BLOGGER TEMPLATES AND MyYearBook Layouts »

27 de março de 2026

EDGELORD - Cap. VII - Arco da Ledgyão

 — Estebán… — Àquela diz, tensa. — Tem certeza?

O sentinela da Nova Ordem jaz desacordado entre os arbustos. Um ponto de controle. Huo-fen estava sendo selada… mas eles foram mais rápidos. Já estavam na estrada.

— Certeza de quê?

— Estão fechando a cidade. — Ela olha para trás, inquieta. — Se Bentho ainda estiver lá, vai precisar da gente. E se a gente tiver que voltar…

Ela não termina.

— A espada não está em Huo-fen — Estebán responde, seco. — Está ao sul.

Ele fecha os olhos por um instante, como se escutasse algo distante.

— Espero que não vão para a Montanha Morta. No entanto, há Hálcora no ínterim.

Àquela estreita o olhar.

— Qual o problema da Montanha Morta? - ela estranha. - “Lord Blunt” ainda tem algo lá?

Estebán pondera sua resposta.

— A mina foi abandonada quando o ferro frio acabou. Pelo menos… é a versão oficial. — Ele hesita. — Mas não... Não estaria vazia. 

— Claro que não está. — Àquela cruza os braços. — E isso nunca apareceu em seus registros, pré ou pós sua prisão. Por quê?

— Porque nem tudo eu registrava — ele responde, curto. — Algumas coisas… não eram pra existir. E eu não os confiaria nem mesmo a Shén-li. Pense bem… algo que Lord Blunt quer esconder. 

Um silêncio pesado se instala.

— Bentho está em poder da Espada, que sabe o que você sabe… — ela começa.

— E a espada não é idiota. — Estebán corta. — Ela não o levaria para a morte na montanha. Mas só vamos saber quando chegarmos.


Bem-vindos a Hálcora! Pérola Valíria! Um entreposto vital… e perigosamente ambíguo.

Pela Boca do Rio, Shén-li se conecta ao resto do mundo. Comércio, contrabando, promessas. Perto o suficiente do Coração do Mundo para ter alguma ordem — longe o bastante da Nova Guarda para ainda respirar.

Uma enseada moldada por um draconato vaidoso… e gente com coragem demais.

— Nossa! Que legal! - Xitarro comenta, animado.

Eu, contudo, salto para trás, assombrado.

Tinha esquecido que Xitarro estava comigo.

— Eu… sempre faço isso em voz alta nesses monólogos?

— [Toda vez. E eu achava hilário.] — Gladys responde.

— "É. Melhor do que conversar com uma espada psicopata."


— [Discordo.]


— Eu quero passar no Olho da Maré — continuo, incluindo meu novo capanga na conversa. — Taverna frequentada por grandes nomes, como Capitão Lizzo, o clã Espinhudo também frequenta…

— Espinhudo? — Xitarro franze o cenho.

— Pois é. Também não ajuda no marketing. - Respiro fundo.  — Depois a gente espera contato da Janete Quá. A Ledgyão deve estar toda reunida aqui. É um momento histórico!

— E eu vou poder capangar, né? - Xitarro parecia uma criança na perspectiva de pedir uma sobremesa.

Eu hesito.

Quando decidi por um selvagem na equipe, não conhecia Xitarro. Não é só maturidade o problema...

— [Se não, começaríamos por você] - Ah, Gladys...

Eu me exponho à violência. Isso é um fato. Mas ele?

Vale a pena arrastar o garoto pra isso?

—  [Corvos de Morval.]

Eu travo.

— …É. — suspiro. — Se os corvos cercassem a gente em Huo-Fen com Xitarro em…

— [Como agora?] - ela interjeita percebendo que eu estava distraído.

Droga. Vejo-me em um beco, que cortávamos para ir cidade adentro, mais povoado do que deveria.

— Olá, “Bentho Oeste”.

Eu nem o ouvi chegar. Morval Menor. Mesmo colete gasto. Mesma tatuagem absurda no rosto. Mesmo cabelo encaracolado ridículo. Mas sem as tonfas.

Agora ele segura uma besta de mão… que sibila. Pressão. Algum tipo de mecanismo.

Outro Corvo ao lado dele. Equipamento igual. Mais dois desses corvos surgindo pela Estrada da Muralha...

… de onde viria Amellie...

Uma telha cai. Tem mais um no telhado. Esse usa uma balestra de duas mãos... Aquilo, se pegar, doi!  Todos espalhados demais para eu apelar para "Escuridão" e "Olho Demoníaco" para cobrir uma fuga.

Olho por cima do ombro, de onde nós viemos. Um cara grande. Careca. Tatuado. Tonfas, ao menos. Ah. Esse eu lembro. Quebrei o braço dele na minha primeira noite. E ele voltou à briga ainda assim. "Vergalhão", "Bate-estaca", ou outro nome idiota ligado a construção civil.

— Ah, não me diga que vocês também vieram pro happy hour do Olho da Maré… - eu desconverso.

— Sabe… — Morval sorri, torto — seu amigo vigilante nos deu boas ideias. Tonfas não funcionam muito bem contra armaduras.

Ele mexe no mecanismo. Um suspiro pneumático. Pressão liberada. Arma pronta.

— Você sabe que dá pra conseguir o mesmo efeito com couro e elástico, né? - Não consigo me controlar... Preciso respeitar esse bando... Ao menos agora. A armadura está coberta de areia, então eu sou carne. Não posso cobrir Xitarro… E o que for rolar vai ser à distância. Meus raios místicos não dariam conta rápido o suficiente.

— O Lord Edgy salvou você e a sua namorada… — ele continua. — Então você sabe onde ele está? Ele foi visto vindo para cá!

— A gente só se esbarrou em Hálcora. — Dou um passo para trás, puxando Xitarro. — E, olha, erro meu. O catfolk aqui não tem nada a ver com isso.

— Exceto que eu sou "Pakanga" do Lord Edgy.

Meu sangue gela.

— Hahaha… — tento rir e despistar — ele viu esse nome em algum lugar, achou legal…

As bestas se movem.

Agora estão apontadas pra Xitarro.

— E… veja bem… eu sou "capanga" do Lord Blunt! — gesticulo como um lunático. queria parecer absurdo. - Posso falar qualquer coisa, não significa nada…

— Ah! É “capanga”! — Xitarro bate na testa. — Desculpa, Bentho, vou aprender.

— Sabe… — Morval inclina a cabeça — corvos não gostam de gatos.

Ele levanta a arma. Xitarro parecia ignorar o estrago que aquilo faria.

— Acho que vou estrear esta belezinha na minha mão no olho esquerdo dele. Grylla… se não funcionar, pega o direito.

— Espera! — eu dou um passo entre eles e meu amigo. — Me leva. O Edgy vem atrás de mim, cedo ou tarde. Deixa o garoto fora disso.

— Ei.

A voz vem de trás. O grandão.

— É o Hermitão de Hálcora?

— O quê?

— Minha família é daqui. — Ele ri. — Esse cara mora num banco de areia. Fica berrando sozinho para a praia. Todo mundo ignora. É o idiota local.

Risadas.

Aquilo dói mais do que devia. Mas se fizesse o Xitarro recuar…

— Sabe… — Xitarro se inclina por cima do meu ombro infantilmente. — minha mãe disse que não é legal ofender as pessoas.

— Xitarro, deixa comigo… - Eu tento apaziguar. Era muitos elementos. 

[Invoque-me.] - Gladys insiste. Era prático, mas só aumentava a confusão.

- "Dessa vez, eu vou". - respondo mentalmente. Estava perdendo o controle. Era como aquela noite, quando Ga-shi e seus capangas cercaram meu pai… Eu preciso protege-lo… Mas são muitos. O caos...

— Olho esquerdo — diz Morval.

Foi tudo muito rápido, simultâneo. Um dedo aperta o gatilho. Depois outro. Dois disparos. Gladys vem a minha mão, mas tarde demais.

O mundo prende o ar.

Quem foi atingido??


Dois virotes.

Parados.

Entre os dedos de Xitarro.

► Leia este trecho ao som de "Xitarro sendo Fodão"

— [Ele… pegou dois disparos à queima-roupa?!] — Gladys vibra na minha cabeça. — [como Faltões mergulhões de Shén-li.]

— Muda pra semiautomático! — berra Morval.

Tarde demais.

Xitarro já está nele. Cotovelo baixo no plexo solar, muito plástico. O impacto dobra o homem no meio.

Dois socos curtos imediatamente no outro — seco, rápido, preciso. - O cara ao lado do Morval apaga.

Bate-estacas vem correndo na extremidade oposta. Lento, temos tempo. Ouço seus passos pesados, mas não é urgente.

O do telhado, sim. Tinha posição de tiro livre. Espada Eterna dispara os Raios Místicos cadenciados, mas meu alvo estava muito alto, muito escuro. Erro, mas forço ele a recuar. Não vai atirar por enquanto. Deve bastar.

