— Estebán… — Àquela diz, tensa. — Tem certeza?
O sentinela da Nova Ordem jaz desacordado entre os arbustos. Um ponto de controle. Huo-fen estava sendo selada… mas eles foram mais rápidos. Já estavam na estrada.
— Certeza de quê?
— Estão fechando a cidade. — Ela olha para trás, inquieta. — Se Bentho ainda estiver lá, vai precisar da gente. E se a gente tiver que voltar…
Ela não termina.
— A espada não está em Huo-fen — Estebán responde, seco. — Está ao sul.
Ele fecha os olhos por um instante, como se escutasse algo distante.
— Espero que não vão para a Montanha Morta. No entanto, há Hálcora no ínterim.
Àquela estreita o olhar.
— Qual o problema da Montanha Morta? - ela estranha. - “Lord Blunt” ainda tem algo lá?
Estebán pondera sua resposta.
— A mina foi abandonada quando o ferro frio acabou. Pelo menos… é a versão oficial. — Ele hesita. — Mas não... Não estaria vazia.
— Claro que não está. — Àquela cruza os braços. — E isso nunca apareceu em seus registros, pré ou pós sua prisão. Por quê?
— Porque nem tudo eu registrava — ele responde, curto. — Algumas coisas… não eram pra existir. E eu não os confiaria nem mesmo a Shén-li. Pense bem… algo que Lord Blunt quer esconder.
Um silêncio pesado se instala.
— Bentho está em poder da Espada, que sabe o que você sabe… — ela começa.
— E a espada não é idiota. — Estebán corta. — Ela não o levaria para a morte na montanha. Mas só vamos saber quando chegarmos.
Bem-vindos a Hálcora! Pérola Valíria! Um entreposto vital… e perigosamente ambíguo.
Pela Boca do Rio, Shén-li se conecta ao resto do mundo. Comércio, contrabando, promessas. Perto o suficiente do Coração do Mundo para ter alguma ordem — longe o bastante da Nova Guarda para ainda respirar.
Uma enseada moldada por um draconato vaidoso… e gente com coragem demais.
— Nossa! Que legal! - Xitarro comenta, animado.
Eu, contudo, salto para trás, assombrado.
Tinha esquecido que Xitarro estava comigo.
— Eu… sempre faço isso em voz alta nesses monólogos?
— [Toda vez. E eu achava hilário.] — Gladys responde.
— "É. Melhor do que conversar com uma espada psicopata."
— [Discordo.]
— Eu quero passar no Olho da Maré — continuo, incluindo meu novo capanga na conversa. — Taverna frequentada por grandes nomes, como Capitão Lizzo, o clã Espinhudo também frequenta…
— Espinhudo? — Xitarro franze o cenho.
— Pois é. Também não ajuda no marketing. - Respiro fundo. — Depois a gente espera contato da Janete Quá. A Ledgyão deve estar toda reunida aqui. É um momento histórico!
— E eu vou poder capangar, né? - Xitarro parecia uma criança na perspectiva de pedir uma sobremesa.
Eu hesito.
Quando decidi por um selvagem na equipe, não conhecia Xitarro. Não é só maturidade o problema...
— [Se não, começaríamos por você] - Ah, Gladys...
Eu me exponho à violência. Isso é um fato. Mas ele?
Vale a pena arrastar o garoto pra isso?
— [Corvos de Morval.]
Eu travo.
— …É. — suspiro. — Se os corvos cercassem a gente em Huo-Fen com Xitarro em…
— [Como agora?] - ela interjeita percebendo que eu estava distraído.
Droga. Vejo-me em um beco, que cortávamos para ir cidade adentro, mais povoado do que deveria.
— Olá, “Bentho Oeste”.
Eu nem o ouvi chegar. Morval Menor. Mesmo colete gasto. Mesma tatuagem absurda no rosto. Mesmo cabelo encaracolado ridículo. Mas sem as tonfas.
Agora ele segura uma besta de mão… que sibila. Pressão. Algum tipo de mecanismo.
Outro Corvo ao lado dele. Equipamento igual. Mais dois desses corvos surgindo pela Estrada da Muralha...
… de onde viria Amellie...
Uma telha cai. Tem mais um no telhado. Esse usa uma balestra de duas mãos... Aquilo, se pegar, doi! Todos espalhados demais para eu apelar para "Escuridão" e "Olho Demoníaco" para cobrir uma fuga.
