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23 de setembro de 2026

EDGELORD - Cap. VI - Arco da Perseverança

 A primeira vez que o sangue de Khao correu frio foi aos dezessete anos.

Aos catorze, ele já era uma lenda entre os seus: o garoto-problema que deu o golpe de misericórdia no Grande Carneiro da Montanha, o rito sagrado dos bárbaros. Aos dezessete, sem nenhum guerreiro na tribo que conseguisse mantê-lo no chão, ele subiu a colina rumo ao povoado sob o Castelo de Bearlord procurando o que faltava em seu lar: uma briga de verdade.

Ele espancou alguns soldados rasos e, então, encontrou "o homem". Não um guerreiro de peito aberto como os seus, mas uma montanha revestida em cota de malha, empunhando um martelo de guerra. Lembrava-se de um dos fracotes chamá-lo de “Sargento”. O resto do nome se perdera.

Khao lembrou-se do som de suas próprias costelas estalando antes de ser arremessado do penhasco. Lembrava-se da queda, da água gélida do rio e, depois, do silêncio.

O cheiro de incenso substituiu o cheiro de sangue.

Khao despertou sobre uma maca rústica num monastério distante rio abaixo. Um monge de túnica pálida lhe disse que fora um milagre ter sobrevivido às águas.

Khao pediu para ser aceito entre eles, os Monges do Caminho do Punho de Pedra, que seriam exterminados por Teth Ymosso anos depois. Ajoelhou-se e jurou devoção, fingindo que queria retribuir a salvação. Mas, por trás dos olhos cerrados, o jovem bárbaro só pensava em uma coisa: aprender o caminho dos forasteiros para voltar e quebrar o cabo daquele martelo na garganta do Sargento.


— [Isso é muito inconveniente!] — Gladys falou em minha mente, ressaltando o óbvio.

Xitarro voltou à janela alta, por onde conseguia ver além das muralhas externas. O Capitão Khao andava de um lado para o outro no pátio de pedra, como uma fera que encurralara suas presas.

— Nenhum tenente?!? — perguntei.

— Ele está sozinho! — Xitarro respondeu lá de cima.

— Eles devem estar cercando a fortaleza para nos pegar se sairmos pelos fundos — deduzi. — Conseguimos despistar meu pai, mas o Khao está cagando para jurisdição.

— ... E... — Xitarro pendurou-se ligeiramente para me olhar por cima do ombro. — Que papo é esse de "Sargento"?

— Ah, eles espalharam que eu cuidei de Ga-Shi e dos infiltrados dele — expliquei, dando um de ombros sem modéstia. — Vai ver me promoveram e esqueceram de avisar. Ele bem que podia ter dado as boas-novas lá em Hálcora...

Xitarro encolheu a cabeça num golpe só. Pela cara dele, Khao devia ter olhado exatamente na direção da janela.

Ao nosso lado, o mendigo que arrastáramos pelas ruas finalmente decidiu se mexer. Ele se sentou na cama improvisada, esfregou as sobrancelhas com violência e...

... Fez as duas mãos brilharem em uma luz dourada e suave.

— Isso é Lay on Hands?!? — espantei-me, dando um passo para trás. — Você é um colega paladino, cavaleiro de Cartallas, agregado?

— Dentre outras coisas... — ele resmungou. A voz, pela primeira vez, saiu limpa e firme, embora arrastada. — Não ajuda em nada com a ressaca, o que é uma merda...

— Bem, você deveria ter pensado nisso antes de devastar todas as tavernas do povoado! — tomei a postura de moralista. — É essa a imagem que o Deus da Perseverança quer passar para o mundo?

— Eu persisto, não persisto? — ele retrucou, largando os braços sobre os joelhos.

— Olha, não conheci o Monsenhor de vocês, mas conheci Jack Filler, o Capitão Lizzo — argumentei, compenetrado. — Ele me contou como estava destruído física e espiritualmente e como esta igreja o colocou de pé novamente. Ele é imensamente grato ao Monsenhor. Então, sou obrigado a supor que ele ...

— Não suponha — o "mendigo sóbrio" me interrompeu, encarando-me nos olhos. — Ele ainda é um cuzão.

Fechei o cenho diante de tanta impiedade.

— Ótimo, todos a postos pelo que vejo! — Rúnvald aproximou-se carregando duas espadas nos braços. A visão animou Xitarro a descer da parede e se juntar a nós. — Temos sete acólitos, Sir Veneg da Torre do Martelo, o escudeiro dele... e agora nós dois. Mas acho que esse homem com mão de pedra não pretende entrar.

— Aquele lá fora é Khao de Shén-Li — adverti. — Capitão da Nova Guarda. É casca-grossa!

— Não dá para mandar prendê-lo? — Xitarro arriscou, orelhas baixas. — Por... sei lá... balbúrdia?

— Vocês prendem pessoas por "bagunça" na terra de vocês? — Rúnvald encarou o monge com genuíno espanto. — Isso é ser o "Coração do Mundo" ou "Coação do Mundo"?

— Deixem comigo — dei um passo à frente, inflando o peito. — Ele veio aqui por nossa causa. Mas o Xitarro vai resolver isso agora.

Xitarro assentiu com a cabeça, solene.

Aí a ficha caiu. Ele piscou.

— E... E-EU?!?

— "Sistema de Rivais"! — lembrei, vitorioso. — O combinado na Montanha Morta! O Khao é o SEU rival!

— M... M-mas esse era o Plano B!

— Justo. O Plano A, contudo, era nós três lutarmos juntos — ponderei com calma. — A Amellie não está aqui e eu estou sem minha armadura, então...

O garoto-gato abaixou as orelhas até colar no crânio e engoliu em seco. Respirou fundo.

— T-tá certo... "Plano B", então.

Ele girou nos calcanhares e deu o primeiro passo em direção ao portão principal.

— Xitarro — chamei.

Ele parou, tenso.

— Estou brincando. Eu vou com você.

— Graças a Cartallas! — o monge soltou o ar de uma vez, os ombros despencando de alívio.

Empunhei a espada e passei a marchar ao lado dele rumo ao pátio. Eu ostentava um sorriso confiante no rosto, tendo a absoluta certeza de que iria morrer nos próximos três minutos.

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No corredor interno, o silêncio retornou assim que os passos dos dois garotos se distanciaram rumo às portas pesadas do santuário.

Rúnvald observou a partida da dupla por alguns segundos antes de se voltar para o homem que permanecia sentado na borda da cama. Sem dizer uma palavra, o cavaleiro firbolg levou a mão ao próprio peitoral e destacou uma peça metálica trabalhada — o fecho adornado com a insígnia oficial de Cartallas, que identificava a autoridade máxima daquele templo.

Ele estendeu a peça na direção do sujeito desalinhado.

— Ainda estou de folga — recusou o homem, afastando o fecho com um aceno seco de cabeça. — Mas vou precisar de uma armadura.

Rúnvald gesticulou com o queixo na direção dos escombros de vidro e madeira entalhada no chão do corredor.

— Não essa — cortou o veterano, massageando as têmporas para dispersar os últimos vestígios da bebida. — É só um sujeito com a mão de pedra do lado de fora. Não preciso dessa fantasia pesada. Só uma mais firme, Adamantina. E já que o desgraçado veio urrando pelo "Sargento"... traga as minhas placas antigas.



Estebán e Àquela seguiam a estrada imperial por onde Khao viera, retornando na direção do entreposto de Poeira da Estrada.

— Devo admitir que sinto pena do Capitão — Estebán comentou, ajeitando a gola e engolindo seco enquanto caminhava. — Quando ele não está obstinado em ser derrotado pelo "Maior Vilão do Mundo"... dá um jeito de tropeçar, dentre tantos sargentos do antigo império... nele?!?

— Há alguma chance dele relevar o desafio de Khao? — Àquela perguntou, ajustando a alça do arco nas costas. — Foi há tanto tempo, os dois passaram por tanta coisa desde então...

— Sabia que ele pleiteou ser um dos Exemplares no passado? — Estebán soltou um riso anasalado. — Eu e Myrlen fomos obviamente contra... E ele ficou furioso. "O Sargento" é um vulcão de orgulho e raiva precisando de muito pouco para ser provocado.

— Um... Exemplar?!? — Àquela só ficava mais preocupada.

— E só foi rejeitado por ser multiclasse, por não ter "pureza" da arte, não por falta de poder bruto. — continuou o Senhor do Sombrio, num tom divertido. — Se eu decidir vestir a Vigília Sombria e marchar contra Shén-Li de novo, posso recomendar colocá-lo na minha vanguarda... Vai ser um espetáculo épico.

Àquela encarou as torres do palácio de Bearlord ao longe, o peito apertado por uma preocupação crescente.

— Deveríamos ir lá... — ela disse, encurtando o passo.

— Nós aparecendo de surpresa no meio do caos de Khao? Primeiro: esta é a típica situação que Bentho usaria para fugir, como em Hálcora — argumentou Estebán, parando na estrada. — Segundo: Khao é orgulhoso, não vai ficar feliz com você interferindo. De Poeira da Estrada, podemos controlar e interceptar se necessário, embora Omar Yarol seja um desestímulo...

Àquela ignorou a ponderação do marido e sacou a esfera mensageira da algibeira.

— Querida, você vai contactar a Amellie?!? — Estebán estranhou, franzindo o cenho. — Isso é altamente irregular! Bentho e Xitarro podem nos flagrar!

— Eu não ligo — cortou ela, ativando o artefato. — O Khao já deve estar lá...

A imagem mágica começou a se projetar no ar e uma voz a interrompeu do outro lado da linha:

— ... Isso é altamente irregular! Bentho e Xitarro poderiam nos flagrar! — Amellie reclamou do outro lado, antes mesmo que a imagem se cristalizasse. — Ei! Àquela! Você voltou a usar uma armadura?!?

— Amellie?!? Você está nos ermos? — a arqueira estranhou, vendo a encosta pedregosa ao fundo da projeção. — Estebán pensou que vocês estivessem no povoado...

— Os meninos estão no povoado... Por sorte — a barda comentou, ajustando a alça de uma bolsa nos ombros. — Devem estar na Igreja da Perseverança... Estão seguros lá.

