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19 de agosto de 2026

[EDGELORD] MARY SUE: ORIGINS


 Entrando nas Montanhas Castanhas, o Império (também chamado de "Império Humano", e depois "Império de Caruthers") vai entrar na narrativa...

... por que não aproveitar e explorar o prometido primeiro spin-off de EDGELORD?

"Mary Sue" é uma expressão clássica que surgiu numa fanfic de Star Trek sobre a personagem perfeita, uma autoimagem do autor, mas depois virou só o "personagem preferido" para quem as regras não valem.

Às vezes é um DMPC, ou só o personagem do melhor amigo - ou das namoradas.

Coisas como ser forte o suficiente, ter todas as magias, estar sempre certa como se o enredo se dobrasse para encaixar suas teorias.


Ou simplesmente: meu PJ tem atributos, talentos e está interagindo ativamente com o NPC, e então o NPC " enxerga através dele"  e diz: "ei... aquela não é a fulana que esteve aqui há um ano quando era nível 1?" Se referindo ao personagem do jogador que está calado, olhando o celular... e só por ISSO que o plot anda.


É... eu ainda guardo rancor.


Como tudo mais em Edgelord, há um spinn positivo (exceto Caruthers). Nossa MS é uma adorável avoada que margeia a história a-la Forest Gump. Sigamos.



18 anos atrás.
Tempo do Levante de Blunt.
LITERALMENTE.


Marsha ouviu o desencadeamento frenético de estampidos. Ela os associou às novas "armas de repetição". Lembrou-se de quando escutou, no salão do Conselho Regente — provisoriamente transferido para o Palácio da Sagrada Família por causa da guerra —, que um dos Prospectos, o anão "Balmond" ou "Baumão" (eles nunca se acertaram na pronúncia), teria tais armas montadas no percurso de Lord Blunt.


Durou 12 segundos.


Não adiantou.

Os gritos de horror se tornaram mais distantes... A Guarda Cerimonial da Sagrada Família — definitivamente não pronta para a guerra — recuou, fechou os portões e cobriu as janelas, avançando para os andares principais.

Ignoravam a pequena princesa de seis anos, atrás de uma armadura decorativa.

Marsha sabia o que era aquilo.

A Capital caiu.

Os forasteiros fracassariam.

Um breve som de luta lá fora... Mas parecia um único pugilista contra o maior mal da era moderna. Um último esforço.


Blunt estava próximo.


Ela estimava menos de trinta metros dos portões. Trinta e cinco dela.

Uma morningstar? Funcional, mas não especial. Marsha a usaria contra Gladius Aeternum... Seria brutal... Seria divertido.


Ela estava pronta.


Seria a primeira linha de defesa de...

— Princesa Marsha! — Anthon surgiu subitamente. O meio-driade que cuidava dos jardins do palácio... Parte da pele dele era madeira verde, seus cabelos, de folhagem. Ele estava com roupas de cerimônia em vez de seu tradicional equipamento. — Seu pai está procurando pela senhora!

— Avise a ele que eu vou cuidar disso!

— Minha criança... Lord Blunt está aos nossos portões! Dois dos três forasteiros já caíram!

— Então... eu serei a próxima a lutar! — ela falou. — Eu posso vencer um bruxo chifrudo!

— Eu não tenho dúvidas... — ele resmungou, lembrando do estado em que ficou a sala de treino na última semana. — Mas temos nossas ordens...

Por instinto, o driade tentou apanhar a princesa Marsha como a uma criança normal... e quase caiu. Era como erguer, sem firmeza, uma estátua de chumbo.

— Por que vocês aceitam isso? — ela resmungou. — Lord Blunt é um valentão! A gente deve enfrentar os valentões?


— Não, não devemos...



A voz era calma, mas tinha o peso da autoridade.

O Príncipe N'aetil chegava. Passos firmes e controlados. Dedos das mãos entrelaçados. O capuz branco e azul, com os escarfes sagrados de Aetíades, o cobria, mostrando apenas a ponta do queixo e as mechas loiras que o revelavam. Um breve brilho azulado proveniente de seus olhos demonstrava sua ascendência aasimar.

— Papai! — Marsha comemorou. — Onde está o resto dos primos?

— Marsha... — ele falou com paciência, mas autoridade. — O Poderoso Aetíades nos deu uma missão com limites claros. É a história dos mortais que se escreve lá fora. Se este é o fim de nossa regência, foram oitocentos anos de paz e glória.

— Eu não vou sair daqui! — Marsha insistiu.

O príncipe inspirou fundo e então se colocou na frente da filha.



— Façamos o seguinte... — ele falou. — Seus primos... O corpo auxiliar... Mesmo o Conselho Regente, que se abrigou conosco, precisa de proteção. Eu fico aqui, e você os mantém em segurança... que tal?

Marsha bufou.

— Está bem...

Ela entregou a morningstar a Anthon, que quase caiu com o peso da peça... absurdamente mal balanceada.

Marsha caminhou com um primeiro pensamento:

"Se eu, que sou criança, posso fazer tudo o que eu posso, papai, que é adulto, vai varrer o chão com esse bruxo de..."

Então percebeu.

Parou na alcova para o corredor interno. Ainda de costas, tentando negar a própria dedução.

— O senhor não pretende brigar com Lord Blunt, não é? — ela falou, com a voz embargada.

— Não — N'aetil falou, com calma.

— M-Mas ele vai te matar! — ela protestou. — O senhor não vai nem tentar se defender?

O príncipe sorriu.

— Marsha, não era hora de falar, mas eu não acredito que ele possa...


Ele foi interrompido.


Um grito...


...não de horror. Não de guerra... mas de...


 TRIUNFO.


O príncipe caminhou até a janela reforçada pelas tábuas e observou por uma fresta. Mal viu quando Marsha se juntou a ele, escalando o batente para ver por outra fresta e arrancando uma das tábuas.

Nas escadarias... aquela silhueta feminina dourada com a luz do sol. Punho para o ar. Uma jovem, cabelos loiros. Manto verde e um arco nas mãos. Olhava surpresa para o alto, atrás dela.

A seus pés, de joelhos, a presença vultosa de Lord Blunt, vestindo a Vigília Sombria, entre flechas partidas no chão. O elmo, deixado no chão aos pés da misteriosa arqueira. Infelizmente, ela estava num ângulo que ocultava a face do Senhor do Sombrio...

Os três forasteiros se reuniam ao redor deles... Feridos, mas mais em choque do que com dor.

— Ela está... comemorando?!? — Anthon se juntou aos dois, olhando também.

— É um gesto de "cessar-fogo" da arquearia — o príncipe informou. — Mas essa arqueira providenciou um milagre... Ela é...

— É fabulosa! — Marsha declamou.


A guerra havia acabado.


O Conselho Regente fez as tratativas do armistício, mas Marsha metralhava seu pai com perguntas. Detalhes da batalha. Se podia ficar com o elmo de Lord Blunt. Mas mesmo N'aetil sabia pouco sobre o que acontecera.

Shén-li perdurou.

A heroína se revelou como "Àquela", uma das batedoras da floresta. Migrou para Shen-dao nos primeiros momentos... e seria a "arma secreta" dos grandes heróis de Dol'oan, Yalatanil e das Montanhas Castanhas reunidos para deter o Maior Vilão do Mundo. Foi-lhe dada a posse do Castelo Negro, outrora pertencente a Lord Blunt, e o título de Lady Àquela, a Primeira, a Dama do Arco.

Marsha admirava aquela figura. Queria ser como ela. Mas era proibida por seu status e por seu pai.


Mas... às vezes conseguia escapar... como no décimo sexto ano da comemoração do Levante de Blunt...


Marsha não era uma criança mais, mas ainda era muito mais velha do que aparentava. Trocou as vestes cerimoniais pelo que ela "acreditava" serem roupas comuns. Esgueirou-se do palácio, e foi para as ruas.

A luz azulada nos olhos, sinal da ascendência aasimar de Marsha, precisava ser escondida. O capuz azul e branco era "nobre demais", mas era melhor que as roupas cerimoniais. O plano era confiar nos óculos especiais — sugeridos por sua prima Sil — para dispersar o brilho dos olhos e manter a cabeça e o capuz abaixados na multidão.

Ela ia entrando, pedindo licença, mas reconhecendo a própria força ao avançar na multidão e conseguir chegar à primeira fila, antes do gradil de aço que isolava a estrada por onde a parada iria passar... Naquele ano, Lady Àquela estaria presente!

Marsha não podia esperar...

Mas algo estava errado. A multidão começou a empurrar o gradil, que estava prestes a colapsar.

— Cadetes! — resmungava um gnomo com um tridente duas vezes maior que ele. — Se este gradil cair, vocês todos estarão desligados do programa!

— Sim, senhor Larrincher! — os quatro jovens falaram em uníssono.

— Isso inclui você, Cadete Sete! — o gnomo apontou para um jovem de cabelos negros, imediatamente à frente de Marsha. — Não importa quem é a sua mãe!

— S-Sim, senhor Larrincher — Bentho respondeu.

Os cadetes empurravam com toda a força, tentando devolver o gradil à posição em que se firmasse com o resto da estrutura, mas o peso da multidão era um fardo que estava acima deles.

Marsha temia que, se eles "perdessem o controle", o desfile não passaria por ali.


Então, resolveu ajudar.


Segurou o gradil e, com uma mão, puxou-o discretamente e com facilidade ante o peso da multidão, encaixando-o em seguida. Disfarçou para não chamar a atenção.

— Bom trabalho, Bentho! — um dos cadetes mais próximos cumprimentou, alheio à ajuda.

O cadete acenou e restaurou a posição. A parada começou a se aproximar da primeira linha do desfile. Os veteranos, seguidos de uma banda.

Depois viriam os carros alegóricos e, por fim, viriam os quatro heróis, cada qual em sua montaria.

— Ei, ei, mocinho... — Marsha perguntou ao cadete, de costas, à sua frente. — Pode confirmar que Lady Àquela vai estar nessa parada? Ano passado ela não veio!

