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30 de abril de 2026

Major Fracture M&M 3ª

 



Elias Vargas.

CLASSIFIED

MAJOR FRACTURE

FILE: MF-11 | STATUS: ACTIVE | DESIGNATION: MULTI-ENTITY COMBAT UNIT

"THE ARMY OF ONE MAN"

ABILIDADES

STR 5
STA 6
AGI 4
DEX 3
FGT 8
INT 3
AWE 4
PRE 2
      

DEFESAS

DODGE     10
PARRY     11
FORT      10
WILL       9
TOUGH      8
      

ATAQUES

UNARMED STRIKE   +14 | DMG 5
FRACTURE BURST   AREA | DC 21
      

PERÍCIAS

ATHLETICS        +13
CLOSE COMBAT     +14
RANGED BURST      +9
MILITARY EXP     +13
INSIGHT          +10
PERCEPTION       +10
INTIMIDATION      +6
      

VANTAGENS

LEADERSHIP
TAKEDOWN 2
TEAMWORK
POWER ATTACK
ACCURATE ATTACK
IMPROVED INIT
ASSESSMENT
FEARLESS
DIEHARD
      

PODERES

[DUPLICAÇÃO TÁTICA]
DUPLICATION 8 (HEROIC, MENTAL LINK)
> ATÉ 8 UNIDADES ATIVAS
> CONSCIÊNCIA COMPARTILHADA
> OPERAÇÃO AUTÔNOMA SINCRONIZADA

[DESCARGA DE FRATURA]
DAMAGE 11 (AREA BURST, TRIGGERED)
> ATIVA NA GERAÇÃO DE DUPLICATAS
> INTENSIDADE ESCALÁVEL

[REABSORÇÃO]
REGENERATION 5 + HEALING 5
> RESTAURA DANO E FADIGA
> REQUER ABSORÇÃO DE UNIDADE

[REDE DE CONSCIÊNCIA]
SENSES (MENTAL LINK)
> PERCEPÇÃO DISTRIBUÍDA TOTAL
    

MF-DOSSIER//PL11//TACTICAL-EVALUATION//MULTI-ENTITY-SUPERIORITY//AUTHORIZED-PERSONNEL-ONLY// DATA-FRAGMENT-LOG: A7X-9912-BR//VISUAL-INTEGRITY: PARTIAL//REDACTED//REDACTED//

24 de abril de 2026

[Edgelord] Rave

 











22 de abril de 2026

DICAS PARA MESTRES #06

 Negociação em D&D além do “passou/falhou”

uma adaptação inspirada em Draw Steel

Como estou de férias num resort, nãontem EDGELORD esta semana.


Se você já mestrou ou jogou D&D por algum tempo, provavelmente já esbarrou em uma situação estranha: a narrativa aponta claramente para um resultado… mas o dado decide o contrário.


Eu já passei por algo ainda mais extremo.


Em uma campanha, o grupo chegou a um hub e precisava de uma informação essencial. Encontramos o NPC certo — alguém que tinha a informação e queria compartilhá-la. Ainda assim, por força do hábito, o mestre pediu um teste de Persuasão. Rolamos mal. Resultado: o NPC simplesmente não nos ajudou e uma sidequest inteira foi perdida.


Esse tipo de cena não é raro, especialmente com mestres menos experientes ou muito rígidos com regras. Mas ele revela um problema importante: o uso inadequado dos testes sociais.


Aliás, eu já abordei o básico de interações sociais neste outro texto:

Dragão de Plutônio: D&D 5e. - Como conduzir interações sociais

Considere este artigo o Advanced dele.


Aqui, quero ir um passo além e propor uma adaptação prática para D&D inspirada em sistemas mais modernos, como o Draw Steel, que tratam negociação de forma mais narrativa e menos binária.


---


O problema: quando o dado quebra a história


O erro central naquele exemplo foi simples:


«Não havia incerteza real.»


Se o NPC queria ajudar, o teste não deveria determinar se a informação seria dada, mas sim como isso aconteceria.


Testes sociais em D&D muitas vezes são tratados como interruptores:


- passou → acontece

- falhou → não acontece


Isso funciona para ações físicas, mas falha ao lidar com comportamento humano.


---


Princípio fundamental


Só peça rolagem quando houver risco real e consequências interessantes.


Se o resultado óbvio da cena já está claro, não role dados. Resolva na ficção.


---


A adaptação: negociação com graus de sucesso


A seguir está uma forma simples de adaptar negociações em D&D para algo mais robusto e narrativo.


1. Escolha o atributo e a perícia


- Carisma (Persuasão) → convencer, negociar

- Carisma (Enganação) → mentir

- Carisma (Intimidação) → pressionar

- Sabedoria (Intuição) → entender o outro


Regra prática:

Quem influencia usa Carisma; quem resiste pode usar Intuição.


---


2. Defina a atitude do NPC


Antes de qualquer rolagem, como falei no Artigo original:


- Amigável → CD 10

- Neutro → CD 15

- Hostil → CD 20+


Ajuste conforme o contexto:


- Pedido absurdo → aumenta a CD

- Boa argumentação ou vantagem narrativa → reduz a CD ou joga com vantagem.


---


3. Use graus de sucesso


Em vez de “sim ou não”, use margens de resultado:


- +10 ou mais → sucesso completo

- +5 a +9 → sucesso com benefício extra

- 0 a +4 → sucesso com custo

- −1 a −4 → falha

- −5 ou menos → falha com consequência negativa


---


4. Nunca bloqueie conteúdo essencial


Se a informação é necessária para a história avançar:


- o grupo sempre obtém a informação

- o teste define qualidade, custo ou consequência


---


5. Falhas também movem a história


Uma falha não deve travar o jogo, mas complicá-lo:


- informação incompleta

- informação enviesada

- custo inesperado

- criação de novos problemas


---


Revisitando o exemplo (versão corrigida)


Mesma situação:


O grupo encontra um NPC disposto a ajudar.


Em vez de rolar para “ver se ele ajuda”, o mestre pede um teste para definir como isso acontece.


Possíveis resultados:


- Sucesso alto → o NPC fornece tudo + detalhes extras

- Sucesso normal → fornece a informação necessária

- Sucesso com custo → ajuda, mas exige algo em troca

- Falha → fornece a informação, mas incompleta ou imprecisa

- Falha crítica → fornece a informação, mas cria complicações


A sidequest não desaparece. Ela muda de forma.


---


Negociações em múltiplas etapas (opcional)


Para cenas mais importantes:


- limite a 3 testes

- cada teste altera a posição do NPC

- o resultado final define o desfecho


Isso cria uma dinâmica dramática sem transformar a cena em combate.


---


O maior ajuste aqui não é mecânico, mas conceitual:


«O dado não deve decidir se a história acontece, mas como ela acontece.»


Quando você aplica isso, negociações deixam de ser obstáculos arbitrários e passam a ser ferramentas narrativas.


E, talvez mais importante, você evita momentos como aquele que eu descrevi no início — quando um NPC disposto a ajudar simplesmente… decide não ajudar por causa de um número ruim.


Isso não é desafio. É ruído.


E RPG bom não precisa de ruído para criar tensão.

14 de abril de 2026

[Edgelord] Mito de formação: O Nascimento da Montanha Morta

 A Agonia da Fera Colossal: 

O Nascimento da Montanha Morta


Nos tempos em que os Deuses ainda caminhavam entre os homens, e o horizonte não era uma linha, mas uma fronteira viva, erguia-se a Guerra dos Dois Horizontes.

E nela, dois nomes eram mais temidos que exércitos:

Aetíades e Bophades, os Irmãos do Limiar.

Enquanto pisassem o solo de Chiller, eram inquebráveis. Não apenas fortes, mas parte da própria terra. Ferir um deles era como tentar cortar o vento com lâmina.

Os invasores de Hel-thor entenderam cedo:
não venceriam os irmãos… lutando honestamente.

O Estratagema de Hel-thor


Do além-mar, trouxeram algo que não deveria existir.

Uma criatura colossal.
Antiga. Silenciosa. Paciente.

Um titã de carne e pedra que dormia de olhos abertos, cuja pele imitava montanhas e cujas costas podiam sustentar florestas inteiras.

Eles a posicionaram na foz do grande rio.

E esperaram.