Os da entrada—

Xitarro não está mais aqui?!?

— …como—

Ele já está lá.

Um deles dispara. Xitarro pega outro virote no ar. E devolve, com mesma velocidade. Quebra a arma do atirador. Outro tiro volta como um relâmpago torto. Um último tiro displicente, Xitarro desvia com o antebraço, no vazio. Não acerta o catfolk, mas...

— [Sua coxa. Direita.] — diz Gladys. - [ Pegou em você.]

- “Eu sei.”

— [Tá doendo, né?]

Ignoro. Corro mancando um pouco. Preciso abrir espaço do "Bate-estaca". Preciso cobrir meu amigo.

Um dos bandidos vem na minha direção. Ele parece ter sido jogado longe, sem equilíbrio, enquanto Xitarro passava entre eles como um fantasma.

Eu corto. Uso meu Smite mais poderoso. Overkill, mas não podia mais dar chance. Eu já não estou olhando. Procuro um oponente e não vejo mais ninguém em pé. Xitarro?


O gato corre pela parede do beco.

Completamente vertical.

Passo.

Passo.

E então—

O pé vira no ar.

Noventa graus para cima.

Impacto. No queixo do sniper.

O besteiro cai do telhado como um saco de ossos.

Xitarro cai leve. Sem som. Um vulto felino com olhos de âmbar em chamas.

Eu paro. Eu só… paro.

Bate-estacas também cessa, amedrontado. Quase ao meu lado. Por um segundo, ninguém respira.

Eu ergo a espada. Encaro o bruto. Então, abaixo.

— Não é meu show. — Dou um passo de lado. — Vai, fera!

Xitarro avança. Sem pressa. Olhos fixos na presa. O bruto engole seco.

Larga a tonfa. Mas isso não detém o Catfolk.

Bate-estaca procura algo em seus pertences. Um frasco. Bebe.

A pele dele muda.

Escurece.

Endurece.

Textura de madeira.

— Pele de madeira! Imunidade a contusões! — ele rosna. Golpeia a própria cabeça demonstrativamente. — Tenta agora, aberração! Manda seus chutinhos! Por que acha que a gente usa Tonfas?

Xitarro observa.

Inclina a cabeça.

— Tudo bem.

Estica os dedos. As garras felinas, longas e negras, surgem. E duvido que ele seja menos proficiente com suas armas naturais.

Eu desvio o olhar. Isso… Não vai ser bonito.


Morval menor recuperou o fôlego em algum momento da luta. Esgueirando-se pelas laterais das ruas de Hálcora com o cuidado instintivo de quem já sobreviveu mais vezes do que deveria.

Quando finalmente se julga longe o bastante, encostado entre barris empilhados no topo de uma ladeira que desce em direção à enseada, ele puxa o pequeno rádio — um daqueles modelos de Balmon, robustos, feios e confiáveis — e o leva à boca ainda trêmula.

— Ryan… na escuta?

O chiado vem primeiro.

Longo demais. Irregular.

…na escuta.

Morval franze o cenho, ainda tentando estabilizar a respiração. Reconhece quem falava, apesar da distorção.

— Cyrus? Cadê o Ryan? — pergunta, mais seco do que gostaria. - E por que você está com o rádio?

A resposta demora um segundo além do natural.

Tivemos problemas na estrada do Muro… com a garota.

Ele engole seco, irritado, impaciente, mas cansado demais para discutir.

— Onde você tá?

Uma breve estática. Curta.

Chegando pela enseada.

Morval se apoia melhor nos barris, olhando ao redor, tentando localizar qualquer movimento.

— Tô no topo da ladeira. Na fábrica de barris, entre essa ruma de barris empilhados, não tem como ignorar. — Ele faz uma pausa. — E escuta… o tal Bentho não tá sozinho.

O silêncio do outro lado pesa mais do que deveria.

Não?

— Ele arrumou um… bicho. — Morval passa a língua pelos lábios secos. — Um maldito tigre. Rápido… rápido demais. Acho que só sobrou eu.

O chiado retorna, baixo.

Entendo…

Morval aperta o rádio com mais força, inquieto agora.

— E tem mais. — Ele olha por cima do ombro. — A espada. Ele tava com a espada do Edgy.

Desta vez, não há resposta imediata.

O silêncio se alonga.

…repete.

— Eu disse que ele tava com a espada do Edgy. — Morval hesita, então completa, num impulso: — Eu acho que ele é o Lord Edgy.

A resposta vem, enfim — neutra demais.

Informação relevante.

Aquilo o irrita de vez.

— Tá, já entendi! — rosna, saindo parcialmente do abrigo. — Mas que inferno, onde vocês—

Ele não termina.

O aço entra pela garganta com uma precisão tão limpa que, por um instante, ele nem entende o que aconteceu; só quando o ar falha e o som morre antes de nascer é que a realidade o alcança, tarde demais para qualquer reação. O rádio escapa de seus dedos, batendo contra o chão com um estalo seco.

Atrás dele, a voz continua — a mesma voz que vinha do rádio, agora sem chiado, sem distância, perfeitamente nítida.

— Na escuta.

Amellie sustenta o florete por um breve momento, sentindo o peso do corpo já cedendo, e então o retira com um giro controlado, evitando respingos desnecessários. Morval desaba sem resistência, como se todos os fios que o mantinham de pé tivessem sido cortados ao mesmo tempo.



Xitarro se vira para mim, ainda com a respiração levemente acelerada, como se o corpo tivesse terminado a luta antes da cabeça, e me encara com uma seriedade quase desconcertante.

— Eu fiz direito?

A pergunta me atinge com mais força do que qualquer virote daquela emboscada. Não pela dúvida em si, mas pela simplicidade com que ela vem — crua, direta, sem defesa.

Eu olho para ele. Para as mãos que, minutos atrás, estavam segurando projéteis no ar como se estourassem bolinhas de sabão.

— Xitarro… — começo, ainda processando — você é… fodão.

Ele baixa o olhar quase imediatamente.

— Me desculpe…

— Não, não, não — corrijo, rápido demais, inclinando-me um pouco à frente da mesa.

O contraste com o ambiente ao redor chega a ser absurdo. O calor, o cheiro de comida, o burburinho constante da Olho da Maré envolvendo a gente como se nada tivesse acontecido. Um ínfero de pele rosada — o mesmo que, pelo jeito, atende metade da cidade — deposita um copo de leite dentro de uma tigela diante do Xitarro, com a naturalidade de quem já viu coisa pior.

Eu apoio o cotovelo na mesa, ainda olhando para ele.

— Você aprendeu isso… sozinho? Numa ilha?

Xitarro pensa por um instante, como se estivesse revisando a própria memória.

— Acho que sim.

Eu estreito os olhos, tentando encaixar aquilo em alguma lógica minimamente aceitável.

— Um fantasma de monge de Hatamon apareceu nos seus sonhos pra te treinar ou alguma coisa assim?

Ele arregala os olhos, visivelmente preocupado.

— Eu espero que não…

Eu deixo escapar um riso curto, balançando a cabeça.

— Ótimo. Melhor ainda. — Dou mais um gole na bebida antes de continuar. — Porque, meu caro capanga do Lorde Edgy… você é um natural.

Dessa vez ele sorri, pequeno, mas genuíno, como se aquilo resolvesse alguma dúvida que ele nem sabia formular direito.

— Mas — acrescento, apontando com o copo — ainda vai limpar a areia da armadura. Disciplina como a de escudeiros!

— Certo! — ele responde, animado de novo, como se fosse a parte mais importante da conversa. — E eu vou poder dormir num chão sem areia hoje?

Eu me recosto na cadeira, deixando o corpo finalmente relaxar, ainda que só um pouco.

— Acho que a gente consegue coisa melhor que isso… Talvez até uma cama.

Faço uma pausa, girando o líquido no copo, já calculando mentalmente o estrago que aquilo ia causar nas minhas provisões.

— Não muito fofa — acrescento. — Vou ter que controlar as moedas que ganhei em Huo-fen.

Xitarro já está concentrado na tigela, completamente em paz com o mundo.

Eu observo por um instante.

E, pela primeira vez desde a estrada, deixo o ombro cair.

Mas só um pouco.

21 de março de 2026

EDGELORD - Cap. VI - Arco da Ledgyão

 Bem-vindo a Hál… Co... Não, não cheguei ainda.


Curiosidade inesperada: A cidade de Hálcora foi fundada por **Valerius, o Vaidoso**, o Dragonato, que foi o 10º usuário da linhagem da espada Gládius Aeternum.

Ela é o entreposto fora das Muralhas do Anel externo. Alguns acham até que ela nem pertence a Shén-li... Ou ao menos dizem isso para justificar não pagarem impostos.

