BLOGGER TEMPLATES AND MyYearBook Layouts »

27 de setembro de 2026

MISSÂO HALLOWEEEN - ROTEIRO (2) - A Grande Audiência


 À frente de todos, Silas Rictus lidera a marcha com os seus passos largos e cômicos, balançando a lanterna dourada cujos reflexos dançam sobre a relva alta do terreno baldio. Ao fundo, a silhueta do colégio decorado para o Halloween brilha fracamente, cada vez mais distante à medida que avançam para as traseiras, em direção ao futuro e descampado campo de futebol.

A empolgação é palpável em dois dos jovens: Marcus caminha com passos firmes, ainda a sentir a adrenalina do número das facas, enquanto Bia o acompanha de perto, fascinada com cada detalhe daquele cenário sombrio e teatral, absorvendo o espetáculo à sua volta. No entanto, o clima entre os outros dois é bem diferente. Leonel segue um passo atrás, os olhos atentos ao horizonte escuro da mata, visivelmente receoso com o rumo que a brincadeira tomara e com a distância da civilização. Ao lado dele, Margaret cruza os braços dentro do seu sobretudo, visivelmente incomodada e com o cenho franzido, lançando olhares frequentes para trás.

— Estamos indo para longe dos prédios principais — resmunga Margaret, a voz cortante quebrando o silêncio da noite, enquanto a bota afunda ligeiramente na terra solta. — Isto já deixou de ser uma avaliação escolar há muito tempo.

Silas para por um segundo, vira-se com um sorriso largo pintado na maquiagem branca e ergue os braços, ignorando o desconforto da detetive:

— Elementar, minha cara Margaret! O verdadeiro espetáculo nunca acontece onde há regras e paredes de cimento. Mas o verdadeiro picadeiro estará ... bem perto agora pelo que vejo...

A lanterna de Silas começa a mudar de cor. Primeiro, uma luz mais fria... mas logo, estabiliza-se em uma luz violeta.

— O que eu falei das "fadas violetas", Bia? — Ele comenta sem olhar totalmente para trás.

Bia hesita em continuar.

— Ei... foi um truque de química! — Marcus cola nela.

— Isso está estranho... — Bia comenta.

— Eu vou levar Bia para o ginásio. — Margaret se voluntaria. — Eu volto logo...

— Que nada! — Marcus comenta. — Halloween é para isso mesmo! Um pouquinho de susto...

— Para com isso, Marcus. — Leonel se interpõe. — Não vamos fazer pressão nela. Se Bia quiser ir embora, ela vai! Certo, senhor Silas?

— Tal qual uma mamãe pássaro fico triste, mas deixo minha passarinha voar do ninho... — O palhaço fala, teatralmente.

Bia encara o resto da estrada. Havia um bosque bem próximo, com lanternas. Havia algo preparado.

Marcus e Leonel eram grandes. Maiores que Silas.

— Marcus... — ela comenta. — Você me protegeria?

Leonel fica ofendido. Marcus estufa o peito.

— Eu prometo que estarei lá para você! — fala enfim.

— Ai-ai... — Margaret resmunga.

Silas ainda espera algum desenvolvimento, mas com os quatro mais ou menos na mesma mentalidade, ele volta a marchar.

— A gente vai para algum ensaio ou a apresentação é por aqui? — Leonel pergunta.

— Já iremos perante a Grande Audiência! — Silas responde.

— Que "audiência"? — Margaret comenta. — Todos os carros estão lá atrás!

Silas não responde.

As primeiras árvores do bosque surgem. Além delas, a trilha tinha tochas tiki, feitas de bambu e acumulando óleo para um pavio, mas o pavio também usava chamas violetas, dando um ar tenebroso.

Foram poucos metros, o colégio ainda era visível, até que as lanternas japonesas, igualmente violetas, indicavam um espaço entre duas árvores, com iluminação de ambiente interno, limitado só àquele espaço. Precisariam se encolher para passar... mesmo Bia, a menor dos cinco...

E de lá, uma música circense era ouvida. Um vozeril animado. De tempos em tempos, aplausos. Mas as árvores não podiam ocultar algo tão vultoso como aqueles sons estavam deixando transparecer.



— Aí! — Comemora Marcus. — Estava errada, Margaret! Tem um festival por aqui!

— E quem é que veio aqui, se quase todo mundo do colégio tá no salão? — A detetive insiste. — Senhor Silas... você é professor? Funcionário? Qual sua ligação com o colégio?

— É tão... lindo... — Bia comenta enfim.

— Pode ir na frente, querida. — Silas dá um passo à frente.

Bia parecia hesitante. Ela olha para Marcus, que sorri e acena.

Mesmo Leonel estava mais crédulo agora que parecia algo com "estrutura", não uma "Vala" com um palhaço psicopata.

— Acho que são caixas de som. — ele comenta. — Mas a perspectiva é legal... não é, Margaret?

A detetive estava ainda receosa.

Tochas violetas... A lanterna... Poderia ser um efeito químico... E Silas tinha o "jeitão" de professor de química que leva seu trabalho longe demais.

Mas Margaret também... fumava.

Escondido.

E com o maço, um isqueiro.

Ela pega o isqueiro, como se sua intuição dissesse algo...

Era um isqueiro normal.

Ainda assim, quando acendeu... a chama saiu violeta.

— Puta que pariu...

Ela estava tão perplexa que mal percebeu que Bia já havia entrado. Margaret corre, não na direção da entrada, mas para contornar uma das árvores...

... Não havia nada do outro lado.

Nem a passagem, nem os barulhos. Nem Bia, que deveria ter passado segundos atrás.

— Puta que pariu! — ela urra e começa a correr, parando nos braços de Leonel e Marcus.

— Legal, né? — Marcus comenta. — Eu vou agora...

— Não... — Margaret protesta. — É bruxaria! Isso aí é que nem o filme "Poltergeist"! A menina na TV!

— Sim, espelhos e fumaça! — Leonel comenta. — Eu vi um documentário do Spielberg...

— Não! — a detetive protesta. — A Bia SUMIU MESMO!!!

Os jovens olhavam com desdém o comentário, mas não podiam negar que algo estava errado.

— Vamos embora daqui! — Margaret agarra Leonel, mais confiável, e começa a se afastar.

Então, Silas solta, com um tom sinistro:

— Seria uma pena... Bia... Sozinha lá...

Aquilo detém a detetive.

Iam mesmo abandonar uma garota... a mais nova deles?

Precisavam de um adulto? Não. Leonel era maior que Silas... Marcus tinha faca e instinto de sobrevivência. Era só um palhaço psicopata... Mas ia fazer o jogo dele.

— E aí, Margaret? — Pergunta Leonel. — Acha que é maluquice ou devemos sair?

A jovem se encolhe junto do Cavaleiro e mostra... Um telefone celular StarTAC. Ela mostrou ao amigo que já havia digitado "911", e bastava apertar "enviar".

— Tá... é um truque assustador. — Margaret comenta. Ela suava, mas disfarçava como podia.

— Se quiser saber como é que se faz... basta cruzar o portal! — Fala Silas como desafio. — O último desafio de Margaret P.I.

Ela fez um sorriso convincente e de atitude.

— Eu sou a próxima então... — Fala com deboche.

Silas sorri de volta. Aqueles olhos vidrados sem piscar.

Margaret não consegue esconder um descontentamento. Esbarra no ombro do palhaço para conseguir espaço... e se aproxima.

Realmente ela via o que parecia um corredor, com música e gargalhadas. Era como a porta de um picadeiro de um circo, por mais improvável que fosse. Mas antes de cruzar o limiar, Silas fala:

— Detetive, eu cometi um segundo crime esta noite! 

Margaret, alertada, para. Olha para trás.

— Deixe-me adivinhar... — ela diz debochada. — Sequestro?

— Não. — Silas responde. — Destruição de propriedade.

Silas bate o seu cajado no chão. Um *crack* é ouvido...

Margaret olha para o chão. E vê... Seu Motorola, destruído.

Ela entra em pânico. Se espreme para voltar... Mas Silas toca nela com a ponta do cajado...

Um flash de luz ocorre, e a detetive é empurrada através do vão. Margaret dá um berro de assombro, que após alguns segundos, some.

— QUE PORRA É ESSA?!? — Urra Leonel.

— Temos o primeiro talento oferecido à Grande Audiência! — Silas diz. — Sua amiga terá a mente sugestionável de milhares para ler e deduzir!

— O que você fez com elas, seu filha da puta?!?

Sem pensar direito, Leonel estendeu a espada de LARP para Silas, que olha incrédulo.

Percebendo o que fez, Leonel olha para Marcus. Ele tinha facas de verdade.

Mas Marcus, o sobrevivente, fascinado por facas, estava apavorado e sem reação.

— O Cavaleiro quer salvar as donzelas com uma espada que não tira sangue? — Silas provoca. — Eu aceito seu desafio, herói!

O palhaço estende a mão ao bolso, tirando de lá seu "sabre de balão" que fez ainda no ginásio.

— Você é um puto louco! — Leonel urra. — Eu vou quebrar tua cara!

— *En garde!* — fala debochado o palhaço. — Vamos não-tirar-sangue um do outro!

Leonel era maior, mais alto. E mesmo sendo só uma espada de LARP, ele podia fazer um estrago se descumprisse as regras: acertar no rosto ou virilha do inimigo. O palhaço tinha uma espada de balão...

Silas sacode a espada de balão contra a espada acolchoada. O balão estoura. O acolchoamento e o cano interno da espada são cortados.

Dentro do látex inflável havia um sabre de verdade.

Quando Leonel percebeu, a ponta da espada estava estocada em seu coração. Uma enorme mancha vermelho-escura, quase preta sob as luzes violetas, cobria sua fantasia estampada.

A força das pernas cessa. O jovem se ajoelha diante do palhaço.

— Oh, vasos sanguíneos são tão... delicados... — o palhaço resmunga com ironia. — Será que consegue se arrastar de volta ao colégio ou sangrará antes de conseguir ajuda?

Leonel olha para Marcus, que estava pálido... Não concebia o que estava acontecendo.

— Eu vejo uma saída, cavaleiro... — O palhaço sussurrava ao jovem. — Você precisa de tempo. Aqui fora, o tempo não está do seu lado... Mas na Grande Audiência, o tempo é perpétuo. Você é um "sacrifício". Um herói nobre, embora tolo. Viverá para lutar, perder, sangrar, por anos e anos... Basta seguir... Vá atrás de suas amigas!

