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23 de maio de 2026

[EDGELORD] - O PIRATA SOLAR & O HERDEIRO DA ESCURIDÃO FINAL

 

✧ PARTE V ⚓ “O Pirata Solar” ✧

Eu sou o Capitão Jack Filler.
E, por muitos anos, resisti à alcunha de “Capitão Lizzo”.

Vim de uma situação precária. Recebi uma oportunidade que me arrancou de um destino predeterminado. E não foram os “anjos” de Shén-li que me concederam essa chance.

Foi sua escória. Seu submundo.

Aprendi cedo que, seja “bando”, seja “tripulação”, a tão repetida “honra entre ladrões” não existe apenas para anestesiar consciências culpadas. Não é um placebo moral para quem saqueia, rouba ou vive da pirataria.

É sobrevivência.

Hon-sa e Amellie não se suportavam desde o instante em que a barda colocou os pés a bordo do Deixa em Branco. Ainda assim, diante de algo maior que seus próprios egos — uma Serva Draga — compreenderam rapidamente a realidade da situação.

Em terra firme, a inimizade talvez funcionasse. Uma correria para a esquerda, a outra para a direita; a criatura precisaria escolher uma presa, e quem fosse escolhida estaria condenada.

Mas o mar não permite esse tipo de individualismo.

Um marujo covarde, incapaz de confiar ou inspirar confiança, é como uma rachadura no casco. Talvez sobreviva à tormenta imediata. Mas jamais voltará a integrar a tripulação.

E ambas sabiam disso.

Esquivavam-se como podiam. Quando uma vacilava, a outra se lançava além do limite para arrancá-la da morte. Então a dança recomeçava. Ganhavam minutos preciosos ante um oponente superior. Caso sobrevivessem, aquele seria o batismo definitivo.

Ou teriam caído com honra, imagino eu, não fosse minha chegada.

Naquele momento, cada uma das garras da Serva Draga apertava o pescoço de um grumete diferente. Os rostos arroxeavam. O ar lhes escapava. O fluxo sanguíneo diminuía perigosamente.

A criatura parecia satisfeita.

Ao menos até minha pistola de pederneira explodir-lhe a cabeça.

— Amellie estava certa! — comenta meu novo amigo, Lord Edge. — Só precisa de um segundo para farmar aura!

Decidi deixá-lo viver após aquela frase. Ele já havia me ajudado demais naquela noite.

Hon-sa, mais madura, limitou-se a acenar em agradecimento enquanto recuperava o fôlego. Amellie, por outro lado, ainda sentia o gosto da mortalidade na garganta. Correu até nós e se agarrou aos nossos ombros como alguém verificando se continuávamos vivos.

— Vocês estão bem? — Edgy pergunta.

— Estamos agora! — responde a barda, ainda ofegante.

— As ordens, capitão? — Hon-sa tenta recuperar a postura profissional. A imediata odiava parecer vulnerável.

Permiti que Edgy conduzisse o momento. Afinal, o plano era dele.

— Amellie, Xitarro deve estar atrapalhando LE-0. Ele é muito “todo-o-lugar”. Vá para a popa, mande ele vir para cá. E, quando chegar lá, garanta que LE-0 tenha espaço para fazer o que ele faz de melhor... O capitão confia nele.

— Sem a draga cancelando meus truques? Será um prazer! — responde Amellie antes de desaparecer pelo convés.

Observei-a partir. Amellie era mais inteligente que o rapaz de armadura. O fato de confiar tanto nele dizia bastante. E o fato de ele confiar no meu julgamento sobre LE-0... bem, aquilo era reconfortante.

— Já estava na hora daquele droide amolecer esses peixes... — resmunga Hon-sa enquanto recua para perto de nós. Ainda havia Esculiões demais avançando pelo convés.

— LE-0 é um bom começo. Mas a chave da vitória, como sempre, virá da sua cabeça iluminada, imediata. — aponto para ela.

— “Iluminada”? — Hon-sa ri. — Isso me deu uma ideia.

— Exatamente o que eu esperava.

Os Esculiões tornavam a avançar. Mas Lord Edge e eu já os aguardávamos.

— Ainda está com seu presente? O pacote que pedi para não abrir até quinta?

Verifiquei o bolso interno do casaco. Continuava ali. Uma caixa pequena, pesada demais para seu tamanho, embrulhada em papel colorido e laço.