— Não — Àquela empalideceu, encarando o pátio da igreja à distância. — Lá é o PIOR lugar possível!



Cara... o Capitão Khao estava furioso.

Xitarro travou no arco de acesso ao pátio. Eu dei um empurrãozinho de leve nas costas dele para a gente ganhar o pátio.

— Estou com você, amigo — encorajei, embora a coragem estivesse vacilando em mim mesmo.

Ao pisarmos no pátio, o vento frio das montanhas varreu a poeira entre nós e a silhueta colossal de Khao. Segurei a empunhadura da espada com mais força do que o necessário, erguendo o queixo para sustentar o olhar do Capitão.

— Cruzamos metade do continente, Capitão Khao! — alertei, tentando infundir autoridade na voz, embora o suor frio me descesse pela nuca. — Íamos a Yalatanil ou às fronteiras de Yoriki, e você continuaria no nosso encalço como um pesadelo incansável... Se a intenção era nos perseguir até a Nova Ethiópia, saiba que a corrida acaba aqui! Nós não vamos correr mais!

Uivante, a ventania sobrenatural mais fria das Montanhas, escolheu se manifestar exatamente naquele momento. A poeira se elevou com o ar gélido, cobrindo o pátio com uma tonalidade avermelhada sob o sol forte. Khao ergueu a fronte para nós e disse, com sua voz encorpada e grave:

— Caia fora daqui, Bentho!

Eu... realmente fiquei surpreso.

— Eu disse que não iria mais...

— Só vai embora! — ele berrou, exasperado. — Passo MESES caçando vocês e, no momento em que dou uma pausa para resolver os MEUS problemas, vocês, seus pais... até OMAR YAROL brotam do chão no meu caminho!

— Omar Yarol?!? — Xitarro ergueu as orelhas num salto. — Eu ADORO os livros dele! Ele salvou a Dama Dai e carregou milhares de bebês nos...

— Capitão... — murmurei, num misto contrastante de alívio e indignação, desembainhando e estendendo a Espada Negra. — EU estou aqui! Olha a Gladys... diga "oi, Khao", Gladys.

— [Oi, Khao] — ela falou em minha mente. — [Sabe que ele não me ouve, certo?]

— O que seria mais importante para você cruzar as montanhas se não a Ledgyão? — questionei.

— Creio que seria eu... — Uma voz cavernosa e terrivelmente familiar veio de trás de nós. — Deixem os homens conversarem, meninos.

Olhamos para trás. Era o cavaleiro bêbado.

Ele trazia no corpo uma armadura antiga de placas, desgastada pelo tempo, mas perfeitamente sólida e funcional.

... E empunhava a Avalanche.

Eu quase podia ouvir os ossos da mão de Khao trincando pela força com que ele fechava o próprio punho de pedra.

— O Sargento... enfim.




Da primeira vez, ele tinha vindo até mim porque espanquei dois de seus recrutas.

Desta vez, fui eu quem fui até ele.

Caminhei sob uma chuva fria de verão. As ruas de terra do povoado estavam encharcadas, viradas em poças de água barrenta. Cheguei a cruzar com dois soldadinhos no caminho, mas os ignorei. Eles olharam feio, claro — era um bárbaro andando solto na cidade deles —, mas minha atenção e minha energia estavam reservadas inteiramente para o Sargento.

E lá estava ele. Havia envelhecido bastante em apenas um ano. Bebia com outros homens, gargalhando, fanfarrão.

Dez segundos depois de me ver, ele estava assombrado.

O homem não entendia se havia levado um ou dois socos meus antes de conseguir reagir. Não entendia como eu estava contornando as placas de sua armadura com passos curtos, nem como eu amortecia o impacto devastador do seu martelo usando a rotação do meu próprio corpo. Eu já não era só fúria; era técnica.

Gargalhei alto quando acertei um golpe limpo e vi o supercílio dele rasgar e sangrar.

Dois minutos depois... ele reverteu tudo.

E eu estava com a cara socada no chão, aspirando lama fria e sentir os braços prestes a serem arrancados do corpo enquanto o joelho dele cravava na minha nuca, pesando toneladas.

Só recuperei parte da consciência quando a pata maciça e úmida da ursa apareceu a poucos centímetros do meu nariz. Era o Marquês de Bearlord, montado em Avelã, encarando a cena no meio da tempestade.

Dois soldados precisaram se juntar para puxar o Sargento de cima de mim. Nem a presença e a autoridade do líder dos homens de armadura conseguiam conter a raiva descontrolada dele.

Eu?

Um braço quebrado, pneumonia, e uma ordem expressa para deixar as Montanhas Castanhas para sempre.

Eu não entendia na época o peso das palavras do Marquês. Baixei a cabeça e fingi obediência, mas por dentro eu sabia que aquilo era como tentar erguer uma parede de vento no meu caminho. Eu voltaria para aquele lugar se quisesse... Quando quisesse.

... Quando estivesse pronto.

Conheci Achima e Balmon em Dol'oan; Àquela em Shén-li. Nos unimos contra Lord Blunt... Eu tive uma vida. Acabei ignorando o meu passado.

Meu povo morria na minha ausência.

E o Sargento... permaneceu vivo.


Eu e Xitarro fomos direto para o meio da rua. Não tínhamos motivo nenhum para ficar espremidos entre aqueles dois brutamontes.

O Cavaleiro parecia absurdamente leve, descansando a espada sobre o ombro... E que bela espada era a Avalanche como se...

— [Foque na batalha!]

— Tá, Gladys!

Era como se nenhum dos dois ousasse dar o primeiro golpe. Havia uma tensão no ar... uma fúria contida... Ou talvez um estudo de alto nível, onde cada um avaliava e media os passos do outro.

Khao quebrou o silêncio.

— Você envelheceu muito... — disse, com um tom carregado de deboche. — Você nem se lembra de mim, não é?

— Sei quem você é, não quem foi — o Cavaleiro deu de ombros, indiferente.

— Você me atirou de um PENHASCO! Eu tinha dezessete anos!

Eu... perdi o fôlego. Que... monstro! E eu carreguei esse cara pelo povoado inteiro?!?

— Acho que me lembro... Sim — ele coçou a barba desgrenhada. — Você era um merdinha do Pedermonte, se não me engano...

— E depois você tentou me AFOGAR EM UMA POÇA DE LAMA! — Khao ergueu o punho de concreto com pura raiva, quase espumando.

— O... O monge?!? — O Cavaleiro fez menção de gargalhar. — Juro por Cartallas que até este exato momento eu achei que eram DOIS BOSTINHAS diferentes da montanha!

— Seu cretino! — Khao estava fumegando.

— Meu jovem, você mereceu cada pedaço do que recebeu... Você era difícil-e-meio! — O Cavaleiro começou a caminhar calmamente pelo pátio, sem buscar nenhuma cobertura. — Mas realmente não foi esse o motivo pelo qual fiz o que fiz. E acho que foi justamente isso que te trouxe até aqui agora. É o máximo de desculpas que você vai conseguir extrair de mim.

— Posso me contentar em extrair o seu sangue, então... — Khao esticou o pescoço tenso. Ouviam-se estalos secos, como se uma placa continental estivesse se assentando sob sua pele.

O Cavaleiro balançou a cabeça pesarosamente.

— Bem, o meu passado querendo cobrar conta... — resmungou. — Acredite, rapaz... você não precisa disso.

— "RAPAZ"?!? — Aquela palavra engrenou algo em Khao, que berrou a plenos pulmões: — Eu sou Khao, o Invicto de Pedemonte! O Campeão do Levante de Blunt! Eu duelei pessoalmente contra o Senhor do Sombrio! Sou o Fundador da Nova Guarda de Shén-Li! Eles me chamam de O Colosso das Montanhas Castanhas! o Homem Mais Forte de Shén-li! É ISSO que está na sua frente, não um "rapaz"!

O Cavaleiro parecia se segurar com todas as forças para não pedir para ele falar baixo por causa da ressaca.

— Tá... perdão... — esfregou as têmporas, a voz carregada de ironia. — Vou levar tudo isso em conta, "senhor".

Khao soltou um riso seco.

— E você? — o Capitão provocou, enfim. — O que fez nos últimos dezoito anos?

O Cavaleiro foi extremamente teatral.

— Bem... fiquei muito bêbado... uma vez por ano... Maldição de Ênia, a deusa-vaca da vida para "meu bem" de alguma forma... — Olhou de relance para mim e para o Xitarro. — E também...

Ele olhou quase perdido ao longo do pátio, até encarar a estrutura atrás de si mesmo, como se estivesse "surpreso". A igreja-fortaleza.

— Ah, sim, claro... — falou, por fim. — Eu levantei essa igreja.

Khao gargalhou, posando as mãos na cintura.

— Ah, virou um pedreiro?!? Bem apropriado para os seus talentos...

O Cavaleiro congelou. Um ar sombrio e pesado tomou conta de seu rosto.

— Eu ouvi essa mesma piada antes... E não gostei.

Algo na atmosfera mudou drasticamente. Khao parecia sentir também.

— Você... entrou para a Cavalaria de Cartallas? — Khao deu um passo atrás, franzindo o cenho.

— Eu disse que eu levantei essa igreja.

— Esse templo em particular? — Khao insistiu, a voz perdendo a certeza. — A fortificação?

O Cavaleiro parou de responder. O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.

— Você... Não pode ser "aquele" Capri — o Capitão finalmente pareceu juntar as peças, os olhos arregalados. — Você é...

— Capri Mordman.

Uma pausa.

Último oficial da infantaria de Glen Bearlord. Primeiro Devoto de Cardullion. Libertador de Portos Dourados. Destruidor do Império. Flagelo de Titã... e Monsenhor da Igreja da Perseverança.



18 de setembro de 2026

[Monstro da Semana] o Twmauff

 

TWMAUFF, O Devorador de Duas Bocas


Uma criatura que nunca precisa escolher entre morder e agarrar.

O Devorador

Há predadores que perseguem suas presas. Há predadores que esperam. O Devorador de Duas Bocas faz algo muito mais simples: ele deixa que a presa se aproxime.

