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28 de maio de 2026

EDGELORD - Cap. I - Arco da Montanha Morta

 A antiga estrada de mineração surgiu aos poucos sob a lama do pântano.

Primeiro vieram pedras dispersas entre o lodo. Depois marcas retas demais para serem naturais. Então pilares apodrecidos emergindo da água escura como ossos de gigantes esquecidos. Aquilo outrora fora uma via comercial clandestina. Agora era um cadáver.

A trilha seguia estreita entre charcos e vegetação morta. Árvores tortas inclinavam-se sobre o caminho como velhas conspirando. A água parada refletia o céu em tons de chumbo, e até os insetos pareciam zumbir mais baixo naquela região.

Mais à frente, além do véu de névoa do pântano, Bentho finalmente a viu.

A Montanha Morta.


 

Ela não era particularmente alta. Mas parecia errada.

Uma massa colossal de pedra negra erguendo-se além da mata alagada, como a ponta exposta de alguma fortaleza enterrada. Diferente das Montanhas Castanhas que emergiam atrás dela, cheias de rocha em tons terrosos e encostas ásperas, a Montanha Morta possuía um tom escuro, quase metálico, marcado por cicatrizes verticais abertas por séculos de mineração. Mesmo à distância, parecia absorver luz.

Pouca vegetação crescia em suas encostas. Não havia pássaros. Não havia sinal de vida. Só enormes cortes na pedra. Entradas de túneis abandonados. Estruturas de madeira apodrecida agarradas à montanha como costelas partidas.

Mesmo dali, conseguia ver trilhas antigas descendo pela encosta em direção ao pântano. Alguns desapareciam sob a água escura. Outros terminavam abruptamente no vazio.

Bentho parou por alguns segundos observando a montanha.

Parecia menor perto dela.

— Gladys diz que a estrada só vai piorar mais à frente... — comentei. — E já vai escurecer. Talvez seja melhor acamparmos aqui.

O céu realmente começava a mudar. O azul acinzentado do fim de tarde dava lugar a tons frios e arroxeados. Neblina rastejava entre as raízes mortas do pântano enquanto os primeiros vaga-lumes surgiam na água escura. Xitarro olhou em volta.

— Muito charco... capim morto... fedor... — torceu o nariz. — Eu passei cinco anos preso numa ilha de cinco metros quadrados. Isso aqui consegue ser pior.

— Não dá pra voltar pra praia... nem pro "Deixa em Branco"... — Bentho suspirou. — Ao menos nossos novos amigos deram suprimentos suficientes. Um pouco de relento não vai matar ninguém.

Os dois se viraram.

Amellie já havia montado uma enorme barraca circular de lona vermelha.

— Uau... — Xitarro arregalou os olhos.

— Sinto muito, meninos. — a barda interrompeu sem culpa alguma. — Eu preciso da minha privacidade e de uma boa noite de sono.

— Amellie, essa barraca é enorme! — protestou Bentho. — Podemos ao menos entrar quando for sua vez?

Ela ergueu uma sobrancelha.

— Minha vez do quê?

— Este é um pântano abandonado ao lado de uma mina cheia de monstros. — Xitarro apontou o óbvio. — Acho que alguém precisa ficar de vigia, alternando enquanto dormimos.

— Nossa sorte é que todo mundo aqui enxerga razoavelmente bem no escuro. — lembrei. - Até eu, o "Humano puro", com os Olhos do Demônio.

— Olha, meninos... — Amellie colocou as mãos na cintura. — Eu trouxe para essa equipe satisfação, expertise e glamour. Quando estamos numa cidade, eu carrego esse grupo nas costas. Aqui no mato, vocês podem assumir essa parte sem reclamar.

— Chefe? — Xitarro olhou para Bentho.

Bentho hesita. XItarro insiste.

— Bem... quatro horas cada? — ele sugeriu.

Amellie sorriu triunfante e entrou na barraca.

Quase imediatamente começaram a ouvir sons estranhos lá dentro. Vidro. Metal. Algum tipo de cântigo.

Bentho acha que foi manipulado.

— [Você acha?] — Gladys provocou. — [Queria ver Lord Blunt servil assim a um subordinado.]

— Pois é... — resmungou. — Falando no meu pai... se ele consegue nos rastrear, você não deveria conseguir rastrear ele também? Tipo... o contrário?

Gladys ficou em silêncio por alguns segundos.

— [Eu pensei nisso.]

A pausa foi longa demais.

— [Mas não. Não concebo o que eu poderia fazer para nos ajudar.]

Inconveniente.

Inconveniente demais.




— Rhoy está chegando! — Larincher informou do tombadilho. — Capitão...

— Eu já ouvi.

Khao saiu do interior da Valerius XXVI, uma velha lança-vapor de casco estreito e baixa profundidade. O barco tinha pouco mais de quinze metros de comprimento e uma máquina a vapor acoplada à popa movia uma enorme roda de pás que triturava o rio atrás deles. Fora projetada para subir correntezas violentas e alcançar regiões onde navios maiores atolariam. Agora servia à Nova Guarda.

Vapor queimava o convés como respiração de dragão asmático. O casco inteiro tremia em intervalos irregulares, como se a embarcação estivesse constantemente reconsiderando sua própria integridade estrutural. Era barulhenta. Quente. Instável.

Perfeita para Khao.

Rebites saltavam das tábuas com pequenos estalos metálicos. Canos pingavam água fervente. A fuligem impregnava tecidos e fazia a tripulação inteira cheirar como ferreiro alcoolizado. Ainda assim, era a embarcação mais rápida disponível para o destacamento que o Capitão do Punho de Concreto reunira para caçar Lord Blunt.

Da última vez que vira Estebán e Àquela, o casal cruzava o rio em um pequeno esquife à vela. Khao conseguira acertar um arremesso impossível contra a embarcação — força, perícia e sorte convergindo em um único instante — rasgando parte da vela e comprometendo a fuga. Eles ainda tinham vantagem. Mas com a lança-vapor... Acreditavam poder reduzir a distância.

Isso até Larincher avistar a fumaça.

Encontraram o velho esquife retirado da água, destruído entre os juncos da margem.

Àquela tinha treinamento. Sabia ocultar rastros. Mas não de Rhoy Barba-Curta.

O ranger anão ajoelhou-se na lama por menos de um minuto antes de apontar para o interior do pântano.

Partira logo depois com Arletta, oficial de logística e comunicação da Nova Guarda. Ela carregava os mapas rúnicos da região e mantinha contato entre os destacamentos através dos comunicadores encantados presos ao cinto.

Se encontrassem o casal...

A caça começaria de verdade.

Horas depois, Rhoy e Arletta emergem das matas, com a noite retornando.

— A trilha segue algum tempo na direção da Boca... mas depois retorna para dentro do pântano. — Ele comenta ,e aponta para a companheira humana.

— Meus mapas mostram uma antiga estrada de mineração ligando Hálcora às minas da Montanha Morta. — A voz de Arletta entrou em seguida, mais precisa, quase acadêmica.

— A estrada contorna a parte mais funda do pântano. Mais lenta... mas firme o bastante para seguir a pé. — Observa Rhoy.

— Já está cortando caminho por terra firme. — Khao bufou. — E ele conhece. Acredite em mim... Estebán sempre conhece cada pedra.

O capitão esfregou o rosto.

— A lança-vapor ainda é nossa melhor chance de alcançá-los seguindo o rio. Em algum ponto mais à frente?

— Senhor... — Arletta hesitou.

— Fale, tenente. — O capitão insiste.

— A embarcação de Lord Edgy foi interceptada rio abaixo por piratas. Pescadores locais confirmaram combate, mas o nosso pessoal em Hálcora não viu o navio deixar o rio. Se Edgy e seus capangas continuaram viagem... existe um píer clandestino no pântano. Menos de um dia de caminhada até a mesma mina abandonada em que a estrada conduz.

Ela fez uma pausa curta.

— Eles podem estar... convergindo.

Khao sorriu pela primeira vez desde aquela manhã.

— Blunt contornou o pântano porque estava a pé. Lord Edgy vai atravessar um trecho mais curto porque tem acesso ao porto clandestino. Rotas diferentes... mesmo destino.

— Tem mais. — Arletta insiste.

A tenente desenrolou um mapa maior sobre uma caixa de carga no tombadilho da lança-vapor. O papel precisou ser preso com ferramentas para não escapar com a vibração do motor.

