À frente de todos, Silas Rictus lidera a marcha com os seus passos largos e cômicos, balançando a lanterna dourada cujos reflexos dançam sobre a relva alta do terreno baldio. Ao fundo, a silhueta do colégio decorado para o Halloween brilha fracamente, cada vez mais distante à medida que avançam para as traseiras, em direção ao futuro e descampado campo de futebol.
A empolgação é palpável em dois dos jovens: Marcus caminha com passos firmes, ainda a sentir a adrenalina do número das facas, enquanto Bia o acompanha de perto, fascinada com cada detalhe daquele cenário sombrio e teatral, absorvendo o espetáculo à sua volta. No entanto, o clima entre os outros dois é bem diferente. Leonel segue um passo atrás, os olhos atentos ao horizonte escuro da mata, visivelmente receoso com o rumo que a brincadeira tomara e com a distância da civilização. Ao lado dele, Margaret cruza os braços dentro do seu sobretudo, visivelmente incomodada e com o cenho franzido, lançando olhares frequentes para trás.
— Estamos indo para longe dos prédios principais — resmunga Margaret, a voz cortante quebrando o silêncio da noite, enquanto a bota afunda ligeiramente na terra solta. — Isto já deixou de ser uma avaliação escolar há muito tempo.
Silas para por um segundo, vira-se com um sorriso largo pintado na maquiagem branca e ergue os braços, ignorando o desconforto da detetive:
— Elementar, minha cara Margaret! O verdadeiro espetáculo nunca acontece onde há regras e paredes de cimento. Mas o verdadeiro picadeiro estará ... bem perto agora pelo que vejo...
A lanterna de Silas começa a mudar de cor. Primeiro, uma luz mais fria... mas logo, estabiliza-se em uma luz violeta.
— O que eu falei das "fadas violetas", Bia? — Ele comenta sem olhar totalmente para trás.
Bia hesita em continuar.
— Ei... foi um truque de química! — Marcus cola nela.
— Isso está estranho... — Bia comenta.
— Eu vou levar Bia para o ginásio. — Margaret se voluntaria. — Eu volto logo...
— Que nada! — Marcus comenta. — Halloween é para isso mesmo! Um pouquinho de susto...
— Para com isso, Marcus. — Leonel se interpõe. — Não vamos fazer pressão nela. Se Bia quiser ir embora, ela vai! Certo, senhor Silas?
— Tal qual uma mamãe pássaro fico triste, mas deixo minha passarinha voar do ninho... — O palhaço fala, teatralmente.
Bia encara o resto da estrada. Havia um bosque bem próximo, com lanternas. Havia algo preparado.
Marcus e Leonel eram grandes. Maiores que Silas.
— Marcus... — ela comenta. — Você me protegeria?
Leonel fica ofendido. Marcus estufa o peito.
— Eu prometo que estarei lá para você! — fala enfim.
— Ai-ai... — Margaret resmunga.
Silas ainda espera algum desenvolvimento, mas com os quatro mais ou menos na mesma mentalidade, ele volta a marchar.
— A gente vai para algum ensaio ou a apresentação é por aqui? — Leonel pergunta.
— Já iremos perante a Grande Audiência! — Silas responde.
— Que "audiência"? — Margaret comenta. — Todos os carros estão lá atrás!
Silas não responde.
As primeiras árvores do bosque surgem. Além delas, a trilha tinha tochas tiki, feitas de bambu e acumulando óleo para um pavio, mas o pavio também usava chamas violetas, dando um ar tenebroso.
Foram poucos metros, o colégio ainda era visível, até que as lanternas japonesas, igualmente violetas, indicavam um espaço entre duas árvores, com iluminação de ambiente interno, limitado só àquele espaço. Precisariam se encolher para passar... mesmo Bia, a menor dos cinco...
E de lá, uma música circense era ouvida. Um vozeril animado. De tempos em tempos, aplausos. Mas as árvores não podiam ocultar algo tão vultoso como aqueles sons estavam deixando transparecer.
— Aí! — Comemora Marcus. — Estava errada, Margaret! Tem um festival por aqui!
— E quem é que veio aqui, se quase todo mundo do colégio tá no salão? — A detetive insiste. — Senhor Silas... você é professor? Funcionário? Qual sua ligação com o colégio?
— É tão... lindo... — Bia comenta enfim.
— Pode ir na frente, querida. — Silas dá um passo à frente.
Bia parecia hesitante. Ela olha para Marcus, que sorri e acena.
Mesmo Leonel estava mais crédulo agora que parecia algo com "estrutura", não uma "Vala" com um palhaço psicopata.
