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9 de outubro de 2026

EDGELORD - Cap. FINAL - Arco da Perseverança

prólogo:

Cinco soldados marchavam a passos largos pela trilha irregular do povoado de Bearlord. A população inteira continuava trancada em casa; afinal, era feriado local e ninguém ali era doido de fazer qualquer trabalho útil antes do meio-dia. O destino do pequeno destacamento era a Igreja da Perseverança. Junto ao pátio, um cavaleiro anão, seu escudeiro, um cavalo e uma mula descansavam no poço, refrescando as montarias. No pórtico principal, a silhueta avantajada de um firbolg parecia conversar com alguém escondido na sombra da entrada.

— Rúnvald está no comando. Ótimo — comentou o cabo à frente do grupo, ajeitando o cinto de couro rasgado. — Ele é prático, não perde tempo com besteiras. Se o tal do Veneg estivesse no comando, seria duas horas de encheção de saco ...

— Seja rápido do mesmo jeito — o soldado ao lado resmungou, limpando o suor da testa. — É quase meio-dia. O Monsenhor ainda deve estar jogado em alguma sarjeta, mas pode voltar logo...

A chegada da patrulha a pé do palácio chamou a atenção dos acólitos. Embora, no papel, os Homens de Armas de Bearlord fossem a autoridade militar da Marca, a Cavalaria de Cartallas sempre os superou em números, recursos e, principalmente, no respeito do povo. Ainda assim, por pura cortesia institucional, aqueles sob a flâmula da Marquesa eram ouvidos. Claro que, assim que dobravam a esquina, eram devidamente esculhambados.

Os dois guardas da frente se destacaram, pisando firme para demonstrar uma autoridade que não sentiam. Só pararam quando Rúnvald deu um passo lento para o lado, desaparecendo.

Outro homem adiantou-se da sombra do pórtico, tomando o lugar do cavaleiro.

Ele trazia a insígnia de comando reluzindo no peito. E, mesmo que não a trouxesse, o tamanho do sujeito não deixava dúvidas. 

Era o Monsenhor. 
Sóbrio.


— V-Vossa Santidade! — engasgou o cabo, travando a marcha no ato. — Imaginávamos que o senhor estaria... ausente hoje.

— Fui forçado a encerrar minha folga algumas horas mais cedo, soldado — Capri, uma torre humana encarando os homens da flâmula do urso, respondeu com um desagrado quase palpável. — O que a Marquesa quer conosco a esta hora?

Os guardas se entreolharam. Aquele era, disparado, o pior cenário possível.

— Milhões de perdões, ó, Cicatriz do Titã — o segundo guarda interveio rápido, vendo o superior mudo de pavor. — Há algumas horas, a Marquesa sofreu um assalto em seu castelo... E este foi o único motivo da nossa vinda até aqui.

— Um assalto?!? — Capri ergueu uma sobrancelha. — Rogo a Cartallas que ela esteja bem de saúde...

— A Marquesa está física e moralmente abalada, e obviamente insatisfeita com a segurança.

— Eu não seria suspeito de ato tão vil, seria? — o Monsenhor cruzou os braços maciços.

Os dois hesitaram por um segundo longo demais.

— O senhor está acima de qualquer suspeita quanto ao caso — o cabo retomou a voz, pigarreando. — Mas um dos dois criminosos usou a identidade de uma antiga associada sua. A senhorita Amellie Silverleaf.

— Amellie nos deixou há pouco mais de dois anos. A Marquesa sabe disso — Capri pontuou, a voz calma. — Ela tinha quinze para dezesseis anos. É uma idade em que as pessoas mudam muito. A Marquesa tem certeza absoluta de que era ela?

— Certeza? Não, não tem ... — continuou o guarda, ajustando o elmo. — Mas, como usaram o nome dela, achamos que poderiam tentar contaminar a relação da sua estimada organização com o nosso comando... Já o segundo envolvido...

Enquanto falavam, os dois guardas esticavam o pescoço, tentando espiar pelas laterais do gigante.

Capri, sem pressa alguma, olhou para trás.

Rúnvald estava pacientemente ajustando um par de manoplas novinhas da Ordem nas mãos do Senhor Tamar — que até poucas horas atrás era o respeitado Chefe da Guarda de Bearlord. Agora, o homem ostentava no peitoral o emblema reluzente do Capítulo de Pallas.

Os guardas encararam a cena. Encararam Tamar. Encararam o Monsenhor.

Capri continuou sem esboçar absolutamente nenhuma reação.

— Eh... é a vida — o cabo resmungou, soltando um suspiro derrotado. — O senhor prefere que voltemos ao castelo dizendo que o senhor se recusa a devolver suspeitos, ou que o senhor não os viu e nós não temos motivo para duvidar da sua palavra?

— Vocês terão substancialmente menos problemas burocráticos com a segunda opção, creio eu — o Monsenhor comentou, ajeitando a túnica nos ombros. — Mais alguma coisa que minha ordem possa fazer pela Marca?

— Não, Monsenhor. Muito grato pelo seu tempo — o segundo guarda adiantou-se, agarrando o cotovelo do cabo e já o puxando para trás. — Nos vemos na missa amanhã cedo!

Os cinco deram meia-volta em sincronia e começaram a regressar pelo paralelepípedo, numa marcha acelerada que quase virou corrida.




O Monsenhor

-__- Okey... eu já estava razoavelmente acostumado a ficar amarrado, e algo no solo sagrado impediu Gladys de vir me libertar desta vez. Mas a Amellie estava visivelmente furiosa. E Xitarro... bom, estava sendo o Xitarro, tentando usar a cauda para coçar atrás da orelha.

Éramos os "convidados de honra" nos aposentos pessoais do Monsenhor. Após meia hora nos deixando a pão e água para "pensarmos no que tínhamos feito", ele finalmente retornou. Desceu a escadaria vestindo a indumentária completa de líder da Igreja. Ele se deteve no topo dos degraus — como se já não fosse terrivelmente mais alto do que todos nós juntos — e declamou, a voz ressoando nas vigas do teto:

— Então o Herdeiro de Lord Blunt, fugitivo de Shén-Li e portador da Gladius Aeternum, cruzou a Montanha Morta e vem à MINHA igreja para usar o MEU portal místico para restaurar a Vigília Sombria?!? — proclamou ele, apontando o dedo na minha direção.

— Como você... — Amellie arregalou os olhos, surpresa. Em seguida, virou-se para mim com um olhar assassino. — Bentho... eu mandei você não falar nada com NINGUÉM até eu retornar!

— Não falar com os Cavaleiros! — protestei, tentando me ajeitar nas cordas. — Eu estava conversando só com o Xitarro! Aquele... aquele bêbado semiconsciente que arrastávamos estava ouvindo sem autorização! Acredite em mim, a gente até descascou ele por isso!

— Por Bophades, Bentho! — Amellie jogou a cabeça para trás. — Você fez um loredump melhor do que o meu! Não faltou detalhe nenhum!

— Olha quem fala! — Capri interrompeu do alto da escada, cruzando os braços gigantescos. — Você ASSALTOU a Marquesa de Bearlord?!?

— Assaltou?!? — eu me espantei, encarando a barda. — E aquele papo de "fazer emendas" e "fazer valer o que jurou a Madame Morgan"?

— Eu JURO que tentei, mas aquela dondoca é intratável! — Amellie baixou a cabeça, o tom murchando. Em seguida, voltou a encarar o Monsenhor. — E do que VOCÊ, dentre todos os homens do continente, está reclamando, Capri? Há três anos você berrava que queria "esganar aquela franga"!