— Está sim, senhora — Bentho nem olhou para trás. — E tenho a "impressão" de que ela vai prestar atenção neste lado. Se quiser aparecer para ela... é só ficar atrás de mim.

Tudo certo... O coração da princesa aasimar pulava.

A banda passou... os carros dobravam a esquina...

E então o cadete falou:

— Ei... aquele é um dos príncipes?!?

Marsha olhou de lado...

Era o primo De'sar. Ele apontava para... ela?

Marsha abaixou-se e voltou na multidão. Cabeça baixa... Bentho só deu passagem aos guardas que seguiam o príncipe.

A jovem apressou-se dentre a plateia, tendo o espaço atrás de si imediatamente preenchido. Quando enfim emergiu, atrás de todos, viu-se cercada.

Cinco membros da Guarda Cerimonial.

E o próprio N'aetil, seu pai.


— Eu posso conseguir AUDIÊNCIA com Lady Àquela, com os quatro! — ele falou, contrariado. - Quer um baile com eles como convidados? Consigo sem esforço algum!

— Eu não quero que ela me veja como "sua chefa superior"! — Marsha protestou, fazendo birra. — Eu já falei!

— Marsha, você tem suas obrigações, ela tem as delas. — O príncipe caminhava pelos corredores. Era o terceiro evento da comemoração da queda de Blunt que a princesa o fazia perder. — Estou quase com saudades de quando você pleiteou um cargo no Conselho Regente, mesmo depois que eu proibi...

— Eu acertei as quinhentas questões, memorizei o Teólito de Aetíades e preciso de indicação de um aasimar da Família Sagrada? EU ME INDICO!

— Quer então o MEU parecer como aasimar da Família Sagrada? — O príncipe falou, irritado. — Você está pensando pequeno. O que lhe agrada. O que você pode socar... ou o que pode falar. A Família Sagrada deve transcender isso, governo ou aventuras. O poder que dispomos é muito grande e facilmente pode ser abusado. O próprio Aetíades aprendeu isso em seu sacrifício na Guerra dos Dois Horizontes. Quer terminar como Bophades?

— Não — ela assentiu.

N'aetil inspirou fundo.

— Eu vou viajar em breve. Preciso saber se você vai ficar no palácio até eu voltar. Nem que eu mude de ideia quando voltar sobre como você vai ajudar na Família Sagrada.

— Da última vez, você voltou com a Sil e não mudou nada...

— A Queda do Império de Caruthers foi... problemática. — O príncipe insistiu. — Mas eu reconheço que sua prima Sil não teria se recuperado tanto sem sua ajuda... Sua amizade. Quando eu voltar, conversaremos.

O príncipe N'aetil era um dos poucos autorizados a deixar livremente o palácio. Sempre em "missões diplomáticas", embora o Conselho Regente tivesse toda a "Chancelaria da Fronteira" para isso. Às vezes passava meses fora. Uma vez, passou anos. No incidente com a Sil, ele foi carregado da capital do Império até o palácio pelo próprio Aetíades, na forma da Fênix da Radiância. As histórias de como Cardullion libertou "a princesa" por pura teimosia e como Capri derrubou o Império ainda ecoavam pelos salões.

Marsha sabia que muito dificilmente iria mudar qualquer coisa.


O tecido dos mantos da Família Sagrada era azul-profundo, ornamentado com filigranas alvas que reluziam suavemente à luz do sol. Para qualquer pessoa, vesti-los era o ápice da honra divina; para Sil, era como vestir a pele de um estranho. Ela jamais se sentira parte daquela linhagem augusta e imaculada. Por isso, recusava as vestes sagradas e mantinha-se firme em seus vestidos negros — um luto constante por tudo o que havia perdido e uma barreira entre ela e o resto do palácio.

Sil odiava o modo como o mundo a olhava, pois parecia não haver espaço para que ela fosse apenas uma jovem. A Família Sagrada estava dividida em dois extremos sufocantes em relação a ela.

O primeiro grupo a olhava com uma pena corrosiva. Viam apenas a garotinha frágil, de olhos cinzentos e vagos, presa a uma condição irreversível. A própria cadeira mágica e aveludada onde se sentava — um artefato gracioso que flutuava suavemente a poucos centímetros do chão, suave como uma nuvem — parecia gritar a todos que ela precisava de proteção e amparo constante. Sil detestava essa complacência condescendente.

O segundo grupo era ainda pior: o dos que temiam o que ela representava. Sussurravam às suas costas pelos corredores, mantendo uma distância cautelosa e encarando-a com desconfiança mal disfarçada. "É a Princesa do Império de Caruthers", murmuravam. "É a Escravizadora de Deuses". Para esses, a memória do antigo trono de ferro e espinhos em que ela fora forçada a se sentar alimentava o mito aterrorizante de que ela guardava um poder profano e incontrolável.

Sil erguia o queixo, fingindo não se importar com nenhum dos lados. Construíra uma carapaça de indiferença fria para esconder a dor e a solidão que a consumiam por dentro.

Apenas uma pessoa ignorava essa carapaça. Apenas uma pessoa recusava-se a tratá-la como uma coitada ou como um monstro. E desprezava a carapaça como se pudesse ver dentro de qualquer armadura.

E essa pessoa era insuportavelmente irritante. Que insistia em tratá-la por "prima", mesmo sendo aasimares obviamente de linhagens distintas...

E era sua melhor amiga.


— Ah, não... mais nomes? — Sil suspirou quando a porta se abriu e Marsha entrou no recinto segurando um bloco de anotações amarelado.

— Eu estou confiante hoje! — declarou Marsha com entusiasmo inabalável, ignorando a postura defensiva da amiga e sentando-se sem pedir licença na armação da cadeira flutuante. — O tema de hoje é: "Nobreza de Yalatanil entre o ano 200 e 215".

Marsha começou a recitar a lista com uma seriedade quase cômica:

— Sildara... Silfana... Sizl'air — fez uma pausa didática: — O "z" é mudo, tá? — e continuou: — Siljain...

Ela buscava combinações cada vez mais exóticas e improváveis, já que os nomes comuns haviam se esgotado semanas atrás.

Sil olhou para a janela, deixando a voz da amiga fluir como pano de fundo. No fundo, a memória daquela tragédia ainda a assombrava. Quando Aetíades trouxe o príncipe e a garota ensanguentada em suas garras divinas, a verdade terrível veio à tona: Caruthers, o Deus Menor da Mesquinharia, descobrira o ritual do "Trono de Jasmim" — o antigo assento da Rainha Celeste que governara o mundo antes do Grande Apagamento, a Mãe de Bophades e Aetíades.

Para reativar a relíquia, o ritual exigia "Ferro Quente", mineral mágico obtido com sangue puro de um aasimar. Poderia ter sido qualquer integrante da Família Sagrada, ou um dos "aasimares selvagens" — linhagens esquecidas ou afastadas de Shén-li ao longo dos séculos. A vítima fora a jovem Sil. Ela se tornou "a princesa", face do império e instrumento de manipulação.

Ninguém sabia qual era a sua verdadeira casa, nem seu nome verdadeiro. "Sil" fora a única fonética que restara em sua mente quando ela acordara. As lesões brutais impostas por Caruthers arrancaram-lhe as asas imateriais e sua identidade, a capacidade de andar... e toda a sua memória.

— ...E Silzzzzzy! — Marsha concluiu com um floreio dramático. — Esse último eu inventei. E aí? Algum clique?

— Nada — Sil respondeu baixinho. Ela mal prestara atenção à lista, mas o simples som da voz de Marsha a tirara da espiral de pensamentos sombrios. Observou a amiga guardar o lápis e perguntou: — Então? Se apresentou a Lady Àquela na parada?

— Não... meu pai me achou de novo — Marsha resmungou, afundando os ombros, mas logo inflou o peito novamente: — Mas estou frustrada porque eu tinha certeza absoluta de que hoje seria o dia de achar uma nova pista sobre você!

— Isso porque você "está sempre certa"? — Sil ironizou.

— Eu costumo estar certa com essas coisas — Marsha resmungou. — Bem, tudo o que temos é uma sílaba... Pense bem, nunca tentamos "Sílaba". E se for Sílaba?

Marsha falou aquilo em tom de brincadeira, mas a palavra ecoou de forma estranha no ar.

Algo estalou na mente da princesa de negro. Uma engrenagem esquecida no fundo de suas memórias soterradas pareceu girar, trazendo um calafrio involuntário.

— Sílaba... — murmurou Sil, o olhar ficando distante. — "Sil La..." "Síl Ha..."

Os olhos de Marsha brilharam instantaneamente.

— É isso?!? Você lembrou?!

— Não... mas... — Sil piscou, tentando capturar o rastro do pensamento. A memória ainda era inalcançável, coberta por uma névoa de tristeza profunda e dor antiga, mas a sensação era inegável. — Tem... tem algo aí.

— E se o seu nome não for um nome próprio? — Marsha começou a se agitar, vasculhando os bolsos atrás de papel antes de constatar que todas as folhas estavam preenchidas. — E se for um substantivo? Que nem o de Àquela?!

A empolgação de Marsha era contagiosa, derretendo a última camada da postura fria de Sil. A princesa de negro suspirou, derrotada pela insistência afetuosa da amiga.

— Mas antes... fale — exigiu Marsha com um sorriso vitorioso.

— Você vai me fazer falar, não é?

— Vou sim!

Sil inspirou fundo, fechando os olhos por um segundo e entregando-se àquela pequena alegria:

— Você... está... sempre... certa.

— Como os Sinos de Aetíades! — Marsha comemorou, dando um abraço apertado na amiga e fazendo a cadeira flutuante balançar no ar.


Dois anos depois.

Antes de cruzar os portões do palácio, Marsha ainda precisou encarar o último obstáculo burocrático de sua rotina: o primo De'sar. Era mais velho, magro e andrógino, raspava os cabelos para buscar ser o mais visivelmente desagradável possível, aparentemente.