A Nova Guarda interfere quase nada nessas terras. Fica no extremo oposto ao Castelo Negro, e por isso, acaba sendo um porto constantemente visitado por...

- Piratas?!? - exclamo. Eu estava na indumentária de Lord Edgy, seguia pela estrada da Boca do rio para o sul, para Hálcora, onde encontraria Amellie. Como estava indo na mesma direção, fui me inteirar com outro viajante, agora a meu lado.

- Sim, muitos. - o nome dele era Dalton. É um mascate, pele alva e orelhas pontudas, não era elfo, mas não deve ser 100% humano. Mas não quis comentar na hora. - Já ouviu falar de Capitão Lizzo? é frequentador assíduo de lá!

- “Lizzo o Esguio”? - eu comento conhecia as histórias. - O imediato que traiu Barba-suja, que foi o capitão de Dragão do Trio Quimera! Uma lenda!

- O Puto que saqueia os oceanos de Shén-li a Yoriki... - Ele me ajuda a subir em um desnível. - ... mas nunca tem um tostão sobrando. Daí o nome "lizo".

- Como será ele gasta tanto saque? - pergunto.

- É um mistério... - ele comenta. - Mulheres? Jogos? Patrono profano? Não pode ser bebidas, senão teria morrido na primeira semana. Alguns falam de uma maldição. Outros...

Ele faz um olhar sereno e pesaroso.

- Caruthers.

- Caruthers. - Resmungo junto. Escarro e cuspo no chão, como tradição.

Caruthers o Orangotango vermelho, o Deus da Mesquinharia. É uma entidade cruel e obcecada em fazer o mal... Não importa o nível: Desde criar em segredo o Império e por onze anos aterrorizar as Zonas Selvagens, até a impedir um jogador aleatório de ganhar uma provinha de feira de cidade do interior. Quando alguém tem um momento de azar absurdo, e resmunga "Caruthers", todos resmungam de volta, e escarra. Em solidariedade, e como mantra para afastá-lo.


- Desde que ele matou Barbasuja, ele oculta seu rosto, e usa uma bandana no rosto. Só se vê os olhos... E dizem que o Olho Esquerdo dele ... é o Olho da Morte! - Ele faz uma pausa enfática.

- Senhor... Dalton, certo? - Eu começo. - Eu me chamo Lord Edgy, e devo dizer que eu ... Não quero ser herói em sua cidade.

- Com armadura negra e de chifres? Quem acharia que você é um herói? - Dalton parece pasmo.

- Você se surpreenderia... - resmungo, lembrando de minha temporada em Huo-fen. - Bem, além do saques, como é a equipe de Capitão Lizzo?

- A tripulação? - ele coça o queixo. - Bem, ele tem acho que dois tripulantes de destaque... Se não me engano... Um é uma moça muito bonita e inteligente, o cérebro da operação.

- Como "Janete Quá" - eu rio comentando para mim mesmo. - Temos muito em comum... Lizzo e eu. Ocultamos o rosto, delegamos... E seria um bom exemplo de vilão bem-sucedido. Não teria como confundi-lo com boa pessoa. Não haveria nada errado em comparar algumas idéias dele.

- Acho que ele tem um último tripulante... A Fera.

— “A Fera”… — repito, provando o peso do nome. — Parece… sinistro.

— É mais que isso — diz ele. — Uma criatura meio homem, meio animal. Caos puro em movimento. Velocidade, garras… Quando alguém não obedece às ordens de Lizzo, ele solta a Fera. Tipo, Lizo matou um capitão lendário, mas a Fera faz coisas que o Capitão das Mãos Vazias não ousaria!

- [Lord Blunt era um senhor frio de controle.] - Gladys interfere seca, quase didática. -[Mas gente errática… só responde ao caos. Ele sempre mantinha alguém como Ga-shi para cumprir esse papel. Para ser “a Fera”.]

- Sim, excelente sugestão... - eu pondero. O mascate pensou que era com ele.

- [Contudo, Lembra-te que Ga-shi tentou roubar Blunt e te matar, certo?]

- Eu acho que a minha Ledgyão precisa de... Um "fera"... - Eu penso em voz alta.

- Bem... - Dalton pondera um segundo. - A gente vai passar pelo Ermitão de Hálcora... Acho que bate como "fera"! Se você o levar embora...

Eu paro no meio do passo. Havia um Fera em Hálcora?


Quanto tempo faz?

Não sei.

A mente corre.

Eles estão chegando. Paciência.

Reduza o universo.

Parado.

Quieto.

Vazio.

Um passarinho pousa na minha mão. Entre meus dedos, com minhas garras recolhidas.

Ele não sabe.

Sou galho. Sou nada.

Guarde a tempestade.

Ainda não.

Posso pegar. É fácil.

Mas não é o que eu quero agora.

Espero.

A cabeça coça. Não pensa. Não pensa.

... ah...

Ele vem. Rápido.

Melhor.

Tenho fome.

De carne.




Estava a menos de duas milhas da entrada de Hálcora. Paramos na praia. Ao longe, duzentos metros, posso ver uma ilha. Duas palmeiras, uma moita... Forço a visão... há algo lá... Pode ser uma barraca... pode ser um mendigo... pode ser "a fera".

- Ih... Água... - a experiência de afogar na fuga do Castelo negro me ocorre. - Tem como conseguirmos um barco?

- Não precisa. - Dalton ri.

- Não quero nadar de armadura até aquela ilha.

- Aquilo não é uma ilha. É a ponta de um enorme banco de areia - Dalton explica. - Na maré alta, a água não passa do joelho. Agora Dá para ir caminhando... O Ermitão lá escolheu ficar lá uns ... três ou cinco anos acho, sem contato com ninguém. Bebe água da chuva, come peixes e pássaros.

- Você viria comigo? - pergunto.

- Perdão, Senhor Edgy... - o Mascate passa a mão na testa. - Eu é que não chego perto do eremita. Todos em Hálcora o evitam.

- Entendo... - falo enfim. - Grato, senhor Dalton.

"Deve ser um ser perigoso", eu penso.

"É um chato de galocha", pensa Dalton.


Acho que a armadura mágica deve ser resistente à ferrugem, mas ainda assim me programo para limpar a salmora quando chegar em Hálcora. As águas são barrentas e escuras, mas o piso é firme. Areia dura por baixo.

O Ermitão de Hálcora está de costas para mim. Usa um traje maltrapilho, uma paródia de capuz. Vejo que todas as palmeiras são cortadas, da base às folhas. A Moita possui múltiplos cocos entreabertos.

- [Invoque-me...] - Gladys sugere.

- Se preciso. - retruco.

A criatura balança a cabeça levemente. Estava longe, mas ele parecia ter ouvido, ou percebido algo que não registrou. Decido limitar meus planos ao pensamento. Estava bem longe...

Mas me aproximando.

O cheiro dele era ocre. Mas sua posição era estável. Eu tentei fazer alguns exercícios monásticos com o capitão Khao - Sim, ele foi monge mais jovem, difícil imaginar ele sendo "zen" - e ele estava tão parado, que via quando um passarinho saltitava ao seu redor.

A primeira parte do corpo dele que vejo é a ponta das patas... Sim, patas. Dedos felpudos, e flagrei longas unhas negras despontando... Ele cercava o passarinho...

Eu ouço um chiado dos céus.

Só vejo um borrão. Um predador deu um rasante, e tomou o pássaro das mãos da Fera.

E a Fera reagiu. Um de seus braços girou no ar como um chicote, e suas garras outrora vazias, agora fincava uma ave de porte médio-a-grande sem vida.

- "Isso é um Falcão Mergulhão de Shén-li!" - eu penso, comentando com Gladys. - "Sua velocidade máxima em mergulho é 340 km/h. 100 M/S. E ele pegou sem piscar!"

- [De onde tirou esses números?] - Critica Gladys. - [Eles... Bem, honestamente, parecem certos].

- "Há um almanaque de COISAS VELOZES que os cadetes usam para comparar às flechas de minha mãe." - Comento, mas ficando preocupado. Ele era rápido, e cruel aparentemente. - "Vamos... manter distância dessa fera".

A ideia de “ter uma Fera” parecia grandiosa.

Assistir uma… não.

O focinho mergulha na carcaça. Presas rasgam. Vísceras. Frio. Ele devorava a ave.

Isso não é símbolo.  É realidade. E eu… não sabia lidar com isso.

Forte Jian era controle.  Multidões que eu ajudava como cadete, ainda humanas.

 Até os ratos de Huo-fen e os Corvos de Morval pulando para sua própria destruição contra mim pareciam civilizados perto disso.

Mas aqui? Era um primitivo.

E, ainda assim—

Isso levaria terror aos meus inimigos.

Eu preciso "disso".

— Oi…

A palavra escapa de minha boca antes do plano. Não ia adiantar ser eloquente. Mas eu deveria ter pensado melhor.