A criatura possui uma anatomia que parece ter sido montada sem qualquer preocupação com proporções naturais. Seus membros são compridos demais, os dedos terminam em garras estreitas e seu corpo parece incapaz de permanecer completamente ereto. A cabeça é dominada por um único olho enorme e uma boca cheia de dentes finos.

A segunda boca é mais difícil de perceber.

Ela se encontra no abdômen, escondida entre dobras de pele e músculos. Normalmente permanece fechada, parecendo apenas uma cicatriz vertical. Quando o Devorador encontra uma criatura suficientemente próxima, entretanto, a abertura se rasga e revela uma segunda mandíbula.

"A primeira boca faz você olhar para o rosto. A segunda faz você perceber que já está perto demais."

— Ser Calven, explorador desaparecido nas ruínas de Vhal

Dois Instintos

As duas bocas não parecem obedecer exatamente ao mesmo impulso. A boca da cabeça procura carne. A boca do abdômen procura movimento.

Quando caça, o Devorador alterna entre esses dois impulsos. Às vezes concentra sua atenção em ferir uma vítima. Em outras ocasiões, usa a mandíbula inferior para prender uma criatura enquanto seus braços longos procuram outra.

Essa diferença torna seu comportamento particularmente perigoso. Uma pessoa que aprenda a evitar uma das bocas ainda precisa lidar com a outra.

Caçadores das Ruínas

Devoradores costumam ocupar lugares onde criaturas maiores não conseguem persegui-los com facilidade: corredores estreitos, ruínas abandonadas, túneis, porões e construções parcialmente destruídas.

Eles não constroem tocas elaboradas. Preferem encontrar um lugar suficientemente escuro, permanecer imóveis e esperar que alguma criatura passe ao alcance de seus braços.

Uma vez que tenham encontrado alimento, dificilmente abandonam uma área enquanto houver presas disponíveis.

Devorador de Duas Bocas

Monstruosidade Média, tipicamente caótica e maligna
Classe de Armadura 15
Pontos de Vida 110 (13d8 + 52)
Deslocamento 12 m, escalada 9 m
FOR DES CON INT SAB CAR
16
(+3)
18
(+4)
18
(+4)
6
(-2)
12
(+1)
8
(-1)
Testes de Resistência Des +7, Con +7
Perícias Acrobacia +7, Percepção +4, Furtividade +7
Sentidos visão no escuro 18 m, Percepção passiva 14
Idiomas
Desafio 5 (1.800 XP)
Bônus de Proficiência +3

Traços

Olho Predador. O Devorador não pode ser surpreendido enquanto estiver consciente. Além disso, ele tem vantagem em testes de Sabedoria (Percepção) baseados em visão.

Duas Bocas. O Devorador possui duas bocas independentes. Cada uma delas pode realizar ataques de Mordida.

Fome. No início de cada turno do Devorador, escolha uma das duas bocas para manifestar sua fome. Até o início do próximo turno do Devorador, a primeira vez que essa boca atingir uma criatura com Mordida, ela produz o efeito correspondente abaixo.

Fome de Carne

A mordida causa 4 (1d8) de dano perfurante adicional.

Fome de Movimento

O alvo deve ser bem-sucedido em um teste de resistência de Força CD 15 ou fica agarrado pelo Devorador. O Devorador pode ter apenas uma criatura agarrada dessa maneira por vez.

Ações

Multiataque. O Devorador realiza dois ataques, usando qualquer combinação de Garra e Mordida.

Garra. Ataque Corpo a Corpo: +7 para atingir, alcance 3 m, um alvo. Acerto: 9 (1d10 + 4) de dano cortante.

Mordida. Ataque Corpo a Corpo: +7 para atingir, alcance 1,5 m, um alvo. Acerto: 11 (2d6 + 4) de dano perfurante. O ataque pode ser realizado pela boca da cabeça ou pela boca do abdômen.

Reações

A Outra Boca. Quando uma criatura a até 3 m do Devorador o atinge com um ataque corpo a corpo, a boca que não realizou uma Mordida durante o turno atual pode realizar imediatamente um ataque de Mordida contra o atacante.

Esse ataque não recebe nenhum benefício de Fome.

Como o Devorador Caça

Um Devorador de Duas Bocas raramente inicia uma luta correndo diretamente contra o grupo. Ele prefere observar durante alguns segundos, escolher uma vítima e então avançar de maneira abrupta.

Primeiro movimento.
O Devorador tenta chegar a uma criatura isolada. Seus braços longos permitem que ele ataque de uma distância inesperada, enquanto seu deslocamento de escalada permite que utilize paredes, ruínas e estruturas elevadas para se aproximar.
Quando escolhe a Fome de Carne.
Ele procura causar o máximo de dano possível com a primeira mordida. A boca escolhida se abre completamente antes do ataque, oferecendo aos personagens um sinal visual de que aquela boca está particularmente faminta.
Quando escolhe a Fome de Movimento.
O Devorador procura uma criatura que esteja tentando escapar ou que esteja protegendo outro membro do grupo. Depois de agarrá-la, usa seus braços compridos para impedir que outros personagens se aproximem com facilidade.
A Outra Boca.
Atacar o Devorador de perto nunca é completamente seguro. Mesmo quando um aventureiro consegue acertar a criatura, a segunda mandíbula pode se abrir e responder imediatamente.

Sinais de um Devorador

Antes de encontrar a criatura, os personagens podem perceber sinais de sua presença.

  • Marcas de quatro dedos extremamente compridos nas paredes.
  • Objetos deslocados para lugares onde uma criatura normal não conseguiria alcançá-los.
  • Marcas de dentes em cadáveres que parecem ter sido mordidos de duas direções diferentes.
  • Ruídos de respiração vindos de um corredor vazio.
  • Um estranho som úmido vindo de dentro das paredes.

O último sinal costuma ser o mais confiável.

Se os personagens ouvirem duas respirações vindas da mesma criatura, já estão perto demais.

Usando o Monstro

Um Devorador funciona melhor quando o terreno oferece obstáculos, diferenças de altura ou espaços relativamente estreitos. Ele não precisa de uma arena especialmente preparada: corredores quebrados, ruínas, escadarias e passagens parcialmente desabadas já oferecem oportunidades suficientes para sua anatomia incomum.

A criatura também funciona bem acompanhada por predadores menores. Enquanto outras criaturas ocupam a atenção dos personagens, o Devorador procura uma vítima que tenha ficado isolada.

Se estiver sozinho, ele não luta necessariamente até a morte. Uma criatura gravemente ferida pode subir por uma parede, desaparecer por uma passagem estreita e retornar quando perceber que a caça voltou a ficar favorável.

15 de setembro de 2026

A Grande Audiência

 

​A GRANDE AUDIÊNCIA

​Patrono Arquifada para Bruxos

“Não olhe para as cortinas.”

“Não há cortinas.”

“Exatamente.”

​Natureza

​Ela não tem um reino; tem um espetáculo. A Grande Audiência é uma Arquifada cujo domínio é um carnaval interminável nos espaços entre os sonhos e a realidade. Ela não governa por leis, mas por atenção. Não deseja almas ou riquezas: deseja algo memorável. E, acima de tudo, exige que alguém esteja olhando.

​Aparência

​Raramente vista de forma direta, manifesta-se como uma mulher na última fileira de um teatro vazio, um camarote sem paredes, ou uma silhueta com um vestido de gala e véu de estrelas. O detalhe constante? O som de aplausos invisíveis.

​Personalidade e Interesses

​A Grande Audiência não busca o mal, busca uma boa cena. Moralidade é secundária; o que importa é a tensão, a surpresa e a consequência.

​Aprecia: Reviravoltas, traições dramáticas, sacrifícios e heróis que persistem.

​Detesta: Repetição, covardia narrativa e, acima de tudo, o tédio.

​O Contrato e o Poder

​Ela não oferece pactos escritos, mas papéis (como O Sobrevivente, O Traidor ou O Último a Rir). Seus bruxos não são servos, são Atrações. Recebem magia para escapar de situações impossíveis, virar o jogo em momentos cruciais e garantir que o espetáculo continue.

​Manifestações

​O Aplauso Distante: Ecos de palmas quando um feito dramático é realizado.

​As Lanternas Violetas: Luzes misteriosas em reflexos e janelas.

​O Intervalo: Uma pausa repentina no mundo para permitir uma fuga teatral.

​O Silêncio da Plateia: O pior sinal de todos — quando ela está apenas esperando.

​O Preço

​O preço cobrado é o significado. Ela pode exigir que o bruxo persista em uma história inacabada, poupe um inimigo ou faça a escolha mais difícil. O maior terror de um Bruxo da Grande Audiência não é a morte, mas tornar-se desinteressante.


SILAS RICTUS.



14 de setembro de 2026

EDGELORD - Cap. V - Arco da Perseverança

Ao contrário do castelo suntuoso no topo da colina, aquela igreja-fortaleza usava rochedos terrosos, extraídos diretamente de pedreiras locais. Seus paralelepípedos eram um tanto irregulares, mas ocupavam a área de forma inteligente, sem firulas ou ostentações desnecessárias. A estrutura austera lembrava o Forte Shan, em Shén-Li — ampla, funcional e desenhada para ser defensável a qualquer custo.

Eu realmente não conseguia encará-la como uma "igreja" tradicional. Mas havia algo ali... um peso no ar. Talvez eu estivesse apenas sendo sugestionado pela história da região? Afinal, apesar de Pallas ser um dos deuses mais antigos e reverenciados do continente, tudo ali começara com Cardullion, o Bode Bárbaro — um deus de quem ninguém esperava nada e a quem ninguém dava valor. Talvez essa essência humilde tivesse moldado as fundações do lugar.

O que estou dizendo? Eu não precisava especular: eu podia comprovar.

— Xitarro... — pedi, indicando a quina de uma construção vizinha. — Vigia nosso amigo inconsciente por favor.

O monge acomodou o homem deitado numa quina coberta de sombra. Aproximei-me e o ajudei a posicionar o sujeito de forma mais confortável contra a parede de pedra.

Só então caminhei até o meio da rua.

Fechei os olhos por um segundo e os esfreguei com força. Quando os abri, canalizando o dom que o meu juramento me concedera, a poeira e a lama da realidade se dissiparam. Eu via as galáxias e as correntes etéreas fluindo entre nós e o infinito.