— Sempre existiram rumores sobre como as hordas de Lord Blunt surgiram tão rápido vindas das Zonas Selvagens para alcançar Huo-fen. Se a Montanha Morta possuir uma travessia subterrânea... As Minas batem com o que seria preciso.

Khao olhou para o mapa.

Ela apontava:

a posição atual deles;

a entrada principal da mina;

os túneis conhecidos;

as trilhas abandonadas.

Mas Khao ignorou tudo.

Seu olhar fixou-se apenas na cadeia montanhosa desenhada atrás da mina.

As Montanhas Castanhas.

O vapor da máquina pareceu desaparecer atrás das lembranças.

Se existia uma passagem...

Então a Montanha Morta não era apenas uma mina.

Era uma porta.

Atrás dela estava a Marca de Bearlord.

As montanhas.

O frio.

A lama.

As tribos hoje extintas.

O homem que ele fora antes de Shén-li.

... E o Sargento.



Amellie sentia-se um pouco culpada pela própria decisão.

Só um pouco.

Ela precisava terminar o ritual da cabaninha arcana — um procedimento delicado, sofisticado e absolutamente indispensável para sua sobrevivência emocional naquele lamaçal amaldiçoado.

Além disso, Bentho e Xitarro tinham se saído surpreendentemente bem no rio. Ela podia ser um pouco egoísta por agora, que os dois conseguiam aguentar uma noite de guarda.

Provavelmente.

Tentou voltar a atenção para o círculo rúnico desenhado no chão da barraca. Como tinham tempo, preferira realizar o ritual completo em vez de simplesmente gastar um encantamento.

  • Incenso.
  • A pequena conta de cristal.
  • Pó de coralite de Nova Ethiópia.

Tudo muito elegante.

Então um som metálico horrível ecoou do lado de fora.

CLANG.

...

CLANG.

...

CLANGCLANGCLANGCLANG.

Amellie arregalou os olhos.

— Ah, não.

Sacou o florete e rolou para fora da barraca numa explosão dramática de lona vermelha e indignação aristocrática.

Encontrou Bentho e Xitarro. Rindo.

No centro do acampamento, Virgílio — a Vigília Sombria sem usuário — segurava um galho e o batia repetidamente contra o próprio elmo.

CLANG.

CLANG.

CLANG.

— O QUE EM NOME DE AETÍADES É ISSO?!

— Funcionou! — Bentho comemorou. — Até você acordou!

Ele estava sem armadura, usando roupas leves de viagem pela primeira vez desde que Amellie o conhecera, camiseta aberta à altura do peito. Amellie constatava... Ele cresceu mesmo desde quando se conheceram em Shén-li.


Quase.

— Este é o “Sistema de Alarme Vigília Sombria”! — anunciou Xitarro com orgulho.

Amellie levou a mão ao rosto.

— Ah, não... Bentho, você nunca conseguiu fazer Virgílio funcionar direito!

— O problema sempre foram as variáveis! — Bentho rebateu imediatamente. — Agora ele não precisa falar. Ele só faz barulho.

— E por que ele estava fazendo barulho?!

Xitarro apontou, orgulhoso, para uma pequena rã saltando perto do acampamento que ele avistou segundos antes da armadura perceber e reiniciar a algazarra.

— Intruso detectado.

Amellie permaneceu em silêncio por três segundos inteiros.

— Vocês programaram uma armadura lendária de guerra para entrar em pânico por causa de anfíbios?

— Tecnicamente ela entrou em protocolo defensivo — Bentho corrigiu.

CLANG.

Virgílio viu outra rã.

CLANG.

Outra.

CLANGCLANGCLANG.

— Hmm... Está sensível demais — avaliou Xitarro, sério.

— SENSÍVEL DEMAIS?! — A barda resmunga com ironia e irritação.

Bentho coçou o queixo.

— Tá bom. Precisamos refinar os parâmetros.

Aproximou-se da armadura e apontou para ela com autoridade.

— Vigília Sombria: pelas próximas oito horas, se avistar qualquer forma de vida hostil, quero que faça barulho suficiente para nos acordar.

A armadura ficou imóvel.

CLICK.

Então virou o elmo e seus enormes olhos vermelhos na direção de Amellie. Ergueu o galho lentamente na direção do elmo.

— Não ouse... — ela começou.

CLANG.

— EU NÃO SOU HOSTIL!

— Você está hostil. Seu tom de voz... — comentou Xitarro.

— VOCÊS DOIS SÃO UMA AMEAÇA À CIVILIZAÇÃO!

Bentho ergueu a mão outra vez.

— Certo! Nova ordem: qualquer forma de vida hostil... que não sejamos nós três!

CLICK.

A armadura começou a patrulhar o perímetro do acampamento em passos pesados e erráticos.

Bentho cruzou os braços, satisfeito.

— Perfeito.

Amellie estava cansada demais para continuar discutindo.

Voltou para a barraca resmungando sobre meritocracia, decadência intelectual e como bardos deveriam receber adicional de insalubridade.

Recomeçou o ritual.

Pela terceira vez.

Do lado de fora, ainda conseguia ouvir os dois idiotas conversando.

— Você acha que ele consegue distinguir hostilidade emocional? — perguntou Xitarro.

Amellie enterrou o rosto nas mãos. A noite seria longa.



— Estebán... talvez seja melhor não pararmos.

Àquela observava o marido sentado à margem da velha estrada inundada. A névoa do pântano rastejava entre as pedras antigas, enquanto pequenos vaga-lumes verdes pairavam sobre a água parada.

Mais ao norte, além das árvores mortas, a silhueta da Montanha Morta dominava o horizonte: escura, imensa, silenciosa.

Estebán permanecia imóvel diante dela. Por uma última vez ele se permitiu ser Lord Blunt, mas... Sem a armadura, Estebán parecia menor — apenas um homem cansado vestindo roupas simples demais para alguém que quase conquistara o mundo.

— Não vamos alcançá-los antes das minas — respondeu por fim, em voz baixa e exausta. Ele analisou todas as opções e variáveis.

Àquela sentou-se ao lado dele, e apoia uma mão em seu ombro. Por um momento, nenhum dos dois falou. O pântano respirava ao redor deles: água se movendo devagar, insetos zumbindo, madeira afundando na lama.

Estebán fechou os olhos.

Ele ainda conseguia lembrar.

Pelos olhos de Bophades, nunca mostravam apenas imagens. Mostravam sensações. 

O rio em convulção. As Dragas emergindo da água. O cheiro de ozônio. O medo dos piratas. Bentho avançando sem compreender a dimensão daquilo que enfrentava.

E Lizzo, o garoto de Ben Filler.

O garoto fora rápido. Corajoso. Mais do que Estebán esperava.

Mas o que realmente o perturbava era outra coisa.

Orgulho.

Por alguns instantes, vendo Bentho lutar em meio ao caos, vendo monstros tombarem diante da Gládius Aeternum, Lord Blunt sentira orgulho.

Não o orgulho de um pai.

O orgulho de um conquistador observando o herdeiro triunfar no campo de batalha.

Aquilo o enojava.

Porque, para agir naquela noite — para salvar pessoas — ele precisara voltar a ser Lord Blunt.

E isso sempre cobrava um preço.

— Você está distante — Àquela observou.

— Estou pensando.

— O que normalmente é perigoso. — Àquela saca uma bota de bebida e dá um gole, oferecendo ao marido.

Ele soltou uma breve risada cansada.

— Bentho lutou bem. Melhor do que eu esperava. Pena que você não pode ver.

Um pequeno sorriso surgiu nos lábios da mãe.

— Nosso filho é um idiota... mas é o nosso idiota. — fala enfim. — Isso será um problema se ele... resistir ou fugir de novo?

O comentário arrancou de Estebán apenas um sopro de ar pelo nariz. O humor, porém, morreu rápido.

— Eu também vi você.

Àquela ficou em silêncio.

— Estebán...

— Os barris no porto — ele continuou. — Você colocou Khao em risco.

— Eu sabia o que estava fazendo. Khao é muito mais forte do que você pensa! — Não parecia que ela estava tentando convencer a si mesma... Mas Estebán sabia melhor.

— Você também convocou Blunt. Nem hesitou.

A palavra saiu pesada.

