Flashback — Três anos antes
Lady Àquela descia da carruagem. Jamais estivera tão longe de Shén-li. Era um dia lúgubre na fronteira de Yalatanil, residência final de Myrlen, o Mago, onde se dava um funeral. O outrora pacífico Solar agora fervilhava com criaturas exóticas, seres de essência mágica, líderes de estado, aliados e inimigos do maior mago daquela era, todos em uma civilidade impressionante. A arqueira tinha uma missão ali, justamente porque Estebán não podia deixar a Torre Negra.
— Àquela, por Shén-li — explicou ela a uma criatura cinzenta e sem olhos que atuava como mestra de cerimônias.
— O nome que consta aqui é de Mestre Mentor Achima de Shén-li.
— Eu e Achima trocamos, não deu tempo de reenviar. Mas eu sou...
— Sim, ela é! Só pode ser a Dama do Arco!
A voz de trovão, completamente fora do tom de velório, pertencia a um homem enorme de mais de dois metros. Sob uma refinada manta cerimonial, presa por uma ombreira adornada com um bode de chifres de prata, revelava-se um homem de cinquenta anos, rosto de bronze marcado por uma vida inteira de batalhas. A flâmula usada como prendedor trazia o símbolo litúrgico de Cartallas. Àquela ficou assombrada; o porte dele fazia até Khao parecer mediano.
— O... — a arqueira apontou para a flâmula. — O Monsenhor da Igreja de Cartallas! É uma honra, Santidade!
— "Santidade", "Monsenhor"... — ele riu com divertimento. — Pode me chamar de...
Um discreto pigarro vindo da sombra do gigante o censurou.
— Eh... "Monsenhor" basta — corrigiu-se o clérigo. — Quem está controlando este velho turrão é a verdadeira líder da Igreja... Senhorita Amellie Silverleaf de Yalatanil.
Àquela esforçou-se para esconder o choque. Um campeão lendário, creditado com a morte de um titã, parecia o segundo-em-comando de uma jovem de cabelos cacheados que não devia ter mais de catorze anos. Ainda assim, a elegância e postura da jovem transcendiam uma alma antiga. Ela deu um passo à frente, vestindo um luto impecável.
— Encantada, Monsenhor... Senhorita... Sinto que seja em termos tão tristes.
— Entre Lord Blunt que a senhora derrubou, a doença do Grande Myrlen e Cyrak morto... — disse o Monsenhor, aparentemente não abalado. — O mundo está de cabeça para baixo. Os Exemplares se tornaram ainda mais raros.
— Sua Eminência refere-se ao peso institucional, Lady Àquela — interveio Amellie, com a voz perfeitamente modulada para um jardim fúnebre. — A perda de Mestre Myrlen é uma ferida na própria estrutura do reino. Embora controverso, era claramente menos destrutivo que Cyrak ou Lord Blunt.
Àquela inclinou a cabeça, discretamente impressionada.
— Agradeço, Senhorita Silverleaf. Vim prestar condolências ao legado de Myrlen... mas meu verdadeiro propósito veste cores mais escuras. Preciso encontrar Madame Morgan.
— Aquela velha azeda? — O Monsenhor Capri bufou. — Amellie está atrás dela também. Está trancada no Scriptório desde o Alvorecer.
— O Monsenhor quis dizer — corrigiu Amellie com um sorriso impecável — que já nos inteiramos que Madame Morgan encontra-se em compreensível estado de recolhimento burocrático.
— Escriba e "tradutora". — Resmunga o clérigo.
— Meus interesses com a Madame são particulares — respondeu Àquela. — Não pretendo me demorar em partilhas de bens.
Amellie estudou discretamente a guerreira, percebendo que aquela missão pertencia, na verdade, ao homem confinado na Torre Negra. O envelope mal disfarçado, o linguajar evasivo. Mas talvez com "platéia", Morgan a quem não via fazia décadas fosse mais receptiva.
Uma cortina moveu-se discretamente no segundo andar. Ninguém percebeu.
— Posso acompanhá-la... — Amellie decide enfim. — Mas não é seguro deixar o Monsenhor sem supervisão.
— Eu não posso ficar bêbado! Muito menos com bebidas élficas! — Resmungou — Vou cuidar de... coisas de religião com a Revoada!
Enquanto conduzia Àquela pelo Solar em direção ao Scriptório, Amellie ajeitou discretamente o broche de luto preso ao peito.
No segundo andar, uma pesada janela abriu apenas uma pequena fresta.
Madame Morgan observava o primeiro encontro entre Àquela e Amellie. O segundo, seria dali a um ano, no Castelo Negro. O terceiro, nos corredores da Montanha Morta, se ignorar um vislumbre em Hálcora. E assim sucessivamente... até que um dia a arqueira estivesse às lágrimas.
Curiosamente, Morgan não conseguia enxergar qual das duas abriria a porta primeiro.
Precisava que fosse a Barda.
Caso contrário... a porta jamais se abriria. E a Mansão permaneceria inacessível.
Foi Amellie.
O Presente
No Vazio entre as dimensões.