— Por que quinta? — pergunta Edgy enquanto atravessa um Esculião.

— Porque quinta é meu aniversário.

— Sério?! Nesta quinta?! — ele exclama. — É o meu também!

Parei por um instante, florete ainda enterrado no peito da criatura.

— Está falando sério ou tentando forçar “broderagem”?

— Garotos, garotos... — Hon-sa interrompe. — Não podemos esperar até quinta. Senhor Edgy... esses seus “raios mágicos”... Sabe dizer se são Força Nuclear Forte?

— “Força Forte”?! — ele torce o nariz. — Mais cedo você reclamou porque chamamos nossos metais de “ferro frio”!

— Bem, preciso que dispare tudo o que tiver contra a ThunderSphere.

Ela faz um gesto breve, e a pequena esfera metálica começa a orbitar Lord Edge como um predador curioso.

— Capitão, preciso do senhor entre as velas do tombadilho. E eu preciso subir para a gávea. LE-0 deixou o holofote lá em cima. Aguarde meu sinal.

— Entre as velas?! — resmungo. — É o ponto mais exposto do convés.

— Eu vou estar com o senhor, capitão... — Edgy tenta me tranquilizar. Considerando que passaria os próximos minutos disparando magia numa bola flutuante, suspeitei que sua ideia de “proteção” envolvesse apenas manter as criaturas ocupadas.

— E qual será esse “sinal”, imediata? — pergunto.

Hon-sa sorriu daquele jeito que sempre me fazia desconfiar da própria realidade.

— O senhor vai ver.

Então ela saltou.

E desapareceu na noite como um relâmpago felino.



Amellie e Xitarro trocam um high-five no meio do caos — algum cumprimento interno entre os dois envolvendo “troca de pares de dança” ou talvez “mudança de ato na ópera”. Nunca compreendi completamente a piada interna da Ledgyão.

Mas a barda agora tinha outro objetivo: alcançar LE-0.

O androide sustentava sozinho uma linha de supressão no convés. Disparos precisos impediam o avanço das Dragas, mas também o mantinham preso à própria posição. Ele sobrevivia. Nada além disso.

Havia criaturas demais no tombadilho. Uma muralha viva.

Exceto por um pequeno corredor vazio que os Esculiões evitavam instintivamente. Quando algum distraído ousava cruzá-lo, escorregava violentamente e desaparecia deslizando ao sabor do balanço do navio.

— Graxa... — constata Amellie. — Isso vai arruinar meu vestido favorito...

Então ela corre.

As criaturas já não podiam ignorá-la. Quando avançaram, porém, Amellie lançou-se deliberadamente sobre a armadilha escorregadia.

A barda desliza de joelhos pelo convés como uma atriz atravessando o palco no auge da apresentação. O lubrificante preserva seu embalo; rente ao chão, ela passa abaixo das garras alongadas das Dragas. As poucas que tentam interceptá-la acabam traídas pela própria superfície instável e iam ao chão.

Com o movimento garantido, Amellie ergue o alaúde.

Os acordes surgem rápidos, quase irresponsáveis, mas sustentados pela precisão absurda de uma artista veterana. O encantamento se espalha pelo corredor num pulso triunfante, afastando os Esculiões entre ela e Lawful Evil Zero.

Ela para exatamente diante do androide.

— Olá... — diz, sorrindo.

— Saudações. — responde LE-0 em seu habitual tom funerário.

— Vou te dar folga em curto alcance. — Amellie ajoelha-se junto às pernas metálicas do veterano de bronze. — Você teria algum truque mecânico capaz de virar esta luta?

— 25,3 opções me ocorrem. — LE-0 calcula. — Sem o felino obstruindo trajetórias... dúvida: Capitão e Imediata estão afastados?

— Pelo que vi, a gatinha subiu no mastro... — comenta Amellie. — E o capitão deve estar na... “pontinha”...

— Proa. — corrige o androide. — Com novo input... acredito que utilizarei morteiro de gás do sono.

Quatro de seus braços assumem uma configuração de estabilidade. O crânio metálico recua parcialmente para dentro do pescoço, revelando um cano oculto.

O construto calcula ângulo, vento, inclinação do navio e densidade do combate numa fração de segundo.

Então dispara.

Três estampidos secos.

