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10 de agosto de 2026

EDGELORD - Cap. XVI FINAL - Arco da Montanha Morta

Por que dói tanto?

Andar...

...Respirar...


É como se cada fibra do meu corpo repudiasse o que estou prestes a fazer. Uma voz no meu íntimo repete que é um erro, mas a teimosia — ou o Destino — diz que eu deveria ir mesmo assim.

Myrlen testemunhou a favor dela. O filho de Blunt também. Estamos falando de alguém que mente, floreia a realidade e joga o jogo longo. Alguém sem a menor consideração pelos outros. Não seria absurdo pensar que eles estavam errados a seu respeito...

...Mas...

SAIAM DAQUI! — o urro de Amellie ecoa pelo corredor.

Duas espectras atravessam a madeira da porta, expulsas sem o menor pingo de cerimônia ou etiqueta. Franzi o cenho, desgostosa. Nunca vi Cyrak perder a calma dessa forma vulgar.

Aproximei-me. Aquela porta, que em outros tempos esteve trancada para mim como um símbolo da minha própria insegurança... Movi a maçaneta.

Estava destrancada.

— Outra aparição...? — resmungou Amellie, atirada na cama, de costas para a entrada. Ela lançou um olhar de soslaio, constatou que era eu, e encolheu-se ainda mais no colchão, virando a cara.

Lembro-me bem deste quarto. Não como o refúgio onde definhei nos últimos três anos, mas como o palco de um ato de rebeldia da minha juventude. Myrlen proibiu. Denunciou. O Destino já havia me mostrado quem Cyrak se tornaria, e acho que foi justamente por ser uma péssima ideia — por ser estritamente proibido — que tomei a estupidez de entrar aqui pela primeira vez.

E me feri.

Então... como eu poderia culpá-lo por fazer o mesmo que fiz? Embora, convenhamos, ele tenha repetido o erro infinitamente mais vezes.

Ajeitei minha coluna dolorida e sentei-me na beirada do colchão, mantendo uma distância prudente e a postura rígida.

— Só para seu governo... — comecei, o tom seco de sempre — ...não dei com a língua nos dentes para os seus dois amigos lá embaixo.

— E por que daria essa cortesia? — retrucou ela, banhada em ironia. Mas alcancei um pigarro disfarçado, travado na garganta dela.

— Bem, o Destino me soprou que um "inimigo" traria a revelação a todos...

— E não seria você? — O deboche era claro.

— Eu não sou sua inimiga — respondi, ranzinza, ajeitando o xale sobre os ombros. — Nem mesmo fui inimiga de Cyrak. Por mais que ele merecesse.

Amellie enxugou o rosto com o dorso da mão, de forma discreta. Fui... tolerante o bastante para fingir que não vi.

— Posso saber por que você me trata... e ao Cyrak... como se fôssemos duas pessoas distintas? — perguntou ela, a voz fraca.

— Myrlen costumava dizer que enxergava duas almas diferentes — comentei, olhando para o teto. — E é prudente aceitar o julgamento do Exemplar dos Magos, por mais irritante que ele fosse.

— Um idiota arrogante que sequer previu as consequências da própria sabotagem — esbravejou Amellie, amargurada. — Ele não sabia que, ao alterar meu homúnculo para o corpo de uma garotinha de treze anos, eu perderia meus poderes. Perderia... tudo.

— Nunca entendi direito essa mecânica... — confessei, estreitando os olhos, desconfiada.

— A Arte de Cyrak exige maestria absoluta de corpo e alma — explicou ela. — A forma como a Palavra da Criação responde à voz, a memória muscular... Milhares de variações ínfimas. A mudança de gênero, o timbre, a própria altura... A magia dos magos opera em uma bancada; a minha era o próprio corpo. Eu... perdi minha identidade e todo o resto. E como o seu precioso "Destino" já confirmou, jamais terei o poder de Cyrak novamente. Uma grande derrapagem do seu querido irmãozão Myrlen.

— Eu prevejo que havia sabedoria em tudo o que ele fazia, mesmo quando ele próprio duvidava — rebati, sem querer dar o braço a torcer. Mudei o apoio na bengala e encarei a garota. — Já sabemos o que Cyrak perdeu... Agora me diga: o que ele ganhou com essa palhaçada?

— A desculpa perfeita para frequentar vestiários femininos? — debochou ela.

— Eu diria que ganhou uma nova lenda — retruquei, soltando um tsc contrariado. — Soube do que você fez por Cardullion... e na Ordem de Cartallas. A minha dúvida é... por que não tomou uma iniciativa dessas... por mim?

Amellie entrelaçou os dedos, escondendo-os entre os joelhos.

— Eu tentei no enterro de Myrlem — confessou, baixo. — Mas antes, fui atrás de Ydal Bearlord... aquela...

— Aquela dondoca insuportável! — resmunguei antes que pudesse me conter. A interrupção arrancou uma risada sincera dela. Um som limpo que há muito não ecoava nesta casa.

— Sabe que nunca daria certo entre você e Cyrak, não sabe? — disse ela, fitando as próprias mãos. — Cyrak era patologicamente incapaz de não ser a pessoa mais interessante da sala. E ele jamais conseguiria esse destaque se você estivesse no mesmo recinto.

Senti um nó seco na garganta. Não esperava por aquela confissão.

— Amellie... — murmurei, tentando manter meu habitual tom crítico, embora minha voz tenha falhado levemente. — Você dedicou a sua nova vida a perseguir obsessivamente o fantasma do bardo, e os estragos de Cyrak... Sabe o que isso faz de você?

Ela esboçou um sorriso triste.

— Mais uma das "viúvas".

— Pois está mais do que na hora de quebrar esse círculo ridículo — decretei, batendo a ponta da bengala no chão de madeira. — Há dois jovens lá embaixo que não têm laço algum com o passado de Cyrak, e que o Destino entrelaçou com o seu caminho.

— Sim... — concordou ela, o olhar perdido. — Mas isso não vai durar.

— Nada dura nessa vida, garota — resmunguei, sentindo a amargura habitual dar lugar a algo mais brando. — É exatamente isso que faz cada momento ser precioso.

Olhei para ela. Tão pequena, carregando o fardo de duas vidas e a sombra de um homem que consumiu a todos nós. Soltei um suspiro pesado, rendendo-me ao cansaço e à compaixão. Devagar, estendi o braço e passei-o por seus ombros, puxando-a para perto. Minhas lágrimas há muito haviam secado, mas senti o calor do rosto dela contra meu peito. Amellie recostou a cabeça no meu ombro, permitindo-se ruir por um instante.

— Agora, falando sério... — disse ela, a voz abafada contra meu tecido. — Como a gente sai desse mausoléu condenado?

Suspirei, olhando para o teto mofado.

— Eu não faço a menor ideia...

— Então já passou da hora de perguntar ao seu querido "Destino".

— Eu tentei... — admiti, franzindo o cenho. — Mas ele me devolveu uma resposta enigmática. Disse que a saída é algo que você "ainda não me mostrou".

Amellie ergueu a cabeça, intrigada.

— Mas você sabe tudo sobre mim... Sobre as minhas duas vidas...

— Aparentemente, não tudo.

— Eu não teria como esconder algo do Destino, teria?

— Precisaria ser algo absurdamente pessoal — comentei, ponderando.

De repente, os olhos de Amellie se arregalaram. Um estalo.

— Ou algo que eu tenha... uma vergonha mortal.

— Vá por mim... — ironizei, soltando um escarro de riso, não percebendo como ela estava ficando abalada. — Yawe Cyrak era um descarado sem vergonha. Não acho que...

