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16 de fevereiro de 2026

Eyespy - Novo poder

Eu postei aqui o "Eyespy" uma aberração tão poderosa que molda a realidade... mas seu ND é mediano porque ele não sabe explorar seu potencial completo, e isso permite bons roleplays para contornar este obstáculo.


Sugiro, para demonstrar o "potencial desperdicado" o narrador que decidir colocar um Eyespy na campanha dar esse poder/condição especial para o Eyespy: Peak-a-bu"



👁️ Peak-a-Bu (Reality Reflex)

O Eyespy possui um poder latente e instável que manifesta sua crença de que aquilo que ele não vê pode deixar de existir.

Esse poder não é totalmente compreendido nem controlado pela criatura, podendo ser ativado por manipulação social ou sugestão convincente.


🌀 Peak-a-Bu

Trigger.
Uma criatura que o Eyespy possa perceber pode tentar convencê-lo de que, se ele fechar os olhos, ela deixará de existir, ficará segura ou deixará de ser uma ameaça.

Isso exige:

  • Interpretação plausível ou criativa

  • Um teste de Carisma (Persuasion, Deception ou Performance) contestado pelo Insight do Eyespy (ou CD definida pelo mestre)

Se o Eyespy for convencido, ele tenta testar a ideia.


👁️ Efeito

O Eyespy fecha o olho central e retrai seus tentáculos oculares, tentando “não ver” as criaturas próximas.

Todas as criaturas hostis ou percebidas pelo Eyespy dentro de 120 pés devem realizar um teste de resistência de Carisma contra a CD dos poderes do Eyespy.

Em uma falha:

  • A criatura é banida para um espaço extradimensional instável ligado à mente do Eyespy.

Em um sucesso:

  • A criatura permanece no plano material, mas torna-se parcialmente translúcida e instável até o início do próximo turno do Eyespy (efeito puramente narrativo ou leve desvantagem em testes de furtividade, à escolha do mestre).


⏳ Duração

As criaturas banidas permanecem fora do plano material até que uma das condições abaixo ocorra:

  • O Eyespy recebe dano

  • O Eyespy abre os olhos por curiosidade

  • 1d4 turnos se passam, quando o Eyespy decide verificar se o efeito funcionou

Quando retornam, as criaturas reaparecem no espaço mais próximo desocupado do local onde estavam.

O Eyespy não percebe que os alvos foram banidos temporariamente, acreditando que eles permaneceram presentes o tempo todo.


🧸 Limbo do Eyespy

Criaturas banidas são enviadas para um espaço extradimensional que contém objetos esquecidos, perdidos ou abandonados pela criatura.

O ambiente pode conter:

  • brinquedos impossíveis

  • fragmentos de magia incompleta

  • itens que o Eyespy não conseguiu compreender

  • memórias parcialmente formadas

O mestre pode permitir que uma criatura retorne trazendo um objeto trivial ou estranho encontrado nesse espaço.


🚫 Limitação Ocular

Enquanto Peak-a-Bu estiver ativo:

  • O Eyespy não pode usar qualquer habilidade baseada em raios oculares

  • Ele sofre desvantagem em testes de Percepção que dependam da visão

  • Ele pode agir normalmente com movimentos físicos e ataques não oculares


⚠️ Instabilidade da Realidade

Se Peak-a-Bu for ativado mais de uma vez no mesmo combate, o mestre pode introduzir efeitos colaterais narrativos, como:

  • objetos surgindo ou desaparecendo

  • ecos temporais breves

  • distorções de gravidade ou cor

  • objetos do Limbo vazando para o plano material


🎭 Interpretação Recomendada

Quando ativado, o Eyespy pode agir com curiosidade infantil e confiança ingênua, como se estivesse testando uma regra de brincadeira.

Exemplos de fala:

  • “Se eu não vejo vocês… vocês ainda existem?”

  • “Isso é como esconder e achar?”

  • “Não trapaceiem enquanto eu não estou olhando.”


⭐ Intenção de Design

Peak-a-Bu representa:

  • o poder absurdo da criatura

  • sua limitação intelectual

  • o risco de manipular sua percepção

  • oportunidades narrativas e cômicas

  • uma forma alternativa de controle de campo

Kairo Veloz - M&M 3ª

 

⚡ Kairo Veloz — PL 10

Conceito: Speedster Marcial Cinético

Abilities (34 pts)

STR 2
STA 4
AGL 7
DEX 4
FGT 8
INT 0
AWE 2
PRE 3


Powers (46 pts)

Super Speed Array

Speed 8
Quickness 8
Improved Initiative 2


Golpes Cinéticos
Damage 10 (Strength-based, Multiattack)


Absorção Cinética
Protection 4
Enhanced Strength 4 (Limited: após sofrer dano físico)


Movimento Acrobático
Movement 3
(Wall Run, Safe Fall, Instant Stand)


Advantages (14 pts)

Close Attack 2
Defensive Roll 2
Improved Critical (Unarmed)
Evasion 2
Takedown 2
Agile Feint
Power Attack
Move-by Action


Skills (22 pts)

Acrobatics 12
Athletics 6
Insight 4
Perception 6
Close Combat Martial Arts 6


Defenses

Dodge 12
Parry 12
Fortitude 8
Will 6
Toughness 8

___

Origem

Ex-lutador de rua e mensageiro urbano, Kairo sempre viveu no ritmo da urgência. Durante o evento da Fenda, ele tentou evacuar civis e acabou absorvendo energia cinética instável.

Personalidade

Impulsivo, leal, pensa com os punhos e sente com o coração. Ele é o primeiro a agir e o último a admitir que errou.

Poderes e Habilidades

Manipulação Cinética

  • Converte impacto em velocidade e força

  • Pode acelerar o próprio corpo até níveis supersônicos

  • Seus golpes acumulam energia conforme ele se move

Combate Adaptativo

  • Aprende padrões de luta quase instantaneamente

  • Especialista em artes marciais híbridas

Descarga Cinética

  • Pode liberar toda energia acumulada em um único ataque devastador

  • Uso excessivo pode paralisar seu sistema nervoso temporariamente

Monstro da Semana: O Devorador de Nomes


O Devorador de Nomes

Abstração Atroz (Morto-Vivo), Caótico e Mau

Nível de Desafio: 23

Atributos

  • FOR 18 (+4)
  • DES 20 (+5)
  • CON 24 (+7)
  • INT 26 (+8)
  • SAB 22 (+6)
  • CAR 28 (+9)

Defesas

Resistências: Psíquico, Necrótico; Armas não-mágicas

Imunidades: Enfeitiçado, Amedrontado, Paralisado, Atordoado

Sentidos

Visão Verdadeira 36m, Percepção Passiva 26

Idiomas

Todos (Telepatia 36m)

Traços

  • Resistência Lendária (3/dia): Pode escolher passar em um teste de resistência falho.
  • Aura de Cacofonia Amórfica: Criaturas a 9m fazem teste de CAR CD 22 ou sofrem 4d10 psíquico.
  • Existência Sem Nome: Magias baseadas em nome falham automaticamente.

Ações

  • Multiataque: Usa Sussurro Extrator e dois Toques do Esquecimento.
  • Toque do Esquecimento: +13 para atingir, alcance 3m. 4d8+5 necrótico e reduz PV máximo pelo dano causado.
  • Sussurro Extrator (Recarga 5-6): Teste de INT CD 24. Em falha, revela segredo profundo ou Nome Verdadeiro.
  • Assimilação de Identidade: Se souber o Nome Verdadeiro, alvo faz teste de CAR CD 25. Em falha, vira Sentinela Sem Rosto.

Ações Lendárias

  • Eco do Vazio (1 ação): 3d10 psíquico e silêncio em 6m.
  • Mimetismo de Voz (2 ações): Teste SAB CD 25 ou Atordoado.
  • Convulsão de Nomes (3 ações): Invoca seis sombras agressivas.

O Devorador de Nomes é uma entidade nascida de um desastre divino ligado a Morvhal - Deus da Necromancia em Shén-li - surgido quando experimentos para reaproveitar almas rejeitadas criaram uma consciência formada pela ausência de identidade. Essa criatura passou a se alimentar de Nomes Verdadeiros, apagando pessoas não apenas fisicamente, mas removendo qualquer vestígio de sua existência da memória e da história.

Sua manifestação nas fronteiras de Terras Selvagens causou desaparecimentos impossíveis de rastrear, registros que se alteravam sozinhos e comunidades inteiras que lembravam perdas sem conseguir lembrar de quem.

A entidade parecia invencível, pois atacava o próprio conceito de identidade. Ainda assim, dois campeões conseguiram enfrentá-la através de estratégias opostas e complementares.