Por um instante, juro que ele desaparece. 

Some. sem traços

Gladys salta para minha mão.

Giro. Estaria em minhas costas? Nada. A ilha inteira tem menos de cinco metros quadrados, onde ele…

— [Na palmeira!] - Gladys alerta.


Rolo para trás.

Olho para cima a tempo de ver.

Ele escala como um animal, ignorando peso, gravidade, lógica. As garras cravam, rasgam, descem — controlando a queda em saltos curtos.

Os olhos.

Âmbar em chamas sob o capuz. Fixos em mim.

Uma voz enferrujada, como se não fosse usada há anos:

— Você… é um náufrago também?

— N-náufrago? — engulo seco. — Não, eu…

— Onde está seu barco?

A cabeça dele gira, desalinhada e inumana, enquanto desce.

Vejo por fim a cauda. Longa demais. Flexível demais.

— Eu não vim de barco! — aponto a espada. Outro se intimidaria, ele ignorava. Meus olhos eram o que ele mirava. — Eu caminhei até aqui!

Ele para. Inclina a cabeça. Parecia rir um pouco.

— O homem de metal… que caminha na água…

A voz muda. Curiosidade. Era insanidade? Ou era quase infantil.

— Você poderia… se quisesse… caminhar de volta?

Desafio? Loucura?

— Posso. — respondo, firme. Precisava me impor. — E vou!


Ele toca o chão.

De quatro.

Então se ergue.

Alto. Mais alto que eu. Longo. Desproporcional.

E…

Submisso.

As mãos se fecham. O capuz cai.

— O senhor… poderia me levar com você?

Aquilo me desarmou.



Era um Catfolk. uma raça animalesca, muito arisco, originário de uma ilha própria e cheio de mistérios. um Guepardo, pelo que me parece. Seria uma forma de me fazer baixar a guarda?

- Por que você não… - Eu estava perdendo minha “voz de Edgy”. Só aponto para a costa… Dá para ver Dalton ainda andando apressado na direção de Hálcora.

- Eu não sei nadar, senhor. - ele explica.

- Eh, eu tenho dificuldades também, mas é raso.

- Raso? - ele olha para mim como se eu estivesse usando palavras alienígenas.

- Você … Poderia ter simplesmente … - Eu olho ao redor. Carcaças de animais. Restos de barris antigos roidos. As palmeiras arranhadas de cima a baixo. -  Há quanto tempo você este aqui?

- Para cada dia… - ele aponta a palmeira maior, com o tronco cortado por linhas verticais curtas e irregulares. - eu faço um corte. 

- [Eu conto 1.521 cortes, mas pode ter perdido pedaços.] - Gladys analisa rapidamente. - [Por volta de quatro anos e dois meses… bem mais que três minutos]

- Você está dizendo que… - Algo estava errado. - Sua idade, ermitão?

- Quando cheguei ia fazer dez.

Meu deus… Quatorze anos… Ele tinha quase dois metros de altura mas…

- [Catfolks amadurecem mais rápido que humanos.] - Informa Gladys. - [Ele é formalmente mais velho que você!]

- Isso é uma pegadinha? - retruco. Algo era bom... ou ruim demais para ser verdade naquela história. Caruthers?

- Pe-ga… - ele hesita em responder.

- Você, fera… - decido impor minha maturidade. - Onde foi o ...

- Xitarro.

- Hã?

- Meu nome é Xitarro. Não “Fera”. A não ser que queira que meu nome seja “Fera”. Parece um nome legal…

- F-fiquemos com “Xitarro” por hora. - eu baixo a espada. - Você disse que é um náufrago? Náufrago de quê?

- Atrás da moita. - ele aponta para o leste da ilha

A “moita” não é uma moita.

É um abrigo improvisado — galhos, folhas, restos. Bem volumoso, era quase ¾ da ilha.

Dou a volta.

E vejo.

Não é destroço.

É um navio.

A uns cinquenta metros da faixa de areia — casco ainda firme, largo, um único deque. O mastro, partido. Tudo saqueado, limpo… mas estruturalmente intacto.

Não afundou.

Não quebrou.

Contudo, o banco era mais fundo alí, e tinha alguma correnteza. precisaria nadar, e a lembrança da fuga do Castelo Negro me retorna.

- Ouça Fera. Eu sou Lord Edgy, e você não está tentando me passar a perna, está?

- Pegar uma carona é “passar a perna”? - ele pergunta.

 Se a ingenuidade dele for mesmo um ato, ele poderia ensinar ópera a Amellie 

- Não.

-  Então, não. O senhor vai “Pernar a Passa” em mim? - ele pergunta. O que responder a isso?

- Eu estou aqui para torna-lo um capanga. E...

- Tudo bem

- Você… Não sabe o que é Capanga, sabe?

- É alguma coisa má? - ele deduz. Era pouco vívido, mas mais esperto. Algo em minha voz deixou claro que era um acordo de consequências.

- Bem, SIM! - eu urro. - Você vai estar a meu julgo, vai fazer minhas ordens. Vai levar terror a meus inimigos! Então pode se dizer que sim. Será algo que você carregará na consciência como ... "mau".

- Mas … você me levaria daqui, não é? - ele fala. - Então, pode ser.

- [Por Pyrro e Enya, vamos embora!] - rosna Gladys. - [Deve ter orfanatos em Hálcora, ou abrigos, ou pet shops!].

Algo estava estranho naquela história. O povo evitava o Ermitão, e ele apanhou um falcão, e saltou três metros. Ao menos fisicamente, ele era uma fera. 

O “Filho de Arquivista” em mim olha para o navio. Manifestos. Cartas. Registros. História.

Mas nadar até o barco de armadura seria complicado.

- Passo para trás, Xitarro. É uma ordem. - não ia baixar a guarda tão cedo.

A criatura recolheu-se atrás da Palmeira

- Vigília Sombria, modo Sentinela. - eu falo. A Armadura se abre no peito, e eu deslizo para fora. Só agora sentia o sol forte sobre a pele. A “fera” se encolhe assombrado. - Faça companhia ao jovem.

A cara esquelética de Virgílio gira para o catfolk.

- [Acha mesmo que “faça companhia” é um comando compreensível?] - Gladys me provoca.

- Só quero que ele ache que tem alguém de olho. - falo enfim. - Xitarro, eu já volto.

Mergulho nas ondas.

A maior parte do caminho depois disso, a água na cintura. Não muito difícil.

 Mais adiante, afunda de novo. A corrente puxa.

 Encontro apoio num trecho coberto de mexilhões. Subo.

O convés está vazio.

 Botes: levados.

 Cordas: cortadas.

 Marcas de garras.

Não foi uma fuga apressada. Foi abandono calculado.

A cabine… vazia.

 Cartas náuticas — inúteis para mim. Nenhum documento formal.

A cabine do capitão… também limpa.

 Exceto a cama.

Embaixo do colchão, um diário.

— Data de… quase cinco anos atraz. — comento com Gladys, que apoio na batente. — Uma família catfolk embarcou em Hálcora… pai, mãe e uma criança catfolk.

O capitão escreve que era a primeira jornada de cabotagem de Dol’oam a Shén-dao. Os “gatos” viajariam dali para Yalatanil, o reino élfico.

E então… “o terror”.

"A criança infernal. Corria por todo o barco. Desamarrava todas as cordas. Falava sem parar. Nem os pais conseguiam controlá-la. Ela era incapaz de ficar sentada por mais de cinco segundos…"

— [Chaaato…] — comenta Gladys. — [Pule para a parte em que ele está preparando uma emboscada para comer as SUAS tripas.]

— Gladys, o Mestre Achima ensinou sobre crianças assim. — digo, preocupado. — Mandou não diagnosticar, mas… Elas precisam de cuidados especiais. E não acho que esse capitão esteja dando o devido…

A página seguinte está coberta de tinta, ilegível. Marcas de patas felinas  pequenas.

 Quase todas as informações posteriores foram perdidas — restam apenas as últimas duas.

“Malditas cartas vagabundas! Bati num banco de areia! A tempestade me fez encalhar, e vai ser tão caro desatolar que vale mais a pena comprar um novo barco.”

“E adivinha… a maldita criança-gato estava no topo do mastro! A gente gritava, e ela não descia! Quando bateu, foi ‘estilingada’ para o mar. Está escuro. Não podemos ver nada. Não me sinto bem dizendo isso, mas… já vai tarde!”

— [Bem, isso valida a história dele…]

— Por Aetíades sagrado… — engulo seco. — Não acabou, Gladys… isso é…

“Novidades. Enquanto evacuamos, um dos práticos avistou o moleque. Ele caiu numa ilha — ou banco de areia seco, não sei dizer.”

Eu leio saltando frases.

“Depois de algum tempo, ainda conseguíamos ouvir os miados frenéticos dele.”

