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15 de junho de 2026

EDGELORD - Cap. VII - Arco da Montanha Morta

 — Eu sou Lord Edgy, Terror da Escuridão...

— [Bentho, está monologando de novo...] — Gladys fala em minha mente. — [Mas "Terror da Escuridão" é de longe a melhor das variações de seus títulos].

— Eu sei... — Bentho comenta. — Eu estou melhor, acho. Mas a Armadura... Virgilio... Ela está estranha.

— [Você notou?]

— Notei.

— [Curioso...] — Gladys comenta. — [Depois da disassociação da realidade, geralmente vem uma "hiper-associação" com a realidade. Você ganha foco, e maior perspicácia].

— E você Sabia que isso ia acontecer?

— [Sabia] — Gladys comenta. — [O que mais lhe ocorre, versão "sábia" de Bentho?]

Eu respiro.

— Amellie disse que não lia sobre o "Eyespy" havia décadas... — Aquilo me incomodava. — Mas ela tem menos de vinte anos... Isso é estranho...

— [Bem, sim!] — Gladys parecia interessada. — [Eu mesma não acredito que EU não percebi isso...]

— Você não confia em Amellie... — Eu comento. — Nem meu pai.

— [Ela sabia sobre minha voz com Blunt, esqueceu o nome do samurai do Limbo das Sombras... Mas como?] 

— E você está me manipulando neste momento para ficar contra ela...

— [Devo admitir que tenho meus receios...] — A espada tenta florear. — [Mas se eu estivesse, garoto, você nem perceberia. Eu sou mais esperta que você...]

Eu rio.

— [Sério.] — ela insiste. — [Não tem como você esconder nada de mim... Talvez agora, com hiperfoco... mas isso vai passar.]

— Poderia me chamar de "Escudeiro"... e imitar Khao uma vez mais? — eu a provoco.

— [O ... O que?!?]

— Faz, por favor!

— [Você mentiu para mim sobre a voz?]

— E sem "hiperfoco" — Eu relaxo.

Eu ainda buscava meu lugar no mundo.

Podia não saber intelectualmente, filosoficamente. Apenas instinto. Agora eu posso explorar isso.

Eu fui de garoto travesso na Torre do Castelo Negro a um homem que lutou contra invasores dragas. Que confrontou uma aberração cósmica.

Eu estava pronto para o próximo nível.

E meu corpo decidiu me acompanhar.

Eu desapareci lentamente de dentro da armadura... Deixando Virgílio para traz.

— [Essa não ... eu perdi o moleque!]


Arletta permanece no corredor de acesso. Larrincher e Ornub cercam o capitão que tomava o centro da câmara circular. Sombras de outros dois circundavam o ambiente oculto pelas formações naturais.

— Você derrubou uma cidade na minha cabeça! — Khao rosna, apontando para Àquela.

— Foram só barris. — Àquela rebate imediatamente.

— TODOS os barris!

— Deixa de ser chorão. — Ela cruza os braços. — Eu sei que você está ganhando tempo para Vlana e Rhoy ficarem em posição nos flancos. Acha mesmo que Estebán não percebeu isso?

— Estou genuinamente curioso para ver as Contas de Contrafeitiço em Cadeia funcionando. — O Senhor do Sombrio observa a estalagmite onde a maga elfa se esgueirava buscando um flanco, e pisca com intimidade desconcertante.

O silêncio dura apenas alguns segundos. Estebán então toca o braço de Àquela.

— Não lute desta vez.

Ela vira a cabeça.

— O quê?

— Você é o alvo deles, não eu. - Estebán comenta com leveza. - Acho que para eles é pessoal. Eu sou o objetivo final, mas você é o meio.

— Estebán...

— O acordo era impedir que Lord Blunt causasse danos permanentes aos seus amigos. - Ele observa Khao. Depois os outros. — E sinceramente... Neste momento, você parece muito mais disposta a causar danos permanentes do que eu.

Ornub engasga uma risada.

Khao não.

— Que conveniente. — o capitão cruza os braços sorrindo. — Perdeu a armadura. Perdeu a espada. Agora resolveu descobrir a diplomacia?

O braço de pedra range.

— Agora finalmente podemos descobrir quanto sobrou sem o arsenal, e sedentário por dezessete anos.

Estebán suspira como um professor cansado ouvindo um aluno insistir num erro básico.

— Khao... Estamos no coração de uma montanha com resquícios de ferro frio. — O Senhor do Sombrio abre os braços. Sua voz fica mais grave. A escuridão parece responder. — Centenas de metros de rocha reforçada acima de nós.

O chão vibra quase imperceptivelmente.

— Sem testemunhas.

Outra vibração.

— Sem colaterais.

Pequenos fragmentos de poeira começam a cair do teto. As sombras entre as colunas parecem se alongar.

— Aqui é exatamente onde sou mais perigoso.

O sorriso desaparece do rosto de Khao.

— Por quê?

— Porque finalmente posso admitir que estou vulnerável. Não tenho a Vigília Sombria para amaciar seus punhos... Mas, não preciso diminuir minha força. Como um predador antigo encurralado, com um único meio de continuar caçando.

A montanha responde com um estalo profundo. Como algo gigantesco mudando de posição.

— Eu forjei esse covil, que foi moldado para ser susceptível à realidade. Aqui eu posso reescrever o que é pedra e o que não é. Aqui, tudo o que despejar no ambiente só encontrará vocês como alvo! Aqui, eu sou Lord Blunt. Sem freios de remorso! É isso que vocês querem enfrentar?



Xitarro, sorridente, sai da câmera. Olha dos dois lados, e decide ir no caminho de volta. Acaba avistando a alcova na parede, que perdeu quando passou. Era estreita, discreta. Ao se espremer numa rachadura, um pequeno corredor desaparecia na escuridão surgia para ele.

Era o esconderijo perfeito!

Então, a passagem que era uma rachadura na parede se mostra mais perfeito ainda. O ágil monge avança até que alcança uma gruta natural, com um pequeno altar de obsidiana, e uma gaiola de ferro frio, pendurada acima dela por correntes.

Dentro da gaiola, um guaxinim do porte de um humano adulto.

— Eh... Olá? — arriscou Xitarro.

O guaxinim arregalou os olhos.

— FINALMENTE! — urrou. — DEPOIS DE QUATRO ANOS! O DESTINO DOS DEUSES ESTÁ—

— Shhhhh! — Xitarro interrompeu imediatamente.

O guaxinim congelou.

— ...O quê? 

— Fala baixo.

— Você me mandou FALAR BAIXO?! EU?!?

— Estou brincando de esconde-esconde.

— ... Esconde...

— Senhorita Amellie pediu para eu me esconder. Ela foi enganar meu melhor amigo e depois eles vão me procurar.

O guaxinim permaneceu em silêncio por vários segundos.

— Você está ciente de que está no coração da Montanha Morta?

— Sim... E... Quem é você?

— Você não sabe QUEM SOU EU?!? — Fala a criatura com arrogância. — EU sou aquele que você PROCURA! O ÚLTIMO DEUS PRISIONEIRO! E o Fim da ERA DO FOGO-FRIO FINALMENTE ...

— Você é um ... Deus? — Xitarro parecia incrédulo.

— Você .... Você achou que eu era apenas um "guaxinim falante"?

— Bem... Eu sou um gato falante!

— Eu sou DON-O-RON! — o Guaxinim fica em pé, no limite do espaço que aquela grade de ferro frio lhe permite. — O LADRÃO DE SOMBRAS! PADROEIRO DOS LADRÕES! O TERCEIRO DEUS DO TEMPO DO FOGO FRIO!

— "Tempo do... " — Xitarro lembra das histórias de Bentho. — Foram só dois deuses!

— N-Não! — corrige o Guaxinim. — Somos três! Caruthers usou a princesa e o trono para capturar nós três e fazer suas crueldades!

— Pyrros, deus dragão do fogo... — Xitarro enumera. — Enya, deusa vaca da agricultura... 

— E DON-O-RON! — Insiste o guaxinim, apontando vigorosamente para si próprio.

— Nunca ouvi falar... Mas... Isso explica... — Xitarro ri. — Em Shén-li inteira só tinha uma guilda de ladrões... e eles eram péssimos!

— Só UMA?!? — Ele parecia ofendido. — Terei MUITO o que fazer quando sair daqui!

— os "Corvos Mensageiros de Morval". — Xitarro ri.

— MORVAL! O CORVO?!? — Don-O-Ron parecia ofendidíssimo. — Ele é o DEUS DA NECROMANCIA! Ele não tem nada a se meter em meus negócios!!!



Eu caminhava. Não sobre pedra, não sobre ar. Nem mesmo sobre algo que pudesse receber um nome. A direção era uma decisão, não um movimento. Escolhia um caminho e ele surgia sob meus pés.

Olhei para trás.

A Montanha Morta pairava distante. Pequena. Aberta como uma maquete ou um mapa. Como se alguém tivesse removido os limites entre interior e exterior.

Vi a sala do Eyespy. Vi o vazio para onde ele havia nos expulsado. Objetos impossíveis flutuavam naquele não-lugar. A mansão de Amellie também estava lá. Projetada para fora dos limites da montanha.

Parte dela existia onde o mundo acabava. As luzes estavam apagadas agora. E, pela primeira vez, compreendi que aquilo me incomodava menos do que deveria.

Talvez porque algo dentro de mim estivesse mudando.

Foi então que percebi que não estava sozinho.



Galáxias atravessavam sua armadura como reflexos sobre metal polido.

Uma espada repousava diante dele.

As duas mãos apoiadas sobre o pomo.

A postura lembrava um guarda.

Ou um juiz.

Ou ambos.

— Estava esperando você, Bentho, filho de Àquela e filho de Blunt.

Sua voz não atravessou o espaço.

Foi o espaço que pareceu se reorganizar para acomodá-la.

— Você... é um Deus?!?

— Sou Mortal, como você. — Fala o estranho. — Apenas mais velho. Mais experiente.

Por algum motivo, aquilo pareceu mais sincero do que qualquer declaração de divindade.

— O Eyespy foi um teste. — Ele diz. — Estebán falhou no tempo dele, e trouxe muita dor em sua jornada. Mas você, terá uma nova oportunidade.

— Um teste?

— Não para medir sua força. Eu observo seu mundo desde o dia que decidi parar de viajar eu mesmo. — Ele fala com certo saudosismo. — É tão novo, mas com tanto potencial. Mesmo os aspectos mais sombrios de sua terra possuem tanta personalidade, como um projeto de paixão. Seja seu pai, seja deuses sombrios como Morval e Bophades. 

— Mesmo ... Caruthers?

A entidade sorri.

— Não. Vocês ficariam melhor sem ele.


Uma parede distante se move.

Khao cospe no chão.

— Sabia que era questão de tempo. — O capitão fala. Ele queria desabafar havia meses agora.

— Khao... — Àquela fecha os olhos.

— Não. Quero dizer isso. — Ele aponta para Estebán. — Você, eu já conhecia. É o mesmo tigre com outras listras!

Depois aponta para ela.

— Você... achei que estava deslumbrada. Que quando seu esposo mostrasse as garras, voltaria à razão.

A arqueira enrijece.