— Eu queria esganar ela ONTEM! mas não o FIZ! — bufou o Monsenhor, espalmando o corrimão da escadaria. — e EU sou o porra-louca da dupla! Você é quem deveria ser a metade estável! Como me faz uma idiotice dessas?"? O que foi que você aprontou lá dentro?

— Eu explodi a esquife de Cyrak na cara dela.

Um silêncio absoluto e constrangedor caiu sobre a sacristia. O poeirão da sala até parecia ter parado no ar.

— Isso... — Capri começou, massageando o queixo. — Isso é muito melhor do que esganar...

— Eu não fiz nada de errado... — Xitarro arriscou do meu lado, com a voz bem baixinha.

— Mesmo?!? — Capri o encarou com pura ironia. — Sabia que a criminalidade, tanto nos povoados quanto nos ermos, subiu quatro mil por cento nos últimos cinco dias devido ao suposto retorno de *Don-o-Ron, o Deus Guaxinim dos Ladrões*? Todos citando um certo catfolk chamado "Xitarro" como o profeta da causa? E pelo que entendi, você é um ... pirata náufrago ou... admito que eu estava muito bêbado na sua parte do relato.

— Eles não são piratas, Capri! — Amellie saiu em nossa defesa. — Só pegamos uma carona com o Jackie há algumas semanas.

— O Capitão Lizzo? — Capri espantou-se, relaxando a postura por um segundo. — Como aquele garoto está?

— Muito bem... — Amellie sorriu, nostálgica. — Ah, e eu finalmente conheci a tal imediata dele... Mas não gostei dela.

Deixei um riso abafado escapar. Os dois ficaram em silêncio um segundo, me encarando.

— Achou algo engraçado, Filho de Blunt? — Capri rosnou, cravando os olhos em mim.

— A dinâmica de vocês dois... — confessei, olhando do Monsenhor para a Amellie. — É... muito sincera. Eu realmente não esperava nada disso.

Capri deu outra bufada, tentando parecer contrariado, mas já estava completamente desguardado.

— Vou libertar vocês três agora, e manter o santuário concedido. — resmungou, por fim, descendo o restante dos degraus. — Amellie, o seu antigo quarto ficou para o Rúnvald. Vai se virar com as estadias temporárias.

— N-nós vamos poder usar o portal? — perguntei, sentindo a esperança acender.

— De forma alguma! — Capri retrucou, sem hesitar.

— Monsenhor... um amigo precisa disso! — protestei, inclinando o corpo enquanto ele começava a soltar os nós das minhas cordas. — Ele salvou a minha vida duas vezes... Eu devo essa a ele.

Capri terminou de libertar a Amellie e caminhou na minha direção, ajeitando as placas pesadas dos ombros.

— Deixa eu ver as joias, então.

— Estão com o Xitarro.

O Monsenhor pegou a bolsa de armazenamento — detendo-se por um segundo ao constatar que o garoto-gato já tinha tirado as próprias mãos das amarras há tempos, embora preferisse não dizer nada — e virou o conteúdo sobre a mesa de madeira rústica, Olhando com cuidado enquanto espalhava nosso saque com um estrondo.

— Opalas e diamantes negros. Isso é o que alimenta a matriz do portal... deve dar para pelo menos dois usos. Ida e volta — disse ele, separando as pedras reluzentes com os dedos calosos. — Os diamantes regulares são a doação de vocês à igreja.

— DOAÇÃO?!? — nós três protestamos em uníssono.

— Muito provavelmente vou ter que consumir essas pedras para trazer vocês de volta à vida! "Limbo das Sombras"... — resmungou o Monsenhor para si mesmo, cerrando os olhos. — E as safiras nós vamos mandar para o palácio, para a Marquesa esquecer de vez os eventos desta manhã...

— Mas... isso é o NOSSO loot! — reclamei, esfregando os pulsos vermelhos.

— Masmorra da Montanha Morta? Erguida por Lord Blunt? — Capri comentou, sem nem olhar para mim.

— Sim... Então, tecnicamente é antecipação de herança!

— Lord Blunt "tecnicamente" não seria um nobre exilado e proscrito, cujos bens pertencem por direito ao Estado de Shén-Li? — ele completou.

Nenhum de nós respondeu.

— Shén-Li, a quem estamos tratando há anos como aliados comerciais e militares? — continuou o Monsenhor, empurrando as gemas para o canto da mesa. — A meu ver, esse tesouro é tão ilegal quanto se vocês tivessem tirado do bolso do próprio Aetíades. Não quero as moedas com cunhagem oficial para não me enrolar mais do que já estou. Podem ficar com o que restou.

— Desde quando você se tornou esse "personagem político"? — Amellie observou, tombando a cabeça para o lado.

— Necessidade — o Monsenhor colocou o que restou das moedas e gemas de volta na bolsa e a atirou de volta para Xitarro. — Afinal... Você foi embora, Amellie.

A barda baixou a cabeça, o sorriso irônico desaparecendo por um instante.

O som grave de um sino ressoou do lado de fora, ecoando pelas paredes da catedral e indicando o meio-dia.

— "Obrigado, Ênia, sua vaca!" — Capri murmura, parte como prece, parte como resmungo insatisfeito. — Podemos almoçar agora. No fim da tarde o portal estará pronto.

Cardullion


— Uma bíblia de Cartallas... — Rúnvald entregou o livro encadernado em couro surrado a Xitarro. — Espero que o seu interesse na nossa igreja não seja só para ter passe livre para falar palavrão.

— Eu passei cinco anos... dos dez aos quinze, preso em uma ilha de quinze metros quadrados — Xitarro respondeu, folheando as páginas com cuidado para não enganchar as garras no papel antigo.

— Hmm... — O firbolg coçou o cavanhaque grisalho, emitindo um som grave do fundo do peito. — É... você se qualifica no requisito "Perseverança".

— O que exatamente significa a estampa desse bode no fecho? Esse "Capítulo de Cardullion"? — perguntei, apontando para as garras de ferro que prendiam o tomo.

Rúnvald soltou uma risada curta, que mais parecia um abalo sísmico no peito.

— Significa o braço rústico da fé, garoto. Os cavaleiros ligados ao Capítulo de Cardullion lida diretamente com os bárbaros das montanhas. Você queria o quê? Que eles usassem rapé e fizessem reverência de mesura? Se um cavaleiro tentar aplicar o dogma refinado de uma catedral em cima de um guerreiro tribal que perdeu toda a sua linhagem, ele leva um machado na testa antes de terminar a bênção.

Ele apontou para a própria armadura e completou:

— Eles são rústicos por necessidade, mas nunca desrespeitosos. Protegem as estradas, ampliam o alcance da igreja e ajudam esse povo a reencontrar o próprio destino. Para você entender a divisão: Eu sou ligado ao Capítulo de Pallas que é a nossa cavalaria regular; o Capítulo de Cartallas as extensões coordenadas pelo Monsenhor pessoalmente; e o de Cardullion são cavaleiros andantes e é a linha de frente na poeira.

— Faz sentido — comentou Xitarro, sem tirar os olhos do papel. — A rusticidade gera confiança.

— É mais do que isso — Rúnvald ficou sério, cruzando os braços gigantescos. — É reparação. O Império e a guerra de Bearlord quase varreram a etnia do mapa. O Monsenhor levantou esta igreja e o Capítulo de Cardullion para garantir que os sobreviventes e seus descendentes tenham para onde voltar, com cavaleiros dispostos a escoltá-los, erguer abrigo e falar a língua deles sem frescura diplomática. Se para ajudar esse povo a regressar à sua terra nós tivermos que ser meio rudes e comer poeira na estrada, que seja. Cartallas não se importa com a compostura das suas botas, mas com a firmeza do seu passo.