O foyer da mansão era amplo o suficiente para parecer um pequeno salão de baile, dominado por uma escadaria monumental que se dividia em duas curvas elegantes antes de alcançar a galeria do segundo piso. Sob a estrutura de madeira, junto a uma lareira apagada, um conjunto de poltronas antigas cercava uma pequena mesa de chá.
Madame Morgan aguardava ali, como se estivesse esperando visitas. Trajando seu habitual véu negro e com o chá recém-servido, ela não demonstrava a menor surpresa.
— Madame Morgan? — Amellie aproximou-se, enquanto eu e Xitarro permanecíamos um passo atrás. — Há quanto tempo está aqui?
A senhora levou a xícara aos lábios, saboreou o líquido lentamente e respondeu:
— Três anos.
O silêncio foi quebrado apenas pelo delicado toque da porcelana sobre o pires.
— Agradeço o seu egoísmo.
Amellie arqueou uma sobrancelha.
— Perdão?
— Se tivesse deixado a mãe de Bentho entrar primeiro... isto nunca teria funcionado.
Do bolso do vestido, Morgan retirou uma antiga chave de metal vermelho.
— Você... guardou a chave?
— Alguém precisava guardar. A sua estaria onde? No bolso direito do cadáver de Cyrak?
Olhei para a chave, depois para Amellie.
— Espera... então... quem é a dona desta casa?
— Eu tenho uma chave. — Morgan ergueu uma sobrancelha para mim. — Ela tem?
— Tecnicamente... — A barda hesita em admitir. — Não.
— Então continuo sendo eu. — A anciã se recosta na poltrona.
Amellie respirou fundo e cutucou meu ombro.
— Bentho.
— Sim?
— Faça alguma coisa.
— Como o quê? — Dou com os ombros. — Não sou um advogado!
— Seja um Senhor do Sombrio. — Ela resmunga.
— Eu pensei que isso envolvesse derrubar governos... Combater a Nova Guarda... conquistar fortalezas... não despejar vovozinhas da própria sala.
— Posso fazer uma pergunta? — perguntou Xitarro.
— Faça. — A anciã autoriza.
— Estou com sede. Poderia...
Morgan suspirou.
— Não devia ter pedido isso.
— Chá? — estranhei.
— ...Hospitalidade.
As portas duplas abriram-se imediatamente.
Três jovens espectrais surgiram flutuando com bandejas de prata. Eram belas figuras etéreas... mas "o figurino" consistia apenas em longos véus translúcidos à cintura, que faziam pouquíssimo para esconder qualquer coisa. Especialmente no... Eh, Dorso.
Eu e Xitarro viramos a cabeça respeitosamente ao mesmo tempo para a parede oposta.
— Eu não estou olhando! — Eu afirmo.
— Nem eu! Meus olhos estão fechados! — O Catfolk me acompanha.
Apressadamente, Amellie levou a mão ao rosto, profundamente constrangida. Ergueu um dedo na direção delas, e a névoa que compunha os véus subiu até o pescoço das espectras, tornando-se muito mais opaca. Ainda era uma veste escandaloza, mas... Bem, PG 13.
— Desculpem... é o melhor que posso fazer. Elas "vem com a Casa".
As três espectras fizeram uma reverência elegante antes de servir a mesa normalmente mais um jogo de bebidas.
— Por isso preparo meu próprio chá. — Madame Morgan assistiu a toda a cena sem alterar a expressão. — Não gosto de me sentir a matrona de um bordel assombrado.
Xitarro abriu um olho, aceitou uma xícara e tomou um gole generoso. Estalou a língua. Olhou para o fundo da xícara envergonhado.
— Não sei por quê... mas estou com saudades da Hon-sa.
— Bem... — aproximei-me de Madame Morgan. — A senhora tem a chave... mas Amellie obviamente controla a casa. Ainda não entendi a relação entre vocês duas, mas acho que... em termos de propriedade... nós temos prioridade.
Morgan me encarou como um professor que acabara de ouvir um aluno explicar por que dois mais dois eram cinco.
— Eu sei que vou morrer de velhice, mas você está se esforçando para adiantar esse encontro, filho de Blunt.
Ela levou a mão ao bolso sem qualquer pressa, e encarando Xitarro, como se soubesse algo que ele não falou ... Ainda.
— Roubar uma Oráculo, esse é seu plano? — resmungou. — Que ideia extraordinariamente estúpida.
Então estendeu a chave vermelha na minha direção.
— Tome. Já que querem tanto...
Eu hesitei. Estava fácil demais.
A velha abriu um sorriso de canto, daqueles que só existem para anunciar desgraças.
— Vá em frente. — Ela provoca.
Olhei para Amellie. Ela também parecia desconfortável.
Morgan deu um muxoxo.
— Finalmente alguém nesta sala pensa antes de pegar objetos mágicos de uma bruxa velha. — A chave permaneceu imóvel entre seus dedos. — Pode pegar, sem ressentimentos!
Fiz menção de estender a mão. Assim que a recolhi, ela disse:
— Feliz aniversário, Bentho d'Áquela... Mas a chave... Não vai ajudar vocês.


