— Mas não. — O capitão balança a cabeça julgando. — Você sempre escolheria ele.

A frase atinge. Mais do que deveria, mais do que Àquela gostaria.

Mas Khao ainda não terminou.

— Minha verdadeira decepção é Bentho.

— Khao... — Agora é Estebán quem fica imóvel.

O capitão dá um passo.

— Eu realmente achei que aquele garoto era um quadro em branco.

Outro passo.

— Que podia fazer dele um homem melhor do que você.

Outro.

— Melhor do que eu!

O silêncio torna-se absoluto.

— Mas aparentemente estava criando só mais um tirano.

Àquela reage antes de perceber.

— Cale a boca. — A voz sai baixa. Perigosa.

Khao faz uma concha com a mão na orelha.

— O que foi, loira? Não ouvi. — Ele brinca.

Àquela inspira fundo.

E então grita:

— ATRÁS DE VOCÊ, SEU IMBECIL!!!

Estebán arregala os olhos.

Não para Khao.

Para Àquela.

— ...O quê? — Khao percebe a reação.

E isso o faz virar.

Devagar, com muito cuidado.

A poucos metros.

Uma pilha de ossos.

Um enorme crânio deformado.

Um único olho. E o olho pisca.

Hi you.

Khao dá um salto para trás.

— ESSA COISA ESTÁ VIVA?!

— Não... — Estebán olha para Àquela incrédulo e em choque. — O que você fez?!

— Não fui eu! — ela rebate imediatamente, sem demonstrar qualquer remorso. — Foi ele.

O grande olho gira. Confuso e pensativo.

— ...Did he just say that I'm alive?

— Nova Guarda! — Khao aponta para a criatura. — Novo hostil! Atenção! Arletta, tente traduzir!

Carne rósea começa a surgir entre os ossos.

Fibras musculares se esticam.

Veias aparecem.

Tentáculos começam a crescer do nada.

— Did he say...

A criatura ergue-se lentamente.

Flutuando.

— THAT...

Mais olhos se abrem.

— I'M...

O sorriso se alarga.

Antinatural.

— ALIVE?!

Os tentáculos se projetam em todas as direções.

O olho central abre-se completamente.

— I AM ALIVE!!!

— Você atirou o Eyespy contra a Guarda! — Constata o esposo com olhar furioso.

— Só... faça o "puuf" que a gente sai daqui! — Àquela fala com urgência, forçando a mão do esposo para a sua cintura. — Rápido!

Estebán hesita.

— Agora! — Ela insiste.

Vlana sente uma série de explosões em sequência em seu colar de contas, a ponto de sua placa peitoral esquentar com a energia quase queimando-a. As pétalas de contra-feitico em cadeia são acionadas. Todas de uma vez. Poder suficiente para deter a magia da revoada de Yalatanil... Não impediu que, em uma nuvem sóbria gerada palo passo nebuloso, Blunt e Àquela se teleportassem para fora do cômodo.

Seu "Ás na manga"... foi irrelevante. E nem foi para deter um dos maiores encantamentos do exemplar dos bruxos.

A criatura ergue-se acima de todos os que ficaram.

Rindo maniacamente.

— E EU SOU... — Pausa dramática. — A BEHOLDER!!!

— Capitão... — Larrincher urra preocupado. —I-isso é ruim?

— EU NÃO SEI! — Khao berra. — EU NUNCA ACORDEI UM ANTES!




— Eu estava náufrago numa ilha na época. — Xitarro senta-se. — Não tinha fogo na minha ilha, então não senti a falta de Pyrros. Mas lembro que minhas palmeiras, que me davam água de coco, quase morreram, e Bentho falou que foi por causa da cornucópia de Enya ter sido roubada. 

— Então... — o Guaxinim se encolhe na cela. — Ninguém sentiu minha falta? por todos estes anos?

— Bem, não é bem assim. — Xitarro tenta apaziguar. — Quando o "Trio Quimera" libertou Pyrros, precisaram despertar um titã nas Zonas Selvagens, que causou todo o tipo de catástrofe. E para recuperar a cornucópia de Enya, acabaram acidentalmente libertando o Rei Blod, vampiro ancião. Vai ver, eles sabiam que se libertassem você, iam trazer algo ruim para o mundo, não acha?

O Guaxinim desvia o olhar culpado.

— Era isso, não era? — Xitarro provoca. — Caruthers fez algo ruim para o caso alguém o libertasse?

— A tranca da gaiola... — ele aponta. — Se abrisse, derrubaria um vidro no chão com um produto que ressucitaria a Montanha Morta, e provavelmente ela rolaria para cima de Shén-li.

— E você DEIXARIA isso acontecer? —  o Catfolk estava horrorizado.

— Eu admito que não pensei muito nisso... — Ele resmunga. — Eu não sou Aetíades! Cuido só de meus negócios.

— Olha, se você me ajudar com a tranca e impedir que "Ressucitem a Montanha Morta" — Xitarro rola os olhos. — Eu te tiro daqui... 

— Não acredito que estou rebaixado a fazer acordo com mortais, mas certo. — O guaxinim faz um gesto. — Isso deve lhe ajudar.

As garras de Xitarro saem espontaneamente. Elas pareciam mais finas, delgadas, como instrumentos de precisão.

— Imagino que não tenha um kit de destrancar. — O guaxinim fala. — Agora você os tem permanete em suas mãos, bem como o conhecimento para usá-los.

— Se o senhor tem poder para fazer isso... — Xitarro resmunga — por quê não só... "Teleporta" para fora?

— Se os Deuses interferem assim, chama-se "Deus Ex Machina". — ele explica, enquanto recolhia o frasco-armadilha. — Mortais devem cumprir missões em nosso nome. É um tabú.

— Pois... — o Felino começava a usar seus recem-descobertos talentos para abrir a gaiola. — Imagine se você, um deus, andasse no meio dos aventureiros resolvendo os problemas deles... Seria apelação, não é?

Uma idéia surge na mente do guaxinim.

— Sim... seria ... Apelação.



O Guardião se aproxima de mim. Suas dimensões estelares pareciam o tornar bem mais interagível. Era apenas um homem grande e poderoso, quase tanto quanto capitão Khao.

— Poderia dizer por quê deixou o Castelo Negro e começou esta jornada?

— Eu prefiro não dizer. — Eu resmungo. — E se você vê a história de deuses... Eu devo ser só mais um ratinho com angústias.

— O universo é tão grande quanto seus menores... "ratinhos". — Ele fala. — Devo arriscar: você não concorda com o que viu?

Eu silencio.

— Em termos gerais... Sim.

— E decidiu que o mundo precisava mudar? — ele insiste. — Não sabe ainda como... Mas quer ser parte disso?

— O senhor está aqui para me recrutar? — Eu deduzo.

Ele silencia.

— Em termos gerais... Sim.

Eu me volto para trás. Quero ir embora, mas não sabia ainda como.

— Se você quer um herói, veio ao lugar errado.

— Você não confia em "heróis". — ele fala. — Não vê diferença de um herói que mente e um vilão que é genuíno.

— Você também tem uma agenda. — eu falo. — Meu pai tem sua agenda. Minha mãe, a Nova Guarda. A única diferença é que eu CONHEÇO eles.

— Eu me chamo Katzoplys. Me conhece agora. — Ele fala. — Sim, eu tenho planos. Eu acho que sei o que é melhor para o mundo, mas não sou arrogante a ponto de achar que sei tudo. Que meu caminho é o único. Você é, Bentho, filho de Blunt?

Eu não respondo.

— Você já fez a iniciação aos paladinos, correto?

— Não fiz o Juramento. — eu afirmo. — E não farei à coroa de Shén-li, ou à família sagrada. Eu não sei se acredito mais neles.

— Acredita em si mesmo?

Eu não respondo.

— Não que você seja o mais sábio. — Ele coloca a mão em meu ombro. — Você sabe quando seus companheiros tem talento que você não tem. Isso é louvável. Você vai escutar, e aceitar quando não tiver as respostas. Mas quando as tiver, vai se assegurar que vai aplica-las? Mesmo contra seus pais? Seu reino? ou a mim?

— Eu... — Era interessante. Mas eu sentia algo, como quando Gladys jogava com meus desejos, oferecendo poderes. Mas ele não os oferecia. Não me tirava do caminho para alterações. Ele me deixava "segurar" o que eu precisava.

— Você tem uma bússola. Sua consciência. — O Katzophlis afirma. — Eu lhe proponho apenas oferecer ferramentas para combater o que está errado neste mundo... Que é o que você estava fazendo até hoje. Só que em outra escala. Você será o juiz, não eu. Muito do que você fez ao longo de sua jornada, eu censuro, mas dou a você a liberdade. Se for fiel a suas convicções, você estará no caminho correto, mesmo se erguer sua espada contra mim.

— Tem certeza que ... Qualquer um... deveria ter tanto poder?

O Guardião sorri.

— Ninguém deve, mas alguém precisa.

Eu fui Bentho, filho de Àquela. Treinado em forte Jian para proteger Shén-li como paladino. Mas não posso de livre consciência cumprir um voto em que não acredito.

Hoje, eu me curvo a um estranho.

Eu não sou protetor do reino, mas da realidade.

Eu estou em sintonia com a minha existência.

E sinto o que é certo e errado.

E faço o voto.

Consertar.

Ser a seta que aponta o caminho.

Ser um dos Vigilantes.


Estebán e Àquela emergiram na passagem para a câmara do tesouro, no extremo oposto do salão do Eyespy, que mais uma vez havia se transformado em um campo de batalha.

A arqueira precisou puxar o marido pelo braço para evitar que fosse atingido por um relâmpago que parecia rasgar a montanha de fora a fora.

— Estebán, o que está fazendo? — perguntou ela, pronta para continuar correndo na direção onde sabiam estar Bentho.

Mas Estebán ficou para trás.

Ele desamarrou um cinto carregado de frascos rubros e começou a remexer nas próprias vestes.

— Vou deixar para trás algumas poções de cura... E um pergaminho restaurador. — afirmou. — Isso mesmo, "Arqueira Lendária". Suas ações fizeram Lord Blunt ter piedade do Capitão Khao.

Àquela sentiu uma pontada de remorso.

— Eles vão ficar bem?

Estebán não respondeu imediatamente.

Esticou o pescoço para observar o combate à distância. Uma lufada de vento sacudiu seus cabelos. Com cuidado, lançou o embrulho improvisado para um canto da sala.

— Normalmente eu diria 60/40 de chance de sobrevivência. — analisou. — Mas Bentho e os amigos cansaram o Eyespy. Khao vai ficar bem.

Então voltou a caminhar corredor adentro.

Àquela o seguiu.

— Eu sou Lord Blunt. — disse Estebán enquanto se afastavam da batalha. — Eu aceitei isso, Àquela.

— Somos vilões agora. Nós dois. — respondeu ela.

— Bentho... Acho que algo mais sério está acontecendo. 

Estebán interrompeu a corrida.

— Khao ainda está próximo! — insistiu Àquela. — Não podemos ficar aqui!