### **Como os Exemplares Venceram (O "Lore" da Luta)**

Nesta batalha nas Cavernas de Han-do, a estratégia foi a chave:


Um bruxo e um bardo de grande poder, os EXEMPLARES de suas respectivas gerações, superaram a fome do Devorador pela força de sua personalidade aliado a métodos únicos mas eficazes - se o adversário da aberração for poderoso o bastante:


1.  **Lorde Blunt, o Hexblade épico:** O Devorador nunca conseguiu assimilar Blunt porque ele operava sob o pseudônimo - **Estebán** é seu verdadeiro nome, escondido até a criatura ter sido destruída. O Devorador buscava o nome "Lorde Blunt" (um título/persona), mas o Nome Verdadeiro estava escondido. Como o Devorador não encontrava o "Nome" de Blunt em sua mente tática, Blunt serviu como o escudo de ferro imóvel.


2.  **Menestrel Cyrak, o Conquistador :** Cyrak era o oposto. Ele tinha uma **personalidade irrefreável**. Sempre que o Devorador tentava sussurrar seu nome, Cyrak respondia com um **Réquiem de Ópera** tão alto e egocêntrico que sua própria voz "atropelava" o poder da criatura. Ele não escondia seu nome; ele o tornava uma lenda pesada demais para ser digerida.




14 de fevereiro de 2026

EDGELORD V - Arco da Nova Guarda

 Bem-vindos à Donjon, a Torre Alta do Castelo negro de Blunt.

Outrora fortaleza de blunt, hoje é a Sede da Nova Guarda, e domínio de Àquela...

 O castelo inteiro é uma fortaleza... mas a Torre Alta é especial.

O miolo de suas muralhas é de ferro frio extraído da Montanha Morta, uma enorme pedra negra que separa Shén-li das Terras Selvagens. Com propriedades sinistras que só Blunt conhecia.

É a estrutura mais protegida de todo o reino. Diziam que “nada abaixo dos Deuses” poderia se infiltrar aqui, mesmo com apoio de magia.

Meu nome é Bentho, tenho 17 anos, e invado o calabouço mais seguro do reino desde quando eu tinha 8 anos. Quando eu queria ver Lorde Blunt.

Conheço as passagens secretas e as redundâncias. Vivo entre os sentinelas desde que nasci — até trouxe colegas cadetes para impressioná-los uma vez. Mas agora, se alguém me ver... Dois sentinelas desacordados. Um eu mesmo quem nocauteei...

E à minha frente... Lorde Blunt.

Ou ao menos, sua armadura.

Eu devia ter fantasiado tanto em minhas visitas clandestinas sobre o Homem Mais Infame do Mundo — o vilão que quase tomou o Palácio da Família Sagrada — que não percebia os detalhes. As partes mais “sólidas” da armadura eram conectadas por hastes delgadas, quase como ossos de um esqueleto. Ela tinha forma, presença, mas era um autômato. Pensei até que fosse uma armadura animada, mas era algo ainda mais estranho.

- [Vista-a!] – Fala a voz na minha cabeça. Ainda tenho sobressaltos. É muito parecida com a voz da minha mãe, mas sem o carinho e emoção, como se minha mãe fosse uma bruaca malcomida. É como ouço a Espada Negra “gladis aetere...” “tatererê”... A Espada Negra de Lorde Blunt.

- [Eu ouvi isso!] – resmunga ela. – [Gladius Aeternum!]


Beleza. Ela pode interferir no meu monólogo interno.


___


- Não dá tempo! – eu urro. – Já ouço passos! Uma full plate leva dez minutos para vestir... Vão me pegar de ceroulas aqui...

- [Sò fale o Nome. Ela já o reconheceu, afinal, salvou seu traseiro!] – Ela instrui com um “quê” de karen.

- Eu podia com o sentinela... Só... hesitei. Sou um supervilão há menos de uma hora...

- [Eu fui empunhada por Treze Mãos de bruxos, incluindo o Exemplar Hexblade, o Infame Lorde Blunt] – dispara em monólogo poético... – [O Poder vem do Berço, e você dormiu no chão!]

Vai por mim... esses insultos elaborados vão ficar velhos ao longo da história.

- [Esta é a Vigília Sombria, forjada no Limbo das Sombras pela maior ferreira de Hatamon. Ela compensava os poucos pontos fracos de Lorde Blunt... não sei se é poderosa o suficiente para cobrir tudo de ERRADO que você tem... mas ela se ajustará a você. Evoluirá com você. Será uma sentinela dedicada e, com a dedicação adequada, poderá ser muito mais versátil do que parece”].

- Me vista... VIRGÍLIO!!! – falo, enfim, triunfante.

- [Eh... Quem é “Virgílio”?]

- A roupa. – Protesto. – Obviamente é menino, tem até cockpiece. Por quê? Prefere que eu a chame de “Virgília”?

- [Prefiro que chame pelo nome de ativação!] – resmunga a voz da espada.

- Tá... Tá... “Vigília Sombria”! - Detesto esse nome, parece que traduziram do japonês literal. - Mas não vai dar aquele ataque cardíaco de quando eu... EI! PERA LÁ!

A armadura se abriu como uma ostra na água quente. Avançou velozmente para cima de mim, quase quebrou meu dedinho empurrando a manopla em minha mão, e talas metálicas cobrem meu corpo.

Ela é absurdamente desconfortável. Sinto que meu pé estava na canela, tenho dificuldade em me manter em pé. Mexo um braço, e quase perco o controle. Ela em teoria parece mostrar uma força hidráulica. Meu par poderia precisar do recurso, mas eu fico só confuso, descoordenado.

- [Hum... Você é mais forte que seu pai...] – comenta a Espada. – [Acho que o complemento vai ser automaticamente cedido. Ela vai se ... reconfigurar...]

Sinto meu pé deslizar gentilmente na bota. As “hastes” que moviam a armadura recolhem para... Algum lugar. Temo pensar na logística. Ela é pesada, uma meia-armadura com segmentação e chainmail altamente protetivo... Mas eu sou proficiente nela. Eu treinava para ser paladino da Nova Guarda.

- Cadê a Capa?!? – espanto-me eu. - Lorde Blunt matou um dragão negro e forjou das suas escamas a capa mais maligna e ... irada ... da história.

- [A Capa pertence a Blunt, por seus feitos]. – Fala a voz da minha mãe na minha cabeç... É... Acho que vou dar chance à terapia. – [Você não está nesse nível ainda... Ela vai se adequar agora...]

Começou como um cachecol, protegendo o pescoço e a parte de cima da placa torácica Deslizou por minhas costas até formar a capa, o visual completo. Era um púrpura real, elegante. Nobre.



- [Sempre achei que Blunt era muito direto, como uma arma contundente...]

[Você definitivamente não tem a presença, ou o poder... Mas há algo mais “edgy”, um “je-ne-se-quá”]

- Edgy?!? Esse é o meu nome de vilão?!? – pergunto empolgado. O Elmo é idêntico, mas todo o resto é mais leve. Ao menos visualmente. Eu carregava a armadura, e “minha personalidade” movia a espada. Blunt tinha uma espada longa, mas nas minhas mãos, ela ficava mais larga para se ajustar ao meu estilo de luta.

- [A Dama do Arco e o Senhor das Trevas falharam em dar requinte e educação à sua prole...] – ela parecia decepcionada.

- Não! Eu gostei... – falo triunfante. – Shén-li esteve à sombra de um falso Blunt por tempo demais. – Eu fiz ópera com minha mãe sobre a tutela da Senhorita Amellie da Igreja da Perseverança. Eu sabia teatralidade. – Esta alvorada termina... e ergue-se o tempo de...

Os portões se abrem abruptamente no meio da minha introdução. Quatro sentinelas. Todos muito mais bem-treinados do que eu. Me vêem com arma e armadura. Dois colegas nocauteados. Lord Blunt fora das vistas. Quebrou meu anúncio ao mundo,

- L...Lord Edgy? – eu sussurro, intimidado, completando.

---

Foi rápido.

Eles nem viram o que aconteceu.

Tudo escureceu.

- [A Escuridão Mágica... Boa escolha!] – A Voz da minha m... Ah, Gladys na minha cabeça. Felizmente, só eu posso ouvi-la.

- Sim, meu pai usou isto para me salvar do Gai-shi...

- QUEM ESTÁ AÍ?!? – Urra um sentinela. Era Larrincher, um gnomo... - Ele falou de Gai-shi? É outro dos asseclas secretos de Blunto?!?

- [Não fale em voz alta! Eles não podem ver mas ainda podem ouvir!] – protesta Gladys. – [Eu posso ouvir seus pensamentos e guiá-lo... e meu nome NÃO É GLADYS!!!]

Okey... pensar e não falar...

- “O Gnomo... Enxerga no escuro...”

- [Não. Esta é a Escuridão Mística do Submundo, não uma mera sombra.] – ela me ensina. – [Ele está cego e desorientado. Agora passe por eles e use a escuridão a seu favor.]