— Acho que são caixas de som. — ele comenta. — Mas a perspectiva é legal... não é, Margaret?
A detetive estava ainda receosa.
Tochas violetas... A lanterna... Poderia ser um efeito químico... E Silas tinha o "jeitão" de professor de química que leva seu trabalho longe demais.
Mas Margaret também... fumava.
Escondido.
E com o maço, um isqueiro.
Ela pega o isqueiro, como se sua intuição dissesse algo...
Era um isqueiro normal.
Ainda assim, quando acendeu... a chama saiu violeta.
— Puta que pariu...
Ela estava tão perplexa que mal percebeu que Bia já havia entrado. Margaret corre, não na direção da entrada, mas para contornar uma das árvores...
... Não havia nada do outro lado.
Nem a passagem, nem os barulhos. Nem Bia, que deveria ter passado segundos atrás.
— Puta que pariu! — ela urra e começa a correr, parando nos braços de Leonel e Marcus.
— Legal, né? — Marcus comenta. — Eu vou agora...
— Não... — Margaret protesta. — É bruxaria! Isso aí é que nem o filme "Poltergeist"! A menina na TV!
— Sim, espelhos e fumaça! — Leonel comenta. — Eu vi um documentário do Spielberg...
— Não! — a detetive protesta. — A Bia SUMIU MESMO!!!
Os jovens olhavam com desdém o comentário, mas não podiam negar que algo estava errado.
— Vamos embora daqui! — Margaret agarra Leonel, mais confiável, e começa a se afastar.
Então, Silas solta, com um tom sinistro:
— Seria uma pena... Bia... Sozinha lá...
Aquilo detém a detetive.
Iam mesmo abandonar uma garota... a mais nova deles?
Precisavam de um adulto? Não. Leonel era maior que Silas... Marcus tinha faca e instinto de sobrevivência. Era só um palhaço psicopata... Mas ia fazer o jogo dele.
— E aí, Margaret? — Pergunta Leonel. — Acha que é maluquice ou devemos sair?
A jovem se encolhe junto do Cavaleiro e mostra... Um telefone celular StarTAC. Ela mostrou ao amigo que já havia digitado "911", e bastava apertar "enviar".
— Tá... é um truque assustador. — Margaret comenta. Ela suava, mas disfarçava como podia.
— Se quiser saber como é que se faz... basta cruzar o portal! — Fala Silas como desafio. — O último desafio de Margaret P.I.
Ela fez um sorriso convincente e de atitude.
— Eu sou a próxima então... — Fala com deboche.
Silas sorri de volta. Aqueles olhos vidrados sem piscar.
Margaret não consegue esconder um descontentamento. Esbarra no ombro do palhaço para conseguir espaço... e se aproxima.
Realmente ela via o que parecia um corredor, com música e gargalhadas. Era como a porta de um picadeiro de um circo, por mais improvável que fosse. Mas antes de cruzar o limiar, Silas fala:
— Detetive, eu cometi um segundo crime esta noite!
Margaret, alertada, para. Olha para trás.
— Deixe-me adivinhar... — ela diz debochada. — Sequestro?
— Não. — Silas responde. — Destruição de propriedade.
Silas bate o seu cajado no chão. Um *crack* é ouvido...
Margaret olha para o chão. E vê... Seu Motorola, destruído.
Ela entra em pânico. Se espreme para voltar... Mas Silas toca nela com a ponta do cajado...
Um flash de luz ocorre, e a detetive é empurrada através do vão. Margaret dá um berro de assombro, que após alguns segundos, some.
— QUE PORRA É ESSA?!? — Urra Leonel.
— Temos o primeiro talento oferecido à Grande Audiência! — Silas diz. — Sua amiga terá a mente sugestionável de milhares para ler e deduzir!
— O que você fez com elas, seu filha da puta?!?
Sem pensar direito, Leonel estendeu a espada de LARP para Silas, que olha incrédulo.
Percebendo o que fez, Leonel olha para Marcus. Ele tinha facas de verdade.
Mas Marcus, o sobrevivente, fascinado por facas, estava apavorado e sem reação.
— O Cavaleiro quer salvar as donzelas com uma espada que não tira sangue? — Silas provoca. — Eu aceito seu desafio, herói!
O palhaço estende a mão ao bolso, tirando de lá seu "sabre de balão" que fez ainda no ginásio.
— Você é um puto louco! — Leonel urra. — Eu vou quebrar tua cara!
— *En garde!* — fala debochado o palhaço. — Vamos não-tirar-sangue um do outro!
Leonel era maior, mais alto. E mesmo sendo só uma espada de LARP, ele podia fazer um estrago se descumprisse as regras: acertar no rosto ou virilha do inimigo. O palhaço tinha uma espada de balão...