Agora, eu via a igreja exatamente como ela deveria ser. 

Dizem que os deuses da radiância são associados à cor azul, como a Trindade das Aves em Shén-Li. Ali, porém, apesar do marrom poeirento que dominava todos os aspectos do solo e das paredes, a luz mística que emanava das rochas era de um verde profundo e pulsante — a marca inconfundível dos deuses da natureza e da resiliência primordial. Eu imaginara que encontraria o vermelho, sinal dos deuses da guerra... mas não. Era uma energia em estado puro e natural.

A aura parecia uma aurora boreal emergindo do topo das torres quadradas, serpenteando e fluindo entre os mourões e os arcos de pedra como se o próprio vento tivesse se tornado visível.

É... dava para perceber que aquele templo não fora erguido sem dificuldade. Houve gente empenhada em tornar o caminho mais complicado do que precisava ser. Ainda assim, a Igreja da Perseverança ficara de pé. Sobrevivera a obstáculos que pareciam ter exigido mais paciência do que deveriam, a implicações pequenas demais para merecer tanta atenção e a situações que, em vez de testar a fé, pareciam testar quanto tempo alguém conseguia continuar tentando antes de perder a vontade de viver. Mas eles perseveraram. Talvez fosse essa a parte mais importante daquela história: não fora uma construção favorecida pelo destino ou pelo caminho fácil. Fora uma construção que persistiu apesar dele.

Quando a visão mística se esvaiu e o efeito do juramento passou, pisquei e voltei para onde Xitarro esperava. O mendigo gigante estava sentado, coçando a barba emaranhada.

— É real, amigo — falei para o monge, sentindo um nó na garganta pela solenidade do que vira. — Eu vi o peso que está cravado nessas pedras. E... espere. Quando foi que o nosso agregado acordou?

— Ele esteve acordado o tempo todo — respondeu Xitarro calmamente, ajustando sua postura. — Pediu para eu lhe dar um tempo enquanto você olhava para o nada...

— Bem... obrigado — sorri para o grandalhão, que apenas encarou a fachada do templo e soltou um arroto ressoante que estremeceu o ar da rua. — Agora, vamos ver o que este prédio pode fazer por você.


Àquela observava a estátua da frente, a mais protuberante do conjunto. Era uma entre treze, cada qual com quatro metros de altura, esculpidas com um talento moderado. Ainda assim, uma delas parecia terrivelmente familiar.

— "A Honra da Infantaria Pesada de Bearlord" — traduziu Estebán, lendo a placa em entalhes arcaicos. — No idioma dos anões de Dol'oan. Era a elite de Glen Bearlord, os únicos capazes de ter executado o ataque preventivo que garantiu a vitória dele... derrubando o castelo de cartas de Cyrak. Militarmente falando, foi algo ousado e brilhante, mas...

Cruel — completou Àquela, num tom baixo. — Não valeu a pena.

Estebán preferiu não contestar. Então, desconversou.

— Agora, sabendo o que sei de Amellie, tudo faz sentido — o Senhor do Sombrio ergueu os olhos, acompanhando o traçado da estrada. Em menos de meia hora estariam no povoado. — A presença da Gladius Aeternum é intensa, mas isso a torna confusa. Difícil de ver com precisão. A lâmina está tentando se ofuscar e eu achei que era a distância desde meu pacto... Bem, eu estou fazendo o mesmo agora. Ela não sabe quão perto estamos.

— Ela sabe que chegaremos, mas não quando? — confirmou Àquela.

— Sim. E agora vem a parte mais difícil... Ao menos para você, querida.

A arqueira baixou o semblante.

— Pensei que iríamos apenas os seguir à distância...

— Gladius Aeternum conhece minhas capacidades. Eu eventualmente iria deduzir que ela me rastreia, e estaria articulando o grupo para se mover assim que eu me aproximar demais. Queria poder afirmar com certeza que eu mesmo concluiria isso por conta própria, mas, se aquela espada tentar algo contra Bentho, esta distância atual é inaceitável.

— Isso não interfere na tal "profecia"? — Àquela questiona.

— Nada interfere.

— E eu terei de ir sozinha?

— Como em Hálcora — ele confirmou. — Ela não pode rastrear você, e vai deduzir que eu estou usando das regras do jogo contra ela. E você não vai tentar conversar desta vez... vai agir. Sem tempo para confusões ou fugas.

— Você está me mandando disparar flechas em nosso filho... sabe disso, não é?

— Se ele estiver vestindo a armadura, não precisa se segurar. A Vigília Sombria vai protegê-lo — comentou Estebán. — Mas eu tive uma ideia melhor.

— Que bom... — ela suspira, aliviada por um segundo.

— Capture o garoto-gato.

A arqueira ergueu as sobrancelhas, pega de surpresa.

— O Catfolk é absurdamente rápido e imprevisível — explicou o Senhor do Sombrio. — Mesmo se você conseguir imobilizar o Bentho, não vai conseguir escapar do felino. Mas se você capturar o rapaz e fugir com ele, eliminando a vantagem da velocidade do trio... Bentho virá atrás de você sem pensar duas vezes. Corra na minha direção e "a gladis" não terá opções de manipulação. Com nós dois juntos, asseguraremos o garoto.

— "Sequestrar o melhor amigo para atraí-lo a uma armadilha"... — Àquela soltou um riso sem humor, com evidente desgosto. — Esse é o "Lord Blunt" de quem eu me lembro.

— E se for este o Lord Blunt de quem Gladius Aeternum espera... manteremos o disfarce de Amellie impecável — pontuou Estebán. — E isso tira um pouco da carga do segredo de Amellie.

— Eu ainda... — Àquela voltou a encarar as estátuas de pedra. — Não consigo afastar a sensação de familiaridade dessa estátua...

— Khao.

— Não, Estebán, não é ele! — Àquela forçou a visão sobre a fisionomia do guerreiro esculpido. — Khao jamais conseguiu ter uma barba, então...

— Eu digo que Khao está se aproximando.

Àquela deu um salto, sobressaltada.

Pela estrada coberta de poeira, aproximava-se o Capitão da Nova Guarda. Olhar duro e fixo para a frente, passos lentos, contidos e pesados.

— Agora não... — resmungou Àquela. — Bentho está tão perto...

— Eu... não sinto a presença dos Tenentes — Estebán parecia genuinamente preocupado. — Rhoy eu concebo que consiga se esconder adequadamente, mas...

— Ele não pode saber que o Bentho e os garotos estão aqui... — comentou Àquela. — Vamos atraí-lo para o penhasco do Norte e despistá-lo.

— Esta é a terra nativa de Khao — cortou Estebán. — Ele a conhece melhor do que nós, despiste é inviável. Ele pode interferir e Bentho escapará na confusão de novo. Isto termina aqui.

Estebán começou a marchar firme na direção do capitão.

Ele sentia que algo estava profundamente diferente. A aura ancestral do bárbaro sobrepunha-se à do soldado. O fato de estar aparentemente sozinho pesava. E, diferente de todos os outros inimigos de Lord Blunt, Khao vivera por demais. Ponderara e martelara cada derrota ao longo dos anos. Mesmo com a abissal diferença de poderes entre eles, o Senhor do Sombrio respeitava aquele que mais tempo se dedicara ao preparo do duelo.

O homem que esperou por dezoito anos.

Foi então que algo segurou a mão de Estebán, impedindo-o de ir de encontro ao seu caçador.

A mão de sua esposa.

— Não lute — disse ela, enfim. 

— Você... — Estebán virou-se, confuso. Remeteu a quando ele fez tal pedido à esposa na Montanha Morta. — Tem certeza de que quer tentar desta vez? Eu compreendo que...

— Está diferente — comentou ela, a voz suave. — Ele está sentindo dor.

— Àquela... ele é perigoso e imprevisível — insistiu Estebán, tensionando os ombros. — Vocês dois se feriram muito no passado. Eu posso assumir esta luta.

— Não haverá luta.

Àquela segurou as duas mãos do esposo e, mantendo o olhar firme no horizonte, começou a marchar sozinha na direção do capitão.

Demorou alguns passos para que Estebán percebesse, assombrado, o que a esposa acabara de depositar em suas mãos desarmadas.

O próprio arco dela.


Sacrilégio! — gritou Xitarro, apontando para o pórtico do templo com o rosto pálido.

— O... O quê?!? — O cavaleiro à nossa frente se assombrou.

— Ele quis dizer "Santuário", não "sacrilégio" — corrigi rapidamente, puxando o monge pelo ombro. — Nós três viemos pedir a proteção de Cartallas.

Um cavaleiro e dois acólitos se aproximaram a passos firmes. Sem fazer perguntas, a dupla de acólitos partiu para nos substituir, tomando o pesado e semiconsciente mendigo para dentro da fortificação. Não emitiram um único resmungo sobre o peso... deviam estar com a musculação em dia.

— Cartallas vai agradecer-lhes, forasteiros — o cavaleiro falou por fim, encarando a cena. — Entrem. O Santuário está concedido. Vamos trazer um pouco de água... vocês parecem exaustos.

Xitarro deu um sorriso aliviado para mim. Quase podia ler sua mente dizendo "nós conseguimos"... Mas eu me detive no limiar da porta.

— N-nós dois estamos armados — comentei, indicando a espada e minhas adagas. — Precisam reter as...

— Bobagem — o cavaleiro deu de ombros. Tratava-se de Rúnvald, um firbolg alto e corpulento de pelagem castanho-acinzentada, com cabelos longos e desgrenhados presos atrás da cabeça. O rosto era largo, de traços bovinos e gentis, com pequenos chifres curvados para trás. Seus olhos tinham uma expressão tranquila, quase sonolenta, mas extremamente observadora.


— Shén-Li, correto? Sou excelente com sotaques — continuou Rúnvald. — Seu Aetíades exige que entrem desarmados?

— Bem, sim — respondi.

— As terras de Bearlord ainda estão sendo acalmadas — ele riu, sem dentes. — Só alguém com merda na cabeça não tem uma...

Xitarro soltou um riso de puro nervoso.