Ele a interceptou no Corredor dos Fundadores, vestindo o manto azul impecável e portando uma prancheta de pergaminhos com o selo do Conselho. Ao lado deles, flutuando suavemente em sua cadeira de vestidos negros, Sil observava a cena em relativo silêncio.

— Você devia estar na sala de recepção diplomática, Marsha — De'sar começou, ajustando a gola do manto e evitando olhar diretamente para Sil. Ele deu um passo sutil para o lado, mantendo a cadeira flutuante bem no limite de sua visão periférica.

— Tenho a sessão de "terapia" com a Sil — ela bufou.

— O príncipe N'aetil deixou ordens claras antes de partir. Como filha do nosso "Príncipe Embaixador", que passa mais tempo viajando pelo mundo do que qualquer um de nós, você deveria se inteirar da política real das Terras Selvagens e além, não ficar perambulando por aí.

Marsha soltou um suspiro profundo e entediado, encostando as costas na parede de mármore e cruzando os braços. Encarou o teto com um olhar terrivelmente entediado.

— A política do mundo é ver o Conselho votar se o imposto da madeira vai subir dois centavos, De'sar — Marsha resmungou com ironia. — É fascinante. Quase não consigo dormir de tanta emoção.

— O mundo lá fora não é um conto de heróis! — De'sar deu um passo à frente, exasperado, baixando o tom de voz para um sussurro ranzinza. — Você vive alimentando essa sua mania estranha de socar os problemas. Aquilo não é normal. Nem todo aasimar sabe fazer o que você faz, Marsha! A maioria de nós canaliza a luz divina para a diplomacia, a cura ou a regência, não para ter a densidade de uma âncora de encouraçado!

— Vocês é que são preguiçosos. Se eu consigo, vocês deveriam conseguir também. — Marsha apenas deu de ombros, ajustando os óculos no nariz com um gesto preguiçoso. — Já tentaram correr? Voar? Desintegrar um petardo de adamantina?

De'sar olhou de relance para Sil. A garota de olhos cinzentos sustentou o olhar dele por um segundo, e o nobre cobriu o desconforto dando meio passo para trás. Limpou a garganta, voltando a atenção para a prancheta.

— Enfim... se você ao menos lesse os relatórios da Chancelaria, saberia onde focar sua atenção em vez de cultivar essa adoração infantil por aventureiros "has-been" e decadentes.

A palavra fez Marsha piscar. O tédio deu lugar a uma sutil faísca de raiva por trás das lentes.

— Aventureiros decadentes? — ela perguntou, revoltada. — Que tipo de decadentes?

— Os velhos conhecidos da Nova Guarda, por exemplo — De'sar desdenhou, batendo a pena no pergaminho. — Eles acham que ainda estão na era de ouro. O Conselho acabou de receber o relatório do Aniversário da Libertação de Nova Ethiópia. A regente de lá, aquela... Princesa Andrômeda, está desesperada. Acha que vamos mandar nossos recursos e arriscar perder as "bandeirolas" que, convenhamos, é o que eles são?

— Desesperada por quê? — Marsha endireitou ligeiramente os ombros.

— Porque a ilha é atacada todo ano, no mesmo dia, por hordas de Dragas e por um "kraken ancestral" ou coisa que o valha — disse De'sar, balançando a cabeça com tédio burocrático. — Mas não vamos arriscar enviar a Nova Guarda para lá, perder uma das "bandeirolas" e arriscar o povo interno se revoltando na perspectiva de Lord Blunt fugir. Precisamos pensar em nosso povo primeiro.

Marsha segurou o sorriso que ameaçava brotar em seu rosto.

Uma nação insular. A prima Andrômeda — sim, consta que era uma aasimar da linhagem de Cassiopéia — em perigo. Dragas, um kraken, uma causa perdida no meio do oceano.

Era o cenário perfeito.

— É mesmo? — Marsha bocejou de forma ostensiva, fingindo um desinteresse profundo enquanto dava meia-volta em direção aos seus aposentos. — Que trágico, De'sar. Realmente, a diplomacia é muito complexa. Acho que vou para o meu quarto refletir sobre o imposto da madeira...

— Excelente. Pela primeira vez você está sendo razoável — De'sar suspirou aliviado, voltando a anotar na prancheta enquanto se afastava apressado, ansioso para sair da presença de Sil.

Assim que o primo dobrou o corredor, Marsha olhou para Sil. A princesa de negro tinha um pequeno e quase imperceptível canto de boca erguido.

— Você não vai refletir sobre madeira nenhuma, vai? — Sil perguntou baixinho.

— Nem pensar — Marsha ajeitou as roupas simples de viagem escondidas sob o manto cerimonial, bem como uma bolsa de gemas. — O De'sar acabou de me dar o roteiro todinho. E, no fim das contas, a equação é simples: Andrômeda é uma prima. E uma prima em necessidade a gente não deixa na mão.

— Dessa vez, use um nome ordinário para não rastrearem você — Sil falou, fazendo sua cadeira flutuante retornar a seu quarto. — Como era o nome daquela jovem camareira que deixou o palácio? Maria... Suelen...

A Princesa Marsha ficaria trancada naquele palácio. Para os navios que rumavam para o Mar de Fora, para a Nova Guarda e para qualquer um em Nova Ethiópia, ela seria apenas uma garota de óculos. Tímida. Inofensiva. Uma passageira pagante. Seu nome seria...

...



— Okay, mais uma vez... Quem de vocês é o Ryan e quem é o Cyrus? — Amellie insistiu, chutando a canela de um dos dois corvos. Eles apenas gemiam, encolhidos e amarrados na poeira recostada na muralha externa. Eram jovens com tatuagens de corvos que acharam que poderiam surpreender a reencarnação de Cyrak, o Conquistador.

A barda se ajoelhou e tateou as vestes de... "Ryan ou Cyrus", retirando um objeto pesado de metal: um rádio rúnico de curto alcance.

— Desde quando os corvinhos têm esse tipo de...

— UAU! Você bateu em dois assaltantes corvos?!?

Amellie deu um salto para trás, postando-se de pé com o florete apontado no ato para a recém-chegada.

Era uma jovem de vestes discretas, óculos e uma postura completamente tranquila, apesar de flagrar aquela "atividade" em um canto escuro do Caminho da Muralha, a estrada que ligava Huo-fen a Hálcora.

— Você está bem? — a garota perguntou, ajeitando as lentes. — Eles te machucaram?

A barda analisou a estranha de cima a baixo. Tranquila demais... Mas não via armas ou símbolos visíveis.

— Você acredita que uma garota não pode viajar sozinha sem ser abordada por esses ratos da Cidade-Arsenal? — Amellie disfarçou, abaixando o florete devagar. — Encontraram mais do que esperavam, com certeza...

— Girl power! — a jovem ergueu um punho cerrado em comemoração festiva. — Meu nome é Marsh... Mary Sue.

— Janete — Amellie apresentou-se com um nome falso automático. — Hum... que cheirinho bom é esse?

— Ah... porco! — "Mary Sue" puxou uma marmitinha de pano ainda fumegante de dentro da bolsa. — Eu ganhei no leilão do orfanato. Mas eu sou vegetariana... quer um pouco?

— Se eu me importo?! Estou faminta! — Amellie aceitou a marmita sem pensar duas vezes. — Vai para o Oeste?

— Hálcora. Pegar um barco.

— Que coincidência... Tipo, não para pegar um barco, mas... Se importa se formos juntas? Diminui a chance de assaltantes incompetentes.

— Não se preocupe... eu protejo você — Mary falou com uma confiança serena e inabalável.

As duas começaram a jornada lado a lado, deixando os corvos desacordados e amarrados para trás.

Amellie achava que viajar separada de Bentho seria o bastante para despistar os Corvos... mas o rádio indicava que eles estavam muito melhor coordenados do que o normal. E as saídas da cidade estavam prestes a fechar. Algo sério estava ocorrendo em Huo-fen; ela esperava, do fundo do coração, que Bentho tivesse escapado da confusão.

Mas... qual era a daquela mocinha de óculos?

Decidiu testar.

— Eu vou encontrar um rapaz em Hálcora... — Amellie comentou, mantendo o passo na estrada, simulando uma excitação para despistar sua companheira de jornada. — Tenho um desenho dele, quer ver?

— Adoraria! — Mary acenou, empolgada.

Amellie desembrulhou um dos cartazes que trazia consigo, dobrando a folha com cuidado para ocultar os dizeres "DESAPARECIDO". Queria ver a reação da estranha ao ver o rosto de Bentho: se fosse da Guarda ou dos corvos, iria dar algum sinal. Enquanto segurava o papel com a mão direita, sua mão esquerda repousava discretamente na empunhadura do florete.

— Oh... ele é bonitão! — Mary comentou, inclinando-se para olhar.

— Você acha? Eu não sei... — Amellie insistiu, observando as reações da garota.

— Vem cá... ele não foi cadete ou algo assim?

Amellie arqueou uma sobrancelha, os olhos estreitados. Disfarçava como mestra sua tensão quase plena.

— Por que a pergunta?

— Acho que eu o vi uns anos atrás, na parada de aniversário do Levante de Blunt — ela comentou com a simplicidade de quem lê a previsão do tempo. — Por causa de meu pai, eu não pude ficar e perdi o desfile dos capitães... Mas acho que trocamos duas palavras no gradil... Sim, eu estou sempre certa, com certeza é ele!

A garota de óculos parou abruptamente e olhou para a barda com os olhos arregalados de susto:

— Por favor! Ele é seu namorado, né? Eu juro que não quis insinuar nada!

Amellie piscou, tentando capturar qualquer vestígio de falsidade, mas não conseguiu nenhuma leitura dúbia na jovem. Mary Sue parecia genuinamente confusa e com a cabeça a mil, mas sem um pingo de medo real.

— Quando eu me encontrar com ele, eu mando um "alô" seu — Amellie falou, estampando seu sorriso mais convincente. — E você... de Hálcora vai para onde?

— Nova Etiópia, visitar uns parentes.