Silas sacode a espada de balão contra a espada acolchoada. O balão estoura. O acolchoamento e o cano interno da espada são cortados.
Dentro do látex inflável havia um sabre de verdade.
Quando Leonel percebeu, a ponta da espada estava estocada em seu coração. Uma enorme mancha vermelho-escura, quase preta sob as luzes violetas, cobria sua fantasia estampada.
A força das pernas cessa. O jovem se ajoelha diante do palhaço.
— Oh, vasos sanguíneos são tão... delicados... — o palhaço resmunga com ironia. — Será que consegue se arrastar de volta ao colégio ou sangrará antes de conseguir ajuda?
Leonel olha para Marcus, que estava pálido... Não concebia o que estava acontecendo.
— Eu vejo uma saída, cavaleiro... — O palhaço sussurrava ao jovem. — Você precisa de tempo. Aqui fora, o tempo não está do seu lado... Mas na Grande Audiência, o tempo é perpétuo. Você é um "sacrifício". Um herói nobre, embora tolo. Viverá para lutar, perder, sangrar, por anos e anos... Basta seguir... Vá atrás de suas amigas!
Leonel chorava. Estava com medo.
Estava sozinho.
Ouvia ao longe as gargalhadas. A vida. O espetáculo.
Lá, talvez tivesse chances.
Ele cambaleou, ajudado por Silas nos primeiros passos. Continuou sozinho mais alguns, e eventualmente, caiu de bruços.
Precisou se arrastar. Chorava copiosamente.
Uma vez que suas pernas cruzaram o limiar, ele também sumiu.
— E então... restou um.
Silas encara Marcus.
Toda a bravata. Toda a adoração por facas. O talento de atirar.
Mas jamais imaginou algo como aquilo.
Três vítimas. Sobrenatural. Será que tem drogas envolvidas? Ele bebeu do ponche...
Silas aponta com o queixo. Aos pés dele.
Marcus olha.
Eram um estojo. Seis *Viper-Edge Pro*. Argola no cabo.
O palhaço não expressou preocupação com aquelas armas estarem ao alcance do cigano. Nem que ele ainda tinha as suas próprias facas. Nem estava em "posição de duelo"... Estava só apoiado no cajado, na lateral daquela entrada "poltergeist" como definiu Margaret.
Na mente dele: podia atirar as adagas mais rápido que o palhaço poderia reagir. Poderia até usar as vipers. Acertaria nas pernas para a polícia interrogar.
Mas Marcus, com seus problemas de disciplina e atitude... era só um garoto.
Ele correu.
Ele tinha vergonha da covardia. De não lutar. De abandonar seu amigo... A Margaret que viu o problema acontecendo...
... Mas e Bia?
— Marcus... — uma voz fantasmagórica e familiar ecoou. — Você prometeu me proteger...
Era Bia. Mas também não era.
Marcus ainda queria correr... mas não conseguiu.
Seu corpo paralisou, com uma aura violeta.
Silas voltou-se para a entrada, apavorado.
— Não! Não era esse o acordo!
— Marcus prometeu me proteger, e eu demando a proteção.
"Bia" saía pelo portal. Mas não era Bia. Não era mortal.
— Isso não faz parte do nosso acordo! — Silas protestou.
— Três atrações garantidas na Noite de Todas as Bruxas. — A voz de Bia era um eco. Como se múltiplas jovens com tons ligeiramente diferentes falassem ao mesmo tempo.
— Foi por isso que você veio para o colégio?!? — Urrou Silas. — Para me sabotar? Eu ainda ia caçar o garoto! Você...
"Bia" olhou para o mestre de picadeiro. Com autoridade.
Silas começou a suar. Seus olhos mostravam um horror que contrastava com o sorriso pintado em seu rosto.
— V-você tem todo o direito de mudar os termos. — Silas corrige-se. — Você é a Fada Violeta. Você é a *Grande Audiência*.
Marcus não escolheu atravessar o limiar. Ele teve a vontade roubada por uma promessa que fez sem pensar.
Por isso, não contava para o Palhaço.
Silas Rictus prometeu três atrações.
Só conseguiu duas.
Por mais um ano, ele deverá entreter a Grande Audiência, que não é uma garotinha vestida de fada, nem uma jovemzinha. Ela era o que quer que escolhesse ser. O que quer que alguém oferecesse a ela. Não precisava ser um corpo só, podia ser todo um auditório. Ou algo abstrato como o som de aplausos, ou lanternas violetas refletidas em uma poça.
... Para Silas, Sempre terá o ano que vem.