- “Mas ... como? Onde eles estão?!?”

- [Use os olhos e ... Esperaí... Eu te dei o Boom do Olho Demoníaco?]

- O O QuE?!? – protesto. - 

- Ouvi ele... – urra outro sentinela. – À direita!

Me abaixo instintivamente. Percebo pés perigosamente próximos.

- [Perdão...] – Gladius parecia constrangida. – [O Combo depende de ganhar o Olho Demoníaco. É assim que seu pai dança ao redor de paspalhos. Espere só um segundo...]

 Eu espero menos que isso...

E meu coração para.

Toda a maldita vez. É como se eu morresse, por uma fração de segundos... mas, ao invés de ir aos Portões do Pós-vida, para ser julgado pelo Lobo de Três Cabeças, um vulto me mandasse de volta. Mudado. Sempre que volto, mudo.

Foi assim a experiência quando fiz o pacto. Mas foi muito rápido e inesperado. Desta vez, eu presto atenção. É confuso, mas eu acho que há lógica nisso.

Meus olhos queimam.

Eles se ajustam... não mera visão noturna, em que dá para ver vultos e captar pouca luz... Eu enxergo claramente, mas dá para distinguir as sombras em gradientes. Dou um passo para o lado – a Armadura é muito silenciosa, pelo menos a “minha versão” – e evito ser tocado por um dos outros sentinelas.

Estou cercado por eles, mas só eu pareço perceber. Larrincher está imediatamente na minha frente. De costas para mim. Completamente vulnerável. Não faz idéia de que eu vejo seu pescoço peludo.

- [Seja silencioso...] – Gladys fala em minha mente.

Aperto a empunhadura da espada.

Eu era um vilão agora... Matar os agentes da lei, aqueles com quem eu fazia calistenia, e alguns que me davam aulas, seria parte do processo...

Um dia iria ter de quebrar as relações... Queimar pontes e não poder voltar atrás.

- “Eu vejo o homem de armadura!” – fala a voz de Larrincher. – “Direção sul, rumo ao Calabouço!”

Não, não foi Larrincher.

Eu fiz ópera com uma barda lendária. Eu aprendo a mimetizar vozes.

Era próximo o suficiente para os guardas acharem que foi Larrincher... E Larrincher achar que foi algum outro colega. Eles tateiam para fora da esfera de escuridão e correm calabouço adentro. Com segurança, eu corro calabouço afora.


- [Frouxo!] – protesta Gladys.

---

As paredes da Torre Alta são muito espessas, qualquer um percebe. O espaço interno utilizável das escadas aparentemente ocupava tudo, mas não é verdade.

Aos oito anos, eu empurrei um painel velho de madeira num gaveteiro de armário e vi um acesso de serviço estreito, e por ele entrava e saía do Donjon.

Agora, contudo, estava entalado, bundão para cima.

Não contava com as placas metálicas. Ou não ter mais oito anos.

- [A Tocha é uma alavanca] – fala Gladys.

Eu saio frustrado.

- Como você sabe?!?

- [Eu estive com Estebán quando construiu...] – ela esnoba. – [Mas foi engraçado você se espremer numa gaveta...]

A tocha faz um estalo. O armário todo se abre.

Ouço passos. Das duas direções... Mais sentinelas subiam as escadas, enquanto Larrincherer e seus homens voltavam do calabouço. A passagem é o que me resta.

Era uma espiral lisa. Eu preferia estar descalço, pois conseguia melhor aderência. A Bota de Virgílio era escorregadia. Basicamente “surfo” pela descida, e tropeço na primeira irregularidade.

- [A porta de madeira vermelha é a fuga!] – indica a espada.

- Não! – corrijo. – É um armário de vassouras.

- [Eu sei mais que você, garoto!]

Estava de saco cheio daquela espada.

Abro a porta. Indolente.

- [Isso... É um armário de vassouras?!?] - ela se espanta.

- Quem poderia imaginar, não é?

- [Estebán deve ter reformado nos últimos dezessete anos... Quebre o chão!]

Sentinelas me avistam, e urram pedindo reforços... E eu sei que, em qualquer momento, algum capitão poderia aparecer.

Achima estava fora, mas poderia ser Balmon.

Ou Khao...

Ou pior...

Minha mãe.

Entro no armário de vassouras. Não caibo. Empurro as vassouras para fora como posso, Sentinelas correm em minha direção. Aponto a espada para o chão... e...

RAIO MÍSTICO!!!

Ondas de energia pura são projetadas. Acho que Gladuis Aeternum amplia o truque assinatura dos bruxos, mas era meu primeiro raio místico.

O piso dentro do armário era de madeira. Fragmenta-se. Gravidade atua.

Eu caio.

Havia um “tobogã” secreto. Sinto meu corpo inclinar, fazer curvas bruscas, deslizando deitado no escuro. O som de metal raspando na pedra lisa me dá arrepios — um ruído áspero, íntimo demais.

De repente, sou lançado do teto e desabo dentro de um escalé velho, amarrado à margem e balançando sobre a correnteza. O cheiro me atinge antes mesmo de eu entender onde estou. Esgoto. Sem dúvida.

Por instinto, corto a corda com a espada.

A corrente nos puxa com violência. O barco gira e dispara túnel adentro. À frente, já vejo o corredor inclinar-se, conduzindo inevitavelmente ao rio que passa ao lado do palácio.

Uma rota de fuga.

Lord Blunt tinha rotas de fuga?

- [Garoto...] – fala a espada. – [Só porque me chamou pelo nome correto, vou te dar um último toque...]

- O que?

- [Estebán não fez a manutenção desse bote velho ha desessete anos...] - eu poderia achar que ela estava preocupada. – [Ele está fazendo muita, muita água...]

Eu tento me ajustar, as tábuas cedem sob o peso de meus pés. O assoalho se fragmenta. Perco o equilíbrio O bote vira. A Correnteza me domina.

---

Eu sei que, quando os guardas me perderam de vista, passaram a procurar nos arredores. Metade iria ficar na muralha para garantir que, se eu ainda estivesse no castelo, não sairia... a outra metade iria fazer um perímetro de busca. Uma possível fuga de Blunt era um exercício normal de quem atendia à Nova Guarda. Mas nunca levávamos a sério. Significaria a Nova Guarda falhar.

Mas sei que minha mãe e meu pai devem ter tido “aquele papo”. Como principal capitã, ela deveria comandar pessoalmente as buscas, mas como minha mãe, eu sei que ela vai fazer algo mais concreto.

Gladys disse que ela ouviu Estebán. Ele esteve no salão de reuniões. Estendia a mão para o quadro, e clamava pelo nome “Gladius Aeternun”. A espada do Pacto. Ela poderia romper dimensões para voltar à mão do Bruxo titular.

Mas agora o bruxo titular era eu. Gladys nega o chamado de Lorde Blunt.

Mas eles fizeram contato. Isso era preocupante. Meu Pai sabe o que eu fiz, e pela visão dessa estraga-prazeres.

Imagino também, quando Capitão Khao, furioso como um vulcão, irrompeu o salão, ao saber / deduzir do ocorrido, apontar o dedo (da mão de verdade) para Estebán, e urrar:

- Nós precisamos pegar seu filho IMEDIATAMENTE! – Algum rosnado selvagem das Montanhas, e completar. – E DEVEM haver Consequências.

Então, meu pai diz:

- Você tem razão, Khao.

- Estebán... É seu filho! – protesta, surpresa, minha mãe, Lady Àquela...

- P-pera-la... – Khao fala aturdido. – Esteban concordou… COMIGO?!? Isso ... parece errado..

- Bentho é um homem. – Fala o Arquivista. Deveria estar em um meio-termo entre o pai cringe e o Senhor de todo o mal. – Ele fez um pacto de consequências gravíssimas. Ele ostenta dois artefatos perigosos, E que meramente sendo avistados pode trazer a ruína ao reino!

- Esteban... – Àquila era o coração da Nova Guarda. Imagino que estaria do meu lado... ao menos até por as mãos no meu couro. – Ele estava sob muita pressão. Não o preparamos para o segredo...

- Perdão, Àquila. Eu adoro o garoto como se fosse meu sobrinho. – A mãozarrona de concreto de Khao agarraria a Dama do Arco pelo ombro se pudesse se mover. – Mas ... Partindo do princípio de que não foi o plano O TEMPO TODO BLUNT! – ele urra, olhando para meu pai. – O melhor a fazer é que nós o peguemos primeiro.

- Eu posso sentir a direção da espada. – Meu pai fala, enfim. – Bentho está a caminho de Forte Jian. Onde ele presta os serviços.

- Jian... minha área de influência – constata Khao. – Àquela... Eu talvez precise ser... violento com o garoto...