Ele balançou a cabeça, encarando o pátio silencioso onde a poeira da luta entre Khao e Capri ainda baixava. Enquanto o firbolg absorvia o peso da própria fala, inclinei meu corpo contra um pilar de pedra e puxei um palito do bolso.

— É... justo — comecei, limpando um dente com a ponta do palito —, mas olhando pelo lado prático do nosso lado da moeda... a má notícia é que, se surgirem esses tais "Máscaras de Don-o-Ron" em todo o lugar, eles vão suplantar os "Corvos de Morval" em questão de semanas em Shén-li. Isso significa concorrência mais competente para o nosso empreendimento, mais trabalho para a Igreja e Bearlord.

— E qual é a boa notícia? — Xitarro estranhou, erguendo os olhos do livro.

— A boa notícia: agora despistamos os meus pais e o Capitão Khao não está mais caçando a gente. Podemos finalmente voltar para Shén-Li assim que restaurarmos Virgílio na Terra das Somb...

— *Limbo* das Sombras — Rúnvald corrigiu, sem nem pestanejar. — Você sequer sabe o que é esse lugar, garoto?

— Hmm... O meu pai seguiu uma pista no começo da carreira dele para forjar a armadura original lá — puxei da memória, tentando lembrar das histórias vagas da infância. — A Amellie fala que ele até fez um amigo naquele lugar, o que eu acho bem difícil de crer... Não ter gente lá, mas meu pai fazer amigos.

— O Limbo das Sombras é um subdomínio do próprio Submundo — explicou o firbolg, a voz descendo uma oitava, como o som de cascalho rolando. — Pense nele como o domínio do vazio, uma passagem obrigatória para a terra dos mortos. Aqueles que têm a passagem livre sob a graça da Dama-Doji (a Garça, Deusa da Velhice e da Morte Natural) são os poucos felizardos que cruzam direto. Mas todas as outras formas de morte... as mortes de merda, violentas, injustas, ou aquelas em que a vítima deixou assuntos inacabados... todas deixam sua marca sombria por lá.

Ele fez uma pausa.

— A vida não deveria existir naquele lugar.

— A própria Gladys não sugeriu que era mais fácil chegar lá pelo Submundo do que tentar ir direto? — Xitarro relembrou, erguendo a cabeça do livro.

— Bem, o meu pai conseguiu... e ele nem era o todo-poderoso "Lord Blunt" na época... — argumentei.

— Mas ele já era um líder de Horda, e escolheu ir sozinho — Rúnvald insistiu, encarando-me com seus olhos calmos e profundos. — Talvez esse seja o seu verdadeiro talento dos Blunt... A sua forma de sobreviver. Fazendo cagadas incompreensíveis e pegando a Morte de surpresa.


O Gigante


O cheiro denso de incenso de resina misturado à umidade da pedra antiga preenchia o pequeno cubículo. Amellie estava sentada atrás da grade de madeira, o corpo tenso, pronta para disparar o cinismo habitual que sempre lhe serviu de escudo. Do outro lado da divisória, o silêncio de Capri era vasto como uma montanha. Amellie mudou muito desde que foi a Shén-li. E Capri sentia que algo faltava nela. E Amellie dentre tantas emendas que fez, jamais fez uma última.

— As outras igrejas usam isso como desculpa para roubar segredos de devotos e vendê-los por influência em cortes elegantes... Você sabe, não sabe? — Amellie perguntou, soltando um riso seco que morreu antes de alcançar seus olhos.

— Eu sou um péssimo sacerdote — a voz do Monsenhor ressoou do outro lado, grave e profunda, feito o rosnar de placas tectônicas se acomodando. — Não saberia o que fazer com um segredo nem se ele valesse moedas de ouro. E você tem uma língua de prata... poderia mentir o quanto quisesse e eu acreditaria. Só... fale o que precisa falar.

Amellie mordeu o lábio inferior até sentir o gosto metálico. A máscara de barda e a persona de Janete Quá começavam a estilhaçar.

— Eu sou um gigante — ela começou, a voz oscilando.

— Você já me contou histórias bem melhores que essa — interrompeu Capri, sem ponta de malícia, soltando uma risada abafada achando que ouvia apenas mais uma das baboseiras da amiga.

— Você me mandou confessar, não mandou?! Agora escuta! — Amellie explodiu em um sussurro furioso, encostando a testa na grade. — Eu sou colossalmente grande. Do tipo... em que vocês, mortais, são menos que formigas. Ou ao menos eu era. Eu pisava em vocês sem nem gastar pensamento. Gigantes não devem satisfação a insetos.

Uma lágrima quente escorreu por sua bochecha, mas ela a enxugou com ignorância, escondendo o rosto na penumbra. Na mente, flashes de um passado antigo voltavam: de quando enxergava os bárbaros como brutos de mil metros que podia manipular apenas amarrando uma corda no pescoço de um bode.

— E sabe o que isso me tornou? Sozinha. O tempo todo — a voz dela ruiu. — Todo mundo se aproxima porque o gigante é grandioso, mas ninguém aguenta olhar para o quanto ele é terrível. Sem amigos de verdade. Amantes ocasionais que viraram inimigos amargurados... Tribos inteiras que eu joguei umas contra as outras como se fossem peças de um jogo fútil. Até a morte... até a morte foi só um inconveniente técnico. A morte também era uma formiguinha pra mim.

Do outro lado, o som do riso de Capri sumiu. Ele fechou o cenho na escuridão do cubículo, em absoluto e pesado silêncio, absorvendo a assombrosa confissão que se desenrolava.

Amellie agora chorava sem contenção, descarregando o peso e a culpa de décadas de arrogância em um único e convulsivo desabafo.

— Mas um dia... eu encolhi — ela soluçou, abraçando o Alaúde de Mogno contra o peito como se fosse um escudo. — E agora eu vejo o mundo pela altura das formigas. Eu vejo as marcas do pé do gigante por toda parte. Vejo o quanto as pessoas o odiavam. Elas me contam sobre os crimes que esse gigante cometeu, sem saber que fui eu quem assistiu a tudo lá do alto, cabeça além das nuvens... E agora qualquer um poderia me pisar do mesmo jeito que eu pisava os outros. Eu tenho medo, Capri. Eu deveria ser pisada. Uma parte de mim queria continuar sendo o gigante — não para pisar nos outros, mas para conseguir não me importar... Só que agora eu me importo. Eu me importo com tudo.

O som da madeira pesada rangendo ecoou pela sacristia. Capri destravou a porta do confessionário e se colocou de pé. Ele era uma figura monumental, um colosso de carne e fardos. Ele abriu a portinhola lateral e olhou para baixo.

Lá estava Amellie. Pequena, encolhida, com o rosto encharcado de lágrimas.

— Eu adoraria esmagar a cabeça desse gigante... — disse Capri. Havia uma verdade brutal e honesta em seu tom. — Eu perdi irmãos de arma para esse mesmo gigante. Mas eu também esmaguei formigas que carregavam o meu próprio sangue nestas montanhas quando a fúria cega me levava. Sei bem o quão enevoante é ser gigante!

O Monsenhor estendeu uma mão gigantesca e calejada. Não para punir, mas para acolher.

— A Perseverança que eu aprendi a pregar não é sobre fingir que o gigante nunca existiu. É sobre aceitar que o gigante morreu e aprender a andar com o que sobrou dele. Aceitar e seguir em frente.

Amellie soltou um arfar profundo, o corpo tremendo enquanto sentia a gravidade do segredo finalmente se dissipar no ar, dissolvido naquela metáfora. Monsenhor achava que falava de algo, ou compreendeu tudo? Quem liga?