Leonel chorava. Estava com medo.

Estava sozinho.

Ouvia ao longe as gargalhadas. A vida. O espetáculo.

Lá, talvez tivesse chances.

Ele cambaleou, ajudado por Silas nos primeiros passos. Continuou sozinho mais alguns, e eventualmente, caiu de bruços.

Precisou se arrastar. Chorava copiosamente.

Uma vez que suas pernas cruzaram o limiar, ele também sumiu.

— E então... restou um.

Silas encara Marcus.

Toda a bravata. Toda a adoração por facas. O talento de atirar.

Mas jamais imaginou algo como aquilo.

Três vítimas. Sobrenatural. Será que tem drogas envolvidas? Ele bebeu do ponche...

Silas aponta com o queixo. Aos pés dele.

Marcus olha.

Eram um estojo. Seis *Viper-Edge Pro*. Argola no cabo.

O palhaço não expressou preocupação com aquelas armas estarem ao alcance do cigano. Nem que ele ainda tinha as suas próprias facas. Nem estava em "posição de duelo"... Estava só apoiado no cajado, na lateral daquela entrada "poltergeist" como definiu Margaret.

Na mente dele: podia atirar as adagas mais rápido que o palhaço poderia reagir. Poderia até usar as vipers. Acertaria nas pernas para a polícia interrogar.

Mas Marcus, com seus problemas de disciplina e atitude... era só um garoto.

Ele correu.

Ele tinha vergonha da covardia. De não lutar. De abandonar seu amigo... A Margaret que viu o problema acontecendo...

... Mas e Bia?

— Marcus... — uma voz fantasmagórica e familiar ecoou. — Você prometeu me proteger...

Era Bia. Mas também não era.

Marcus ainda queria correr... mas não conseguiu.

Seu corpo paralisou, com uma aura violeta.

Silas voltou-se para a entrada, apavorado.

— Não! Não era esse o acordo!

— Marcus prometeu me proteger, e eu demando a proteção.

"Bia" saía pelo portal. Mas não era Bia. Não era mortal.

— Isso não faz parte do nosso acordo! — Silas protestou.

— Três atrações garantidas na Noite de Todas as Bruxas. — A voz de Bia era um eco. Como se múltiplas jovens com tons ligeiramente diferentes falassem ao mesmo tempo.

— Foi por isso que você veio para o colégio?!? — Urrou Silas. — Para me sabotar? Eu ainda ia caçar o garoto! Você...

"Bia" olhou para o mestre de picadeiro. Com autoridade.

Silas começou a suar. Seus olhos mostravam um horror que contrastava com o sorriso pintado em seu rosto.

— V-você tem todo o direito de mudar os termos. — Silas corrige-se. — Você é a Fada Violeta. Você é a *Grande Audiência*.

Marcus não escolheu atravessar o limiar. Ele teve a vontade roubada por uma promessa que fez sem pensar.

Por isso, não contava para o Palhaço.

Silas Rictus prometeu três atrações.

Só conseguiu duas.


Por mais um ano, ele deverá entreter a Grande Audiência, que não é uma garotinha vestida de fada, nem uma jovemzinha. Ela era o que quer que escolhesse ser. O que quer que alguém oferecesse a ela. Não precisava ser um corpo só, podia ser todo um auditório. Ou algo abstrato como o som de aplausos, ou lanternas violetas refletidas em uma poça.

... Para Silas, Sempre terá o ano que vem.




MISSÂO HALLOWEEEN - ROTEIRO (1) - Show de Talentos



1996. Em Cornwalls, Alabama, o velho ginásio da cidade transformou-se para uma nostálgica festa de Halloween dos anos 90, enfeitado com fitas negras e alaranjadas, fantasmas de papel e abóboras. Na pista de dança encerada,  dezenas de jovens fantasiados dançavam e riam ao som da música sob refletores multicoloridos. À direita do salão, um corredor levava a uma área onde uma placa destacava as inscrições para o show de talentos (Talent Show Sign-Ups), com jovens conversando e organizando o evento. Em meio àquela atmosfera vibrante e festiva de juventude, ninguém imaginava que aquela seria uma noite inesquecível e que algo estranho começava a se esconder entre as luzes e as fantasias.


Seguindo pela penumbra do corredor, Marcus e Leonel caminhavam lado a lado, trocando provocações. Marcus, o mais baixo e musculoso, ostentava os braços livres em uma roupa de cigano, complementada por um coldre repleto de facas de arremesso. Ele era o ousado da dupla, o idealizador daquela incursão que pretendia testar os limites do colégio ao se inscrever como atirador de facas. Ao seu lado estava Leonel, alto e de membros compridos, vestido com um collant estampado simulando uma armadura medieval e carregando uma espada de LARP feita essencialmente de silvertape. Eles eram improváveis amigos — uma ponte construída porque a mãe de Leonel trabalhava com a de Marcus —, mas a descoberta recente do Live Action Roleplay havia dado a Marcus a desculpa perfeita para seu "amor por lâminas": se o colégio vetasse as facas de arremesso, eles entrariam com uma simulação de combate medieval.

A fila, contudo, parecia minguada. Não havia professores ou qualquer autoridade fiscalizando o registro; apenas placas improvisadas indicando a entrada de um vestiário em reformas. Ao empurrarem a porta, imaginando encontrar dezenas de concorrentes, depararam-se com apenas duas pessoas.


A primeira era Margaret, conhecida dos dois embora não do mesmo círculo. Sabichona e filha de um ex-professor, ela exibia uma atitude confiante, vestida com um chapéu fedora, um sobretudo escuro e um colete sobre o vestido.

— Eita! Os dois psicopatas! — observou ela, cruzando os braços. — Leonel, eu até imaginava nessa vibe, mas você... Michel né?

— Marcus — corrigiu o jovem, irritado. — E errou feio, a ideia foi minha.

— Bem... — ela deu de ombros. — Qualé da parada? Não ficou claro. Só estou eu e a novata aqui até vocês chegarem.


Os dois olharam então para a última competidora. Era Bia, uma garota de 17 anos, muito magra e baixa, vestida de fada com um chapéu cônico, asas de celofane e um calçado negro robusto. Toda a sua roupa puxava para tons de violeta, combinando com a varinha de condão DIY que segurava e a lanterna de luz roxa que iluminava fracamente o ambiente. Ela abriu um sorriso hesitante, parecendo prestes a desistir.

— Eu... eu sou a Bia — murmurou, encolhida. — E meio que já desisti. Só queria assistir aos testes, se deixarem.

— Ué, desistir por quê? — Marcus cresceu-se para a novata.

Leonel cutucou Margaret de relance, conhecendo bem o jeito conquistador do amigo, que era anos mais velho e costumava arrumar confusão com isso.

— Bia, você nem disse o que ia fazer — interveio Margaret, salvando a situação.

— Ah, eu pensei em desfilar, mas a roupa não é tão boa... Ou então poderia cantar. Mas vou morrer de vergonha com plateia — disse a garota, acuada.

— Ah, canta aí! — insistiu Marcus. — A esta hora só vamos ser nós quatro!

— Dê espaço para ela, Marcus — pediu Leonel, cuja timidez natural muitas vezes cedia lugar ao instinto protetor que tinha com as irmãs.

— Pelo visto... — Margaret cortou o assunto, olhando para o aspirante a cigano. — Só eu e o Marcus vamos pensar fora da caixa. Facas de novo?

Marcus abriu um sorriso maroto e exibiu seu colete. As bainhas sustentavam facas de arremesso reais, adaptadas de malabares. Colecionador de canivetes e facas desde a infância, ele praticava o lançamento desde cedo por pura fascinação temática, e não por violência. Contudo, bem no momento em que ele exibia suas armas, um som seco ecoou pelo vestiário vazio: uma porta batendo com força no fim do corredor, seguida pelo barulho estridente de papel sendo rasgado.



O barulho de papel rasgado pareceu vir acompanhado de uma risada abafada. E a figura estava lá dentro, enfim.

Era um homem obviamente mais velho, indefinido pela maquiagem pesada, alto e magro, trajando uma fantasia de palhaço com mestre de picadeiro, que parecia ter consumido todo o orçamento de figurino de uma pequena companhia teatral. O rosto estava coberto por uma camada de maquiagem branca, aplicada com entusiasmo mais do que precisão, cortada por desenhos negros ao redor dos olhos e um sorriso vermelho exagerado que se estendia além dos limites naturais da boca. Um nariz vermelho completava o conjunto. Sobre os cabelos desgrenhados repousava uma cartola com chifres.

O restante da roupa era ainda mais extravagante. Um casaco comprido de veludo vermelho e preto, cheio de bordados dourados, correntes, botões metálicos e ombreiras que lembravam uma armadura medieval, cobria uma camisa de babados. Faixas de tecido pendiam da cintura sobre calças escuras listradas, enquanto botas pesadas completavam o visual. Em uma das mãos, ele carregava um cajado dourado cuja ponta ostentava uma pequena cabeça de bufão de aparência macabra.

Apesar de toda aquela parafernália, o sujeito parecia perfeitamente à vontade.

— Oh, meus ~Heróis e Horrores~ desta noite! — ele começou, com voz alta e divertida, como um profissional dramático. — Parece que temos um verdadeiro set aqui! Eu sou *SILAS RICTUS*, e serei seu pré-avaliador!

— "Pré... avaliador"? — Margaret ergue uma sobrancelha com atitude.

— Por mais que meu vasto currículo me torne um expert em artes, talentos, halloween, sobrenatural, psicologia infantil e Educação Física... — ele fala sem pausa, como um monólogo de improviso cômico. — Eu no final não escolho os vencedores. Os APLAUSOS serão o júri! O veredito! Vá, o que me diz, Columbo?

— Bem, "Silas" — Margaret ainda tinha a voz desafiadora. — Primeiro, ganhou uns pontos por não me chamar de "Carmen Sandiego". Meu nome é Margaret, e eu estou pretendendo fazer... Sabe o que é "mentalismo"?

— A arte milenar de fingir que lê mentes? — Silas gargalha. — A Psicologia Invertida com Ar de Superioridade?

Margaret se impressiona. Seu lábio inferior contrai com espanto.