- Não mais do que EU serei quando ele voltar para casa... – A Dama do Arco fecha os braços e olha para Estebán.

Khao provavelmente pensou: “Foi grave... ele pode não voltar para casa pelo que fez”... mas não falaria naquele momento.

Quando Khao partisse, Lady Àquela, a única pessoa na terra que conseguiu ler o coração sombrio de Lord Blunt, revelará.

- Ele não foi para Jian, não é?

- Não... – confessaria meu pai. – Khao está abalado demais para isso. Ele está bem. Sinto que a espada está com ele. Deve estar na minha rota de fuga. Sinto que está a meio caminho de Huo-fen.

---

Não, eu não estava bem.

Sou um nadador razoável, mas era uma correnteza. A armadura era muito densa. A capa ... o elmo... parecia que a água invadia meus pulmões, entrando pelos meus olhos. Em algum momento, apaguei...

E quase morri ao abrir meus olhos, em uma ribeira rasa, e ver... essa figura.



- [Bem-vindo de volta ao mundo dos vivos] – fala Gladys sem parecer muito sincera.

- O que ... O que é essa coisa?!? – protesto, apontando. Ele usava o elmo, as manoplas, parte da armadura. Mas por dentro, parecia um esqueleto. Ele rangia e mal parava estável, mesmo assim velava por meu corpo inconsciente.

- [Não reconhece “Virgílio”?] – ela estava ácida de tanta ironia. – [Não sei se por ter saído da masmorra, ou alguma bagunça na água, ou estar vinculado à incompetência encarnada que é o filho de Estebán... Ela entra no modo sentinela com essa aparência patética!]

- Ee ... – eu tento provocá-la. – Ela me salvou do afogamento?

- [Ainda parte do protocolo original... Muito abstrato, contrário às recomendações da fabricante]

- E a minha Ledião Edgy cresce! – eu falo satisfeito, antes de cair sentado. Era eu, uma espada falante que não se move, e uma armadura que se move mas não fala. Estava exausto. – Onde estamos?

- [Tem uma cidade além daquela barragem... E dá para ver o Anel Interno que protege a Capital no horizonte oeste.] – Gladys parecia confusa.

- Barragem?!? Deve ser Huo-fen. A Cidade Arsenal. Lord Blunt saqueou-a no Levante... Foi o começo da conquista. Acho que é área de influência do Balmon, que é relapso. Excelente lugar para começar.

- [Começar o quê?]

- Meu IMPÉRIO SOMBRIO! – eu estendo o punho firme. – Vista-me, Virgílio! Que Lord Edgy marche para a pedra fundamental da História.

A armadura o ignorou.

- [Use o nome correto!] – sugere a espada.

Eu bufo.

- Vigília sombria...

A armadura voou em mim. Rolo no chão... antes de me erguer como.

LORD EDGY



13 de fevereiro de 2026

EDGELORD IV - Arco da Nova Guarda

 Meu pai é o maior vilão da história. Mas vem aí um novo desafiante!

Capítulo IV — O Pacto da Meia-Noite

Bem-vindos a Shén-Li



Chamam este lugar de “o Coração do Mundo”. Não por tamanho, nem por riqueza… mas porque eu não conheço nada além disso.


Há dezessete anos, antes mesmo de eu nascer, Shén-Li quase caiu. Um Senhor da Guerra ergueu-se das zonas selvagens; chamava-se Lorde Blunt. Portava uma espada sombria que lhe concedia um poder devastador. Dizem que heróis o detiveram — ou talvez não. Tudo o que eu sabia sempre ficou… confuso.


Fui assistente de ordens do Capitão Khao. Tive aulas de história com o Mestre-Mentor Achima. Recebi minha insígnia como aspirante de Balmon da Torre da Bigorna.


Sou filho da Dama do Arco, a arqueira lendária — Lady Àquela.



Como todos eles puderam mentir para mim? Para mim… e para o povo de Shén-Li?


Mas então penso: haveria paz se todos soubessem que eles nunca poderiam deter Lorde Blunt? Que o chamado “Senhor de Todo o Mal” simplesmente… cansou? Decidiu parar?

 E quantos problemas menores foram evitados porque o Bruxo da Armadura Sombria apontava para onde olhar?


Com a morte de Ga-shi, toda a cúpula em três níveis da antiga horda foi desfeita. Isso é bom, não é? …Então por que agora a Horda de Blunt seria a **Nova Guarda**?


Meu nome é Bentho, tenho dezessete anos. Estou de costas para o mesmo quadro que observei todos os dias antes de partir para o Forte Jian, onde me apresentava como cadete paladino. Mestre Achima o reconstruiu com magia, mas eu não consigo deixar de ver onde ele foi danificado. Por isso tento não ver, mas é a imagem que tenho mais firme em minha memória.


Ali está meu pai, de joelhos. Minha mãe — triunfo? Surpresa? Já não sei. Os três capitães que eu idolatrava e o palácio que jurei proteger. O salão está vazio agora que a reunião acabou; estou sozinho. Lá fora, ouço passos, marchas e cornetas; a Nova Guarda quer mostrar serviço. Quase todos os cadetes, soldados e tenentes estão de plantão. Aqui dentro… só eu.


Há uma hora eu deveria ter ido ao meu quarto ou aos aposentos dos meus pais. Embora esta seja a sede da Nova Guarda, só minha mãe reside aqui permanentemente, com meu pai. O escriba. O arquivista medíocre. O velho constrangedor. Meu Deus… O primeiro e único Lorde Blunt.


— [Bentho… pode me ouvir?].


A voz de uma mulher madura, firme, com uma gentileza calculada, ecoa. Pode vir da escadaria leste, da passagem de serviço ou da muralha interna que descobri aos catorze anos. Ou do próprio quadro; não estou concentrado a ponto de identificar.


— Já vou, mãe — respondo, atordoado, sem coragem de olhar para trás. — Eu sei que você quer conversar.... 


— [Então você pode me ouvir…] — a voz insiste. — [Porque precisamos mesmo conversar…]

— Pode ser outra hora, mãe?.

A frase seguinte quase me faz desmaiar: [Por que você me chama de “mãe”?]


Não era Lady Àquela. A voz não vinha do salão, nem das passagens, nem do quadro. Ela vinha de dentro da minha cabeça. Caio de joelhos; levanto-me como posso. Olho para o quadro, mas foco no canto superior esquerdo. Uma luz arroxeada antecede um rasgo ínfimo no começo. O tecido se rasga com cuidado… por cerca de oitenta centímetros de comprimento. Então, sem delicadeza alguma, a empunhadura força a saída.



Uma lâmina negra emerge, perfeitamente horizontal. Flutua por um instante… até a gravidade vencê-la. A ponta toca o chão, exatamente a um metro de mim. Ela é longa; uma Longsword arcaica, mas funcional. Pesada no olhar, esculpida para ser a arma definitiva de um conquistador bruxo.


— Você tem… a voz da minha mãe — observo, em choque. 

— [Eu não tenho voz.] — responde, com neutralidade antiga. — [O usuário imagina como eu soaria. Se você ouve a Dama do Arco, isso diz mais sobre você do que sobre mim. Considere terapia.] 

— V-você é a… Espada Negra!. 

— [Pelo amor de Bophades!] — ela protesta. — [Isso é um diminutivo! Se eu fosse viva, seria racismo. Vamos, você sabe meu nome verdadeiro.]. 

Estendo minha mão.

— Espada de Blunt! — digo, tentando ser triunfante. 

— [Caralho… sério?! Passei um tempinho com um bruxo proeminente e viro um apêndice do currículo dele? E se eu te chamasse de “Filho da Àquela”, hein, Bentho?] — Ela suspiraria, se o aço pudesse suspirar. — [Aprenda meu nome, mortal: Eu sou GLÁDIUS AETERNUM.].


 [Doze mãos de conquistadores me empunharam antes do seu pai. Doze tiranos que só queriam ver o mundo queimar.] — a espada vibra. — [Mas o décimo terceiro, o homem que você chama de Estebán, fez algo que eu não esperava: ele me ensinou o silêncio. Ele quis paz. Ele quis você.]

Meu pai — Estebán — chegou a quase conquistar o mundo, mas um dia quis paz, família e quis que ela se retraísse. Ela obedeceu, pois a Gládius Aeternum dá ao bruxo o que seu coração anseia. Não sei como… mas eu entendo isso. 

— [Décimo terceiro teve o que desejou... Bentho. O primeiro a me empunhar sabendo que a 'justiça' é uma farsa. O que o décimo quarto portador tem a oferecer?]. 

— Q-Quem? — pergunto. - Quem é esse décimo quarto?

— [Sério que você não entendeu aonde eu quero chegar? Isso era para ser uma pergunta retórica. VOCÊ, seu animal! Bentho herdeiro de Lorde Blunt! Proteja-me Aetiades sagrado!]. 