Olho por cima do ombro, de onde nós viemos. Um cara grande. Careca. Tatuado. Tonfas, ao menos. Ah. Esse eu lembro. Quebrei o braço dele na minha primeira noite. E ele voltou à briga ainda assim. "Vergalhão", "Bate-estaca", ou outro nome idiota ligado a construção civil.
— Ah, não me diga que vocês também vieram pro happy hour do Olho da Maré… - eu desconverso.
— Sabe… — Morval sorri, torto — seu amigo vigilante nos deu boas ideias. Tonfas não funcionam muito bem contra armaduras.
Ele mexe no mecanismo. Um suspiro pneumático. Pressão liberada. Arma pronta.
— Você sabe que dá pra conseguir o mesmo efeito com couro e elástico, né? - Não consigo me controlar... Preciso respeitar esse bando... Ao menos agora. A armadura está coberta de areia, então eu sou carne. Não posso cobrir Xitarro… E o que for rolar vai ser à distância. Meus raios místicos não dariam conta rápido o suficiente.
— O Lord Edgy salvou você e a sua namorada… — ele continua. — Então você sabe onde ele está? Ele foi visto vindo para cá!
— A gente só se esbarrou em Hálcora. — Dou um passo para trás, puxando Xitarro. — E, olha, erro meu. O catfolk aqui não tem nada a ver com isso.
— Exceto que eu sou "Pakanga" do Lord Edgy.
Meu sangue gela.
— Hahaha… — tento rir e despistar — ele viu esse nome em algum lugar, achou legal…
As bestas se movem.
Agora estão apontadas pra Xitarro.
— E… veja bem… eu sou "capanga" do Lord Blunt! — gesticulo como um lunático. queria parecer absurdo. - Posso falar qualquer coisa, não significa nada…
— Ah! É “capanga”! — Xitarro bate na testa. — Desculpa, Bentho, vou aprender.
— Sabe… — Morval inclina a cabeça — corvos não gostam de gatos.
Ele levanta a arma. Xitarro parecia ignorar o estrago que aquilo faria.
— Acho que vou estrear esta belezinha na minha mão no olho esquerdo dele. Grylla… se não funcionar, pega o direito.
— Espera! — eu dou um passo entre eles e meu amigo. — Me leva. O Edgy vem atrás de mim, cedo ou tarde. Deixa o garoto fora disso.
— Ei.
A voz vem de trás. O grandão.
— É o Hermitão de Hálcora?
— O quê?
— Minha família é daqui. — Ele ri. — Esse cara mora num banco de areia. Fica berrando sozinho para a praia. Todo mundo ignora. É o idiota local.
Risadas.
Aquilo dói mais do que devia. Mas se fizesse o Xitarro recuar…
— Sabe… — Xitarro se inclina por cima do meu ombro infantilmente. — minha mãe disse que não é legal ofender as pessoas.
— Xitarro, deixa comigo… - Eu tento apaziguar. Era muitos elementos.
— [Invoque-me.] - Gladys insiste. Era prático, mas só aumentava a confusão.
- "Dessa vez, eu vou". - respondo mentalmente. Estava perdendo o controle. Era como aquela noite, quando Ga-shi e seus capangas cercaram meu pai… Eu preciso protege-lo… Mas são muitos. O caos...
— Olho esquerdo — diz Morval.
Foi tudo muito rápido, simultâneo. Um dedo aperta o gatilho. Depois outro. Dois disparos. Gladys vem a minha mão, mas tarde demais.
O mundo prende o ar.
Quem foi atingido??
Dois virotes.
Parados.
Entre os dedos de Xitarro.
► Leia este trecho ao som de "Xitarro sendo Fodão"
— [Ele… pegou dois disparos à queima-roupa?!] — Gladys vibra na minha cabeça. — [como Faltões mergulhões de Shén-li.]
— Muda pra semiautomático! — berra Morval.
Tarde demais.
Xitarro já está nele. Cotovelo baixo no plexo solar, muito plástico. O impacto dobra o homem no meio.
Dois socos curtos imediatamente no outro — seco, rápido, preciso. - O cara ao lado do Morval apaga.
Bate-estacas vem correndo na extremidade oposta. Lento, temos tempo. Ouço seus passos pesados, mas não é urgente.