— Querida... É nosso filho. — respondeu ele. — Precisamos ser o melhor que pudermos ser se quisermos protegê-lo. E ele não será receptivo, constatamos em Hálcora. Está em perigo, e não é apenas Khao. Não é apenas esta montanha.

— Ele tem a nós dois. — afirmou Àquela. — Querendo ou não, o Maior dos Vilões e a Arqueira Len...

Ela não conseguiu terminar.

— Eu aceitei as sombras. — disse Estebán. — Você só vislumbra este mundo, porque sempre se sentiu uma impostora desempenhando o papel da "face do reino", a heroína perfeita. Mas você é a Arqueira Lendária. A luz de Shén-Li. Alguém que pode deter... A mim, no meu pior.

A voz dele suavizou.

— Não tente me imitar. Seja aquela mesma jovem que confrontou o Monstro Conquistador. Eu... eu preciso daquela heroína. A verdadeira.

Os dois ficaram imóveis por alguns segundos.

Apenas se encarando.

Então uma terceira voz, familiar, ecoou pelo corredor.

— Bentho precisa daquela heroína também.

O Senhor do Escuro ergueu a mão imediatamente.

A Dama do Arco encaixou duas flechas na corda.


Amellie ergueu ambas as mãos em rendição.

— Eu só vim conversar.

13 de junho de 2026

[EDGELORD] mais sobre os Tenentes


NOVA GUARDA DE SHÉN-LI

Da esquerda para a direita: Larrincher, Ornub, Arletta (minha pessoa), Vlana e Rhoy.


RELATÓRIO DE INCURSÃO OPERACIONAL

ALVO: MONTANHA MORTA


Autora: Tenente Arletta, Cartografia e Logística Operacional

Destinatário: Capitão Khao, Punho de Concreto

Classificação: Operação de Alto Risco


1. OBJETIVO PRIMÁRIO

Localizar e capturar os desertores Estebán Blunt e Lady Àquela, atualmente deslocando-se em direção à região conhecida como Montanha Morta.

Objetivos secundários:

  • Confirmar existência de rotas subterrâneas ligando a mina às Montanhas Castanhas.
  • Identificar possíveis remanescentes da antiga Horda de Blunt.
  • Evitar que os alvos alcancem áreas de difícil contenção.
  • Determinar eventual ligação entre a região e movimentações recentes de criaturas hostis.

2. COMPOSIÇÃO DA EQUIPE

Capitão Khao

Comando geral da operação. Capacidade de combate superior. Responsável pela neutralização direta de ameaças de elite.

Onurb

Guarda avançada e contenção pesada. Especialista em múltiplas armas. Responsável pela proteção do capitão durante confrontos prolongados.

Larincher

Controle de área. Neutralização de alvos móveis. Responsável por impedir fugas através de alcance superior com lança paralisante.

Rhoy Barba-Curta

Rastreamento. Reconhecimento. Contramedidas contra arqueiros. Responsável pela identificação contínua da rota dos alvos.

Vlana, a Quebra-Selo

Especialista em contra-feitiço. Supervisão arcana. Responsável pela implantação do sistema de redundância mágica.

Arletta

Cartografia. Comunicações. Coordenação logística. Registro operacional. Pessoa mais sensata desta missão.


3. AVALIAÇÃO DOS ALVOS

ALVO 01: ESTEBÁN BLUNT

Considerado por consenso histórico o mais perigoso usuário de magia já registrado em Shén-Li.

Capacidades conhecidas:

  • Magias de nono círculo.
  • Controle de campo em escala militar.
  • Invocações massivas.
  • Manipulação psicológica.
  • Experiência estratégica superior.
  • Conhecimento profundo da própria região.

Observação: Caso Lord Blunt esteja disposto a utilizar seu arsenal completo, a equipe deverá priorizar sobrevivência e contenção, não eliminação.

ALVO 02: LADY ÀQUELA

Heroína lendária. Arqueira de elite. Capacidade de disparo muito acima dos padrões da Nova Guarda.

  • Precisão extrema.
  • Mobilidade elevada.
  • Conhecimento de terreno selvagem.
  • Possível capacidade de combate em longo alcance superior à de destacamentos inteiros.

Contramedida principal: Rhoy Barba-Curta.


4. SISTEMA DE CONTRAMAGIA VLANA

O Colar de Contra-Feitiço em Cadeia será utilizado como núcleo de defesa.

Estrutura operacional:

  • Runas redundantes.
  • Círculos sobrepostos.
  • Equipes sincronizadas.
  • Múltiplos gatilhos de Counterspell.
  • Reação em cadeia entre usuários.

Probabilidade teórica de interrupção de magia hostil: aceitável.

Probabilidade real contra Lord Blunt: desconhecida.

Comentário do Capitão Khao: "Melhor do que não ter nada."


5. TERRENO OPERACIONAL

A Montanha Morta apresenta:

  • Túneis abandonados.
  • Poços de mineração colapsados.
  • Baixa visibilidade.
  • Múltiplos pontos de emboscada.
  • Possíveis passagens subterrâneas desconhecidas.

A geografia favorece defensores familiarizados com o local.

Conclusão: favorece ambos os alvos.


6. CADEIA DE SUPRIMENTOS

  • Rações para 12 dias.
  • Água para 8 dias.
  • Equipamentos de escalada.
  • Sinalizadores rúnicos.
  • Kits médicos.
  • Comunicação de longo alcance.
  • Mapas atualizados por Rhoy.

Caso a operação ultrapasse doze dias, recomenda-se retirada estratégica.

Expectativa do Capitão Khao: "Pegaremos eles antes."


ANEXO A

AMEAÇA SECUNDÁRIA: "LORD EDGY"

Identidade desconhecida. Possível aliado dos alvos. Possui histórico recente de interferência em operações da Nova Guarda.

Incidente Donjon

  • Invadiu instalação de segurança máxima.
  • Escapou da vigilância de Larincher.
  • Utilizou escuridão sobrenatural.
  • Demonstrou acesso a artefatos ligados ao arsenal de Lord Blunt.

Importante: não existem evidências conclusivas de vínculo familiar, apenas semelhanças operacionais.

Perfil Comportamental

  • Arrogante.
  • Teatral.
  • Propenso a discursos dramáticos.
  • Histórico surpreendente de misericórdia.
  • Tende a sobreviver a situações absurdas.

Observação: o último item é estatisticamente irritante.


ANEXO B

ASSOCIADO FELINO NÃO IDENTIFICADO

Catfolk masculino. Nome desconhecido.

Relatos confirmados:

  • Velocidade excepcional.
  • Mobilidade vertical elevada.
  • Capacidade de infiltração.
  • Atuação direta durante o incidente de Hálcora.
  • Conseguiu irritar profundamente o Capitão Khao.

Amostra de relatório verbal:

"Ele apareceu. Correu pelas paredes. Desapareceu. Voltou. Fez uma piada. Sumiu de novo."

Autor: Capitão Khao.

Classificação atual: Ameaça tática moderada. Ameaça emocional elevada.


7. PROBABILIDADE DE SUCESSO

Cenário Estimativa
Capturar Lady Àquela isolada Possível
Capturar Estebán isolado Desaconselhável
Capturar ambos simultaneamente Pouco provável
Capturar ambos com Lord Edgy presente Não desejo comentar
Retornar vivos Em revisão constante

Observação final da autora:

Se este relatório estiver correto, estamos perseguindo simultaneamente: a maior arqueira do reino, o maior mago da história, um vigilante sombrio que invade prisões por diversão, e um felino hiperativo que aparentemente desafia geometria.

Solicito formalmente esclarecimentos sobre por que exatamente fui trazida para esta missão.

— Tenente Arletta



11 de junho de 2026

EDGELORD - Cap. VI - Arco da Montanha Morta

Deixamos a câmara circular para trás.

O corredor seguinte era estreito e irregular, escavado diretamente na montanha. A pedra escura absorvia parte da luz das tochas, e a umidade escorria pelas paredes em filetes finos. Aqui e ali, raízes antigas surgiam entre as rachaduras.

Xitarro seguia na frente, aliviado por estar novamente no chão, e Amellie caminhava logo atrás dele.

Eu vinha por último.

Deveria estar satisfeito. Vencemos o Eyespy. Sobrevivemos.

Mas alguma coisa parecia errada.

Não ao meu redor.

Comigo.

Era como acordar cedo demais e passar a manhã inteira esperando a mente alcançar o corpo.

— Bentho? — perguntou Amellie, olhando por cima do ombro. — Você está bem?

— Hm?

Antes que eu respondesse, Gladys falou em minha mente.

— [Está bem, garoto?]

— Sim... — Pisquei. Acabei respondendo às duas. — Vocês combinaram isso?

— Combinaram o quê? - Amellie franziu a testa.

— Nada. - Olhei para a espada presa ao cinto. — Estou bem.

— [Tem certeza?] - Gladys demorou alguns segundos. — [Você enfrentou uma aberração extraplanar.]

— Nós enfrentamos. - Corrijo.

— A espada... — Amellie percebeu meu desconforto enquanto respondia quase sussurrando e deduziu. — Ela está preocupada?

— Acho que sim.

— Isso é novo. - Amellie deixa uma risada zombeteira escapar. — Mas... Faz sentido.

— Faz?

— Eh, O Menestrel Cyrak escreveu sobre isso. Num texto apócrifo quando enfrentou o Devorador de Nomes.

— Escreveu? Bem, você deve conhecer os "grandes bardos" mais que eu mas...

— Encontros com certas criaturas podem deixar uma pessoa... fora de sintonia com a realidade por algum tempo.

Pensei na expressão.

— Fora de sintonia? — Era exatamente aquilo o que estava sentindo. — Não gosto disso.

— Ninguém gosta. — Amellie falava com... familiaridade?

O som das botas e das patas de Xitarro ecoava pela passagem de pedra.

— Então eu vou ficar bem. Só, meio "aéreo" — Afirmo. — Tem uma espécie de porta alí na frente... Civilização?

— Melhor... — Xitarro fala animado. — LOOT!

Amellie sorriu.

— A melhor parte de explorar uma masmorra!


Àquela chegou primeiro à câmara. O arco já estava em suas mãos, não por nervosismo, mas por hábito.

A sala carregava os sinais de uma batalha feroz. Pedras rachadas. Estalagmites partidas. Marcas de queimadura espalhadas pelas paredes.

Uma área inteira da caverna estava coberta por uma camada branca de "creme". Sangue escuro salpicava o chão guiando o olhar ao canto mais distante da câmara, onde repousava o que restava do Eyespy.

Um amontoado de ossos, olhos ressecados e tentáculos esqueléticos. Imóvel. Melancólico.

— Não reconheça vocalmente a criatura como "algo vivo". - Estebán observou, estudando a cena inteira.

Àquela manteve os olhos na criatura.

— Isso parece uma instrução perigosamente específica.

— Porquê o é. - O bruxo sussurra. — O Eyespy está sofrendo de algo que chamamos de Morte Ontológica.

— E para nós, não-bruxos épicos... - Àquela parecia insultada. - Isso significaria o quê?

— Significa que ele acredita que morreu. E isso nos basta.

Àquela olhou novamente para o esqueleto.

O esqueleto parecia estar encarando o chão.

Triste.

— Ele "acredita"? — A arqueira estava desconfortável. — Mas não morreu?