Cápsulas brancas cruzam o convés em arcos perfeitos e explodem em pontos geometricamente calculados. Nuvens densas de pó esbranquiçado começam a cobrir grande parte do tombadilho.

Os Esculiões atingidos desabam imediatamente.

Outros permanecem de pé por alguns segundos, apenas para começarem a vacilar conforme o vento espalha a substância. Movimentos lentos. Garras hesitantes. A violência persistia — mas sem a mesma fome.



Hon-sa acreditava que alcançaria o mastro antes de ser interceptada. Estava errada.

As criaturas bloquearam sua rota antes da metade do percurso.

Ela ergue os olhos. Uma retranca atravessava horizontalmente o mastro acima dela, sustentando parte do cordame principal. Distante demais para alguém normal, mesmo ela tinha dúvidas se conseguiria o salto.

Mas Hon-sa raramente se preocupava com limitações normais. Ela salta.

O impulso thunderiano a lança para cima como um disparo.

Uma Draga salta atrás dela.

Ainda no ar, Hon-sa precisa girar o estranho teclado preso ao coldre. O mecanismo se transforma numa pistola luminosa.

— Painel Blaster! — anuncia quase por reflexo.

O disparo arranca a criatura do caminho. Mas o tiro lhe custa impulso. E atenção.

Sua mão passa meio palmo abaixo da retranca.

Por um instante, ela apenas paira no vazio.

Então a gravidade a reivindica de volta.


   Felizmente, o felino extraordinário a alcança antes da queda.

Xitarro surge acima dela quase como um reflexo do próprio navio, Agarrando seu pulso a no ar sobre a retranca estreita.

— Estava com saudades, gatinho! — flerta a imediata sem perder o fôlego.

As duas feras equilibravam-se sobre a madeira elevada enquanto o combate rugia muito abaixo.

Então um Esculião abre a boca vertical. O mesmo canhão de água. A pressão absurda que, minutos antes, quase esmagara Hon-sa contra o castelo de popa.

Mas Xitarro apenas avança um passo e espalma o ataque com ambas as mãos. A torrente desvia violentamente para o lado, cortando o ar como uma lâmina líquida e explodindo no mar escuro sem atingir ninguém.

— Eu adoraria continuar a conversa, gracinha... — Hon-sa admite. — Mas eu preciso...

— Pode ir! — o rapaz responde com confiança juvenil demais para aquela noite infernal. — Agora eles só conseguem vir do mesmo lado. Eu seguro as pontas aqui embaixo!

Hon-sa pisca por trás dos óculos enviesados antes de disparar escada acima rumo à gávea.

Para sorte dela, LE-0 era patologicamente organizado. O holofote estava exatamente onde deveria estar. Com o Painel Blaster em mãos, Hon-sa começa a reposicionar as velas solares do Deixa em Branco. Vergas giram. Enxárcias tensionam. Retrancas se inclinam. As velas translúcidas lentamente se reorganizam até formarem algo semelhante a um casulo luminoso ao redor do mastro.

Ou talvez uma lente colossal.

E eu...

Eu era a formiga.

— Não vou poder cantar “parabéns”... — Hon-sa grita lá do alto enquanto executa o último comando. - O sinal está vindo, capitão!

Até então, Lord Edge disparava energia rubra na ThunderSphere com cautela quase religiosa, receoso de danificar o artefato. Só interrompia o ritmo quando alguma Draga conseguia alcançá-lo.

Mas o bombardeio de LE-0 começou a cobrir o tombadilho naquele instante. Explosões químicas. Gás sonífero. A pressão inimiga diminuiu consideravelmente. Com um gesto, a ThunderSphere abandona sua função ingrata de servir como alvo arcano e retorna às mãos de Hon-sa. Ela a conecta ao holofote. Um feixe disperso de luz supercarregado pela energia acumulada atinge uma das velas solares.

Dela, o brilho ricocheteia mais concentrado para outra.

E outra.

E outra.

Cada reflexão refinava a seguinte.

Até que uma coluna luminosa desce dos céus e me envolve por completo.

O sinal.

Levei a mão lentamente ao bolso interno do casaco.

E desembrulhei meu presente.

A empunhadura era refinada demais para existir naquele mundo. Metal, runas e circuitos conviviam como se magia e tecnologia jamais tivessem sido conceitos separados. Um absurdo abstrato para Shén-li. Mas, pelas histórias de Hon-sa, algo assim talvez fosse banal entre o povo dela.