— Eu sei onde fica a porta! — Amellie colocou-se de pé num pulo, as mãos na cabeça. — Meu Deus... eu quase prefiro ser engolida pelo Vazio! É algo tão doentio que o Cyrak... Eu... eu não sei se tenho coragem de mostrar isso para o Bentho! para o Xitarro!

— Acho que você não tem muita escolha — retruquei, embora estivesse genuinamente curiosa com o escândalo.

Ela encarou-me, hesitante, os lábios trêmulos.

— O seu dom... — começou ela. — Ele abrange wishful thinking?

— Como é?

— A Teoria dos Futuros Possíveis — explicou apressadamente. — Algo que, se tudo der certo... se houver a menor das chances...

— Ah. chamamos de "A Pérola da Concha Não Nascida" — assenti, adotando um tom mais solene. — É mais arte do que ciência profética, mas não está fora do alcance da minha visão.

Amellie deu dois passos e ajoelhou-se à minha frente. Segurou minhas mãos calejadas e enrugadas com firmeza, abrindo sua mente e compartilhando a sua centelha comigo.


Fechei os olhos. E então... eu vi.

Um vislumbre de algo que talvez venha a acontecer. Um destino ainda não escrito nas páginas do presente, mas pelo qual valeria a pena queimar até a última gota de vida para alcançar.

Naquela visão, o jovem filho de Blunt estava ao lado dela. Não como um fantoche ou um fardo, mas como um companheiro de alma.

Vi Lady Àquela. A mulher imponente que outrora vi a estar em lágrimas... mas não de dor. Eram lágrimas de uma repreensão afetuosa, transbordando uma felicidade genuína.

Tudo por causa de uma garotinha. Uma vida pequenina que ainda estava por vir...


...E que carregava o meu nome. Morgan.

Abri os olhos devagar. O calor úmido finalmente voltou às minhas órbitas, e reencontrei minhas próprias lágrimas, descendo livremente pelas rugas do meu rosto.

A jovem que, em outra vida, fora meu amante inconsequente e o símbolo de toda a minha rebeldia, abraçou-me com força. E ali, no silêncio daquela mansão prestes a ruiu, ela me ensinou a última e mais bela lição: a de como alcançar a perpetuidade verdadeira, mesmo quando chegar a hora de cruzar os portões entre a vida e a morte.





— A-Amellie?! — perguntei, dando um passo à frente.

Ela estava estranha. Pálida, estática, envolta em um silêncio pesado.

— O que aquela bruxa velha fez com você?! — levantei-me de sobressalto, o peito apertado ao vê-la daquele jeito.

— Ela... nos salvou — murmurou a barda, a voz quase inaudível.

Não compreendi de imediato. Amellie desceu as escadas de forma hesitante, como se cada degrau exigisse um esforço monumental. Caminhou até o quadro-negro e apanhou um pedaço de giz. Com mãos levemente trêmulas, desenhou um retângulo imperfeito no terceiro piso extrapolando o mapa, logo acima do telhado do segundo andar.

— O que é isso? Um quarto oculto? — indagou Xitarro, inclinando a cabeça.

— Bentho... tente lembrar — disse ela, encarando-me fixamente. — Foi aqui que você viu a estrutura da mansão se projetar para fora da montanha?

Amellie achava que minha visão no espaço estivesse enevoada pela projeção, mas eu estava em puro hiperfoco. Na minha mente, foi como pegar o desenho dela e sobrepô-lo com exatidão à imagem que gravei quando encontrei Katzophlis.

— É muito provável — afirmei por fim. — Vamos lá verificar?

— Eu... não sei se deveríamos ...
Amellie sequer conseguiu terminar a frase. O foyer ruiu sob nossos pés com um estrondo ensurdecedor. Uma rachadura colossal cortou a estrutura da mansão de ponta a ponta. quase nos separou. O Vazio devorava agora a planta básica da Mansão Perpétua.

— Não... — balbuciou ela, os olhos arregalados. — Está desmoronando rápido demais! MORGAN!!

Amellie saltou sobre a fenda e disparou rumo à escadaria. Parti imediatamente atrás dela. Mal vi quando Xitarro a alcançou, emparelhando ao seu lado. Então, o felino cravou as garras no piso e a segurou à força. Amellie debateu-se, tentando avançar a todo custo.

A escadaria dava direto para o abismo. O corredor, a lareira, a mesa de chá... Onde quer que Madame Morgan estivesse, o Vazio já havia devorado tudo.

— Eu vejo os destroços! — urrou a barda, as lágrimas lavando-lhe o rosto. — Ainda dá tempo!

— Não dá tempo de ir *e* voltar! A mansão está ruindo enquanto falamos! — gritei, segurando-a. — Eu sinto muito, Amellie...

A barda dobrou os joelhos, sufocando um grito na garganta... até que o chão simplesmente deixou de sustentá-la, e ela se elevou. 

— Ops! Lá se vai a gravidade de novo! — alertou Xitarro. — Terceiro piso, certo?!

Senti o felino agarrar a mim e a Amellie ao mesmo tempo, impulsionando-se e a nós para cima com um salto limpo aproveitando a falta de peso. A parte superior da casa ainda estava inteira, mas desmanchava-se a olhos vistos. Flutuamos lentamente até alcançar o alçapão do sótão, onde a gravidade subitamente voltou a nos puxar.

— Amellie... — chamei. — A porta! Nos leve a ela!

Ela parecia estar em transe. Não pensava, apenas agia por puro instinto de sobrevivência. Correu pelo sótão atulhado de caixas, memórias e quinquilharias: um espelho que refletia o ambiente, mas não as nossas figuras; um mapa do continente riscado de destinos; vestimentas antigas de cores constrangedoramente extravagantes; e o retrato em tela de uma jovem élfica triste de eras passadas, usando um penteado idêntico ao de Amellie.

Por fim, ela parou diante de um armário pesado. Ao empurrá-lo, a madeira podre desfez-se em poeira, revelando uma portinhola tão estreita que precisaríamos passar de lado.

— Vocês não podem abrir os olhos lá dentro. Em hipótese alguma — decretou Amellie, virando-se para nós.

— Tem uma medusa ou uma cocatriz lá dentro?! — cismei.

Amellie morde a língua, contendo a frustração.

— Bentho, lance Escuridão! Agora!

— O quê?! — estranei.

— Por favor! — suplicou ela, com um pavor genuíno na voz. — O que quer que esteja lá dentro... vocês não podem ver! É sério!

Lembrei-me instantaneamente da conversa que tive com Xitarro sobre segredos e sobre esconder coisas. Talvez não nos coubesse expor quem alguém realmente foi no canto mais isolado e protegido de sua própria mente.

— Teremos que andar às cegas... — murmurei. Conjurei a magia, e uma esfera de trevas absolutas nos envolveu no mesmo instante em que metade do sótão era tragada pelo nada, outra metade era tragado por minha escuridão.

— Eu posso nos guiar — disse eu.

— Como assim?! Você está ENXERGANDO?! — protestou Amellie.

— Eu tenho a Visão Diabólica, esqueceu? — resmunguei. — E a Gladys também vê nas trevas!

— Jogue a espada fora e se vede! — ordenou Amellie, desesperada.

— Isso é um absurdo...

— BENTHO!! — o grito dela rasgou o ar. — Você pode conjurar a Gladius Aeternum de volta assim que cruzarmos o portão! Mas ninguém pode ver o conteúdo deste quarto!

O casarão mergulhou num silêncio sepulcral. Eu via as fendas de nada avançando em nossa direção. Até mesmo o sótão estava se desintegrando.

— Mão na parede, Xitarro — instruí, enquanto rasgava um pedaço da minha capa e vendava meus olhos firmemente, e soltava a espada no vazio. — Gladys, eu juro que te puxo de volta!