— Não.

— E o corpo?

— Está acompanhando a crença. E retornará se essa crença for desfeita. Mas fora isso, ele está consciente e pacífico.

Àquela decidiu que não queria aprofundar o assunto.

O Eyespy finalmente percebeu a presença deles.

Alguns olhos se moveram.

Depois outros.

Até que todos encontraram Estebán.

— Master Blunt...

A voz era baixa. Abatida. Como uma criança que acabara de receber um castigo.

— Olá, Eyespy.

— I am dead, you see?.

— Sim, eu percebo. — O bruxo se aproxima, e se curva próximo a ele. Assentiu com seriedade. — Como isso aconteceu?

Àquela lançou um olhar para o marido. Ele parecia estar tendo uma conversa perfeitamente normal, apesar das circunstâncias enlouquecidas.

Lord Edgy me matou. — A tristeza do Eyespy desapareceu por um instante. Alguns dos olhos se arregalaram. — Epic attack. E ele disse que é seu heir!

— Foi mesmo? — Estebán cruzou os braços com um sorriso genuino.

— Greatest attack! — Os tentáculos se moveram animadamente. — Greatest warrior!

Então a empolgação desapareceu tão rápido quanto surgiu.

— Então eu morri. Very tragic.

— Sem dúvida.

O Eyespy pareceu refletir sobre aquilo.

Depois voltou a encarar o chão.

Master Blunt?  Are you proud?

Estebán ficou em silêncio por um instante. Olhou as marcas da batalha. O sangue. A destruição. Os sinais deixados pela passagem dos aventureiros.

E sorriu discretamente.

— Sim, Eyespy. Dos dois. Foi uma luta épica.

A criatura pareceu satisfeita com a resposta.

— Antes de deixá-lo descansar... Você poderia me mostrar o passado? E o que aconteceu? — Estebán fala como se fosse curiosidade. Mas Àquela sabia... era o mais importante.

Os olhos da criatura se voltaram para ele. Curiosos. Pela primeira vez desde que chegaram, o esqueleto pareceu genuinamente animado. Os tentáculos começaram a se agitar.

— I can do that!



Continuamos avançando pelo corredor da mina. A passagem foi ficando menos natural conforme descíamos. As paredes de pedra bruta deram lugar a blocos cuidadosamente assentados. As marcas de ferramentas eram visíveis em alguns pontos. Em outros, suportes de metal sustentavam lanternas de luz permanente.

Parecia menos uma caverna.

Foi então que notei uma alcova na parede. Era estreita, discreta. Fácil de ignorar se estivesse caminhando depressa. Ao se espremer, um pequeno corredor desaparecia na escuridão.

Diminuí o passo.

— Hm...

— [Não.] — respondeu Gladys imediatamente.

— Eu nem falei nada.

— [Não entre aí.]

— O que tem lá dentro?

A espada permaneceu alguns segundos em silêncio.

— [Imagine que Lord Blunt alugou um quarto dentro da Montanha Morta para Caruthers... então eu... ]

Parei de olhar para a alcova imediatamente.

— Não precisa dizer mais nada. Entendi.

— [Você não entendeu, mas não posso elaborar...]

— Entendi o suficiente. — apresso o passo. — Sem Caruthers nesta história!

Isso pareceu satisfazê-la.

Pouco depois, alcançamos a tal porta. Não estava trancada.


Empurrei a porta devagar e congelei no limiar. A sala iluminada por arandelas parecia um escritório secreto escondido nas profundezas da pedra. Uma mesa ocupava o centro do aposento, coberta por mapas, uma sacola, pergaminhos e anotações, cercada por cadeiras vazias. Um baú reforçado repousava diante da parede do fundo, mas era impossível prestar atenção nele por muito tempo.

Atrás do baú erguia-se uma porta colossal de metal, incrustada na rocha. Não era uma porta comum, mas um cofre gigantesco, coberto de engrenagens, travas e mecanismos complexos. Por um instante, permaneci imóvel, ouvindo apenas o crepitar distante das chamas. Aquela estrutura não parecia feita apenas para proteger um tesouro; parecia construída para manter algo inacessível. E isso me fez pensar no que poderia existir do outro lado.

— Certo... — murmurou Amellie. — Isso é interessante.

— Isso é assustador. — corrigiu Xitarro.

— As duas coisas não são mutuamente exclusivas.

O felino apontou para o baú.

— Eu voto por começar por aquilo.

— Tem medo de ser um mímico? — perguntei.

— Respeito a possibilidade.

Amellie começou a examinar a sala em busca de armadilhas.

Xitarro aproximou-se cautelosamente do baú.

Eu me sentei, fiquei com a mesa.

Sobre ela havia algumas moedas espalhadas e um saco de veludo vermelho. Ainda meio aéreo... Peguei o saco e despejei seu conteúdo. Pequenas esferas translúcidas rolaram pela superfície da madeira. Apanhei uma em minha mão e a estudei.

Outra esfera sobre a mesa imediatamente projetou uma imagem em miniatura minha, repetindo meus gestos.

Dei um pulo saíndo da cadeira.

O "pequeno Edgy" também.

— Eu estou viajando ou isso é legal?

Isso chamou a atenção de Amellie. Ela se aproximou e observou as esferas. Pegou uma delas. Aquela com "meu minimin"... A esfera que eu segurava passou a exibir uma pequena versão da barda.

— Oh... — Agora ela parecia interessada. — Acho que são esferas de mensagem.

O som saiu com alguns segundos de delay daquela em minha mão.

— São como comunicadores?

— Mais sofisticadas. — Ela observou as esferas por mais alguns segundos. — Suponho que são em pares...

Então começou a contar as esferas. Nove ao todo. A expressão mudou.

— Não toque nas outras ainda. — ela me alerta. — Tem um número ímpar. Falta uma. Existe uma chance razoável de ser uma nas mãos de Estebán. Essas duas que pegamos são as únicas seguras por hora.

Devolvi imediatamente a esfera para Amellie.

Atrás de nós ouviu-se o som de uma tampa se abrindo.

Xitarro havia vencido sua batalha contra o baú.

— Não é um mímico! — Ele disse triunfante. — E tem roupas!

— Que tipo?

— Roupas mágicas para frio!

— Muito excelente. — Amellie observa. — As Montanhas do outro lado podem ser cruéis para quem não se protege!

Amellie observou o conteúdo do baú. Depois olhou para Xitarro. Eu estava mesmo cansado... ao piscar, perdi sintonia.

— Bentho.

— Sim? — respondo salteado.

— Talvez seja uma boa oportunidade para um descanso curto.

— Eu pareço tão mal assim?

— Você parece alguém que enfrentou uma aberração cósmica. — Ela sorriu.

— Justo. — Eu Franzi a testa. Percebi que Xitarro tinha sumido. — Para onde ele foi?

— Curiosidade de gato... — ela suspira. — Vou garantir que ele não se perca.

— Sozinha?

— Não vou longe. — Ela pegou uma das esferas da mesa e colocou em minha mão. — Se precisar de mim, me chame. Se eu precisar de você, eu chamo.

Olhei para a esfera. Depois para ela. Depois para o cofre. Realmente raciocinar estava difícil.

— Certo.

Amellie sorriu. E partiu na direção pela qual Xitarro havia desaparecido.

Fiquei sozinho com o cofre. Mas não por muito tempo.




O enorme e complexo holograma ocupava toda a câmera.  Não era uma ilusão refinada, parecia um desenho semi-realista feito por uma criança que havia acabado de descobrir que tudo fica mais impressionante quando se adicionam espinhos, sombras e explosões.

Bentho surgia enorme. A capa parecia duas vezes maior do que realmente era.

A Gladius Aeternum deixava um rastro negro exagerado.

— Lord Edgy was awesome... — murmurou o esqueleto.

Estebán observava em silêncio. Àquela também. Por trás dos exageros infantis, ainda era possível enxergar o que realmente havia acontecido.

O momento exato em que a armadura servira de distração.

O salto. A aproximação por cima. O golpe.

— O que ele fez com minha armadura para ela estar tão "esquelética"? —  Blunt pergunta indignado.

— Ele estava ferido, Estebán! — observou Àquela. Não parecia uma crítica, parecia uma mãe genuinamente preocupada. — Olhe o rosto dele! 

Estebán não desviou os olhos da imagem.

— Durante dezessete anos você voltou para casa ferida das atividades da Nova Guarda. — O marido fala casualmente. — Flechas quebradas. Costelas trincadas. Queimaduras. Cortes.

O holograma continuava exibindo detalhes. Amellie no limite do campo, com algum suporte; o garoto catfolk rendido de ponta-cabeça em um dos tentáculos

— ... Houve dias em que pensei em abandonar a Torre. Quebrar o acordo. Caçar pessoalmente quem tivesse ousado encostar em você.

A arqueira ergueu uma sobrancelha.

— Eu não sabia... você escondia bem.

— Eu escondia. — Ele cruzou os braços caminhando a esmo pela cena exposta. — Com o tempo aprendi que aquele era o seu trabalho.

O holograma mostrou Bentho surgindo acima do Eyespy, prestes a enfrentar a aberração O marido apontou a cena.

— Acho que chegou a sua vez de aprender isso. 

A imagem congelou. Estebán estreitou os olhos. Algo chamara sua atenção.

Não o golpe.

Nem a espada, embora reconhecesse que Bentho optou pelo caminho da Espada Sangrenta.

Seu olhar foi para Vigília Sombria. Para a posição exata da armadura. Ele chegou a se curvar, para estar na altura do que o Eyespy via...

Para o instante em que ela bloqueava completamente a linha de visão do monstro. O antigo Lord Blunt ficou imóvel por alguns segundos, e então falou, quase para si mesmo:

— Interessante...

Àquela percebeu a mudança.

— O quê?

— A manobra. — Um pequeno sorriso apareceu. — Eu conheço essa manobra. Um corta-fogo. Uma distração deliberada. Uma peça sacrificada para abrir caminho ao ataque principal. Bentho não é dependente da armadura como eu temia ser.

Àquela olhou novamente para o holograma. Realmente era uma decisão tática corajosa.

— Bem, ele derrotou um monstro que você achava que estava acima do nível dele. — A mãe coloca a mão no ombro do marido. — Nosso garoto é excepcional, e nós nunca percebemos...

— Corta fogo... — Estebán repete para si mesmo por um segundo. — Ele aprendeu isso em Fort Jian? Com você...

Ele ergueu os olhos para a entrada da câmara.

— ...Capitão Khao?

O silêncio durou apenas um instante, e então, a enorme figura do capitão surgiu na passagem.


Atrás dele vinham os tenentes da Nova Guarda.

Cobertos de poeira.

Cansados.

Mas ainda avançando. 

8 de junho de 2026

EDGELORD - Cap. V - Arco da Montanha Morta

 Meu nome é Lord Edgy, herdeiro da Escuridão.

Jamais enfrentei um oponente tão poderoso... ou tão complicado... quanto o Eyespy.

Apelamos para a manobra da ESCURIDÃO só para conseguir um respiro... E então a criatura se transformou em um Beholder e nos negou a folga.

Sim.

Ela faz isso.