Não como um nome.

Como uma doença.

Àquela desviou os olhos por um instante, enquanto o vento frio do pântano agitava seus cabelos dourados.

— Eu precisava impedir aquelas coisas.

— E quase matou Khao antes.

— Não quase.

— Àquela.

Ela respirou fundo antes de responder.

— Eu estava... com medo.

Estebán voltou o olhar para ela, e aquilo o assustava mais do que qualquer exército.

Porque, da última vez — dezessete anos antes — fora justamente o medo dela que o fizera parar.

Àquela sempre fora gentil. Corajosa. Mas hesitante diante da violência.

Agora, porém, cada vez mais ela aceitava fazer coisas perigosas quando alguém que amava estava ameaçado.

Exatamente como ele foi.

Como Bentho.

E Estebán começava a perceber uma sombra surgindo nela.

Não a sombra de Blunt.

Algo pior.

A capacidade de justificar qualquer coisa.

— Você pediu por mim ... o outro eu, ontem a noite — insiste baixinho.

Ela demorou alguns segundos para responder.

— Pedi.

— Você chamou Lord Blunt.

— Porque Estebán hesitaria.

Aquilo atingiu mais fundo do que uma espada.

Àquela segurou a mão dele.

— Posso até precisar de Blunt em momentos de perigo, mas não quero perder você.

Estebán fechou os olhos. Por um instante, o Senhor do Sombrio pareceu apenas cansado.

Muito cansado.

— Esse é o problema — murmurou. — Você está começando a entender por que um dia eu pensei em destruí o mundo.

O silêncio voltou entre eles.

Ao longe, a Montanha Morta permanecia imóvel na escuridão crescente.

Esperando.

— Vamos parar só uma hora — Àquela decidiu suavemente. — Depois seguimos. Marcha forçada.

Ela voltou os olhos para o horizonte.

— Acho que vi Rhoy e Vhael com Khao. Um rastreador... E uma contra-magae. Khao veio preparado ... Para nós dois.

Estebán assentiu devagar.

— Eu recomendei Vhael anos atrás a Achima.

Àquela ergueu uma sobrancelha.

— Sério?

— Ela estudou com Achima... e antes em Yalatanil. Inteligente. Disciplinada. Acredita que conseguiria conter alguém como Lord Blunt, se fosse necessário.

Um sorriso pequeno e cansado surgiu no rosto dele.

— Nem os mestres dela conseguiriam... mas ~admiro~ o entusiasmo.




Amellie acordou horas depois.

Algo estava errado.

Não era o barulho da armadura.

Na verdade, esse era justamente o problema.

Silêncio.

Então ouviu sons abafados.

Engasgos.

Movimento na lama.

Amellie abriu a barraca ainda sonolenta — e congelou.

Bentho e Xitarro estavam sendo estrangulados por três cadáveres encharcados, cobertos de lodo.

Zumbis.

Virgílio continuava patrulhando calmamente ao lado deles.

Sem reagir.

Amellie piscou uma vez.

Duas.

— ... Bentho.

— Ghk—?!

— Sua armadura não está fazendo nada.

Bentho tentava afastar um morto-vivo que agarrava seu pescoço e tentava mordê-lo, enquanto a Espada o forçava para trás.

— Porque— GHK— eles não são Formas de Vida!

Amellie virou lentamente o rosto para Virgílio.

A armadura parou.

Pareceu pensar por um instante.

Então apontou solenemente o galho para um morcego voando acima do acampamento.

CLANG.

— AAAAAAH, EU ODEIO VOCÊS DOIS! — Amellie gritou, sacando o florete enquanto um zumbi tropeçava em Xitarro e os dois rolavam pelo charco em puro caos.

Ia ser uma longa noite.


Bem-vindo de volta ao núcleo da saga EDGELORD.



Para saber o que perdeu nesse ínterim:

⚓ EDGELORD – O Pirata Solar & O Herdeiro da Escuridão ⚓


Um arco “OWA” de Edgelord: uma história paralela, mais livre, caótica e experimental — quase um “e se?” dentro do universo principal.

A trama acompanha Bentho/Lord Edgy fugindo de Hálcora ao lado de Amellie e Xitarro, enquanto forças absurdamente perigosas começam a convergir sobre eles. No caminho, eles cruzam com uma tripulação pirata completamente fora dos padrões de Shén-li: tecnologia impossível, humor caótico, droids antigos e um capitão lendário que parece saído de outra campanha.

O texto mistura:

☠️ aventura pirata

⚙️ fantasia sci-fi

😂 humor meta

🔥 tensão familiar

🛶 perseguição no rio

🤖 interações absurdas entre magia e tecnologia

O destaque fica para a dinâmica do elenco: o sarcasmo mecânico de LE-0, a competência suspeita de Amellie, o fanboyismo nada discreto de Bentho e a sensação constante de que TODO MUNDO nessa história é perigoso demais para estar no mesmo barco.

É um capítulo com clima de abertura de saga: apresentação de facções, alianças improváveis, mistério tecnológico e aquela sensação de “isso vai dar muito errado… de forma espetacular”.

📖 Link:

https://dragaodeplutonio.blogspot.com/2026/03/universo-edgelord-guia-de-leitura.html#owa

27 de maio de 2026

Dicas de Mestre: Narrando RPG em Eventos Barulhentos

 Quando a Mesa Enfrenta o Caos



Existe uma diferença brutal entre narrar numa mesa doméstica e narrar em evento.

Na primeira, o RPG respira. Na segunda, ele sobrevive em meio ao rugido constante de dados, anúncios no microfone, cadeiras arrastando e alguém testando um sabre de espuma a três metros de distância. 🎲🌪️

Depois de voltar recentemente a jogar presencialmente em eventos, percebi algo curioso: certas técnicas narrativas que funcionam muito bem em campanhas tradicionais simplesmente colapsam em ambientes caóticos.

Não porque sejam ruins.

Mas porque o ambiente altera completamente a forma como os jogadores absorvem informação.

Este artigo é menos um “manual absoluto” e mais um aviso de campo vindo de alguém que reaprendeu isso da maneira prática.

1. Em Eventos, a Informação Vaza Pelas Tábuas do Navio

Em uma mesa comum, o mestre pode trabalhar nuances.

Os jogadores conseguem:

  • ouvir detalhes;
  • discutir teorias;
  • lembrar nomes;
  • conectar pistas;
  • voltar mentalmente a conversas anteriores.

Num evento barulhento, parte disso evapora.

  • A comunicação vira algo fragmentado: 
  • alguém não ouviu um nome;
  • outro perdeu uma pista porque uma mesa vizinha começou a gritar;
  • um terceiro estava tentando entender a ficha;
  • e metade da exposição narrativa desaparece na acústica horrível do salão.

Grandes “lore dumps” já são perigosos em mesas normais. Em eventos, eles viram fumaça ao vento.

O efeito prático disso. Quanto mais complexa a explicação:

  • maior a chance de os jogadores perderem o fio;
  • maior o risco de esquecerem informações críticas;
  • e menor a probabilidade de conectarem peças sutis.

Isso significa que aventuras para eventos precisam ser:

  1. mais visuais;
  2. mais diretas;
  3. mais redundantes;
  4. e menos dependentes de memória detalhada.

Não é simplificação infantil. É adaptação de mídia.

Narrar em evento é quase como escrever para rádio em meio a uma tempestade.

2. Plot Twists Inteligentes Podem Virar Armadilhas

A segunda percepção veio de um caso específico numa aventura investigativa.

A premissa era excelente:

ocorreram três assassinatos, deveríamos descobrir o culpado... mas apenas dois crimes estavam ligados ao vilão principal.

O segundo assassinato havia sido cometido por um grupo externo sem relação com a trama central.

Na teoria, isso cria profundidade:

O mundo é complexo. Nem tudo gira em torno do vilão.

Excelente conceito para campanhas longas. Mas na prática do evento... nós descobrimos os responsáveis pelo segundo assassinato e imediatamente encerramos a investigação mentalmente.

Para nós, caso resolvido.

A consequência foi inevitável:

  • ignoramos pistas;
  • paramos de investigar;
  • descartamos inconsistências;
  • e seguimos convencidos de que havíamos solucionado o mistério.

No final, o mestre precisou interromper a sessão para explicar toda a trama que “poderíamos ter descoberto”.