— Uh, chique! — Amellie elogiou, enquanto mastigava um pedaço do que ela podia jurar ser o melhor filezinho de porco que comera nos últimos noventa anos. — Vai num navio nobre ou...

— Eu consegui uma passagem no mesmo orfanato do leilão e... olha que engraçado — ela mostrou o documento transacional com o carimbo de recebimento. — "Deixa em Branco". Que nome engraçado para um navio, não é? Se não fosse no orfanato, eu até suspeitaria que foi um golpe...

Amellie travou o passo no meio da estrada, com a carne no meio do caminho para a boca.

— Não... "Deixa em Branco" é um navio de verdade, mas... então ele vai estar em Hálcora daqui a dois dias?! — a barda murmurou para si mesma.

— Conhece alguém do navio?

Amellie abriu um sorriso de quem acabara de ganhar um trunfo na mesa de jogo.

— Não importa! — a barda desconversou, pegando mais um pedaço suculento de porco. — Esse prato é sensacional! Tem certeza de que não quer mesmo?

— Fique à vontade!

[Dica de Mestre] Stealth Check com Carisma

 

Stealth Check com Carisma: Quando se Esconder Significa se Misturar

Quando pensamos em um teste de Furtividade (Stealth) no TTRPG, a imagem mental é quase imediata: o Ladino se esgueirando pelas sombras, pisando leve para não fazer barulho e usando a Destreza (DEX) para evitar o campo de visão dos guardas. Mas e quando é impossível não ser visto?

Na prática, existem dois cenários bem distintos para testes de furtividade nas mesas de RPG:

1. O Teste Clássico: Furtividade com Destreza (DEX)

É a furtividade do "fantasma". Seu objetivo é não deixar rastros e não ser notado. Você se esconde atrás de pilares, aproveita a penumbra e controla os movimentos do próprio corpo.

  • Mecânica: Teste de Furtividade (Destreza).
  • Cenário: Infiltração em uma masmorra silenciosa, passar por guardas em um corredor vazio ou espreitar na floresta à noite.

2. O Teste Social: Furtividade com Carisma (CHA)



Aqui a lógica muda completamente: há olhos demais em você para se esconder fisicamente. Tentar se agachar ou se esquivar atrás de uma coluna só vai te deixar mais suspeito. O objetivo agora é se misturar à multidão, agir com naturalidade e parecer que você pertence àquele lugar.

A regra de misturar perícias com atributos diferentes (prevista no Capítulo 7 do Livro do Jogador de D&D 5e) se aplica perfeitamente aqui. Você continua usando sua proficiência em Furtividade (conhecimento de como não chamar atenção), mas substitui a Destreza pelo Carisma (CHA), que mede sua capacidade de projetar confiança e controlar a percepção alheia.

  • Mecânica: Teste de Furtividade (Carisma).
  • Cenário: Atravessar um mercado movimentado enquanto guarda-costas procuram um suspeito, caminhar por um baile de gala fingindo ser um convidado, ou rir junto com a guarda da cidade para não parecer tenso.

Como Aplicar na Sua Mesa (Para Mestres)

Incentive seus jogadores a descreverem a abordagem antes de rolarem os dados. Se o Ladino disser: "Ajusto minha postura, finjo que estou conversando com um mercador e sigo o fluxo das pessoas para que o guarda passe direto por mim", peça diretamente um teste de Furtividade (Carisma).

16 de agosto de 2026

EDGELORD - EPÍLOGO - Arco da Montanha Morta


Eu sonhei com um dia de dois anos atrás.

O "Cadete Mamãe" estava lá para me receber. O uniforme de cadete dele, uma versão de gala um pouco justa demais nos ombros...

Então, acordei. Era noite fechada. Não tinha noção de tempo, se acabou de escurecer ou o sol surgiria por trás daquelas montanhas marrons.

Eu estava envolvida na capa roxa de "Lord Edgy". Bentho ainda estava de armadura ao meu lado; o garoto simplesmente apagou de exaustão. Não era um acampamento de verdade. Tínhamos apenas uma fogueira franzina e alguns galhos e moitas secas mal distribuídos para barrar o vento cortante da altitude. Como estávamos numa encosta íngreme e eu havia desabado num choro inconsolável, eles preferiram improvisar um abrigo ali mesmo.

— Você acordou — a voz mansa de Xitarro quebrou o estalar do fogo. — Está bem?

— Eu... acho que sim — murmurei, ajustando o tecido pesado sobre os ombros. — Vocês ficaram aqui? Por minha causa?

— Bentho só dormiu tem uns minutos — o monge informou, ajeitando as garras. — Ele não me deixou ajudar a carregar você... Disse que ele mesmo faria. Eu até me ofereci para carregar ele depois, mas...

— Eu vou erguer a Barraquinha Arcana — interrompi, esforçando-me para sentar. — Só... preciso fazer uma coisa antes.

— Eu vou com você — disse o catfolk, estendendo a pata-mão para me ajudar a pisar na cascalheira instável da encosta.

— Eu preciso ir... sozinha.

— Sozinha? Eu imaginei — Xitarro compreendeu imediatamente, acenando levemente. — Só alguns metros, então. Até a curva da rocha. Depois eu volto para o acampamento.

Ele olhou de soslaio para Bentho. Depois para a cintura... Para a empunhadura da Gladius Aeternum.

Aquilo era uma novidade. Uma mudança sutil na postura dele.

Afastamo-nos alguns passos. Em tom baixo, quase balbuciado contra o vento, Xitarro falou:

— Desculpe por ter desconfiado de você. Você estava certa... A nossa "amiga" metálica não é legal.

Levei o indicador aos lábios, pedindo silêncio absoluto. A lâmina podia ouvir. Mas era um alívio imenso saber que Xitarro estava do meu lado agora... O que exatamente o fez mudar de ideia? Um dia, talvez, ele me contasse.

Dobrei uma rocha protuberante para me afastar da fogueira, garantindo que não seria vista nem ouvida por Bentho. Tirei a esfera do bolso. Aguardar Estebán e Àquela atender parecia uma tortura...

Cortei a comunicação antes de desabar de novo. Fiquei ali, na escuridão, encarando as nuvens roxas da montanha.




— Esta... — Khao rosnou, o olhar cravado no calçamento antigo parcialmente coberto pela vegetação e pela terra seca. — Não pode ser a Antiga Estrada Imperial!

— O desvio do seu amigo "guaxinim" nos tirou da Montanha Morta, Rhoy?! — surpreendeu-se Vlana.

Quando saíram por um túnel perfeitamente reto — no qual Rhoy identificara a mudança drástica na composição mineral da rocha, sem o fedor característico de petrume da Montanha Morta — os tenentes ainda olharam para trás, desconfiados.

— Tudo parece natural, mas grama não nasce na boca de uma caverna assim, do nada — observou o anão, ajoelhando-se no chão para examinar o solo. — Este túnel é recente... Eu diria que tem HORAS de existência! E para onde foi todo o entulho da escavação?

— Afinal de contas, o que era aquele guaxinim?! — Vlana olhava ao redor, abismada.

— Eu tenho um mapa... — Arletta desembrulhou um pergaminho da mochila. — São apenas alguns acres além da Montanha Morta, mas...

— Esqueça o mapa — Khao interrompeu, a voz grave ressoando como um trovão contido. — Estamos no Vale Arcaico, antes do Entroncamento dos Ossos. Dois dias de caminhada até a Marca de Bearlord.

— Não... Não posso afirmar isso com certeza — comentou Arletta, hesitante. — Rhoy?

— Esta é a terra do capitão — Ornub interveio, ajeitando as tiras de sua armadura. — Minha mãe falava da Horda que veio pelo Entroncamento dos Ossos. Estas já são as Zonas Selvagens.

— Ordens, Capitão? — perguntou Larrincher.

Khao baixou o semblante soturno. O vento das terras livres zumbia por suas orelhas e cabelos, trazendo o cheiro de urze, terra seca e poeira antiga.

— A Nova Guarda... Shén-li não tem autoridade além da Montanha Morta — decretou ele, com uma finalidade fria. — Fizemos descobertas cruciais sobre a masmorra. Devemos supor que os traidores já deixaram o local. A missão de vocês agora é simples: retornar ao alcance do rádio, reportar ao Comando e preparar uma incursão adequada para neutralizar as ameaças ainda ativas.

Arletta anotava as instruções rapidamente em um bloco de campo, embora soubesse que os relatórios detalhados seriam redigidos depois. No entanto, ela percebeu a falha evidente na construção da frase.

— O senhor disse... "Vocês".

— Sim — confirmou Khao, sem olhar para eles.

— O... O senhor não vem com a gente? — interrocou Ornub, dando um passo à frente.

— Shén-li não tem negócios aqui — o bárbaro no capitão rosnou, o olhar perdido nas curvas da estrada que subia a montanha. — Eu vou seguir sozinho.

— Capitão! Aquele garoto de armadura, o Lord Edgy, roubou o arsenal de Blunt por cima de mim... literalmente! — protestou Larrincher, o gnomo, indignado. — Eu vou com o senhor! Posso agir de forma não oficial, sem a farda...

— Vocês vão obedecer às ordens do seu CAPITÃO e ponto final! — Khao elevou a voz, e o rugido de seu esporro ecoou pelas paredes do vale, retornando em ecos segundos depois. — Ornub assume o comando dos meus fortes. Larrincher e Arletta, voltem para o Castelo Negro e assumam a Chefia de Sentinelas e o antigo cargo de Estebán, respectivamente.

— E para mim, uma folga? — Rhoy rindo, coçando a barba. — Por mim, tudo certo.

O Capitão havia decretado. Era o fim da incursão. Era uma despedida. Sem Khao, e com Lady Àquela formalmente debandando, a liderança da Nova Guarda se reduziu à metade.

— Boa viagem, capitão — Ornub bateu uma continência impecável, o olhar carregado de respeito ancestral. — Obrigado por confiar em mim.