Quando o chamado da batalha ecoou, Aetíades e Bophades avançaram — confiantes, como sempre foram. O chão sob seus pés era firme.

Mas não era Chiller.

Era carne estrangeira.

O Primeiro Sangue


Naquele falso solo, pela primeira vez, lâminas encontraram carne divina.

E o impossível aconteceu.

Os Irmãos sangraram.

O impacto não foi apenas físico — foi um abalo no próprio tecido da guerra. Durante eras, Aetíades e Bophades haviam sido absolutos, intocáveis, quase conceitos em forma de guerreiros.

Agora… eram carne.

Mas os invasores cometeram um erro fatal.

Porque os Irmãos do Limiar não eram invencíveis apesar da batalha.

Eles eram invencíveis por causa dela.

O sangue caiu quente sobre a superfície da criatura.
E, junto com ele… veio a fúria.

Não uma fúria cega — mas algo mais antigo. Mais profundo.
Uma resposta primordial à violação.

Eles lutaram feridos.
E por isso lutaram com o dobro de fúria.

Cada golpe carregava dor.
Cada movimento, resistência.
Cada respiração, uma recusa em cair.

Se antes eram como a terra — firmes e eternos — agora eram como um vulcão em ruptura.

Imparáveis.

A criatura sob seus pés começou a reagir, intoxicada pelo sangue divino. Seu corpo colapsava enquanto os irmãos avançavam, não recuando um único passo.

Os inimigos, que haviam esperado ver deuses sangrarem…
testemunharam algo pior:

Deuses que sangram — e ficam mais fortes por isso.

E assim, mesmo feridos, mesmo pela primeira vez vulneráveis…

Aetíades e Bophades venceram.

Não porque não podiam cair.

Mas porque, naquele momento,
se recusaram a cair com uma fúria que o mundo ainda não havia visto.

A Queda da Fera

A fera estremeceu.

Não de dor comum, mas de rejeição absoluta.

O sangue dos Irmãos do Limiar era puro demais, antigo demais, real demais para aquele corpo que não pertencia àquele mundo. Era veneno. Era sentença.

A criatura morreu lentamente, em convulsões que dobraram o horizonte e rasgaram o rio.

A Montanha Morta

Quando o titã cessou seus movimentos, seu corpo não desapareceu.

Ele ficou.

E apodreceu.

Sua pele escureceu até um negro opaco, frio ao toque, como se a própria morte tivesse se solidificado ali. Seus sulcos se encheram de água parada, dando origem a pântanos densos e venenosos.

Assim nasceu a região que seria temida por eras:

A Montanha Morta

O Ferro Frio e o Ferro Quente

Da carcaça da criatura, dois legados surgiram — opostos como os próprios horizontes em guerra.

Ferro Frio

Seus ossos fossilizados se tornaram um metal negro, pesado e silencioso. Um material que não refletia luz… e parecia devorar magia.

Armas feitas dele não brilhavam.

Elas apagavam.

Foi com esse ferro que Blunt ergueu a Torre Alta — uma prisão feita não para conter corpos, mas para sufocar o próprio espírito. Diz-se que suas paredes ainda sussurram com ecos da fera que lhes deu origem.

Ferro Quente

Onde o sangue dos irmãos se acumulou, o minério reagiu.

Não esfriou.

Nunca.

Ali, o ferro pulsa, como se tivesse coração. Vermelho nas profundezas, vivo, instável — carregado de um poder que não pode ser forjado sem sacrifício.

Hamme, a Armeira de Hatamon, foi a primeira a compreender o segredo:

Somente o sangue dos aasimares herdeiros de Aetíades poderia despertar o ferro adormecido… e transformar ferro frio em ferro quente.

Foi assim que nasceu a lendária armadura:

Vigília Sombria

Não apenas proteção.
Mas memória viva da guerra.

EDGELORD - ARCO DA LEDGYÃO - EPÍLOGO




 A balsa de peixes subia o rio. nós achamos uma extensão mais tranquila para ficar, fora das vistas do rebocador.

Estávamos quase no meio do rio, onde a margem oeste era uma linha negra recortando o horizonte… a Montanha Morta. À leste, Hálcora já tinha desaparecido, como se nunca tivesse existido.

Amellie dedilhava o alaúde. Pequenas músicas mágicas, quase distraídas. Ajudavam a relaxar.

Mas quando o silêncio se firmou de vez, o mais improvável dos bardos tomou a manhã para si.

- ... E então... - Xiatrro contava aquela história em que Cahuters colocou Capitão Lizzo para lutar contra um lagarto elétrico que ignorava seus talentos. - Quando o lagarto morreu, eles abriram e viram que... NÃO TINHA NADA!

A história estava um caos. E está fora de contexto, sem coesão. Uma barda como Amellie deve perceber sem esforço, mas ela gargalhava mesmo assim.

— Acontece que o LAGARTO NUNCA teve reflexos de trovão! — Xitarro conclui, triunfante. — A culpa disso era…

Uma breve pausa combinada.

- CAHUTERS! - urramos todos, sorrindo. Depois, escarramos e cuspimos. 

— E Bentho lhe contou essas histórias todas em uma noite no Olho da Maré?! — Amellie pergunta, entre risos.

— Quando eu estava em Forte Jian, chegou um cadete daqui de Hálcora cheio de aventuras de Barbasuja, Ben Filler, e Capitão Lizzo. — explico. — Eram divertidas, nem pensava que essa gente saqueava navios e cidades costeiras. Era só... aventura livre no mar.

— Vamos cogitar trocar o projeto “Ledgyão” por um navio? — ela pergunta, ainda dedilhando, como se a ideia fosse metade brincadeira, metade tentação.

— Ah, Xitarro não sabe nadar, e minha armadura é uma âncora. — respondo. — Quero muito ter uma aventura pirata um dia… mas precisamos nos firmar em terra primeiro. E, para isso…

Eu saco Gladys.

— A senhora deve ter algo para nos falar, não é?

A tensão tinha diminuído o bastante. estávamos fora de perigo. Então, era hora de ver o que deu tão errado.

— [Bem…] — Gladius Aeternun começa, hesitante. — [Existe uma chance… não zero… de que Lord Blunt esteja nos rastreando, já que ele tem um pacto comigo anterior ao seu.]

— Gladys confirmou. — traduzo. — Meu pai está nos rastreando.

— E por que ela não avisou antes? — Xitarro pergunta.

Eu ouço e repasso.

- Ela diz que "Estebán" estava preso ao castelo e achou que jamais sairia... E... Ela me insultou com algo sobre "ela poderia ter esperado mais".

- Nossa organização não vai prosperar se um inimigo como Estebán puder sempre nos encontrar. - Amellie toma a dianteira. - Espada… consegue romper a ligação com Blunt? 

Eu espero ela responder.

— [Eu não posso cortar unilateralmente. Mas, se ele perder o sinal, estaremos livres. No Castelo Negro, ele me mantinha isolada com Ferro Frio nas paredes. E o Ferro Frio vem de… olhem para o oeste.]

Eu olho. Entendo.

A Montanha Morta… — digo. — Gladys acha que a Montanha Morta vai interferir na conexão de meu pai.

Amellie ergue as sobrancelhas.

— Certo. Eu conheço uma trilha até a Marca de Bearlord um dia rio acima. Tem alguns… inconvenientes, já aviso.

— Gladys diz que precisamos ir pelo subterrâneo. — continuo. — Estar cercados pelos veios originais de Ferro Frio. Precisamos ... atravessar as minas. E acho que vai ser pior que "inconvenientes"...

— Ela… disse isso? — Amellie estranha. Mas guarda o que quer que pensasse para si.

— [Bentho…] — Gladys hesita. — [Eu tenho a voz de Estebán? Ele é haltenor, sabia?]

— Não, Gladys. Não é a voz de meu pai... — eu resmungo desanimado.

— A espada está tentando descobrir de quem é a voz? — Xitarro se inclina, curioso demais. — Quem é, Bentho? Quem é?

— Pss… — Amellie corta. — Isso é pessoal.

Pois é.

Gladys nunca explicou direito quando eu ouvi a voz da minha mãe pela primeira vez. “A pessoa que mais respeitamos.”

Uma posição perigosa.

Agora… todos sabem.

Preciso encerrar isso. E sabia o que responder. Estive pensando bastante. Era minha equipe... Mesmo a mala da espada.

— Eu ouço… Khao.