— "Eu sou um gigante"... — Capri deu um sorriso terno, quase paternal, voltando a fechar a portinhola. — Você continua sendo a melhor contadora de histórias que eu conheço, garota.

Amellie enxugou os olhos vivazes com a manga do vestido, soltando um riso fraco entre os últimos soluços.

— E você? Quando foi que virou um mentiroso tão talentoso?

Capri piscou, genuinamente confuso.

— Como é? Mentiroso EU?!?

— Eu quase acreditei quando você disse que era um péssimo sacerdote.

O silêncio voltou a tomar conta do confessionário, mas desta vez não havia peso. Pela primeira vez em duas vidas completas, a Primeira Escriba da história do Bode havia escrito o capítulo mais difícil e aterrorizante de sua existência: a sua própria absolvição.

Epílogo

— Eu preferia o outro alaúde... — Xitarro olhava com desdém para o Alaúde de Mogno. — Esse cheira a queimado... e morte.

— É menos charmoso, mas mais elegante... e absurdamente mais poderoso! — Amellie insistiu, abraçando o instrumento contra o peito com um brilho renovado nos olhos.

— Você tem certeza de que esse tal "Shadowlimbo" tem gravidade? — perguntei, ajeitando as alças da bolsa. — Depois do que passamos na mansão, perdendo ar, gravidade e som... Será que o Monsenhor não empresta a Avalanch...

— Não! — Capri urrou, antes mesmo que eu terminasse a palavra.

— [NÃO!] — Gladys ressoou na minha mente quase simultaneamente, vibrando a bainha em um acesso de puro ciúme.

Estávamos no salão principal de missas, diante de um arco macabro esculpido em ossos de marfim. Um círculo de gemas negras distribuído pelo Monsenhor queimava em chamas silenciosas, soltando uma fumaça densa que se transformava em uma névoa azulada. Lentamente, o tecido do espaço se rasgava, revelando a passagem.

— O portal fica aberto por uma hora — explicou o Monsenhor, observando o vórtice se firmar. — Como o solo do meu lado é sagrado, as chances de alguma aberração atravessar de lá para cá são baixas... Mas eu e os cavaleiros ficaremos a postos.

— Mesmo se acharmos a forja imediatamente, consertar uma armadura e restaurar a Vigília Sombria leva muito mais do que uma hora — relembrei. — Talvez dias, semanas. Pode fechar quando nós passarmos.

— Quando estivermos prontos... — Amellie meteu a mão no bolso, tirando um par de esferas mensageiras de cristal e entregando uma a Capri. — Avisamos por isso aqui. É só você reabrir o portal. Deixamos mais opalas com você.

— A missa de amanhã não vai ser bem agradável com esse trambolho atrás de meu púlpito... — Capri resmungou irônico, cruzando os braços gigantescos. — Mas desmontar e remontar pode ser um problema em caso de emergência.

— Monsenhor... — dei um passo à frente. — Eu realmente não consigo encontrar palavras para agradecer ao senhor por tudo... Pelo que fez com o Khao, por nos ajudar com o Virgílio...

Capri se agachou devagar para alinhar seu rosto colossal à altura dos meus olhos. Ele colocou uma mão sábia, pesada e serena sobre o meu ombro e aproximou a boca da minha orelha.

— Se você magoar a Amellie... — ele sussurrou, a voz caindo em um tom tão grave que fez meus dentes vibrarem. — Eu vou encontrar você e atirá-lo do topo de um penhasco. Não importa quem sejam seus pais.

Ele deu dois "tapinhas amigáveis" no meu ombro para disfarçar a ameaça, quase me enterrando alguns centímetros no piso de pedra.

— Próxima parada... — Xitarro sacou o bastão, girando-o no ar com um entusiasmo sanguinário. — Terra do Limbo das Sombras! E o que quer que esteja nos esperando lá dentro!

— Mas antes... — Amellie se adiantou, parando a um passo do portal e encarando Capri com um ar repleto de mistério. — Tenho uma última missão para você, Monsenhor.

— Eu já não estou fazendo muito, garota?

Amellie olhou para mim de canto de olho e sorriu.

— Preciso que você encontre três lendas da literatura... — comentou ela. — Inagami... Renai... e Omar Yarol. Você vai entender o porquê no caminho.

— Quer que eu mande um dos cavaleiros atrás de...

— Tem que ser você — Amellie insistiu, irredutível.

— Meu tempo de andarilho acabou! — ele bufou. — Eu sou a cabeça de toda...

— Se você não se divertir com o resultado, eu como meu alaúde! — Amellie sorriu, transbordando uma confiança enigmática.

— Se voltar com o alaúde velho, eu ajudo a temperar esse aí... — Xitarro concordo, soltando um riso gutural.

Capri resmungou e rolou os olhos, dando a entender, com a pior das más vontades, que faria o que foi pedido.

O arco de ossos estalou e o portal azulado se expandiu, largo o suficiente para a travessia. Chegara a hora de dar o passo em direção ao próximo capítulo.

Novos perigos.

Uma terra de mortos na borda do próprio Submundo... Quem será que iríamos encontrar por lá?



[HUMOR} A Grande Audiência ll





8 de outubro de 2026

[ITEM MÁGICO] O Cetro de Silas Riktus

 

Cetro de Silas Rictus

Item maravilhoso, Muito Raro (requer sintonia por um Bruxo da Grande Audiência)
 

O cetro é encimado por uma cabeça de caveira esculpida com traços macabros de bobo da corte, adornada com um barrete de jester desbotado em tons de roxo e bordô, repleto de pequenas sinetas oxidadas. A empunhadura e o eixo são feitos de ferro escuro e coroados por detalhes retorcidos em relevo que lembram espinhos e tramas teatrais decadentes. O objeto exala uma presença fria, teatral e implacável.

O Cetro não possui cargas convencionais. Ele acumula Aplausos, manifestações diretas da atenção da Grande Audiência.

Aplausos

O Cetro pode acumular até 6 Aplausos.

Sempre que uma criatura a até 18 metros do portador protagoniza um acontecimento digno da atenção da Grande Audiência, o Cetro recebe 1 Aplauso. Isso pode acontecer quando:

  • uma criatura obtém um 1 natural;
  • alguém realiza uma ação particularmente dramática, engenhosa ou espetacular;
  • alguém realiza um sacrifício significativo;
  • ocorre uma traição;
  • uma criatura escapa de uma situação aparentemente impossível;
  • uma revelação muda radicalmente a situação;
  • alguém realiza uma ação que altera decisivamente o curso da cena;
  • ocorre uma falha especialmente desastrosa ou memorável.

O Mestre determina quando um acontecimento merece um Aplauso.

O Som da Plateia e os Holofotes

Sempre que o Cetro recebe um Aplauso, duas manifestações ocorrem imediatamente:

  1. Manifestação Sonora: Ouvem-se aplausos sobrenaturais quando o acontecimento for favorável ou impressionante, ou um longo e desanimado "Ooooooh..." em casos de falha ou desastre. A origem do som nunca é evidente e pode ser ouvida a até 18 metros.
  2. Holofotes da Grande Audiência: Sob a condição "Observado", holofotes incorpóreos aparentemente sem origem iluminam e seguem o alvo implacavelmente.