— A-algum problema? — Rúnvald franziu os chifres.

— O senhor falou... "mer..."... numa igreja... — o garoto-gato justificou-se, ainda atônito.

— E...? — O cavaleiro divertiu-se com a ingenuidade. — Teme que Cartallas vá jogar um raio na minha carrapeta por causa de um palavrão?

— "Carrapeta"? — Xitarro estranhou a palavra.

— Eh... — interferi, limpando a garganta. — É o mesmo que "cu".

Xitarro desabou na gargalhada, cobrindo a boca.

— Ele tem quatorze anos — expliquei para o firbolg. — A "quinta série" dele acabou de cumprimentar a "quinta série" do senhor.

— Sem problemas... — O firbolg estendeu a mão enorme para o monge. — Você se encrenca mais com Cartallas se o chamar de "bonito" com fingimento do que se chamar ele de "arrombado" com sinceridade.

Xitarro caiu na gargalhada de novo, a ponto de eu precisar segurá-lo pelo cotovelo para ele não tropeçar no próprio rabo.

Isso é tão errado... — o felino arfava, quase sem fôlego. — Me desculpe!

Enfim, entramos.


Estebán estava tenso. A esposa, desarmada, estava diretamente no caminho do implacável Khao. A diferença de estatura entre os dois era tremenda; ele parecia uma montanha prestes a esmagar uma flor de sal.

— Khao... você está bem? — ela começou, tentando manter a voz firme. — Onde estão seus tenentes? Algo aconteceu com eles?

O capitão não disse uma palavra.

— Fale comigo, Khao! — ela insistiu, dando um passo à frente.

O gigante parou. Mais um único passo e ele trombaria na loira. Ele se detinha por um segundo, os olhos escuros fixos nela, sem piscar.

Então, deu um passo para a esquerda.

E continuou em sua marcha silenciosa.

Estebán por um instante pensou que ele era o próximo destino. Seus olhos se cruzaram com os do capitão por uma fração de segundo, mas o capitão estava mesmo afetado: não havia ali a prepotência característica, nem a fúria ocasional de um bárbaro. Havia um vazio absoluto no semblante do homem.

O Senhor do Sombrio deu ele mesmo um passo para o lado, permitindo que o gigante seguisse além dele, incólume.

Àquela foi logo atrás, precisando apressar o passo para alcançá-lo. Estebán apenas observou de longe, intrigado. O Capitão a ignorou por longos metros, até que enfim parou.

Seu olhar repousou sobre as estátuas — os monumentos na entrada do povoado de Bearlord. Concentrou-se especificamente no homem barbudo representado na estátua da frente.

— Você conhecia esse homem? — Àquela arriscou, aproximando-se com cautela.

— Conheço... — A voz de Khao finalmente saiu. Parecia vir do fundo de uma caverna; grave, arranhada, nada familiar.

Àquela observou melhor aquela representação em pedra. Com um refinamento limitado de lapidação, exibia uma armadura de cota de malha reforçada com placas e rebites. Representava um sujeito consideravelmente encorpado. Ela deduziu tratar-se de um dos oficiais do antigo exército de Glen Bearlord...

... E, de repente, Àquela se lembrou das antigas conversas sobre o passado.

De quando Khao e ela não atiravam flechas, barris e beholders um no outro. De quando a farda não pesava tanto e Khao se permitia ficar vulnerável e nostálgico ao redor de uma fogueira.

— É o "Sargento"? — ela perguntou, sentindo um aperto no peito. — É esse o homem que fez você deixar o seu lar?


Khao teve uma reação quase espasmódica, como se acordasse trancado de um transe. Ele olhou para a sua antiga companheira de armas e declarou, seco:

— Volte para casa e se entregue, loira — ele resmungou. — Ou não. Eu não ligo.

Khao voltou a caminhar, contornando as estátuas e avançando em linha reta rumo ao povoado. Àquela assistiu em choque, imóvel onde estava.

Enfim, Estebán se aproximou devagar e colocou a mão no ombro da esposa.

— Eu estou legitimamente sem explicação — ele falou, franzindo o cenho. — O que foi isso?

— Ciúmes, Estebán? — Àquela comentou, sem desviar os olhos das costas do gigante. — Com medo de não ser mais o maior inimigo de Khao?

— O quê?!?

— Desculpe... — Ela esfregou as sobrancelhas, soltando um suspiro pesado. — É algo pessoal para ele. Ele tem uma rixa mortal com um desses soldados...

— Historicamente falando... Sabe quem é o único "soldado" do antigo exército de Glen Bearlord que sobreviveu à guerra, não sabe? — O Senhor do Sombrio comentou, a voz caindo num tom sombrio.

Àquela se assustou. As peças se encaixaram com uma clareza aterrorizante em sua mente. Ela o conhecera... lá em Yalatanil.

— Não... Não pode ser aquele sargento! — Ela empalideceu no mesmo instante, encarando o marido com os olhos arregalados. — Khao pode estar em perigo!


Rúnvald nos fez atravessar um micropátio antes do salão de missas, que ocupava pelo menos metade do espaço total da igreja.

Bancos organizados em quatro fileiras, separados por três alas com tapetes rústicos, concentravam a atenção em um pódio num palanque ligeiramente elevado, acompanhado por arcos que levavam ao interior do templo. Uma galeria funcional estendia-se tanto no térreo quanto no segundo piso. Fomos guiados à esquerda, para uma reentrância com uma cama improvisada, um balde ao lado e o cheiro de incensos de canela fortes tentativa de diminuir o fedor de gororoba e cerveja choca. O manguaceiro já estava lá, sendo acomodado pelos acólitos.

— Não vão dar algum energético ou um "lay-on-hands" para ajudar o cara? — perguntei, vendo o estado do sujeito.

— Ele vai estar bem em duas horas... — Rúnvald comentou displicentemente. — Uma vez por ano... Estamos acostumados.

De novo?!? O que diabos era aquilo? Mantra?

— Bem, se não for incômodo... — adiantai-me, ajeitando o cinto. — Como conseguimos uma audiência com o Monsenhor?

Rúnvald parou, atônito, encarando-me de cima a baixo.

— Sério? — Será que eu falei alguma coisa errada? Minha heráldica era péssima... vai ver o homem mais foda da igreja precisa de mais que estranhos chamando ele.

— ... Só se ele não estiver indisposto no momento — tentei aliviar a ousadia.

— Pode-se dizer que ele está bastante indisposto no momento — Rúnvald soou terrivelmente irônico. — Mas certamente vocês serão os convidados dele para o almoço. Querem um tour pelo arsenal enquanto esperam?

— Você disse... Arsenal? — Eu sussurro assombrado, e ciente da ironia.


Então, virando a quina do corredor, entendi exatamente onde estávamos.

— Essa é a armadura do Monsenhor?!? — espantei-me.

Era uma vitrine de madeira escura e vidro, embutida contra a parede de pedra. Dentro dela, exposta sobre um suporte quase invisível, repousava uma armadura completa.

Extremamente pesada. As placas de aço eram prateadas, polidas pelo tempo e cobertas por ornamentos gravados nos ombros, peitoral e pernas. O desenho mais chamativo estampava o peito: uma cabeça de bode com grandes chifres curvados. O rosto metálico parecia quase vivo, com olhos estreitos e uma expressão severa. Por baixo, tecidos verdes e castanhos ricamente bordados sobressaíam-se; um manto escuro caía pelas costas, enquanto uma longa faixa branca trazia bordado o símbolo de Cartallas, grande o suficiente para ser visto a léguas.

— É a cerimonial e de tempos de guerra total, mas não viu tanta ação assim — comentou o firbolg. — Mas se quer ver o que derrubou Caruthers e o Titã que aprisionou Phyrros, o Deus do Fogo... está ali atrás.


Espadas largas eram a minha especialidade. E aquela coisa enorme... era quase um escudo com pomo e cruzeta. Um ricasso protuberante, uma gema redonda azulada e três tipos de metal diferente ao longo da lâmina. Mesmo assim, exibia trincas que indicavam ter sido testada até o limite. Aquela lâmina viu ação...

Diferente da armadura, não havia proteção para ela. A lâmina estava apenas recostada sobre a parede de pedra. Na base, uma placa de latão trazia a inscrição:

— "Avalanche!" — suspirei. — Parece bem pesada...

— Mais ainda — Rúnvald riu, cruzando os braços. — Quer tentar levantar?

— Você não vai se encrencar? — insisti.

— Preocupado se alguém invadiria esta fortaleza, pegaria a espada pessoal do Monsenhor e fugiria? — Ele deu de ombros. — Se alguém conseguisse tal feito, seria um homem que não conseguiria dormir em paz sabendo quem o caçaria. Já eu... Só acho que você não a tira do chão.

Bem, eu não a levantaria aquela lâmina... se fosse uma questão puramente muscular.

Mas eu sou um Hexblade. É a força da minha personalidade e da minha determinação que guia e empunha a minha lâmina.

Para o absoluto choque do Cavaleiro Rúnvald, segurei o cabo de Avalanche com uma única mão e, num arranco limpo, a ergui bem acima da minha cabeça!

— [Não fique convencido...] — Gladys resmungou dentro do meu crânio, ciumenta como sempre. — [É só uma tábua de ferro velhaca!]

— Não... não é uma tábua... — murmurei, sentindo o ar rarefazer.

Imediatamente, o meu corpo... o chão... o corredor inteiro começaram a vibrar.

— Isso é impossível! — Rúnvald exclamou, descruzando os braços num salto. — Você sintonizou com a Avalanche?!?

— [Uma barra de ferro convencida e sem personalidade! Não é um verdadeiro artefato como eu!] — Gladys insistia em minha cabeça, mesmo eu estando maravilhado. — [Só deixa essa tranqueira aí!]

— Bentho... — Xitarro chamou baixinho, as orelhas dobradas para trás. — Abaixe isso aí!

— Isso é vento?!? — perguntei, sentindo os cabelos levantarem. — Não... é Gravidade! Ela... Ela gera a sua própria gravidade?!? É como ter uma montanha nas minhas mãos e...

Tentei baixá-la... Mas o peso gravitacional me puxou rápido demais.

BOOM!