— [Como é que falam nas academias? “maneiro, franguinho”?] — Gladys se intromete.

Xitarro franziu a testa, como quem tenta montar um quebra-cabeça com peças de outro jogo.

— O Capitão Khao? Mas… isso não faz sentido. Ele queria te prender. Igual à sua mãe. Por que não gosta de um e gosta do outro?

Eu solto um meio sorriso, desses que não chegam aos olhos.

Cruzo os braços. Inclino a cabeça. Explico.

— Não é igual. — digo. — Khao queria responsabilizar Lord Edgy. Não prender por prender… mas tratar como um homem que fez escolhas… e deve paga por elas... Eu não vou obedecer, obviamente, mas posso respeitar isso. Já a minha mãe… — dou de ombros — via um garoto. Um problema ambulante que precisava ser contido.

— Então é bom ser procurado? E quem caça a gente é… respeitável? — Xitarro pisca, lento. — Ser vilão e capanga é muito contraintuitivo... 

Aquilo claramente não era o tipo de diferença que ele costumava notar.

Amellie demora um segundo a mais do que devia.

— Uma voz te cobra. — ela murmura. — A outra te diminui.

Silêncio.

                Eu concordo com a cabeça.

Amellie estava quieta demais.

— Isso… — ela começa. — Isso é culpa minha.

— O quê?! — meu coração dá um salto curto demais. Será que ela ... — Amellie, eu não falei…

— Uma coisa que Estebán me disse… dois anos atrás, no Castelo Negro. — ela não me olha. — Que coisas ruins acontecem ao meu redor. Você vivia em uma feliz ignorância… seus pais eram o casal mais estável que eu já conheci… então eu me envolvo… e você… Lady Àquela é a pessoa mais doce que…

— Eu não odeio minha mãe. — corto, rápido demais. — Amellie, isso é só mais uma das nossas histórias… “Narrativas”. As pessoas achariam conveniente demais. Mas eu sempre soube que estaríamos em lados opostos. Eu até… — hesito — fantasiei como lidaríamos com isso.

Eu pisco.


Um balão de fuga.

Corda rangendo.

Lord Edgy subindo pelos céus de Shén-li.


A Arqueira Lendária chega atrasada.

— “Da próxima vez, Lady Àquela!”


E haveria outras.


Eu pisco.

Volto à balsa.

— Mas a gente resolve. — digo, mais para encerrar do que para convencer. — A mentira deles começou isso. A incapacidade de me entender alimentou isso. Eu vou superar. Só preciso de tempo… vou resolver. E preciso de você e Xitarro a meu lado.

— [Resolve?] — Gladys entra animada demais. — [Você vai é PAGAR POLICHINELOS, Escudeiro! Quero ver suor! Muito suor! Tom de comando!]

Eu respiro fundo — rápido demais — e, antes que ela continue, atiro a Espada Eterna no rio.

Xitarro se assusta. Quase salta atrás dela, mesmo sem saber nadar.

— Ele pode materializar a espada, Xitarro! — Amellie lembra, colocando a mão no ombro dele antes que faça algo ainda mais estúpido. — Acho que… está na hora de mais uma história de piratas…

—  Conhece alguma história de piratas, Amellie? — eu pergunto mais leve. Fizemos um progresso. E eles acreditaram no que eu falei. 

—  Porque não... Vivermos uma?


Um arpão colossal crava na lateral da balsa.


THUNK.


A embarcação inteira treme. Eu e Xitarro quase vamos para a água.


Amellie… nem pisca.


Uma embarcação surge na curva do rio, vindo da direção de Hálcora.


Rápida.

Direta.

Intencional.

Olho para o alaúde.

Olho para ela.

Era isso?

Ela estava… chamando?

Arranjando uma carona?

Claro que estava.

Claro que estava.



SEMANA QUE VEM: 
EDGELORD, OVA 01
O PIRATA SOLAR VS O HERDEIRO DA ESCURIDÃO!

10 de abril de 2026

EDGELORD - Cap. IX - Arco da Ledgyão

 Por um segundo achei que Hálcora, pérola valiriana, se tornaria um cemitério a céu aberto ou seria empurrada mar adentro... Ou ao menos coberta pela "Escuridão Enlouquecedora de Blunt". Eu não queria que isso acontecesse... mas agora eu até que preferia, considerando a alternativa.

A cidade pode perseverar. Eu estava condenado.

Vou adotar o "Qual é o seu ângulo?" como filosofia pelas próximas horas de vida em que estiver vivo. Enxergar o problema pelos olhos de alguém é excelente para entender o que fazer com seu projeto ou mesmo antever os passos de seus adversários.

Os cartazes contavam uma história.

Primeiro, eu fujo do Castelo Negro com o Arsenal de Lord Blunt. O Conselho Regente não  podia simplesmente anunciar isso sem causar confusões, admitir a "mentira conveniente" da fundação da Nova Guarda. Enquanto eu estava tentando galgar alguma luz em Huo-fen, eles devem ter tentado as formas "sutis" de me encontrar e apreender.

Quando tudo falhou, precisaram colocar meu rosto em um cartaz. Precisava formalizar a caçada humana.

Meus pais não devem ter ficado felizes.

Mas então, algo aconteceu. Balmon estava tentando abafar por algum motivo.

Os Corvos de Morval não vieram a Hálcora atrás de mim ou de Amellie, mas de Lord Edgy. E estavam muito melhor equipados. Balmon deve ter fornecido. Eu descobri que ele tinha alguma influência sobre eles. Tudo indica que me pegar parecia algo prioritário, e que escrúpulos seriam maleáveis, e Balmon era alguém que poderia fazer isso.

... Então, por que de repente ele quis amenizar? Por que, aos olhos de Huo-fen, Bentho só estava "desaparecido"?

Ele estava com medo de alguém. 

Meu primeiro pensamento foi o pior: Esteban, o verdadeiro Lord Blunt, teria deixado o palácio. O Senhor das Trevas e da Guerra. Balmon nunca escondeu o quanto o Levante o afetou. Se fosse o caso... Se meu pai estivesse envolvido, ele tinha poder para rasgar o continente. Pessoas iriam morrer. Isso seria terrível, não é?

Agora, descubro que foi só a minha mãe. Shen-li podia dormir tranquila. Quem ia morrer era eu.



— Lady Àquela, que-ri-da! — Amellie praticamente transfigura-se em uma dama sorridente e passa na minha frente. 

Minha mãe, Lady Àquela, estava tão focada em mim que só agora reconheceu nossa "professora de ópera" e detem seu avanço.

— V-você envolveu a Senhorita Amellie nisso?! — ela urra. Estava ainda no platô imediatamente antes de nós, a pouco mais de cem metros.

— Querida, visual retrô? Arrasando! — ela comenta. Realmente, minha mãe não estava usando a armadura da Nova Guarda. Eu mal notei. — Vejam todos! É a Arqueira Lendária! A Dama do Arco está em Hálcora!

Amellie pensou rápido ante minha hesitação. E foi brilhante.

Ela deve ter usado algum truque sutil. Sua voz foi projetada em alguns pontos, e a presença da "celebridade" foi notada. Hálcora estava cheia. Era uma manhã agitada. As pessoas começaram a andar encantadas e surpresas. Primeiro um ombro empurrado, depois um passo hesitante, até que o fluxo natural da avenida se fechou ao redor dela.

— Certo, Edgy, preciso de sua atenção... — Amellie, vendo que conseguiu atrasar minha mãe, se volta para mim. — Precisa decidir... Sei que é algo muito pessoal, mas é hora de agir. E eu estou com você.

— O quê?! — ainda não fazia sentido. Aquela roupa. A mesma do quadro no salão. A versão dela que derrotou Lord Blunt. — Isso é… sério? É Àquela contra Edgy? Agora? Ainda no Segundo Arco?!?

— Se escolher lutar, nós lutamos. Se quiser fugir, vamos nessa! — Amellie estava sendo a sóbria da dupla. — Mas, um ou outro, não podemos ficar aqui embaixo. Sua mãe é uma arqueira em terreno elevado, com linha de visão. O mando de campo aqui é dela... E muitos civis podem levar um raio ou flecha por acidente. Precisamos colocar a luta em nossos termos, em nosso terreno.

