Por que dói tanto?
Andar...
...Respirar...
É como se cada fibra do meu corpo repudiasse o que estou prestes a fazer. Uma voz no meu íntimo repete que é um erro, mas a teimosia — ou o Destino — diz que eu deveria ir mesmo assim.
Myrlen testemunhou a favor dela. O filho de Blunt também. Estamos falando de alguém que mente, floreia a realidade e joga o jogo longo. Alguém sem a menor consideração pelos outros. Não seria absurdo pensar que eles estavam errados a seu respeito...
...Mas...
— SAIAM DAQUI! — o urro de Amellie ecoa pelo corredor.
Duas espectras atravessam a madeira da porta, expulsas sem o menor pingo de cerimônia ou etiqueta. Franzi o cenho, desgostosa. Nunca vi Cyrak perder a calma dessa forma vulgar.
Aproximei-me. Aquela porta, que em outros tempos esteve trancada para mim como um símbolo da minha própria insegurança... Movi a maçaneta.
Estava destrancada.
— Outra aparição...? — resmungou Amellie, atirada na cama, de costas para a entrada. Ela lançou um olhar de soslaio, constatou que era eu, e encolheu-se ainda mais no colchão, virando a cara.
Lembro-me bem deste quarto. Não como o refúgio onde definhei nos últimos três anos, mas como o palco de um ato de rebeldia da minha juventude. Myrlen proibiu. Denunciou. O Destino já havia me mostrado quem Cyrak se tornaria, e acho que foi justamente por ser uma péssima ideia — por ser estritamente proibido — que tomei a estupidez de entrar aqui pela primeira vez.
E me feri.
Então... como eu poderia culpá-lo por fazer o mesmo que fiz? Embora, convenhamos, ele tenha repetido o erro infinitamente mais vezes.
Ajeitei minha coluna dolorida e sentei-me na beirada do colchão, mantendo uma distância prudente e a postura rígida.
— Só para seu governo... — comecei, o tom seco de sempre — ...não dei com a língua nos dentes para os seus dois amigos lá embaixo.
— E por que daria essa cortesia? — retrucou ela, banhada em ironia. Mas alcancei um pigarro disfarçado, travado na garganta dela.
— Bem, o Destino me soprou que um "inimigo" traria a revelação a todos...
— E não seria você? — O deboche era claro.
— Eu não sou sua inimiga — respondi, ranzinza, ajeitando o xale sobre os ombros. — Nem mesmo fui inimiga de Cyrak. Por mais que ele merecesse.
Amellie enxugou o rosto com o dorso da mão, de forma discreta. Fui... tolerante o bastante para fingir que não vi.
— Posso saber por que você me trata... e ao Cyrak... como se fôssemos duas pessoas distintas? — perguntou ela, a voz fraca.
— Myrlen costumava dizer que enxergava duas almas diferentes — comentei, olhando para o teto. — E é prudente aceitar o julgamento do Exemplar dos Magos, por mais irritante que ele fosse.
— Um idiota arrogante que sequer previu as consequências da própria sabotagem — esbravejou Amellie, amargurada. — Ele não sabia que, ao alterar meu homúnculo para o corpo de uma garotinha de treze anos, eu perderia meus poderes. Perderia... tudo.
— Nunca entendi direito essa mecânica... — confessei, estreitando os olhos, desconfiada.
— A Arte de Cyrak exige maestria absoluta de corpo e alma — explicou ela. — A forma como a Palavra da Criação responde à voz, a memória muscular... Milhares de variações ínfimas. A mudança de gênero, o timbre, a própria altura... A magia dos magos opera em uma bancada; a minha era o próprio corpo. Eu... perdi minha identidade e todo o resto. E como o seu precioso "Destino" já confirmou, jamais terei o poder de Cyrak novamente. Uma grande derrapagem do seu querido irmãozão Myrlen.
— Eu prevejo que havia sabedoria em tudo o que ele fazia, mesmo quando ele próprio duvidava — rebati, sem querer dar o braço a torcer. Mudei o apoio na bengala e encarei a garota. — Já sabemos o que Cyrak perdeu... Agora me diga: o que ele ganhou com essa palhaçada?
— A desculpa perfeita para frequentar vestiários femininos? — debochou ela.