A Plateia Pode Entregar o Espetáculo: Na rodada em que o Cetro recebe um Aplauso, qualquer criatura na cena que tente permanecer furtiva após o som ser produzido realiza seu teste de Furtividade com desvantagem. Isso inclui o próprio Silas — o cetro, afinal, não sabe se calar.

um inimigo sendo "Observado"

Papéis do Cetro

Silas pode gastar 2 Aplausos como uma Ação Bônus para atribuir Papéis a criaturas que possa ver a até 18 metros. Um Papel dura 1 minuto, até o portador encerrá-lo ou até que a criatura receba outro Papel. Uma criatura só pode possuir um Papel por vez.

🎭 O Sobrevivente (Aliado)

Quando seria reduzido a 0 PV, pode usar sua Reação para permanecer com 1 PV. O Papel termina e o alvo fica Observado até o início do próximo turno de Silas.
“A plateia quer saber se ele consegue sobreviver à próxima cena.”

🗡️ O Traidor (Aliado)

Causa 2d8 de dano psíquico adicional na primeira vez em que atingir um inimigo em cada turno. Tem vantagem na próxima jogada de ataque contra um ex-aliado, após o qual o Papel termina.
“A plateia adora quando alguém muda de lado.”

☠️ O Primeiro a Cair (Inimigo)

O alvo fica imediatamente Observado. Enquanto observado, não pode se beneficiar de Invisibilidade contra Silas, que conhece sua localização a até 18 metros, e o alvo não pode realizar Reações nem se esconder. Quando cair a 0 PV, o Papel termina e o Cetro ganha 1 Aplauso.
“Todo espetáculo precisa de uma primeira vítima.”

⭐ O Protagonista (Aliado)

Tem vantagem na primeira jogada de ataque em cada turno, mas ataques contra ele também têm vantagem. Quando obtém um acerto crítico, o Cetro ganha 1 Aplauso.
“A câmera está em você.”

🤡 O Alívio Cômico (Aliado)

Uma vez durante a duração, se falhar em uma jogada de ataque, teste de habilidade ou salvamento, pode repetir a jogada. Sucesso ou falha na segunda tentativa gera 1 Aplauso, e o Papel termina.
“Nem toda grande atuação precisa ser digna.”

Nova condição: Observado

Um holofote de luz nos céus ilumina continuamente o alvo.

Silas pode gastar 1 Aplauso para impor a condição Observado a uma criatura visível a até 18 metros. Silas só pode aplicar esta condição a um único alvo por vez, exceto quando imposta através do papel [O Primeiro a Cair] e [sobrevivente].

A criatura alvo faz um teste de resistência de Carisma (CD 18). Em caso de falha, fica afetada por 1 minuto, sofrendo os seguintes efeitos:

  • Não pode se beneficiar de Invisibilidade;
  • Silas (ou quem estiver em sintonia com o cajado) conhece sua localização exata enquanto estiver a até 18 metros;
  • Não pode realizar Reações;
  • Não pode se esconder.

A criatura pode repetir o teste no final de cada um de seus turnos, encerrando a condição em caso de sucesso.

5 de outubro de 2026

EDGELORD - Cap. VIII - Arco da Perseverança


— Okey, sabichões... vocês viram essa chegando? — desafiei.

— [Não!] — Gladys exasperou em minha mente. Parecia genuinamente sincera.

— Beeem... Eu falei que ele era maior que o Khao... — Xitarro insistiu ao meu lado, as orelhas caídas. — O que eles comem nessas montanhas para ficar tão grandes?

O Monsenhor não parou de provocar o Capitão Khao até ele libertar sua fúria. Depois, mandou uma revelação que o "tirou" por completo do estado colérico. Khao estava atordoado... EU estava atordoado!

— O que você pretende ganhar com essas MENTIRAS?!? — urrou Khao. — Um cão imperial de armadura se chamando de bárbaro?

— Oh, insultos típicos de uns vinte anos atrás! — Capri parecia se divertir. — Pedramonte, não? Quem era seu chefe na época? Khor ou Khul? Os dois estão à sua esquerda.

O Capitão virou-se na direção apontada.

Os fantasmas, ao pararem de voar agressivamente pelo pátio, começavam a ficar visíveis o suficiente para que suas feições fossem reconhecíveis. Eu não saberia dizer quem era quem... mas Khao olhava para eles com um assombro genuíno e doloroso.

— Tahak Sangue-Gélido... Zuhl... — Capri ia apontando à medida que Khao olhava e, aparentemente, reconhecia os guardiões do Monsenhor. — Nem preciso apresentar o grandalhão me olhando com cara de nojo. Teth-Ymosso... Rastreei minha genealogia até as Tribos Baixas... Esse aí deveria ser meu chefe.

— Você aprisionou os líderes dos Bárbaros?!? — Khao tentou deduzir, a voz falhando.

— Pelo contrário! Eles me mantêm na rédea curta! — o Monsenhor deu de ombros. — Eu até gosto. Cardullion não era muito de disciplina. Se dependesse dele, eu ainda estaria bebendo e arrumando brigas pelos vales. O homem que chamei de "pai" era um colono da primeira leva, anterior ao Senhor dos Ursos. Ou me roubou, ou me "adotou". Cresci entre crianças "humanas civilizadas" que, sempre que queriam me provocar, me comparavam aos bárbaros. Era o pior dos insultos no meu tempo... No fundo, acho que sempre soube o que eu era, mas não aceitava. Ao prestar armas a Bearlord, converti esse preconceito em força.

— "Oh, que historinha triste!" — rosnou Khao, num misto de deboche e fúria desesperada.

— Eu falei: não me desculpo pelo meu passado, por mais que não me orgulhe dele — Capri deu as costas ao Capitão. — Sou um homem prático. Conserto o que posso. E não posso trazer os mortos de volta... (hoje até posso, mas é um pesadelo logístico).

— Vai me dizer que PALLAS escolheu VOCÊ? — Khao urrava, ofendido até o fundo da alma. — Um assassino?

— Não por meu mérito... ou por minha força... e nem por meu "charme". Era a única opção — o Monsenhor desfez a insinuação com um aceno displicente. — Quando vivo, antes de Cyrak despertá-lo, Cardullion era um animal de sacrifício a Pallas. Trazia consigo as bênçãos que deveriam ser de todas as tribos. Mas quando Cardullion morreu e ascendeu, os bárbaros estavam mortos na guerra ou tinham fugido das montanhas. Eu era tudo o que restava com sangue nativo. Cardullion agiu como uma para-divindade no meu caminho clerical informal, nos meus primeiros atos.

Ele fez uma pausa, o olhar perdendo-se nas memórias da guerra.

— Quando o Império mostrou sua verdadeira face, Pallas já estava enfraquecido pela perda de devotos e foi aprisionado por Cahuthers. Meu grupo e eu só não fomos escravizados porque Cardullion era teimoso demais para ser dominado pelo "trono" da Princesa do Império. Mas o velho carneiro não ia durar muito. Cardullion devolveu a Pallas tudo o que havia resguardado em si... e dessa união, os dois se tornaram um.

Capri apontou para a fachada da catedral e para os seus entalhes em pedra. Realmente, ninguém sabia ao certo que espécie caprina Cartallas deveria ser. Chifres longos e pouco torcidos, porte próximo ao de um alce e uma pelagem única. Volta e meia, cabeças de carneiro ou bode representavam diferentes funções na burocracia da igreja, mas tudo convergia no Deus da Perseverança Encarnada.

Cartallas.

Eu vi lágrimas correrem pelos olhos do Capitão. O punho de pedra tremia... O conflito rasgava a sua mente.

Repentinamente, ele se ergueu e correu com o punho armado para golpear o Monsenhor por trás. Nenhum dos fantasmas interferiu. Mas a fúria, o ímpeto destrutivo original do Capitão... já não estavam mais lá.