— T-tem razão. Me segue. — comecei a me mover. — Média distância favorece ela. Eu e o Xitarro fomos emboscados num beco aqui perto, talvez—

Eu já havia andado uns bons cinco metros, quando percebo que Amellie não estava me seguindo.

Olho preocupado. Minha mãe ainda estava lá, cercada por "fãs". Mas não estava impressionada. O fato de não estar berrando conseguia, paradoxalmente, me deixar mais preocupado.

— Amellie?!

A barda estava parada em um passo. Boca semiaberta.

— O que foi que...

Eu me aproximo.

Os olhos dela mexiam freneticamente, mas nada mais. Ela não falava... Não respirava.

Estava paralisada.

E eu sei que minha mãe até tinha flechas que emulavam efeitos. Mas não foi ela...

— Essa ... Não pode ser...

Eu me coloco na frente de minha capanga paralisada e encaro minha mãe. Minha mente correu pelas possibilidades.

-> ouça esta parte ao som do tema de Lord Blunt

Flechas especiais de outro arqueiro oculto.

Artefatos.

Capitão Achima... Outro usuário de magia.

Qualquer coisa.

Qualquer coisa seria melhor do que—


Meu Pai é o Maior Vilão do Mundo... E ele está aqui.

Pessoas querendo olhar Lady Àquela esbarravam em Estebán, ignorando que estavam no caminho de Lord Blunt. Mas a mão firme dele mantinha um feitiço de concentração em Amellie... 

— [Saiba que eu vou colocar a culpa toda em você, Bentho] — fala Gladys. Se era para ser engraçada ou séria, irrelevante.

— "Eu ouvi isso..." — era a voz de Blunt. Ele estava telepaticamente no nosso "canal". O que isso significava? - Eu só vim buscar o que é meu.

Mais um para atrapalhar o monólogo?

— Bentho... Ou você sobe até aqui, ou NÓS DOIS vamos até aí, e só vai ser pior! — minha mãe fala, apontando para mim. — Sua escolha, rapazinho!

— Só se afaste da barda! — Meu pai fala pontualmente. - Devagar!

Eles não acertaram alguma coisa, porque eu vi quando minha mãe olhou confusa para ele.

— Esteban, sério? Vamos focar em disciplinar nosso filho antes de...

— BLUNT! ÀQUELA!!

Como... COMO tudo poderia ficar ainda pior?!?

-> Leia esta parte ao som da Nova Guarda 

Meu pai não reagiu, mas minha mãe sacou duas flechas, armou o arco e voltou-se para trás deles.

Para o topo da ladeira, imediatamente à frente da fábrica de barris.


Era capitão Khao, O Punho de Concreto, o Colosso das Montanhas Castanhas, surgindo com os raios do sol no topo da ladeira, acima de todos. E com ele um pequeno coro da Nova Guarda... Todos eles tenentes de primeira linha. 

— E ainda me trouxeram ao infame Lorde Edgy! — ele gargalha convencido. — E nem é meu aniversário ainda! O seu é na quinta, não é, Bentho?!

— Fique FORA DISSO, Khao! — Lady Àquela urra.

— Senão o que?! Vai furar meus pés de novo?

"De novo"?

— Amellie... eu realmente preciso de sua ajuda aqui... — eu sussurro.

Os olhos dela sinalizavam algo, mas era impossível interpretar.

— Àquela... Livre-se dele... — Meu pai comenta. — EU posso fazer isso, mas não sem causar um estrago enorme.

— Solte a professora de ópera e use sua "mão mágica" em Khao! — ela resmunga.

— Jamais.

Minha mãe encara a surpresa.

— Khao tem duzentos quilos e ameaça afundar sua cabeça com um punho de concreto há dezessete anos. O pior que senhorita Amellie fez foi criticar meu Cortilion...

— Amellie é mil vezes mais perigosa do que Khao jamais será! — meu pai fala. 

"Lord Edgy!" — urra o capitão do alto da ladeira. Ele tinha a vantagem de posição… não que isso importasse se meu pai resolvesse usar Loucura Sombria ou um banimento em massa. — Você vai subir aqui e se entregar à Nova Guarda! Vai receber o castigo como um homem! Eu ensinei você melhor do que isso, escudeiro!

O pior é que era verdade.

— Os PAIS DELE vão resolver isso! — minha mãe avança um passo, abrindo espaço à força. — Já falei! Este é o seu último aviso!

Nada intimidava Khao. Mas aquilo fez o batalhão recuar.

Por causa dela. Eu travei a mandíbula.

Khao me chamava de escudeiro. Errado… mas justo. Estava me responsabilizando.

Ela não.

Para ela, eu ainda era um rebelde sem causa a ser resolvido.

- [Suas opções são .... SHCKAAARRR" ,;.,;;, [~]´l ~ç,~~ç lç,

Um zumbido alto. Gladys estava falando e, de repente, ouço um chiado doloroso. 

Eu me encolho cobrindo a têmpora.

Percebo que meu pai reagiu também. Sentiu algo em Gladys. Infelizmente, não o bastante para libertar Amellie... 

E... O que seria do circo sem um palhaço?

Passando na frente da Nova Guarda, empurrando um enorme carro de feira, surge Xitarro.

Ele estava alheio a todos.

Passa entre minha mãe e meu pai pedindo "com licença".

E para na minha frente.

— Achei vocês! — ele fala com leveza. Àquela altura, tanto Khao quanto Lord Blunt estavam de olho nele. 

— Xitarro... agora não...

— Você falou "carro de fuga"... — ele ignorava o nosso aperto. — Isto é um "carro de repolho". Começa com "Carro". Será que serve?

— Xitarro... Amellie e Gladys estão fora de ação — aponto a barda com a cabeça. — E, no meio da ladeira, o casal simpático com quem você falou... São meus pais!

— Seu país?! — ele abre um sorriso, volta-se para eles acenando. — Oi, pais do EDGY! Eu sou o capanga do seu filho!

Bom saber! — urra Khao. — Vai fazer companhia a ele na cela!

— Sujeito simpático... — Xitarrro fala apontando para o Colosso. — E é enorme! O que aconteceu com o braço dele?

— Por favor, Xitarro... — eu rosno entre meus dentes. Um ruído indecifrável ainda emanava de Gladys. — Aquele é capitão Khao da Nova Guarda, e acho que quer prender todo mundo aqui. Meus pais não estão no nosso time. E uma batalha devastadora vai acontecer, e esta é a pior hora para ficarmos...

Xitarro era ingênuo.

Mas, de sua forma simples, sábio.

E, acima de tudo... era rápido.


O "carro de fuga" é chutado para a frente. Amellie já estava nele quando eu percebo. Eu sou empurrado e caio em cima, enquanto Xitarro simplesmente avança.

Lord Blunt, o maior vilão do mundo, tenta trocar a "hold Person" de Amellie e focalizar em meu capanga... Não consegue. Xitarro era um borrão. Um relâmpago vivo. Agora, o carro rodava ladeira abaixo, na direção da enseada.

Ato contínuo, Lady Àquela dispara duas flechas. Elas viajam anguladas, com um arco voltaico elétrico entre elas. Iria atingir todo o batalhão da Nova Guarda.

Khao adianta-se.

Estende o antebraço petrificado de forma defensiva bem no meio das flechas. O arco é interrompido, e o capitão parecia incólume. As flechas colidem com um "thuck" em algo além do batalhão.

— Você errou! — O capitão provoca-a.

Isso faz meu pai olhar para trás e se assombrar.

— Àquela ... Eu... Pensei que você não queria que EU matasse o Khao! — ele fala, olhando para a cidade, ladeira abaixo. — Ou que EU destruísse a cidade...

Aquilo atiça a curiosidade. Khao olha para trás.

A Nova guarda nunca foi o alvo.

um estalo seco de madeira tensionada sendo subitamente forçada além do limite. A carga empilhada diante da fábrica — barris recém-vedados, pesados de líquido e pressão — respondeu ao choque elétrico das flechas supostamente erradas, como um organismo acordando de forma violenta demais. A primeira fileira cedeu, os aros rangendo alto, e por um instante impossível tudo pareceu hesitar, como se a gravidade ainda estivesse decidindo se deveria agir.

Como um palácio de cartas, dezenas de barris e toras de escoramento caem sobre o batalhão, causando uma avalanche no topo da ladeira de Hálcora.