— Eu diria que ganhou uma nova lenda — retruquei, soltando um tsc contrariado. — Soube do que você fez por Cardullion... e na Ordem de Cartallas. A minha dúvida é... por que não tomou uma iniciativa dessas... por mim?
Amellie entrelaçou os dedos, escondendo-os entre os joelhos.
— Eu tentei no enterro de Myrlem — confessou, baixo. — Mas antes, fui atrás de Ydal Bearlord... aquela...
— Aquela dondoca insuportável! — resmunguei antes que pudesse me conter. A interrupção arrancou uma risada sincera dela. Um som limpo que há muito não ecoava nesta casa.
— Sabe que nunca daria certo entre você e Cyrak, não sabe? — disse ela, fitando as próprias mãos. — Cyrak era patologicamente incapaz de não ser a pessoa mais interessante da sala. E ele jamais conseguiria esse destaque se você estivesse no mesmo recinto.
Senti um nó seco na garganta. Não esperava por aquela confissão.
— Amellie... — murmurei, tentando manter meu habitual tom crítico, embora minha voz tenha falhado levemente. — Você dedicou a sua nova vida a perseguir obsessivamente o fantasma do bardo, e os estragos de Cyrak... Sabe o que isso faz de você?
Ela esboçou um sorriso triste.
— Mais uma das "viúvas".
— Pois está mais do que na hora de quebrar esse círculo ridículo — decretei, batendo a ponta da bengala no chão de madeira. — Há dois jovens lá embaixo que não têm laço algum com o passado de Cyrak, e que o Destino entrelaçou com o seu caminho.
— Sim... — concordou ela, o olhar perdido. — Mas isso não vai durar.
— Nada dura nessa vida, garota — resmunguei, sentindo a amargura habitual dar lugar a algo mais brando. — É exatamente isso que faz cada momento ser precioso.
Olhei para ela. Tão pequena, carregando o fardo de duas vidas e a sombra de um homem que consumiu a todos nós. Soltei um suspiro pesado, rendendo-me ao cansaço e à compaixão. Devagar, estendi o braço e passei-o por seus ombros, puxando-a para perto. Minhas lágrimas há muito haviam secado, mas senti o calor do rosto dela contra meu peito. Amellie recostou a cabeça no meu ombro, permitindo-se ruir por um instante.
— Agora, falando sério... — disse ela, a voz abafada contra meu tecido. — Como a gente sai desse mausoléu condenado?
Suspirei, olhando para o teto mofado.
— Eu não faço a menor ideia...
— Então já passou da hora de perguntar ao seu querido "Destino".
— Eu tentei... — admiti, franzindo o cenho. — Mas ele me devolveu uma resposta enigmática. Disse que a saída é algo que você "ainda não me mostrou".
Amellie ergueu a cabeça, intrigada.
— Mas você sabe tudo sobre mim... Sobre as minhas duas vidas...
— Aparentemente, não tudo.
— Eu não teria como esconder algo do Destino, teria?
— Precisaria ser algo absurdamente pessoal — comentei, ponderando.
De repente, os olhos de Amellie se arregalaram. Um estalo.
— Ou algo que eu tenha... uma vergonha mortal.
— Vá por mim... — ironizei, soltando um escarro de riso, não percebendo como ela estava ficando abalada. — Yawe Cyrak era um descarado sem vergonha. Não acho que...
— Eu sei onde fica a porta! — Amellie colocou-se de pé num pulo, as mãos na cabeça. — Meu Deus... eu quase prefiro ser engolida pelo Vazio! É algo tão doentio que o Cyrak... Eu... eu não sei se tenho coragem de mostrar isso para o Bentho! para o Xitarro!
— Acho que você não tem muita escolha — retruquei, embora estivesse genuinamente curiosa com o escândalo.
Ela encarou-me, hesitante, os lábios trêmulos.
— O seu dom... — começou ela. — Ele abrange wishful thinking?
— Como é?
— A Teoria dos Futuros Possíveis — explicou apressadamente. — Algo que, se tudo der certo... se houver a menor das chances...
— Ah. chamamos de "A Pérola da Concha Não Nascida" — assenti, adotando um tom mais solene. — É mais arte do que ciência profética, mas não está fora do alcance da minha visão.