— Achei a porta... — avisou Xitarro, no escuro. — Posso abrir, Amellie?

Nenhuma resposta.

— Amellie?! — chamei.

Minha voz ecoou de forma estranha, abafada, exatamente como quando flutuamos no Vazio. O som estava sendo sugado. O ar estava sumindo.

Só mais tarde Amellie nos contaria o motivo de não ter respondido.




O chão sob os pés dela cedeu, e ela foi tragada para a imensidão rosa e rubra. Ela gritou, mas não ouvimos. Estávamos cegos também. Ela flutuava cada vez mais rápido para longe, carregando consigo a chave vermelha. Não tinha a Gladius para ancorá-la, nem o bastão de Xitarro. Do seu ponto de vista, ela via a mim e ao catfolk nos afastarmos, prestes a sermos consumidos pelo nada.

Então, seu corpo girou involuntariamente no vácuo. Ao olhar para a direção oposta, ela a viu...

Madame Morgan.

A anciã parecia "voar" — ou ao menos foi assim que Amellie descreveu depois. Segurava a bengala à frente, como se conduzisse o próprio voo, solta no Vazio e perdida na imensidão.

O que Amellie não sabia era que o tempo da oráculo já havia se esgotado. Morgan tossia sangue quando ninguém estava olhando; fora um martírio físico insuportável, permitido pelo Destino, ir até a Suíte Major naquela última conversa... Mas a anciã não morreria sozinha. Ao menos: Foi o que Amellie decidiu.

A barda abriu braços e pernas, disposta a usar o próprio corpo para se chocar contra a idosa e afundarem juntas no esquecimento. Mas a anciã percebeu a intenção de Amellie. E foi exatamente para isso que servia a bengala.

Morgan a usava muito antes de caminhar se tornar um fardo insuportável. Suas pernas não ganhavam força alguma com o apoio de madeira... A bengala existia para lhe dar alguns centímetros a mais de alcance, maior que os dos braços de Amellie. Para exatamente aquele momento.

Com um único toque firme do cabo no peito de Amellie, os vetores de movimento se inverteram.

A barda foi impulsionada de volta na direção oposta, sem conseguir alcançar a anciã, que foi flutuando suavemente para a profundeza do Vazio. Não havia som no vácuo, mas no semblante da Irmã do Mago havia algo inquestionável: serenidade.



Quando arranquei a venda dos olhos, Amellie estava "caindo para cima" pelo buraco do assoalho. Apressadamente, estiquei o braço e a puxei para cima com toda a força que tinha.

— O que aconteceu?! — gritei.

— A venda! — exigiu ela, monossilábica, a voz embargada. Ela não queria se distrair. Não podia.

Há muito tempo eu não sabia o que era tatear no escuro graças ao meu pacto, mas a sensação tátil era inegável: o piso daquele cômodo secreto era terrivelmente grudento. Xitarro reclamou baixinho de haver esbarrado em algo úmido e viscoso. Um cheiro denso de petróleo misturado a eucalipto impregnava o ar sufocante.

Pelo tato, as paredes pareciam todas forradas de couro macio. Bati a cabeça em algo pesado que pendia do teto por uma corrente.

— Não olhem para NADA! — urrou Amellie. — Há uma portinhola de meio metro de altura no fim deste corredor!

Xitarro alcançou a extremidade do quarto. Tateou a madeira e ouvimos o tilintar do penduricalho metálico da fechadura.

— Por Aetíades, não me derrube essa chave! — orou a barda, tateando até entregar a peça rubra nas mãos do catfolk.

O fecho cedeu. Ouvi o uivo do vento. Senti um puxão gravitatacional violento.

Mal tive tempo de estender a mão e conjurar Gladius Aeternum de volta para a minha posse.

No segundo seguinte, fomos arremessados sob um céu arroxeado, despencando de uma altura de oito metros diretamente na encosta de uma montanha.

Rolamos descontroladamente pela rasteira cascalhenta. Xitarro recuperou o equilíbrio com a agilidade felina, mas vi Amellie se arranhando inteira enquanto deslizava rapidamente rumo a um precipício.

Joguei-me de cabeça. A armadura pesada fez-me deslizar quase sem atrito pela pedra. Alcancei a barda pelo pulso e finquei Gladys com toda a força na rocha maciça.

O impacto travou nossa queda. Amellie ficou com as pernas penduradas sobre um despenhadeiro de dezenas de metros, voltado para um vale imenso onde a cor predominante era o marrom-terroso.

A Ravina Avelã.

Estávamos de volta ao nosso mundo. Mais especificamente: nas Montanhas Castanhas.

Xitarro correu pela encosta e ajudou-me a içar Amellie para terra firme. Por um momento, pensei que ela estivesse em choque por quase ter despencado no abismo.

Não era isso. Era o luto.




Ela agarrou o peitoral da minha armadura com força desmedida e desabou num choro copioso e dolorido. Eu não podia me levantar. Apenas a abracei de volta com toda a força que consegui reunir, protegendo-a contra o vento da montanha.

Xitarro permaneceu a poucos passos de nós, observando o vale em silêncio. Uma sentinela vigilante.

Sobrevivemos à Mansão Perpétua de Cyrak — o nosso desafio mais denso até aqui. Não por enfrentarmos monstros ancestrais como o Eyespy, nem por confrontarmos Lord Blunt ou a Nova Guarda. Foi o desafio mais difícil porque não havia nenhum monstro para matar. Só coisas dentro de nós que preferíamos que ninguém encontrasse.

Mas nós precisávamos continuar.

Precisávamos... Perseverar.

Vou chamar menos por Aetíades a partir de agora... ou resmungar menos o nome de Bophades.

Esta é a terra de Cartallas.



PRÓXIMO ARCO: A PERSEVERANÇA!




5 de agosto de 2026

EDGELORD - Cap. XV - Arco da Montanha Morta

Bem-vindo à Mansão Perpétua de Cyrak. O prato do dia: Torta de climão.

A velha Madame Morgan levantou a voz para Amellie. Sabe, aquela mesma língua ferina que faz meu pai, o terrível Lord Blunt, preferir imobilizar a dar a chance de ela falar algo e desestruturá-lo?

Amellie só ouviu. Assimilou. Baixou a cabeça e saiu.

Caminhou em passos firmes — obviamente pesados pela raiva contida — enquanto subia as escadarias do Foyer até desaparecer no segundo piso.

— Eu estou acomodada na Suíte Major! — resmungou Morgan em tom alto, fazendo questão de ser ouvida.

— Não mais! — respondeu Amellie lá do alto.

Levou alguns segundos antes de ouvirmos uma porta bater com força.

— Bem... — puxei a palavra. — Na falta da oradora do grupo, eu me vejo na obrigação de perguntar... Que MERDA é essa, vovó?!

A bruaca se arrepiou de espanto. Estranho para uma oráculo "não ver o que vinha".

— Linguagem, jovemzinho! — resmungou ela.

— O caralho! — retruquei. — Estou cansado de ver a senhora nos tratando como lixo estando no mesmo balde que a gente, esperando o mesmo lixeiro recolher!

— Eu vi e vivi os Segredos do universo e do destino, seu pivete, que você nem...

— Sim, e o que viu é que vai morrer num mausoléu sozinha, exatamente como Cyrak morreu! — Levantei a voz. — Amellie jamais será Cyrak? Pode ter certeza! E nem falo de gente como o Capitão Lizzo, minha mãe e toda a Igreja da Perseverança, que ela elevou ao seu melhor potencial. Se a gente não sair desse casebre, a Amellie vai ter a mim... — Hesitei por um segundo antes de emendar: — ...e ao Xitarro ao lado dela. Cyrak não vale a sombra dela. A SENHORA não vale a sombra dela!