Antes de serem eles mesmos atingidos, meu pai envolve a cintura de minha mãe com o braço e dá um passo nebuloso, desaparecendo do caminho. 

-> Ouça esta parte ao som de Humor


— Ai  minha cabeça... — Amellie resmunga, recuperando o controle do próprio corpo. 

— Xitarro! Olhe para trás! — eu grito. — Não, Para a Frente! E ... Não! 

Saiam da frente! — Amellie usava algo que ampliava sua voz em um alerta. Era mais para nós não batermos em transeuntes ladeira abaixo, mas talvez salvassem algumas vidas.

o som chegou primeiro como um presságio e depois como certeza. A multidão se fragmentou em direções conflitantes, gritos substituindo o burburinho cotidiano, pessoas sendo empurradas pela urgência de sair do caminho sem saber exatamente para onde ir. O cheiro de vinho e óleo se espalhou rápido, misturado à poeira e ao sal do ar costeiro, enquanto os primeiros barris atravessavam o espaço onde, segundos antes, tudo ainda parecia sob controle.

E no meio disso tudo, o carrinho de feira arrancava, leve demais para competir, mas rápido o suficiente para escapar do pior da descida, carregando consigo não só a fuga improvisada, mas o ponto exato em que o impasse se rompeu de vez.

Lá em cima, onde a avalanche começara, já não havia mais formação, apenas sobreviventes tentando recuperar posição entre destroços e líquido escorrendo. E mais importante do que o dano imediato era o que ficava claro para todos os lados envolvidos:

aquilo não tinha sido um acidente.

Foi escolha.

E, a partir dali, ninguém mais estava parado.

Xitarro salta agilmente do carro, e começa a empurrar, aumentando a velocidade. Logo estávamos a uma distância segura... mas ainda em linha reta. Depois da enseada, só tinha o mar.

Eu via, na visão periférica, meus pais ressurgirem em um telhado próximo. Acho que estávamos ao alcance deles, mas nos atrasarmos por flechas ou magia significava sermos avassalados pelos barris e morrermos. E eu não sairia dessa tão fácil.

Quando o caos não poderia ser maior, percebemos que Capitão Khao, com um saldo impossível, emerge da avalanche. Mas aterrisa em um barril que rolava adiantado... Mas, com um equilíbrio impressionante, ele se mantém em cima, rolando com os pés.

— Esse cara é implacável! — Amellie comenta. 

— Xitarro, precisamos despistar o grandalhão! — eu urro, vendo que o catfolk tinha controle de nosso "carro de fuga".

— Despistar, certo — ele fala. — O que isso quer dizer? "Des ... Pis"...

— Qualquer coisa que faça ele não estar atrás da gente! — eu urro. 

— Certo. Volto já.

— Você o quê?!?

Xitarro dá um novo empurrão no carro e se afasta, e eu e Amellie estávamos nos segurando por nossas vidas num vagão desgovernado. 

Xitarro diminui a própria velocidade até emparelhar com a avalanche e vai... Conversar com o capitão Khao.

— Oi, bom dia... — ele fala. 

Khao estava controlando as passadas. Xitarro corria de costas. Devia estar tão confuso quanto nós.

— O que, em nome de Bophades, é isso?!? - ele resmunga.

— Senhor, poderia fazer um favor? — Xitarro falava, tranquilo e educafo. — Meu chefe precisa que você não nos siga por alguns minutos, poderia ser? Por favorzinho?!?

— Você é LOUCO?!? — Khao urra. — Já sei! Está "flexionando" sua velocidade, não é?! Você sabe com quem está falando?!

— O patrão falou um nome com "K", perdão, eu não peguei! Meu nome é Xitarro, mas atendo por "Fera". - ele estende a mão em cumprimento.

— Eu sou CAPITÃO KHAO! — O bárbaro nele rugia. As veias saltavam de seu pescoço em fúria. O barril abaixo dele começava a rolar mais rápido, afastando-se da avalanche. — O COLOSSO DAS MONTANHAS CASTANHAS! E eu sou MONGE também! Acha que é veloz, rapazinho!?

O barril trincava com o peso e a pressão que agora o colosso aplicava. 

O punho de concreto estendido, como uma quilha, melhora o equilíbrio. Cada vez mais próximo de Xitarro.

— Vou seguir você até O FIM DA TERRA!!! — ele salivava e urrava. Aplicava chi, fúria, cada iota de sua tremenda força para avançar. Ele era extraordinário.

— Bem... eu tentei.

Xitarro vira de costas, fica de quatro e... desaparece com o dobro da velocidade. Nem era uma disputa.



— BENTHO!!! — Amellie urrava.


— EU SEI! — Eu urrava.


— A ENSEADA! A ESTRADA ESTÁ ACABANDO! — Ela insistia.


— Eu estou no MESMO CARRO que você! — grito com raiva.


[#@$%¨#$¨%*&¨&#*] — chiava a espada em minha cabeça.


— Desculpa, Edgy, ele disse não. — Xitarro retorna, recuperando o controle. — Segura aí!

Com Xitarro controlando, nós viramos noventa graus à direita em uma ruela pouco antes do fim da avenida. 

Capitão Khao passa direto. Olhando assombrado para nós. Ele não tinha como fazer a curva.

Logo depois, a avalanche de barris, troncos e tenentes da Nova Guarda.

A enseada, enfim, chega. Khao rola por cima de um cais, que adentra mar adentro e, quando o cais acaba, é lançado ao mar.

Mal pode se levantar e viu o inferno de barris que o seguia. Ele precisa afundar nas águas para se proteger.

— Xitarro... — eu urro. — Olha para a FRENTE!!!

Havia uma carroça maior que nosso "carro de fuga", que acaba virando uma rampa.

Nós voamos.

Passamos por outro píer, na direção da Boca do Rio, e aterrissamos em um monte de peixes. Xitarro, felino, cai de pé. Amellie consegue um rolamento gracioso, amortecido pelos peixes.

Eu afundo como uma barra de ferro.

Uma sardinha entrou na fresta de meu elmo. O fedor é impressionante Preciso me desenterrar.

Arranco o elmo.

Estávamos em uma balsa de peixes, rebocada por um barco menor. Algumas dezenas de metros dos piers de Hálcora. 

Eu vejo meus pais em um telhado. Estávamos fora do alcance deles.

Amellie coloca a mão em meu ombro.

— V-você viu o que ela falou? — eu pergunto. 

— [Ela quer te botar de castigo e sem jantar... Que coisa ridícula].

— Como é?!? — eu pergunto.

— Como é o que? — Amellie estranha.

— Você não falou algo?

— Eu não. — ela afirma.

— Xitarro?!?

— Eu posso comer um peixe? — ele pergunta. — Perdemos o café da manhã...

— Eu ouvi alguém falando comigo...

— [Ah, então você voltou a me ouvir, Bentho?!?]

Eu puxo a Espada Eterna.

— Gladys?!? — eu estranho. — Por que você mudou de voz?

— [Eu já falei, a voz não é escolha minha... é sua] — ela resmunga. — [Estou soando diferente?]

Eu baixo a espada.

— Gladys não tem mais a voz da minha mãe.

Amellie leva a mão à boca.

— Bentho... Não...



8 de abril de 2026

EDGELORD - Cap. VIII - Arco da Ledgyão

 Meu pai é o Maior Vilão do Mundo... mas a Hierarquia do Medo tem Alguém Acima Dele...

Bem-vindos a Halcora, a Pérola Valiriana. 

A manhã em Hálcora subia devagar, como a própria avenida que cortava a cidade de ponta a ponta.

A ladeira principal começava estreita, quase tímida entre casas de pedra e varais coloridos, mas logo se alargava em uma via viva — comerciantes gritando preços, crianças correndo entre carroças, marinheiros subindo com pressa e descendo com histórias. Tudo fluía em duas direções: gente, mercadoria… e destino.

No alto, onde a rua parecia tocar o céu antes de despencar até a enseada, ficava a velha fábrica de barris. Madeira, ferro e ritmo. Martelos batiam em cadência, aros eram ajustados com precisão, e o cheiro de carvalho fresco se misturava ao de vinho e óleo. Barris recém-prontos eram empilhados em fileiras organizadas, aguardando transporte.

De tempos em tempos, carroças pesadas partiam dali. Carregadas e rangendo até o limite.