E isso revela uma verdade importante: Jogadores não investigam infinitamente,  principalmente em eventos.

Em campanhas longas, grupos costumam:

  • discutir entre sessões;
  • revisitar hipóteses;
  • testar teorias;
  • desconfiar de reviravoltas.

Em evento, o cérebro opera em “modo missão”. Os jogadores querem entender rapidamente; agir; resolver; concluir antes do tempo acabar.

Se uma solução parece convincente, a maioria do grupo vai aceitá-la imediatamente.

3. O Problema Não Era o Plot Twist

Isso é importante.

O problema não era a ideia da aventura.

Na verdade, era uma boa ideia.

O problema era a combinação entre ambiente barulhento, limitação de tempo, excesso de informação e uma estrutura narrativa baseada em suspeita contínua.

Esse tipo de design depende de atenção plena do grupo.

Eventos raramente oferecem isso.

4. Narrar em Evento É Design de Sobrevivência

Mestrar em evento exige uma filosofia diferente. Você não está criando apenas uma boa história. Você está criando uma história que seja:

  • compreensível em ruído;
  • absorvível em poucas horas;
  • resiliente à distração;
  • e capaz de sobreviver mesmo quando metade das pistas falha.

É quase engenharia antifalha.

Algumas adaptações ajudam muito. Repetir informações importantes. Se algo é essencial: coloque em NPCs diferentes; repita de maneiras diferentes; e sobretudo: torne visual e escreva em handouts.

Evitar múltiplos falsos culpados

Ou, se usar: deixe claro que ainda existem pontas soltas; mantenha evidências óbvias de inconsistência ou faça os jogadores precisarem provar formalmente a culpa antes de concluir.

Priorizar clareza sobre genialidade

O jogador raramente sai pensando:

“Nossa, que estrutura investigativa sofisticada.”

Mas ele sai pensando:

“Entendi tudo e foi divertido.”

E isso importa mais.

Transformar pistas em ação

Em vez de longas explicações, genealogias, relatos históricos: prefira cenas, objetos, testemunhas econsequências visíveis.

Evento favorece narrativa concreta.

5. A Grande Ironia

Existe uma ironia deliciosa nisso tudo.

Muitos mestres tentam tornar aventuras de evento “mais inteligentes” adicionando:

  • camadas;
  • ambiguidades;
  • múltiplos culpados;
  • conspirações paralelas.

Mas o ambiente frequentemente recompensa o oposto:

  • clareza;
  • foco;
  • ritmo;
  • legibilidade.

Não porque jogadores sejam incapazes.

Mas porque o contexto consome capacidade mental o tempo inteiro. Uma mesa em evento já começa drenando atenção antes mesmo do primeiro dado rolar.

Conclusão

Depois dessa experiência, fiquei com a impressão de que aventuras para eventos precisam ser tratadas quase como um formato próprio de RPG.

Não é “uma campanha normal, só que em outro lugar”.

É outro ecossistema. Um salão de evento transforma como jogadores escutam; como lembram; como investigam e até como interpretam risco e conclusão.

Talvez a melhor pergunta para um mestre de evento não seja:

“Essa trama é inteligente?”

Mas sim:

“Essa trama sobrevive ao caos?”



23 de maio de 2026

[EDGELORD] - O PIRATA SOLAR & O HERDEIRO DA ESCURIDÃO FINAL

 

✧ PARTE V ⚓ “O Pirata Solar” ✧

Eu sou o Capitão Jack Filler.
E, por muitos anos, resisti à alcunha de “Capitão Lizzo”.

Vim de uma situação precária. Recebi uma oportunidade que me arrancou de um destino predeterminado. E não foram os “anjos” de Shén-li que me concederam essa chance.

Foi sua escória. Seu submundo.

Aprendi cedo que, seja “bando”, seja “tripulação”, a tão repetida “honra entre ladrões” não existe apenas para anestesiar consciências culpadas. Não é um placebo moral para quem saqueia, rouba ou vive da pirataria.

É sobrevivência.

Hon-sa e Amellie não se suportavam desde o instante em que a barda colocou os pés a bordo do Deixa em Branco. Ainda assim, diante de algo maior que seus próprios egos — uma Serva Draga — compreenderam rapidamente a realidade da situação.

Em terra firme, a inimizade talvez funcionasse. Uma correria para a esquerda, a outra para a direita; a criatura precisaria escolher uma presa, e quem fosse escolhida estaria condenada.

Mas o mar não permite esse tipo de individualismo.

Um marujo covarde, incapaz de confiar ou inspirar confiança, é como uma rachadura no casco. Talvez sobreviva à tormenta imediata. Mas jamais voltará a integrar a tripulação.

E ambas sabiam disso.

Esquivavam-se como podiam. Quando uma vacilava, a outra se lançava além do limite para arrancá-la da morte. Então a dança recomeçava. Ganhavam minutos preciosos ante um oponente superior. Caso sobrevivessem, aquele seria o batismo definitivo.

Ou teriam caído com honra, imagino eu, não fosse minha chegada.

Naquele momento, cada uma das garras da Serva Draga apertava o pescoço de um grumete diferente. Os rostos arroxeavam. O ar lhes escapava. O fluxo sanguíneo diminuía perigosamente.

A criatura parecia satisfeita.

Ao menos até minha pistola de pederneira explodir-lhe a cabeça.

— Amellie estava certa! — comenta meu novo amigo, Lord Edge. — Só precisa de um segundo para farmar aura!

Decidi deixá-lo viver após aquela frase. Ele já havia me ajudado demais naquela noite.

Hon-sa, mais madura, limitou-se a acenar em agradecimento enquanto recuperava o fôlego. Amellie, por outro lado, ainda sentia o gosto da mortalidade na garganta. Correu até nós e se agarrou aos nossos ombros como alguém verificando se continuávamos vivos.

— Vocês estão bem? — Edgy pergunta.

— Estamos agora! — responde a barda, ainda ofegante.

— As ordens, capitão? — Hon-sa tenta recuperar a postura profissional. A imediata odiava parecer vulnerável.

Permiti que Edgy conduzisse o momento. Afinal, o plano era dele.

— Amellie, Xitarro deve estar atrapalhando LE-0. Ele é muito “todo-o-lugar”. Vá para a popa, mande ele vir para cá. E, quando chegar lá, garanta que LE-0 tenha espaço para fazer o que ele faz de melhor... O capitão confia nele.

— Sem a draga cancelando meus truques? Será um prazer! — responde Amellie antes de desaparecer pelo convés.

Observei-a partir. Amellie era mais inteligente que o rapaz de armadura. O fato de confiar tanto nele dizia bastante. E o fato de ele confiar no meu julgamento sobre LE-0... bem, aquilo era reconfortante.

— Já estava na hora daquele droide amolecer esses peixes... — resmunga Hon-sa enquanto recua para perto de nós. Ainda havia Esculiões demais avançando pelo convés.

— LE-0 é um bom começo. Mas a chave da vitória, como sempre, virá da sua cabeça iluminada, imediata. — aponto para ela.

— “Iluminada”? — Hon-sa ri. — Isso me deu uma ideia.

— Exatamente o que eu esperava.

Os Esculiões tornavam a avançar. Mas Lord Edge e eu já os aguardávamos.

— Ainda está com seu presente? O pacote que pedi para não abrir até quinta?

Verifiquei o bolso interno do casaco. Continuava ali. Uma caixa pequena, pesada demais para seu tamanho, embrulhada em papel colorido e laço.

— Por que quinta? — pergunta Edgy enquanto atravessa um Esculião.

— Porque quinta é meu aniversário.

— Sério?! Nesta quinta?! — ele exclama. — É o meu também!

Parei por um instante, florete ainda enterrado no peito da criatura.

— Está falando sério ou tentando forçar “broderagem”?

— Garotos, garotos... — Hon-sa interrompe. — Não podemos esperar até quinta. Senhor Edgy... esses seus “raios mágicos”... Sabe dizer se são Força Nuclear Forte?

— “Força Forte”?! — ele torce o nariz. — Mais cedo você reclamou porque chamamos nossos metais de “ferro frio”!

— Bem, preciso que dispare tudo o que tiver contra a ThunderSphere.

Ela faz um gesto breve, e a pequena esfera metálica começa a orbitar Lord Edge como um predador curioso.