“Alertamos os pais. Eles pegaram um escalé e foram embora.”

“Eles não nos ouviram. Ou, mais provavelmente… ouviram. E ignoraram.”

“Não tinha como não terme ouvido. Nós ou ele…”

Não consigo ler mais.

Sento na cama fétida.

O diário pesa nas mãos.

— [Isso é maquiavélico.] — diz Gladys, fria. — [Uma criança problema. Abandonada deliberadamente.]

— Eu sei…

Engulo o nó na garganta.

— [Use isso.]

Fecho os olhos. Sei o que a Espada dos Treze Tiranos vai sugerir.

— [Mostre a ele o mundo como ele é.]

 — [Mostre que foi rejeitado.]

 — [Que foi descartado.]

A voz dela afia.

— [E ele será seu.]

Abro os olhos.


Volto para a ilha.

Virgílio está enterrado até o pescoço na areia. Não vou poder vestir até tirar toda a terra.

 Xitarro está na “moita”. Ao me ver, encolhe-se — sabe que fez algo errado.

Estou bravo.

Mas não consigo me irritar.

— Xitarro… seu pai é Tan’pro, e sua mãe é Leona? — Pergunto. Esse nomes, encontrei isso no diário do capitão.

— Sim! — ele responde, animado. — Você os conhece?

— Não. - Eu escondo discretamente o diário na mochila. - Ainda não.

— Eles sempre diziam que eu estava com pressa para tudo! Para comer! Para beber! Então… — ele hesita — eles estavam vindo. Eu só não era… paciente.

— Paciente? — pergunto.

— Eu esperei algumas horas. Aí o sol saiu… e eles não chegaram, e o sol foi embora. — Ele fala com naturalidade. Aceitação. Eu… não.

— Então eu sentei. - ele continua, postando-se em posição de lótus e fechando os olhos, demonstrando para mim como foi obediente. - Me acalmei. Me comportei como eles pediam. E… o tempo passou melhor.

— Xitarro… — respiro fundo. — Eu tive um… “Professor” com problemas de temperamento chamado Khao. Hoje, ele é um grande homem porque aprendeu a controlar os impulsos com mestres quando era pouco mais velho do que eu.

Faço uma pausa.

— Você… aprendeu isso sozinho? Espontaneamente nesta ilha enquanto esperava alguém vir buscar você?

— Sim.

Olho ao redor.

A ilha.

Aquela piada cruel do destino. Tantos que sabiam que ele estava aqui e deixaram para lá. Mas era um lugar de paz. Onde ele precisou aprender a sobreviver dos elementos. Conhecer o próprio corpo. Como os primeiros monges das Montanhas Castanhas em ambientes ermos e cruéis.

— E-eu ainda vou ser seu capanga… Certo? - Ele pergunta. Eu deveria estar deixando algum sentimento vasar. Ele temia que eu tivesse mudado de idéia e o deixasse na ilha.

— Capanga… É… — inspiro fundo. — Quando estou na armadura, eu sou Lorde Edgy. Você é capanga dele. - Eu pauso. — E o que combinamos… continua valendo.

Ele assente.

— Mas, sem a armadura… — continuo — eu sou Bentho.

Olho direto para ele.

— É importante que você entenda: somos pessoas diferentes, Bentho e Edgy. É como eu opero, certo?

— E eu sou seu capanga também, Bentho?

— Não. — respondo, firme. — Eu vou ser seu… amigo.








15 de março de 2026

[Monstro da Semana]O "Humano Normal"

Humano Normal

Origem: Parte da Dungeon do Mestre Irritadinho


 Humano Normal
Humanoide médio (definitivamente humano), desalinhado

Classe de Armadura: 8
Pontos de Vida: 45
Deslocamento: 6 m


FOR 14
DES 6
CON 16
INT 2
SAB 6
CAR 3



Resistências a Dano: cortante, perfurante
Imunidades a Dano: ácido
Imunidades a Condição: caído (humanos normais são muito estáveis)
Sentidos: percepção às cegas 9 m, percepção passiva 8
Idiomas: nenhum (humanos normais às vezes preferem silêncio)
Nível de Desafio: questionável


Traços

Anatomia Completamente Normal
O corpo do Humano Normal se comporta de maneiras inteiramente ordinárias, como dissolver armas que o atingem. Armas não-mágicas sofrem 1d4 de dano ácido e correm o risco de serem destruidas

Baba Ácida
O Humano Normal escorre ácido constantemente. Criaturas que o tocam sofrem dano ácido menor (1d6).


Ações

Ataque Normal de Tentáculo Ácido
Ataque corpo a corpo.
O Humano Normal golpeia com um perfeitamente normal pseudópode coberto de ácido com +4 para atingir.
Dano: 7 (1d8+2) de concussão + 4 (1d8) de ácido.

Abraço Envolvente Normal (recarga: 5/6)
O Humano Normal tenta um abraço muito normal, envolvendo o alvo em limo ácido.

Ataque corpo a corpo: +4 para atingir.

Se acertar, o alvo sofre 10 (2d6+3) de dano ácido e fica agarrado (CD 12). Enquanto estiver agarrado:

  • sofre 7 (2d6) de dano ácido no início de cada turno

  • fica contido

  • começa a se questionar que talvez isso não seja um humano normal

“Metagame Detection” — o Humano Normal ganha vantagem em ataques contra jogadores que disserem “isso é claramente um ooze”. 🧪

Após derrotar o Humano Normal, resta apenas uma poça de gosma.
O texto da dungeon observa:

"O humano normal infelizmente derreteu."



13 de março de 2026

[Edgelord] O Capitão e a Relíquia

 Abaixo, apresento um relato detalhado unindo a trajetória desses dois personagens improváveis que agora cruzam os mares no navio de nome incerto, o "Deixa em Branco".

O Capitão e a Relíquia: O Relato de Lizzo e LE-0

No vasto horizonte dos mares de outrora, poucos nomes evocam tanta contradição quanto Lizzo Filler. E poucas máquinas causam tanto calafrio quanto o droid que o protege, a unidade LE-0.

Lizzo: O Pirata de Mãos Vazias


Lizzo não nasceu na pirataria, ele foi forjado nela. Órfão do distrito de Huo-fen, foi acolhido pelo lendário Clã Filler, piratas conhecidos tanto pela audácia quanto pela crônica incapacidade de batizar seus navios de forma definitiva. Assim, ganhou o mundo como Jack Filler.

Como imediato do Capitão anão Barbasuja, Lizzo tornou-se um swashbuckler extraordinário. Ele elevou o saque à categoria de arte: em vez de canhões, usava o carisma; em vez de sangue, usava o diálogo. Sua meta sempre foi o saque sem vítimas, o lucro sem o luto. Contudo, seu destino foi manchado por Caruthers, o Deus da Mesquinharia. Através de uma maldição baseada nas próprias palavras de Lizzo, o deus o compelira a trair seu mentor, Barbasuja.


Embora tenha se libertado, a culpa tornou-se sua sombra. Hoje, carrega o apelido de "Lizzo", pois, apesar de saques bem-sucedidos, ele nunca tem uma moeda no bolso. A lenda diz que ele gasta tudo em vícios, mas a verdade brilha no orfanato de Huo-fen: cada centavo é enviado secretamente para as crianças da sua terra natal — o mesmo lugar que recebeu o infame porco de LordEdgy.

LE-0: O Pacificador de Bronze (Lawful Evil Zero)


Atrás de Lizzo, sempre se ouve o chiado rítmico de pistões e o escape de vapor. Este é LE-0, um droid de controle de multidões que remonta à era pré-guerra dos Dois Horizontes.

LE-0 é uma "arma viva" projetada para a eficiência absoluta. Com seis braços capazes de operar simultaneamente, ele é considerado o pistoleiro mais rápido dos mares. Sua programação original era limpar áreas infestadas por pragas ou insurgências numerosas, tornando-o o guarda-costas perfeito para varrer tombadilhos inimigos em segundos.

O Paradoxo do Droid:

 * A Natureza: Ele é Lawful Evil (Leal e Mau). Ele segue ordens à risca, mas sua lógica interna é desprovida de moralidade ou empatia.

 * O Hábito: LE-0 possui uma falha sistêmica (ou uma diretriz oculta): ele costuma trair seus mestres. Não por malícia, mas por uma obediência mecânica a "novas ordens" que parecem chegar de frequências desconhecidas.

 * A Penitência: Lizzo o mantém por perto não apenas por sua força, mas como um lembrete constante da sua própria traição contra Barbasuja. É um jogo perigoso: Lizzo sabe que, a qualquer momento, o droid pode receber um novo comando e se voltar contra ele.