— Eu tenho um ato assim. Tecnicamente é "mágica", mas eu me passo por detetive. Sabe como Sherlock Holmes faz nos livros dele? Olha manchas no joelho e deduz que o assassino enterrou a arma do crime no gramado?

— Poderia demonstrar? — o mestre fala.

A detetive fica receosa.

— Eu... pretendia fazer com o público. — Ela confessa. — Sempre tem uns que, se eu jogar certo, adivinho até o que ele está pensando, uns mais predispostos...

— Eu sou seu público, querida! Tente em mim!

Silas joga as mãos para trás e a encara. O olhar vidrado, sem piscar. O sorriso travado como se os dentes estivessem colados.

— Eh... o senhor é difícil... — ela confessa. — Tá comprando o papel de "palhaço psicótico"... Não pesco nada...

— Eu ajudo. — Silas inclina a cabeça para o lado. — Esta noite eu cometi meu primeiro crime. Pode dizer qual seria?

Leonel cutuca Marcus, apreensivo. O "cigano" cutuca de volta.

— Eu...

Margaret hesita. Mas ela inspira... Estende o dedo quase tocando o nariz vermelho do palhaço... Ela passa ao seu lado... E algo branco sai do rosto do palhaço.

Não era a maquiagem... Era...

— Glacê? — Margaret comenta. — Você roubou a torta que estava no armário 63!

Silas sorri. Mostra as mãos. Uma torta branca, mais um spray de glacê acumulado em um prato de papelão que um prato genuíno. Todos aplaudem.

— Quando foi que ele pegou aquilo? — Marcus comenta.

— Qualé? Foi combinado? — Leonel protesta. — Até o número do vestiário?

— Eu vejo grandes coisas em seu futuro, detetive Margaret! Vai ver, sou mentalista também! — Silas cumprimenta. — Considere-se pré-aprovada. Vamos para o palco em breve... Quem quer ser o próximo?

Marcus levanta o dedo com confiança. Leonel dá um passo para o lado.

— Eu não sei se o colégio vai aprovar. — ele fala. — Mas eu faço malabarismo e arremesso com facas. Trouxe até as minhas!

Silas entra no espaço do jovem, quase afundando o rosto no colete do jovem.

— Estas não seriam Kurotetsu V-10? — ele fala. — Boa aerodinâmica!

— Especialista em facas também? — Marcus desafia.

— Eu sou mais um cara das Viper-Edge Pro, argola no cabo para girar antes de lançar. — Ele ri. — Eu acho que tem umas assim na Grande Audiência... Se quiser tentar com elas na hora do vamos-ver.

— Parece legal. — Marcus se esforçava para conter seu entusiasmo.

— Bem, quem gostaria de se voluntariar para o mestre das lâminas? — Silas estende as mãos até Bia. — Podemos fazer aqui  se tivermos uma assistente corajosa...

Os quatro se assombram.

— Eu não... não ia usar alvos humanos. — Ele confessa. — Tenho uma boneca inflável que eu ia...

— Boneca inflável?!? — Leonel ri.

— Não começa! — ele protesta. — Bem, eu não acho que a escola iria...

— Se o "não" você já tem, por que não mostra? - Silas insiste. — Se não tiver risco de vida... que graça tem?

— Você é louco, cara!

O palhaço vai até o fim do corredor, apanha uma mesa de compensado sem uma das pernas e a levanta. Era um "alvo" improvisado. E então estende-se  na forma de um "T" na frente do compensado. Silas se torna um alvo.

— Eu não vou fazer isso! — Marcus protesta.

— Eu sei que você QUER! — Silas fala com a voz sinistra.. — Sempre foi o seu sonho. Mas sempre teve medo! Treinou com manequins, bonecas... Aqui é o próximo passo... Um homem!

— Vamos embora, Marcus. — Leonel insiste.

Marcus parecia aéreo. Sim, ele confiava em sua mira... Mas o medo de "e se não" sempre o reteve. Mas esse medo parecia longe... Algo nas palavras do palhaço... O inspirava.

— Afastem-se!

Leonel deu um passo para trás, não obedecendo, mas de assombro. Margaret puxou Bia pelos ombros, colando-a no corredor estreito.

Havia uma linha reta, só com Marcus, Silas e o compensado atrás dele... Três facas.

Concentração... Silêncio.

*Thwap. Thwap. Thwap.*

A terceira por pouco não corta os cabelos desengrenhados do palhaço... Silas nem sequer piscou.

— Eu... — Marcus começava a respirar profundamente. — Não sei o que deu em...

— Pré-aprovado. — declarou Silas.

— Cara, isso é loucura! — Leonel protesta. — Eu estou indo embora...

Silas se adianta e interrompe o "cavaleiro". Precisa empurrar a porta de volta quando Leonel ameaçõu abri-la.

— Já tão cedo?!? — Ele fala.

— Vocês estão loucos?!? — Leonel resmunga.

— É isso mesmo ou você só não se acha bom o suficiente?

— EU... — Leonel hesita. A coisa com as facas realmente o deixou ansioso, mas não. Era apenas uma desculpa. — Eu era só o "plano B" se Marcus não pudesse usar facas. Agora que ele está pré-aprovado, eu não... Não sei?

— O que é essa coisa em suas mãos?

Ele estende a espada de LARP.

— O plano B era uma demonstração. — ele fala enfim. — Eu... Eu e Marcus íamos simular um duelo, talvez chamar alguém para o palco...

— Leonel é campeão de nossa liga local. — Marcus comenta. — É por causa desses "braços de orangotango" dele.

— Essa espada não parece ser capaz de extrair sangue... — Silas olha como se avaliasse.

— É acolchoada. — Leonel explica. — Ninguém se machuca com ela... a não ser que faça merda, golpeie o rosto... Tem regras.

Silas saca algo do bolso: um balão murcho de fazer bichos. Ele começa a soprá-lo. O látex se alonga, formando um longo cilindro imperfeito. Com gestos rápidos, Silas faz um guarda-mão. Ele tinha agora um "sabre" de balão.

— En garde!— diz ele. — Permita-me não tirar sangue de você!

A figura era tão patética que os quatro começam a rir, mas Silas só para quando encosta a ponta do balão no coração de Leonel. Então, pendura seu "sabre" na cintura.

— É... você não é tão bom nisso. — Ele fala. — Mas na audiência tem um coroa japonês com... Como é o nome daquela espada de madeira de treino?

— Um Bokken? — arrisca Leonel.

— Isso! — o palhaço sinaliza. — E todo um aparato... Luvas com reforços, a máscara que parece uma grade?

— É... Um professor de Kempô?

— Algo soa certo, acho que é isso. — o palhaço concorda. — Que tal fazer um Katá, ou um sparring só para tentar? Deixa que eu faço a ponte. Pode até rolar umas aulas grátis, mesmo se não for o campeão do concurso.

Marcus começa a sussurrar algo com Leonel. Silas dá um passo para trás. Olhos vidrados. Em Bia.

— E a senhorita? O que veio fazer aqui?

Bia parecia congelada... sem saber o que responder.

— Ela é costureira e cantora! — Margaret, protetiva, assume a frente.

— Eu só vim assistir, na verdade. — Bia corrige. — Ia usar isso como desculpa para ver o show mais de perto.

— Oh, típico da "fada violeta". — Silas observa. — Sabem criptozoologia? Antropo-arcadiano?

Os quatro adolescentes olham confusos.

— Já viram desenhos da Disney?

Os quatro concordam.

— Tinker Bell, uma fada verde. Selvagem e artreira, geniosa. A fada azul de Pinóquio... matrona... diz o que é certo e o que é errado... — Ele enumera. Mas sua voz parecia sombria. a maquiagem escorria um pouco sobre a testa. — Mas a fada violeta... Ela toma as coisas que ela gosta. E se deleita assistindo você perdê-las ...

Um silêncio entre o palhaço e a novata se instalou. Até que Marcus colocou a mão no ombro de Silas.

— Leonel concordou. — Ele fala enfim. — É isso? Nós três?

— Quatro! — Margaret observa. — A Bia vai querer assistir. Tem problema?

Silas se levanta com um sorriso enigmático.

— Vamos para o picadeiro!

23 de setembro de 2026

EDGELORD - Cap. VI - Arco da Perseverança

 A primeira vez que o sangue de Khao correu frio foi aos dezessete anos.

Aos catorze, ele já era uma lenda entre os seus: o garoto-problema que deu o golpe de misericórdia no Grande Carneiro da Montanha, o rito sagrado dos bárbaros. Aos dezessete, sem nenhum guerreiro na tribo que conseguisse mantê-lo no chão, ele subiu a colina rumo ao povoado sob o Castelo de Bearlord procurando o que faltava em seu lar: uma briga de verdade.

Ele espancou alguns soldados rasos e, então, encontrou "o homem". Não um guerreiro de peito aberto como os seus, mas uma montanha revestida em cota de malha, empunhando um martelo de guerra. Lembrava-se de um dos fracotes chamá-lo de “Sargento”. O resto do nome se perdera.

Khao lembrou-se do som de suas próprias costelas estalando antes de ser arremessado do penhasco. Lembrava-se da queda, da água gélida do rio e, depois, do silêncio.

O cheiro de incenso substituiu o cheiro de sangue.

Khao despertou sobre uma maca rústica num monastério distante rio abaixo. Um monge de túnica pálida lhe disse que fora um milagre ter sobrevivido às águas.

Khao pediu para ser aceito entre eles, os Monges do Caminho do Punho de Pedra, que seriam exterminados por Teth Ymosso anos depois. Ajoelhou-se e jurou devoção, fingindo que queria retribuir a salvação. Mas, por trás dos olhos cerrados, o jovem bárbaro só pensava em uma coisa: aprender o caminho dos forasteiros para voltar e quebrar o cabo daquele martelo na garganta do Sargento.


— [Isso é muito inconveniente!] — Gladys falou em minha mente, ressaltando o óbvio.

Xitarro voltou à janela alta, por onde conseguia ver além das muralhas externas. O Capitão Khao andava de um lado para o outro no pátio de pedra, como uma fera que encurralara suas presas.

— Nenhum tenente?!? — perguntei.

— Ele está sozinho! — Xitarro respondeu lá de cima.

— Eles devem estar cercando a fortaleza para nos pegar se sairmos pelos fundos — deduzi. — Conseguimos despistar meu pai, mas o Khao está cagando para jurisdição.