— Eu?!? - espanto-me Juro que não fiz a associação, suava às bicas. -  já fiz o primeiro sacramento para ser paladino! Isso não é um "impeditivo"? 

— [Ish. Nojento... Mas funcional. Sinergia. É... Posso trabalhar com isso...] - Gladius "nome difícil" parecia recalcular seus planos. - [Seu pai era um camponês quando eu o peguei; vamos ver o que faço com alguém que puxa ferro...]. 

— Eu não ... nunca pensei em ser um vilão!. 

— [Ninguém nunca quer. Você quer ser amado. Admirado. Quer ser entendido. Quer ser algo que ainda não é.]

E então eu entendo. Se o mundo foi moldado por heróis que mentem… Por que não… Ser um vilão? É como se meus pensamentos e o coração de ... Vou chamar ela de "Gladys" ... Estivessem entrando aos poucos em uma sintonia. Ela me entende. Ela entende o que eu não entendo.

Seguro a empunhadura. Tacitamente aceito o pacto.

— Eh... Eu… aceitei! - falo ao perceber que Gladys não percebeu o que eu fiz.

— [Vocalize da próxima vez: "Eu aceito o pacto".]. 

— EU ACEITO O PACTO! — falo, enfim, com um certo ranço. — E agora? Algum show de luzes ou AAAHHGGG!.

Uma dor em meu peito. Meu coração parece pular uma batida. A mente, tantas coisas passam por ela...

---


 A DONJON


A Donjon — a Torre Alta — não é imponente por altura, mas por intenção.

Foi a ostentação de poder de Lorde Blunt no passado… e sua vitrine no presente.

Pedra antiga. Escura. Polida pela paranoia. Dizem que o miolo possui chapas de Ferro Frio da Montanha Morta, que impedem teleporte e escaninhos mágicos. Mas fora isso, nenhum ornamento. Só função.

Subo os degraus tentando não pensar em como passei pelos sentinelas da base.

No último patamar, duas figuras. Eles são figuras constantes no castelo. Vestem Meia-armaduras com tema de águias. Lanças apoiadas. Relaxados.

— Oh — diz um deles. — O Herói da Hora.

— Depois de grampear o Ga-shi? — o outro ri. — Achei que iam te colocar pra discursar na capital.

Respiro fundo. Endireito os ombros. Minha voz muda antes que eu perceba — Senhorita Amellie, a instrutora de ópera, teria orgulho.

— Ordens do Conselho. — sorrio, cansado. — Disseram que eu precisava aprender como se vigia um vilão de verdade. Promoção informal. Podem começar a me chamar de “chefe”.

Eles se entreolham.

— Sozinho?

— Sem capitão?

— Sem registro?

Meu sorriso falha por um microssegundo.

— A gente gosta de você — diz um deles. — Mas isso aqui é Blunt. Mesmo preso.

Nada cola.

— Desce da torre, garoto — diz o outro, gentil. — Antes que precise reportar no relatório.

Droga.

Fecho os olhos.

— [Vai recuar?] — a voz provoca. Só eu ouço, se as instruções estavam certas. — [Não vai pegar o que é seu?]

Abro a mão.

A espada existe **antes de existir**.

Leve. Estranhamente leve.

Os dois congelam.

— Ei ... Essa aí não é a...— O primeiro reconhece.

— Calma — O segundo não acredita que eu cruzaria a linha, mas o treinamento começava a vir como memória muscular.

— Não quero ferir vocês — digo rápido. — Só não posso voltar agora.

 Eu não quero feri-los gravemente_ainda_. A espada entende. Ela realmente busca o que meu coração deseja. Eu sou um lutador treinado, mas precisaria de mais para conseguir assegurar o prêmio.

Sei onde pisar.

Como girar o quadril.

Quanto da força colocar — não no braço, mas na convicção. Ela ajuda com o resto.

— [Controle o impacto] — ela murmura. — [um Golpe "Booming" deve bastar].

Dou um passo à frente.

Quando a lâmina desce, não rasga.

Ela detona.


O ar estala como um trovão preso. Um golpe envolto em energia vibrante que não se dissipa — ela espera, como uma ameaça invisível.

O primeiro sentinela é lançado para trás, não ferido, mas completamente atordoado. A armadura ressoa como um sino rachado enquanto ele cai, ofegante, mas vivo.

O segundo ainda não reage de imediato. Mas não posso mais surpreender ele.

O Raio Místico que meu pai usou em Ga-shi me vem à mente, mas não sei se posso controlar a energia como controlo a pujança da espada. Seria potencialmente letal.

Já ele, tem outro problema. Ele ainda vê Bentho.

Filho da capitã. Cadete. Garoto.

Esse segundo de hesitação salva nós dois. Ele de me forçar, e eu de não fazer algo que me arrependa. mas estamos em um impasse, e o tempo não está a meu favor.

Antes que eu possa explicar, antes que possa baixar a espada, algo se move atrás das grades.

Metal rangendo. Correntes puxadas.



A armadura da Donjon desperta. Mesmo sabendo que está vazia, eu tenho um pequeno pânico... Pois era como se Lorde Blunt — não meu pai, mas o senhor das trevas da história — esticasse as manoplas.

A corrente de seus grilões envolve o pescoço do segundo sentinela. Puxa-o violentamente para traz. Ele bate a nuca nas grades de ferro. Elmo cai. Ele está nocauteado.

Não é rápida. Não é elegante.

— [Seu pai faz jus à lenda!] - fala a Espada. - [Esta é a Vigília Sombria. É mais que o rosto público de Lorde Blunt. É um autômato... Mas por ser muito literal, é complicado fazê-lo pensar fora da caixa. Estebán deve ter feito um pedido absurdamente específico antevendo o dia em que precisaria que a armadura protegesse você.]

- Eu... Consegui! - comemoro. Olhava admirado a ponto de pegar só parte da explicação. Juro que achei que o nome da armadura era "Virgílio".

- [Agora, vamos sair daqui antes do reforço chegar].

- Boa idéia... - concordo, sorridente. - E como é que vamos fazer isso?

- [Eu... Eu pensei que você tinha um plano de fuga].

- Eu?!? - Protesto. - Eu... não sei...



12 de fevereiro de 2026

Vindoro crossover: EDGELORD & Cavaleiros '80


Hon-sa é uma heroína thunderiana interdimensional que surgiu nas narrativas das sessões de RPG da série Os Cavaleiros ’80, originalmente lutando contra ameaças como Crisálida e os Malditos. Após a destruição definitiva de seus inimigos, ela não voltou para casa — em vez disso, Hon-sa passou a navegar pelo Multiverso, avançando por realidades cada vez mais estranhas em busca de novas aventuras e causas para defender.
Ela é boazinha que só faz coisas más...
Edgy é o vilão que só consegue salvar o dia...
Será que o coração de Xitarro aguenta?





7 de fevereiro de 2026

EDGELORD III - Arco da Nova Guarda

 Título: "MEU PAI É O MAIOR VILÃO DO MUNDO... E OS MAIORES HERÓIS SÃO FALHOS."



Bem-vindos a SHÉN-LI.

Shén-Li é chamado de “o Coração do Mundo” não por tamanho, mas por controle.

Há dezessete anos, antes de eu nascer, Shén-Li quase foi derrubada.

Um Senhor da Guerra chamado Lorde Blunt ergueu-se das zonas selvagens, portando uma espada sombria que lhe concedia poder devastador. Aliados à sua técnica e sagacidade, ele reuniu um exército, saqueou cidades, quebrou alianças e cercou a capital. O mundo se preparava para cair.

E então, como toda boa história exige, heróis surgiram.

Vieram de terras distantes. Fortes. Treinados. Convictos de que força suficiente bastava para vencer o mal. Um monge que suportava mais do que qualquer homem deveria. Um mago que dominava os segredos do campo de batalha. Um ferreiro que prometia armas capazes de mudar o curso da guerra. E uma arqueira local.

A batalha final aconteceu onde o mundo gosta que batalhas finais aconteçam: às portas da capital, sob o olhar atento da História.

Um a um, os heróis tombaram. Quando tudo parecia perdido, Lady Àquela disparou a flecha que mudou o destino do mundo. Lorde Blunt caiu de joelhos. A Espada Negra foi perdida. O vilão foi derrotado.



Essa é a versão oficial.

A versão que se espalhou.

A versão proibida de ser questionada.

A versão que ninguém fiscaliza.

Desde então, Shén-Li vive em paz.

Uma paz eficiente.

Uma paz mantida por capitães que sabem o que procurar.

Uma paz protegida por uma Guarda que acredita que o maior mal já foi vencido. E ninguém ousa dizer o contrário.

Eu me chamo Bentho. Tenho 17 anos e vejo aquele quadro da versão oficial todos os dias, antes de ir para o Forte Jian. E acredito que, neste exato momento, os heróis que sempre admirei estão pensando em pintar uma versão mais “light” desse quadro, mas comigo como protagonista.