"Deixa em Branco"

Hon-sa: A Engenheira Multiversal do Caos



​Hon-sa não pertence meramente aos mares, mas às fendas entre as dimensões. Originária de uma linhagem de nobres felinos conhecidos por sua dedicação inabalável à verdade e à justiça, ela sempre foi a "peça fora da engrenagem". Enquanto seus pares seguiam códigos rígidos de conduta, Hon-sa era movida por uma curiosidade insaciável e uma moralidade imprevisível. Sua frase recorrente, "Eu quero ser boa, mas não consigo", resume seu dilema: o desejo de fazer o que é certo, mas a incapacidade de seguir as regras para chegar lá.

​Foi esse espírito livre que a levou a aceitar a missão da família Filler: atravessar realidades levando consigo o navio que Lizzo herdaria. Para ela, o "Deixa em Branco" não é apenas madeira e velas, mas uma tela em branco para suas modificações tecnológicas.

O Arsenal da Imediata

​Hon-sa opera através de uma fusão única de engenharia e magia cósmica, utilizando dois itens que a tornam indispensável para a sobrevivência do grupo:

  • O Painel Blaster: Mais do que uma arma, é uma extensão de sua mente analítica. Este dispositivo multifuncional permite que ela escaneie estruturas complexas, entenda tecnologias alienígenas e realize o "hackeamento" de qualquer sistema programável em segundos. Quando as negociações de Lizzo falham, o painel se converte instantaneamente em uma pistola de raios de alta precisão.
  • Thundersfear: Uma esfera flutuante que segue Hon-sa como uma sombra fiel. A Thundersfear é um repositório de energias cósmicas, capaz de absorver ataques energéticos inimigos, analisar sua composição e redirecioná-los com força dobrada. Em situações críticas, a esfera serve como o "coração" do navio, fornecendo energia pura para escapar de tempestades dimensionais ou bloqueios navais.
​A Dinâmica do Trio

​No "Deixa em Branco", Hon-sa ocupa uma posição estratégica: ela é o único ser capaz de verdadeiramente compreender e conter LE-0. Enquanto Lizzo vê o droid como uma penitência, Hon-sa o vê como um quebra-cabeça tecnológico. Ela vive "brincando" com o sistema de LE-0 para tentar neutralizar as tentativas de traição do droid, muitas vezes tratando as falhas morais da máquina com a mesma leveza com que trata as suas próprias.

​Sua lealdade a Lizzo é profunda, enraizada nos laços com a família Filler, mas sua natureza caótica garante que a vida a bordo nunca seja monótona. Ela é a razão pela qual o navio ainda voa (ou navega), transformando cada desastre em uma nova oportunidade de "ajustar" a realidade ao seu redor.



10 de março de 2026

EDGELORD - Cap. V - Arco da Ledgyão

Janete Quá

 Bem vindos a...

...

Não sei mais onde estou. Minha cabeça está girando...

- [Huo-fen, Complexo dos Corvos Mensageiros de Morval. Uma moça que você citou algumas vezes é uma espiã, eu acho... Lançou um padrão hipnótico baseado em sons e nocauteou os...]

- Cadete mamãe! - ela baixa o florete e me abraça. Como na primeira aula de ópera da minha mãe que eu me envolvi. - Ainda não sabe o que fazer com as mãos, Não é? Já fazem dois anos?!? Como vai Àquela?

- S-senhorita Amelie, você é a espiã?!?

- Oh... quem dera fosse tão simples... - ela fala, se afastando saltitante, mas com um ar de tédio. - Me ajude a amarrar os corvinhos. Alaúdes não são as melhores armas, mas estava com as mãos ocupadas.

Ela baixa e começa a usar uma corda para amarrar um dos bandidos.

- M-mas... você é uma professora de ópera! Não uma e-espiã! - eu protesto.

- Eu não acredito que você ainda acha que aquilo era ópera... - ela parecia impaciente. - Alguma vez você cantou? usou perucas? Pensei que você veio aqui me “resgatar” por ter entrado para os negócios da sua família!

- N-negócios?!?

- Eu pedi para o seu Conselho não mandar apoio, eu disse, me viro... - ela bufa com algum despeito. - Eles realmente precisam confiar um pouco. Nem na sua mãe eles levam fé! Quem não confia em Lady Àquela, a Dama do Arco?

- Você está trabalhando para o Conselho Regente?!? Pensei que era uma agente dos Corvos de Morval!

- Pois é... Anda difícil manter a narrativa com tantas traições e plot twists. Eu mataria por uma narrativa mais simples... - eu tinha amarrado o segundo. Ela vem verificar, e desmonta o nó, e, bem, faz direito. - Agente duplo... triplo... Eu fui mandada primeiro para investigar sua mãe, mas parece que quem eles queriam desmascarar era...

- Balmon era o corrupto. Eles me falaram. - Constato.

- Na verdade, uma sentinela chamada "Mirian". - ela informa. - Balmon passava a mão nos corvos menos perigosos, mas não ia por seu reino em perigo. Ele está todo sujo, mas ao menos acha que faz algo certo. Mirian quis entregar o ouro a um cara chamado Ga-shi. quase não pude mandar um mensageiro anônimo fazer seus capitães voltarem para atrapalhar. Mas soube que você cuidou de tudo!

- Você disse Mirian?!? Eu conheço ela! Sim... ela não voltou da patrulha e eu fui verificar… Quando esbarrei em Ga-shi...

Ga-shi, antigo tenente de Blunt que invadiu o castelo atrás do Arsenal de Lord Blunt. Forçou meu pai a se revelar para mim. Claro, os cúmplices... Mirian foi a sentinela que não apareceu, que me fez ir averiguar e flagrei a invasão. 

- Eu pensei que você quem tinha matado Ga-shi e os dois cúmplices. Mirian era um deles! - Ela olha com rabo de olho. Era o "relato" de Achima. Na verdade, meu pai sertuiu o trio, enquanto Achima colocou em meu nome para impedir de expor Lord Blunt, e eu fugi com Gladys e Virgílio antes de sentar e combinar a história.

- [Bentho... Sei que a mocinha parece legal, mas que tal ver o que houve com "Virgílio"?]

- A... Armadura! - eu exclamo enfim.

Eu corro.

- Paraí, Cadete ma ma ... BENTHO! - Amellie tenta chamar minha atenção. E ...

Ah, então ela SABE que meu nome é Bentho, e só me chama de "Cadete Mamãe" para me irritar!

- [Chato isso, né?] - Comenta Gladys por ... Algum motivo.

 Mas eu deveria ter ouvido.

Sair de um complexo de ladrões exige um pouco mais de cuidado do que "sair correndo" pela porta da frente. Ela vem atrás de mim, tentando fazer eu não chamar a atenção… Mas eu estava muito adiantado. E todos ouviam os passos. Todos os “Corvos” que estavam de bobeira.

Consigo passar pela porta, olhando em volta. Ela ficou para trás, tentando me fazer esperar, mas agora os demais corvos estavam a seus calcanhares.

Eu percebo que ela escapa por um fio de ser apanhada, cruza o batente da porta... Mas os que tinham vindo atrás de mim param. Voltam-se para ela.

Amellie estava cercada. Eu podia correr, mas não corro.

Então....

Um balde. Certo na cabeça de um dos corvos.

Dois. alguém pisa e tropeça.

Uma quantidade aparentemente interminável de baldes caem do céu. Derrubam os bandidos, soterram uns. Vejo Amellie com um balde na cabeça cobrindo sua visão, cambaleando para longe.

No telhado do prédio da maquinaria, ainda jogando baldes, a esquelética figura da Vigília Sombria.

- [Como em nome de Aetíades ela foi de "jogar alguns baldes" a "subir no prédio com todos os baldes"?] - Gladys tenta desenvolver.

Amellie e os bandidos estão cobertos, cegos e distraidos. Era minha chance.

Saco a Adaga. Ela cresce. Era novamente Gládius Aeternum, a Espada do Pacto.

- Virgilia Sombria! - eu urro. - Pare tudo e só... ME VISTA!

- [Não faz isso, Bentho!!!] - Gladys tenta me avisar.

Então... dez quilos de aço e ferro saltaram de uma altura de quatro metros em minha direção. Só posso me preparar para o impacto.

Amellie chegou a levantar o balde de sua cabeça, mas ao ver aquele petardo caindo em minha direção, cobriu de volta.


Nem todos os Corvos estavam no complexo. Morval Menor juntou novos ajudantes para bater bolsas e assustar os moradores da triagem.

Eles se separam em dois grupos, e seu grupo acha uma vítima. Uma mulher loira de túnica de couro. Obviamente uma forasteira.

- Por favor, não me machuquem! - fala a loira.

Morval Menor sorri com uma presa fácil. Puxa sua tonfa… mas seu parceiro o detém.

- Ei... - observa ele. - Essa aí é Lady Àquela!

- Não, não é! - fala Morval.

- Não, não sou! - protesta a vítima.