A ponta da lâmina atingiu o piso de pedra. Uma onda de choque invisível e devastadora estendeu-se em pulso pelo corredor.

Quadros nas paredes despencaram.

A vitrine de madeira e vidro da armadura do Monsenhor estilhaçou-se em mil pedaços.

O balde de vômito do mendigo voou e rolou por cima de Xitarro — que só não foi banhado pela gororoba porque usou seus reflexos felinos para dar um salto mortal para o lado. Apenas a cama de madeira maciça onde o bêbado ressonava era pesada demais para ser lançada ao ar.

Um silêncio constrangedor e denso tomou conta do corredor coberto de poeira e cacos de vidro.

Rúnvald caminhou devagar, tomou a espada da minha mão sem dizer uma palavra e encarou o estrago. Por fim, suspirou:

— Eu vou pegar algumas vassouras.

— Nós vamos ajudar na limpeza... — comentei, engolindo em seco.

Obviamente — ele corrigiu, apontando o dedo na minha cara. — As vassouras são para vocês!

Eu e Xitarro fomos deixados lá, a sós com o mendigo e a bagunça.

— Bentho... — Xitarro censurou, limpando a poeira dos ombros. — Parece o navio dos Piratas Solares de novo... Vão precisar amarrar você?

Agora também são piratas... — o bêbado resmungou virando de lado e puxando o balde de volta. — Que turminha, menina!

— Bem, a culpa foi deles por nos dar santuário sem perguntar primeiro... — brinquei, tentando aliviar o peso da culpa. — Mas depois de tantas confusões, entre o Castelo Negro, Huo-Fen, Hálcora, o pântano, a Montanha Morta e a Mansão de Cyrak, eu acho que peguei o padrão.

— E qual seria?

— Um: Eu faço algo, dois: Dá confusão... — fui enumerando nos dedos. — Três: Tento fazer algo para dirimir, a confusão aumenta... E repete. Mas se a gente só aceitar a confusão que já fizemos, a coisa não piora. Concorda?

Xitarro coçou o queixo, avaliando a lógica duvidosa.

— Você consegue ficar parado?

— Vou considerar o desafio — puxei dois bancos de madeira do canto do corredor. Sentei-me em um e ofereci o outro ao monge.

Nos sentamos em silêncio, esperando Rúnvald voltar com as vassouras. Ou que Amellie aparecesse com a etiqueta e o bom senso que nos faltavam...

... Até que fomos sobressaltados por um urro monstruoso vindo do pátio externo:

— SARGENTOOO!!!

— SAIA AQUI FORA, SEU MERDA!

Eu... estava horrorizado. Sentira o chão da igreja tremer sob a vibração daquela voz.

— Eu... conheço essa voz — murmurei, com o sangue congelando nas veias.

Xitarro levantou-se num salto, escalou a parede de pedra com a agilidade de um felino e espiou por uma janela longa e estreita, três metros acima de nós. Quando desceu, caiu de pé, mas com o rosto completamente pálido.

— É... — disse ele, a voz falhando ligeiramente. — Ficar parado não ajudou. O Capitão Khao nos achou.

11 de setembro de 2026

EDGELORD - Cap. IV - Arco da Perseverança

 [Entre quatro e cinco anos atrás...]

O Monsenhor Capri Mordman, um dos homens mais poderosos daquelas terras, abriu os portões duplos de carvalho com um baque furioso.

— Eu nunca quis tanto SOCAR uma MULHER antes! — ele urrou, a voz ressoando pelas vigas do teto. O seu poderoso punho cerrado como se pudesse comprimir um carvão em diamante.

Eu corri atrás dele, tentando fechar as portas atrás de nós o mais rápido possível para que ninguém nos corredores ouvisse o surto de cólera do meu amigo.

— Fale baixo! — pedi, num sussurro desesperado. — E não, você não vai socar a Lady Ydal Bearlord!

— Tem razão... Seria rápido demais! — Ele se largou numa poltrona de couro na antecâmera cedida a nossa igreja em Bearlord, bufando e gesticulando. — Vou esganar... Apertar aquele pescocinho de franga. Não com toda a minha força, só o suficiente para ela definhar enquanto eu assisto!

— Capri, ela só tem essas provocações soltas agora! — Eu suava frio, tentando impedir que aqueles ataques de fúria ficassem à vista da nobreza local. — Você viu a carta que o capitão Jackie mandou de Portos Dourados. O Triunvirato está com você. A Ydal não tem como deter a expansão da Igreja agora!

— Olhe só... — Ele começou a rir, uma risada amarga que misturava fúria, ironia e consternação. Ele apontou para uma jarra de cristal transparente sobre a mesa, contendo um líquido vermelho-vivo. — Ela mandou uma JARRA de VINHO para nós! Isso é provocação direta!

— É mera cortesia diplomática! — tentei defender.

— Você tem quatorze anos, e eu sou amaldiçoado por Ênya! — ele observou, encarando o recipiente com desprezo. — É para provocar!

— E... E se for só um suco de fruta? Um ponche?

Eu mesma não acreditava no que estava dizendo, mas Capri parecia insultado pela simples insinuação.

Ele estendeu o dedo indicador e tocou na superfície do líquido. Nem precisou olhar para saber o resultado. Quase instantaneamente, a cor avermelhada desvaneceu, e o conteúdo se converteu em água cristalina.

— Obrigado, Ênya! Sua vaca! — ele resmungou para o teto. — Estou dizendo... Nós temos mais homens que a Marquesa. E os nossos homens são melhores que os dela! Os poucos que restam a ela são, em boa parte, devotos de Cartallas. Eu deveria simplesmente terraplanar aquele castelo com aquela franga dentro!

— Ótimo! — resmunguei, cruzando os braços e elevando a voz para iguala-lo. — E depois, tome Portos Dourados também! E por que parar lá? Shén-Li está além das montanhas! Crie você mesmo um império ao seu redor!

Eu me esgueirei por trás da poltrona dele e sussurrei, na altura de seu ouvido:

— Você me aleijaria e me colocaria numa cadeira de rodas também?

Capri se levantou num pulo, atordoado, como se tivesse levado um tapa.

— Não foi legal, Amellie! — protestou ele, ajustando a túnica.

— Eu sei... Pesado demais — me desculpei na hora. — Sinto muito. Mas quando você fica furioso, só o absurdo consegue entrar nessa sua cachola!

Ele respirou fundo, soltando o ar devagar até os ombros relaxarem.

— Certo. Vou me comportar — aceitou, por fim. — Obrigado... Agora... tem certeza que não quer vir comigo?

Eu hesitei.

— É meio mórbido demais... — usei como desculpa.

— É o cadáver do Menestrel Yawe Cyrak! — ele insistiu. — O meu batalhão morreu para colocá-lo naquele esquife!

Precisei de um esforço colossal de concentração para não reagir como a minha memória antiga exigia àquela observação.

— Você... Pode me dizer como era... o verdadeiro Marquês de Bearlord? — perguntei, mudando de assunto. — Você sempre dizia que odiava o homem... e tudo o que ele fez com você, com seus companheiros e com o seu povo...

Capri não pareceu abalado apesar da sensibilidade que aquele assunto deveria ter.

— Não leve a sério o meu discurso de "cutucar a carrapeta do demônio" — ele falou com certa leveza. — Sim, todo soldado tem suas rusgas com o superior. Mas isso não significa que não o respeitávamos. Ao menos em um exército saudável, isso é o normal.

— Mas ele ordenou que a sua companhia atacasse o exército bárbaro do Cyrak — observei. — Só você sobreviveu, e por pura sorte!

— O homem tinha uma visão, um ângulo estratégico — Capri comentou, olhando para a janela. — Não podemos julgar o passado apenas pelo que sabemos hoje. Ele ganhou a guerra a um preço alto, e isso lhe pesou pelo resto de seus anos. A cura vem com o presente e o futuro, não com o que não pode mudar. Eu sou a prova disso. Fui curado por Cardullion e hoje posso ajudar outros a se curarem.

Ele caminhou até o batente da porta dupla e se deteve por um segundo. Então, trancou a porta ficando dentro do cômodo.

— Então, talvez você esteja certa... — concluiu por fim. — Cutucar uma ferida antiga indo prestigiar o corpo exposto de um inimigo morto não seria saudável. E não vamos desperdiçar essa caríssima jarra de água pura que a Marquesa nos mandou, não é?

— Podemos beber em taças — comentei, rindo fraco.


[O PRESENTE]


A Igreja da Perseverança já era uma das três maiores religiões do continente. E olha que sua consolidação tinha pouco menos de cinco anos.

Quando penso nisso, lembro o quanto Amellie é foda.

E ela está na minha "companhia maligna". Fingindo que eu sou o chefe...

Xitarro, por sua vez, tinha sido previsto para se tornar o Exemplar dos Monges. Pau-a-pau com Lord Blunt, Menestrel Cyrak, Arquimago Myrlen, Fausto Katzophlis de Meliny...

Eu achei que tinha recebido um power boost desde os Piratas Solares. ~Ainda~ sou o menos impressionante da Ledgyão.

— Cara... a gente passou pela Igreja quando chegou e nem viu! — comento percebendo após a indicação que era um rochas vermelhas bem na entrada da cidade, mas parecia tudo, menos um templo.

Estou arrastando, junto com Xitarro, um mendigo malcheiroso que pesa algo próximo de meia tonelada.

— Eu achei que era uma fortaleza quando passamos, ou um estábulo. — Xitarro responde. — Talvez até fosse o castelo que a senhorita Amellie ia visitar a viúva ber-sei-la-o-quê.

Você disse... — O bêbado começa a falar. — Amellie foi ver Bearlord?

— Sim, a gente fala um nome, você diz "você disse" e repete a última coisa que a gente falou! — dou um esporro. — É feio escutar a conversa dos outros, sabia?

— B-Bentho? — Xitarro me cutuca.

— Tá... tá... desculpa, tiozinho. — Respiro fundo, dando um tapa amigável no mendigo. — As últimas horas foram meio estressantes para mim. Não deveria descontar em você. Entre a armadura de Lord Blunt que eu destruí e...

— [Corvos de Morval.] — Gladys interrompe meus pensamentos. Eu paro.