Lá embaixo, após alguns solavancos, a avenida se abria para a enseada, onde o mar refletia a luz da manhã como uma lâmina tranquila. Navios balançavam suavemente, indiferentes ao vai e vem da cidade.


___

Xitarro estava se debatendo.


Um som estranho — meio riso, meio sufoco — escapava dele enquanto algo o atacava sem misericórdia. Eu acho que incorporei isso a um sonho que estava tendo, mas saí do sono profundo ao perceber que era real; acordei de sobressalto.

Gladys materializa em minha mão. Eu me posto sentado, apontando para...


Amellie, fazendo cócegas em Xitarro.

— S-senhorita Amellie?! — eu soltei, completamente fora de eixo. — Virgílio!

Resmunguei para a armadura autômata, ainda meio alto… mas lembrando vagamente de que tínhamos “consertado” ela na noite anterior.

— Eu disse para vigiar a porta! - resmungo.

— E eu entrei pela janela! Ela foi literal! — ela corrigiu, sem a menor culpa. — E adorei seu novo amigo! Um “olá” para a fanbase furry! six-pack com zero gordura corporal…

— Pensei que seu nome era "Janete" ou algo assim… — Xitarro murmurou, recuperando o fôlego entre uma risada e outra. 

— Pois é, nosso ~intrépido líder~ não entende o conceito de “identidade secreta”… — ela respondeu, de ótimo humor.

 Eu estava feliz. Com Amellie ... Ou "Janete Quá", a Ledgyão estava completa! Éramos uma unidade, enfim. Então, a barda estendeu dois rolos de papel na minha direção.

— Feliz aniversário!

— Você lembrou! — eu disse, abrindo um sorriso automático. Admito um pouco animado demais. — Na verdade, é só na próxima quinta, mas—


Amellie congelou por meio segundo.


Sorriso amarelo.

— E-eu estava brincando… — ela corrigiu rápido. — Eu trouxe presen... você está brincando, não está?

— Eu… não… — agora eu estava constrangido. — Você passou alguns meses na minha casa… Imaginei que aprendeu o dia de ... esquece. O que é isso?

Desenrolei o “presente”.

Era Lord Edgy.

Na minha configuração de armadura.

Procurado.

— Parabéns, Herdeiro da Escuridão! — Amellie anunciou, teatral. — Você é oficialmente inimigo público de Shén-Li!

— E… isso é bom? — Xitarro perguntou, ainda meio perdido.

— Eu lutei muito por isso… — respondi, com um orgulho que talvez não fosse saudável. — Não se preocupe. Em Hálcora não tem atividade da Nova Guarda. Como você conseguiu isso, Amellie?

— Estavam pendurando na Estrada da Muralha... com... Isto — ela me estende um novo cartaz.

Eu já tinha visto. Era meu rosto, o nome "Bentho". 

A diferença era que, em vez de "Procurado", estava "Desaparecido".

— "Bentho Oeste" pode voltar a ser um charlatão agora... — ela ri. — Espero que você não estivesse com ciúmes de si mesmo.

Ela parecia leve... mas eu estava preocupado.

— Qual é o ângulo? — pergunto. Da mesma forma que ela me perguntou ao expor meu projeto.

— O quê? — ela estranha.

Momento um: Bentho está sendo procurado; momento dois: não está mais, mas Edgy é um procurado... O que mudou?

— Seus pais devem estar mexendo os pauzinhos nos bastidores… — ela respondeu.

Meus pais.

— Me dê o cartaz do "Bentho", por favor.

Ela me estende. Eu passo o dedo no papel e sinto a textura.

A maioria dos cartazes era gerada por magia. Materializados prontos, imagem e tudo, e não deixa diferença de textura. Mas não em Huo-fen. O engenhoqueiro orgulhoso, Balmon, preferia outro método.

Gravar. Queimar. Marcar. Máquinas, lentes… algum tipo de processo que eu nunca entendi completamente. Sei disso porque estive como cadete por alguns anos; sabia dessas coisas.

— Todos, exceto este, são mágicos — eu disse, levantando o cartaz de “Desaparecido”. — Este aqui… é do Balmon.

— Uh... estamos brincando de "detetives"? — Xitarro se aproxima curioso.

— A Estrada da Muralha começa em Huo-fen. Fazia sentido ter cartazes de lá... Mas se já sabemos que os cartazes de "Bentho procurado" são a ordem da capital, por que Balmon faria cartazes diferentes? 

— Ele queria agradar alguém? — arrisca Xitarro. 

— Ou ele estava com medo... — Amellie pensa. — Essas falsificações devem dar problema na "chefia" de vocês... Quem um capitão lendário temeria tanto a ponto de preferir ter de responder aos chefes?

Eu sabia quem.

E então Gladys falou em minha mente.

— [E ele está certo em ter medo.]

— Bentho? — Amellie sentia que algo me incomodava. 

Virgilia Sombria, me vista! — falo. 

A armadura respondeu de imediato. As peças se moveram com precisão mecânica, engolindo Virgílio de volta à sua função original. Em segundos, Lord Edgy estava de pé onde eu estava.

— Xitarro — apontei para a janela — eles não te conhecem, tem de ser você. Preciso de uma carruagem, carroça… qualquer coisa que ande. Um carro de fuga. Vai!

Meu "capanga fera" não precisa de nova ordem. Vai com um sorriso no rosto. Só recolho a mochila e o que não tinha tirado na noite anterior. Começo a descer as escadas, confiante de que Amellie estava atrás de mim.


A avenida principal de Hálcora estava… viva.

Descemos até o segundo platô da ladeira. O fluxo de gente era constante. Comerciantes, pescadores, crianças correndo entre adultos distraídos. O cheiro de sal, madeira e comida quente se misturava no ar.

Era uma cidade.

    Uma comunidade.

Gente de verdade.


E todos eles estavam em perigo por minha causa.


— Precisamos ir onde Xitarro possa nos encontrar! — Amelie protesta. Estávamos na avenida principal, no segundo platô desde a fábrica de barris.

— Aetíades Sagrado... a cidade está cheia! - estava ignorando ela. Colocando as idéias no lugar.

— Be… — ela se corrigiu rápido — Lord Edgy. O que está te preocupando?

— Eu cresci com os Quatro Capitães — comento. — Khao nunca temeu nada. Achima racionalizava tudo. Mas no Levante de Lord Blunt... Balmon teve um colapso... 

— Só chegaram a mim as versões oficiais~. — Amellie franziu o cenho. — Foi tão mal assim? 

— Lord Blunt mal reconheceu que ele existia. Balmon sempre foi ressabiado nas reuniões... Khao foi quem segurou o impacto… e nunca recuou. Dezessete anos, firme. Sempre lá. Ao contrário de minha mãe, que ...

— Bentho!

Ouço aquela voz aguda.

— Agora não, Gladys! — resmungo. — Balmon deve estar temendo…

— Não mova UM ÚNICO metro, menino!

Eu saco a espada eterna. Amellie chega a dar um salto para traz.

— Cara, eu nunca gostei do seu senso de humor… mas essa é a pior hora…

— [Eu estou calada, meu rei.] — Gladys respondeu.

Silêncio.

— B-Bentho… — Amellie disse, tensa — só você ouve a espada… mas isso… eu ouvi também.

Meu corpo travou.

Um segundo.

Dois.

Amellie explicou que Gladius Aeternum escolhia a voz de quem mais respeitávamos. Era assim que ela funcionava. Um truque psicológico do "diabinho no ombro". Mas isso deu uma confusão na primeira noite, quando achei que a espada era minha mãe.

Mas agora era o contrário.


Olhamos ladeira acima. No penúltimo platô antes da fábrica de barris.

Uma mulher avançava entre as pessoas sem pedir licença.

Cabelos loiros.

Olhos furiosos.


Um arco em mãos.



Lady Àquela. a Arqueira Lendária.

Ela não estava procurando.

Ela já tinha encontrado.

27 de março de 2026

EDGELORD - Cap. VII - Arco da Ledgyão

 — Estebán… — Àquela diz, tensa. — Tem certeza?

O sentinela da Nova Ordem jaz desacordado entre os arbustos. Um ponto de controle. Huo-fen estava sendo selada… mas eles foram mais rápidos. Já estavam na estrada.

— Certeza de quê?