— ... E... — Xitarro pendurou-se ligeiramente para me olhar por cima do ombro. — Que papo é esse de "Sargento"?

— Ah, eles espalharam que eu cuidei de Ga-Shi e dos infiltrados dele — expliquei, dando um de ombros sem modéstia. — Vai ver me promoveram e esqueceram de avisar. Ele bem que podia ter dado as boas-novas lá em Hálcora...

Xitarro encolheu a cabeça num golpe só. Pela cara dele, Khao devia ter olhado exatamente na direção da janela.

Ao nosso lado, o mendigo que arrastáramos pelas ruas finalmente decidiu se mexer. Ele se sentou na cama improvisada, esfregou as sobrancelhas com violência e...

... Fez as duas mãos brilharem em uma luz dourada e suave.

— Isso é Lay on Hands?!? — espantei-me, dando um passo para trás. — Você é um colega paladino, cavaleiro de Cartallas, agregado?

— Dentre outras coisas... — ele resmungou. A voz, pela primeira vez, saiu limpa e firme, embora arrastada. — Não ajuda em nada com a ressaca, o que é uma merda...

— Bem, você deveria ter pensado nisso antes de devastar todas as tavernas do povoado! — tomei a postura de moralista. — É essa a imagem que o Deus da Perseverança quer passar para o mundo?

— Eu persisto, não persisto? — ele retrucou, largando os braços sobre os joelhos.

— Olha, não conheci o Monsenhor de vocês, mas conheci Jack Filler, o Capitão Lizzo — argumentei, compenetrado. — Ele me contou como estava destruído física e espiritualmente e como esta igreja o colocou de pé novamente. Ele é imensamente grato ao Monsenhor. Então, sou obrigado a supor que ele ...

— Não suponha — o "mendigo sóbrio" me interrompeu, encarando-me nos olhos. — Ele ainda é um cuzão.

Fechei o cenho diante de tanta impiedade.

— Ótimo, todos a postos pelo que vejo! — Rúnvald aproximou-se carregando duas espadas nos braços. A visão animou Xitarro a descer da parede e se juntar a nós. — Temos sete acólitos, Sir Veneg da Torre do Martelo, o escudeiro dele... e agora nós dois. Mas acho que esse homem com mão de pedra não pretende entrar.

— Aquele lá fora é Khao de Shén-Li — adverti. — Capitão da Nova Guarda. É casca-grossa!

— Não dá para mandar prendê-lo? — Xitarro arriscou, orelhas baixas. — Por... sei lá... balbúrdia?

— Vocês prendem pessoas por "bagunça" na terra de vocês? — Rúnvald encarou o monge com genuíno espanto. — Isso é ser o "Coração do Mundo" ou "Coação do Mundo"?

— Deixem comigo — dei um passo à frente, inflando o peito. — Ele veio aqui por nossa causa. Mas o Xitarro vai resolver isso agora.

Xitarro assentiu com a cabeça, solene.

Aí a ficha caiu. Ele piscou.

— E... E-EU?!?

— "Sistema de Rivais"! — lembrei, vitorioso. — O combinado na Montanha Morta! O Khao é o SEU rival!

— M... M-mas esse era o Plano B!

— Justo. O Plano A, contudo, era nós três lutarmos juntos — ponderei com calma. — A Amellie não está aqui e eu estou sem minha armadura, então...

O garoto-gato abaixou as orelhas até colar no crânio e engoliu em seco. Respirou fundo.

— T-tá certo... "Plano B", então.

Ele girou nos calcanhares e deu o primeiro passo em direção ao portão principal.

— Xitarro — chamei.

Ele parou, tenso.

— Estou brincando. Eu vou com você.

— Graças a Cartallas! — o monge soltou o ar de uma vez, os ombros despencando de alívio.

Empunhei a espada e passei a marchar ao lado dele rumo ao pátio. Eu ostentava um sorriso confiante no rosto, tendo a absoluta certeza de que iria morrer nos próximos três minutos.

---------------------

No corredor interno, o silêncio retornou assim que os passos dos dois garotos se distanciaram rumo às portas pesadas do santuário.

Rúnvald observou a partida da dupla por alguns segundos antes de se voltar para o homem que permanecia sentado na borda da cama. Sem dizer uma palavra, o cavaleiro firbolg levou a mão ao próprio peitoral e destacou uma peça metálica trabalhada — o fecho adornado com a insígnia oficial de Cartallas, que identificava a autoridade máxima daquele templo.

Ele estendeu a peça na direção do sujeito desalinhado.

— Ainda estou de folga — recusou o homem, afastando o fecho com um aceno seco de cabeça. — Mas vou precisar de uma armadura.

Rúnvald gesticulou com o queixo na direção dos escombros de vidro e madeira entalhada no chão do corredor.

— Não essa — cortou o veterano, massageando as têmporas para dispersar os últimos vestígios da bebida. — É só um sujeito com a mão de pedra do lado de fora. Não preciso dessa fantasia pesada. Só uma mais firme, Adamantina. E já que o desgraçado veio urrando pelo "Sargento"... traga as minhas placas antigas.



Estebán e Àquela seguiam a estrada imperial por onde Khao viera, retornando na direção do entreposto de Poeira da Estrada.

— Devo admitir que sinto pena do Capitão — Estebán comentou, ajeitando a gola e engolindo seco enquanto caminhava. — Quando ele não está obstinado em ser derrotado pelo "Maior Vilão do Mundo"... dá um jeito de tropeçar, dentre tantos sargentos do antigo império... nele?!?

— Há alguma chance dele relevar o desafio de Khao? — Àquela perguntou, ajustando a alça do arco nas costas. — Foi há tanto tempo, os dois passaram por tanta coisa desde então...

— Sabia que ele pleiteou ser um dos Exemplares no passado? — Estebán soltou um riso anasalado. — Eu e Myrlen fomos obviamente contra... E ele ficou furioso. "O Sargento" é um vulcão de orgulho e raiva precisando de muito pouco para ser provocado.

— Um... Exemplar?!? — Àquela só ficava mais preocupada.

— E só foi rejeitado por ser multiclasse, por não ter "pureza" da arte, não por falta de poder bruto. — continuou o Senhor do Sombrio, num tom divertido. — Se eu decidir vestir a Vigília Sombria e marchar contra Shén-Li de novo, posso recomendar colocá-lo na minha vanguarda... Vai ser um espetáculo épico.

Àquela encarou as torres do palácio de Bearlord ao longe, o peito apertado por uma preocupação crescente.

— Deveríamos ir lá... — ela disse, encurtando o passo.

— Nós aparecendo de surpresa no meio do caos de Khao? Primeiro: esta é a típica situação que Bentho usaria para fugir, como em Hálcora — argumentou Estebán, parando na estrada. — Segundo: Khao é orgulhoso, não vai ficar feliz com você interferindo. De Poeira da Estrada, podemos controlar e interceptar se necessário, embora Omar Yarol seja um desestímulo...

Àquela ignorou a ponderação do marido e sacou a esfera mensageira da algibeira.

— Querida, você vai contactar a Amellie?!? — Estebán estranhou, franzindo o cenho. — Isso é altamente irregular! Bentho e Xitarro podem nos flagrar!

— Eu não ligo — cortou ela, ativando o artefato. — O Khao já deve estar lá...

A imagem mágica começou a se projetar no ar e uma voz a interrompeu do outro lado da linha:

— ... Isso é altamente irregular! Bentho e Xitarro poderiam nos flagrar! — Amellie reclamou do outro lado, antes mesmo que a imagem se cristalizasse. — Ei! Àquela! Você voltou a usar uma armadura?!?

— Amellie?!? Você está nos ermos? — a arqueira estranhou, vendo a encosta pedregosa ao fundo da projeção. — Estebán pensou que vocês estivessem no povoado...

— Os meninos estão no povoado... Por sorte — a barda comentou, ajustando a alça de uma bolsa nos ombros. — Devem estar na Igreja da Perseverança... Estão seguros lá.

— Não — Àquela empalideceu, encarando o pátio da igreja à distância. — Lá é o PIOR lugar possível!



Cara... o Capitão Khao estava furioso.

Xitarro travou no arco de acesso ao pátio. Eu dei um empurrãozinho de leve nas costas dele para a gente ganhar o pátio.

— Estou com você, amigo — encorajei, embora a coragem estivesse vacilando em mim mesmo.

Ao pisarmos no pátio, o vento frio das montanhas varreu a poeira entre nós e a silhueta colossal de Khao. Segurei a empunhadura da espada com mais força do que o necessário, erguendo o queixo para sustentar o olhar do Capitão.

— Cruzamos metade do continente, Capitão Khao! — alertei, tentando infundir autoridade na voz, embora o suor frio me descesse pela nuca. — Íamos a Yalatanil ou às fronteiras de Yoriki, e você continuaria no nosso encalço como um pesadelo incansável... Se a intenção era nos perseguir até a Nova Ethiópia, saiba que a corrida acaba aqui! Nós não vamos correr mais!

Uivante, a ventania sobrenatural mais fria das Montanhas, escolheu se manifestar exatamente naquele momento. A poeira se elevou com o ar gélido, cobrindo o pátio com uma tonalidade avermelhada sob o sol forte. Khao ergueu a fronte para nós e disse, com sua voz encorpada e grave:

— Caia fora daqui, Bentho!

Eu... realmente fiquei surpreso.

— Eu disse que não iria mais...

— Só vai embora! — ele berrou, exasperado. — Passo MESES caçando vocês e, no momento em que dou uma pausa para resolver os MEUS problemas, vocês, seus pais... até OMAR YAROL brotam do chão no meu caminho!

— Omar Yarol?!? — Xitarro ergueu as orelhas num salto. — Eu ADORO os livros dele! Ele salvou a Dama Dai e carregou milhares de bebês nos...

— Capitão... — murmurei, num misto contrastante de alívio e indignação, desembainhando e estendendo a Espada Negra. — EU estou aqui! Olha a Gladys... diga "oi, Khao", Gladys.

— [Oi, Khao] — ela falou em minha mente. — [Sabe que ele não me ouve, certo?]

— O que seria mais importante para você cruzar as montanhas se não a Ledgyão? — questionei.

— Creio que seria eu... — Uma voz cavernosa e terrivelmente familiar veio de trás de nós. — Deixem os homens conversarem, meninos.