Amellie deu dois passos e ajoelhou-se à minha frente. Segurou minhas mãos calejadas e enrugadas com firmeza, abrindo sua mente e compartilhando a sua centelha comigo.
Fechei os olhos. E então... eu vi.
Um vislumbre de algo que talvez venha a acontecer. Um destino ainda não escrito nas páginas do presente, mas pelo qual valeria a pena queimar até a última gota de vida para alcançar.
Naquela visão, o jovem filho de Blunt estava ao lado dela. Não como um fantoche ou um fardo, mas como um companheiro de alma.
Vi Lady Àquela. A mulher imponente que outrora vi a estar em lágrimas... mas não de dor. Eram lágrimas de uma repreensão afetuosa, transbordando uma felicidade genuína.
Tudo por causa de uma garotinha. Uma vida pequenina que ainda estava por vir...
...E que carregava o meu nome. Morgan.
Abri os olhos devagar. O calor úmido finalmente voltou às minhas órbitas, e reencontrei minhas próprias lágrimas, descendo livremente pelas rugas do meu rosto.
A jovem que, em outra vida, fora meu amante inconsequente e o símbolo de toda a minha rebeldia, abraçou-me com força. E ali, no silêncio daquela mansão prestes a ruiu, ela me ensinou a última e mais bela lição: a de como alcançar a perpetuidade verdadeira, mesmo quando chegar a hora de cruzar os portões entre a vida e a morte.
— A-Amellie?! — perguntei, dando um passo à frente.
Ela estava estranha. Pálida, estática, envolta em um silêncio pesado.
— O que aquela bruxa velha fez com você?! — levantei-me de sobressalto, o peito apertado ao vê-la daquele jeito.
— Ela... nos salvou — murmurou a barda, a voz quase inaudível.
Não compreendi de imediato. Amellie desceu as escadas de forma hesitante, como se cada degrau exigisse um esforço monumental. Caminhou até o quadro-negro e apanhou um pedaço de giz. Com mãos levemente trêmulas, desenhou um retângulo imperfeito no terceiro piso extrapolando o mapa, logo acima do telhado do segundo andar.
— O que é isso? Um quarto oculto? — indagou Xitarro, inclinando a cabeça.
— Bentho... tente lembrar — disse ela, encarando-me fixamente. — Foi aqui que você viu a estrutura da mansão se projetar para fora da montanha?
Amellie achava que minha visão no espaço estivesse enevoada pela projeção, mas eu estava em puro hiperfoco. Na minha mente, foi como pegar o desenho dela e sobrepô-lo com exatidão à imagem que gravei quando encontrei Katzophlis.
— É muito provável — afirmei por fim. — Vamos lá verificar?
— Eu... não sei se deveríamos ...
Amellie sequer conseguiu terminar a frase. O foyer ruiu sob nossos pés com um estrondo ensurdecedor. Uma rachadura colossal cortou a estrutura da mansão de ponta a ponta. quase nos separou. O Vazio devorava agora a planta básica da Mansão Perpétua.
— Não... — balbuciou ela, os olhos arregalados. — Está desmoronando rápido demais! MORGAN!!
Amellie saltou sobre a fenda e disparou rumo à escadaria. Parti imediatamente atrás dela. Mal vi quando Xitarro a alcançou, emparelhando ao seu lado. Então, o felino cravou as garras no piso e a segurou à força. Amellie debateu-se, tentando avançar a todo custo.
A escadaria dava direto para o abismo. O corredor, a lareira, a mesa de chá... Onde quer que Madame Morgan estivesse, o Vazio já havia devorado tudo.
— Eu vejo os destroços! — urrou a barda, as lágrimas lavando-lhe o rosto. — Ainda dá tempo!
— Não dá tempo de ir *e* voltar! A mansão está ruindo enquanto falamos! — gritei, segurando-a. — Eu sinto muito, Amellie...
A barda dobrou os joelhos, sufocando um grito na garganta... até que o chão simplesmente deixou de sustentá-la, e ela se elevou.
— Ops! Lá se vai a gravidade de novo! — alertou Xitarro. — Terceiro piso, certo?!