As sobrancelhas dela se cerraram.

— Você acredita mesmo que Amellie vale tudo isso? — resmungou a velha. — Que ela não fez nada disso apenas por glória e prestígio?

— Eu... eu nem sei por que preciso me justificar a VOCÊ, dentre todas as pessoas.

Comecei a caminhar em direção à escadaria, ia atraz dela... Mas a bengala da velha foi atravessada no meu caminho.

— Me deixe tentar remediar, então — resmungou ela.

— Com essa má vontade? — protestei, empurrando a bengala para tirá-la da minha frente.

— Por favor.

Ok... essa me pegou desguarnecido.

Dei um passo para trás. A velha começou a caminhar em direção à escada... Não sei se estava literalmente queimando seu tempo restante de vida ou se era apenas limitação de movimento... mas começou a subir as escadas.

Sentei-me no sofá e deixei o sangue esfriar. Xitarro sentou-se ao meu lado.

— B-bentho... — ele começou. — Você falou... Não diria "bonito", tinha palavrões demais... Mas falou bem.

— Obrigado.

— Você acredita mesmo nisso? — perguntou Xitarro. — Amellie claramente tem coisas que não nos conta.

— Coisas de que tem vergonha — falei. — Mas se for importante, ela falaria. Não está resmungando por causa da barraquinha arcana de novo, está?

— Eu... Só acho que somos um grupo. Em teoria, amigos — disse ele. — Esconder coisas dos amigos, mesmo que seja para protegê-los... não sei se seria o certo. Você não faria isso.

Essa não.

Afundei no sofá.

— Faria sim, Xitarro.

— Eu não acho...

É... não tinha mais jeito.

Abri minha mochila e saquei um caderno velho, mofado.

— Ei... — Xitarro comentou, inclinando a cabeça. — Eu já vi esse livrinho!

— É o diário do capitão. Do navio em que você naufragou.

Xitarro arregalou os olhos.

— Eu lembro... Derramei tinta nele quando tinha dez anos...

— O capitão completou o diário. Leia as duas últimas páginas.

Entreguei o livro a ele. Xitarro hesitou.

Eu sabia exatamente o que ele leria. Mais insultos velados à criança. E, de repente, a tempestade. O navio encalhando. O pequeno catfolk caindo no mar. Sendo avistado e ignorado pela tripulação que abandonava a embarcação...

...Pelos seus próprios pais.



Xitarro ficou alguns segundos olhando para o nada. Em transe.

— Eu sinto muito, Xitarro.

— Eu... deduzi que eles tinham esquecido de mim — o monge comentou, a voz baixa.

Ele abriu a boca, mas ficou em silêncio alguns segundos antes de completar...

— Não imaginei que tivesse sido tão rápido.

— Eu deveria ter te contado. Isso foi imperdoável, e nem acredito nas minhas próprias desculpas. — falei. — Mas a Gladys comentou... Não importa.

— O que ela falou? A espada? — ele perguntou, ainda em choque. — É importante.

Respirei fundo.

— Quando nos conhecemos... você estava com tanto medo de ser deixado para trás que a Gladys comentou comigo. Ela disse que eu poderia usar esse seu medo para te moldar. Quebrar seu espírito para você odiar o mundo e virar um capanga sob o meu controle.

Xitarro congelou. As orelhas baixaram de vez.

— Eu achei... cruel — continuei, encarando as minhas próprias mãos. — Mas pensei que estava te protegendo ao não contar do diário. E não estava.

— A Gladys falou isso...? — Xitarro perguntou. — Eu... Estava sim, e isso... isso dói. Mas eu precisava ouvir. Obrigado.

— Você pode gritar comigo ou sentir raiva — comentei. — Prometo fazer de tudo para reconquistar sua confiança. Mas...

— Você achou que estava me protegendo da Gladys... — Xitarro insistiu. Ele ainda parecia desorientado. — E talvez tenha me ajudado. Estamos de boa!

Não sei se ele estava realmente "de boa"... mas não parecia guardar hostilidade comigo, o que era um alívio imenso.

— Então... — perguntei, ainda hesitante. — Acha que a Amellie está escondendo algo assim da gente?

Xitarro olhou para mim lentamente, com os olhos arregalados.

Há dois dias...

O PACTO DA MONTANHA MORTA

Meu nome é Amellie... e passei a última hora tramando com os pais de meu melhor amigo. O tempo era curto. Gladys podia estranhar se percebesse Blunt e Àquela parados tanto tempo tão perto de nós.

Só tínhamos uma hora. Traçamos os planos.

Não poderíamos parecer aliados, ou Gladys perceberia...

...Isso me garantiria mais algum tempo com Bentho... Dias talvez. Até o inevitável momento em que o segredo seria revelado. E eu seria tão não-grata quanto tantos que mentiram para ele.

Estendi a esfera a Estebán. Era um sofisticado comunicador de duas vias, e seria usado em exceções.

— Bem, acho que essas bolinhas sempre foram suas, não é?

Ele olhou sério para o meu gesto, ponderando.

— Entregue a Àquela — ele falou seco, afastando-se.

Não entendi no momento... Mas logo vi.

Ela desviou o olhar.

Eu desviei.

Não importa quantas vidas eu viva, sempre decepciono as melhores pessoas. Por algum motivo, Blunt queria que eu falasse com a esposa. Bentho tinha comentado como Lady Àquela idealizava a figura da "Senhorita Amellie", a professora de ópera. Ela não devia ter muitas amigas fora as nobres deslumbradas pelo mito dela, ou os militares...

...E eu era apenas outra impostora.

— Eu... Estebán pediu para entregar a você...

— Eu ouvi — ela respondeu.

Ficamos em silêncio enquanto ela apanhava a esfera mensageira que tínhamos "encontrado" no cofre da Montanha Morta.

— Não atendam imediatamente, pode ser Bentho ou Xitarro brincando com minhas coisas. — adiantai. — Esperem a imagem aparecer.

— Farei isso — ela disse, desviando o olhar. Bem... era um progresso não ter um par de flechas mirando nos meus olhos.

— E também... — arrisquei. — Independentemente do que eu fiz... do que eu sou... Pense no Bentho. Vocês dois precisam um do outro.

Àquela baixou o semblante.

— Você quer ser chamada de "Amellie"... É assim que se identifica — apontou ela. — Eu vou respeitar isso.

Eu queria sorrir. Queria abraçá-la. Queria pedir um perdão mais apropriado.

Mas não era adequado. Não tínhamos tempo.

Contei em minha mente enquanto deixava a cena do complô. Blunt e Àquela me deram uma dianteira de uma hora. Quanto tempo eu conseguiria guardar aquele segredo?

...Quase nada.


Dobro uma esquina e vejo Xitarro.

Sentado. Abraçando os joelhos. Encarando o vazio.

Eu sou bem atenta... Àquela era uma militar treinada... Blunt era sobrenatural, se nenhum de nós o percebeu, então a capacidade dele de ficar quieto era assustadora... Mas Xitarro simplesmente estava ali.

— Olá, amigo... — comecei.

— Oi... — ele falou, tentando inutilmente esconder o choque. — Eu vi um guaxinim falante.

— Mesmo? — perguntei. — E o que mais?

Ele baixou o semblante.

— Eu vi você e os pais do Bentho tramando contra ele.

Direto e sincero.

— Não é contra ele — sentei-me ao seu lado. — Eu temo pelo que a Gladys pode fazer com ele. Tenho motivos para crer que a Espada está jogando com as nossas vidas.

— E por que não contou para o Bentho?