Olhamos para trás. Era o cavaleiro bêbado.

Ele trazia no corpo uma armadura antiga de placas, desgastada pelo tempo, mas perfeitamente sólida e funcional.

... E empunhava a Avalanche.

Eu quase podia ouvir os ossos da mão de Khao trincando pela força com que ele fechava o próprio punho de pedra.

— O Sargento... enfim.




Da primeira vez, ele tinha vindo até mim porque espanquei dois de seus recrutas.

Desta vez, fui eu quem fui até ele.

Caminhei sob uma chuva fria de verão. As ruas de terra do povoado estavam encharcadas, viradas em poças de água barrenta. Cheguei a cruzar com dois soldadinhos no caminho, mas os ignorei. Eles olharam feio, claro — era um bárbaro andando solto na cidade deles —, mas minha atenção e minha energia estavam reservadas inteiramente para o Sargento.

E lá estava ele. Havia envelhecido bastante em apenas um ano. Bebia com outros homens, gargalhando, fanfarrão.

Dez segundos depois de me ver, ele estava assombrado.

O homem não entendia se havia levado um ou dois socos meus antes de conseguir reagir. Não entendia como eu estava contornando as placas de sua armadura com passos curtos, nem como eu amortecia o impacto devastador do seu martelo usando a rotação do meu próprio corpo. Eu já não era só fúria; era técnica.

Gargalhei alto quando acertei um golpe limpo e vi o supercílio dele rasgar e sangrar.

Dois minutos depois... ele reverteu tudo.

E eu estava com a cara socada no chão, aspirando lama fria e sentir os braços prestes a serem arrancados do corpo enquanto o joelho dele cravava na minha nuca, pesando toneladas.

Só recuperei parte da consciência quando a pata maciça e úmida da ursa apareceu a poucos centímetros do meu nariz. Era o Marquês de Bearlord, montado em Avelã, encarando a cena no meio da tempestade.

Dois soldados precisaram se juntar para puxar o Sargento de cima de mim. Nem a presença e a autoridade do líder dos homens de armadura conseguiam conter a raiva descontrolada dele.

Eu?

Um braço quebrado, pneumonia, e uma ordem expressa para deixar as Montanhas Castanhas para sempre.

Eu não entendia na época o peso das palavras do Marquês. Baixei a cabeça e fingi obediência, mas por dentro eu sabia que aquilo era como tentar erguer uma parede de vento no meu caminho. Eu voltaria para aquele lugar se quisesse... Quando quisesse.

... Quando estivesse pronto.

Conheci Achima e Balmon em Dol'oan; Àquela em Shén-li. Nos unimos contra Lord Blunt... Eu tive uma vida. Acabei ignorando o meu passado.

Meu povo morria na minha ausência.

E o Sargento... permaneceu vivo.


Eu e Xitarro fomos direto para o meio da rua. Não tínhamos motivo nenhum para ficar espremidos entre aqueles dois brutamontes.

O Cavaleiro parecia absurdamente leve, descansando a espada sobre o ombro... E que bela espada era a Avalanche como se...

— [Foque na batalha!]

— Tá, Gladys!

Era como se nenhum dos dois ousasse dar o primeiro golpe. Havia uma tensão no ar... uma fúria contida... Ou talvez um estudo de alto nível, onde cada um avaliava e media os passos do outro.

Khao quebrou o silêncio.

— Você envelheceu muito... — disse, com um tom carregado de deboche. — Você nem se lembra de mim, não é?

— Sei quem você é, não quem foi — o Cavaleiro deu de ombros, indiferente.

— Você me atirou de um PENHASCO! Eu tinha dezessete anos!

Eu... perdi o fôlego. Que... monstro! E eu carreguei esse cara pelo povoado inteiro?!?

— Acho que me lembro... Sim — ele coçou a barba desgrenhada. — Você era um merdinha do Pedermonte, se não me engano...

— E depois você tentou me AFOGAR EM UMA POÇA DE LAMA! — Khao ergueu o punho de concreto com pura raiva, quase espumando.

— O... O monge?!? — O Cavaleiro fez menção de gargalhar. — Juro por Cartallas que até este exato momento eu achei que eram DOIS BOSTINHAS diferentes da montanha!

— Seu cretino! — Khao estava fumegando.

— Meu jovem, você mereceu cada pedaço do que recebeu... Você era difícil-e-meio! — O Cavaleiro começou a caminhar calmamente pelo pátio, sem buscar nenhuma cobertura. — Mas realmente não foi esse o motivo pelo qual fiz o que fiz. E acho que foi justamente isso que te trouxe até aqui agora. É o máximo de desculpas que você vai conseguir extrair de mim.

— Posso me contentar em extrair o seu sangue, então... — Khao esticou o pescoço tenso. Ouviam-se estalos secos, como se uma placa continental estivesse se assentando sob sua pele.

O Cavaleiro balançou a cabeça pesarosamente.

— Bem, o meu passado querendo cobrar conta... — resmungou. — Acredite, rapaz... você não precisa disso.

— "RAPAZ"?!? — Aquela palavra engrenou algo em Khao, que berrou a plenos pulmões: — Eu sou Khao, o Invicto de Pedemonte! O Campeão do Levante de Blunt! Eu duelei pessoalmente contra o Senhor do Sombrio! Sou o Fundador da Nova Guarda de Shén-Li! Eles me chamam de O Colosso das Montanhas Castanhas! o Homem Mais Forte de Shén-li! É ISSO que está na sua frente, não um "rapaz"!

O Cavaleiro parecia se segurar com todas as forças para não pedir para ele falar baixo por causa da ressaca.

— Tá... perdão... — esfregou as têmporas, a voz carregada de ironia. — Vou levar tudo isso em conta, "senhor".

Khao soltou um riso seco.

— E você? — o Capitão provocou, enfim. — O que fez nos últimos dezoito anos?

O Cavaleiro foi extremamente teatral.

— Bem... fiquei muito bêbado... uma vez por ano... Maldição de Ênia, a deusa-vaca da vida para "meu bem" de alguma forma... — Olhou de relance para mim e para o Xitarro. — E também...

Ele olhou quase perdido ao longo do pátio, até encarar a estrutura atrás de si mesmo, como se estivesse "surpreso". A igreja-fortaleza.

— Ah, sim, claro... — falou, por fim. — Eu levantei essa igreja.

Khao gargalhou, posando as mãos na cintura.

— Ah, virou um pedreiro?!? Bem apropriado para os seus talentos...

O Cavaleiro congelou. Um ar sombrio e pesado tomou conta de seu rosto.

— Eu ouvi essa mesma piada antes... E não gostei.

Algo na atmosfera mudou drasticamente. Khao parecia sentir também.

— Você... entrou para a Cavalaria de Cartallas? — Khao deu um passo atrás, franzindo o cenho.

— Eu disse que eu levantei essa igreja.

— Esse templo em particular? — Khao insistiu, a voz perdendo a certeza. — A fortificação?

O Cavaleiro parou de responder. O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.

— Você... Não pode ser "aquele" Capri — o Capitão finalmente pareceu juntar as peças, os olhos arregalados. — Você é...

— Capri Mordman.

Uma pausa.

— Último oficial da infantaria de Glen Bearlord. Primeiro Devoto de Cardullion. Libertador de Portos Dourados. Destruidor do Império. Flagelo de Titã... e Monsenhor da Igreja da Perseverança.



18 de setembro de 2026

[Monstro da Semana] o Twmauff

 

TWMAUFF, O Devorador de Duas Bocas


Uma criatura que nunca precisa escolher entre morder e agarrar.

O Devorador

Há predadores que perseguem suas presas. Há predadores que esperam. O Devorador de Duas Bocas faz algo muito mais simples: ele deixa que a presa se aproxime.

A criatura possui uma anatomia que parece ter sido montada sem qualquer preocupação com proporções naturais. Seus membros são compridos demais, os dedos terminam em garras estreitas e seu corpo parece incapaz de permanecer completamente ereto. A cabeça é dominada por um único olho enorme e uma boca cheia de dentes finos.

A segunda boca é mais difícil de perceber.

Ela se encontra no abdômen, escondida entre dobras de pele e músculos. Normalmente permanece fechada, parecendo apenas uma cicatriz vertical. Quando o Devorador encontra uma criatura suficientemente próxima, entretanto, a abertura se rasga e revela uma segunda mandíbula.

"A primeira boca faz você olhar para o rosto. A segunda faz você perceber que já está perto demais."

— Ser Calven, explorador desaparecido nas ruínas de Vhal

Dois Instintos

As duas bocas não parecem obedecer exatamente ao mesmo impulso. A boca da cabeça procura carne. A boca do abdômen procura movimento.

Quando caça, o Devorador alterna entre esses dois impulsos. Às vezes concentra sua atenção em ferir uma vítima. Em outras ocasiões, usa a mandíbula inferior para prender uma criatura enquanto seus braços longos procuram outra.

Essa diferença torna seu comportamento particularmente perigoso. Uma pessoa que aprenda a evitar uma das bocas ainda precisa lidar com a outra.

Caçadores das Ruínas

Devoradores costumam ocupar lugares onde criaturas maiores não conseguem persegui-los com facilidade: corredores estreitos, ruínas abandonadas, túneis, porões e construções parcialmente destruídas.

Eles não constroem tocas elaboradas. Preferem encontrar um lugar suficientemente escuro, permanecer imóveis e esperar que alguma criatura passe ao alcance de seus braços.

Uma vez que tenham encontrado alimento, dificilmente abandonam uma área enquanto houver presas disponíveis.

Devorador de Duas Bocas

Monstruosidade Média, tipicamente caótica e maligna
Classe de Armadura 15
Pontos de Vida 110 (13d8 + 52)
Deslocamento 12 m, escalada 9 m
FOR DES CON INT SAB CAR
16
(+3)
18
(+4)
18
(+4)
6
(-2)
12
(+1)
8
(-1)
Testes de Resistência Des +7, Con +7
Perícias Acrobacia +7, Percepção +4, Furtividade +7
Sentidos visão no escuro 18 m, Percepção passiva 14
Idiomas —
Desafio 5 (1.800 XP)
Bônus de Proficiência +3

Traços

Olho Predador. O Devorador não pode ser surpreendido enquanto estiver consciente. Além disso, ele tem vantagem em testes de Sabedoria (Percepção) baseados em visão.