— Como é?

— [Corvos de Morval.]

— A gente está do outro lado do continente em relação a Huo-fen! Se sobrou alguém sequer em em Hálcora, não é...

— Só... olha para a frente, Bentho — Xitarro insiste.

Olho.

Ah.

Déjà vu.



___

Eu lembro que tinha todo um plano na cabeça na primeira vez que vim a Bearlord ao lado de Capri. Iria desgarrar da comitiva da Igreja. Esgueirar-me até o mausoléu, roubar de volta os melhores itens e levar um cacho de cabelos. Aquilo poderia ser a solução para o meu corpo original...

... Mas tive medo.

Eu podia dar a justificativa que quisesse — que precisaria abandonar a Igreja, que seria perseguida — mas a verdade era mais simples: foi um medo primitivo de encarar meu antigo corpo morto. Algo que teria de fazer agora, se quizesse ter uma audiência com Ydal.

Glen Bearlord queria o duelo. Acho que foi exatamente por isso que Cyrak o recusou, mesmo sabendo que venceria com pouca dificuldade. Quando o Marquês finalmente alcançou o acampamento principal dos bárbaros, Cyrak já estava morto... e eu "renascia" em um solar em Yalatanil.

Glen Bearlord se certificou de que o cadáver era genuíno; afinal, tinha todos os motivos do mundo para suspeitar de algum truque do Menestrel. Depois, restaurou o corpo a uma forma apresentável, o lacrou num esquife com seus itens pessoais e prestou os devidos ritos ao inimigo... Uma dignidade que, ironicamente, a própria esposa viria a lhe negar.

Mesmo com a Marca falida pela guerra e por suas consequências, Bearlord ergueu o mausoléu original para expor o corpo de Cyrak, além da estátua em homenagem à Infantaria da Montanha, sacrificada em nome da vitória. Ele investiu tudo para reanimar a moral de suas forças e, mais tarde, viu-se forçado a aceitar contratos mercenários em lugares como Portos Dourados para tentar se reerguer. Foi em uma dessas campanhas — na Guerra de Kazu Marzu contra os goblins — que Glen Bearlord encontrou seu fim.

Capri já não era mais um soldado de Bearlord na época, mas estava lá. Ainda não era o líder da Igreja, mas providenciou os primeiros arranjos para comunicar a Marquesa... E só agora eu descobria que aqueles tinham sido os únicos.

— Tamar, posso conversar um pouco com você?

— Claro, senhorita.

O chefe da guarda destoava completamente dos poucos guardas maltrapilhos que eu via enquanto era conduzida pelas áreas satélites do castelo. Não era apenas o equipamento bem-cuidado, mas a postura. Ele dissera que fora da Igreja; provavelmente tinha treinamento de cavaleiro e um senso de justiça que o lugar há muito esquecera.

— Como está o ânimo geral da fortaleza?

Tamar hesitou, ajustando a braçadeira de couro.

— Melhorou nos últimos anos — comentou, com a voz baixa. — Não há mais protestos populares nas portas por conta dos saques nas estradas, embora os habitantes mais tradicionalistas ainda reclamem do retorno dos bárbaros. Mas...

— ... Mas esses eventos são consequência da presença do Capítulo de Cardullion e seus cavaleiros andantes, não da administração da Marquesa — completei.

— Acredito que a Marquesa seja grata ao Monsenhor... — disse ele, medindo as palavras. — Graças a isso, podemos nos dedicar a outras atividades de que a região necessita.

— Conseguiu atrair companhias mineradoras? Exploradores? Geógrafos?

— Milady, eu... prefiro não...

— ... Não difamar a inaptitude de sua mestra? Como diria meu atual empregador: "Justo"... — interrompi com suavidade. — Eu entendo e não o culpo. E eu ficaria muito satisfeita em ter um defensor do seu calibre, e com a sua lealdade.

Eu olhei diretamente nos olhos dele.

... E senti que ele entendeu.

Entendeu que havia uma fagulha ali. Algo perigoso, silencioso e indispensável... algo que precisaria ser feito muito em breve.

___

Cinco homens estavam no caminho. Pareciam particularmente ameaçadores, talhados para a violência e prontos para ela. Não meros "posers"... 

— Okay... vocês são um pouco grandes para ladrões — observo. — E nem nos cercaram ainda. Temos corredor livre atrás de nós!

O homem que parecia ser o chefe sorri.

— Oh, vá em frente. Tentem correr. — Ele abre os braços. — Adoramos uma perseguição!

Okey, ele parecia falar sério...  e eu acho que vou roubar essa fala. Ficou muito maneira.

— Somos as Cinco Máscaras de Don-o-Ron! — Um ao lado dele comenta. 

— Você disse Don-o-Ron?! — Xitarro arregala os olhos. 

— Você também vai começar com isso de "você disse seilaoque"? — Resmungo com o monge.

— Bentho... Don-o-Ron é o "meu guaxinim" — Ele me lembra. — Aquele que você e Amellie acham que eu inventei! 

O líder se aproxima.

— Você deve ser Xitarro, o catfolk que concluiu a Era do Fogo Frio libertando nosso novo senhor.

Caramba.

A maluquice da história de Xitarro era real?

Ou pelo menos os ladrões cara-pintada acreditavam...

— Bem, senhores "Cinco Máscaras"... — largo o mendigo nas mãos de Xitarro. — Primeiro: excelente nome. dedicação ao tema...

Olho para as máscaras.

— E essas máscaras de guaxinim são tatuagens permanentes?

Um dos homens no fundo se arrepia.

— Você é louco?! É pintura lavável, claro! Temos vida fora da Guilda!

— Vocês ... Vocês são infinitamente melhores nisso do que meu último encontro com uma "guilda de ladrões", devo dizer. — Cruzo os braços, admirado. — Até usam espadas de verdade, e não tonfas!

— O que seria "tonfas"? — pergunta outro. Vou chamá-lo de *Máscara nº 3*.

— É uma arma idiota... — Esfrego as sobrancelhas. — Como eu descrevo para vocês... Bem pensem em...

— Bentho, eu tenho uma aqui. — Xitarro senta o cachaceiro atrás de um barril e abre a sacola.

— O... POR QUE você guardou uma dessas coisas?

— Lembrança de nossa primeira aventura junto em Hálcora! — O monge comenta. Ele saca a tonfa e joga para *Máscara nº 1*. O homem pega o objeto no ar com competência.

Olha para o cabo longo.

Olha para o cabo curto transversal.

Vira a arma de cabeça para baixo.

— Tipo... — ele começa. — É um martelinho de madeira? Precisa mirar a pecinha na testa de alguém?

— Não. — Respondo. — Eles seguram pelo cabo menor e giram o maior em grip invertido. Ou usam no antebraço como um escudo.

Os cinco se entreolham.

Silêncio.

— Mas... isso é imbecil.

Obrigado! — eu e Xitarro agradecemos em uníssono.

*Máscara nº 1* joga de volta a arma.

— Podem ficar com essas "fonfas". — Ele aponta para nossas mochilas. — Mas deixem todo o resto.

— Ah, cara... achei que a gente estava se dando bem.

— E estamos, vocês são divertidos! — diz a *Máscara nº 4*. — Mas negócios são negócios.

— Só me dá um segundinho para falar com meu associado? — Levanto um dedo. Não espero resposta.

___





Eu... estava... horrorizada.

Não cheguei a entrar no "meu" mausoléu à época em que vim com Capri, mas imaginava um prédio cerimonioso e respeitável. Grande, até. Mas o que encontrei agora... era a porcaria de um **SALÃO DE BAILE!**

Ouvia-se uma lira arranhada por uma senhora de talentos medianos bem na entrada. Os soldados dali usavam camisões em vez de uniformes e armaduras — pareciam garçons improvisados, não guardiões!

E o chão... assoalho de madeira nobre! Ela devia ter trazido do Distante Norte ou de Shén-Li. O fluxo de moedas de impostos claramente melhorara desde que a Cavalaria estabilizara a região, mas gastar aquilo num salão suntuoso e profano era simplesmente obsceno.

E lá estava a peça principal.

Não num altar reservado, mas no centro do salão como uma mesa de frios, imediatamente abaixo de um "trono" singular.

O cadáver do Menestrel Cyrak. Em um esquife de cristal.


— A escriba da Igreja... — disse Ydal, com um sorriso refinado que não chegava aos olhos para não provocar pés de galinha. — Como o tempo voa. A juventude tem esse hábito vulgar de parecer radiante sem precisar de esforço, não é? Aproveite cada segundo, Amellie... a decadência é uma cliente muito pontual para quem não tem onde investir.

— Minha senhora... — respondi, engolindo o empenho. — Acho que... evitei por tempo demais ver este esquife...

— Já ouviu falar das "viúvas de Cyrak"? — ela perguntou.

Após o encontro com Morgan, eu não me surpreenderia se Ydal já soubesse da verdade... mas não, era pura vaidade aristocrática.

— Elas são tão famosas quanto o próprio menestrel — pontuei.

— Todas falsas! — retrucou Ydal, abanando-se com o leque e expondo um decote desnecessariamente generoso em seu vestido azul. — Pois ele só morreu por uma! Não concorda? Só uma, sua última amante em vida, poderia clamar esse título.

— Minha senhora... — segurei o fôlego. — Devo dizer... vocês dois se mereciam.

— Pena que só o conheci quando já estava comprometida com meu pobre Glen... — ela começou, dedilhando o vidro com unhas pintadas.

— A senhora não me entendeu — eu a interrompi, sem sequer elevar a voz. — Poucos conhecem Cyrak como eu. Eu achava que ele era o ser vivo mais egoísta que os Deuses Antigos já haviam colocado nestas terras... Mas vejo que ele era apenas o segundo.

— Segundo? — Ela franziu o cenho.

Troquei um olhar rápido com Tamar.

— A injustiça é que, se a senhora não estivesse comprometida com Glen Bearlord, Cyrak jamais daria atenção a você... — complementei. — O que é uma pena. Eu imagino vocês dois como um glorioso e poderoso casal, fazendo a vida um do outro miserável *ad eternum*.