Seria uma arma digna de reis.

Se a “lâmina” não fosse apenas um cristal minúsculo, pouco maior que meu polegar.

— O que é isso, imediata?! — questiono, incapaz de esconder o desespero crescente. — É para eu abrir as cartas deles?!

— É tecnologia do meu rei! — ela berra da gávea. — Não está funcionando?!

— EU NÃO SEI COMO ESSA COISA PODERIA FUNCIONAR!

— Ajuda aí! — Hon-sa rosna, improvisando. — Meu rei colocava na frente do rosto e gritava “tander-tander-tander” até ela...


   

A explosão de luz quase me cegou.

Por um instante, pensei tratar-se de uma ilusão. Ou talvez um simples jato de energia concentrada.

Mas havia peso em minhas mãos.

Havia calor.

Havia radiância.

E, acima de tudo, havia presença.

Aquela não era uma arma comum. Era o resultado impossível de segredos roubados de múltiplos mundos.

Uma lâmina de finesse épica.

— Isso... — reconhece Lord Edgy, imediatamente mais emocionado do que eu. — Isso é um SABRE SOLAR!!! — ele urra. — O senhor ganhou um SABRE SOLAR, CAPITÃO!!!

Soube mais tarde que, naquele instante, a entidade aprisionada em sua espada respondeu com profundo desprezo.

— [E por que exatamente isso seria tão empolgante?]

— Deixa de ciúmes, Gladys! — o Herdeiro da Escuridão praticamente tremia de entusiasmo.

E então compreendi.

Não apenas o valor da arma.

Mas a ascensão que ela representava.

A diferença entre sobreviver... e vencer.

— [Ah, não! Já chega!] — protesta Gladius Aeternum, embora apenas Lord Edgy pudesse ouvi-la. — [Você já é o herói limítrofe filho de um Lorde do Lado Sombrio usando armadura completa, capa preta e magia sombria proibida. Se aparecer agora com um SABRE DE LUZ, vamos nos afogar em processos e fãs tóxicos!]

— Mas isso é MUITO legal! — Edgy rebate sem qualquer vergonha.

Confesso que observar apenas metade daquela conversa foi uma experiência profundamente confusa.

— [Acho que chegou a hora de um novo Boom, já que aparentemente eu “não sou boa o suficiente”.]

— No meio da luta?! — Edgy protesta. — Eu não posso sair daqui!

— [Não para você. Para mim.]

A espada negra abandona a mão de seu senhor.

Sua imagem oscila no ar. E desaparece. Pelo que o Filho de Blunt me contou depois, Gladius Aeternum não era apenas uma arma.

Era um canal.

Uma ligação direta com algo antigo enterrado no Submundo. Uma entidade que julgava os bruxos dignos de poder maior.

A espada clamou.

E a escuridão respondeu.

Uma mão humana para controlar a magia.

Uma garra de fera para impor poder.

Quando Gladius Aeternum retorna às mãos de Lord Edgy, o próprio ar ao redor parece mais pesado.

Não era apenas energia sombria.

Era a própria escuridão.

Era ameaça.

Como encarar um buraco negro segurando uma espada.

— Gladys...? — o cavaleiro pergunta, genuinamente preocupado. — Como você se sente?

A espada responde sem hesitação:

— [Sedenta].


   

Agora ambos estávamos prontos.

Nós tínhamos nossos “power-ups”.

Nós tínhamos dezenas de Esculiões desacelerados pelo bombardeio de LE-0.

E tínhamos um convés inteiro esperando para ser retomado.

— Assuma a liderança, Senhor do Sombrio! — ordeno ao meu companheiro de armas. - Pois comandas o caos, e eu orquestro a ordem!

— Trevas na frente da luz...? — ele observa. — Sabe no que isso transforma a gente, Capitão do Sabre Solar?

Ergo a lâmina radiante.

E sorrio.

— Um eclipse. — decreto.



Ele era Esteban. Encarnação do "pior do mundo" nas cantigas de ninar por Shén-li e além.

Seu objetivo era proteger o filho. Mesmo de si mesmo.

Estebán pressentiu o perigo vindo do rio antes mesmo de compreender sua origem. Sentiu Gladius Aeternum pulsar à distância como um coração maligno despertando.