— A Espada está constantemente na mente dele — expliquei. — Com experiência, ele poderia aprender a segmentar pensamentos como o Estebán faz... Mas é perigoso, e não temos tempo... Você entende?

— Eu não sei... — ele falou.

— Xitarro, eu só quero o melhor para o Bentho — falei, por fim. — Mas preciso ser cuidadosa. Se você não confiar em mim, pode ficar de olho. Prometo que jamais farei nada de ruim para você ou para ele...

— Eu não sei se posso...

— Eu não sei se EU posso! — ri fraco. — E olha que mentiras meio que são a minha vida. Não quero envolver você... E se tudo mais der errado, eu assumo a culpa e arcarei com as consequências. Prometo que não vai ter nada entre você e o Bentho... Só quero protegê-lo da Gladys, entende?

Ele fez que sim com a cabeça, mas eu sabia que não. Só esperava que ele entendesse no caminho, antes que o pior acontecesse. Não sabia como eu poderia convencer a ele que Gladius Aeternum não tinha o melhor para nós em suas intensões...

— Não — Xitarro respondeu sem piscar.  — Amellie está de boa.

— Bem... — Dei os ombros, sem imaginar o peso daquele silêncio. — A propósito: parabéns pela vindoura promoção a Exemplar.

Ele piscou, saindo do transe e ponderando por alguns segundos.

— Como assim?

— A coisa que Madame Morgan previu. —Dou um tapinha nos ombros dele. — Se não sou eu e não é a Amellie, sobrou você. O futuro Exemplar dos Monges! Mesmo nível de meu pai!

— Mas monges vivem em monastérios longínquos para virar monges alto-sei-lá-o-quê...

— Você viveu em uma ilha por cinco anos e bate mais forte do que muitos tenentes que eu já vi!

— C-catfolks vivem no máximo trinta anos! Monges não precisam ser anciões com séculos de...

— Monges de alto nível, quando passam a controlar o próprio corpo, simplesmente param de envelhecer — Lembrei. — Acho que ficar agindo como capanga pode só atrasar seu apogeu...

Xitarro baixou o semblante.

— Sei lá... Não gosto de saber meu destino — resmungou ele. — Preferia só curtir com meus amigos.

— É... — Estiquei os ombros. — A Madame Morgan estava certa sobre isso... Mesmo destinos teoricamente "bons" estragam a jornada e a surpresa.

— Ela é sábia... Embora rancorosa — ele comentou. — Espero que saiba lidar melhor com a Amellie...


4 de agosto de 2026

Simple Wish

 

Desejo Simples (Simple Wish)

by Matt Mercer
3º nível de Conjuração
Tempo de Conjuração: 1 ação
Alcance: Pessoal
Componentes: V
Duração: Instantânea

Desejo Simples é, bem, certamente uma magia versátil sob a maioria dos critérios. Ao pronunciar em voz alta algo bastante simples, você dobra um minúsculo fragmento da realidade na tentativa de torná-lo real.

O uso básico desta magia é duplicar qualquer outra magia de 2º nível ou inferior. Por ser uma magia de 3º nível, possui grande utilidade. Se você a usar desta forma, não precisa cumprir nenhum requisito ou componente da magia duplicada; ela simplesmente entra em vigor.

Como alternativa, você pode criar um dos seguintes efeitos:

  • Criação de Objeto: Você cria um objeto não mágico valendo até 50 peças de ouro.
  • Ligeiramente Mais Saudável: Você permite que você mesmo e até 2 criaturas que possa ver recuperem 2d6 pontos de vida.
  • Resistência Breve: Você concede a até 5 criaturas que possa ver resistência a um tipo de dano à sua escolha. Esta resistência dura até o final do seu próximo turno.
  • Perícia Repentina: Você se torna proficiente em uma perícia à sua escolha por 1 minute, e seu bônus de proficiência para essa perícia é dobrado durante a duração.

Remodelar a Realidade Simples... Mais ou Menos: Você pode desejar algo que não esteja incluído em nenhum dos outros efeitos, mas deve ser algo razoavelmente pequeno e que geralmente afete apenas o momento presente, outra criatura que você possa ver, ou a si mesmo de maneira menor. Para fazê-lo, declare seu desejo simples ao Mestre o mais precisamente possível.

O Mestre possui grande liberdade para decidir o que ocorre em tal instância; quanto maior for o desejo simples, maior a probabilidade de que algo dê hilariamente errado. A magia pode simplesmente falhar, ou produzir um resultado inesperado. Por exemplo, desejar que um inimigo perigoso caia de um penhasco pode fazer com que um inimigo não visto tropece de um muro acima e caia diretamente em cima de você.

Se o seu desejo for concedido e seus efeitos gerarem consequências para toda uma facção ou cidade, é provável que você atraia inimigos ligeiramente mais poderosos (embora ainda apenas moderadamente acima do nível apropriado para o grupo).

Se você desejar um item mágico incomum ou mais raro, em vez disso pode criar uma réplica inflável dele ao seu alcance.

Se você tentar desejar desfazer o próprio multiverso, ameaçar a cidade de Sigil ou afetar a Senhora da Dor de qualquer maneira, você claramente não leu esta descrição nem se importou em jogar dentro das fronteiras amorfas desta magia, e os genitais do seu personagem murcham, transformando-se no rosto de uma bruxa velha que se diverte zombando de você.

29 de julho de 2026

EDGELORD - Cap. XIV - Arco da Montanha Morta

O PRESENTE


Chegamos a uma biblioteca. Na verdade, chamá-la assim era um elogio generoso — aquilo era um autêntico "Salão da Vaidade". As prateleiras abrigavam exclusivamente livros escritos por Cyrak ou tomos inteiros dedicados a falar sobre Cyrak. Quadros do bardo cobriam as paredes, muitos deles ao lado de suas famosas "conquistas". Pelos cortes de cabelo e estilos de roupas das acompanhantes, ficava claro que ele havia cruzado eras e terras distantes. Não sabíamos se havia ali alguma ordem cronológica ou uma hierarquia de preferência... mas notamos, sem precisar dizer uma palavra, uma mancha retangular e vazia na parede. O papel de parede rasgado identificava a retirada brusca de um quadro. Onde provavelmente figurava uma jovem Madame Morgan. Achamos melhor não comentar.

Logo em seguida, as espectras trouxeram um quadro enorme montado sobre rodas de rolamento, riscado com giz colorido. Nele, via-se um mapa meticuloso da Mansão, dividido em seus três níveis.

— Eu cortaria as portas próximas à entrada... — comentei, cruzando os braços. — Já que sabemos que é onde ficava a Cabaninha, daria direto no meio da avalanche.

— Acho que todo o andar térreo pode ser ignorado — observou Amellie, inclinando-se sobre o mapa. — Pelo que Gladys disse, estávamos perto da saída da montanha, mas, geometricamente, ela é mais larga embaixo do que em cima. Concordam?

— Hmm... O terceiro piso é estreito... Os andares mais baixos vão mais longe... Não dá para simplesmente eliminar um andar inteiro sem... O que é isso, Amellie?

Minha atenção se desviou do mapa para o livro de capa vermelha e sem estampa que ela manuseava. Parecia um manuscrito artesanal à primeira vista, mas o relevo prensado na borda do couro não enganava: era um tomo com o selo do Castelo Negro.

Não era um livro qualquer. Era um objeto com história, carregado de uma importância silenciosa que ressoava desde o Arco II.

— "O Devorador de Nomes" — disse ela, acariciando a lombada com uma mescla de nostalgia e respeito. — Seu pai me deu no tempo em que morei com vocês no Castelo Negro. Cyrak e Blunt já se conheciam na época, mas precisaram unir forças contra uma criatura... Uma espécie de Eyespy que tomou esteroides.