Sob a autoridade de Ornub, os Tenentes da Nova Guarda viraram-se e iniciaram a marcha de retorno para dentro da caverna artificial.

Khao permaneceu sozinho à beira da estrada pavimentada, que riscava o vale de forma irregular, embrenhando-se entre penhascos e subindo em serpentinas íngremes rumo ao alto das Montanhas Castanhas.

Ele estivera fora por tempo demais.

Ele não era mais o bruto impetuoso que fora expulso daqueles vales na juventude, nem o monge disciplinado em busca de poder absoluto.

Era o Filho das Montanhas voltando para casa. E o acerto de contas contra o Sargento começava a cada passo que dava sobre aquela poeira antiga.




Àquela observava com os olhos semicerrados, já ajustado à escuridão do corredor que seguia a partir do campanário. Ele adentrava a rocha da montanha; no centro, dois esqueletos mantinham arcos armados, separados por exatamente nove metros de distância um do outro.

A arqueira colocou uma flecha na corda. Ponderou a trajetória, calculou o peso...

Não! — censurou Estebán, surgindo silenciosamente às suas costas. A luz do amanhecer banhava a silhueta do Senhor do Sombrio.

— Que susto! quase me revelou! — ela protestou, recuando um passo e baixando o arco, até estar oculta completamente dos esqueletos. — Só acho irônico você, que supostamente odeia mortos-vivos em masmorras, ter deixado esses dois aqui ...

— Não gosto de empilhar mortos-vivos em masmorras, mas sei seu valor. — corrigiu Estebán, impassível.

Recuaram ao antigo campanário da Montanha Morta, uma das entradas secretas da masmorra. O ponto mais alto da face oeste, debruçado sobre a imensidão da Ravina Avelã.

— Os esqueletos pesam vinte quilos cada... — explicou o marido. — Estão posicionados sobre alçapões ajustados para ceder com qualquer peso superior a isso. Eles seguram arcos para atacar à distância sem deixar sua posição, mas não têm órgãos ou carne para serem afetados por flechadas de retorno. O que um guerreiro ou bárbaro imprudente faria ao ver dois arqueiros ósseos naquela formação?

— Correria para fechar a distância antes que eles pudessem atirar...  — Deduz Àquela.

— E o peso combinado da carga extrapolaria o gatilho, o alçapão abriria e fecharia. — concluiu Estebán. — O idiota seria isolado do grupo, caindo dez metros em uma fossa de estacas, com dois mortos-vivos caindo logo atrás dele para terminar o serviço. Brilhante na simplicidade, não preciso de um Eyespy.

— Eu ainda não acho certo deixar uma armadilha dessas exposta aqui — resmungou a arqueira, mas sua atenção foi desviada. A esfera comunicadora em seu cinto começou a emitir um pulso de luz prateada. — A esfera... está brilhando! É a Amellie?! Eles voltaram?!

— Tem algumas horas. Senti a ressonância da Gladius Aeternum — confirmou Estebán. — Se você não estivesse brincando de exploradora de ruínas, eu já teria te avisado.

Os dois recolheram-se à penumbra da alcova do campanário. A Projeção de Amellie surgiu entre eles — a barda estava pálida, com o rosto limpo às pressas por um pedaço do próprio vestido, mas com os olhos ainda carregados de poeira e dor.

Ela deu a notícia sobre Morgan. Falou das palavras finais da oráculo, da estima de Myrlen, da carta não entrege, e do amor e da graça com que deveriam encarar os dias sombrios que viriam. E então, antes que o pranto a dominasse por completo, ela cortou o sinal de seu lado.

Àquela permaneceu em silêncio, o peito apertado pela tristeza, mas seu olhar buscou imediatamente o marido. Ela sabia que aquele golpe cortaria mais fundo nele.

— Morgan... Myrlen... Cyrak... — enumerou Estebán, a voz quase inaudível contra o vento do campanário. — Mesmo Katzophlis e o Arquidruida estão além do mundo. Eu sou o último de uma era. Alguns não eram meus amigos... Alguns eram meus inimigos... mas era a minha geração!

Àquela aproximou-se e abraçou o marido por trás, pousando os cabelos loiros sobre o ombro dele com infinita ternura.

— Você... quer continuar agora? — perguntou ela, suavemente. — Podemos acampar por um dia ou dois se você precisar de...

— Precisamos seguir. Por Bentho — determinou o Senhor do Sombrio, reerguendo a cabeça. — Mas não deste jeito.

Ele se afastou com passos firmes, retirando uma bolsa de armazenamento do cinto. Puxou um manto pesado de viagem, ideal para o clima das Montanhas Castanhas, e depois retirou um segundo volume envolto em feltro escuro.

— Você sabia que viríamos para o frio das montanhas? — Àquela franziu a testa.

— Aqui tem algo que pertence a você — afirmou ele, entregando-lhe o volume. — Isso vai protegê-la dos elementos. Eu ... Deveria ter pedido para você vestir isso há muito tempo... Mas agora, com os riscos que enfrentaremos, tornou-se imperativo.

Àquela abriu o pacote de feltro. Suas mãos trêmulas tocaram o acabamento em mithral, o couro trabalhado e o tom azul radiante inconfundível.

— Eu não... Eu não posso vestir isso — balbuciou ela, dando um passo para trás.

— Deixamos Shén-li para trás — insistiu Estebán, o tom firme e inabalável. — E sua verdadeira vocação ficou clara.

— Eu não sei se sou digna...

— A Nova Guarda jamais teria existido sem você — relembrou ele. — O Conselho Regente estaria mofando em um calabouço sem você intervindo na guerra. Eles é que deveriam pedir a sua autorização para usar essa heráldica, e não o contrário.

— Eu nunca me achei digna... — A esposa insistia. — Você sabe o peso que isso carrega.

— Já eu, nunca duvidei — afiançou Estebán, dando um passo à frente e segurando o queixo dela com gentileza. — Amellie disse a verdade... Bentho precisa de você, e você precisa dele. Não apenas porque você é uma boa arqueira, mas porque você precisa mostrar a ele o porquê de nós lutarmos.

Àquela olhou para a armadura em suas mãos. Nos últimos dias, o conflito interno a corroera por dentro. O desespero para proteger Bentho a levara por caminhos tenebrosos — a ponto de fazer o próprio "Senhor do Sombrio" pedir para que ela recuasse de volta à luz. Ela ferira a honra de Khao. Ferira a confiança de Bentho.

A pessoa que vestia aquela armadura era uma lenda viva de Shén-li. Alguém irreal, com feitos inatingíveis e uma moral impecável. Ela sentia que jamais estaria à altura do mito. Quando ela usava a armadura nos últimos anos, não era uma mentira. Era uma esperança. Fé de que um dia aquela figura reluzente fosse real.

Mas, ali no alto do campanário, encarando o vale que se abria para a terra de Cartallas, o espartilho de couro comum foi desabotoado.

O manto e o capuz rasgados caíram ao chão.

Os cabelos loiros soltaram-se ao vento da manhã.

E o aço, o mithral e o couro sagrado da Heroína da Nova Guarda foram ajustados ao seu corpo mais uma vez.




 

10 de agosto de 2026

EDGELORD - Cap. XVI FINAL - Arco da Montanha Morta

Por que dói tanto?

Andar...

...Respirar...


É como se cada fibra do meu corpo repudiasse o que estou prestes a fazer. Uma voz no meu íntimo repete que é um erro, mas a teimosia — ou o Destino — diz que eu deveria ir mesmo assim.

Myrlen testemunhou a favor dela. O filho de Blunt também. Estamos falando de alguém que mente, floreia a realidade e joga o jogo longo. Alguém sem a menor consideração pelos outros. Não seria absurdo pensar que eles estavam errados a seu respeito...

...Mas...

SAIAM DAQUI! — o urro de Amellie ecoa pelo corredor.

Duas espectras atravessam a madeira da porta, expulsas sem o menor pingo de cerimônia ou etiqueta. Franzi o cenho, desgostosa. Nunca vi Cyrak perder a calma dessa forma vulgar.

Aproximei-me. Aquela porta, que em outros tempos esteve trancada para mim como um símbolo da minha própria insegurança... Movi a maçaneta.

Estava destrancada.

— Outra aparição...? — resmungou Amellie, atirada na cama, de costas para a entrada. Ela lançou um olhar de soslaio, constatou que era eu, e encolheu-se ainda mais no colchão, virando a cara.

Lembro-me bem deste quarto. Não como o refúgio onde definhei nos últimos três anos, mas como o palco de um ato de rebeldia da minha juventude. Myrlen proibiu. Denunciou. O Destino já havia me mostrado quem Cyrak se tornaria, e acho que foi justamente por ser uma péssima ideia — por ser estritamente proibido — que tomei a estupidez de entrar aqui pela primeira vez.

E me feri.

Então... como eu poderia culpá-lo por fazer o mesmo que fiz? Embora, convenhamos, ele tenha repetido o erro infinitamente mais vezes.

Ajeitei minha coluna dolorida e sentei-me na beirada do colchão, mantendo uma distância prudente e a postura rígida.

— Só para seu governo... — comecei, o tom seco de sempre — ...não dei com a língua nos dentes para os seus dois amigos lá embaixo.

— E por que daria essa cortesia? — retrucou ela, banhada em ironia. Mas alcancei um pigarro disfarçado, travado na garganta dela.

— Bem, o Destino me soprou que um "inimigo" traria a revelação a todos...

— E não seria você? — O deboche era claro.

— Eu não sou sua inimiga — respondi, ranzinza, ajeitando o xale sobre os ombros. — Nem mesmo fui inimiga de Cyrak. Por mais que ele merecesse.

Amellie enxugou o rosto com o dorso da mão, de forma discreta. Fui... tolerante o bastante para fingir que não vi.

— Posso saber por que você me trata... e ao Cyrak... como se fôssemos duas pessoas distintas? — perguntou ela, a voz fraca.

— Myrlen costumava dizer que enxergava duas almas diferentes — comentei, olhando para o teto. — E é prudente aceitar o julgamento do Exemplar dos Magos, por mais irritante que ele fosse.