**

— “Relatório preliminar”... — anunciou Mestre Mentor Achima, depois que o salão ficou vazio demais para parecer honesto. — “Escudeiro Bentho, filho de Lady Àq…” (a verificar se vale a pena enfatizar ou não parentesco, nepotismo), flagrou três agentes renegados de Lorde Blunt tentando invadir a fortaleza, numa vã tentativa de resgatar seu senhor. Salvou o arquivista Estebán, feito refém. Neutralizou a ameaça com elemento surpresa, treinamento adequado e coragem além do dever. Sem baixas da Guarda.


— Isso não vai se sustentar... — rosnou Khao, o Punho de Concreto, com o braço petrificado apoiado na mesa como um martelo esquecido. — Ga-shi não era um saqueador comum.

— Não precisa se sustentar. Nada disso nunca precisou! — respondeu Balmon, o armeiro, quase reativamente, acomodando-se na cadeira grande demais para o anão. — Só precisa existir tempo suficiente para virar verdade.

Àquela não disse nada. Observava Estebán, que ajeitava o colarinho rasgado com uma calma quase ofensiva. Ela estava preocupada, especialmente agora que eu estava envolvido também. Khao fora o primeiro a entrar e ver a cena improvisada por Estebán e por mim. E provavelmente teria feito algo mais impensado… algo que ele sonha há dezessete anos… se os cadetes que o acompanhavam não começassem a me aplaudir.

— “Os cadetes auxiliares da Nova Guarda…” — continuou Achima, pigarreando para recuperar a palavra e a atenção dos quatro que o ouviam — “…foram instruídos a não espalhar o ocorrido.”


Khao bufou.

— Então amanhã todo mundo vai saber.

— Exatamente — disse o magae, sem ironia. — O segredo da mentira é esse. Proibida o bastante para parecer importante. Livre o bastante para se espalhar sozinha. Por isso aquela armadura aparece a cada dois dias na janela, e cadetes novatos pensam que não sabemos quando eles, curiosos, se infiltram na Donjon para ver Lorde Blunt preso.

Houve um silêncio curto. Denso. Khao o quebrou, como costuma quebrar tudo.

— O Conselho Regente… isso precisa ser reportado. E não se espantem se decretarem mudanças.

As palavras pesaram mais do que deveriam. Toda a estrutura de defesa e segurança de Shén-Li girava direta ou indiretamente em torno da infalibilidade da Guarda e da colaboração-prisão de Blunt.

— Se reportarmos — adiantou Balmon — o status de Estebán pode ser revisto. Prisioneiro com regalias é um acordo frágil. O Conselho pode decidir… endurecer.

— Ou revogar — completou Khao, nem tentando esconder um sorriso malicioso. — E então o vilão volta a ser oficialmente um vilão. Como, sejamos sinceros, nunca deixou de ser.

Estebán levantou os olhos pela primeira vez.

— Achima — disse ele, com educação. — Você é um homem prático.

O Mestre Mentor não gostava quando diziam isso em voz alta.

— Ga-shi está morto. Fato frio. Prático — continuou Estebán. — A ameaça imediata acabou. Você deduzirá isso sozinho ao pensar um pouco sobre nossa situação. Concluirá que não há risco iminente e recomendará cautela ante perguntas inconvenientes. O Conselho Regente o ouvirá.

Achima fechou os olhos por um instante. Era irritante quando alguém lia seus relatórios antes de serem escritos.

— Balmon — Estebán virou-se um pouco para o anão. — Você construiu uma vida confortável aqui. Respeitado. Bem pago. Nunca votaria por mudança quando o status quo te favorece. E o Conselho confia em você.

Balmon abriu a boca para negar. Não conseguiu.

— E você… — Estebán finalmente olhou para Àquela.



Ela sustentou o olhar. Firme. Antigo. A Dama do Arco. A gloriosa salvadora do reino. A garota-propaganda.

— Jamais votaria contra mim, mesmo se eu estivesse errado. E, no fundo, sabe que eu não estou — disse ele, sem arrogância. Como quem constata o clima, não quem tenta fazer chover.

O silêncio que se seguiu não foi de discordância.

Foi de reconhecimento. Uma articulação tácita que quase toda aquela cabala de conspiradores estava confortável em assumir.

Khao bateu o punho de pedra na mesa. Não forte o bastante para quebrá-la, embora forte o bastante para deixar a marca. Pois, no impasse, ele era voto vencido.

— Então é isso? — disse ele, revoltado. — Dezessete anos e vocês já esqueceram o que ele é?

Àquela respondeu antes que Estebán pudesse.

— Não esquecemos. Escolhemos lembrar de outra coisa. Você se lembra de um breve período dezessete anos atrás… nós lembramos de dezessete anos de paz, cumprindo os acordos. É isso que escolhemos lembrar.

Khao levantou-se. Grande. Rígido.

Sozinho.

— Eu não escolhi nada disso — disse, por fim. — Eu ainda vejo um inimigo entre nós.

Estebán inclinou levemente a cabeça.

— E é por isso, Khao — falou com suavidade perigosa — …que você ainda está segurando aquele dia, como se seu punho fosse imóvel.

Khao saiu sem responder.

Os outros ficaram.

A mentira estava salva.

Por enquanto.

No corredor, longe dali, eu encostava na porta do quarto, ouvindo passos, vozes abafadas…

Eu era o “herói da hora”, e já planejavam uma festa para comemorar meus feitos na manhã seguinte. Mas eu precisava continuar em meu posto pelo resto da noite, talvez para acertarmos detalhes da história. Por isso, vigiava a entrada.

Eu já sabia.

E agora testemunhava como a Nova Guarda agia entre as aparições públicas e os atos heroicos cirúrgicos.

1 de fevereiro de 2026

EDGELORD - MAIS UMA versão da Batalha de Blunt

 A Batalha Final, como eu a recordo - Por Estebán


Eu sabia que eles estavam preparando uma armadilha antes mesmo de vê-la.


Àquela me contou, sem perceber. Falou dos estrangeiros com entusiasmo nervoso naquela manhã. De como tinham chegado cheios de certezas, de planos, de magia demais para quem ainda não entende o peso de um erro. Falou das torres mecânicas, do mago que insistia em ver tudo de cima, do lutador que queria ser o primeiro a sangrar.


Ela não sabia quem eu era.

E justamente por isso, foi honesta.


Quando cheguei às portas, guardadas por Khao, o campo já estava marcado. Não por símbolos no chão, mas por intenções mal disfarçadas. Abjurações empilhadas. Linhas de tiro cruzadas. Um convite para que eu avançasse pelo caminho que eles tinham decidido ser o correto.


Eu aceitei.


Vestia a armadura. Não por proteção. Por presença. Deixei que ela se movesse como se eu estivesse inteiro focado na marcha, enquanto meu foco permanecia um passo fora do óbvio. A lâmina respondeu ao meu chamado. A escuridão também.


O primeiro a vir foi Khao.


Corajoso. Convicto. Barulhento por dentro, mesmo em silêncio.

Antes que Khao me alcançasse, eu lancei o frasco.


Nem mirei direito. Mas o bárbaro reagiu rápido. Ele deu um passo curto, girou o corpo e socou o frasco antes que o impacto o alcançasse. Um gesto bruto. Instintivo. Corajoso. O tipo de decisão que salva vidas… e cobra um preço.

O vidro explodiu. O líquido atingiu seu punho esquerdo, e por um instante achei que seria o fim dele ali. Mas o vigor das Montanhas Castanhas falou mais alto. A fúria antiga correu pelos músculos, empurrando a maldição para fora, comprimindo-a, negando-lhe território.

Não venceu. Mas também não cedeu.

A petrificação se concentrou no punho esquerdo. A mão endureceu primeiro, depois o pulso, a textura da pele cedendo à pedra como se o corpo tivesse decidido sacrificar uma parte para salvar o resto.

Khao não gritou.

Abaixou o centro de gravidade. Testou o peso novo do braço. Respirou fundo, como quem aceita uma cicatriz antes mesmo de saber se vai sobreviver.

Ali, pela primeira vez naquela tarde, eu sorri.

Não porque ele fosse uma ameaça.

Mas porque, se tivesse vivido mais alguns anos… Teria sido um problema de verdade.


Foi então que ele veio para cima de mim.

E eu deixei.

Quando a escuridão caiu, não foi para cegá-lo. Foi para reduzir o mundo dele ao tamanho do próprio alcance. Lancei o Hex sobre sua força, puxando cada golpe para o erro seguinte. Cada acerto dele custava mais do que deveria. Cada falha pesava o dobro.

Os golpes que lhe dei não foram rápidos. Não havia necessidade. Um smite bem colocado não serve apenas para ferir. Serve para ensinar o corpo a desistir antes da mente.