— Capitão, preciso do senhor entre as velas do tombadilho. E eu preciso subir para a gávea. LE-0 deixou o holofote lá em cima. Aguarde meu sinal.

— Entre as velas?! — resmungo. — É o ponto mais exposto do convés.

— Eu vou estar com o senhor, capitão... — Edgy tenta me tranquilizar. Considerando que passaria os próximos minutos disparando magia numa bola flutuante, suspeitei que sua ideia de “proteção” envolvesse apenas manter as criaturas ocupadas.

— E qual será esse “sinal”, imediata? — pergunto.

Hon-sa sorriu daquele jeito que sempre me fazia desconfiar da própria realidade.

— O senhor vai ver.

Então ela saltou.

E desapareceu na noite como um relâmpago felino.



Amellie e Xitarro trocam um high-five no meio do caos — algum cumprimento interno entre os dois envolvendo “troca de pares de dança” ou talvez “mudança de ato na ópera”. Nunca compreendi completamente a piada interna da Ledgyão.

Mas a barda agora tinha outro objetivo: alcançar LE-0.

O androide sustentava sozinho uma linha de supressão no convés. Disparos precisos impediam o avanço das Dragas, mas também o mantinham preso à própria posição. Ele sobrevivia. Nada além disso.

Havia criaturas demais no tombadilho. Uma muralha viva.

Exceto por um pequeno corredor vazio que os Esculiões evitavam instintivamente. Quando algum distraído ousava cruzá-lo, escorregava violentamente e desaparecia deslizando ao sabor do balanço do navio.

— Graxa... — constata Amellie. — Isso vai arruinar meu vestido favorito...

Então ela corre.

As criaturas já não podiam ignorá-la. Quando avançaram, porém, Amellie lançou-se deliberadamente sobre a armadilha escorregadia.

A barda desliza de joelhos pelo convés como uma atriz atravessando o palco no auge da apresentação. O lubrificante preserva seu embalo; rente ao chão, ela passa abaixo das garras alongadas das Dragas. As poucas que tentam interceptá-la acabam traídas pela própria superfície instável e iam ao chão.

Com o movimento garantido, Amellie ergue o alaúde.

Os acordes surgem rápidos, quase irresponsáveis, mas sustentados pela precisão absurda de uma artista veterana. O encantamento se espalha pelo corredor num pulso triunfante, afastando os Esculiões entre ela e Lawful Evil Zero.

Ela para exatamente diante do droide.

— Olá... — diz, sorrindo.

— Saudações. — responde LE-0 em seu habitual tom funerário.

— Vou te dar folga em curto alcance. — Amellie ajoelha-se junto às pernas metálicas do veterano de bronze. — Você teria algum truque mecânico capaz de virar esta luta?

— 25,3 opções me ocorrem. — LE-0 calcula. — Sem o felino obstruindo trajetórias... dúvida: Capitão e Imediata estão afastados?

— Pelo que vi, a gatinha subiu no mastro... — comenta Amellie. — Edgy e o capitão deve estar na... como chama a “pontinha”?

— Proa. — corrige o droide. — Com novo input... acredito que utilizarei morteiro de gás do sono.

Quatro de seus braços assumem uma configuração de estabilidade. O crânio metálico recua parcialmente para dentro do pescoço, revelando um cano oculto.

O construto calcula ângulo, vento, inclinação do navio e densidade do combate numa fração de segundo.

Então dispara.

Três estampidos secos.

Cápsulas brancas cruzam o convés em arcos perfeitos e explodem em pontos geometricamente calculados. Nuvens densas de pó esbranquiçado começam a cobrir grande parte do tombadilho.

Os Esculiões atingidos desabam imediatamente.

Outros permanecem de pé por alguns segundos, apenas para começarem a vacilar conforme o vento espalha a substância. Movimentos lentos. Garras hesitantes. A violência persistia — mas sem a mesma fome.



Hon-sa acreditava que alcançaria o mastro antes de ser interceptada. Estava errada.

As criaturas bloquearam sua rota antes da metade do percurso.

Ela ergue os olhos. Uma retranca atravessava horizontalmente o mastro acima dela, sustentando parte do cordame principal. Distante demais para alguém normal, mesmo ela tinha dúvidas se conseguiria o salto.

Mas Hon-sa raramente se preocupava com limitações normais. Ela salta.

O impulso thunderiano a lança para cima como um disparo.

Uma Draga salta atrás dela.

Ainda no ar, Hon-sa precisa girar o estranho teclado preso ao coldre. O mecanismo se transforma numa pistola luminosa.

— Painel Blaster! — anuncia quase por reflexo.

O disparo arranca a criatura do caminho. Mas o tiro lhe custa impulso. E atenção.

Sua mão passa meio palmo abaixo da retranca.

Por um instante, ela apenas paira no vazio.

Então a gravidade a reivindica de volta.


   Felizmente, o felino extraordinário a alcança antes da queda.

Xitarro surge acima dela quase como um reflexo do próprio navio, Agarrando seu pulso a no ar sobre a retranca estreita.

— Estava com saudades, gatinho! — flerta a imediata sem perder o fôlego.

As duas feras equilibravam-se sobre a madeira elevada enquanto o combate rugia muito abaixo.

Então um Esculião abre a boca vertical. O mesmo canhão de água. A pressão absurda que, minutos antes, quase esmagara Hon-sa contra o castelo de popa.

Mas Xitarro apenas avança um passo e espalma o ataque com ambas as mãos. A torrente desvia violentamente para o lado, cortando o ar como uma lâmina líquida e explodindo no mar escuro sem atingir ninguém.

— Eu adoraria continuar a conversa, gracinha... — Hon-sa admite. — Mas eu preciso...

— Pode ir! — o rapaz responde com confiança juvenil demais para aquela noite infernal. — Agora eles só conseguem vir do mesmo lado. Eu seguro as pontas aqui embaixo!

Hon-sa pisca por trás dos óculos enviesados antes de disparar escada acima rumo à gávea.

Para sorte dela, LE-0 era patologicamente organizado. O holofote estava exatamente onde deveria estar. Com o Painel Blaster em mãos, Hon-sa começa a reposicionar as velas solares do Deixa em Branco. Vergas giram. Enxárcias tensionam. Retrancas se inclinam. As velas translúcidas lentamente se reorganizam até formarem algo semelhante a um casulo luminoso ao redor do mastro.

Ou talvez uma lente colossal.

E eu...

Eu era a formiga.

— Não vou poder cantar “parabéns”... — Hon-sa grita lá do alto enquanto executa o último comando. - O sinal está vindo, capitão!

Até então, Lord Edge disparava energia rubra na ThunderSphere com cautela quase religiosa, receoso de danificar o artefato. Só interrompia o ritmo quando alguma Draga conseguia alcançá-lo.

Mas o bombardeio de LE-0 começou a cobrir o tombadilho naquele instante. Explosões químicas. Gás sonífero. A pressão inimiga diminuiu consideravelmente. Com um gesto, a ThunderSphere abandona sua função ingrata de servir como alvo arcano e retorna às mãos de Hon-sa. Ela a conecta ao holofote. Um feixe disperso de luz supercarregado pela energia acumulada atinge uma das velas solares.

Dela, o brilho ricocheteia mais concentrado para outra.

E outra.

E outra.

Cada reflexão refinava a seguinte.

Até que uma coluna luminosa desce dos céus e me envolve por completo.

O sinal.

Levei a mão lentamente ao bolso interno do casaco.

E desembrulhei meu presente.

A empunhadura era refinada demais para existir naquele mundo. Metal, runas e circuitos conviviam como se magia e tecnologia jamais tivessem sido conceitos separados. Um absurdo abstrato para Shén-li. Mas, pelas histórias de Hon-sa, algo assim talvez fosse banal entre o povo dela.

Seria uma arma digna de reis.

Se a “lâmina” não fosse apenas um cristal minúsculo, pouco maior que meu polegar.

— O que é isso, imediata?! — questiono, incapaz de esconder o desespero crescente. — É para eu abrir as cartas deles?!

— É tecnologia do meu rei! — ela berra da gávea. — Não está funcionando?!

— EU NÃO SEI COMO ESSA COISA PODERIA FUNCIONAR!

— Ajuda aí! — Hon-sa rosna, improvisando. — Meu rei colocava na frente do rosto e gritava “tander-tander-tander” até ela...