— Estão fechando a cidade. — Ela olha para trás, inquieta. — Se Bentho ainda estiver lá, vai precisar da gente. E se a gente tiver que voltar…

Ela não termina.

— A espada não está em Huo-fen — Estebán responde, seco. — Está ao sul.

Ele fecha os olhos por um instante, como se escutasse algo distante.

— Espero que não vão para a Montanha Morta. No entanto, há Hálcora no ínterim.

Àquela estreita o olhar.

— Qual o problema da Montanha Morta? - ela estranha. - “Lord Blunt” ainda tem algo lá?

Estebán pondera sua resposta.

— A mina foi abandonada quando o ferro frio acabou. Pelo menos… é a versão oficial. — Ele hesita. — Mas não... Não estaria vazia. 

— Claro que não está. — Àquela cruza os braços. — E isso nunca apareceu em seus registros, pré ou pós sua prisão. Por quê?

— Porque nem tudo eu registrava — ele responde, curto. — Algumas coisas… não eram pra existir. E eu não os confiaria nem mesmo a Shén-li. Pense bem… algo que Lord Blunt quer esconder. 

Um silêncio pesado se instala.

— Bentho está em poder da Espada, que sabe o que você sabe… — ela começa.

— E a espada não é idiota. — Estebán corta. — Ela não o levaria para a morte na montanha. Mas só vamos saber quando chegarmos.


Bem-vindos a Hálcora! Pérola Valíria! Um entreposto vital… e perigosamente ambíguo.

Pela Boca do Rio, Shén-li se conecta ao resto do mundo. Comércio, contrabando, promessas. Perto o suficiente do Coração do Mundo para ter alguma ordem — longe o bastante da Nova Guarda para ainda respirar.

Uma enseada moldada por um draconato vaidoso… e gente com coragem demais.

— Nossa! Que legal! - Xitarro comenta, animado.

Eu, contudo, salto para trás, assombrado.

Tinha esquecido que Xitarro estava comigo.

— Eu… sempre faço isso em voz alta nesses monólogos?

— [Toda vez. E eu achava hilário.] — Gladys responde.

— "É. Melhor do que conversar com uma espada psicopata."


— [Discordo.]


— Eu quero passar no Olho da Maré — continuo, incluindo meu novo capanga na conversa. — Taverna frequentada por grandes nomes, como Capitão Lizzo, o clã Espinhudo também frequenta…

— Espinhudo? — Xitarro franze o cenho.

— Pois é. Também não ajuda no marketing. - Respiro fundo.  — Depois a gente espera contato da Janete Quá. A Ledgyão deve estar toda reunida aqui. É um momento histórico!

— E eu vou poder capangar, né? - Xitarro parecia uma criança na perspectiva de pedir uma sobremesa.

Eu hesito.

Quando decidi por um selvagem na equipe, não conhecia Xitarro. Não é só maturidade o problema...

— [Se não, começaríamos por você] - Ah, Gladys...

Eu me exponho à violência. Isso é um fato. Mas ele?

Vale a pena arrastar o garoto pra isso?

—  [Corvos de Morval.]

Eu travo.

— …É. — suspiro. — Se os corvos cercassem a gente em Huo-Fen com Xitarro em…

— [Como agora?] - ela interjeita percebendo que eu estava distraído.

Droga. Vejo-me em um beco, que cortávamos para ir cidade adentro, mais povoado do que deveria.

— Olá, “Bentho Oeste”.

Eu nem o ouvi chegar. Morval Menor. Mesmo colete gasto. Mesma tatuagem absurda no rosto. Mesmo cabelo encaracolado ridículo. Mas sem as tonfas.

Agora ele segura uma besta de mão… que sibila. Pressão. Algum tipo de mecanismo.

Outro Corvo ao lado dele. Equipamento igual. Mais dois desses corvos surgindo pela Estrada da Muralha...

… de onde viria Amellie...

Uma telha cai. Tem mais um no telhado. Esse usa uma balestra de duas mãos... Aquilo, se pegar, doi!  Todos espalhados demais para eu apelar para "Escuridão" e "Olho Demoníaco" para cobrir uma fuga.

Olho por cima do ombro, de onde nós viemos. Um cara grande. Careca. Tatuado. Tonfas, ao menos. Ah. Esse eu lembro. Quebrei o braço dele na minha primeira noite. E ele voltou à briga ainda assim. "Vergalhão", "Bate-estaca", ou outro nome idiota ligado a construção civil.

— Ah, não me diga que vocês também vieram pro happy hour do Olho da Maré… - eu desconverso.

— Sabe… — Morval sorri, torto — seu amigo vigilante nos deu boas ideias. Tonfas não funcionam muito bem contra armaduras.

Ele mexe no mecanismo. Um suspiro pneumático. Pressão liberada. Arma pronta.

— Você sabe que dá pra conseguir o mesmo efeito com couro e elástico, né? - Não consigo me controlar... Preciso respeitar esse bando... Ao menos agora. A armadura está coberta de areia, então eu sou carne. Não posso cobrir Xitarro… E o que for rolar vai ser à distância. Meus raios místicos não dariam conta rápido o suficiente.

— O Lord Edgy salvou você e a sua namorada… — ele continua. — Então você sabe onde ele está? Ele foi visto vindo para cá!

— A gente só se esbarrou em Hálcora. — Dou um passo para trás, puxando Xitarro. — E, olha, erro meu. O catfolk aqui não tem nada a ver com isso.

— Exceto que eu sou "Pakanga" do Lord Edgy.

Meu sangue gela.

— Hahaha… — tento rir e despistar — ele viu esse nome em algum lugar, achou legal…

As bestas se movem.

Agora estão apontadas pra Xitarro.

— E… veja bem… eu sou "capanga" do Lord Blunt! — gesticulo como um lunático. queria parecer absurdo. - Posso falar qualquer coisa, não significa nada…

— Ah! É “capanga”! — Xitarro bate na testa. — Desculpa, Bentho, vou aprender.

— Sabe… — Morval inclina a cabeça — corvos não gostam de gatos.

Ele levanta a arma. Xitarro parecia ignorar o estrago que aquilo faria.

— Acho que vou estrear esta belezinha na minha mão no olho esquerdo dele. Grylla… se não funcionar, pega o direito.

— Espera! — eu dou um passo entre eles e meu amigo. — Me leva. O Edgy vem atrás de mim, cedo ou tarde. Deixa o garoto fora disso.

— Ei.

A voz vem de trás. O grandão.

— É o Hermitão de Hálcora?

— O quê?

— Minha família é daqui. — Ele ri. — Esse cara mora num banco de areia. Fica berrando sozinho para a praia. Todo mundo ignora. É o idiota local.

Risadas.

Aquilo dói mais do que devia. Mas se fizesse o Xitarro recuar…

— Sabe… — Xitarro se inclina por cima do meu ombro infantilmente. — minha mãe disse que não é legal ofender as pessoas.

— Xitarro, deixa comigo… - Eu tento apaziguar. Era muitos elementos. 

[Invoque-me.] - Gladys insiste. Era prático, mas só aumentava a confusão.

- "Dessa vez, eu vou". - respondo mentalmente. Estava perdendo o controle. Era como aquela noite, quando Ga-shi e seus capangas cercaram meu pai… Eu preciso protege-lo… Mas são muitos. O caos...

— Olho esquerdo — diz Morval.

Foi tudo muito rápido, simultâneo. Um dedo aperta o gatilho. Depois outro. Dois disparos. Gladys vem a minha mão, mas tarde demais.

O mundo prende o ar.

Quem foi atingido??


Dois virotes.

Parados.

Entre os dedos de Xitarro.

► Leia este trecho ao som de "Xitarro sendo Fodão"

— [Ele… pegou dois disparos à queima-roupa?!] — Gladys vibra na minha cabeça. — [como Faltões mergulhões de Shén-li.]

— Muda pra semiautomático! — berra Morval.

Tarde demais.

Xitarro já está nele. Cotovelo baixo no plexo solar, muito plástico. O impacto dobra o homem no meio.

Dois socos curtos imediatamente no outro — seco, rápido, preciso. - O cara ao lado do Morval apaga.

Bate-estacas vem correndo na extremidade oposta. Lento, temos tempo. Ouço seus passos pesados, mas não é urgente.