Ignora a nossa realidade e substitui pela própria.

Amellie está atrás de mim. Ela é mais inteligente do que eu, não me sinto ofendido em admitir isso. Mas a inteligência dela a torna uma desvantagem. Ela SABE o que a criatura poderia fazer conosco se fosse uma monstruosidade realmente séria.

Isso lhe dá um pânico existencial.

Há bênçãos em ser mais limitado.

Por exemplo: eu sei que o cone antimagia de um beholder não dispersa magia. Apenas impede que ela funcione dentro da área afetada.

Eu ainda sinto a magia Escuridão ocupando minha concentração.

Sinto a armadura Virgília Sombria pesada sobre meus ombros. Alguns dos recursos dela estão ativos mas suspensos.

Gladys não se move nem fala comigo.

Elas continuam lá. Apenas... inacessível.

— Amellie... — digo. — Quando a escuridão voltar, vou precisar de toda a sua inspiração bárdica.

— C-como assim "quando voltar"?!? — ela protesta.

— Confie em mim. — Respondo com um sorriso.


— STOP TALKING! — resmunga a criatura. Ela estava claramente incomodada pela "nova forma".

Imagino que ter um órgão inteiro brotando da cabeça deva ser inconveniente.

— Stop talking, you too! - Ele resmunga para XItarro, que estava calado, assombrado com nossa situação.

— Ei, Beholder! — provoco. — Que tal você e a Virgília Sombria brincarem de "Batatinha Frita Um, Dois, Três"?

Era um comando... Mas a criatura não percebeu.

— Chega de brincadeiras! — rosna a Eyespy, como uma criança fazendo birra. — I SPY... LAVA ... SPEAR ... OF ACID!

Algo se materializa acima dela.

Uma lança longa e verde.

Parecia sólida e líquida ao mesmo tempo.

Vapor escorria pela superfície.

Ela borbulhava.

Parecia dolorosa.

O Eyespy faz um gesto com um dos tentáculos-olho.

A lança dispara na minha direção.

Perfeita.

Mortal.

Até desaparecer no ar.

Não consigo evitar um suspiro de alívio.

— O... o que aconteceu? — pergunta Amellie.

— A conjuração é mágica. Ou, pelo menos, ele acredita que seja. — explico. — Os poderes de "Ai Espai" não funcionam dentro do cone antimagia. Nós perdemos nossos poderes. Ele perde os dele.

N-no problem! — resmunga a criatura. — Basta eu fechar meu Big Eye... e APENAS meu Big Eye!


Mordeu a isca.


O olho central se fecha.


Imediatamente minha escuridão volta. O Eyespy perde todos os alvos.

— Agora, Amellie! — berro.

E avanço.

Do lado de fora, tudo o que o Eyespy vê é uma enorme esfera de trevas deslizando em sua direção. O Alaúde de Amellie começa a tocar... e eu sinto seus efeitos...

Sem alvos.

Sem respostas.

Sem poder declarar o que vê.

Oh no... Stop! STOP! — ele grita.

O olho central se abre.

Minha escuridão é suspensa outra vez.

Estou lá. em armadura completa.

Parado.

Espada em punho.

Pronto para avançar.

Não digo nada desta vez, e meu silêncio é ensurdecedor.

Ele sente a pressão.

Os tentáculos se agitam nervosamente.

Parece querer conjurar alguma coisa letal, mas sabe que não funcionará.

Ele hesita.

Pensa.

Então fecha o olho novamente.

As trevas retornam. A esfera avança.

O Eyespy era absurdamente poderoso... Mas tinha a maturidade emocional de uma criança. E agora estava com medo.

Medo de verdade.

Nervoso demais para usar as ações de covil.

Nervoso demais para pensar.

A escuridão é um medo primordial mesmo para uma aberração.

Ele cogita atacar às cegas.

Cogita usar os tentáculos.

Mas a sombra continua avançando.

E ele entra em pânico.

Abre o olho central outra vez. Queria uma folga da pressão, exatamente como eu quando conjurei pela primeira vez.

A escuridão desaparece.

O movimento cessa.

Mas leva um segundo para perceber.

Não era eu dentro da armadura.

Era Virgílio.

A criatura solta um berro assustado. Virgílio era assustador: Um esqueleto de metal parado quase na cara dele.

E eu?

Saí da armadura na segunda vez que a escuridão retornou.

Amellie me deu todas as inspirações que podia, porque eu só teria uma chance. Virgílio era um corta-fogo, assim como as dragas foram no rio. Enquanto o Eyespy observava a armadura, eu corria.

Acelerando no exato momento em que a escuridão começava a desaparecer.

Salto.

Uso os ombros da Virgília Sombria para um segundo impulso.

Passo por cima da criatura.

Múltiplos olhos.

Múltiplos tentáculos.

Mas sem saber o que fazer.

Sem saber para onde olhar.

Ainda focado na armadura vazia.

Eu desço sobre ele.

— THIRSTY BLADE! SMITE EVIL! BOOMING BLADE!

Dois golpes.

Um deles carregado com tudo o que tenho.

Toda a força.

Toda a magia.

Toda a vontade.

A espada atravessa a massa aberrante com violência.

O Eyespy quica pela câmara como uma pedra arremessada sobre a água.

Xitarro despenca ao meu lado de pé. Livre. Aliviado.

A criatura voa para o outro lado da sala, deixando um rastro de sangue escuro. Rola e só para quando se choca contra a parede.


— Brilhante, Bentho! — Amellie correu e me abraçou por trás, os braços em volta do meu pescoço.

Eu senti que ela também estava suando de nervoso. Mas eu ainda estava ofegante. Dei tudo de mim naquele ataque.

Se eu errasse... se a aberração erguesse um tentáculo sequer... tudo poderia ter dado errado.

— Acabou? — perguntou Xitarro.

Observei a criatura. Sorri para responder que sim...

... Até aquelas quatro letras me trazerem o horror.

— Owie...

Um dos olhos ainda piscava.

Depois outro.

Um tentáculo se moveu.

— Ah não... — resmungou Xitarro.

— Ah sim... — respondeu o Eyespy com uma voz fraca.

Não foi o suficiente.

Eu encarei a aberração. Ela encarou de volta. Sentia dor. Sentia medo...

... Mas ainda estava lá.

Amellie finalmente se aproximou. Observou a criatura por alguns segundos.

Então sorriu.

Aquele sorriso.

O sorriso de alguém prestes a fazer algo terrível.

— Eyespy.

Todos os olhos se voltaram para ela.

— Hm?

— Sabe quem é esse aqui? - Ela apontou para mim. — Lord Edgy. Herdeiro de Lord Blunt.

A criatura piscou.

— Oh... Master Blunt!

Sim. A masmorra era de meu pai. Ele deveria conhecer.

— E você sabe o que acabou de acontecer?

— Owie?

— Pior. — Amellie cruzou os braços. — Aquilo foi o golpe mais épico da história.

O Eyespy pareceu impressionado.

— Really?

— Absolutely! — Ela arriscou o idioma dos Antigos.

— Wow...

— Na verdade... — continuou Amellie. — Acho que foi o golpe mais épico que alguém já recebeu.

A criatura ficou imóvel.

— Really?

— Sim.

Ela fez uma pausa. Então completou:

— Eyespy... você está morto.

Silêncio.

Todos os olhos piscaram ao mesmo tempo.

— Am...

Outro silêncio.

— Am I... dead?

— Como você acha que sobreviveria sendo atacado daquele jeito pelo Filho de Master Blunt? - Amellie assentiu com total convicção. — Completamente morto.

— Oh...

Os tentáculos se pensuraram pesadamente.

— That's unfortunate...

A carne começou a murchar. Os olhos afundaram nas órbitas. Os tentáculos secaram.

Em poucos segundos, havia apenas um esqueleto torto no chão da caverna.

Ele tombou de lado.

Clac.

Silêncio.

Então:

— Being dead is boring...

— ELE ESTÁ FALA...! — Xitarro arregalou os olhos.

— Shhhhh! — Amellie sussurrou imediatamente.

— Mas ele...

— Shhhhh!

— Ele literalmente...

— Xitarro. — Amellie apontou um dedo para ele. — Se ele acha que morreu, então morreu! Se você discordar disso perto dele, ele vai voltar.

O monge fechou a boca na mesma hora.

O esqueleto suspirou.

— I miss having organs...

— Não estou ouvindo nada. — respondeu Amellie. — Pena que um monstro desses não tem loot...

— Treasure cave? A mile down the hallway. — respondeu o Eyespy. Um dos tentáculos de ossos apontou a saída da câmera pouco atrás dele.

— Ele acabou de...

— Nada. — Amellie me repreendeu.

Olhei para o esqueleto

Ele parecia...

Triste.

- [Como você está, Escudeiro? Agora que se expôs ao Olho da Aberração?] - Gladys começa a conversar de novo... Parecia entusiasmada com algo que eu fiz?

— Vocês... Vocês têm certeza que isso conta como vitória? — perguntei receoso.

— Bentho. — Amellie suspirou.

— O quê?

— Nós não vamos adotar a aberração cósmica.

— Eu não vou adotar a aberração cósmica. - concordo.

O esqueleto virou um pouco a cabeça. Suspirei.



5 de junho de 2026

EDGELORD - Cap. IV - Arco da Montanha Morta

 — Então... um beholder? — Àquela pergunta.

— Jamais fale isso para ele! — Estebán repreende.

— Ele é uma aberração cósmica de tentáculos que lança magias pelos olhos? — Àquela tenta racionalizar.

— Não é magia... — Estebán insiste. — É a realidade!

— Como Desejo?

— Ele pensa que está vendo um golem, e um golem aparece. — Estebán explica. — Se ele não acredita que foi ferido, ele continua.

— Os garotos são espertos. — Àquela tenta argumentar. — Eles fugiram de nós, sobreviveram ao rio... aos aracnóptilos...

— O Eyespy era um trunfo meu. — Estebán hesita antes de regressar à voz de Lord Blunt. — Alguém como Amellie vai tentar usar a instabilidade emocional e a inteligência limitada dele...

— Burro, certo? — Àquela observa.

Estebán precisa diminuir o ritmo. Recuperar o fôlego. Foram dezessete anos longe das masmorras... Não estava acostumado a correr, evitar armadilhas. Deveria estar cobrindo os rastros para o caso de Khao estivesse os rastreando, mas não tinham tempo.

— Isso pode ser... desastroso!





— Raio Místico!

Eu disparo. Ele é grande demais, não tem como errar. Eu poderia ter matado um ser humano com o tanto que acertei... Do Eyespy tirei apenas um:

— Owie!

E logo depois, "estalagtites" brotaram do chão.

Mesmo com uma das mais impressionantes armaduras da história, eu perco o fôlego. Sinto o esterno forçar as costelas para dentro.

— Estalagmites são no chão! Estalactites do teto! — corrige Amellie. — Hold Monster...

— Nooo... — a criatura oscila um pouco.

— Aetíades nos proteja... Resistência lendária... — ela resmunga.

Xitarro golpeia o tentáculo que segurava sua canela, libertando-se. Mas, antes de chegar ao chão, outros dois o agarram. O monge normalmente não seria preso tão facilmente por qualquer oponente, mas o Eyespy e seus tentáculos pareciam ter tempo e paciência para brincar de malabares com o "Funny Cat".