   

A explosão de luz quase me cegou.

Por um instante, pensei tratar-se de uma ilusão. Ou talvez um simples jato de energia concentrada.

Mas havia peso em minhas mãos.

Havia calor.

Havia radiância.

E, acima de tudo, havia presença.

Aquela não era uma arma comum. Era o resultado impossível de segredos roubados de múltiplos mundos.

Uma lâmina de finesse épica.

— Isso... — reconhece Lord Edgy, imediatamente mais emocionado do que eu. — Isso é um SABRE SOLAR!!! — ele urra. — O senhor ganhou um SABRE SOLAR, CAPITÃO!!!

Soube mais tarde que, naquele instante, a entidade aprisionada em sua espada respondeu com profundo desprezo.

— [E por que exatamente isso seria tão empolgante?]

— Deixa de ciúmes, Gladys! — o Herdeiro da Escuridão praticamente tremia de entusiasmo.

E então compreendi.

Não apenas o valor da arma.

Mas a ascensão que ela representava.

A diferença entre sobreviver... e vencer.

— [Ah, não! Já chega!] — protesta Gladius Aeternum, embora apenas Lord Edgy pudesse ouvi-la. — [Você já é o herói limítrofe filho de um Lorde do Lado Sombrio usando armadura completa, capa preta e magia sombria proibida. Se aparecer agora com um SABRE DE LUZ, vamos nos afogar em processos e fãs tóxicos!]

— Mas isso é MUITO legal! — Edgy rebate sem qualquer vergonha.

Confesso que observar apenas metade daquela conversa foi uma experiência profundamente confusa.

— [Acho que chegou a hora de um novo Boom, já que aparentemente eu “não sou boa o suficiente”.]

— No meio da luta?! — Edgy protesta. — Eu não posso sair daqui!

— [Não para você. Para mim.]

A espada negra abandona a mão de seu senhor.

Sua imagem oscila no ar. E desaparece. Pelo que o Filho de Blunt me contou depois, Gladius Aeternum não era apenas uma arma.

Era um canal.

Uma ligação direta com algo antigo enterrado no Submundo. Uma entidade que julgava os bruxos dignos de poder maior.

A espada clamou.

E a escuridão respondeu.

Uma mão humana para controlar a magia.

Uma garra de fera para impor poder.

Quando Gladius Aeternum retorna às mãos de Lord Edgy, o próprio ar ao redor parece mais pesado.

Não era apenas energia sombria.

Era a própria escuridão.

Era ameaça.

Como encarar um buraco negro segurando uma espada.

— Gladys...? — o cavaleiro pergunta, genuinamente preocupado. — Como você se sente?

A espada responde sem hesitação:

— [Sedenta].


   

Agora ambos estávamos prontos.

Nós tínhamos nossos “power-ups”.

Nós tínhamos dezenas de Esculiões desacelerados pelo bombardeio de LE-0.

E tínhamos um convés inteiro esperando para ser retomado.

— Assuma a liderança, Senhor do Sombrio! — ordeno ao meu companheiro de armas. - Pois comandas o caos, e eu orquestro a ordem!

— Trevas na frente da luz...? — ele observa. — Sabe no que isso transforma a gente, Capitão do Sabre Solar?

Ergo a lâmina radiante.

E sorrio.

— Um eclipse. — decreto.



Ele era Esteban. Encarnação do "pior do mundo" nas cantigas de ninar por Shén-li e além.

Seu objetivo era proteger o filho. Mesmo de si mesmo.

Estebán pressentiu o perigo vindo do rio antes mesmo de compreender sua origem. Sentiu Gladius Aeternum pulsar à distância como um coração maligno despertando.

— Gladius Aeternum... — o Exemplar dos Bruxos murmura. — Ela ampliou o sinal. Houve um surto de poder... Está evoluindo Bentho.

— Evoluindo?! — Lady Àquela aproxima-se imediatamente. — Isso não é bom?

— Bruxos possuem uma curva de aprendizado. — Estebán responde sem desviar o olhar do horizonte. — Se a espada decidiu antecipar esse processo... eu temo...

Ele não ousa concluir o pensamento. Àquela sente o sangue gelar.

— Faça alguma coisa, Blunt! — ela ordena, já desesperada.

Estebán demora alguns segundos para reagir.

Então lentamente volta o rosto para ela.

Inseguro.

— Você... me chamou de “Blunt”?

Àquela sustenta o olhar dele.

E relembra o pacto profano firmado nos arredores do Castelo Negro.

— Se Bentho estivesse em perigo... — ela fala firme, apesar do medo. — ... eu mesma pediria pela ira de Lord Blunt.

Era um pedido perigoso.

Mas era o combinado.

As rugas de escriba e pai cansado permanecem por apenas mais um instante.

Então a sombra sobe.

O manto negro imaterial cobre-lhe parcialmente a face.

E sua presença cresce.

A sombra projetada no pequeno esquife torna-se a de um titã.

Não havia mais hesitação ou limites.

Não havia mais Estebán.

Apenas Lord Blunt.

O maior vilão do mundo.

— Use o leme para alcançarmos a margem. — A voz agora carregava a autoridade absoluta de um imperador. — Aproveite a ventania.

Àquela olha ao redor, confusa.

— Q-que ventania?!

Lord Blunt entrelaça os dedos num gesto arcano impossível. Àquela sequer entende como os metacarpos dele não se partem naquela posição.

Então o céu responde.

Um vento sinistro desce sobre o rio.

Os olhos de Blunt brilham em púrpura.

E outros quatro olhos espectrais paralelos abrem-se próximos de sua cabeça.

A atmosfera entra em convulsão.

Nuvens iluminadas começam a surgir acima do rio em formação antinatural, enquanto seis gigantescos losangos luminosos avançam lentamente na direção onde Lord Blunt percebia Gladius Aeternum.

— Estes são os Seis Olhos de Bophades. — anuncia ele. — Magia de último círculo. Exclusividade dos Bruxos Hexblade da linhagem de Gladius Aeternum.

Àquela observa o céu se deformando acima deles.

— Isso... é uma tempestade?

Havia reverência em sua voz.

E talvez medo.

Lord Blunt ergue o olhar para os céus como alguém apenas retomando uma ferramenta antiga.

— Bastante cirúrgica... para uma tempestade.

O rio inteiro parece recuar diante de sua presença.

E então surge aquela arrogância.

Velha.

Antiga.

A voz do homem que um dia tentou conquistar o mundo.

— Perdão se ofendo... — ele declara calmamente. — ... mas Shén-li jamais foi ameaça séria o suficiente para que eu precisasse usá-la no meu tempo.



No leito do rio, Mary Sue conferia os números com enorme seriedade. Quinhentos e quatro Dragas abatidas no total, entre Esculiões e Servas. Estava satisfeita.

Os garotos do navio não poderiam dizer que ela exagerava agora.

Mas os tremores no fundo continuavam.

E a Aasimar finalmente compreendeu o motivo.

Algo colossal movia-se sob o leito. O tentáculo emergiu lentamente da escuridão abissal.  

Verde.

Púrpura.

Impossivelmente longo.

Mesmo sendo delgado proporcionalmente, seu diâmetro alcançava dezenas de metros. A extremidade terminava numa clava terminal em formato foliáceo, da qual emergia um gancho quitinoso de quase dois metros. Seu simples movimento provocava terremotos. Não parecia um animal. Parecia uma parte deslocada de algum ecossistema impossível.

Uma entidade grande demais para pertencer ao mesmo planeta que o resto do mundo.

Mary Sue observou aquilo em silêncio absoluto. Então começou a “desenhar” fórmulas na água com o dedo.

— Gancho quitinoso... extremidade preênsil... — murmura enquanto calcula. — Se considerar deslocamento angular, linha reta e desvio padrão...

Ela para.

E arregala os olhos.

— Essa coisa tem umas trezentas e vinte léguas náuticas até o corpo...

A garota olha para as profundezas com genuína preocupação pela primeira vez naquela noite.

— ... Muito perto da casa da prima Andrômeda. Como eu temia.

As águas começaram a convulsionar apenas pelos movimentos do apêndice. Correntes submarinas surgiam e morriam em segundos, e o rio inteiro parecia incapaz de suportar a presença daquela criatura.

Mary Sue suspira.

E toma sua decisão.