O do telhado, sim. Tinha posição de tiro livre. Espada Eterna dispara os Raios Místicos cadenciados, mas meu alvo estava muito alto, muito escuro. Erro, mas forço ele a recuar. Não vai atirar por enquanto. Deve bastar.

Os da entrada—

Xitarro não está mais aqui?!?

— …como—

Ele já está lá.

Um deles dispara. Xitarro pega outro virote no ar. E devolve, com mesma velocidade. Quebra a arma do atirador. Outro tiro volta como um relâmpago torto. Um último tiro displicente, Xitarro desvia com o antebraço, no vazio. Não acerta o catfolk, mas...

— [Sua coxa. Direita.] — diz Gladys. - [ Pegou em você.]

- “Eu sei.”

— [Tá doendo, né?]

Ignoro. Corro mancando um pouco. Preciso abrir espaço do "Bate-estaca". Preciso cobrir meu amigo.

Um dos bandidos vem na minha direção. Ele parece ter sido jogado longe, sem equilíbrio, enquanto Xitarro passava entre eles como um fantasma.

Eu corto. Uso meu Smite mais poderoso. Overkill, mas não podia mais dar chance. Eu já não estou olhando. Procuro um oponente e não vejo mais ninguém em pé. Xitarro?


O gato corre pela parede do beco.

Completamente vertical.

Passo.

Passo.

E então—

O pé vira no ar.

Noventa graus para cima.

Impacto. No queixo do sniper.

O besteiro cai do telhado como um saco de ossos.

Xitarro cai leve. Sem som. Um vulto felino com olhos de âmbar em chamas.

Eu paro. Eu só… paro.

Bate-estacas também cessa, amedrontado. Quase ao meu lado. Por um segundo, ninguém respira.

Eu ergo a espada. Encaro o bruto. Então, abaixo.

— Não é meu show. — Dou um passo de lado. — Vai, fera!

Xitarro avança. Sem pressa. Olhos fixos na presa. O bruto engole seco.

Larga a tonfa. Mas isso não detém o Catfolk.

Bate-estaca procura algo em seus pertences. Um frasco. Bebe.

A pele dele muda.

Escurece.

Endurece.

Textura de madeira.

— Pele de madeira! Imunidade a contusões! — ele rosna. Golpeia a própria cabeça demonstrativamente. — Tenta agora, aberração! Manda seus chutinhos! Por que acha que a gente usa Tonfas?

Xitarro observa.

Inclina a cabeça.

— Tudo bem.

Estica os dedos. As garras felinas, longas e negras, surgem. E duvido que ele seja menos proficiente com suas armas naturais.

Eu desvio o olhar. Isso… Não vai ser bonito.


Morval menor recuperou o fôlego em algum momento da luta. Esgueirando-se pelas laterais das ruas de Hálcora com o cuidado instintivo de quem já sobreviveu mais vezes do que deveria.

Quando finalmente se julga longe o bastante, encostado entre barris empilhados no topo de uma ladeira que desce em direção à enseada, ele puxa o pequeno rádio — um daqueles modelos de Balmon, robustos, feios e confiáveis — e o leva à boca ainda trêmula.

— Ryan… na escuta?

O chiado vem primeiro.

Longo demais. Irregular.

…na escuta.

Morval franze o cenho, ainda tentando estabilizar a respiração. Reconhece quem falava, apesar da distorção.

— Cyrus? Cadê o Ryan? — pergunta, mais seco do que gostaria. - E por que você está com o rádio?

A resposta demora um segundo além do natural.

Tivemos problemas na estrada do Muro… com a garota.

Ele engole seco, irritado, impaciente, mas cansado demais para discutir.

— Onde você tá?

Uma breve estática. Curta.

Chegando pela enseada.

Morval se apoia melhor nos barris, olhando ao redor, tentando localizar qualquer movimento.

— Tô no topo da ladeira. Na fábrica de barris, entre essa ruma de barris empilhados, não tem como ignorar. — Ele faz uma pausa. — E escuta… o tal Bentho não tá sozinho.

O silêncio do outro lado pesa mais do que deveria.

Não?

— Ele arrumou um… bicho. — Morval passa a língua pelos lábios secos. — Um maldito tigre. Rápido… rápido demais. Acho que só sobrou eu.

O chiado retorna, baixo.

Entendo…

Morval aperta o rádio com mais força, inquieto agora.

— E tem mais. — Ele olha por cima do ombro. — A espada. Ele tava com a espada do Edgy.

Desta vez, não há resposta imediata.

O silêncio se alonga.

…repete.

— Eu disse que ele tava com a espada do Edgy. — Morval hesita, então completa, num impulso: — Eu acho que ele é o Lord Edgy.

A resposta vem, enfim — neutra demais.

Informação relevante.

Aquilo o irrita de vez.

— Tá, já entendi! — rosna, saindo parcialmente do abrigo. — Mas que inferno, onde vocês—

Ele não termina.

O aço entra pela garganta com uma precisão tão limpa que, por um instante, ele nem entende o que aconteceu; só quando o ar falha e o som morre antes de nascer é que a realidade o alcança, tarde demais para qualquer reação. O rádio escapa de seus dedos, batendo contra o chão com um estalo seco.

Atrás dele, a voz continua — a mesma voz que vinha do rádio, agora sem chiado, sem distância, perfeitamente nítida.

— Na escuta.

Amellie sustenta o florete por um breve momento, sentindo o peso do corpo já cedendo, e então o retira com um giro controlado, evitando respingos desnecessários. Morval desaba sem resistência, como se todos os fios que o mantinham de pé tivessem sido cortados ao mesmo tempo.



Xitarro se vira para mim, ainda com a respiração levemente acelerada, como se o corpo tivesse terminado a luta antes da cabeça, e me encara com uma seriedade quase desconcertante.

— Eu fiz direito?

A pergunta me atinge com mais força do que qualquer virote daquela emboscada. Não pela dúvida em si, mas pela simplicidade com que ela vem — crua, direta, sem defesa.

Eu olho para ele. Para as mãos que, minutos atrás, estavam segurando projéteis no ar como se estourassem bolinhas de sabão.

— Xitarro… — começo, ainda processando — você é… fodão.

Ele baixa o olhar quase imediatamente.

— Me desculpe…

— Não, não, não — corrijo, rápido demais, inclinando-me um pouco à frente da mesa.

O contraste com o ambiente ao redor chega a ser absurdo. O calor, o cheiro de comida, o burburinho constante da Olho da Maré envolvendo a gente como se nada tivesse acontecido. Um ínfero de pele rosada — o mesmo que, pelo jeito, atende metade da cidade — deposita um copo de leite dentro de uma tigela diante do Xitarro, com a naturalidade de quem já viu coisa pior.

Eu apoio o cotovelo na mesa, ainda olhando para ele.

— Você aprendeu isso… sozinho? Numa ilha?

Xitarro pensa por um instante, como se estivesse revisando a própria memória.

— Acho que sim.

Eu estreito os olhos, tentando encaixar aquilo em alguma lógica minimamente aceitável.

— Um fantasma de monge de Hatamon apareceu nos seus sonhos pra te treinar ou alguma coisa assim?

Ele arregala os olhos, visivelmente preocupado.

— Eu espero que não…

Eu deixo escapar um riso curto, balançando a cabeça.

— Ótimo. Melhor ainda. — Dou mais um gole na bebida antes de continuar. — Porque, meu caro capanga do Lorde Edgy… você é um natural.

Dessa vez ele sorri, pequeno, mas genuíno, como se aquilo resolvesse alguma dúvida que ele nem sabia formular direito.

— Mas — acrescento, apontando com o copo — ainda vai limpar a areia da armadura. Disciplina como a de escudeiros!

— Certo! — ele responde, animado de novo, como se fosse a parte mais importante da conversa. — E eu vou poder dormir num chão sem areia hoje?

Eu me recosto na cadeira, deixando o corpo finalmente relaxar, ainda que só um pouco.

— Acho que a gente consegue coisa melhor que isso… Talvez até uma cama.

Faço uma pausa, girando o líquido no copo, já calculando mentalmente o estrago que aquilo ia causar nas minhas provisões.

— Não muito fofa — acrescento. — Vou ter que controlar as moedas que ganhei em Huo-fen.

Xitarro já está concentrado na tigela, completamente em paz com o mundo.

Eu observo por um instante.

E, pela primeira vez desde a estrada, deixo o ombro cair.

Mas só um pouco.