— Um idiota arrogante que sequer previu as consequências da própria sabotagem — esbravejou Amellie, amargurada. — Ele não sabia que, ao alterar meu homúnculo para o corpo de uma garotinha de treze anos, eu perderia meus poderes. Perderia... tudo.

— Nunca entendi direito essa mecânica... — confessei, estreitando os olhos, desconfiada.

— A Arte de Cyrak exige maestria absoluta de corpo e alma — explicou ela. — A forma como a Palavra da Criação responde à voz, a memória muscular... Milhares de variações ínfimas. A mudança de gênero, o timbre, a própria altura... A magia dos magos opera em uma bancada; a minha era o próprio corpo. Eu... perdi minha identidade e todo o resto. E como o seu precioso "Destino" já confirmou, jamais terei o poder de Cyrak novamente. Uma grande derrapagem do seu querido irmãozão Myrlen.

— Eu prevejo que havia sabedoria em tudo o que ele fazia, mesmo quando ele próprio duvidava — rebati, sem querer dar o braço a torcer. Mudei o apoio na bengala e encarei a garota. — Já sabemos o que Cyrak perdeu... Agora me diga: o que ele ganhou com essa palhaçada?

— A desculpa perfeita para frequentar vestiários femininos? — debochou ela.

— Eu diria que ganhou uma nova lenda — retruquei, soltando um tsc contrariado. — Soube do que você fez por Cardullion... e na Ordem de Cartallas. A minha dúvida é... por que não tomou uma iniciativa dessas... por mim?

Amellie entrelaçou os dedos, escondendo-os entre os joelhos.

— Eu tentei no enterro de Myrlem — confessou, baixo. — Mas antes, fui atrás de Ydal Bearlord... aquela...

— Aquela dondoca insuportável! — resmunguei antes que pudesse me conter. A interrupção arrancou uma risada sincera dela. Um som limpo que há muito não ecoava nesta casa.

— Sabe que nunca daria certo entre você e Cyrak, não sabe? — disse ela, fitando as próprias mãos. — Cyrak era patologicamente incapaz de não ser a pessoa mais interessante da sala. E ele jamais conseguiria esse destaque se você estivesse no mesmo recinto.

Senti um nó seco na garganta. Não esperava por aquela confissão.

— Amellie... — murmurei, tentando manter meu habitual tom crítico, embora minha voz tenha falhado levemente. — Você dedicou a sua nova vida a perseguir obsessivamente o fantasma do bardo, e os estragos de Cyrak... Sabe o que isso faz de você?

Ela esboçou um sorriso triste.

— Mais uma das "viúvas".

— Pois está mais do que na hora de quebrar esse círculo ridículo — decretei, batendo a ponta da bengala no chão de madeira. — Há dois jovens lá embaixo que não têm laço algum com o passado de Cyrak, e que o Destino entrelaçou com o seu caminho.

— Sim... — concordou ela, o olhar perdido. — Mas isso não vai durar.

— Nada dura nessa vida, garota — resmunguei, sentindo a amargura habitual dar lugar a algo mais brando. — É exatamente isso que faz cada momento ser precioso.

Olhei para ela. Tão pequena, carregando o fardo de duas vidas e a sombra de um homem que consumiu a todos nós. Soltei um suspiro pesado, rendendo-me ao cansaço e à compaixão. Devagar, estendi o braço e passei-o por seus ombros, puxando-a para perto. Minhas lágrimas há muito haviam secado, mas senti o calor do rosto dela contra meu peito. Amellie recostou a cabeça no meu ombro, permitindo-se ruir por um instante.

— Agora, falando sério... — disse ela, a voz abafada contra meu tecido. — Como a gente sai desse mausoléu condenado?

Suspirei, olhando para o teto mofado.

— Eu não faço a menor ideia...

— Então já passou da hora de perguntar ao seu querido "Destino".

— Eu tentei... — admiti, franzindo o cenho. — Mas ele me devolveu uma resposta enigmática. Disse que a saída é algo que você "ainda não me mostrou".

Amellie ergueu a cabeça, intrigada.

— Mas você sabe tudo sobre mim... Sobre as minhas duas vidas...

— Aparentemente, não tudo.

— Eu não teria como esconder algo do Destino, teria?

— Precisaria ser algo absurdamente pessoal — comentei, ponderando.

De repente, os olhos de Amellie se arregalaram. Um estalo.

— Ou algo que eu tenha... uma vergonha mortal.

— Vá por mim... — ironizei, soltando um escarro de riso, não percebendo como ela estava ficando abalada. — Yawe Cyrak era um descarado sem vergonha. Não acho que...

— Eu sei onde fica a porta! — Amellie colocou-se de pé num pulo, as mãos na cabeça. — Meu Deus... eu quase prefiro ser engolida pelo Vazio! É algo tão doentio que o Cyrak... Eu... eu não sei se tenho coragem de mostrar isso para o Bentho! para o Xitarro!

— Acho que você não tem muita escolha — retruquei, embora estivesse genuinamente curiosa com o escândalo.

Ela encarou-me, hesitante, os lábios trêmulos.

— O seu dom... — começou ela. — Ele abrange wishful thinking?

— Como é?

— A Teoria dos Futuros Possíveis — explicou apressadamente. — Algo que, se tudo der certo... se houver a menor das chances...

— Ah. chamamos de "A Pérola da Concha Não Nascida" — assenti, adotando um tom mais solene. — É mais arte do que ciência profética, mas não está fora do alcance da minha visão.

Amellie deu dois passos e ajoelhou-se à minha frente. Segurou minhas mãos calejadas e enrugadas com firmeza, abrindo sua mente e compartilhando a sua centelha comigo.


Fechei os olhos. E então... eu vi.

Um vislumbre de algo que talvez venha a acontecer. Um destino ainda não escrito nas páginas do presente, mas pelo qual valeria a pena queimar até a última gota de vida para alcançar.

Naquela visão, o jovem filho de Blunt estava ao lado dela. Não como um fantoche ou um fardo, mas como um companheiro de alma.

Vi Lady Àquela. A mulher imponente que outrora vi a estar em lágrimas... mas não de dor. Eram lágrimas de uma repreensão afetuosa, transbordando uma felicidade genuína.

Tudo por causa de uma garotinha. Uma vida pequenina que ainda estava por vir...


...E que carregava o meu nome. Morgan.

Abri os olhos devagar. O calor úmido finalmente voltou às minhas órbitas, e reencontrei minhas próprias lágrimas, descendo livremente pelas rugas do meu rosto.

A jovem que, em outra vida, fora meu amante inconsequente e o símbolo de toda a minha rebeldia, abraçou-me com força. E ali, no silêncio daquela mansão prestes a ruiu, ela me ensinou a última e mais bela lição: a de como alcançar a perpetuidade verdadeira, mesmo quando chegar a hora de cruzar os portões entre a vida e a morte.





— A-Amellie?! — perguntei, dando um passo à frente.

Ela estava estranha. Pálida, estática, envolta em um silêncio pesado.

— O que aquela bruxa velha fez com você?! — levantei-me de sobressalto, o peito apertado ao vê-la daquele jeito.

— Ela... nos salvou — murmurou a barda, a voz quase inaudível.

Não compreendi de imediato. Amellie desceu as escadas de forma hesitante, como se cada degrau exigisse um esforço monumental. Caminhou até o quadro-negro e apanhou um pedaço de giz. Com mãos levemente trêmulas, desenhou um retângulo imperfeito no terceiro piso extrapolando o mapa, logo acima do telhado do segundo andar.

— O que é isso? Um quarto oculto? — indagou Xitarro, inclinando a cabeça.

— Bentho... tente lembrar — disse ela, encarando-me fixamente. — Foi aqui que você viu a estrutura da mansão se projetar para fora da montanha?

Amellie achava que minha visão no espaço estivesse enevoada pela projeção, mas eu estava em puro hiperfoco. Na minha mente, foi como pegar o desenho dela e sobrepô-lo com exatidão à imagem que gravei quando encontrei Katzophlis.

— É muito provável — afirmei por fim. — Vamos lá verificar?

— Eu... não sei se deveríamos ...
Amellie sequer conseguiu terminar a frase. O foyer ruiu sob nossos pés com um estrondo ensurdecedor. Uma rachadura colossal cortou a estrutura da mansão de ponta a ponta. Quase nos separou. O Vazio devorava agora a planta básica da Mansão Perpétua.

— Não... — balbuciou ela, os olhos arregalados. — Está desmoronando rápido demais! MORGAN!!

Amellie saltou sobre a fenda e disparou rumo à escadaria. Parti imediatamente atrás dela. Mal vi quando Xitarro a alcançou, emparelhando ao seu lado. Então, o felino cravou as garras no piso e a segurou à força. Amellie debateu-se, tentando avançar a todo custo.

A escadaria dava direto para o abismo. O corredor, a lareira, a mesa de chá... Onde quer que Madame Morgan estivesse, o Vazio já havia devorado tudo.

— Eu vejo os destroços! — urrou a barda, as lágrimas lavando-lhe o rosto. — Ainda dá tempo!

— Não dá tempo de ir *e* voltar! A mansão está ruindo enquanto falamos! — gritei, segurando-a. — Eu sinto muito, Amellie...

A barda dobrou os joelhos, sufocando um grito na garganta... até que o chão simplesmente deixou de sustentá-la, e ela se elevou. 

— Ops! Lá se vai a gravidade de novo! — alertou Xitarro. — Terceiro piso, certo?!

Senti o felino agarrar a mim e a Amellie ao mesmo tempo, impulsionando-se e a nós para cima com um salto limpo aproveitando a falta de peso. A parte superior da casa ainda estava inteira, mas desmanchava-se a olhos vistos. Flutuamos lentamente até alcançar o alçapão do sótão, onde a gravidade subitamente voltou a nos puxar.

— Amellie... — chamei. — A porta! Nos leve a ela!