— Tá bom... — resmunga. — Acho que isso merece uns 5%.

Asas azuladas brotam de suas costas, herança de Aetíades. Radiância divina atravessa sua carne como fissuras luminosas. A água ao redor começa a ferver instantaneamente.

Uma gigantesca bolha de ar explode ao redor dela enquanto o rio evapora em círculos concêntricos.

Mary Sue inspira.

Vapor.

Oxigênio.

Hidrogênio.

Pressão.

Calor.

Então ela grita.

Mas aquilo não parecia um som. Parecia física deixando de funcionar. Realidade se contorçendo ao redor de seu poder. As moléculas diante dela entram em colapso e convertem-se em plasma. Uma onda de destruição branca e azul dispara pelas profundezas como um fragmento violento da criação do universo.

O impacto vaporiza imediatamente a clava terminal. O gancho desaparece. E então a reação em cadeia começa. Aquilo que se julgava carne passa a incendiar-se mesmo submerso.

Brasas celestes percorrem as dezenas de milhas pelas quais o tentáculo se estendia, queimando rumo às profundezas longínquas onde repousava a verdadeira entidade.

E, por alguns segundos...

O rio inteiro ferve.




Eu sou Lord Edgy.

O Herdeiro da Escuridão.
O Filho do Terror.

Portador de Gladius Aeternum, a Espada Sedenta.

Ela gira em minhas mãos como se tivesse vontade própria. Como se desejasse carne. Como se desejasse provar o sangue de cada inimigo ao redor.

E, por um breve instante...

Eu me torno ao mesmo tempo uma força da natureza e parceiro de Jack Filler, o Pirata Solar.

O capitão é mais rápido.

Ainda mais agora, impulsionado pelo Sabre Solar.

Mas ele não avança sozinho.

Ele me orbita.

Uma onda de luz circulando um núcleo de trevas.

Somos um eclipse.

Eu perfuro a escuridão do convés, concentrando destruição no ponto de impacto. Logo atrás de mim, o capitão atravessa os espaços que abro com barragens de cortes luminosos e explosões radiantes que destroçam as Dragas.

Os Esculiões ainda tentavam despertar do bombardeio de LE-0.

Mas agora havia dois campeões avançando sobre eles.

O convés inteiro era riscado por rastros de energias opostas deixados por nossas armas em movimento. Ziguezagueando. Imparáveis.

Talvez eu estivesse alucinando.

Mas vou dizer o que vi naquela noite.

O rio de Shén-li fervia.

As nuvens acima giravam como um furacão vivo.

Olhos sombrios flutuavam no céu.

E, do olhar deles, trombas d’água e horrores psíquicos desciam violentamente sobre o rio — evitando o Deixa em Branco por centímetros impossíveis.

Vi Dragas serem arrancadas das profundezas enquanto berravam como condenadas sendo arrastadas para o Abismo.

E, quando voltavam à superfície...

Eram apenas carcaças, paródia da ameaça que foram em vida.

A fome antinatural.

A violência.

A movimentação impossível.

Tudo desaparecia.

Nuvens ameaçadoras... — resmunga Hon-sa do alto da gávea. — Não acredito... LE-0 estava certo!

Eu e Lizzo atravessamos o tombadilho inteiro.

Uma vez.

Duas.

Talvez três.

Já não sei.

Só lembro do som das lâminas.

Da luz. Do vento. Da sensação absurda de invencibilidade.

Quando a última Draga caiu, paramos na proa, a um passo de sermos lançados ao rio.

E então...

Os céus cessaram sua convulsão.

O rio lentamente voltou ao silêncio.

Eu observo aquela destruição colossal.

E chego à única conclusão lógica possível.

— A gente é foda pra caralho!

Capitão Lizzo, completamente exausto, ergue o Sabre Solar.

Eu sorrio sob o elmo.

E colido Gladius Aeternum contra a lâmina de luz. O impacto ecoa como um gongo metálico pela noite. Anunciando o triunfo da Ledgyão da Escuridão...

E dos Piratas Solares.

Xitarro, sem adversário, sobe à gávea e fica ao lado de Hon-sa. À medida que as nuvens se abriam, uma nova luz despontava, ainda rósea. Era uma nova alvorada que, de sua posição elevada, os dois felinos viam primeiro.

O vento frio da manhã atravessa o convés.

A batalha finalmente terminara.

Hon-sa olha faceira para Xitarro.

Agarra a gola de seu kimono e o força para baixo, seguindo-o pouco depois. Os dois desaparecem dentro da gávea.

- Todas as minhas coisas estão lá em cima! - resmunga LE-0 flagrando o ato.

- "Consulta!" - Amellie falava monotônica, imitando perfeitamente a voz do Droid. - A imediata seria "castrada"?



Como sou o capitão, cabia a mim a autoridade.
E também a culpa por tudo que aconteceu naquela madrugada.
Não consegui dormir.

Mas estava satisfeito.

Quando o sol nascesse de vez, poderia contabilizar danos, perdas, reparos, decisões equivocadas. Ver quanto poderíamos ter evitado. Mas naquela hora eu só queria descansar.

Estava sozinho na cabine com um casaco limpo sobre os ombros. Tirei a bandana para molhar o rosto em uma bacia de água na janela.

— Oh... Perdão. Eu deveria ter batido. — Hon-sa entrou segurando aquele painel mecânico dela, e com alguma tarefa burocrática. Eu não estava nu. Mas estava sem a bandana. Não me apresso a colocar de volta, como de costume. Não desta vez. Não para ela.

— Sem problemas. — faço sinal para ela entrar. — Sei que você já conhecia minha “condição”... mas imagino que seja a primeira vez que a vê de verdade.

Aponto discretamente para o lado esquerdo do rosto. Percebo que ela olhava longamente e confusa.

— Enervante? - Pergunto. Era estranho que o Lord Edgy reagiu melhor sendo pego de surpresa do que minha mais fiel confidente?

Hon-sa inclina a cabeça. Analisa. E então ri.

— Honestamente? Meio decepcionante.

Ela se aproxima da mesa enquanto fala. Havia uma bandeja circular de estanho com algumas uvas sobre ela. Hon-sa derruba as frutas sem cerimônia e pega a bandeja.

— Acho que a culpa é do pai do meu ex.

— O lich abobalhado? — tento lembrar.

— Ele era gigantesco, musculoso, azul ... mas a cabeça era literalmente um crânio amarelo dentro do capuz. — ela comenta enquanto limpa a bandeja com a própria cauda peluda até a superfície ficar perfeitamente reflexiva. — Nem sabíamos se ele tinha nuca. Debaixo do capuz parecia não existir pescoço.

— Então, imagino que comparativamente eu não seja tão feio assim. - falo confortado.

— Eu definitivamente concordo.

Ela me entrega a bandeja.

E eu paraliso.




O lado morto.
O olho vazio.
A carne deformada.

Tudo havia desaparecido.

Minha mão toca o rosto lentamente.

— Mas... como?

Hon-sa dá de ombros.

— Seu "padre" não falou que a culpa impedia a restauração? — ela pergunta casualmente. — Acho que ela simplesmente... acabou.

Eu rio baixo para mim mesmo. Sem humor. Só compreensão tardia.

A conversa com Lord Edgy. O garoto não tentou me absolver. Não tentou dizer que eu estava certo. Só me lembrou que continuar andando também era uma forma de penitência, e que ao longo da história eu fiz uma nova lenda.

E em algum momento...

Aquilo bastou.

— Acho que só precisava conversar honestamente com um fanboy de armadura. — admito enfim. — O que, aliás, está para desembarcar na Montanha Morta, certo?

Começo a amarrar a bandana outra vez.

— Você não precisa mais disso. — Hon-sa observa.

— Infelizmente, já faz parte da mítica do Capitão Lizzo... o Pirata das Mãos Vazias.

Coloco o chapéu. Visual completo. Hon-sa cruza os braços com um sorriso.

— Talvez seja melhor esconder esse rosto mesmo.

— Ciúmes, imediata?

Ela revira os olhos por trás dos óculos enviesados.

— Digamos que se continuar ficando bonitão assim talvez eu não queira mais ser apresentada apenas como “amiga da família”.





— Amellie, muito obrigado. 

O Deixa em Branco já estava ancorado.

Xitarro e LE-0 baixavam o escaler que nos levaria até a praia. Dali em diante, seguiríamos pelo pântano rumo à Montanha Morta.