Enquanto isso, o campo de batalha tentava me punir.

As máquinas do artífice disparavam com disciplina. Bonitas, até. Ajustei o passo e deixei que o raio místico resolvesse o problema sem emoção. Um disparo para deslocar. Outro para quebrar. O terceiro para fazer Belmon da Torre da Bigorna entender que não era mais um combate. Era um colapso.

Foi aí que o medo o encontrou. Não o pânico. O medo útil. Aquele que esvazia as mãos.


Acima de tudo isso, Achima, o mago.

Voava. Sempre voam a partir de certo nível de domínio da magia. Acreditam que distância é controle. Vi quando ele começou a preparar alguma magia que "encerraria a história". Parecia boa. Elegante. Não dependia de concentração. Eu teria respeitado se tivesse sido lançada.

Mas ele estava ocupado demais sustentando o próprio orgulho no ar.

Não mirei nele.

Mirei no pensamento. "Mind Sliver".

Um sussurro mínimo. Um fragmento de dúvida lançado como lâmina.

O tipo de magia que não dói, mas desorganiza.


A concentração se rompeu.

O mundo o alcançou.

Ele caiu antes de entender por quê.


Khao ainda respirava aos meus pés quando ouvi o som.

...

A flecha não me feriu.


Ela atingiu a armadura em cheio, trincando a superfície apenas o suficiente para produzir um som seco, definitivo. O impacto correto. A força errada. A placa desviou o ataque como devia.


Mas eu me virei.


Não por causa da flecha.


Por causa de quem a disparou.


Reconheci a postura antes do rosto. A arqueira da cidade. A jovem que ajudara um arquivista cansado a carregar papéis demais para braços de menos. Coragem sem cálculo. Lealdade sem estratégia.


Afastei o punho de Khao numa débil tentativa de se reerguer, e convoquei a espada. O golpe final já existia. Bastava vontade.


Ela saiu do esconderijo.


Ficou entre mim e o homem que eu estava prestes a quebrar.


E ali, naquele instante, tudo o que eu vinha fazendo perdeu o sentido.


Ela tremia. Não escondia.

E ainda assim, não saiu do lugar.


A força sempre foi fácil. O difícil é parar quando ninguém pode impedir você.


Eu podia atravessar aquele portão. Podia tomar o palácio. Podia ser tudo o que o mundo já tinha decidido que eu era.


Mas pela primeira vez em anos, alguém me enfrentava não por ódio, nem por glória, nem por medo do que eu faria depois.


Ela me enfrentava apesar do medo.


Abaixei a espada.


Não porque perdi.

Porque entendi.


Eles chamariam isso de vitória. Precisariam chamar. O mundo não tolera a verdade nua.


Mas eu sei o que aconteceu naquele dia.


Eu não fui derrotado.

Eu escolhi parar.


E desde então, tudo o que fiz foi garantir que, quando a próxima armadilha fosse montada…

ninguém precisasse atravessá-la vestindo uma armadura negra.

EDGELORD II - Arco da Nova Guarda

 Título: "MEU PAI É O MAIOR VILÃO DO MUNDO... E UM DIA EU VOU SER TAMBÉM, SE O MUNDO NÃO SE DESTRUIR SOZINHO"

Bem-vindos a SHÉN-LI.


Shén-Li é chamada de o Coração do Mundo não por tamanho, mas por mentiras.


Há dezessete anos, antes de eu nascer, Shén-Li quase foi derrubada. Um Senhor da Guerra chamado Lorde Blunt ergueu-se das zonas selvagens, portando uma espada sombria que lhe concedia poderes destrutivos. Aliados à sua técnica e sagacidade, esses poderes lhe permitiram angariar um exército mortal.

Quando Shén-Li estava prestes a cair, um bando de aventureiros que se achavam melhores do que realmente eram marchou rumo ao TPK: Khao, Punho de Concreto, monge bárbaro que aguentava porrada, mas tinha limites; o mago Achima, que se tornaria Mestre Mentor poucos meses depois ao perceber que magia de batalha não era seu forte; Balmon, ferreiro anão que ~dizia~ ter praticamente inventado a arma de fogo que conhecemos hoje; e Lady Àquela... uma arqueira local. Precisavam de alguém que conhecesse a região, que lutasse sem se expor e roubasse a glória dos heróis.

Um a um, esses idiotas iam tombando diante do poder do vilão, tentando deter sua marcha. Lord Blunt, de bom humor, escolheu perder alguns minutos com eles. E, quando tudo parecia perdido, Lady Àquela, arqueira lendária, disparou a flecha que mudou o destino do mundo.


Pois chamou a atenção de Lord Blunt, o maior vilão de todos, mesmo se fragmentando sem causar dano contra a Armadura Negra.


Àquela?! – falou o senhor de todo o mal, com surpresa genuína.


– V-você me conhece?! – a arqueira sussurrou, assombrada. – Lord Blunt sabe meu nome...


Ela se posicionou entre o orgulhoso Khao caído e o maior mal da história.

– Você não deve nada a esse estrangeiro! – rosna a voz cavernosa de Lord Blunt, senhor da guerra e da escuridão, com surpresa e ironia.

– Talvez... – Àquela ergueu seu arco com a última flecha, na esperança de que um tiro à queima-roupa fosse mais eficiente. Queria continuar com alguma frase que a fizesse parecer intimidante, ou ao menos confiante de que sabia o que estava fazendo... mas nada lhe ocorreu.

– Você está aqui para proteger o estranho, e não seu palácio?! – admira-se Blunt. Parecia mesmo que a arqueira não percebera onde aquela batalha se dava. – Você sabe quem EU sou?! E ainda ousa me desafiar?!

Se ela tivesse qualquer chance de vencer, teria sido disparando naquele instante. Mas estava em pânico. Seus dedos não respondiam. Permaneceu ali, ameaçando mas sem concretizar a ameaça. Blunt deu mais alguns passos, até ficar quase face a face com ela, e segurou o arco da arqueira.


– "Se não houvesse medo, não haveria coragem. Caminhe. Mesmo tremendo. Porque quem acha que força justifica crueldade precisa ser enfrentado".