Minha conclusão: somente meus smites poderiam derrubar o monstro. Com a Espada Sedenta, eu teria inclusive múltiplas tentativas. Mas, se eu chegasse ao alcance dos tentáculos, teria o mesmo destino de Xitarro... e nem de longe eu teria a desenvoltura do monge. Sem as magias de Amellie o imobilizando, só me restava tentar cansa-lo com raios místicos.

— I spy... — ele começa.

Eu já seguro Gladys com tanta força que cogitaria partir a empunhadura.

Então ele termina:

— Gasssss...

Uma bola fumegante voa no meu rosto, explodindo imeterialmente. Os gases entram pelas frestas do meu elmo. Meus olhos queimam. O esôfago se fecha...

Aquilo podia ser fim de jogo.

Mas consigo me agachar e lançar Lay on Hands. Alivio imediato, mas preciso de uns cinco segundos antes de conseguir me levantar novamente.

Ele então olha para Amellie.

— I SPY... YOU... CREMATED!!!

Eu arranho o idioma dos Antigos. "Cremated" era...

CREMADA?!

Ainda parcialmente cego, entro em pânico, e vejo algo cair sobre Amellie.

A visão turva mostra...

Uma gosma branca.

— C-creme?! — ela protesta. — Você atirou creme em mim?!


— BWAHAHAHA! Again! Again!!!


— Tá bom... tá bom... todo mundo para! — Amellie parecia ter encontrado o limite da loucura que poderíamos tolerar. Ela consegue a atenção da aberração, que para.

Xitarro, vendo que deixou de ser sacudido, decide obedecer e escutar.

Eu não pararia, se não estivesse desorientado.

— Eyespy, amigo... — ela fala com um tom adequado para uma criança de cinco anos. — Você está se divertindo?

— A little... — ele responde, como se não quisesse admitir.

Mas até agora não representávamos risco algum para ele.

— Quer aprender uma nova brincadeira? — ela pergunta.

— C-continue... — ele responde.

— Conhece... "Peek-a-boo"? — Amellie cobre os olhos. — Ei, cadê o Eyespy?!? Ele sumiu!!!

A criatura ri.

— Silly girl! — ele faz uma careta.

— Sério... funciona... Testa aí! — Ela revela o rosto com um sorrisão. — Aí está você!


Ah, Amellie e sua mente diabólica...


Se ele fechar os olhos, eu posso dar um ataque de carga. Alcançá-lo antes que os tentáculos me parem. E, se eu conseguir libertar Xitarro, é só nós dois espancarmos a criatura no corpo-a-corpo.

Eu me coloco discretamente de pé.


Seria a carga da minha vida.


O monstro oscila com a cabeça. Decidindo se tentava brincar.


Os olhos em toda parte...


E de repente ele berra:


— PEEK-A-BOO!


E fecha seus múltiplos olhos. De uma única vez.


...


Eu e Amellie desaparecemos.





— A-Aquela é minha mansão?!? — Amellie aponta para uma estrutura quadrangular alongada e exótica. — As luzes estão acesas?!? Eu deixei as luzes acesas por seis anos?!?

Eu olho ao redor.

Era como flutuar em um espaço rosa e rubro, vazio, com objetos aleatórios, como uma bola verde que vem em minha cara, papéis, garfos, guarda-chuvas ... até um prédio quadrado irregular flutuando. Nossas vozes produziam ecos como se estivéssemos dentro de uma câmara minúscula.

Tento chamar Gladys à minha mão.

Ela não vem. 

— Amellie... Onde nós estamos?!? — eu urro.

— Em Lugar Nenhum! — ela urra.

— A vila goblin?

— Não! O vazio entre dimensões! — Ela estava em pânico. — Aquela... coisa... simplesmente nos fez DEIXAR DE EXISTIR!

— F-FECHANDO OS OLHOS?!? — eu protesto diante do absurdo.

— Pior... — ela responde. — Acreditando que fechar os olhos faz a gente deixar de existir...

Ela tenta "nadar" na direção da tal "mansão".

E acho que as aspas não fazem justiça ao quanto nada daquilo parecia real.

— E como nós vamos...




— ...sair deste lugar? — eu pergunto, imediatamente trombando de costas. Bem, trouxe uma bola verde do "Lugar nenhum" para provar que eu não delirei.

De volta à câmara circular. Amellie cai sentada também.

— [Oh, ele estava de bom humor...] — Gladys comenta em minha mente.

Jamais admitirei, mas era bom saber que ela estava por perto outra vez.

— Filthy liar! — a aberração resmunga, parecendo irritada. — Vocês não sumiram... E essa é minha bola que eu tinha perdido!

— Sumiram sim! — Xitarro parecia aliviado. — Vocês dois ficaram invisíveis por uns trinta segundos quando esse beholder fechou os olhos...

— I AM NOT... A... BEHOLDER! — a criatura resmunga. 

Mas parecia cansada de repetir aquilo.

— Ele... — Amellie estava com medo genuíno. — Ele nem percebeu que nos fez deixar de existir... Bentho, o que ele vê é o que... ele altera a REALIDADE!


— ESCURIDÃO!


Eu lanço a magia.


Uma esfera de trevas nos envolve.  Queria poupar minhas energias para mais smites... mas, se ele realmente precisa nos ver, a escuridão seria nossa melhor saída.

— Hey... where are you?!? — a criatura protesta. — Apareçam!

— Não vai rolar, seu beholder! — eu resmungo. Busco a mão de Amellie, que estava cega a tudo ao nosso redor. — Os adultos vão conversar.

— I am... not... — a criatura começa a olhar para si mesma.

Um barulho estranho sai dela.

Como entranhas se rearranjando.

Xitarro cobre a boca para não vomitar.

— Bentho?!? — Amellie parece preocupada. — Não consigo ver... O que ele está fazendo?

— A-Acho que chamamos ele de "beholder" um pouco... demais...



Os tentáculos que faziam as vezes de pernas começam a deixar o chão, enquanto ele flutuava emitindo o som que parecia escapamento de gas.

A criatura começa a flutuar.

A carne de sua massa central se rasga, revelando um novo olho.

Maior.

Mais sinistro.

Ele olha para minha escuridão.

...

E ela se desfaz. Sob o cone anti-magia de um genuíno Beholder.

— Ele... — Amellie constata. — Ele acredita que é um beholder agora!

4 de junho de 2026

EDGELORD - Cap. III - Arco da Montanha Morta

 O cadáver do aracnóptilo ainda fumegava.

Ou melhor: o que restava dele.

Uma flecha de luz dourada havia atravessado o tórax da criatura e incendiado os tecidos internos. O cheiro de quitina queimada misturava-se ao odor úmido da caverna.

Àquela baixou o arco.

— Isso foi um pouco exagerado, não? - Àquela comenta. - Ele já estava morto!

Estebán observava os restos carbonizados.

— Talvez.

A ponta da bota empurrou um pedaço da carapaça.

— Talvez houvesse centenas de filhotes microscópicos escondidos na pele da mãe. Lidar com monstros como esse exige um “double tap”.

— Estebán. — Àquela suspirou. — Parece até que você está… “gostando” de ver sua velha masmorra em ação?

Os dois seguiram adiante.

A garganta da montanha se erguia acima deles como a boca de uma criatura colossal. As paredes negras desapareciam na escuridão. Aqui e ali ainda pendiam fragmentos de teia.

Estebán observou o teto.

— Interessante.

— O quê?

— Como eles passaram por aqui.

— O aracnóptilo?

— Bentho.

Ele apontou para as marcas de impacto espalhadas pela pedra.

— Padrão Hipnótico.  — conclui. — Coisa de Amellie. Eu esperava que criaturas no teto surpreende aventureiros invasores, mas eles perceberam.

Àquela sorriu. Estebán cruzou os braços.

— A maioria das pessoas olha para uma masmorra e vê monstros. — Ele começa — Os vilões que os projetam não.

— O que você vê?

— Eu vejo um terrário colossal.

Àquela já conhecia aquele tom. Era o tom de palestra.

— Ah não...

— Ah sim.

Ele apontou para o cadáver.

— Aracnóptilos controlam populações de criaturas menores. Consomem excesso de presas. Impedem superpopulação. Eu coloquei próximo da saída porque sua sensibilidade à luz do exterior já os manteriam em sua guarda, mas outras criaturas evitam seu território, não saem da masmorra.

Depois apontou para as teias.

— Biomassa para outras criaturas. Tudo em equilíbrio se usar os instintos predatórios e comensais do que coloca na masmorra. Os aracnóptilos mantêm os kobolds afastados. Os kobolds limitam os fungos. Os fungos alimentam todo o resto. 

— Por que não só enchem de mortos-vivos? — Àquela comenta. — Mortos-vivos não precisam de “biomassa”, repõem seus números com cadáveres de aventureiros, e obedecem sem questionar!

— Por que você teria um jardim se poderia só colocar flores de plástico? — O esposo parecia ofendido com a insinuação. — Lordes vampiros, múmias-regentes e liches… Eu deixo passar porque não tem como evitar. Mas um bom senhor do mal, com suas dungeons, deve ser elegante. A masmorra deve durar mais que o criador. 

— E como você vê os aventureiros?

— Gafanhotos. — Ele fala. — Sem ofensa.

Ela riu. 

— Isso explica muita coisa. — Ela riu. — Só entrei em masmorra umas três vezes na carreira antes de virar “A Dama do Arco” da Nova Guarda.  

Estebán deu de ombros.

— Um mestre de dungeon passa anos equilibrando populações, recursos, territórios e rotas migratórias.

— E então aparecem três idiotas armados — Ela faz pose jocosa. — E chamam isso de heroísmo.

Estebán ia continuar a explicação.

Abriu a boca.

E congelou subitamente. Àquela percebeu.

A expressão dele mudara.

O humor desapareceu.

— Não… Não não… — Ele ergueu lentamente a mão esquerda. Fechou os olhos.

Por um instante o ar pareceu vibrar.

Como cordas invisíveis sendo tensionadas através da pedra.

Àquela conhecia aquele gesto.

Vínculo. A Gladius Aeternum. Estebán permaneceu imóvel. Escutando. Sentindo.

Procurando. 

Então abriu os olhos.

Preocupado.

— Eles estão próximos do coração da montanha… Saíram do caminho que levava para o território de caça dos Trogloditas! Vão chegar nas câmaras do Tesouro!

— Evitar trogloditas não é uma coisa boa?!? — Ela pergunta.

— Acredite… — Esteban começa a caminhar em passada veloz, beirando a corrida. — A tribo troglodita era o caminho mais fácil!

Esteban se questiona por que a Espada não guiou pelos caminhos menos arriscados? Havia uma passagem de acesso secreta onde poderiam repousar. 

Mas agora, eles iriam enfrentar … O Olho da Aberração.

Por mais que tenham se saído bem desde Hálcora... Bentho e seus amigos não estavam prontos.



A mina foi ficando mais silenciosa conforme avançávamos.

Não o silêncio confortável.

Não o silêncio vazio.