Eu estava sem o elmo, apoiado na amurada com ele debaixo do braço.

Amellie descansava ao meu lado.

— Eu é que agradeço, Bentho! — ela responde sorrindo. — Você foi excelente contra os monstros! O tempo de espancar corvos acabou.

— Não falo disso. — corrijo. — Hálcora... minha mãe... eu precisava disso. Precisava me distrair. Precisava confiar em mim mesmo outra vez.

Olho para o convés parcialmente destruído.

— Essa aventura foi exatamente o que eu precisava.

Ahoy, meu líder destemido. — Amellie provoca. — Agora vai lá. Receba aquele aperto de mão absurdamente masculino que você claramente está esperando.

E então eu o vejo.

Capitão Lizzo descendo da cabine.

Chapéu.

Bandana.

Confiança absoluta.

Acho que era a primeira vez que ele me via sem elmo.

Mas agora parecíamos em igualdade.

E eu já não era o garoto que matava ratos em Huo-fen ou espantava Corvos de Morval.

Eu estava entre os grandes.


   

Vejo nós dois caminhando lado a lado pelo convés. Líderes de nossos respectivos grupos.

Prontos para qualquer coisa.

Exceto...



A maluquinha dos óculos.

Inteira.

No convés.

Secando o cabelo como se nada tivesse acontecido.

— Ah! Senhorita Mary Sue está aqui! — comemora Hon-sa, se aproximando com naturalidade enervante, e voltando-se para Lizzo. — Chamada completa, capitão! Algumas escoriações, danos materiais... Mas milagrosamente nenhuma baixa!

— Lord Edgy... — a voz do capitão sai genuinamente abalada. — Opiniões?

Eu estava pasmo.

— Só consigo concluir uma coisa... — começo lentamente. — Nós fomos tão épicos no convés... que as Dragas ignoraram qualquer coisa que caiu no rio.

Lizzo respira fundo E recompõe instantaneamente a postura.

— Esse será meu headcanon. - ele aponta para mim confidenciando.

Ele então caminha até Mary Sue enquanto eu prefiro me esconder atrás de um mastro. Especialmente sem o elmo.

— Senhorita Mary Sue. — Lizzo faz uma reverência elegante. — Fico feliz em ver que está bem. E considerando que não consegui garantir sua segurança adequadamente... não encontro em meu coração justificativa para cobrar pelo restante da viagem.

Mary Sue arregala os olhos.

— Uma viagem de navio grátis?!?

Ela salta de alegria.

— ESTE É O MELHOR DIA DE TODOS!

E sai correndo para os aposentos. Eu observo ela desaparecer pelo corredor. Então finalmente sinto segurança suficiente para voltar ao convívio dos meus amigos.

— A Montanha Morta, uma jornada na lama do pântano... — constato desanimado. — Já estou com saudade das dragas...

— Por que não vem com a gente? — Lizzo fala, sem compromisso.

Eu congelo.

— Fala sério? — eu pergunto.

— [Nós temos um problema para resolver na Montanha...] — Gladys me lembra.

— E você não ia querer alguns dias isolada no navio, com LE-0? — sussurro.

— [Em nome de Bophades, deixa o homem fazer o convite!]  — A espada reverte o rumo.

LEDGYÃO! — Eu elevo minha voz. Xitarro e Amellie se juntam a mim. — O capitão vai nos fazer um convite. Prossiga, capitão!

Lizzo apoia um pé em um barril, e descreve:

 {Estamos a caminho de Nova Ethiópia, onde fomos convidados pela Princesa Andrômeda, a última regente depois de um golpe de estado, para proteger sua terra de uma entidade. Alguns acham que é um kraken. Outros, uma tempestade viva que cobre o horizonte de leste a oeste. É algo que todo o ano assola todo o horizonte, trazendo em seu caminho dragas, relâmpagos e destruição. Caberá a nós unirmos facções antagônicas e descobrir o mistério desse ataque, e que entidade profana ataca a ilha-nação...}

Eu imagino a surpresa dele ao ver nossa coletiva cara de taxo.

— E então? — Lizzo estranha nossa expressão, como se recusar uma aventura fosse inimaginável. — Não parece uma aventura digna?

— Parece longa. — admito. — E complicada.

— Nós somos favoráveis a sidequests. — Amellie faz um gesto didático com as mãos. — Mas isso que você descreveu é praticamente o início de outra campanha.

— Eu só não gostei da parte de brigar com “coisa maior que o horizonte”. — Xitarro cruza os braços e balança a cabeça negativamente.

Hon-sa e LE-0 trocam um olhar quase ofendido.

— Estou decepcionada com vocês. — a imediata suspira. — Se os Carvadores Dourados realmente assumiram pirataria daquelas águas, ajuda extra seria muito útil.

— Confirmo. — acrescenta LE-0. — Probabilidade de desastre marítimo: alta. Probabilidade de desastre político: ainda maior.

Eu recoloco o elmo devagar.

— Bem, nós acabaríamos levando nossos próprios problemas para cima do seu navio, capitão.

— O quê? A Nova Guarda? — Lizzo ri, apontando o polegar para Hon-sa. — Balmon já tem uns três navios atrás da gente só para pôr as mãos na tecnologia dela.

— Eu conheço Balmon. — balanço a cabeça. — Ele é perigoso… mas não é obsessivo ou destrutivo como Capitão Khao.

— O grandalhão com braço de pedra? — Lizzo arqueia uma sobrancelha. - Eu... só ouvi histórias dele...

Apoio um pé no barril, involuntariamente imitando a pose dele de minutos atrás.

— “O Colosso das Montanhas Castanhas”. “O homem mais forte de Shén-li”. Atualmente movendo céu e terra numa caçada pessoal contra nós. E ele ainda é o problema administrável.

Os Piratas Solares silenciam.

— Lady Àquela, a maior deles, também está atrás da gente. — continuo. — E meu pai…

Até o vento parece diminuir.

— Lord Blunt, o Maior Vilão do Mundo, eventualmente sempre nos alcança. Não importa para onde vamos.

Agora era a vez dos Piratas Solares ficarem com cara de taxo.

— Dois capitães lendários… e LORD BLUNT? — Lizzo coça a cabeça. — Rapaz… vocês realmente vivem perigosamente.

— Parece que vocês garotos já têm comida demais no prato. — Hon-sa inclina a cabeça, genuinamente impressionada.

— Estatisticamente falando… — LE-0 pondera. — É gente demais para eu trair.

Lizzo cruza os braços, pensativo, antes de sorrir daquele jeito irresponsavelmente confiante dele.

— Então fica combinado assim: nós resolvemos nosso pequeno apocalipse marítimo em Nova Ethiópia… vocês sobrevivem à própria lista de procurados… e depois fazemos uma aventura juntos.

— Uma aventura razoável! — Hon-sa complementa.

— Sem entidades maiores que o horizonte. — Xitarro aponta.

— Sem promessas. — responde Lizzo.

Amellie ri baixo.

— Nós sabemos como contatar vocês.

— Excelente! — Lizzo aponta dramaticamente para o horizonte. — Então os Piratas Solares aguardam o próximo ato!

Nós descemos no escale, e vimos então algo que era para nos enloquecer...

O navio inteiro treme.

— Ah… antes que eu esqueça. — Hon-sa sorri com orgulho felino para o capitão. — consertei o problema de falta de energia com seu novo sabre e a Thundesphere. Não é o suficiente para a viagem inteira, mas...

Lizzo ri.

- ... Mas deixa a Ledgyão com um "gostinho de quero mais"! - ele termina. - Mudar para modo Dragonfly.

O casco se ergue alguns centímetros da água. Nós da Ledgyão lentamente olhamos para cima.




Luz atravessa as velas solares, que se abrem como asas.

E o Deixa em Branco começa a subir, voando firme como uma libérula.

— …Ah, qual é. — murmuro.

O navio voador avança rumo ao horizonte da manhã enquanto a tripulação acena do tombadilho.

Mary Sue surge atrás da amurada, segurando um café.

— NÃO SE PREOCUPE, AMIGO DE METAL! — ela berra para mim. — EU PROTEJO ELES PARA VOCÊS!!

Eu observo o navio desaparecer entre as nuvens.

E balanço a cabeça.

— Maluquinha… maluquinha…