Duas Bocas. O Devorador possui duas bocas independentes. Cada uma delas pode realizar ataques de Mordida.

Fome. No início de cada turno do Devorador, escolha uma das duas bocas para manifestar sua fome. Até o início do próximo turno do Devorador, a primeira vez que essa boca atingir uma criatura com Mordida, ela produz o efeito correspondente abaixo.

Fome de Carne

A mordida causa 4 (1d8) de dano perfurante adicional.

Fome de Movimento

O alvo deve ser bem-sucedido em um teste de resistência de Força CD 15 ou fica agarrado pelo Devorador. O Devorador pode ter apenas uma criatura agarrada dessa maneira por vez.

Ações

Multiataque. O Devorador realiza dois ataques, usando qualquer combinação de Garra e Mordida.

Garra. Ataque Corpo a Corpo: +7 para atingir, alcance 3 m, um alvo. Acerto: 9 (1d10 + 4) de dano cortante.

Mordida. Ataque Corpo a Corpo: +7 para atingir, alcance 1,5 m, um alvo. Acerto: 11 (2d6 + 4) de dano perfurante. O ataque pode ser realizado pela boca da cabeça ou pela boca do abdômen.

Reações

A Outra Boca. Quando uma criatura a até 3 m do Devorador o atinge com um ataque corpo a corpo, a boca que não realizou uma Mordida durante o turno atual pode realizar imediatamente um ataque de Mordida contra o atacante.

Esse ataque não recebe nenhum benefício de Fome.

Como o Devorador Caça

Um Devorador de Duas Bocas raramente inicia uma luta correndo diretamente contra o grupo. Ele prefere observar durante alguns segundos, escolher uma vítima e então avançar de maneira abrupta.

Primeiro movimento.
O Devorador tenta chegar a uma criatura isolada. Seus braços longos permitem que ele ataque de uma distância inesperada, enquanto seu deslocamento de escalada permite que utilize paredes, ruínas e estruturas elevadas para se aproximar.
Quando escolhe a Fome de Carne.
Ele procura causar o máximo de dano possível com a primeira mordida. A boca escolhida se abre completamente antes do ataque, oferecendo aos personagens um sinal visual de que aquela boca está particularmente faminta.
Quando escolhe a Fome de Movimento.
O Devorador procura uma criatura que esteja tentando escapar ou que esteja protegendo outro membro do grupo. Depois de agarrá-la, usa seus braços compridos para impedir que outros personagens se aproximem com facilidade.
A Outra Boca.
Atacar o Devorador de perto nunca é completamente seguro. Mesmo quando um aventureiro consegue acertar a criatura, a segunda mandíbula pode se abrir e responder imediatamente.

Sinais de um Devorador

Antes de encontrar a criatura, os personagens podem perceber sinais de sua presença.

  • Marcas de quatro dedos extremamente compridos nas paredes.
  • Objetos deslocados para lugares onde uma criatura normal não conseguiria alcançá-los.
  • Marcas de dentes em cadáveres que parecem ter sido mordidos de duas direções diferentes.
  • Ruídos de respiração vindos de um corredor vazio.
  • Um estranho som úmido vindo de dentro das paredes.

O último sinal costuma ser o mais confiável.

Se os personagens ouvirem duas respirações vindas da mesma criatura, já estão perto demais.

Usando o Monstro

Um Devorador funciona melhor quando o terreno oferece obstáculos, diferenças de altura ou espaços relativamente estreitos. Ele não precisa de uma arena especialmente preparada: corredores quebrados, ruínas, escadarias e passagens parcialmente desabadas já oferecem oportunidades suficientes para sua anatomia incomum.

A criatura também funciona bem acompanhada por predadores menores. Enquanto outras criaturas ocupam a atenção dos personagens, o Devorador procura uma vítima que tenha ficado isolada.

Se estiver sozinho, ele não luta necessariamente até a morte. Uma criatura gravemente ferida pode subir por uma parede, desaparecer por uma passagem estreita e retornar quando perceber que a caça voltou a ficar favorável.

15 de setembro de 2026

A Grande Audiência

 

​A GRANDE AUDIÊNCIA

​Patrono Arquifada para Bruxos

​“Não olhe para as cortinas.”

“Não há cortinas.”

“Exatamente.”

​Natureza

​Ela não tem um reino; tem um espetáculo. A Grande Audiência é uma Arquifada cujo domínio é um carnaval interminável nos espaços entre os sonhos e a realidade. Ela não governa por leis, mas por atenção. Não deseja almas ou riquezas: deseja algo memorável. E, acima de tudo, exige que alguém esteja olhando.

​Aparência

​Raramente vista de forma direta, manifesta-se como uma mulher na última fileira de um teatro vazio, um camarote sem paredes, ou uma silhueta com um vestido de gala e véu de estrelas. O detalhe constante? O som de aplausos invisíveis.

​Personalidade e Interesses

​A Grande Audiência não busca o mal, busca uma boa cena. Moralidade é secundária; o que importa é a tensão, a surpresa e a consequência.

​Aprecia: Reviravoltas, traições dramáticas, sacrifícios e heróis que persistem.

​Detesta: Repetição, covardia narrativa e, acima de tudo, o tédio.

​O Contrato e o Poder

​Ela não oferece pactos escritos, mas papéis (como O Sobrevivente, O Traidor ou O Último a Rir). Seus bruxos não são servos, são Atrações. Recebem magia para escapar de situações impossíveis, virar o jogo em momentos cruciais e garantir que o espetáculo continue.

​Manifestações

​O Aplauso Distante: Ecos de palmas quando um feito dramático é realizado.

​As Lanternas Violetas: Luzes misteriosas em reflexos e janelas.

​O Intervalo: Uma pausa repentina no mundo para permitir uma fuga teatral.

​O Silêncio da Plateia: O pior sinal de todos — quando ela está apenas esperando.

​O Preço

​O preço cobrado é o significado. Ela pode exigir que o bruxo persista em uma história inacabada, poupe um inimigo ou faça a escolha mais difícil. O maior terror de um Bruxo da Grande Audiência não é a morte, mas tornar-se desinteressante.


SILAS RICTUS.



14 de setembro de 2026

EDGELORD - Cap. V - Arco da Perseverança

Ao contrário do castelo suntuoso no topo da colina, aquela igreja-fortaleza usava rochedos terrosos, extraídos diretamente de pedreiras locais. Seus paralelepípedos eram um tanto irregulares, mas ocupavam a área de forma inteligente, sem firulas ou ostentações desnecessárias. A estrutura austera lembrava o Forte Shan, em Shén-Li — ampla, funcional e desenhada para ser defensável a qualquer custo.

Eu realmente não conseguia encará-la como uma "igreja" tradicional. Mas havia algo ali... um peso no ar. Talvez eu estivesse apenas sendo sugestionado pela história da região? Afinal, apesar de Pallas ser um dos deuses mais antigos e reverenciados do continente, tudo ali começara com Cardullion, o Bode Bárbaro — um deus de quem ninguém esperava nada e a quem ninguém dava valor. Talvez essa essência humilde tivesse moldado as fundações do lugar.

O que estou dizendo? Eu não precisava especular: eu podia comprovar.

— Xitarro... — pedi, indicando a quina de uma construção vizinha. — Vigia nosso amigo inconsciente por favor.

O monge acomodou o homem deitado numa quina coberta de sombra. Aproximei-me e o ajudei a posicionar o sujeito de forma mais confortável contra a parede de pedra.

Só então caminhei até o meio da rua.

Fechei os olhos por um segundo e os esfreguei com força. Quando os abri, canalizando o dom que o meu juramento me concedera, a poeira e a lama da realidade se dissiparam. Eu via as galáxias e as correntes etéreas fluindo entre nós e o infinito.

Agora, eu via a igreja exatamente como ela deveria ser. 

Dizem que os deuses da radiância são associados à cor azul, como a Trindade das Aves em Shén-Li. Ali, porém, apesar do marrom poeirento que dominava todos os aspectos do solo e das paredes, a luz mística que emanava das rochas era de um verde profundo e pulsante — a marca inconfundível dos deuses da natureza e da resiliência primordial. Eu imaginara que encontraria o vermelho, sinal dos deuses da guerra... mas não. Era uma energia em estado puro e natural.

A aura parecia uma aurora boreal emergindo do topo das torres quadradas, serpenteando e fluindo entre os mourões e os arcos de pedra como se o próprio vento tivesse se tornado visível.

É... dava para perceber que aquele templo não fora erguido sem dificuldade. Houve gente empenhada em tornar o caminho mais complicado do que precisava ser. Ainda assim, a Igreja da Perseverança ficara de pé. Sobrevivera a obstáculos que pareciam ter exigido mais paciência do que deveriam, a implicações pequenas demais para merecer tanta atenção e a situações que, em vez de testar a fé, pareciam testar quanto tempo alguém conseguia continuar tentando antes de perder a vontade de viver. Mas eles perseveraram. Talvez fosse essa a parte mais importante daquela história: não fora uma construção favorecida pelo destino ou pelo caminho fácil. Fora uma construção que persistiu apesar dele.

Quando a visão mística se esvaiu e o efeito do juramento passou, pisquei e voltei para onde Xitarro esperava. O mendigo gigante estava sentado, coçando a barba emaranhada.

— É real, amigo — falei para o monge, sentindo um nó na garganta pela solenidade do que vira. — Eu vi o peso que está cravado nessas pedras. E... espere. Quando foi que o nosso agregado acordou?

— Ele esteve acordado o tempo todo — respondeu Xitarro calmamente, ajustando sua postura. — Pediu para eu lhe dar um tempo enquanto você olhava para o nada...

— Bem... obrigado — sorri para o grandalhão, que apenas encarou a fachada do templo e soltou um arroto ressoante que estremeceu o ar da rua. — Agora, vamos ver o que este prédio pode fazer por você.


Àquela observava a estátua da frente, a mais protuberante do conjunto. Era uma entre treze, cada qual com quatro metros de altura, esculpidas com um talento moderado. Ainda assim, uma delas parecia terrivelmente familiar.

— "A Honra da Infantaria Pesada de Bearlord" — traduziu Estebán, lendo a placa em entalhes arcaicos. — No idioma dos anões de Dol'oan. Era a elite de Glen Bearlord, os únicos capazes de ter executado o ataque preventivo que garantiu a vitória dele... derrubando o castelo de cartas de Cyrak. Militarmente falando, foi algo ousado e brilhante, mas...