O tipo errado de silêncio.

O som de nossos passos parecia morrer rápido demais. A luz das tochas não alcançava tão longe quanto deveria. Até o eco parecia cauteloso.

O corredor finalmente desembocou numa enorme câmara circular. Perfeita demais para ser natural.

As paredes curvas desapareciam na escuridão. Estalagmites erguiam-se como colunas tortas sustentando um teto invisível. Água escorria por rachaduras antigas, formando pequenos espelhos negros pelo chão.

E havia alguma coisa no centro.

Descendo lentamente de uma estalactite.

Primeiro vi os tentáculos.

Depois mais tentáculos.

Depois percebi que todos pertenciam à mesma criatura.


Eles eram compridos o suficiente para tocar o chão muito antes do corpo principal terminar de descer. A coisa deslizou alguns passos sobre os próprios membros, tentáculos fazendo vezes de cauda de serpente encontrando patas de aranha, soltando a pedra do teto, e então permaneceu imóvel, nos encarando.

Ou melhor...

Nos encarando de várias formas diferentes.

Primeiro eu vi os olhos.

Não o corpo. Os olhos. Espalhados pela escuridão. 

Um aqui.

Outro ali.

Mais alguns surgindo conforme a criatura avançava. Só depois percebi que todos pertenciam à mesma coisa. Ela possuía algo parecido com um corpo central. Não exatamente uma cabeça. Nem exatamente um rosto. Era uma massa de carne rosada e nodosa da qual brotavam dezenas de tentáculos.

E nas pontas de alguns deles havia olhos. Quatro grandes.

Dezenas menores.

Todos observando.

Todos piscando em ritmos diferentes.

O estranho era que nenhum parecia olhar para a mesma coisa, como se cada um enxergasse um mundo diferente. A criatura ergueu-se sobre os tentáculos sem olhos que lhe fazia as vezes de "pernas de aranha" ou "cauda de serpente" e girou lentamente a massa total de seu corpanzil.

Um dos olhos se arregalou.

Depois outro.

Depois outro.

Até que todos se abriram ao mesmo tempo.

E eu tive a sensação de que, pela primeira vez, ela realmente nos viu.

— Ooooooh...

Os tentáculos começaram a bater uns nos outros.

— ~Visitors~! — exclamou a criatura, animada. — Visitantes! Faz muito tempo!

— Ah não... — suspirou Amellie.

— Ah sim! — corrigiu a criatura imediatamente.

Ela abriu um sorriso. Dentes triangulares surgiram em fileiras demais para uma boca daquele tamanho. Parecia ... feliz. Estranhamente feliz. Desconfortavelmente feliz.

— Isso é um beholder? — perguntou Xitarro.

— Não é um beholder. — respondeu Amellie sem hesitar.

— É um beholder. — afirmei.

— Não é.

— Tem olhos.

— Você também tem olhos. — retrucou Amellie.

— Tem tentáculos.

— Polvos têm tentáculos.

— Parece um beholder.

— Isso não é um critério científico!

— É um critério visual.

— Não é assim que funciona!

— Funciona para mim. — Xitarro interrompe nossa discussão.

— [I spy with my little eye...] — começou a cantarolar Gladys dentro da minha cabeça.

A criatura girou abruptamente.

Todos os olhos voltaram-se para mim.

I AM NOT A BEHOLDER!

— Viu? — disse Amellie, apontando para ela. — A própria criatura discordou de você.

— E você vai confiar mais na opinião de um beholder do que na minha? — perguntei.

— NÃO É BEHOLDER! — protestou a criatura.

— [Escudeiro!] — Gladys assumiu uma imitação terrível de capitão Khao. — [Só repita para Amellie que está perto de descobrir: Eye... Spy.]

Inclinei a cabeça.

— Ela entende nosso idioma perfeitamente? — Perguntei.

— Claro que entende. — respondeu Amellie.

— Então por que continua falando o idioma dos Antigos?

A criatura ergueu dois tentáculos.

Because it's cool.

— Justo. — tive de concordar.

Pensei por um instante.

— Então, Amellie: Gladys disse que o nome dele é "Ai Espia".

— Eyespy. — corrigiu Amellie, lembrando. 

— Foi o que eu disse.

— Não foi.

— Foi sim.

— Não foi.

— Foi.

NÃO FOI! — berrou a criatura.

Ela apontou dois tentáculos para si mesma.

I'M AN EYESPY!

— Claro que é, meu querido! — respondeu Amellie enquanto sacava o alaúde. — Caramba... eu li sobre isso décadas atrás...

— ESSE NÃO É MY NAME! — reclamou o Eyespy. — É MY SPECIES! New RULES!!!

— Igualzinho um beholder. — concluí.

Os tentáculos começaram a se contorcer nervosamente.

— I'M NOT!

— Beholder. — XItarro provoca.

— I'M NOT!

— Beholder. — Eu repito.

— STOP IT!

— Beholder.

— STOOOOOOP!

Um dos olhos menores brilhou.

Depois outro.

Depois outro.

Uma sensação ruim percorreu a sala inteira.

Instintivamente puxei Gladys.

Amellie ergueu uma mão e recuou para o fundo da mina.

Xitarro abaixou o centro de gravidade.

Todos percebemos ao mesmo tempo.

A brincadeira tinha acabado.

O Eyespy abriu um sorriso infantil demais para uma criatura daquele tamanho.

— I spy...

Um dos olhos encarou uma estalagmite.

— ...FIREBALL!

A estalagmite explodiu.

Uma bola de fogo do tamanho de uma carroça atravessou a câmara.

Recebi a explosão de frente. O calor engoliu metade da sala.

Minha capa começou a queimar.

Um dos ombros da armadura ficou em brasa.

Fui empurrado dois passos para trás. A armadura foi projetada para isso, ainda assim baqueei com a pancada. Doeu o suficiente para eu parar de sorrir.

Amellie por sorte estava fora da área da explosão.

Xitarro conseguiu saltar para trás no último instante, só se chamuscou aparentemente, mas ainda foi lançado contra uma coluna. Pedras despencaram do teto.

Fumaça espalhou-se pela caverna.

E o Eyespy gargalhou.

Não uma gargalhada maligna.

Pior.

Uma gargalhada infantil.

Again! Again! Again! — comemorou a criatura, batendo os tentáculos uns nos outros.

Outro olho brilhou.

Xitarro não parecia interessado em repetir a experiência.

Disparou antes que qualquer um de nós pudesse formular um plano.

O Eyespy acompanhou o movimento dele.

— I spy...

O chão à frente do catfolk transformou-se numa camada lisa de gelo.

— ...ICE FLOR!

Xitarro deu dois passos.

Escorregou.

Girou.

Bateu numa pedra.

Escorregou de novo.

— OPA—

— Xitarro! — gritou Amellie. — Ele tem AÇÃO DE COVIL?!? 

— EU TÔ BEM! — respondeu o felino.

Fez uma pausa, olhando algo no chão escorregadia em que estava.

— NÃO TÔ BEM!

Tentáculos surgiram do chão, ocultos na neve.

Agarraram o monge.

Ergueram-no de cabeça para baixo.

Levaram-no lentamente até a criatura.

O Eyespy começou a bater os tentáculos como uma criança assistindo a um espetáculo.

FUNNY CAT! — comemorou.

Xitarro girava no ar como um peixe fisgado.

FUNNY CAT!

— Eu te odeio! — respondeu o catfolk.

FUNNY CAT! FUNNY CAT! FUNNY CAT!

Foi naquele momento que percebi algo preocupante.

Aquilo não estava nem tentando nos matar.

Estava brincando.

E estava nos vencendo enquanto brincava.



1 de junho de 2026

EDGELORD - Cap. II - Arco da Montanha Morta

 A névoa tornava a Montanha Morta maior do que realmente era. Ou talvez menor. Difícil dizer. Ela é assombrosamente confusa, mesmo se a sua lenda fosse só estórias do passado.

A estrutura de pedra negra erguia-se além do pântano como um cadáver colossal semi-enterrado no mundo. Sem vegetação, pássaros ou qualquer sinal de vida acima das primeiras encostas. Só rocha escura, minas abandonadas e túneis que pareciam feridas abertas na montanha.

O vento soprava de dentro delas. Mesmo amanhecendo, dava para ver antigas vigas de sustentação despontando na encosta, restos de elevadores de minério enferrujados e trilhos interrompidos pelo tempo. Mais acima, sombras de muralhas de isolamento antigas.

Eu ajusto a espada nas costas.


— Bem-vindos à entrada da mina da Montanha Morta. A Montanha... morta.

Xitarro olha para mim.

— Você ensaia essas entradas?

— Às vezes elas simplesmente vêm. - eu me justifico.

— [Infelizmente.] — Gladys comenta.

O som dos nossos passos ecoa na pedra úmida enquanto avançamos pela garganta estreita da entrada principal. Por um instante, olho para as paredes escuras. Aqui foi a origem de quase todo o Ferro Frio do reino, extraído à exaustão como se exumasse um cadáver colossal de seus ossos.

O minério que transformou Lord Blunt de conquistador em ameaça inevitável. Hoje, eu carregava aquilo nos ombros. Na armadura. Na espada.


No sangue da minha família.


— Gladys, você teve doze portadores antes do meu pai... E diz que é feita de Ferro Frio. Mas acho que ninguém minerava aqui a tanto tempo assim.

— [Ferro Frio existia antes desta montanha virar um túmulo. Outros pereceram na Guerra... A Montanha era só a ... Maior.]

— Isso foi uma decepção ha alguns anos. — Amellie suspira, vendo que ponto eu levantei. — Depois de toda aquela crise para libertar Pyrros no Tempo do Fogo Frio, descobrir que os ossos do titã que o Monsenhor matou eram só titânio sem valor foi um golpe duro para a Igreja da Perseverança.

— O ponto é: — Eu comento. — montanhas ambulantes eram comum antigamente. Hoje em dia o mundo está... menos dramático.

— [Discordo.] — Gladys responde. - [Os Adversários quem estão mais ordinários!]

"Adversários". Eu paro, lembrando algo que eu pensei ao longo da noite. Então estalo os dedos.

— Certo. Isso me lembra: Precisamos de um sistema de rivais.

Amellie fecha os olhos devagar.

— Ah não. "Anti-heróis" e vilõezinhos episódicos usam o Sistema de Rivais!

— O que é “sistema de rivais”? — Xitarro pergunta.

— Simples. — aponto para nós três. — Nós temos três antagonistas principais. Se formos alcançados, cada um se encarrega de deter alguém.

— Ou... — Amellie ergue um dedo. — Nós três espancamos um alvo de cada vez. Conceito revolucionário: Ser eficiente!

— Não, porque eles provavelmente vão tentar nos dividir. — explico. — Então é melhor já pensar nisso antes. Eles fizeram isso em Hálcora, se lembra?

Amellie cruza os braços censurando. Infelizmente, isso só me incentiva.

— Amellie. Você fica com minha mãe.

— Ah claro. A barda contra a arqueira lendária. - ela tem um engasgo de ironia. - "Suporte contra puro DPS". Você pensou muito nisso, né, Bentho? É porque "as garotas devem brigar entre elas"? 