— E você vai deixar um tomo original do Castelo Negro aqui?!

— Claro que não — Amellie sorriu fraco, segurando o livro junto ao peito. — Mas Cyrak amava guardar histórias sobre si mesmo... E esta em particular o deixou tão empolgado, lutar ao lado de outra lenda, que ele sequer se lembrava dos detalhes reais. Blunt escreveu tudo em segredo. E como a Casa pode gerar e preservar uma cópia... veja.

Amellie pousou o volume vermelho sobre uma bandeja de prata no balcão.

Uma das espectras surgiu atrás do balcão e mergulhou as mãos translúcidas na capa como quem entra na água. A superfície do livro ondulou e um segundo exemplar emergiu entre seus braços. A fantasma acomodou a cópia na estante e sorriu.

— Viu? A Mansão guarda a cópia e a história não se perde.

Ela pegou o volume novinho em folha e me entregou, pegando o original da estante para oferecer a Xitarro.

— E você leia este. — A barda insiste. — Para conhecer um pouco de Cyrak... fora só o "Bardo tarado" que devem ter aprendido.

— Eu? — O felino pareceu genuinamente surpreso.

— Você é quem mais vai gostar.

Xitarro abriu o volume enquanto caminhávamos. Mal percorreu duas páginas e começou a comentar...

— O narrador fala muito rebuscado, e é quase clínico. Parece evitar qualquer adjetivo desnecessário... — Folheou mais algumas. — Mas quando Cyrak entra em cena, o texto muda completamente. Começa a florear. Frases mais longas, comparações poéticas. A impressão é que o pai do Bentho está tentando preservar a forma como ele falava. Eu acho que esse contraste cria um ruído narrativo, mas reforça que esse Cyrak era incapaz de falar normalmente.

Fiquei olhando para ele por um instante, alternando entre o livro e o felino. Aquela análise literária profunda foi um choque. E ver Xitarro dissecando a conduta de Cyrak daquela forma me lembrava o quanto o fantasma daquele bardo parecia infectar tudo ao nosso redor.

Olhei para a minha cópia e suspirei.

— Eu não consegui ler. — Dei com os ombros frustrado.

Amellie respondeu sem levantar os olhos do mapa:

— Não se culpe. A escrita do seu pai é densa mesmo.

— Não... — Balancei a cabeça negativamente. — Eu não consegui ler.

Virei o livro na direção deles. O silêncio na biblioteca caiu de uma só vez.



As páginas da minha cópia eram um caos. Cada frase usava uma caligrafia diferente; algumas letras cresciam até ocupar meia página, enquanto outras encolhiam ao tamanho de grãos de areia. Parágrafos inteiros faziam espirais e linhas atravessavam as margens, cruzando-se até desaparecer. Era como se a magia da Mansão tivesse desmontado a obra e colado as palavras no escuro.

Amellie puxou o volume das minhas mãos. Franziu o cenho, folheando mais duas páginas com urgência antes de olhar discretamente para a estante onde o original repousava. Eu conferi a cópia de Xitarro... a letra de meu pai era belíssima, quase uma prensa. Não podia ser mais diferente.

— Será que é alguma proteção de meu pai? — pergunto. — E funciona com pergaminhos?

— Eu... não sei dizer... — Amellie parecia frustrada. — Mas não, não replica pergaminhos.

— Falando nisso... — eu lembro. — O que era aquele que achamos no cofre da Montanha Morta?

— Um truque. — Amellie sorri. — Meio bobo mas bem prático... veja...

Amellie espalma a chave rubra. Coloca-a na palma da mão esquerda que estava completamente horizontal. Cobre com a mão direita e então gira os pulsos, fazendo a mão de cima trocar de lugar com a mão de baixo.

Ao abrir as mãos, a chave havia sumido.

— Hey! — Xitarro se assusta. Ele estava com a chave em suas mãos, quase cinco metros afastado de Amellie, e comigo no caminho.

— Chama de "Truque de Mãos". Não confundir com "Prestidigitação", que tem nome parecido em Élfico. — Ela diz, repetindo o gesto, mas com as mãos vazias, recuperando a peça. — Bom para pegar pequenas coisas, equipar itens, ao alcance dos olhos. Suspeito que funciona através de vidros e frestas, vou testar mais à frente.

— Tem algum "Laboratório arcano" aqui? — Eu pergunto.

Amellie volta a olhar o livro que estava na minha mão. Uma espectra o toma e leva para a estante.

— Vamos testar algumas portas antes. — Ela fala enfim. — Ala oeste, segundo piso.


— Este é meu quarto! — Xitarro declara.

Nós nos separamos de Amellie em algum momento. Achei um corredor de serviços, e uma série de portões de ferro... mas quando abrimos, parecia um jardim, ou um pedaço de uma floresta tropical.

— X-xitarro... — eu sussurro, tentando ser educado.

— É muito parecido com meu quarto na Ilha dos Gatos... Só menor. — Ele subia em uma árvore artificial, e depois pula até uma rocha. — Ei, olha só... — ele acha uma "gaveta" na pedra. — Isso é tira-gosto!

— Eu diria... "Ração"... — Comento. Eu caminho até atravessar a "selva" e encontro um vidro espesso que separava de um corredor mais arrumado, e outras como aquela, com vegetação ligeiramente diferente. — Isto é um zoológico, XItarro!

— Não! — Ele não parecia aceitar. — Vai ver esse tal de Cyrak só não era fã de privacidade. Essa janela aí é meio exposta...

— O que vocês dois estão fazendo?!? — Amellie surgia, do outro lado da "Janela". — Como vocês entraram aí?!?

— Eu achei um acesso estreito nos fundos. — Comento. — Vai ver as "peladonas" podem cansar de atravessar portas e paredes...

— Amellie... — Xitarroo parecia desafiante. — Pode dizer ao Bentho o que exatamente é isto aqui? EU digo que é um hotel!

— É um Menagerie! — Ela fala sem hesitar.

— A-ha! — Ele comemora, apontando para mim. — Ele falou que era um zoológico!

— Ele está mais perto do correto do que você. — Ela comenta. — Uma coleção de criaturas raras... mais um catálogo vivo.

O catfolk perde o ânimo.

— Então isto aqui não é decoração?

Ele afasta uma moita, revelando uma carcaça de ossos brancos limpos, quase cartunescos. O osso não estava quebrado. Não havia marcas de dentes. Não havia sangue, nem cheiro ruim.

Apenas... um animal que parecia ter simplesmente deixado de existir.

— Primeiro o livro, agora isso?!? — Amellie resmungou. — Não são animais de verdade, são cópias. E a casa deveria nutri-los... O "Devorador de Nomes"!

— O... O "Eyespy com esteroides"? — Me arrepiei da cabeça aos pés. — Tem um aqui?!?

Amellie parecia nem me ouvir. Ela começou a andar apressada pelo longo corredor, examinando os habitats do Menagerie um por um... até que perdeu o passo e começou a flutuar.

— Benthooooo! — ela gritou. O corpo dela começava a subir sem controle rumo ao teto.

O caminho pelo corredor de serviço seria demorado demais para contornar. Mas Xitarro pensou rápido.

Ele arremessou seu bastão com densidade máxima, partindo a vidraça espessa em mil cacos e nos dando um acesso direto. Eu corro na frente.

— Gladys, me ancore! — pedi rápido. — A gravidade maluca voltou!

Saquei a espada e corri atrás da barda. Em poucos passos senti meus próprios pés querendo deixar o chão; antes de perder o contato com o piso, dei um salto desesperado para alcançar a barra do vestido dela. Gladys percebeu a manobra, fincou-se firme e começou a nos puxar de volta para onde a gravidade ainda funcionava.