Capri percebeu o movimento e reagiu sem pressa. Esquivou no último instante e apanhou o braço de concreto, envolvendo-o com o braço esquerdo enquanto erguia a mão direita.

— Como você falou há pouco? — Capri urrou, tanto pelo esforço de imobilizar a mão de Khao quanto pela concentração misteriosa. Seus olhos ganharam uma forma estranha... sua íris ficou horizontal, como a de um bode. — "... arranco o braço inteiro?"

Parecia apenas um tapa, mas uma oscilação de energia mística e pulsante irradiou do braço do Capitão. Por um instante, pudemos ver o Punho Indestrutível ficar translúcido.

Víamos os ossos por baixo dele. Depois, fibras de tendões e ligamentos. Aos poucos... carne viva.

Não sei se o processo era doloroso, mas certamente era angustiante. Podia-se ver o horror e o esforço transparecerem nas veias do pescoço e da testa do Capitão...

Capri é um cara absurdamente pesado — eu e Xitarro que o digamos, já que o carregamos bêbado pelo povoado todo. Então, quando vi Khao levantá-lo pelo cotovelo acima da cabeça, quebrando sua concentração e girando-o no ar para jogá-lo longe, foi algo assombroso!

Em seguida, o Capitão caiu de joelhos na terra. Segurava o próprio punho petrificado... que retornava ao estado mineral "normal". Ele olhava para a própria mão como se ela estivesse fervendo por dentro. Como se a visse pela primeira vez na vida.

Capri sentou-se no chão com um sorriso enigmático. Passou a lamber a ponta dos dedos.

— Conheço bem esse sabor... — disse o Monsenhor, limpando o lábio. — Culpa. Minha velha amiga.

— O que você estava fazendo?!? — urrou Khao.

— O que você não fez nos últimos dezoito anos — o Monsenhor levantou-se e caminhou calmamente até ele. — O que quer que Lord Blunt tenha feito com sua mão não é mero extrato de medusa... é uma maldição difícil, mas curável. Diga-me: seus chefes da Família Sagrada têm acesso ao próprio Aetíades e, mesmo assim, você nunca tentou curar isso?

— Essa mão é minha arma! — urrou o Capitão, ainda em choque.

— Nenhuma "arma" vale o direito de mover os dedos. Sentir a grama. Tocar um ente querido. Apertar a mão de um companheiro. Essa mão é um lembrete, uma punição, tal qual os chefes tribais que me guardam. É um Artefato, não uma cicatriz — Capri comentou. — Eu disse: eu não sabia quem você foi... mas sabia quem você é! Desde que estabeleci a igreja, busquei pelo mundo os sobreviventes e descendentes das Tribos das Montanhas. Obviamente, soube do grande herói do Levante de Blunt.

— Então por que não veio atrás de mim até hoje? — desafiou o Capitão.

— Há uns três anos... no velório do Arquimago Myrlen, conheci sua amiga Àquela — Capri olhou direto para Khao. — Ela só tinha coisas boas a falar sobre você. Não só suas proezas militares, mas sua fibra. Quem mantinha a Nova Guarda honesta consigo mesma. Mas também, sendo discreta com detalhes particulares, deixou a entender que você guardava uma grande tristeza quando pensava em seu velho lar. Ela sabia que um dia você viria até aqui, até mim. Seria uma grande perda para Shén-Li, e teria de ser uma decisão sua. Preferi não acelerar.Pois Isso é quem você é.

O Monsenhor olhou para mim.

— Alguém a quem pirralhos sem juízo respeitam e de quem aspiram ser dignos.

Khao bufou com raiva, o rosto corando.

— Na estrada, falaram do "Assentamento de Ymosso" — rosnou. — É coisa sua?

— O primeiro de muitos — Capri comentou. — Vai levar tempo. Haverá obstáculos, pessoas tentando impedir. A vida nas montanhas sempre foi difícil e, com tão poucos de nós, será um desafio... Mas a resiliência forjou o povo mais forte do continente. A perseverança é o seu destino.

Capri estendeu a mão ao Capitão, que ainda segurava o próprio punho.

Khao a recusou. Levantou-se sozinho, em seus próprios termos.

— Eu não vou entrar para o seu culto — Khao resmungou. — Mas... eu gostaria de ver o assentamento.

O Monsenhor assentiu com a cabeça.

— A partir do desfiladeiro...

— Eu consigo encontrar.

Khao começou a caminhar em direção à saída do pátio. Ele trocou um olhar comigo antes de ir... um olhar indecifrável, entre o cansaço e uma espécie estranha de respeito.

Os fantasmas dos guerreiros se dissiparam no ar como névoa. O Capitão partiu em silêncio por uma estrada auxiliar.

O Monsenhor passou a massagear a mandíbula e a têmpora — afinal, mesmo para um herói lendário, cinquenta quilos de concreto no queixo eram demais para se aguentar com ressaca — quando uma voz sem origem declamou alto, ecoando como um trovão e parodiando dramaticamente a voz do próprio Monsenhor:

— "EU SOU CAPRI, LÂMINA DE CARTALLAS! EU CURO AS PESSOAS COMO CARDULLION ME CUROU!"

Eu, Xitarro e o Monsenhor corremos os olhos pelo pátio, buscando a origem daquela encenação teatral.

Vimos duas figuras observando a cena, recostadas discretamente contra a muralha de pedra. Um homem com as roupas elegantes de oficial de Bearlord e, ao lado dele, uma garota de cabelos escuros e alaúde nas costas: Amellie.

O Monsenhor gargalhou com vontade e começou a caminhar na direção da barda, que fez o mesmo correndo.



Vendo o Capitão encontrar finalmente o seu caminho, os espíritos da montanha descansarem e o Monsenhor e Amellie se reencontrarem como velhos companheiros de aventura, um sentimento morno e piegas no meu peito me fez sorrir.

O mundo, afinal de contas, parecia um lugar um pouco mais justo. As feridas do passado estavam se curando, o drama havia acabado e uma nova esperança surgia no horizonte. Tudo ficaria bem a partir de agora.

... O que, olhando em retrospecto, foi o meu maior e mais ingênuo erro.



3 de outubro de 2026

Edgelord '80

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29 de setembro de 2026

EDGELORD - Cap. VII - Arco da Perseverança

 

**Bem-vindos ao povoado de Bearlord.** Outrora, a última fronteira entre o Império Humano e Shén-Li. Agora, o palco de um duelo entre dois colossos.

De um lado, o Capitão Khao. Meu antigo treinador... e, até poucos minutos atrás, o homem que estava tentando nos capturar desde o Castelo Negro, do outro lado do continente.

Do outro... bem.

O bêbado inconveniente que eu havia carregado pelo povoado acabara de se revelar como o Monsenhor Capri, da Igreja da Perseverança. 

— Sério?!? — Xitarro me olhou com uma cara de espanto. — Você não sabia? Era até bem óbvio a partir dos "Cinco Máscaras"...

— [Eu também sabia...] — a voz de Gladys ressoou na minha mente, transbordando deboche. — [E só não falei nada porque estava esperando para ver a sua reação.]

Nisso eu acredito.

E, considerando o que eu acabara de descobrir sobre ele, talvez eu devesse ter demonstrado um pouco mais de respeito. Se não por ele ser o líder da maior cavalaria do mundo, ou o guardião de Amellie e possui a forma mais garantida de restaurarmos minha armadura/amigo, ao menos porque tem o hábito de atirar gente da minha idade do penhasco.

Eu nunca tinha visto ninguém que ameaçasse fisicamente o Capitão Khao... Talvez meu pai — Lord Blunt — fosse uma das poucas exceções. E olha que meu pai é uma calamidade apocalíptica por si só.