- É sim! - insiste o parceiro do Morval. - Se você prestasse atenção no rosto ao invés dos peitos, ia reconhecer!

- Já disse que não sou a Arqueira! - reclama a vítima. - Mas _se fosse_, ela apreciaria que você a vê mais que peitos.

Morval começa a acreditar.

- Olha, a gente não fez nada errado! - resmunga, e joga a tonfa no chão. - Se é uma "operação pega-ladrão" da Nova Guarda, vocês não tem nada contra nós. Estamos de saída

- Não, sério! - insiste a loira. - Sou só uma forasteira sozinha, fiz a curva errada e...

- Sei, Dona Àquela... - resmunga o Corvo, saindo do beco. - Bate-estaca! - ele grita. - Vamos embora!

Um careca musculoso, com a tatuagem no rosto, emerge de um beco, carregando Estebán pelo colarinho.

- Mas que papagaiada é… - resmunga Morval. - Solta esse tiozinho!

- Ei, essa é a Lady Achima?

- Àquela! - corrige o parceiro. - Achima é o velhinho de vestido! E você... eh, fez um novo amigo?

"Bate-estaca" não era brilhante... Mas não era tolo. Percebeu que estavam com problemas com a Nova Guarda.

- Esse moço estava ... Procurando uma taverna, não era, tiozinho?

- Sim, meu bom senhor. - Estebán olhou acusadoramente sua esposa. - E você me ajudou a achar minha sacola de moedas, não, lady Àquela.

- Devolva a sacola do moço, bate-estaca! - ameaça Morval Menor por entre os dentes, tentando ser discreto.

Bate-estaca tira uma sacola do cinto, e coloca nas mãos de Estebán. O grupo vai embora, deixando o casal naquele beco.

- Eu achei que poderia fazer isso... - Àquela parecia frustrada. - Senhorita Amellie ficaria decepcionada comigo...

- Você é uma estrela, meu bem. - Estebán entrega um cartaz enrolado, fruto de sua bem-sucedida passagem pelo submundo. - A maior atriz do mundo não ocultaria sua grandiosidade. Eles até que foram simpáticos para brutos assaltantes, e foi bem informativo. Não tanto quanto em meu tempo, mas...

- Bem... você se sujeitou àquele troglodita mesmo sabendo que poderia mandá-lo ao submundo com um gesto. Estou orgulhosa de você, minha vítima de assalto! - ela se aproxima e beija a testa do marido. - Isso é outro pôster de procurado do Bentho?

- Pior...

“pior”?!? Àquela fica nervosa. E desembrulha.

Era um cartaz feito primariamente de giz de cera, mostrava desenhos infantis de uma casa, um porco assado. Mas havia um chamado serifado que convidava para um banquete beneficente do orfanato. O desenho principal era um homem com armadura negra, chifres, e um sorriso infantil.

- Lorde... "Edgy"?!? - ela exclama lendo os detalhes. - Não é a sua armadura, ou é?

- Um porco feito pela Mestra Bragar, dez peças de ouro cada prato, leilão pelas partes nobres. - Estebán observa. - Banquete de realeza, inflacionado por ser dada por um "herói local", em prol de crianças... Esse "Edgy" acabou de render a um orfanato pelo menos mil peças de Ouro.

- Acha que foi o Bentho? -Àquela pergunta.

Estebán estava furioso. Ele só segue andando pelas ruas.

- Amarania Bragar... - Àquela considera. - Acha que dá tempo de participar? Deve ser ... Estebán! Espera!


Amellie é esperta o bastante para não estar mais lá quando os corvos começavam a se recuperar da surpresa. O que eles vêem é um amontoado de aço, envolto em uma capa púrpura real... Pulsando com magia paladina.

Usava meu "Lay on hands" para me curar da cacetada... Mas também estava...

... Farmando Aura.


Lord Edgy, O Herdeiro da Escuridão, emerge das sombras, espada em punho.

- [Me arrependi de pedir "Herdeiro do Terror" de volta!"]

Raio Místico! Desenho um arco, e separo o raio em dois, atingindo dois avulsos. Isso dói, mas não os tiram de combate... ainda não. Aprendi algumas coisas em nossa luta anterior.

- [Concentre em um, Diminua os números!] - Gladys tenta me orientar.

- Não dessa vez... - eu falo presunçoso.

Já vi aquela cena. Os Corvos são cabeça dura, e atacam em bando. Eu parto para cima.

Deixo me cercarem.

Mantenho a guarda alta, as tonfas tem bem menos alcance que minha Espada Pesada. Eu controlo o ritmo da luta.

Mas eles eram muitos. Mesmo que por acidente, teve um que passou em minha defesa, e está em minhas costas. Ele avança para me pegar por onde não posso bloquear... Mas por algum motivo, ele para com cara de abobado.

- [What the f...] - Gladys está surpresa. **EU** estou surpreso.

Desarmo um deles. Mais dois Raios Místicos. Todos eles foram feridos em algum momento de minha luta. Um deles parte para um "Tackle" em mim... eu...

Escuto música?

Me sinto leve. Atento. Atlético. Desvio com graça aquele ataque, mesmo com o peso da armadura. O agressor rola no chão... e finalmente entendo...

... Alguém nas sombras estava cobrindo minha retaguarda. 

Inspiração bárdica.

Magia de imobilização sutil.

O sorriso iluminado de Senhorita Amellie...

Agora eles estão ao meu redor. Baqueados, mas vão insistir em vir para cima... Todos como... Um bando de ratos num porão.

- BLADE BURST!



Era um ataque de giro. Um ataque de área! Sacrifico potência bruta por praticidade. A onda de choque bastou para os corvos, todos já feridos, tombarem em um único ato.

Lord Edgy triunfou.

E ... Aplausos! Literalmente desta vez, não só na minha cabeça. 

Amellie sai das sombras com um sorriso entusiasmado.

- Foi Incrível, Bentho! - ela fala. - Essa luta tinha história! Você obviamente tem passado com eles! Fez muitos recalls! Tinha ... Alma! - ela olha para o infinito, como se visse uma platéia assistindo.

- Eu me chamo **Lord Edgy**, Senhorita! - Eu corrijo. - Sou o Herdeiro da Escuridão.

- Herdeiro do Estebán, isso sim! - ela fala, levantando minha capa, notando os detalhes da armadura. - É a Gladius Aeternun?!? - Ela toma a espada de mim... Tão rápida que mal tenho tempo de reagir.

- Estou falando! - insisto. - Sou uma pessoa perigosa que por acaso...

- Diminua o grave. “Grovel”! “Grovel”! Senão vai detonar sua garganta em poucas horas. - ela corrige minha "voz de Lorde Edgy". - Relaxe as cordas vocais e deve bastar... Vai poder ser esse seu personagem por mais tempo! Calma que a voz está completamente diferente, quase não percebi! Bom trabalho!

Dou com os ombros. Felizmente todos os corvos estavam desacordados. Tiro o elmo.

- Eu vou deduzir que... Você sabe de meu pai pelo Conselho...

- Não, sei de Lorde Blunt porque sou só... "Esperta" desse jeito! - ela ri, colocando Gladys contra a luz da lua. - Mas qual é o seu ângulo aqui?

- Eu... - Sim, qual *era* meu ângulo? Eu era mais popular que a Nova Guarda quando queria ser mais detestado que Lord Blunt, - Eu não gostei do que fizeram. E ... Decidi fazer as coisas do meu próprio jeito. Mas acho que ... Não estou fazendo direito. A espada fica buzinando na minha cabeça com a voz da minha mãe e...

- Você ouve a mamãe na espada?!? - ela se espanta. - Bem, economizamos com dubladora! Mas seu pai ouvia um "Dai-doi-jai-joi"... Como é que era o nome? Um cara de Hatamon, eu acho! A lenda é que a espada usa a voz de alguém que você respeita de seu passado!

- [C-como ela sabe da Voz que Lord Blunt associava a mim?] - resmunga Gladys.

- S-senhorita Amellie, devo confessar que meus pais não fazem idéia... Quer dizer, sabem a esta hora. mas eu estou montando meu próprio Império e...

- Um senhor da guerra autodidata! - ela elabora, mais para si mesma do que para mim. - Cara, depois de tanto tempo sendo secretária da igreja, fofoqueira do Conselho... Sua - ela hesita em usar palavras. - ... Sua proposta é inovadora! refrescante! Você tem as ferramentas! Só falta a Direção! Uma... Uma guia!

Ela estava se empolgando. Me empolgando! Mesmo quando eu estava perdendo a esperança.

- Senhorita Amellie... - falo enfim. - Está pensando o mesmo que eu?

- Sim, Lorde Edgy. - ela tinha aquele olhar faceiro e triunfante.

Apontamos um para o outro.

Falamos ao mesmo tempo, em uníssono.

— VOCÊ VAI SER MEU CAPANGA!