Amellie olhou para a ala oeste. Podíamos ver vasos e mobílias inteiras flutuando no ar, além da luz do exterior entrando muito mais forte do que deveria. Nenhum sinal de vida nos outros habitats.



Metade da ala oeste da mansão estava simplesmente inacessível — devorada pelo Vazio.



— Sim... — Madame Morgan coordenava com calma duas espectras enquanto ajeitavam o sofá que nos salvara na chegada. — A Mansão Permanente de Cyrak está morrendo.

— E quando pretendia nos dizer?! — Amellie se revoltou, os punhos cerrados ao lado do corpo.

— Eu ficaria preocupado em saber que uma mansão supostamente "perpétua" está morrendo... — Xitarro comentou, a orelha abaixada.

— Cyrak era a âncora desta criação... e Cyrak está morto. Não é verdade? — A anciã lançou um olhar profundamente insinuante para Amellie, desfrutando do silêncio tenso. — A ala Norte foi a primeira a ceder. Uma pena. O "Labirinto de Espelhos", onde qualquer um que olhasse via apenas o reflexo de Cyrak, era uma verdadeira obra de arte. Assim como o camarim dele, que conseguiu ser maior do que o próprio anfiteatro.

— Amellie... — Olhei para a barda, juntando as peças na minha cabeça. — Você, como a nova "dona" do legado dele... não pode fazer nada?

Amellie apenas encarou a anciã, o olhar pesado. Morgan soltou uma risada seca e zombeteira.

— Como o quê? Criar uma nova?! — A megera espantou com a mão a última espectra que arrumava as almofadas.

— Espera aí... — comentei, dando um passo à frente enquanto a lógica se desenhava na minha mente. lembrei da frase exata dela, até imitei a voz dela ao repetir, com razoável precisão. — "Você vai passar seus últimos anos aqui até encontrar três jovens. Um deles em breve será um Exemplar."

Morgan piscou, surpresa por um milissegundo:

— É... é algo que eu de fato disse.

— Eu sou multiclasse, o que me desqualifica na hora, já que Exemplares exigem pureza absoluta na sua arte — comecei, organizando os fatos com frieza. — Mas Amellie... Ela carrega a essência pura de Bardo, domina a teoria, tem o talento prático e, acima de tudo... não caiu na armadilha do ego. Enquanto Cyrak usava a magia para erguer estátuas de si mesmo e quartos de espelhos, Amellie usa o bardo para consertar estragos e cuidar do grupo. Se a profecia exige um purista em sua forma mais elevada, e alguém ultraqualificada... a próxima Exemplar só pode ser ela.

Madame Morgan, a lendária "Irmã do Mago", caiu na gargalhada.

Foi uma risada tão violenta e rasgada que temi que ela expelisse o próprio pulmão ali mesmo no tapete, como se eu tivesse acabado de proferir a maior estupidez de toda a história do continente.

Aos poucos, a crise de tosse passou. Ela se recompôs lentamente, ajeitou a postura na bengala e nos encarou com aquele olhar austero, frio e cruel que só cinquenta anos de amargura conseguem lapidar.

Então, ela decretou:


— Amellie Silverleaf JAMAIS será nem mesmo a sombra do que foi Cyrak!


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22 de julho de 2026

EDGELORD - Cap. XIII - Arco da Montanha Morta

O casal subia as escadarias em passos rápidos, banhado pela luz violeta que atravessava os vitrais do patamar. Na mão da jovem, a chave de metal vermelho reluzia como uma promessa. Era mais do que um pedaço de ferro antigo: era o passe livre para os domínios mais íntimos do Menestrel.

Alcançaram o corredor do segundo piso, diante da porta dos aposentos principais. A jovem adiantou-se, alinhando a chave à fechadura enquanto se esquivava, em uma manobra calculada e provocativa, dos toques que o acompanhante tentava lhe roubar pela cintura.

Girou o metal. A porta continuou trancada.

— É para usar aqui, não é? — ela perguntou, ajustando a postura. — Não achei que entrar no quarto do bardo seria tão difícil.

— Só uma pergunta antes — o rapaz murmurou com uma calma sugestiva, dando um passo à frente. — Depois disso, a porta se abre.

A jovem estranhou a hesitação e tentou encarar os olhos evasivos dele. Foi quando notou o objeto que ele mantinha oculto sob o terno: uma bengala de madeira escura, elegante e curvada no topo.



— Para que isso? — perguntou ele, franzindo o cenho. Nem se deu ao trabalho de como conseguiu roubar a bengala dela sem ser visto.

— Ah, não é para agora — disse a garota, tomando o objeto da mão dele com um sorriso misterioso. — Mas, um dia, vou precisar dela. Quero que as pessoas comecem a associar essa peça à minha imagem.

— Meio mórbido para a sua idade, não acha? — ele provocou, tentando puxar a bengala de volta. Ela se esquivou com leveza e cravou a ponta de madeira no chão de mármore, apoiando-se com a elegância severa de quem treinava para o futuro.

— Essa será a "Madame Morgan" em breve — afirmou ela, erguendo o queixo, com uma postura austera, jocosa. — Agora... a porta.

— Está aberta.

Morgan franziu a testa. Virou a maçaneta e, desta vez, o fecho cedeu sem resistência.

— O seu controle sobre este lugar é... tão preciso assim? — ela desconfiou, entreabrindo a madeira.

— Quando se vive no Vazio, onde nada existe, o potencial de criação é ilimitado — explicou o jovem meio-elfo, ajeitando a gola com um charme estudado. — Uma pena que eu não consiga levar nada daqui para o mundo lá fora. Exceto a chave.

— E você quer mesmo me convencer de que tenho acesso livre a esta mansão? — Morgan provocou, cruzando os braços. — Que posso vir quando quiser e não terei surpresas?

— Eu prometo — ele respondeu sem piscar.

Era um mentiroso impecável. Morgan teria acreditado em qualquer outra circunstância, não fosse a sua própria natureza.

Ao empurrar a porta do salão, porém, a promessa ruiu imediata e comicamente. Duas figuras femininas e diáfanas surgiram flutuando pelo corredor. Morgan deu um salto para trás, sobressaltada pela nudez escandalosa das espectras.

— Opa! Perdão, perdão! — adiantou-se o rapaz, erguendo a mão rapidamente. Com um gesto teatral de dedos, a névoa mágica ao redor das servas se retorceu, esticando o tecido translúcido até cobrir-lhes o terno e o colo. Ele deu um sorriso sem-graça, dando de ombros. — É... o melhor que posso fazer.

Morgan encarou a mágica com um olhar de puro ceticismo. Ela sabia reconhecer um improviso desajeitado quando via um.

— Eu acho que as suas ideias de decoração são um tanto... peculiares — murmurou a jovem.

— Elas são apenas manifestações para a limpeza! — o bardo defendeu-se prontamente. — São imateriais, frias e sem personalidade alguma. Diferente daquele outro charlatão que constrói chatôs que duram vinte e quatro horas, esta Mansão é perpétua. Ela precisa de manutenção... e meu inconsciente acabou moldando essas servas assim.

As duas espectras flutuaram pelo corredor fora, ignorando a presença dos dois.

— Peço desculpas se foi desrespeitoso — ele emendou, suavizando o tom de voz para aquele tom aveludado que costumava dobrar reinos inteiros.

— V-vamos jantar primeiro? — Morgan tentou mudar de assunto, sentindo o ambiente esquentar. — Eu ainda tenho dúvidas e...

— Minha reputação a intimida, senhorita?

— Não... Digo... — Ela pigarreou, tentando recuperar a compostura. — Eu não estou aqui contra a minha vontade. E se isto vai ser um erro? Certamente. Você não vai deixar de ouvir do meu irmão... e nem eu.