Ela parecia estar em transe. Não pensava, apenas agia por puro instinto de sobrevivência. Correu pelo sótão atulhado de caixas, memórias e quinquilharias: um espelho que refletia o ambiente, mas não as nossas figuras; um mapa do continente riscado de destinos; vestimentas antigas de cores constrangedoramente extravagantes; e o retrato em tela de uma jovem élfica triste de eras passadas, usando um penteado idêntico ao de Amellie.

Por fim, ela parou diante de um armário pesado. Ao empurrá-lo, a madeira podre desfez-se em poeira, revelando uma portinhola tão estreita que precisaríamos passar de lado.

— Vocês não podem abrir os olhos lá dentro. Em hipótese alguma — decretou Amellie, virando-se para nós.

— Tem uma medusa ou uma cocatriz lá dentro?! — cismei.

Amellie morde a língua, contendo a frustração.

— Bentho, lance Escuridão! Agora!

— O quê?! — estranei.

— Por favor! — suplicou ela, com um pavor genuíno na voz. — O que quer que esteja lá dentro... vocês não podem ver! É sério!

Lembrei-me instantaneamente da conversa que tive com Xitarro sobre segredos e sobre esconder coisas. Talvez não nos coubesse expor quem alguém realmente foi no canto mais isolado e protegido de sua própria mente.

— Teremos que andar às cegas... — murmurei. Conjurei a magia, e uma esfera de trevas absolutas nos envolveu no mesmo instante em que metade do sótão era tragada pelo nada, outra metade era tragado por minha escuridão.

— Eu posso nos guiar — disse eu.

— Como assim?! Você está ENXERGANDO?! — protestou Amellie.

— Eu tenho a Visão Diabólica, esqueceu? — resmunguei. — E a Gladys também vê nas trevas!

— Jogue a espada fora e se vede! — ordenou Amellie, desesperada.

— Isso é um absurdo...

— BENTHO!! — o grito dela rasgou o ar. — Você pode conjurar a Gladius Aeternum de volta assim que cruzarmos o portão! Mas ninguém pode ver o conteúdo deste quarto!

O casarão mergulhou num silêncio sepulcral. Eu via as fendas de nada avançando em nossa direção. Até mesmo o sótão estava se desintegrando.

— Mão na parede, Xitarro — instruí, enquanto rasgava um pedaço da minha capa e vendava meus olhos firmemente, e soltava a espada no vazio. — Gladys, eu juro que te puxo de volta!

— Achei a porta... — avisou Xitarro, no escuro. — Posso abrir, Amellie?

Nenhuma resposta.

— Amellie?! — chamei.

Minha voz ecoou de forma estranha, abafada, exatamente como quando flutuamos no Vazio. O som estava sendo sugado. O ar estava sumindo.

Só mais tarde Amellie nos contaria o motivo de não ter respondido.




O chão sob os pés dela cedeu, e ela foi tragada para a imensidão rosa e rubra. Ela gritou, mas não ouvimos. Estávamos cegos também. Ela flutuava cada vez mais rápido para longe, carregando consigo a chave vermelha. Não tinha a Gladius para ancorá-la, nem o bastão de Xitarro. Do seu ponto de vista, ela via a mim e ao catfolk nos afastarmos, prestes a sermos consumidos pelo nada.

Então, seu corpo girou involuntariamente no vácuo. Ao olhar para a direção oposta, ela a viu...

Madame Morgan.

A anciã parecia "voar" — ou ao menos foi assim que Amellie descreveu depois. Segurava a bengala à frente, como se conduzisse o próprio voo, solta no Vazio e perdida na imensidão.

O que Amellie não sabia era que o tempo da oráculo já havia se esgotado. Morgan tossia sangue quando ninguém estava olhando; fora um martírio físico insuportável, permitido pelo Destino, ir até a Suíte Major naquela última conversa... Mas a anciã não morreria sozinha. Ao menos: Foi o que Amellie decidiu.

A barda abriu braços e pernas, disposta a usar o próprio corpo para se chocar contra a idosa e afundarem juntas no esquecimento. Mas a anciã percebeu a intenção de Amellie. E foi exatamente para isso que servia a bengala.

Morgan a usava muito antes de caminhar se tornar um fardo insuportável. Suas pernas não ganhavam força alguma com o apoio de madeira... A bengala existia para lhe dar alguns centímetros a mais de alcance, maior que os dos braços de Amellie. Para exatamente aquele momento.

Com um único toque firme do cabo no peito de Amellie, os vetores de movimento se inverteram.

A barda foi impulsionada de volta na direção oposta, sem conseguir alcançar a anciã, que foi flutuando suavemente para a profundeza do Vazio. Não havia som no vácuo, mas no semblante da Irmã do Mago havia algo inquestionável: serenidade.



Quando arranquei a venda dos olhos, Amellie estava "caindo para cima" pelo buraco do assoalho. Apressadamente, estiquei o braço e a puxei para cima com toda a força que tinha.

— O que aconteceu?! — gritei.

— A venda! — exigiu ela, monossilábica, a voz embargada. Ela não queria se distrair. Não podia.

Há muito tempo eu não sabia o que era tatear no escuro graças ao meu pacto, mas a sensação tátil era inegável: o piso daquele cômodo secreto era terrivelmente grudento. Xitarro reclamou baixinho de haver esbarrado em algo úmido e viscoso. Um cheiro denso de petróleo misturado a eucalipto impregnava o ar sufocante.

Pelo tato, as paredes pareciam todas forradas de couro macio. Bati a cabeça em algo pesado que pendia do teto por uma corrente.

— Não olhem para NADA! — urrou Amellie. — Há uma portinhola de meio metro de altura no fim deste corredor!

Xitarro alcançou a extremidade do quarto. Tateou a madeira e ouvimos o tilintar do penduricalho metálico da fechadura.

— Por Aetíades, não me derrube essa chave! — orou a barda, tateando até entregar a peça rubra nas mãos do catfolk.

O fecho cedeu. Ouvi o uivo do vento. Senti um puxão gravitatacional violento.

Mal tive tempo de estender a mão e conjurar Gladius Aeternum de volta para a minha posse.

No segundo seguinte, fomos arremessados sob um céu arroxeado, despencando de uma altura de oito metros diretamente na encosta de uma montanha.

Rolamos descontroladamente pela rasteira cascalhenta. Xitarro recuperou o equilíbrio com a agilidade felina, mas vi Amellie se arranhando inteira enquanto deslizava rapidamente rumo a um precipício.

Joguei-me de cabeça. A armadura pesada fez-me deslizar quase sem atrito pela pedra. Alcancei a barda pelo pulso e finquei Gladys com toda a força na rocha maciça.

O impacto travou nossa queda. Amellie ficou com as pernas penduradas sobre um despenhadeiro de dezenas de metros, voltado para um vale imenso onde a cor predominante era o marrom-terroso.

A Ravina Avelã.

Estávamos de volta ao nosso mundo. Mais especificamente: nas Montanhas Castanhas.

Xitarro correu pela encosta e ajudou-me a içar Amellie para terra firme. Por um momento, pensei que ela estivesse em choque por quase ter despencado no abismo.

Não era isso. Era o luto.




Ela agarrou o peitoral da minha armadura com força desmedida e desabou num choro copioso e dolorido. Eu não podia me levantar. Apenas a abracei de volta com toda a força que consegui reunir, protegendo-a contra o vento da montanha.

Xitarro permaneceu a poucos passos de nós, observando o vale em silêncio. Uma sentinela vigilante.

Sobrevivemos à Mansão Perpétua de Cyrak — o nosso desafio mais denso até aqui. Não por enfrentarmos monstros ancestrais como o Eyespy, nem por confrontarmos Lord Blunt ou a Nova Guarda. Foi o desafio mais difícil porque não havia nenhum monstro para matar. Só coisas dentro de nós que preferíamos que ninguém encontrasse.

Mas nós precisávamos continuar.

Precisávamos... Perseverar.

Vou chamar menos por Aetíades a partir de agora... ou resmungar menos o nome de Bophades.

Esta é a terra de Cartallas.



PRÓXIMO ARCO: A PERSEVERANÇA!




5 de agosto de 2026

EDGELORD - Cap. XV - Arco da Montanha Morta

Bem-vindo à Mansão Perpétua de Cyrak. O prato do dia: Torta de climão.

A velha Madame Morgan levantou a voz para Amellie. Sabe, aquela mesma língua ferina que faz meu pai, o terrível Lord Blunt, preferir imobilizar a dar a chance de ela falar algo e desestruturá-lo?

Amellie só ouviu. Assimilou. Baixou a cabeça e saiu.

Caminhou em passos firmes — obviamente pesados pela raiva contida — enquanto subia as escadarias do Foyer até desaparecer no segundo piso.

— Eu estou acomodada na Suíte Major! — resmungou Morgan em tom alto, fazendo questão de ser ouvida.

— Não mais! — respondeu Amellie lá do alto.

Levou alguns segundos antes de ouvirmos uma porta bater com força.

— Bem... — puxei a palavra. — Na falta da oradora do grupo, eu me vejo na obrigação de perguntar... Que MERDA é essa, vovó?!

A bruaca se arrepiou de espanto. Estranho para uma oráculo "não ver o que vinha".

— Linguagem, jovemzinho! — resmungou ela.

— O caralho! — retruquei. — Estou cansado de ver a senhora nos tratando como lixo estando no mesmo balde que a gente, esperando o mesmo lixeiro recolher!

— Eu vi e vivi os Segredos do universo e do destino, seu pivete, que você nem...

— Sim, e o que viu é que vai morrer num mausoléu sozinha, exatamente como Cyrak morreu! — Levantei a voz. — Amellie jamais será Cyrak? Pode ter certeza! E nem falo de gente como o Capitão Lizzo, minha mãe e toda a Igreja da Perseverança, que ela elevou ao seu melhor potencial. Se a gente não sair desse casebre, a Amellie vai ter a mim... — Hesitei por um segundo antes de emendar: — ...e ao Xitarro ao lado dela. Cyrak não vale a sombra dela. A SENHORA não vale a sombra dela!