Mas ver Khao avançar contra aquele homem como se não estivesse diante de um adversário qualquer... e perceber que Capri não parecia nem um pouco preocupado...

Aquilo me dava um receio profundo.

No primeiro avanço, Khao não lutou como o "garoto selvagem de dezessete anos". Ele avançou com a precisão cirúrgica de um veterano da Nova Guarda. Executou uma sequência avassaladora de socos — um Flurry of Blows focado nas articulações da armadura do Monsenhor. Capri mal se deu ao trabalho de esquivar; suportou o impacto das placas de aço rangendo e bloqueou os golpes com o cotovelo e com a empunhadura pesada de Avalanche.

Porém, ao desfazer o último golpe, o capitão de forma espetacular usou o próprio ímpeto para girar por trás do velho e travar o braço que segurava a espada numa chave de articulação perfeita, usando a mão de pedra indestrutível como alavanca.

— Ah, qual é! — o cavaleiro resmungou, a voz abafada pelo esforço e incômodo. — Você sabe que a espada é a maior ameaça a você e tá querendo tirar ela da brincadeira? Prá quê isso?!?

— Se eu não tirar a espada... tiro seu braço inteiro! — Khao urrou, os músculos do pescoço explodindo enquanto forçava a articulação do Monsenhor ao limite.

— Hmm... Não. Você não vai.

A figura de Capri oscilou sutilmente, como a imagem de um reflexo na água perturbada por uma pedra. Por uma fração de segundo, a carne e o aço do Monsenhor pareceram perder a densidade, tornando-se quase intangíveis.

O aperto de Khao perdeu o ponto de apoio. A chave de braço simplesmente deslizou pelo nada. O Capitão perdeu a firmeza do agarrão e o equilíbrio, rolando de costas pela poeira do pátio e levantando-se num impulso acrobático, piscando incrédulo.

— E-essa não... — murmurei, sentindo um nó se dar no meu estômago.

— O que foi aquilo?!? — Xitarro sussurrou ao meu lado, com a cauda completamente eriçada. — Como ele fez isso? Ele... ele virou fumaça?!

— A gente caiu no erro de achar que o Monsenhor é só um "grandalhão com uma espada gigante" — comentei, ajustando o aperto na Gladius. — Esquecemos que o desgraçado é um conjurador divino de alto nível!

— E o que isso significa?! — Xitarro perguntou, o olhar desesperado oscilando entre mim e o colosso de armadura.

— Significa *Liberdade de Movimento* — expliquei com um suor frio descendo pela nuca. — Não sei se é pela proximidade do templo ou se ele lançou essa magia antes de sair para brigar... Mas agarrar, derrubar ou imobilizar aquele homem não são opções. Se o Capitão quiser vencer... vai ter que derrubar ele na pura pancada!

— Bentho... — Xitarro me encarou, subitamente sério. — Acha mesmo que o Capitão vencer é uma boa coisa? Para nós?

Eu pisquei, surpreso com a clareza da pergunta. Não sabia direito o que responder.

— Bem... com sorte, se Khao vencer, ele estará cansado demais para nos perseguir — Xitarro ponderou, as orelhas ainda baixas. — Sugiro que, se a Amellie chegar antes, a gente dê no pé...

— Mas aí não poderemos usar o portal da Igreja para consertar o Virgílio — lembrei, ajustando o aperto na empunhadura da Gladius.

— É mesmo... — O monge coçou a cabeça, encarando o rastro de poeira e o estalar de placas de aço no pátio. — Então... torcer para o Monsenhor?

Eu... realmente estava em conflito.

Khao não perdeu tempo absorvendo a surpresa. Adaptando-se no ar, ele usou o impulso do próprio giro e salto para contornar a guarda pesada de Capri e projetar o corpo para cima, cravando uma joelhada voadora devastadora no rosto desarmado do Monsenhor.

Um estalo seco ecoou pelo pátio. Um rastro de sangue espirrou do lábio de Capri, e a cabeça do veterano foi forçada para o lado — a primeira vez em que o gigante parecia ser verdadeiramente abalado.

— Ah... seu bosta! — Capri rosnou, o olhar estreitando-se numa raiva fria.

E então, a Avalanche resolveu se apresentar.

Não foi um golpe comum; foi um arco de aço cortando o ar de cima para baixo numa velocidade assustadora para uma arma daquele porte. Uma ventania gélida e um tremor sob o solo de pedra acompanharam a lâmina.

O Capitão Khao já a esperava. Ergueu o braço esquerdo numa guarda perfeita, aparando o impacto de frente com seu punho de pedra petrificado.

O som do metal colidindo contra o concreto místico soou como uma explosão de artilharia. Estilhaços de pedra e poeira voaram para todos os lados. Qualquer outro objeto — qualquer escudo de aço reforçado ou arma comum — teria sido destroçado por aquele impacto, mas o braço de Khao nem sequer rachou. Ainda assim, Khao parecia afundar ligeiramente no pátio. Sob a pressão do impacto, as rochas do pavimento trincaram e algumas pedras menores saltaram do solo como projéteis.

... E foi então que Capri mostrou o Cardullion, o "deus da guerra e da putelância", era quem o patronava.

O movimento parreado não foi o fim do ataque. A Avalanche não parou; ela continuou girando, fluida e devastadora como uma roda de moer ossos. Khao não conseguiu aparar todos os golpes daquela sequência frenética. Após uma verdadeira chuva de aço e poeira, a parte larga da lâmina atingiu o Capitão em cheio no rosto. Sangue esguichou do nariz.

Um efeito sobrenatural cobriu o impacto. Ondas de gravidade distorceram o ar, multiplicando a massa da espada e fazendo o Capitão despencar e rolar pesadamente pelo chão. Khao tentou se levantar de novo... mas não com um movimento acrobático como da outra vez. Apoiou a mão na terra, arfando. Ele tinha sentido aquele golpe.

... Mas Capri não esperou. Avançou e acertou um chute brutal no seu abdômen, fazendo o Capitão rolar de costas pela poeira.

— Todos esses anos e é ISSO que você traz para mim?!? — o Monsenhor urrou, a fúria finalmente se mostrando.

Ele ergueu a Avalanche com as duas mãos, elevando a lâmina acima da cabeça. Khao tentou posicionar o braço de pedra para parear do chão... mas será que aquilo bastaria contra o peso de uma montanha caindo? 

Um pé de vento rondava os dois, e a própria gravidade parecia se acumular no fio da espada, distorcendo a poeira ao redor. Energias acumulavam. Um Smite? O que quer que fosse, seria ... eu... 


Eu não podia deixar aquilo acontecer.

Avancei no desespero. Interceptei o corte bem no meio do caminho, cruzando a lâmina de Gladius Aeternum para segurar o golpe descendente.

— G-Gladys... — eu resmungava, me dobrando pelo esforço absurdo enquanto segurava aquela tempestade. Era como tentar erguer uma montanha usando apenas um graveto. — Sei que você vai me encher o saco por ter ...

— [Deixa disso!] — surpreendentemente, a espada comentou, a voz vibração na minha mente cheia de uma empolgação selvagem: — [Eu tô morrendo de vontade de tirar uma casca dessa "Avalanche" aí!]

________________________

 A loira estava em lágrimas quando me encarou antes de fugir do Castelo Negro: "Eu não sou tão nobre quanto você, Khao.  O que é "certo" não é o que eu quero. Eu quero meu filho de volta ... Para mim!" E eu estava lá para prender Bentho. E ela sabia que eu não era nem de longe tão nobre quanto me julgavam.
 Eu tenho recordações... Eu caído, um cara monstruoso sacodindo uma espada para me finalizar, mas alguém fracote pula na minha frente, confrontando o inimigo. Familiar?
 A loira? o filho?
 Blunt? o Sargento?
...
   INACEITÁVEL!