— Eu ainda voto que Myrlen não precisa saber de nada disso — o rapaz piscou, dando meio passo na direção dela. — Mas a decisão é sua.

Morgan estacou, pensativa. O silêncio entre os dois pesou no corredor violeta.

— Só me prometa uma coisa... O que quer que aconteça aqui hoje — ela falou, a voz perdendo a afetação defensiva —, você estará aqui amanhã de manhã.

— Eu prometo — respondeu ele, sem receios, com segurança e naturalidade. — O Salão dos Banquetes está pronto. E sem espectras.

Ele era charmoso, atencioso e impecavelmente respeitoso. Mas era tudo um teatro. E Morgan sabia disso.

O erro dela não fora ceder ao charme do bardo, mas ter olhado para o futuro antes de subir aquelas escadas.

Morgan sabia que Cyrak não estaria ali na manhã seguinte. Sabia que a chave rubra que segurava na mão só voltaria a funcionar cinco décadas mais tarde, quando o grande Menestrel já não passasse de uma memória morta. Ela não buscava um companheiro, um casamento ou promessas eternas; queria apenas uma aventura sem consequências, convencida de que tinha o controle da situação.

Ela pretendia não se envolver.

Mas envolveu-se. E aquele único encontro desencadearia uma sequência de eventos devastadores para os dois.

O Presente

Eu, Amellie e Xitarro fomos até as portas duplas, as mesmas pelas quais entramos. Amellie ainda olhava por cima dos ombros. Madame Morgan nos encarava do alto das escadas.

A chave rubra encaixou na fechadura das portas duplas do foyer. O metal rangeu, a tranca cedeu, mas a madeira mal se moveu um centímetro. Pela fresta, só se via uma parede maciça de rocha escura e esmagada — o resultado da avalanche da Montanha Morta.

— Satisfeito? — Morgan perguntou, bebendo o resto do chá sem qualquer pressa. — Cyrak podia transitar por aqui como quisesse, mas a chave era um acesso com precauções. A mansão flutua no Vazio seguindo o proprietário, então usar portas é a forma mais segura de não sair embaixo de uma avalanche.

— Então você está presa aqui conosco? — Amellie provocou. — Ou só estava esperando a gente para escapar?

— E como você pretende escapar, Amellie? — a velha falou, com tom divertido.

— A casa, a porta... — eu tentava compreender a regra. — Ela tem uma "correspondência" física com o nosso mundo? Tipo: a parte da frente é onde estava a barranquinha, e por aí vai?

— A caverna colapsada era grande o suficiente para acomodar toda a mansão — Amellie comentou.

— Toda não, tem uma parte "fora" da montanha — eu comentei. — Quando eu... "me projetei" na direção de Katzophlis, eu olhei para baixo... vi a mansão sobreposta à montanha. Tinha um canto do lado de fora da rocha.

— Tem certeza, Bentho? — Amellie segurava minha capa. — Você estava na quinta dimensão, e ainda estava anuviado pelo Eyespy. E a mansão pode ter se movido desde então...

— Senhora Morgan? — Xitarro observou. — O que a senhora acha?

A anciã parecia considerar.

— Se vocês vão pedir piedade ao Destino, não me peçam opiniões — ela resmungou.

— C-como assim? — eu me adiantai. — Se a gente achar uma saída daqui, podemos levar a senhora junto.

— Eu não ouvi meu próprio conselho — a velha falou. — O Destino não é como o que vocês classificam como "deuses". Ele é como um "autor" escrevendo um livro... e ele vive exclusivamente no Presente. Ele começou a escrever uma história, digamos... — Ela olhou para nós três, fingindo escolher alguém ao acaso. — Digamos a Amellie. No momento em que ela nasceu, ele projetou o que ela iria ser e que seu final seria ficar presa aqui, neste mausoléu extraplanar.

Ela fez uma pausa deliberada.

— Mas digamos que, à medida que vive o presente e escreve a vida de Amellie, ele comece a gostar dela. Ou odiar, ou ficar curioso. Acha que ela perecer aqui seria um desserviço à história. Então, ele deixa uma pista. Uma esperança. Um "garoto" que viu uma forma de sair, e ela sai.

— Está dizendo que profecias podem ser mudadas? — Amellie estranhou.

— De forma alguma — a anciã resmungou. — Digo que há esperança até o Destino decidir se comprometer na página. Nós, visionárias e oráculos, temos acesso a ele. Digamos que eu pergunte: "Qual é o seu plano para Amellie?", e ele me confidencie: "Ah, aquela garota que fala alto? Vai ficar presa no casarão". O Destino se pronunciou. Mesmo se ele mudar de ideia ao longo do caminho, não vai querer se fazer passar por mentiroso para mim. Você morreria aqui.

Amellie olhou para aquela figura austera, encarando a casca desgostosa de uma mulher que já vira o próprio fim.

— Você perguntou sobre você, não foi? — disse a barda, enfim.

— Eu fiz tudo de errado, cometi todos os erros de uma visionária. — a velha resmungou. — "Destino, meu irmão tem uma doença. Eu vou ter também?" "Sim", ele respondeu. — Madame Morgan simulava o diálogo. — "Vou sofrer como meu irmão?" "Não, você vai definhar em paz, mas na casa de Cyrak." "Eu vou ter a oportunidade de sair de lá?"

Ela fez uma pausa.

— "Você vai passar seus últimos anos aqui até encontrar três jovens. Um deles em breve será um Exemplar, como lhe foi negado. Mas seu destino é jamais deixar a Casa de Cyrak."

Ela corrigiu sua postura e girou os calcanhares com dificuldade, apoiada pela bengala.

— Eu posso perguntar sobre vocês... mas podem não gostar da resposta. Não saber pode ser sua única salvação.

Ela se afastou, com o agora tão familiar barulho da bengala contra o mármore.

É... O clima pesou.

— Amellie, sabíamos que vir para cá era um salto de fé, um tiro no escuro — comentei, quebrando o silêncio para tentar resgatar o que sobrava da nossa moral. — Ao menos temos tempo, espaço e recursos aqui. Acredite, se saímos vivos da avalanche, isso aqui vai ser muito mais fácil!

A barda estava cabisbaixa.

— Vamos testar outras portas — ela comentou. — Mas primeiro, vamos nos acomodar.

Assenti em silêncio, mas minha mente já estava em outro lugar. Mais especificamente, na dinâmica bizarra entre Amellie e uma das tais “viúvas”.

Pelo pouco que me lembrava da época, o Menestrel Cyrak era o suprassumo do pior tipo de bardo. Um meio-elfo mulherengo que parecia ter um fetiche quase cirúrgico por mulheres "proibidas" — fossem casadas, noivas ou simplesmente fora do seu alcance. Ele seduzia, conquistava e, assim que o charme perdia a novidade, desaparecia no mapa.

Quando ele morreu na Guerra de Bearlord, há uns cinco anos, o drama não acabou. Enquanto o corpo dele virava peça de exposição no Palácio de Bearlord, suas "viúvas" — uma espécie de clube informal dessas nobres desiludidas — viraram o mundo do avesso atrás do patrimônio do falecido e de algum tipo de reparação.

E agora, tínhamos nós três ali. Em uma mansão secreta flutuando no meio do nada... com a mais perigosa dessas viúvas dividindo o mesmo teto.

Eu temia muito saber a resposta, mas Amellie teria que se explicar mais cedo ou mais tarde a relação dela com Cyrak, dela com Morgan. Caramba... isso era infinitamente mais sensível e profundo do que o simples egoísmo dela de não querer compartilhar a barraquinha arcana.