— Gladius Aeternum... — o Exemplar dos Bruxos murmura. — Ela ampliou o sinal. Houve um surto de poder... Está evoluindo Bentho.

— Evoluindo?! — Lady Àquela aproxima-se imediatamente. — Isso não é bom?

— Bruxos possuem uma curva de aprendizado. — Estebán responde sem desviar o olhar do horizonte. — Se a espada decidiu antecipar esse processo... eu temo...

Ele não ousa concluir o pensamento. Àquela sente o sangue gelar.

— Faça alguma coisa, Blunt! — ela ordena, já desesperada.

Estebán demora alguns segundos para reagir.

Então lentamente volta o rosto para ela.

Inseguro.

— Você... me chamou de “Blunt”?

Àquela sustenta o olhar dele.

E relembra o pacto profano firmado nos arredores do Castelo Negro.

— Se Bentho estivesse em perigo... — ela fala firme, apesar do medo. — ... eu mesma pediria pela ira de Lord Blunt.

Era um pedido perigoso.

Mas era o combinado.

As rugas de escriba e pai cansado permanecem por apenas mais um instante.

Então a sombra sobe.

O manto negro imaterial cobre-lhe parcialmente a face.

E sua presença cresce.

A sombra projetada no pequeno esquife torna-se a de um titã.

Não havia mais hesitação ou limites.

Não havia mais Estebán.

Apenas Lord Blunt.

O maior vilão do mundo.

— Use o leme para alcançarmos a margem. — A voz agora carregava a autoridade absoluta de um imperador. — Aproveite a ventania.

Àquela olha ao redor, confusa.

— Q-que ventania?!

Lord Blunt entrelaça os dedos num gesto arcano impossível. Àquela sequer entende como os metacarpos dele não se partem naquela posição.

Então o céu responde.

Um vento sinistro desce sobre o rio.

Os olhos de Blunt brilham em púrpura.

E outros quatro olhos espectrais paralelos abrem-se próximos de sua cabeça.

A atmosfera entra em convulsão.

Nuvens iluminadas começam a surgir acima do rio em formação antinatural, enquanto seis gigantescos losangos luminosos avançam lentamente na direção onde Lord Blunt percebia Gladius Aeternum.

— Estes são os Seis Olhos de Bophades. — anuncia ele. — Magia de nono círculo. Exclusividade dos Bruxos Hexblade da linhagem de Gladius Aeternum.

Àquela observa o céu se deformando acima deles.

— Isso... é uma tempestade?

Havia reverência em sua voz.

E talvez medo.

Lord Blunt ergue o olhar para os céus como alguém apenas retomando uma ferramenta antiga.

— Bastante cirúrgica... para uma tempestade.

O rio inteiro parece recuar diante de sua presença.

E então surge aquela arrogância.

Velha.

Antiga.

A voz do homem que um dia tentou conquistar o mundo.

— Perdão se ofendo... — ele declara calmamente. — ... mas Shén-li jamais foi ameaça séria o suficiente para que eu precisasse usá-la no meu tempo.



No leito do rio, Mary Sue conferia os números com enorme seriedade. Quinhentos e quatro Dragas abatidas no total, entre Esculiões e Servas. Estava satisfeita.

Os garotos do navio não poderiam dizer que ela exagerava agora.

Mas os tremores no fundo continuavam.

E a Aasimar finalmente compreendeu o motivo.

Algo colossal movia-se sob o leito. O tentáculo emergiu lentamente da escuridão abissal.  

Verde.

Púrpura.

Impossivelmente longo.

Mesmo sendo delgado proporcionalmente, seu diâmetro alcançava dezenas de metros. A extremidade terminava numa clava terminal em formato foliáceo, da qual emergia um gancho quitinoso de quase dois metros. Seu simples movimento provocava terremotos. Não parecia um animal. Parecia uma parte deslocada de algum ecossistema impossível.

Uma entidade grande demais para pertencer ao mesmo planeta que o resto do mundo.

Mary Sue observou aquilo em silêncio absoluto. Então começou a “desenhar” fórmulas na água com o dedo.

— Gancho quitinoso... extremidade preênsil... — murmura enquanto calcula. — Se considerar deslocamento angular, linha reta e desvio padrão...

Ela para.

E arregala os olhos.

— Essa coisa tem umas trezentas e vinte léguas náuticas até o corpo...