________________________

Eu não ia manter a firmeza por muito tempo. O peso era absurdo... mas o Capitão aguentaria.

Ainda no chão, Khao mudou sua postura e agarrou a lâmina da Avalanche com as duas mãos, contendo a queda do aço por uma fração de segundo e me dando uma brecha perfeita.

— *Raio Místico Repulsor!*

Apontei a ponta da Gladys a queima-roupa contra o peito do Monsenhor. A explosão de energia mística o empurrou em ondas por três metros, e ele cambaleou mais alguns passos para trás antes de recuperar a base.

Ganhamos espaço.

Xitarro disparou até nós, ajudando o assombrado Capitão Khao a se erguer. O catfolk imediatamente sacou e estendeu seu bastão, assumindo uma postura defensiva rápida ao nosso lado.

— Ele é grande, mas é um só, Capitão! — tomei a iniciativa, a adrenalina a mil. — Ele não vai conseguir evitar o flanco, e nós temos a economia de ação a nosso faaaav...

Senti meus pés deixarem o chão.

Khao me agarrou pelo colarinho com sua mão humana. Levantou-me do solo e me arremessou de volta para a rua, como se eu não passasse de um saco de trapos sem peso algum.

— Eu mandei CAIR FORA, escudeiro Bentho! — ele urrou para mim. Para *mim*! — Esta luta é **MINHA**!

Ele então se virou para Xitarro... Pairando *sobre* Xitarro, bufando como um animal selvagem enraivecido.

O monge deu de ombros, com uma calma quase inacreditável.

— Ah, não... — Xitarro falou, com pouca (quase nenhuma) sinceridade na voz. — Eu estava mesmo ~tããão~ a fim de me meter na briga de dois caras que se pesam em toneladas... oh, bem...

E saiu caminhando de volta para a rua, bastão repousando no ombro, sem o menor remorso. Khao, respirava pesado como um cão acumulando fúria. Capri, diferente, ria.

— Não seja idiota, Capitão! — protestei elevando a voz, levantando-me e limpando a poeira das roupas. — Eu sou um recurso! Eu sou a sua tropa aqui!

— Não é sobre ser inteligente ou "administrar recursos", pirralho — o Monsenhor deixou o nosso drama correr e enfim interrompeu-me, a voz profunda ressoando. — Isto aqui e agora... É sobre Orgulho. É sobre o seu lugar no mundo.

O__0 ... Okey...

Eu não esperava que o bêbado defenestrador de adolescentes tivesse tanta... sabedoria.

Naquele instante, lembrei-me dos lobos na ravina... Daquela "vitória fácil" imitando os passos do meu pai, que não tinha me trazido satisfação alguma. Mas... ah, eu não era o protagonista desta história.

Khao limpou o sangue do rosto com o antebraço. Respirava arfando, encarando Capri. O Monsenhor fincou displicentemente a ponta da Avalanche no chão e, com a mão livre, fez um gesto provocativo, chamando-o para cima.

— Venha... Eu sei que é isso que você quer... "Rapaz" — provocou, por fim.

Então, o som que outrora fazia Shén-Li tremer de pavor ecoou pelo pátio.

O Capitão Khao entrou em fúria.

Capri foi mais rápido desta vez. Girou a espada em um "X" perfeito — uma manobra complexa e devastadora de espadachim pesadíssimo, demonstrando uma técnica impecável. A lâmina rasgou o ar sobre Khao... não sei o quanto o Capitão conseguiu aparar ou o quanto a armadura da Nova Guarda aliviou o impacto, mas Khao não parou. Ele continuou avançando através da tempestade e encaixou um soco brutal, com o Punho de Pedra, diretamente na lateral da cabeça do Monsenhor.

Capri curvou o corpo inteiro com o impacto.

... E contra-atacou imediatamente com um último golpe, carregado de pura gravidade.

Khao foi empurrado para trás pela onda de choque, mas fincou os pés. Suas botas arrancaram os paralelepípedos do chão até frear o impacto. Ele não caiu desta vez. Permaneceu de joelhos por um segundo... e tornou a se levantar, avançando mais uma vez.

— Acho que subestimei o... — Capri tentou articular.

Mas Khao não deu espaço. Veio uma nova rajada de socos. Alguns começaram a entrar, rasgando a guarda. O Monsenhor ainda tinha uma vantagem clara na luta, mas já não possuía a mesma folga de antes para nos provocar. E estava ficando genuinamente incomodado e irritado. Até que berrou...

— CHEGA!

Uma explosão verde estourou no centro do pátio.

Uma esfera de energia divina envolveu tudo ao redor. Em um piscar de olhos, o Capitão se viu cercado por... fantasmas?

Guardiões Espirituais. Novamente, era o "padre da guerra" quem dominava o palco.

Khao foi arrastado até o limite do pátio por dezenas de formas difusas — vultos espectrais nos quais se podiam distinguir braços, elmos partidos e rostos tomados pela dor. O Capitão insistiu. Avançou lentamente, forçando seu caminho contra a maré invisível, como se estivesse nadando em melaço. Sua pele ardia e fumegava ao toque das criaturas...

... Mas, assim que ele entrou no alcance, Capri o socou.

Sem espada. Sem magias. Apenas o punho nu, de puro osso e músculo.

Khao oscilou. Era o peso das mãos do homem que um dia derrubou um titã, somado à força de uma multidão de espíritos travando suas pernas e mantendo-o preso ao solo.

Capri debruçou-se sobre o Capitão, que, mesmo com toda a força descomunal que possuía, mal conseguia erguer os braços. O Monsenhor cravou o joelho pesado sobre a placa peitoral de Khao, encarando a insígnia da Nova Guarda gravada no metal. Um sorriso enigmático e amargo surgiu em seu rosto.

— Eu não espanquei você para proteger meus subalternos... — o Monsenhor começou a urrar para o capitão, a voz caindo como uma lâmina. — Nem tentei te afogar por legítima defesa. Eu só vi a porcaria de um bruto das montanhas na minha cidade! É isso que você queria ouvir?!

Eu dar um passo à frente, revoltado, foi um reflexo puro. Eu comecei a caminhar em direção a eles sem nem perceber o que estava fazendo, até sentir a mão de Xitarro me segurar firmemente pelo ombro, impedindo-me de me meter.

— Eu odiava vocês por serem grandes brutos, brigões de pele escura! — Capri urrou, a voz ecoando pelas paredes de pedra do templo. Khao conseguiu libertar os braços e tentou forçar o corpo para cima, mas o veterano o empurrou de volta contra a poeira com um peso esmagador. — OLHE PARA MIM, RAPAZ! Eu sou MAIOR que você! Mais BRUTO que você! Mais ESCURO que você! Mais HIPÓCRITA que você!!! O que eu odiava em você não era o seu comportamento destrutivo... era a porcaria de um espelho do que eu via em MIM!

Khao enfim parou de se debater. A Fúria que queimava em seus olhos cedeu espaço ao mais absoluto espanto.

— Eu sou o último soldado da merda da gloriosa Tropa de Glen Bearlord que exterminou as tribos nativas! — Capri urrou, enfim soltando o peito do Capitão. Ele já não precisava mais segurá-lo; até mesmo os fantasmas da legião recuaram, flutuando em um silêncio sepulcral ao redor do pátio. — O sangue que eu derramei naquele penhasco era o MEU! Eu fui o ÚLTIMO BÁRBARO das Montanhas Castanhas!