Ela começou a fechar a cara, dando os primeiros sinais de ofensa. Finalmente ela falava a mesma língua que eu! Eu estava a segundos de apenas dizer que ela era "feia e boba".

— A jovenzinha já foi mais educada no passado...

— A senhora quer ver um truque de mágica? - eu cortei com um ar inocente.

Ela arqueou as sobrancelhas, quase desprendendo um dos cílios postiços.

— Bem... poderia compensar essa sua língua ferina com algo assim.

— A senhora jamais abriu este esquife, nem o danificou, eu suponho? — perguntei.

— Ele é hermeticamente selado em cristal — a dama concordou. — Passei horas sobre ele no dia em que chegou. Conheço cada centímetro desta peça como conheço meu próprio corpo.

— Alguma vez tirou o anel da mão esquerda dele?

Ela se debruçou para olhar. Irônico para alguém que "conhecia cada centímetro" precisar conferir.

— É um anel mágico. Com uma carga da magia *Despedaçar* — expliquei. — Desde que o bruxo Morro, décimo Segundo portador da Gladius Aeternum, morreu por não conseguir atravessar uma claraboia no palácio da Rainha dos Malditos, Cyrak usava esse anel em vez de confiar no próprio corpo contra vidro temperado. Ele fugiu do seu marido usando esse truque, se não me engano, quando foram flagrados na primeira vez.

— Eu admito que não percebi... — ela se afastou, desconfiada. — Mas não calunie um evento sem saber ...

Ela achava que eu não tinha visto o sinal discreto que dera. Os "guardas-garçons" estavam se aproximando devagar... Mas o meu plano só funcionaria com eles a três metros de distância de mim, dou-lhe o tempo.

— Pois bem... — concluí. — Aprendi um truque na Montanha Morta...

Espalmei minhas mãos. Direita sobre a esquerda. Girei as palmas, invertendo a posição num movimento invisível aos olhos destreinados.

*Truque de Mãos*.

O anel de *Despedaçar* do Menestrel Cyrak já estava brilhando no meu próprio dedo. Ela constata um pouco atrasada, que não estava mais na mão do cadáver selado.

— GUARDAS! — ela urrou. — UMA LADRA!

Sempre havia ao menos uma carga guardada nesses anéis de loot.

Bati a mão com o anel contra o esquife de cristal e acionei o encanto.

Uma esfera trovejante explodiu ao meu redor. Ydal e seus guardinhas foram projetados para trás, com estilhaços de cristal cortando-lhes a pele e o ar. Sofri eu mesma um baque secundário pela onda de choque, mas permaneci de pé, firme no coração daquela explosão.

O esquife evaporara em mil pedaços.

Eu estava, finalmente, diante do meu antigo corpo.

— TAMAR! GUARDAS! — urrava a Marquesa no chão. — TODOS AQUI, AGORA!

Peguei o punhal na cintura do cadáver. A arma de apoio.

— Olá, *Dançarina*...

Sussurrei o comando. A adaga de prata saltou da bainha e voou em disparada até a entrada do salão, girando no ar contra qualquer um que se aproximasse. Os primeiros reforços que tentaram atender ao chamado foram pegos totalmente de surpresa. Não era um ataque mortal, mas, sem preparo, eles ficaram rendidos e acuados na alcova de acesso por preciosos segundos.

Passei a "saquear" a minha própria carcaça.

O chapéu emplumado — mestre em disfarces e ilusões.

Meu sabre... tantas lembranças, tantos duelos.

As botas de couro fino — precisaria vesti-las mais tarde...

O Anel de Estocagem. A pulseira com pó do sono.

E o principal prêmio... o Alaúde de Mogno atingido pelo trovão de Khyrator. Aquele cujas notas uma vez levaram a Velha Etiópia às lágrimas...

Um único acorde no instrumento original... e minha magia era maximizada.

Um grupo reservista vinha acelerando pela entrada dos fundos. Canalizei o *Padrão Hipnótico* através do alaúde. Uma luz espiralada tomou o corredor e todo aquele flanco paralisou em desespero, preso em ilusões escabrosas.

Os guardas-garçons originais recuperaram-se do ataque trovejante e avançaram sobre mim...

... Mas o Chefe Tamar interveio. Espada longa em punho, desarmando-os e brandindo a lâmina com a maestria de um veterano de guerra.

— O que você PENSA que está FAZENDO, TAMAR?!? — protestou a Marquesa, atônita.

Não sei, madame! — ele retrucou, chutando um dos seus ex-subordinados ao chão. — Pode ser loucura provisória, pode ser um encantamento contra meu melhor julgamento... — Um soldado tentou passar por ele para me alcançar, mas Tamar o deteve com um golpe de ombro violento que o fez capotar de costas. — ... Ou eu posso estar simplesmente retomando as rédeas das minhas convicções!

A Marquesa tentou correr em direção à saída... mas eu cortei sua rota.

Ou melhor, uma imagem ilusória minha cortou.

Ydal viu-se subitamente cercada. Quatro de mim, idênticas e sorridentes, bloqueavam cada saída.

Forcei-a a recuar passo a passo, até que ela tropeçou e caiu sentada em seu próprio "trono".



— V-você não pode ser a mesma Amellie com quem tratei por tantos anos! — gaguejou ela, encarando as ilusões. — V-você é uma impostora desbocada... uma ladra desprezível!

— Você está certa... — Aproximei-me, debruçando meu rosto a centímetros do dela. — Eu sou a Condessa do Crime, Janete Quá...

Ydal fechou os olhos e cobriu o rosto, encolhendo-se como se fosse receber um tapa.

Apenas me levantei, rindo fraco. Quem eu não havia derrubado, Tamar já tinha nocauteado no chão do salão. O capitão cobria meu recuo, e me acompanhava.

— E, segundo Cyrak... — pontuei, ajeitando o chapéu emplumado enquanto caminhava para fora do mausoléu. — Você *ronca*!

___

Recuo até Xitarro e o bêbado semiconsciente.

— Okey, estamos carregados de gemas para o Portal da Igreja... — Eu relembro. — Então, sermos assaltados não é uma opção para restaurar a Virgilia Sombria. 

Não vou nem falar nada... - "gorfa" o mendigo bêbado.

— Bentho... — Xitarro fala baixo. — É idêntico a Hálcora, quando fomos emboscados pelos Corvos.

— Bem... não tanto.

— Você estava sem poder usar a armadura. — Ele olha para os homens. — Estava tentando me proteger...

— Neste caso, eu quero poupar o mendigão ali. — Aponto para o bêbado. E ele parece estar tentando se levantar... melhor que os mascarados o ignorasse...

— Eu posso com eles. — Xitarro fecha os punhos. — Eu assumo a dianteira. Você me cobre com os raios da espada.

— Sei não. — Observo as Cinco Máscaras. — Eles obviamente são melhores que os Corvos tem até espadas de verdade!

— E eu fiquei mais forte desde Hálcora! — Ele dá um passo à frente. — Você disse que eu devia ser o rival do Capitão Khao, mas não me deixa pegar uns bandidos?

Você disse Khao? — resmunga o mendigo. 

Olho para ele censurando.

Desculpe. — ele acena, e volta a nos ignorar.

Volto meu olhar para as Cinco Máscaras. Realmente poderíamos correr, deixando o manguaçeiro para trás. Xitarro com certeza conseguiria despistá-los. Eu, talvez.

Mas carregando aquela massa de músculos e cerveja seria impossível. Seria falta de honra deixá-lo para trás. E também pegaria mal o futuro Senhor do Sombrio ser expulso de mais uma cidade.

— Vou tentar o que fiz com os lobos — digo enfim. — Intimidar eles.

— Melhor não... — Xitarro insiste.

Melhor não... — o bêbado concorda, acho.

— [Comigo, são três votos.] — Gladys sussurra na minha mente.

Olho para os três.

— Okay, Ledgyão... — Aponto para Xitarro. Depois para o bêbado. — ...e Agregado.

O cachaceiro ergue uma sobrancelha.

— Sugestão anotada. Mas vou tomar uma decisão executiva agora.

E começo a andar na direção das Cinco Máscaras.

— Eu sou Bentho, principal servo de Lord Edgy, o Herdeiro da Escuridão, e portador do arsenal de Lord Blunt. Portanto, pensem muito bem antes de decidir se realmente querem descobrir o que acontece quando alguém desafia o homem que carrega o poder de dois dos maiores nomes do Sombrio. Podemos fazer negócios no futuro, mas não com vocês faltando pedaços! Estamos entendidos?!

Devo ter falado muito maneiro... porque os cinco começaram a ficar brancos.

Xitarro colou nas minhas costas, gaguejando.

Será que eu intimidei ele também?

— EU PERGUNTEI!

Eu estava na crista da onda. Materializei Gladius Aeternum na minha mão e gritei:

— ESTAMOS ENTENDIDOS?!




— P-perdão, mo-mo-mo-senhor... — Máscara 1 respondeu. Acho que ele quis dizer “meu senhor”. — Não o reconhecemos.

Ele guardou as espadas. Os demais ou as atiraram fora ou simplesmente correram para longe.

Hmm... minha lenda já chegou até aqui?

— Como eu disse... — dou de ombros. — todos cometem erro e ...

— Vamos voltar para o Assentamento Ymosso. — ele fala, enfim, abaforado. — Não vamos voltar ao povoado. Prometemos!

— Ei! — resmungo. — Não é para tanto! Eu estava pensando em fazermos uma alian...

**BAQUE.**

Só ouvi um som pesado atrás de mim, comparável à avalanche da Montanha Morta.

Em algum momento, o velho bêbado tinha se levantado atrás de mim, enquanto eu intimidava as Máscaras. Ficou de pé por alguns segundos, cambaleando, até despencar pesadamente para trás.

E agora estava roncando.

— Pôrra, Xitarro! — resmungo. — Eu estava ocupado... por que não pegou ele?!

— B-Bentho... — o cara ainda estava abalado. Devo diminuir minha aura na próxima vez.

— Ele poderia ter se machucado... ou machucado algo menor, como... uma casa! — resmungo. — Bora indo. Estamos quase lá. E, dormindo, ele enche o saco menos.

— [Ah, isso vai ser divertido...]

— O quê, Gladys?

— [Te conto depois.]