— Cruel — completou Àquela, num tom baixo. — Não valeu a pena.

Estebán preferiu não contestar. Então, desconversou.

— Agora, sabendo o que sei de Amellie, tudo faz sentido — o Senhor do Sombrio ergueu os olhos, acompanhando o traçado da estrada. Em menos de meia hora estariam no povoado. — A presença da Gladius Aeternum é intensa, mas isso a torna confusa. Difícil de ver com precisão. A lâmina está tentando se ofuscar e eu achei que era a distância desde meu pacto... Bem, eu estou fazendo o mesmo agora. Ela não sabe quão perto estamos.

— Ela sabe que chegaremos, mas não quando? — confirmou Àquela.

— Sim. E agora vem a parte mais difícil... Ao menos para você, querida.

A arqueira baixou o semblante.

— Pensei que iríamos apenas os seguir à distância...

— Gladius Aeternum conhece minhas capacidades. Eu eventualmente iria deduzir que ela me rastreia, e estaria articulando o grupo para se mover assim que eu me aproximar demais. Queria poder afirmar com certeza que eu mesmo concluiria isso por conta própria, mas, se aquela espada tentar algo contra Bentho, esta distância atual é inaceitável.

— Isso não interfere na tal "profecia"? — Àquela questiona.

— Nada interfere.

— E eu terei de ir sozinha?

— Como em Hálcora — ele confirmou. — Ela não pode rastrear você, e vai deduzir que eu estou usando das regras do jogo contra ela. E você não vai tentar conversar desta vez... vai agir. Sem tempo para confusões ou fugas.

— Você está me mandando disparar flechas em nosso filho... sabe disso, não é?

— Se ele estiver vestindo a armadura, não precisa se segurar. A Vigília Sombria vai protegê-lo — comentou Estebán. — Mas eu tive uma ideia melhor.

— Que bom... — ela suspira, aliviada por um segundo.

— Capture o garoto-gato.

A arqueira ergueu as sobrancelhas, pega de surpresa.

— O Catfolk é absurdamente rápido e imprevisível — explicou o Senhor do Sombrio. — Mesmo se você conseguir imobilizar o Bentho, não vai conseguir escapar do felino. Mas se você capturar o rapaz e fugir com ele, eliminando a vantagem da velocidade do trio... Bentho virá atrás de você sem pensar duas vezes. Corra na minha direção e "a gladis" não terá opções de manipulação. Com nós dois juntos, asseguraremos o garoto.

— "Sequestrar o melhor amigo para atraí-lo a uma armadilha"... — Àquela soltou um riso sem humor, com evidente desgosto. — Esse é o "Lord Blunt" de quem eu me lembro.

— E se for este o Lord Blunt de quem Gladius Aeternum espera... manteremos o disfarce de Amellie impecável — pontuou Estebán. — E isso tira um pouco da carga do segredo de Amellie.

— Eu ainda... — Àquela voltou a encarar as estátuas de pedra. — Não consigo afastar a sensação de familiaridade dessa estátua...

— Khao.

— Não, Estebán, não é ele! — Àquela forçou a visão sobre a fisionomia do guerreiro esculpido. — Khao jamais conseguiu ter uma barba, então...

— Eu digo que Khao está se aproximando.

Àquela deu um salto, sobressaltada.

Pela estrada coberta de poeira, aproximava-se o Capitão da Nova Guarda. Olhar duro e fixo para a frente, passos lentos, contidos e pesados.

— Agora não... — resmungou Àquela. — Bentho está tão perto...

— Eu... não sinto a presença dos Tenentes — Estebán parecia genuinamente preocupado. — Rhoy eu concebo que consiga se esconder adequadamente, mas...

— Ele não pode saber que o Bentho e os garotos estão aqui... — comentou Àquela. — Vamos atraí-lo para o penhasco do Norte e despistá-lo.

— Esta é a terra nativa de Khao — cortou Estebán. — Ele a conhece melhor do que nós, despiste é inviável. Ele pode interferir e Bentho escapará na confusão de novo. Isto termina aqui.

Estebán começou a marchar firme na direção do capitão.

Ele sentia que algo estava profundamente diferente. A aura ancestral do bárbaro sobrepunha-se à do soldado. O fato de estar aparentemente sozinho pesava. E, diferente de todos os outros inimigos de Lord Blunt, Khao vivera por demais. Ponderara e martelara cada derrota ao longo dos anos. Mesmo com a abissal diferença de poderes entre eles, o Senhor do Sombrio respeitava aquele que mais tempo se dedicara ao preparo do duelo.

O homem que esperou por dezoito anos.

Foi então que algo segurou a mão de Estebán, impedindo-o de ir de encontro ao seu caçador.

A mão de sua esposa.

— Não lute — disse ela, enfim. 

— Você... — Estebán virou-se, confuso. Remeteu a quando ele fez tal pedido à esposa na Montanha Morta. — Tem certeza de que quer tentar desta vez? Eu compreendo que...

— Está diferente — comentou ela, a voz suave. — Ele está sentindo dor.

— Àquela... ele é perigoso e imprevisível — insistiu Estebán, tensionando os ombros. — Vocês dois se feriram muito no passado. Eu posso assumir esta luta.

— Não haverá luta.

Àquela segurou as duas mãos do esposo e, mantendo o olhar firme no horizonte, começou a marchar sozinha na direção do capitão.

Demorou alguns passos para que Estebán percebesse, assombrado, o que a esposa acabara de depositar em suas mãos desarmadas.

O próprio arco dela.


— Sacrilégio! — gritou Xitarro, apontando para o pórtico do templo com o rosto pálido.

— O... O quê?!? — O cavaleiro à nossa frente se assombrou.

— Ele quis dizer "Santuário", não "sacrilégio" — corrigi rapidamente, puxando o monge pelo ombro. — Nós três viemos pedir a proteção de Cartallas.

Um cavaleiro e dois acólitos se aproximaram a passos firmes. Sem fazer perguntas, a dupla de acólitos partiu para nos substituir, tomando o pesado e semiconsciente mendigo para dentro da fortificação. Não emitiram um único resmungo sobre o peso... deviam estar com a musculação em dia.

— Cartallas vai agradecer-lhes, forasteiros — o cavaleiro falou por fim, encarando a cena. — Entrem. O Santuário está concedido. Vamos trazer um pouco de água... vocês parecem exaustos.

Xitarro deu um sorriso aliviado para mim. Quase podia ler sua mente dizendo "nós conseguimos"... Mas eu me detive no limiar da porta.

— N-nós dois estamos armados — comentei, indicando a espada e minhas adagas. — Precisam reter as...

— Bobagem — o cavaleiro deu de ombros. Tratava-se de Rúnvald, um firbolg alto e corpulento de pelagem castanho-acinzentada, com cabelos longos e desgrenhados presos atrás da cabeça. O rosto era largo, de traços bovinos e gentis, com pequenos chifres curvados para trás. Seus olhos tinham uma expressão tranquila, quase sonolenta, mas extremamente observadora.


— Shén-Li, correto? Sou excelente com sotaques — continuou Rúnvald. — Seu Aetíades exige que entrem desarmados?

— Bem, sim — respondi.

— As terras de Bearlord ainda estão sendo acalmadas — ele riu, sem dentes. — Só alguém com merda na cabeça não tem uma...

Xitarro soltou um riso de puro nervoso.

— A-algum problema? — Rúnvald franziu os chifres.

— O senhor falou... "mer..."... numa igreja... — o garoto-gato justificou-se, ainda atônito.

— E...? — O cavaleiro divertiu-se com a ingenuidade. — Teme que Cartallas vá jogar um raio na minha carrapeta por causa de um palavrão?

— "Carrapeta"? — Xitarro estranhou a palavra.

— Eh... — interferi, limpando a garganta. — É o mesmo que "cu".

Xitarro desabou na gargalhada, cobrindo a boca.

— Ele tem quatorze anos — expliquei para o firbolg. — A "quinta série" dele acabou de cumprimentar a "quinta série" do senhor.

— Sem problemas... — O firbolg estendeu a mão enorme para o monge. — Você se encrenca mais com Cartallas se o chamar de "bonito" com fingimento do que se chamar ele de "arrombado" com sinceridade.

Xitarro caiu na gargalhada de novo, a ponto de eu precisar segurá-lo pelo cotovelo para ele não tropeçar no próprio rabo.

— Isso é tão errado... — o felino arfava, quase sem fôlego. — Me desculpe!

Enfim, entramos.


Estebán estava tenso. A esposa, desarmada, estava diretamente no caminho do implacável Khao. A diferença de estatura entre os dois era tremenda; ele parecia uma montanha prestes a esmagar uma flor de sal.

— Khao... você está bem? — ela começou, tentando manter a voz firme. — Onde estão seus tenentes? Algo aconteceu com eles?

O capitão não disse uma palavra.

— Fale comigo, Khao! — ela insistiu, dando um passo à frente.

O gigante parou. Mais um único passo e ele trombaria na loira. Ele se detinha por um segundo, os olhos escuros fixos nela, sem piscar.

Então, deu um passo para a esquerda.

E continuou em sua marcha silenciosa.

Estebán por um instante pensou que ele era o próximo destino. Seus olhos se cruzaram com os do capitão por uma fração de segundo, mas o capitão estava mesmo afetado: não havia ali a prepotência característica, nem a fúria ocasional de um bárbaro. Havia um vazio absoluto no semblante do homem.

O Senhor do Sombrio deu ele mesmo um passo para o lado, permitindo que o gigante seguisse além dele, incólume.

Àquela foi logo atrás, precisando apressar o passo para alcançá-lo. Estebán apenas observou de longe, intrigado. O Capitão a ignorou por longos metros, até que enfim parou.

Seu olhar repousou sobre as estátuas — os monumentos na entrada do povoado de Bearlord. Concentrou-se especificamente no homem barbudo representado na estátua da frente.

— Você conhecia esse homem? — Àquela arriscou, aproximando-se com cautela.

— Conheço... — A voz de Khao finalmente saiu. Parecia vir do fundo de uma caverna; grave, arranhada, nada familiar.