O do telhado, sim. Tinha posição de tiro livre. Espada Eterna dispara os Raios Místicos cadenciados, mas meu alvo estava muito alto, muito escuro. Erro, mas forço ele a recuar. Não vai atirar por enquanto. Deve bastar.
Os da entrada—
Xitarro não está mais aqui?!?
— …como—
Ele já está lá.
Um deles dispara. Xitarro pega outro virote no ar. E devolve, com mesma velocidade. Quebra a arma do atirador. Outro tiro volta como um relâmpago torto. Um último tiro displicente, Xitarro desvia com o antebraço, no vazio. Não acerta o catfolk, mas...
— [Sua coxa. Direita.] — diz Gladys. - [ Pegou em você.]
- “Eu sei.”
— [Tá doendo, né?]
Ignoro. Corro mancando um pouco. Preciso abrir espaço do "Bate-estaca". Preciso cobrir meu amigo.
Um dos bandidos vem na minha direção. Ele parece ter sido jogado longe, sem equilíbrio, enquanto Xitarro passava entre eles como um fantasma.
Eu corto. Uso meu Smite mais poderoso. Overkill, mas não podia mais dar chance. Eu já não estou olhando. Procuro um oponente e não vejo mais ninguém em pé. Xitarro?
Completamente vertical.
Passo.
Passo.
E então—
O pé vira no ar.
Noventa graus para cima.
Impacto. No queixo do sniper.
O besteiro cai do telhado como um saco de ossos.
Xitarro cai leve. Sem som. Um vulto felino com olhos de âmbar em chamas.
Eu paro. Eu só… paro.
Bate-estacas também cessa, amedrontado. Quase ao meu lado. Por um segundo, ninguém respira.
Eu ergo a espada. Encaro o bruto. Então, abaixo.
— Não é meu show. — Dou um passo de lado. — Vai, fera!
Xitarro avança. Sem pressa. Olhos fixos na presa. O bruto engole seco.
Larga a tonfa. Mas isso não detém o Catfolk.
Bate-estaca procura algo em seus pertences. Um frasco. Bebe.
A pele dele muda.
Escurece.
Endurece.
Textura de madeira.
— Pele de madeira! Imunidade a contusões! — ele rosna. Golpeia a própria cabeça demonstrativamente. — Tenta agora, aberração! Manda seus chutinhos! Por que acha que a gente usa Tonfas?
Xitarro observa.
Inclina a cabeça.
— Tudo bem.
Estica os dedos. As garras felinas, longas e negras, surgem. E duvido que ele seja menos proficiente com suas armas naturais.
Eu desvio o olhar. Isso… Não vai ser bonito.
Morval menor recuperou o fôlego em algum momento da luta. Esgueirando-se pelas laterais das ruas de Hálcora com o cuidado instintivo de quem já sobreviveu mais vezes do que deveria.
Quando finalmente se julga longe o bastante, encostado entre barris empilhados no topo de uma ladeira que desce em direção à enseada, ele puxa o pequeno rádio — um daqueles modelos de Balmon, robustos, feios e confiáveis — e o leva à boca ainda trêmula.
— Ryan… na escuta?
O chiado vem primeiro.
Longo demais. Irregular.
— …na escuta.
Morval franze o cenho, ainda tentando estabilizar a respiração. Reconhece quem falava, apesar da distorção.
— Cyrus? Cadê o Ryan? — pergunta, mais seco do que gostaria. - E por que você está com o rádio?
A resposta demora um segundo além do natural.
— Tivemos problemas na estrada do Muro… com a garota.
Ele engole seco, irritado, impaciente, mas cansado demais para discutir.
— Onde você tá?
Uma breve estática. Curta.
— Chegando pela enseada.
Morval se apoia melhor nos barris, olhando ao redor, tentando localizar qualquer movimento.
— Tô no topo da ladeira. Na fábrica de barris, entre essa ruma de barris empilhados, não tem como ignorar. — Ele faz uma pausa. — E escuta… o tal Bentho não tá sozinho.
O silêncio do outro lado pesa mais do que deveria.
— Não?
— Ele arrumou um… bicho. — Morval passa a língua pelos lábios secos. — Um maldito tigre. Rápido… rápido demais. Acho que só sobrou eu.