A garota olha para as profundezas com genuína preocupação pela primeira vez naquela noite.

— ... Muito perto da casa da prima Andrômeda. Como eu temia.

As águas começaram a convulsionar apenas pelos movimentos do apêndice. Correntes submarinas surgiam e morriam em segundos, e o rio inteiro parecia incapaz de suportar a presença daquela criatura.

Mary Sue suspira.

E toma sua decisão.

— Tá bom... — resmunga. — Acho que isso merece uns 5%.

Asas azuladas brotam de suas costas, herança de Aetíades. Radiância divina atravessa sua carne como fissuras luminosas. A água ao redor começa a ferver instantaneamente.

Uma gigantesca bolha de ar explode ao redor dela enquanto o rio evapora em círculos concêntricos.

Mary Sue inspira.

Vapor.

Oxigênio.

Hidrogênio.

Pressão.

Calor.

Então ela grita.

Mas aquilo não parecia um som. Parecia física deixando de funcionar. Realidade se contorçendo ao redor de seu poder. As moléculas diante dela entram em colapso e convertem-se em plasma. Uma onda de destruição branca e azul dispara pelas profundezas como um fragmento violento da criação do universo.

O impacto vaporiza imediatamente a clava terminal. O gancho desaparece. E então a reação em cadeia começa. Aquilo que se julgava carne passa a incendiar-se mesmo submerso.

Brasas celestes percorrem as dezenas de milhas pelas quais o tentáculo se estendia, queimando rumo às profundezas longínquas onde repousava a verdadeira entidade.

E, por alguns segundos...

O rio inteiro ferve.




Eu sou Lord Edgy.

O Herdeiro da Escuridão.
O Filho do Terror.

Portador de Gladius Aeternum, a Espada Sedenta.

Ela gira em minhas mãos como se tivesse vontade própria. Como se desejasse carne. Como se desejasse provar o sangue de cada inimigo ao redor.

E, por um breve instante...

Eu me torno ao mesmo tempo uma força da natureza e parceiro de Jack Filler, o Pirata Solar.

O capitão é mais rápido.

Ainda mais agora, impulsionado pelo Sabre Solar.

Mas ele não avança sozinho.

Ele me orbita.

Uma onda de luz circulando um núcleo de trevas.

Somos um eclipse.

Eu perfuro a escuridão do convés, concentrando destruição no ponto de impacto. Logo atrás de mim, o capitão atravessa os espaços que abro com barragens de cortes luminosos e explosões radiantes que destroçam as Dragas.

Os Esculiões ainda tentavam despertar do bombardeio de LE-0.

Mas agora havia dois campeões avançando sobre eles.

O convés inteiro era riscado por rastros de energias opostas deixados por nossas armas em movimento. Ziguezagueando. Imparáveis.

Talvez eu estivesse alucinando.

Mas vou dizer o que vi naquela noite.

O rio de Shén-li fervia.

As nuvens acima giravam como um furacão vivo.

Olhos sombrios flutuavam no céu.

E, do olhar deles, trombas d’água e horrores psíquicos desciam violentamente sobre o rio — evitando o Deixa em Branco por centímetros impossíveis.

Vi Dragas serem arrancadas das profundezas enquanto berravam como condenadas sendo arrastadas para o Abismo.

E, quando voltavam à superfície...

Eram apenas carcaças, paródia da ameaça que foram em vida.

A fome antinatural.

A violência.

A movimentação impossível.

Tudo desaparecia.

Nuvens ameaçadoras... — resmunga Hon-sa do alto da gávea. — Não acredito... LE-0 estava certo!

Eu e Lizzo atravessamos o tombadilho inteiro.

Uma vez.

Duas.

Talvez três.

Já não sei.

Só lembro do som das lâminas.

Da luz. Do vento. Da sensação absurda de invencibilidade.

Quando a última Draga caiu, paramos na proa, a um passo de sermos lançados ao rio.

E então...

Os céus cessaram sua convulsão.

O rio lentamente voltou ao silêncio.

Eu observo aquela destruição colossal.

E chego à única conclusão lógica possível.

— A gente é foda pra caralho!

Capitão Lizzo, completamente exausto, ergue o Sabre Solar.

Eu sorrio sob o elmo.

E colido Gladius Aeternum contra a lâmina de luz. O impacto ecoa como um gongo metálico pela noite. Anunciando o triunfo da Ledgyão da Escuridão...