Senti o felino agarrar a mim e a Amellie ao mesmo tempo, impulsionando-se e a nós para cima com um salto limpo aproveitando a falta de peso. A parte superior da casa ainda estava inteira, mas desmanchava-se a olhos vistos. Flutuamos lentamente até alcançar o alçapão do sótão, onde a gravidade subitamente voltou a nos puxar.
— Amellie... — chamei. — A porta! Nos leve a ela!
Ela parecia estar em transe. Não pensava, apenas agia por puro instinto de sobrevivência. Correu pelo sótão atulhado de caixas, memórias e quinquilharias: um espelho que refletia o ambiente, mas não as nossas figuras; um mapa do continente riscado de destinos; vestimentas antigas de cores constrangedoramente extravagantes; e o retrato em tela de uma jovem élfica triste de eras passadas, usando um penteado idêntico ao de Amellie.
Por fim, ela parou diante de um armário pesado. Ao empurrá-lo, a madeira podre desfez-se em poeira, revelando uma portinhola tão estreita que precisaríamos passar de lado.
— Vocês não podem abrir os olhos lá dentro. Em hipótese alguma — decretou Amellie, virando-se para nós.
— Tem uma medusa ou uma cocatriz lá dentro?! — cismei.
Amellie morde a língua, contendo a frustração.
— Bentho, lance Escuridão! Agora!
— O quê?! — estranei.
— Por favor! — suplicou ela, com um pavor genuíno na voz. — O que quer que esteja lá dentro... vocês não podem ver! É sério!
Lembrei-me instantaneamente da conversa que tive com Xitarro sobre segredos e sobre esconder coisas. Talvez não nos coubesse expor quem alguém realmente foi no canto mais isolado e protegido de sua própria mente.
— Teremos que andar às cegas... — murmurei. Conjurei a magia, e uma esfera de trevas absolutas nos envolveu no mesmo instante em que metade do sótão era tragada pelo nada, outra metade era tragado por minha escuridão.
— Eu posso nos guiar — disse eu.
— Como assim?! Você está ENXERGANDO?! — protestou Amellie.
— Eu tenho a Visão Diabólica, esqueceu? — resmunguei. — E a Gladys também vê nas trevas!
— Jogue a espada fora e se vede! — ordenou Amellie, desesperada.
— Isso é um absurdo...
— BENTHO!! — o grito dela rasgou o ar. — Você pode conjurar a Gladius Aeternum de volta assim que cruzarmos o portão! Mas ninguém pode ver o conteúdo deste quarto!
O casarão mergulhou num silêncio sepulcral. Eu via as fendas de nada avançando em nossa direção. Até mesmo o sótão estava se desintegrando.
— Mão na parede, Xitarro — instruí, enquanto rasgava um pedaço da minha capa e vendava meus olhos firmemente, e soltava a espada no vazio. — Gladys, eu juro que te puxo de volta!
— Achei a porta... — avisou Xitarro, no escuro. — Posso abrir, Amellie?
Nenhuma resposta.
— Amellie?! — chamei.
Minha voz ecoou de forma estranha, abafada, exatamente como quando flutuamos no Vazio. O som estava sendo sugado. O ar estava sumindo.
Só mais tarde Amellie nos contaria o motivo de não ter respondido.

O chão sob os pés dela cedeu, e ela foi tragada para a imensidão rosa e rubra. Ela gritou, mas não ouvimos. Estávamos cegos também. Ela flutuava cada vez mais rápido para longe, carregando consigo a chave vermelha. Não tinha a Gladius para ancorá-la, nem o bastão de Xitarro. Do seu ponto de vista, ela via a mim e ao catfolk nos afastarmos, prestes a sermos consumidos pelo nada.
Então, seu corpo girou involuntariamente no vácuo. Ao olhar para a direção oposta, ela a viu...
Madame Morgan.
A anciã parecia "voar" — ou ao menos foi assim que Amellie descreveu depois. Segurava a bengala à frente, como se conduzisse o próprio voo, solta no Vazio e perdida na imensidão.
O que Amellie não sabia era que o tempo da oráculo já havia se esgotado. Morgan tossia sangue quando ninguém estava olhando; fora um martírio físico insuportável, permitido pelo Destino, ir até a Suíte Major naquela última conversa... Mas a anciã não morreria sozinha. Ao menos: Foi o que Amellie decidiu.