O chiado retorna, baixo.
— Entendo…
Morval aperta o rádio com mais força, inquieto agora.
— E tem mais. — Ele olha por cima do ombro. — A espada. Ele tava com a espada do Edgy.
Desta vez, não há resposta imediata.
O silêncio se alonga.
— …repete.
— Eu disse que ele tava com a espada do Edgy. — Morval hesita, então completa, num impulso: — Eu acho que ele é o Lord Edgy.
A resposta vem, enfim — neutra demais.
— Informação relevante.
Aquilo o irrita de vez.
— Tá, já entendi! — rosna, saindo parcialmente do abrigo. — Mas que inferno, onde vocês—
Ele não termina.
O aço entra pela garganta com uma precisão tão limpa que, por um instante, ele nem entende o que aconteceu; só quando o ar falha e o som morre antes de nascer é que a realidade o alcança, tarde demais para qualquer reação. O rádio escapa de seus dedos, batendo contra o chão com um estalo seco.
Atrás dele, a voz continua — a mesma voz que vinha do rádio, agora sem chiado, sem distância, perfeitamente nítida.
— Na escuta.
Amellie sustenta o florete por um breve momento, sentindo o peso do corpo já cedendo, e então o retira com um giro controlado, evitando respingos desnecessários. Morval desaba sem resistência, como se todos os fios que o mantinham de pé tivessem sido cortados ao mesmo tempo.
Xitarro se vira para mim, ainda com a respiração levemente acelerada, como se o corpo tivesse terminado a luta antes da cabeça, e me encara com uma seriedade quase desconcertante.
— Eu fiz direito?
A pergunta me atinge com mais força do que qualquer virote daquela emboscada. Não pela dúvida em si, mas pela simplicidade com que ela vem — crua, direta, sem defesa.
Eu olho para ele. Para as mãos que, minutos atrás, estavam segurando projéteis no ar como se estourassem bolinhas de sabão.
— Xitarro… — começo, ainda processando — você é… fodão.
Ele baixa o olhar quase imediatamente.
— Me desculpe…
— Não, não, não — corrijo, rápido demais, inclinando-me um pouco à frente da mesa.
O contraste com o ambiente ao redor chega a ser absurdo. O calor, o cheiro de comida, o burburinho constante da Olho da Maré envolvendo a gente como se nada tivesse acontecido. Um ínfero de pele rosada — o mesmo que, pelo jeito, atende metade da cidade — deposita um copo de leite dentro de uma tigela diante do Xitarro, com a naturalidade de quem já viu coisa pior.
Eu apoio o cotovelo na mesa, ainda olhando para ele.
— Você aprendeu isso… sozinho? Numa ilha?
Xitarro pensa por um instante, como se estivesse revisando a própria memória.
— Acho que sim.
Eu estreito os olhos, tentando encaixar aquilo em alguma lógica minimamente aceitável.
— Um fantasma de monge de Hatamon apareceu nos seus sonhos pra te treinar ou alguma coisa assim?
Ele arregala os olhos, visivelmente preocupado.
— Eu espero que não…
Eu deixo escapar um riso curto, balançando a cabeça.
— Ótimo. Melhor ainda. — Dou mais um gole na bebida antes de continuar. — Porque, meu caro capanga do Lorde Edgy… você é um natural.
Dessa vez ele sorri, pequeno, mas genuíno, como se aquilo resolvesse alguma dúvida que ele nem sabia formular direito.
— Mas — acrescento, apontando com o copo — ainda vai limpar a areia da armadura. Disciplina como a de escudeiros!
— Certo! — ele responde, animado de novo, como se fosse a parte mais importante da conversa. — E eu vou poder dormir num chão sem areia hoje?
Eu me recosto na cadeira, deixando o corpo finalmente relaxar, ainda que só um pouco.
— Acho que a gente consegue coisa melhor que isso… Talvez até uma cama.
Faço uma pausa, girando o líquido no copo, já calculando mentalmente o estrago que aquilo ia causar nas minhas provisões.
— Não muito fofa — acrescento. — Vou ter que controlar as moedas que ganhei em Huo-fen.
Xitarro já está concentrado na tigela, completamente em paz com o mundo.
Eu observo por um instante.
E, pela primeira vez desde a estrada, deixo o ombro cair.
Mas só um pouco.



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