Lord Blunt, senhor da guerra, repetiu para ela, com precisão surpreendente, palavras de outro. Àquela lembrou-se delas, pois as dissera para confortar alguém.

~~~~~

Dias antes. Era um jovem adulto atrapalhado. Não particularmente bonito ou ostentoso. Esbarrou em um bêbado numa taverna e passou a ser seguido por ele e mais três figuras mal-encaradas. A guarda local nada fez. Àquela estava ali à procura de emprego no mural dos aventureiros, mas não pôde ignorar a situação.

Viu quando os três empurraram o forasteiro insignificante, tomaram-lhe uma saca de moedas e estavam prestes a espancá-lo. Ela disparou uma flecha de aviso no chão na frente do líder. Os três se intimidaram, mas não a ponto de pânico ou temor real. Preferiram ir embora simplesmente. Levaram o dinheiro, mas cessaram a agressão. Ela o conduziu de volta e pagou-lhe um caldo quente.

Ele disse ser arquivista. Controlava documentos de suprimento da guerra — Blunt chegaria à capital se não o detivessem — e acreditava que, se o vilão esmagasse aquele antro de covardes, seria melhor assim. A Guarda vira que ele estava em perigo e não fizera nada. E ainda reclamara que ele, sozinho, era fraco demais.

Àquela entristeceu-se com a falta de esperança do simpático rapaz que acabara de salvar. Então falou aquele mesmo discurso: “Se não houvesse medo, não haveria coragem”. Bem, talvez não tenha sido tão eloquente quanto o vilão; gaguejou, errou a entonação, mas as palavras foram exatas.

O homem, revoltado por sua aparente impotência, sorriu. Viu uma fagulha de luz na forma daquela arqueira.

Conversaram mais. Tornaram-se amigos. Viram-se outras vezes depois daquela noite.

Ela falou do contrato de Khao e seus amigos, que ousariam atacar Blunt quando ele chegasse à capital. Seriam heróis, pois eram mais fortes que a Guarda. O amigo de Àquela ficou preocupado, e ela o assegurou de que estaria fora de perigo: ficaria escondida no palácio, com tiros de supressão, fora de alcance. Jamais enfrentaria Lord Blunt diretamente.

E agora, ela estava ali... Ouvindo Blunt repetir as palavras que dissera ... A Estebán.

---

A Mentira

Eu me chamo Bentho. Tenho 17 anos. Cresci sob este quadro antes de ir para Forte Jian, aprendendo a chamá-lo de história antes mesmo de entender a palavra vitória: minha mãe, Lady Àquela, com o punho erguido e o arco ainda tenso, sorri como quem já pagou o preço do amanhã, enquanto Lord Blunt ajoelha em sombras, atravessado por flechas e pelo próprio fim; atrás dela estão Balmon, a barba pesada de coragem; Khao, feito um trovão contido; e Achima, olhos de cálculo e fumaça. Os que se tornariam os capitães da Nova Guarda, mas que aqui ainda são apenas testemunhas fiéis do instante em que o mundo mudou. O cenário é o que sobrou de quando o canto superior esquerdo explodiu ao revelar a Espada Negra. Os capitães da Nova Guarda se reerguem para assistir ao triunfo de Àquela.

Há poucos minutos, descobri que aquele quadro seria uma mentira.

– Não... você não pode falar com ele! – meu pai sussurrava. Para si mesmo? Para a espada? – Ele não fez o que eu fiz...

Olhei por cima do ombro. Meu pai, o arquivista patético que não saía do palácio havia dezessete anos, ostentava a Espada Negra. Falava com ela como se falasse com uma velha amiga.

Antes disso, dissera algo que ficaria para sempre em minha mente:

Eu sou Lorde Blunt.


– Aquilo... É uma mentira, então?! – falei enfim, após o choque, apontando para o quadro.

– De forma alguma – respondeu meu pai, desajeitado outra vez, como se pudesse esconder o que me fora revelado. – Olhe de novo. Olhe para esse quadro como se fosse a primeira vez.

– O que eu vejo é um vilão imponente e poderoso se rendendo a uma arqueira infalível. E hoje me parece que a arqueira era qualquer coisa, e o vilão pesa setenta quilos...

– Insista, meu filho – havia energia em sua voz, como se esperasse por aquele momento, ainda que em outras circunstâncias. – Ignore as histórias que ouviu e essa poluição de cenário, como firulas, como se fosse um grafite em cima da verdade. Tire seu viés. Olhe de novo.

Eu estava furioso. Mas e se tudo fosse uma brincadeira? "Gei-xa", ou seja lá qual fosse o nome do suposto assecla de Blunt, poderia ser um ator; magias ilusórias... qualquer coisa. Menos me tirar o heroísmo de minha mãe e me ligar à escuridão encarnada de Blunt.

Mas fiz a vontade do meu pai.

Olhei para o quadro como nunca tinha olhado antes.

O que eu via?

Minha mãe. Luzes sobre ela? Ou só a cor branca?

Lord Blunt, o terror em forma de... Não. Pense sem viés. Ignore as flechas. Era um homem.

De joelhos, diante de uma mulher.

Aquilo não era rendição.

Era um pedido de casamento.


Eu via agora meu pai, como Blunt, ajoelhado não em derrota, mas em súplica; onde antes eu jurava ver rendição. Minha mãe, Lady Àquela, não em triunfo, mas em surpresa contida, segurando um “sim” que mudaria o mundo. As flechas cravadas na armadura eram adições posteriores à obra original, assim como a camada que escurecia e desfocava a cena. Uma luz suave a envolvia, denunciando a mensagem que só se lê quando se ama. Ao fundo, Balmon, Khao e Achima não celebravam uma queda; guardavam o instante como capitães que juram silêncio, testemunhas de um pedido de casamento mascarado de lenda. Pétalas e poeira conspiravam para ensinar que a história escolheu lembrar a guerra, quando o que realmente nasceu ali foi um pacto.


A verdade estivera ali o tempo todo, exposta a todos. Até mesmo a Espada perdida de Lord Blunt estava encrustada na moldura.


Mas eu vira Lord Blunt aos oito anos... A criatura mais assustadora da história.

– A armadura? – riu meu pai, como se lesse minha mente. – Ela me faz ficar vinte centímetros mais alto, e as ombreiras me fazem parecer mais musculoso. Precisava ver com a capa de escamas. Não era prática, mas passava a mensagem certa.

Ele dizia isso enquanto movia a Espada Negra, devolvendo-a ao esconderijo, com a leveza de quem sacode uma toalha.

– A força da personalidade do usuário é que a move, não os músculos – explicou. – Compensa um corpo menor.

– Mas o que está acontecendo aqui?! – explodi, num misto de revolta e assombro.

– Você foi forçosamente integrado ao maior segredo de Shén-Li. Um segredo perigoso. Um segredo que a manteve segura por dezessete anos.

– E o segredo é que você é Lord Blunt?! – urrei.

– Shh... ainda há sentinelas por aí – disse ele, e vi meu pai patético emergir outra vez. Mas não ousei chamá-lo assim de novo. – O segredo é que Lord Blunt se aposentou.

– Aposentou?!

– É complicado e... na verdade, é simples – falou, olhando para a imagem de minha mãe. – Eu não podia simplesmente desaparecer, eu mostrei a fraquesa de Shén-li, outros continuariam de onde eu parei. Já tinha a persona de Estebán. Você não imagina como é fácil saber o número de soldados e quanto uma cidade aguenta um cerco quando se administra recibos. Eu sabia derrubar muralhas antigas só dividindo as pedras adquiridas pela área onde seriam aplicadas.

– Então você deixava sua armadura se passando por Lord Blunt e ia roubar papelada para saber como derrubar a cidade?!

– Não é só isso – continuou. – Quando se é baixo como eu e se veste fora de moda, as pessoas o ignoram e acham que podem pisar em você. Eu tinha um roteiro: colocava-me como vítima nas cidades, andando descuidado por ruas perigosas, para medir o tempo de reação da Guarda e a moral do povo. Com o tempo, cada insulto que recebi ficou. Eu odiava as cidades que espionava. Isso justificava minha guerra, alimentava minha violência. Mas tudo mudou quando Estebán conheceu sua mãe.

– No campo de batalha?

– Bem antes disso – respondeu. – Ela me salvou quando a Guarda não ligou. Estavam preocupados demais com Lord Blunt para pensar nos pequenos problemas. Mas ela não. Ela sabia o que era coragem. E o que o medo fazia...

– Chega! Pode parar agora, o roteiro é manjado! – protestei. – Já seria desagradável ouvir esse discurso do "poder do amor" vindo do meu pai arquivista. Não vou escutar isso do homem que mais temi na história.

– CALE A BOCA, MOLEQUE!

Era Lord Blunt falando. Não meu pai arquivista. O homem que poderia ter o reino a seus pés. Eu me calei.

– Quer saber o que é o mal? – confesso que estava horrorizado e, ao mesmo tempo, fascinado, ouvindo o discurso do vilão final de todas as histórias. – É quando você não reconhece mais a virtude. Nem em si, nem em seus capangas, nem em seus adversários. Eu aceitei a escuridão dentro de mim. Julguei o mundo por ela, quando os ditos heróis eram arrogantes, covardes, desrespeitosos... ou burros demais para admitir a derrota.

Com um gesto de quem comandava exércitos, ele me fez recuar. Era o mesmo homem carregado de papéis que ouvia calado os insultos passivo-agressivos de Capitão Khao?

– Sua mãe poderia ter se escondido, como covarde – continuou, desfazendo gradualmente as sombras do alter ego. – Poderia fugir. Eu tinha muito o que fazer antes de ir atrás de uma testemunha do meu triunfo. Poderia também me enfrentar por glória ou oportunismo. E teria encontrado mais do que esperava. Já aconteceu. Um gordo lançou-se sobre mim gritando que tinha ao seu lado “o poder de deus e do animê”, antes que eu o cortasse.

Ela sabia quem eu era. Sabia que não podia vencer. Mas não podia recuar.


Um barulho. Cavalos apressados. A Nova Guarda deve ter percebido que Ga-shi se expôs de propósito para deixar o castelo desguarnecido. Esperávamos que voltassem pela manhã, mas ainda estava escuro. Ergui-me e olhei pelo vitral a agitação. Os sentinelas logo abririam os portões.

De repente, meu pai me esbofeteou. Costas da mão direto no olho e supercílio.

– Ouch! O que foi isso?!

Escudeiro Bentho flagrou três criminosos, dentre eles Ga-shi, tenente de Lord Blunt, tentando invadir o palácio. Heroicamente salvou a fortaleza, sua guarnição e seu patético pai, feito refém – disse Estebán, arrancando botões do colarinho e bagunçando o cabelo. – Mas você não venceria um inimigo como Ga-shi sem sofrer ferimentos, não é?

– Para que tudo isso?! – resmunguei. – Mamãe e os capitães sabem de você.

- Mas os cadetes não. - pontua meu pai. - Meu acordo com o Conselho Regente era que jamais pisaria fora deste castelo. E jamais empunharia a espada outra vez. O que eu lhe falei serão os fatos. Você será o herói da vez. Eu lido com Khao e os outros.

- Isso não vai dar certo, pai...

- Acredito que dará... - Esteban senta-se à mesa, incorporando o homem amedrontado após uma situação de estresse. - Porque a alternativa é... Eu me tornar Lord Blunt outra vez...

A Verdade