Àquela observou melhor aquela representação em pedra. Com um refinamento limitado de lapidação, exibia uma armadura de cota de malha reforçada com placas e rebites. Representava um sujeito consideravelmente encorpado. Ela deduziu tratar-se de um dos oficiais do antigo exército de Glen Bearlord...

... E, de repente, Àquela se lembrou das antigas conversas sobre o passado.

De quando Khao e ela não atiravam flechas, barris e beholders um no outro. De quando a farda não pesava tanto e Khao se permitia ficar vulnerável e nostálgico ao redor de uma fogueira.

— É o "Sargento"? — ela perguntou, sentindo um aperto no peito. — É esse o homem que fez você deixar o seu lar?


Khao teve uma reação quase espasmódica, como se acordasse trancado de um transe. Ele olhou para a sua antiga companheira de armas e declarou, seco:

— Volte para casa e se entregue, loira — ele resmungou. — Ou não. Eu não ligo.

Khao voltou a caminhar, contornando as estátuas e avançando em linha reta rumo ao povoado. Àquela assistiu em choque, imóvel onde estava.

Enfim, Estebán se aproximou devagar e colocou a mão no ombro da esposa.

— Eu estou legitimamente sem explicação — ele falou, franzindo o cenho. — O que foi isso?

— Ciúmes, Estebán? — Àquela comentou, sem desviar os olhos das costas do gigante. — Com medo de não ser mais o maior inimigo de Khao?

— O quê?!?

— Desculpe... — Ela esfregou as sobrancelhas, soltando um suspiro pesado. — É algo pessoal para ele. Ele tem uma rixa mortal com um desses soldados...

— Historicamente falando... Sabe quem é o único "soldado" do antigo exército de Glen Bearlord que sobreviveu à guerra, não sabe? — O Senhor do Sombrio comentou, a voz caindo num tom sombrio.

Àquela se assustou. As peças se encaixaram com uma clareza aterrorizante em sua mente. Ela o conhecera... lá em Yalatanil.

— Não... Não pode ser aquele sargento! — Ela empalideceu no mesmo instante, encarando o marido com os olhos arregalados. — Khao pode estar em perigo!


Rúnvald nos fez atravessar um micropátio antes do salão de missas, que ocupava pelo menos metade do espaço total da igreja.

Bancos organizados em quatro fileiras, separados por três alas com tapetes rústicos, concentravam a atenção em um pódio num palanque ligeiramente elevado, acompanhado por arcos que levavam ao interior do templo. Uma galeria funcional estendia-se tanto no térreo quanto no segundo piso. Fomos guiados à esquerda, para uma reentrância com uma cama improvisada, um balde ao lado e o cheiro de incensos de canela fortes tentativa de diminuir o fedor de gororoba e cerveja choca. O manguaceiro já estava lá, sendo acomodado pelos acólitos.

— Não vão dar algum energético ou um "lay-on-hands" para ajudar o cara? — perguntei, vendo o estado do sujeito.

— Ele vai estar bem em duas horas... — Rúnvald comentou displicentemente. — Uma vez por ano... Estamos acostumados.

De novo?!? O que diabos era aquilo? Mantra?

— Bem, se não for incômodo... — adiantai-me, ajeitando o cinto. — Como conseguimos uma audiência com o Monsenhor?

Rúnvald parou, atônito, encarando-me de cima a baixo.

— Sério? — Será que eu falei alguma coisa errada? Minha heráldica era péssima... vai ver o homem mais foda da igreja precisa de mais que estranhos chamando ele.

— ... Só se ele não estiver indisposto no momento — tentei aliviar a ousadia.

— Pode-se dizer que ele está bastante indisposto no momento — Rúnvald soou terrivelmente irônico. — Mas certamente vocês serão os convidados dele para o almoço. Querem um tour pelo arsenal enquanto esperam?

— Você disse... Arsenal? — Eu sussurro assombrado, e ciente da ironia.


Então, virando a quina do corredor, entendi exatamente onde estávamos.

— Essa é a armadura do Monsenhor?!? — espantei-me.

Era uma vitrine de madeira escura e vidro, embutida contra a parede de pedra. Dentro dela, exposta sobre um suporte quase invisível, repousava uma armadura completa.

Extremamente pesada. As placas de aço eram prateadas, polidas pelo tempo e cobertas por ornamentos gravados nos ombros, peitoral e pernas. O desenho mais chamativo estampava o peito: uma cabeça de bode com grandes chifres curvados. O rosto metálico parecia quase vivo, com olhos estreitos e uma expressão severa. Por baixo, tecidos verdes e castanhos ricamente bordados sobressaíam-se; um manto escuro caía pelas costas, enquanto uma longa faixa branca trazia bordado o símbolo de Cartallas, grande o suficiente para ser visto a léguas.

— É a cerimonial e de tempos de guerra total, mas não viu tanta ação assim — comentou o firbolg. — Mas se quer ver o que derrubou Caruthers e o Titã que aprisionou Phyrros, o Deus do Fogo... está ali atrás.


Espadas largas eram a minha especialidade. E aquela coisa enorme... era quase um escudo com pomo e cruzeta. Um ricasso protuberante, uma gema redonda azulada e três tipos de metal diferente ao longo da lâmina. Mesmo assim, exibia trincas que indicavam ter sido testada até o limite. Aquela lâmina viu ação...

Diferente da armadura, não havia proteção para ela. A lâmina estava apenas recostada sobre a parede de pedra. Na base, uma placa de latão trazia a inscrição:

— "Avalanche!" — suspirei. — Parece bem pesada...

— Mais ainda — Rúnvald riu, cruzando os braços. — Quer tentar levantar?

— Você não vai se encrencar? — insisti.

— Preocupado se alguém invadiria esta fortaleza, pegaria a espada pessoal do Monsenhor e fugiria? — Ele deu de ombros. — Se alguém conseguisse tal feito, seria um homem que não conseguiria dormir em paz sabendo quem o caçaria. Já eu... Só acho que você não a tira do chão.

Bem, eu não a levantaria aquela lâmina... se fosse uma questão puramente muscular.

Mas eu sou um Hexblade. É a força da minha personalidade e da minha determinação que guia e empunha a minha lâmina.

Para o absoluto choque do Cavaleiro Rúnvald, segurei o cabo de Avalanche com uma única mão e, num arranco limpo, a ergui bem acima da minha cabeça!

— [Não fique convencido...] — Gladys resmungou dentro do meu crânio, ciumenta como sempre. — [É só uma tábua de ferro velhaca!]

— Não... não é uma tábua... — murmurei, sentindo o ar rarefazer.

Imediatamente, o meu corpo... o chão... o corredor inteiro começaram a vibrar.

— Isso é impossível! — Rúnvald exclamou, descruzando os braços num salto. — Você sintonizou com a Avalanche?!?

— [Uma barra de ferro convencida e sem personalidade! Não é um verdadeiro artefato como eu!] — Gladys insistia em minha cabeça, mesmo eu estando maravilhado. — [Só deixa essa tranqueira aí!]

— Bentho... — Xitarro chamou baixinho, as orelhas dobradas para trás. — Abaixe isso aí!

— Isso é vento?!? — perguntei, sentindo os cabelos levantarem. — Não... é Gravidade! Ela... Ela gera a sua própria gravidade?!? É como ter uma montanha nas minhas mãos e...

Tentei baixá-la... Mas o peso gravitacional me puxou rápido demais.

BOOM!

A ponta da lâmina atingiu o piso de pedra. Uma onda de choque invisível e devastadora estendeu-se em pulso pelo corredor.

Quadros nas paredes despencaram.

A vitrine de madeira e vidro da armadura do Monsenhor estilhaçou-se em mil pedaços.

O balde de vômito do mendigo voou e rolou por cima de Xitarro — que só não foi banhado pela gororoba porque usou seus reflexos felinos para dar um salto mortal para o lado. Apenas a cama de madeira maciça onde o bêbado ressonava era pesada demais para ser lançada ao ar.

Um silêncio constrangedor e denso tomou conta do corredor coberto de poeira e cacos de vidro.

Rúnvald caminhou devagar, tomou a espada da minha mão sem dizer uma palavra e encarou o estrago. Por fim, suspirou:

— Eu vou pegar algumas vassouras.

— Nós vamos ajudar na limpeza... — comentei, engolindo em seco.

— Obviamente — ele corrigiu, apontando o dedo na minha cara. — As vassouras são para vocês!

Eu e Xitarro fomos deixados lá, a sós com o mendigo e a bagunça.

— Bentho... — Xitarro censurou, limpando a poeira dos ombros. — Parece o navio dos Piratas Solares de novo... Vão precisar amarrar você?

— Agora também são piratas... — o bêbado resmungou virando de lado e puxando o balde de volta. — Que turminha, menina!

— Bem, a culpa foi deles por nos dar santuário sem perguntar primeiro... — brinquei, tentando aliviar o peso da culpa. — Mas depois de tantas confusões, entre o Castelo Negro, Huo-Fen, Hálcora, o pântano, a Montanha Morta e a Mansão de Cyrak, eu acho que peguei o padrão.

— E qual seria?

— Um: Eu faço algo, dois: Dá confusão... — fui enumerando nos dedos. — Três: Tento fazer algo para dirimir, a confusão aumenta... E repete. Mas se a gente só aceitar a confusão que já fizemos, a coisa não piora. Concorda?

Xitarro coçou o queixo, avaliando a lógica duvidosa.

— Você consegue ficar parado?

— Vou considerar o desafio — puxei dois bancos de madeira do canto do corredor. Sentei-me em um e ofereci o outro ao monge.

Nos sentamos em silêncio, esperando Rúnvald voltar com as vassouras. Ou que Amellie aparecesse com a etiqueta e o bom senso que nos faltavam...

... Até que fomos sobressaltados por um urro monstruoso vindo do pátio externo:

— SARGENTOOO!!!

— SAIA AQUI FORA, SEU MERDA!

Eu... estava horrorizado. Sentira o chão da igreja tremer sob a vibração daquela voz.

— Eu... conheço essa voz — murmurei, com o sangue congelando nas veias.

Xitarro levantou-se num salto, escalou a parede de pedra com a agilidade de um felino e espiou por uma janela longa e estreita, três metros acima de nós. Quando desceu, caiu de pé, mas com o rosto completamente pálido.

— É... — disse ele, a voz falhando ligeiramente. — Ficar parado não ajudou. O Capitão Khao nos achou.