— VOCÊ VAI SER MEU PROJETO!


- [Eu ouvi "VOCÊ VAI SER MEU CPARPOAJNEGTAO"...] -

- Você disse "Capanga"? - ela me pergunta.

- Você disse "Projeto"? - Eu pergunto confuso.

- Veja bem... - ela fala primeiro. - Lord Blunt, é **fantástico**... Uma força imparável. Mas a história do vilão que não pode perder é que eventualmente ele perde. Fica previsível. Mas você? Você é falível, é apaixonado! Dramático! Vai vencer? Vai perder? Quem sabe! a audiência quer ouvir até o fim, não só esperar quando uma loirinha vai acertar uma flecha no seu joelho! Agora... "Capanga"?

- Posso dar um título melhor... Estava com "capanga" na cabeça desde o Castelo negro - eu corrijo. - O fato é que é duro ser o Bento, o Edgy, programar o Virgílio e a GLADIS aqui (estendo a espada) Não me ajuda! Aparecer e tentar bater não está funcionando muito bem a longo prazo. Preciso delegar...

- "Gladys"? - Amellie gargalha. - Ela deve odiar isso!

- [E ODEIO!]

- Então, Eu (ela aponta seu coração), se fosse sua "capanga" (aponta o meu)... Precisaria de um pseudônimo. Amellie é muito famosa.

- Que tal... Janete Quá? - eu recordo.

- Perfeito. - ela sorri, e estende os braços teatralmente. - Eu vou te abraçar agora, não se assuste, e você pode colocar as mãos em minhas costas ou ombros, não muito baixo, oquei?

Eu fico constrangido um segundo, e ela vem a mim. A armadura me protege de ratos e tonfas, mas sinto o calor dela passando pelo ferro.


- Agora que estamos juntos... - ela fala, aqueles olhos encantadores olhando os meus. - Vamos nos separar.

- O ... O que?!?

- Os corvos só viram as luzes apagarem antes de Lord Edgy chegar. - ela explica, amarrando o alaúde nas costas e ajeitando o vestido. - Vão estar procurando um casal fujão, separados eles não nos incomodam. E eu vi seu rosto nos cartazes lá dentro... Mantenha o elmo!

- Sim, claro. - Falo, colocando o elmo de volta. - Edgy é bem popular por aqui...

- Sim, mas não é isso o que você quer. - ela fala. - Vamos nos encontrar em Hálcora. Eu vou pela estrada da muralha, você segue a trilha do rio. De lá, começamos nosso projeto, certo, Lord Edgy?

- Certo, Lady Janete Qua.

- [Eu estou com múltiplas ressalvas...] - resmunga Gladys.

Eu ignoro.

Amellie viu o que eu queria fazer. Ela... Ela era o que precisava. Eu estava começando a duvidar de mim, a fé dela me deu novo ânimo.

Acho que Hálcora será uma fase melhor para nós!


Estalagem de Gotar. Muitos aventureiros passam por lá. Tecnicamente nunca fechei meu quarto lá. Mas Eu era um assunto.

- Lord Edgy é quem está certo! - fala o bêbado simpático a Blunt. - Ele usa o Elmo de Lord Blunt como símbolo! Um símbolo de "Foda-se a Nova Guarda"

Ele recebe um "uhhay" dos demais bêbados da estalagem.

- Foda-se aquele velho broxa do Áchima!

- "Uhhay"... mas mais contidos. Alguns se calam. Algo acontecia na estalagem, que a maioria dos bêbados ignorava.

- Foda-se Balmon, o nanico! - ele continua, no balcão. Estranha que o estalajadeiro Gotar dá alguns passos para traz, mas não se detêm. - Foda-se aquela perua da Àquela!

Ninguém faz "uhhay". Apenas o homem, no balcão, de costas para a entrada, ignorava uma presença.

- E foda-se aquela "biba bombada" do Kh...

Ele não termina a frase.

Uma mão enorme agarra seus cabelos, e força, com peso absurdo, seu rosto para baixo, quebrando nariz e deixando dentes na madeira do balcão.

Capitão Khao ergue-o pelos cabelos com uma mão, só a ponto de estar balançando. Três soldados da Nova Guarda o acompanhavam. Ninguém ousa impedir quando o Colosso das Montanhas Castanhas o joga no chão, inconsciente.

- Só vou falar uma vez! - urra Khao, desembrulhando um novo cartaz de "procurado". Nele, uma figura de armadura negra e o elmo com chifres. - Onde eu encontro o foragido conhecido por "Lorde Edgy"?

Silêncio.

- Se quiser pegar Edgy... - Gotar se adianta. - Terá que passar por todos nós.

Khao percebe que o caneco do homem que ele nocauteou ainda estava no balcão. Ele o apanha, e vira na garganta de uma vez.

- Eu não gostaria que fosse de nenhuma outra forma. - Ele estala o pescoço, e alonga os braços ameaçadoramente.



8 de março de 2026

Universo Edgelord — Guia de Leitura

Guia de Capítulos do Universo Edgelord



O projeto Edgelord é uma saga de fantasia ambientada em um mundo de heróis lendários, segredos antigos e histórias contadas por diferentes perspectivas.

A trama acompanha principalmente Bentho, um jovem que começa a descobrir verdades desconfortáveis sobre seus pais, seu passado e o mundo ao seu redor — uma jornada que pode levá-lo a um destino bem diferente do heroísmo.

Se você é novo na saga, comece aqui:

Explicando o projeto
https://dragaodeplutonio.blogspot.com/2026/01/em-breve-edgelord.html



ARCO DA NOVA GUARDA

A primeira grande história da saga, apresentando os personagens principais e os primeiros sinais de que o mundo é maior — e mais perigoso — do que parece.

Capítulo I
https://dragaodeplutonio.blogspot.com/2026/01/edgelord-i-arco-da-nova-guarda.html


Capítulo II
https://dragaodeplutonio.blogspot.com/2026/02/edgelord-ii-arco-da-nova-guarda.html

Capítulo III
https://dragaodeplutonio.blogspot.com/2026/02/edgelord-iii-arco-da-nova-guarda.html

Versão de Lord Blunt – A Batalha de Shén-li
https://dragaodeplutonio.blogspot.com/2026/02/edgelord-mais-uma-versao-da-batalha-de.html

Capítulo IV
https://dragaodeplutonio.blogspot.com/2026/02/edgelord-iv-arco-da-nova-guarda.html

Capítulo V
https://dragaodeplutonio.blogspot.com/2026/02/edgelord-v-arco-da-nova-guarda.html


MITOS DE FORMAÇÃO


Histórias do passado que ajudam a entender personagens e eventos importantes do mundo.

🎵 Loredump musical – Amellie resume o primeiro arco de Edgelord
https://suno.com/s/v27shTareqcQU1Mw

Os Irmãos do Limiar
https://dragaodeplutonio.blogspot.com/2026/02/edgelord-mito-de-formacao-os-irmaos-do.html


ARCO DA LEDGYÃO: HUOO-FEN

A saga continua em Huo-Fen, onde novos personagens surgem e antigas histórias começam a se conectar.

Capítulo I
https://dragaodeplutonio.blogspot.com/2026/02/edgelord-cap-i-arco-da-ledgyao.html

Capítulo II
https://dragaodeplutonio.blogspot.com/2026/02/edgelord-cap-ii-arco-da-ledgyao.html

Capítulo III
https://dragaodeplutonio.blogspot.com/2026/03/edgelord-cap-iii-arco-da-ledgyao.html

Capítulo IV
https://dragaodeplutonio.blogspot.com/2026/03/edgelord-cap-iii-arco-da-ledgyao_5.html

Capítulo V

https://dragaodeplutonio.blogspot.com/2026/03/edgelord-cap-v-arco-da-ledgyao.html

Capítulo VI - Xitarro
https://dragaodeplutonio.blogspot.com/2026/03/edgelord-cap-vi-arco-da-ledgyao.html

Capítulo VII
https://dragaodeplutonio.blogspot.com/2026/03/edgelord-cap-vii-arco-da-ledgyao.html

Capítulo VIII

Em breve



Histórias de Amellie

Essas histórias acontecem entre os capítulos IV e V do Arco da Ledgyão.

Amellie – Parte 1: A Professora de Òpera
https://dragaodeplutonio.blogspot.com/2026/03/edgelord-mito-de-formacao-amellie-parte.html

Amellie – Parte 2: O Devorador de Nomes
https://dragaodeplutonio.blogspot.com/2026/03/edgelord-mito-de-formacao-amellie-parte_7.html



Trilha sonora da saga

Também criei uma playlist no Suno com músicas inspiradas no universo da história:

https://suno.com/playlist/78fa83a6-05fd-4c98-ba26-ab10d9c90e36

Mais capítulos serão adicionados conforme a saga continua.

Bentho chegará na capital?