As sobrancelhas dela se cerraram.

— Você acredita mesmo que Amellie vale tudo isso? — resmungou a velha. — Que ela não fez nada disso apenas por glória e prestígio?

— Eu... eu nem sei por que preciso me justificar a VOCÊ, dentre todas as pessoas.

Comecei a caminhar em direção à escadaria, ia atraz dela... Mas a bengala da velha foi atravessada no meu caminho.

— Me deixe tentar remediar, então — resmungou ela.

— Com essa má vontade? — protestei, empurrando a bengala para tirá-la da minha frente.

— Por favor.

Ok... essa me pegou desguarnecido.

Dei um passo para trás. A velha começou a caminhar em direção à escada... Não sei se estava literalmente queimando seu tempo restante de vida ou se era apenas limitação de movimento... mas começou a subir as escadas.

Sentei-me no sofá e deixei o sangue esfriar. Xitarro sentou-se ao meu lado.

— B-bentho... — ele começou. — Você falou... Não diria "bonito", tinha palavrões demais... Mas falou bem.

— Obrigado.

— Você acredita mesmo nisso? — perguntou Xitarro. — Amellie claramente tem coisas que não nos conta.

— Coisas de que tem vergonha — falei. — Mas se for importante, ela falaria. Não está resmungando por causa da barraquinha arcana de novo, está?

— Eu... Só acho que somos um grupo. Em teoria, amigos — disse ele. — Esconder coisas dos amigos, mesmo que seja para protegê-los... não sei se seria o certo. Você não faria isso.

Essa não.

Afundei no sofá.

— Faria sim, Xitarro.

— Eu não acho...

É... não tinha mais jeito.

Abri minha mochila e saquei um caderno velho, mofado.

— Ei... — Xitarro comentou, inclinando a cabeça. — Eu já vi esse livrinho!

— É o diário do capitão. Do navio em que você naufragou.

Xitarro arregalou os olhos.

— Eu lembro... Derramei tinta nele quando tinha dez anos...

— O capitão completou o diário. Leia as duas últimas páginas.

Entreguei o livro a ele. Xitarro hesitou.

Eu sabia exatamente o que ele leria. Mais insultos velados à criança. E, de repente, a tempestade. O navio encalhando. O pequeno catfolk caindo no mar. Sendo avistado e ignorado pela tripulação que abandonava a embarcação...

...Pelos seus próprios pais.



Xitarro ficou alguns segundos olhando para o nada. Em transe.

— Eu sinto muito, Xitarro.

— Eu... deduzi que eles tinham esquecido de mim — o monge comentou, a voz baixa.

Ele abriu a boca, mas ficou em silêncio alguns segundos antes de completar...

— Não imaginei que tivesse sido tão rápido.

— Eu deveria ter te contado. Isso foi imperdoável, e nem acredito nas minhas próprias desculpas. — falei. — Mas a Gladys comentou... Não importa.

— O que ela falou? A espada? — ele perguntou, ainda em choque. — É importante.

Respirei fundo.

— Quando nos conhecemos... você estava com tanto medo de ser deixado para trás que a Gladys comentou comigo. Ela disse que eu poderia usar esse seu medo para te moldar. Quebrar seu espírito para você odiar o mundo e virar um capanga sob o meu controle.

Xitarro congelou. As orelhas baixaram de vez.

— Eu achei... cruel — continuei, encarando as minhas próprias mãos. — Mas pensei que estava te protegendo ao não contar do diário. E não estava.

— A Gladys falou isso...? — Xitarro perguntou. — Eu... Estava sim, e isso... isso dói. Mas eu precisava ouvir. Obrigado.

— Você pode gritar comigo ou sentir raiva — comentei. — Prometo fazer de tudo para reconquistar sua confiança. Mas...

— Você achou que estava me protegendo da Gladys... — Xitarro insistiu. Ele ainda parecia desorientado. — E talvez tenha me ajudado. Estamos de boa!

Não sei se ele estava realmente "de boa"... mas não parecia guardar hostilidade comigo, o que era um alívio imenso.

— Então... — perguntei, ainda hesitante. — Acha que a Amellie está escondendo algo assim da gente?

Xitarro olhou para mim lentamente, com os olhos arregalados.

Há dois dias...

O PACTO DA MONTANHA MORTA

Meu nome é Amellie... e passei a última hora tramando com os pais de meu melhor amigo. O tempo era curto. Gladys podia estranhar se percebesse Blunt e Àquela parados tanto tempo tão perto de nós.

Só tínhamos uma hora. Traçamos os planos.

Não poderíamos parecer aliados, ou Gladys perceberia...

...Isso me garantiria mais algum tempo com Bentho... Dias talvez. Até o inevitável momento em que o segredo seria revelado. E eu seria tão não-grata quanto tantos que mentiram para ele.

Estendi a esfera a Estebán. Era um sofisticado comunicador de duas vias, e seria usado em exceções.

— Bem, acho que essas bolinhas sempre foram suas, não é?

Ele olhou sério para o meu gesto, ponderando.

— Entregue a Àquela — ele falou seco, afastando-se.

Não entendi no momento... Mas logo vi.

Ela desviou o olhar.

Eu desviei.

Não importa quantas vidas eu viva, sempre decepciono as melhores pessoas. Por algum motivo, Blunt queria que eu falasse com a esposa. Bentho tinha comentado como Lady Àquela idealizava a figura da "Senhorita Amellie", a professora de ópera. Ela não devia ter muitas amigas fora as nobres deslumbradas pelo mito dela, ou os militares...

...E eu era apenas outra impostora.

— Eu... Estebán pediu para entregar a você...

— Eu ouvi — ela respondeu.

Ficamos em silêncio enquanto ela apanhava a esfera mensageira que tínhamos "encontrado" no cofre da Montanha Morta.

— Não atendam imediatamente, pode ser Bentho ou Xitarro brincando com minhas coisas. — adiantai. — Esperem a imagem aparecer.

— Farei isso — ela disse, desviando o olhar. Bem... era um progresso não ter um par de flechas mirando nos meus olhos.

— E também... — arrisquei. — Independentemente do que eu fiz... do que eu sou... Pense no Bentho. Vocês dois precisam um do outro.

Àquela baixou o semblante.

— Você quer ser chamada de "Amellie"... É assim que se identifica — apontou ela. — Eu vou respeitar isso.

Eu queria sorrir. Queria abraçá-la. Queria pedir um perdão mais apropriado.

Mas não era adequado. Não tínhamos tempo.

Contei em minha mente enquanto deixava a cena do complô. Blunt e Àquela me deram uma dianteira de uma hora. Quanto tempo eu conseguiria guardar aquele segredo?

...Quase nada.


Dobro uma esquina e vejo Xitarro.

Sentado. Abraçando os joelhos. Encarando o vazio.

Eu sou bem atenta... Àquela era uma militar treinada... Blunt era sobrenatural, se nenhum de nós o percebeu, então a capacidade dele de ficar quieto era assustadora... Mas Xitarro simplesmente estava ali.

— Olá, amigo... — comecei.

— Oi... — ele falou, tentando inutilmente esconder o choque. — Eu vi um guaxinim falante.

— Mesmo? — perguntei. — E o que mais?

Ele baixou o semblante.

— Eu vi você e os pais do Bentho tramando contra ele.

Direto e sincero.

— Não é contra ele — sentei-me ao seu lado. — Eu temo pelo que a Gladys pode fazer com ele. Tenho motivos para crer que a Espada está jogando com as nossas vidas.

— E por que não contou para o Bentho?

— A Espada está constantemente na mente dele — expliquei. — Com experiência, ele poderia aprender a segmentar pensamentos como o Estebán faz... Mas é perigoso, e não temos tempo... Você entende?

— Eu não sei... — ele falou.

— Xitarro, eu só quero o melhor para o Bentho — falei, por fim. — Mas preciso ser cuidadosa. Se você não confiar em mim, pode ficar de olho. Prometo que jamais farei nada de ruim para você ou para ele...

— Eu não sei se posso...

— Eu não sei se EU posso! — ri fraco. — E olha que mentiras meio que são a minha vida. Não quero envolver você... E se tudo mais der errado, eu assumo a culpa e arcarei com as consequências. Prometo que não vai ter nada entre você e o Bentho... Só quero protegê-lo da Gladys, entende?

Ele fez que sim com a cabeça, mas eu sabia que não. Só esperava que ele entendesse no caminho, antes que o pior acontecesse. Não sabia como eu poderia convencer a ele que Gladius Aeternum não tinha o melhor para nós em suas intensões...

— Não — Xitarro respondeu sem piscar.  — Amellie está de boa.

— Bem... — Dei os ombros, sem imaginar o peso daquele silêncio. — A propósito: parabéns pela vindoura promoção a Exemplar.

Ele piscou, saindo do transe e ponderando por alguns segundos.

— Como assim?

— A coisa que Madame Morgan previu. —Dou um tapinha nos ombros dele. — Se não sou eu e não é a Amellie, sobrou você. O futuro Exemplar dos Monges! Mesmo nível de meu pai!

— Mas monges vivem em monastérios longínquos para virar monges alto-sei-lá-o-quê...

— Você viveu em uma ilha por cinco anos e bate mais forte do que muitos tenentes que eu já vi!

— C-catfolks vivem no máximo trinta anos! Monges não precisam ser anciões com séculos de...

— Monges de alto nível, quando passam a controlar o próprio corpo, simplesmente param de envelhecer — Lembrei. — Acho que ficar agindo como capanga pode só atrasar seu apogeu...

Xitarro baixou o semblante.

— Sei lá... Não gosto de saber meu destino — resmungou ele. — Preferia só curtir com meus amigos.

— É... — Estiquei os ombros. — A Madame Morgan estava certa sobre isso... Mesmo destinos teoricamente "bons" estragam a jornada e a surpresa.

— Ela é sábia... Embora rancorosa — ele comentou. — Espero que saiba lidar melhor com a Amellie...