— Na verdade: Você tem vantagem psicológica.

Ela pisca.

A expressão muda um pouco.

— Como assim?

— Você é “A” Amellie, a professora. — dou de ombros. — Mesmo depois que você saiu do Castelo Negro, minha mãe falava de você como alguém importante. Tipo... alguém que ela admirava e decepcionou sem saber por que você foi embora. Viu lá em Hálcora, ela hesitou quando você apareceu. Você é mestra de achar aberturas: Explore isso.

Amellie fica estranhamente quieta. Culpada? talvez. Oops. Talvez não devesse ter cutucado alguma ferida.

Continuo rápido demais para ela não responder.

— Xitarro, você pega Khao.

— O QUÊ?! EU?!? -Ele parecia intimidado.

— Você tem a vantagem da velocidade.

— ELE É DO TAMANHO DE UMA CASA!

— Sim, mas os golpes dele são previsíveis.

— Você literalmente descreveu ele ontem demolindo uma taverna porque estava de mau humor!

— Isso foi contexto diferente. Ele vai estar mais focado se estiver lutando com você!

— COMO ISSO AJUDA?!

Amellie dá uma risada cansada.

Xitarro aponta para mim acusatoriamente.

— Então me deixa pega o “tiozinho da mãozinha”!

— ... O quê?

Xitarro faz uma expressão séria.

Estica o braço.

Imita uma mão espalmada lentamente indo para frente.

A mesma pose que ele viu em Hálcora.

Silêncio.

— Você tá falando do meu pai? — pergunto.

— Sim! O homem assustador da mãozinha! Eu pego ele, você pega o gigante!

— Xitarro, aquele era Lord Blunt. — Amellie fala imediatamente. — Isso não é um “rival”. Isso é desastre natural ambulante.

— Lord Blunt é responsabilidade minha — falo enfim. — Eu consigo.

Os dois olham para mim.

Até Gladys fica quieta ... por pelo menos um segundo.

— [Não consegue.] — ela comenta.

Ignoro.

— Eu tenho a armadura. Tenho a espada. Sou o décimo quarto portador agora.

Amellie me encara por alguns segundos.

Não com deboche.

Com preocupação.

— Bentho... você quer mesmo enfrentar ele ou só quer impedir de enfrentar sua mãe?

A pergunta fica no ar.

Droga.

— Nenhum de nós está no nível de Estebán. — Eu falo enfim. —  Se fugir não for uma poção, temos de partir para cima... E eu me encarrego disso. Ele não hesitaria em trucidar vocês dois, mas eu sou o filho dele...  Não estou sendo suicida, se é o que estão pensando.

Amellie suspira pelo nariz. Então sorri de lado. Eu sei o que ela está pensando... que eu vou fazer "sacrifício" pelos amigos.

— “Sabe o que falam dos caras que não podem perder?” - Eu falo. Tentei imitar a voz dela.

Amellie reconhece a frase imediatamente. De Huo-Fen.

Nosso reencontro.

Ela sorri também.

— “Eventualmente eles perdem.” - ela completa.

— Exato. — respondo.

— Então tudo bem. Podemos ter seu “sistema de rivais” como plano B.

— Plano B? — Xitarro pergunta.

— Plano A continua sendo sobreviver juntos. — ela responde. - Khao apareceu, nós três vamos para cima.

— Isso parece razoável. — Xitarro sorri aliviado.

Então seguimos adiante.

Pela garganta escura da Montanha Morta.


— Capitão? — Arletta chamou pela terceira vez.

Khao despertou do transe.

No meio da trilha do pântano após o cais clandestino, sinais do acampamento ainda fumegavam em pequenos pontos onde fogueiras tinham sido apagadas às pressas. Pegadas afundavam na lama. Marcas de arrasto. Sangue podre escurecido entre raízes mortas.

Rhoy agachou-se próximo a um corpo parcialmente afundado no charco. Um zumbi sem mandíbula.

— Eles acamparam aqui... — comentou o anão, passando os dedos pela lama. — E enfrentaram alguns mortos-vivos durante a noite.

— Ainda bem... — Ornub suspirou aliviado. O tenente meio-orc apoiava um machado enorme no ombro. — Quando vimos aquele navio voador, achei que tinham ido parar em outro continente. Por que a Nova Guarda não tem um navio voador?

— Porque Achima e Balmon nunca chegaram a um consenso. — Vlana respondeu sem erguer os olhos do grimório preso à cintura. — Achima queria uma Jugernauta arcana de Yalatanil. Balmon insistia num vertodirigível movido a vapor e rotores. Os dois passaram cinco reuniões tentando provar que a ideia do outro explodiria primeiro.

— E qual delas explodiria primeiro? — Ornub perguntou.

Vlana espera um segundo e responde:

— Sim. 

Rhoy soltou uma risada curta.

Khao permaneceu em silêncio.

Ao longe, além da mata pantanosa, a Montanha Morta dominava o horizonte, mas a partir de lá, algo a suplantava. Despontava detrás dos picos negros mais altos.

As Montanhas Castanhas.

Mais altas.

Mais antigas.

Mais próximas do que ele gostaria.

Passado.

— Capitão? — Arletta tentou de novo.

Khao percebeu que apertava o próprio punho com tanta força que os dedos estalavam.

— Não foi nada. — cortou ele rapidamente. — Tempo, Rhoy?

O ranger analisou as pegadas mais uma vez.

— Partiram antes do amanhecer. Sem carga pesada. Ritmo rápido... já devem ter alcançado a entrada da mina.

— Ainda temos chance de interceptar a Loira e Blunt. — disse Khao imediatamente. — Marcha forçada agora. Sem pausas. 

Ele sequer esperou resposta. Simplesmente tomou a dianteira. O barro afundava sob seus passos pesados enquanto avançava pela trilha estreita como um animal tentando escapar das próprias memórias.

Os outros demoraram alguns segundos para acompanhá-lo.

Arletta diminuiu o ritmo até ficar ao lado do meio-orc.

— Ornub... — sussurrou ela. — Você conhece o capitão há mais tempo.

O meio-orc não respondeu de imediato.

— Eu sei o que vai perguntar. — Ele resmunga incomodado. Como se, em não constatando, não seria verdade.

— Então percebeu também?

Ornub lançou um olhar cauteloso para Khao, já vários metros adiante.

— Nunca vi aquilo nos olhos dele.

Arletta hesitou antes de dizer.

— Parecia... medo.

O meio-orc franziu a testa.

— Capitão Khao não tem medo de luta.

— Nem de Lord Blunt? O mais poderoso senhor da guerra de todos?

— Blunt? Jamais. — Ornub respondeu sem hesitar. — Khao espera essa revanche há dezessete anos.

A oficial observou o capitão abrir caminho mata adentro como uma locomotiva furiosa.

— Então o que é?

Ornub demorou um pouco para responder.

Quando falou, sua voz saiu mais baixa.

— As Montanhas Castanhas ficam além da Montanha Morta. — continuou ele. — É o "caminho para casa".

Arletta piscou.

— Casa?

— Antes da Nova Guarda. Antes de Shén-li. Antes de virar capitão... Khao veio de lá. Se ele confidenciou um inimigo ou algo que o assustasse mais que Lord Blunt, foi justamente a sua antiga melhor amiga... A capitã traidora.

O silêncio pesou entre eles. À frente, Khao não olhava para a mina. Olhava para além dela.

Para algum lugar enterrado vinte anos no passado.

Ornub então concluiu, quase para si mesmo:

— Blunt não assusta Khao. A morte não assusta Khao.

Seus olhos acompanharam o capitão.

— Ele teme algo pior que Lord Blunt. — conclui Arletta.

— Algo... Ou alguém. — o meio-orc completa.



— Eu só vou olhar para o teto. — declarou Xitarro. - Desculpa se eu tromar em vocês...

A entrada da Montanha Morta se abria diante de nós como a garganta de alguma criatura colossal. Pedra negra, úmida, veios de ferro frio aparecendo aqui e ali. Acima, a abóbada desaparecia na escuridão. Eu estava com armadura e elmo vestidos. Amellie ficava atrás de nós. Estava acendendo a lamparina para enxergarmos melhor.

— Isso é ridículo. — Amellie revirou os olhos. — Todo aventureiro olha para o teto quando procura armadilhas e monstros.

— Não. Nas histórias que eu ouvi, o grupo sempre acha que está atento. Aí o monstro estava no teto o tempo todo.

— Porque eram aventureiros incompetentes. - Amellie protesta.

— O nome dele era Gharo... Mas a gente chamava ele de "Gotcha" porque ele gostava de "surpreender" todo mundo... e era obcecado por nomes começados por "G".

— Então deveria chamar ele de "Garuthers" - ela resmunga. - Preste atenção onde você pisa e...

Eu a detenho.

— Tem alguma coisa no teto. - Afirmo sussurrando.

Os dois congelaram.

Eu não teria visto se não fosse Xitarro comentando dos "perigos do teto", e se não tivesse o Boom do Olho do Demônio. Ao deixar os olhos se ajustarem à escuridão, delinha-se um enorme casulo, mais como uma teia/ninho...

Lá em cima, entre grossas camadas de teia branca, pendiam formas escuras. Um aracnóptilo adulto permanecia imóvel, misturado às sombras. Vários menores espalhavam-se ao redor dele se arrastando para ficar em posição.

— Ah. — disse Amellie. — Xitarro, o "MVP" de Hálcora começa forte na Montanha Morta...

— Aquilo são morcegos ou aranhas? — Xitarro pergunta com a voz trêmula. - Não que importe... eu odeio os dois...

Observei as criaturas.

— São os dois. São mesmo aracnoptilos... - Eu comento. Eu sabia por alto que criaturas eram aquelas... o sonar e a sede de sangue de um morcego vampiro; teia e ferramentas de caça de uma aranha gigante. Material de pesadelos. — Plano?

— Simples. — Amellie já puxava o alaúde. — Padrão Hipnótico. Eles olham para as luzes, esquecem que sabem voar e caem.

— Isso funciona com monstros?

— Funciona surpreendentemente mais vezes do que deveria.

Xitarro sorriu, estalando os dedos.

— E aí eu recolho os pedaços.

— Eu recolho os que sobrarem. — concordei.

Amellie respirou fundo.

— Sabe qual é a parte triste? — resmunga a barda

— Qual?

— Eu tive um "Garruthers" também quando aprendia a contar histórias na Escola. Na próxima caverna eles provavelmente não estarão no teto.

— Como sabe?

— Porque o "meu" gotcha ficava frustrado quando a gente percebia as armadilhas antes e dobrava o trabalho para parecer "genial e surpreendente" nas seguintes.

Ela apontou para a escuridão adiante.

— Então começou a esconder os monstros debaixo da terra. Não importa o que fizéssemos, eles iam nos agarrar as canelas.

As cordas do alaúde vibraram. Luzes coloridas floresceram pela caverna. Os aracnóptilos imediatamente começaram a despencar, uma adulta e cerca de uma dezena de pequenos demônios voadores.

O resto foi apenas trabalho braçal. Era um encontro fácil. Pelo que aprendemos sobre a Montanha Morta, isso provavelmente significava que algo muito pior estava esperando mais adiante.