A barda abriu braços e pernas, disposta a usar o próprio corpo para se chocar contra a idosa e afundarem juntas no esquecimento. Mas a anciã percebeu a intenção de Amellie. E foi exatamente para isso que servia a bengala.
Morgan a usava muito antes de caminhar se tornar um fardo insuportável. Suas pernas não ganhavam força alguma com o apoio de madeira... A bengala existia para lhe dar alguns centímetros a mais de alcance, maior que os dos braços de Amellie. Para exatamente aquele momento.
Com um único toque firme do cabo no peito de Amellie, os vetores de movimento se inverteram.
A barda foi impulsionada de volta na direção oposta, sem conseguir alcançar a anciã, que foi flutuando suavemente para a profundeza do Vazio. Não havia som no vácuo, mas no semblante da Irmã do Mago havia algo inquestionável: serenidade.
Quando arranquei a venda dos olhos, Amellie estava "caindo para cima" pelo buraco do assoalho. Apressadamente, estiquei o braço e a puxei para cima com toda a força que tinha.
— O que aconteceu?! — gritei.
— A venda! — exigiu ela, monossilábica, a voz embargada. Ela não queria se distrair. Não podia.
Há muito tempo eu não sabia o que era tatear no escuro graças ao meu pacto, mas a sensação tátil era inegável: o piso daquele cômodo secreto era terrivelmente grudento. Xitarro reclamou baixinho de haver esbarrado em algo úmido e viscoso. Um cheiro denso de petróleo misturado a eucalipto impregnava o ar sufocante.
Pelo tato, as paredes pareciam todas forradas de couro macio. Bati a cabeça em algo pesado que pendia do teto por uma corrente.
— Não olhem para NADA! — urrou Amellie. — Há uma portinhola de meio metro de altura no fim deste corredor!
Xitarro alcançou a extremidade do quarto. Tateou a madeira e ouvimos o tilintar do penduricalho metálico da fechadura.
— Por Aetíades, não me derrube essa chave! — orou a barda, tateando até entregar a peça rubra nas mãos do catfolk.
O fecho cedeu. Ouvi o uivo do vento. Senti um puxão gravitatacional violento.
Mal tive tempo de estender a mão e conjurar Gladius Aeternum de volta para a minha posse.
No segundo seguinte, fomos arremessados sob um céu arroxeado, despencando de uma altura de oito metros diretamente na encosta de uma montanha.
Rolamos descontroladamente pela rasteira cascalhenta. Xitarro recuperou o equilíbrio com a agilidade felina, mas vi Amellie se arranhando inteira enquanto deslizava rapidamente rumo a um precipício.
Joguei-me de cabeça. A armadura pesada fez-me deslizar quase sem atrito pela pedra. Alcancei a barda pelo pulso e finquei Gladys com toda a força na rocha maciça.
O impacto travou nossa queda. Amellie ficou com as pernas penduradas sobre um despenhadeiro de dezenas de metros, voltado para um vale imenso onde a cor predominante era o marrom-terroso.
A Ravina Avelã.
Estávamos de volta ao nosso mundo. Mais especificamente: nas Montanhas Castanhas.
Xitarro correu pela encosta e ajudou-me a içar Amellie para terra firme. Por um momento, pensei que ela estivesse em choque por quase ter despencado no abismo.
Não era isso. Era o luto.
Ela agarrou o peitoral da minha armadura com força desmedida e desabou num choro copioso e dolorido. Eu não podia me levantar. Apenas a abracei de volta com toda a força que consegui reunir, protegendo-a contra o vento da montanha.
Xitarro permaneceu a poucos passos de nós, observando o vale em silêncio. Uma sentinela vigilante.
Sobrevivemos à Mansão Perpétua de Cyrak — o nosso desafio mais denso até aqui. Não por enfrentarmos monstros ancestrais como o Eyespy, nem por confrontarmos Lord Blunt ou a Nova Guarda. Foi o desafio mais difícil porque não havia nenhum monstro para matar. Só coisas dentro de nós que preferíamos que ninguém encontrasse.
Mas nós precisávamos continuar.
Precisávamos... Perseverar.
Vou chamar menos por Aetíades a partir de agora... ou resmungar menos o nome de Bophades.
Esta é a terra de Cartallas.
PRÓXIMO ARCO: A PERSEVERANÇA!


