eles quando eu atrapalhei, e mesmo assim, me protegeu!

- Não deveríamos concordar com vigilantíssimo... - pondera o capitão. - Mas... Ah, dane-se. Isto é Huo-fen! Vou deixar a recompensa aqui (colocou o saco num barril próximo a mim), e dar uma volta no quarteirão... E, será que só acharemos um beco vazio com cinco meliantes inconscientes quando voltarmos?

Estava cansado. E frustrado.

- Provavelmente sim - confessei. Aquela recompensa deveria ser seis meses de meu soldo como guarda em Fort Jian.

- [Seis meses de soldo?!? Você era muito pobre…]

- Eu morava num CASTELO! Minha mãe era uma Lady! - protestei.

Felizmente, tanto dona Sofia quanto os guardas estavam lá longe.

- [Foi uma longa noite...] - Gladys parecia exacerbada. - [Tentamos amanhã? Mesma bat-hora, mesmo bat-canal?]

- Fazer o que, né?

Recolho a sacola de recompensa e mergulho na escuridão.