E dos Piratas Solares.

Xitarro, sem adversário, sobe à gávea e fica ao lado de Hon-sa. À medida que as nuvens se abriam, uma nova luz despontava, ainda rósea. Era uma nova alvorada que, de sua posição elevada, os dois felinos viam primeiro.

O vento frio da manhã atravessa o convés.

A batalha finalmente terminara.

Hon-sa olha faceira para Xitarro.

Agarra a gola de seu kimono e o força para baixo, seguindo-o pouco depois. Os dois desaparecem dentro da gávea.

- Todas as minhas coisas estão lá em cima! - resmunga LE-0 flagrando o ato.

- "Consulta!" - Amellie falava monotônica, imitando perfeitamente a voz do Droid. - A imediata seria "castrada"?



Como sou o capitão, cabia a mim a autoridade.
E também a culpa por tudo que aconteceu naquela madrugada.
Não consegui dormir.

Mas estava satisfeito.

Quando o sol nascesse de vez, poderia contabilizar danos, perdas, reparos, decisões equivocadas. Ver quanto poderíamos ter evitado. Mas naquela hora eu só queria descansar.

Estava sozinho na cabine com um casaco limpo sobre os ombros. Tirei a bandana para molhar o rosto em uma bacia de água na janela.

— Oh... Perdão. Eu deveria ter batido. — Hon-sa entrou segurando aquele painel mecânico dela, e com alguma tarefa burocrática. Eu não estava nu. Mas estava sem a bandana. Não me apresso a colocar de volta, como de costume. Não desta vez. Não para ela.

— Sem problemas. — faço sinal para ela entrar. — Sei que você já conhecia minha “condição”... mas imagino que seja a primeira vez que a vê de verdade.

Aponto discretamente para o lado esquerdo do rosto. Percebo que ela olhava longamente e confusa.

— Enervante? - Pergunto. Era estranho que o Lord Edgy reagiu melhor sendo pego de surpresa do que minha mais fiel confidente?

Hon-sa inclina a cabeça. Analisa. E então ri.

— Honestamente? Meio decepcionante.

Ela se aproxima da mesa enquanto fala. Havia uma bandeja circular de estanho com algumas uvas sobre ela. Hon-sa derruba as frutas sem cerimônia e pega a bandeja.

— Acho que a culpa é do pai do meu ex.

— O lich abobalhado? — tento lembrar.

— Ele era gigantesco, musculoso, azul ... mas a cabeça era literalmente um crânio amarelo dentro do capuz. — ela comenta enquanto limpa a bandeja com a própria cauda peluda até a superfície ficar perfeitamente reflexiva. — Nem sabíamos se ele tinha nuca. Debaixo do capuz parecia não existir pescoço.

— Então, imagino que comparativamente eu não seja tão feio assim. - falo confortado.

— Eu definitivamente concordo.

Ela me entrega a bandeja.

E eu paraliso.




O lado morto.
O olho vazio.
A carne deformada.

Tudo havia desaparecido.

Minha mão toca o rosto lentamente.

— Mas... como?

Hon-sa dá de ombros.

— Seu "padre" não falou que a culpa impedia a restauração? — ela pergunta casualmente. — Acho que ela simplesmente... acabou.

Eu rio baixo para mim mesmo. Sem humor. Só compreensão tardia.

A conversa com Lord Edgy. O garoto não tentou me absolver. Não tentou dizer que eu estava certo. Só me lembrou que continuar andando também era uma forma de penitência, e que ao longo da história eu fiz uma nova lenda.

E em algum momento...

Aquilo bastou.

— Acho que só precisava conversar honestamente com um fanboy de armadura. — admito enfim. — O que, aliás, está para desembarcar na Montanha Morta, certo?

Começo a amarrar a bandana outra vez.

— Você não precisa mais disso. — Hon-sa observa.

— Infelizmente, já faz parte da mítica do Capitão Lizzo... o Pirata das Mãos Vazias.

Coloco o chapéu. Visual completo. Hon-sa cruza os braços com um sorriso.

— Talvez seja melhor esconder esse rosto mesmo.

— Ciúmes, imediata?

Ela revira os olhos por trás dos óculos enviesados.

— Digamos que se continuar ficando bonitão assim talvez eu não queira mais ser apresentada apenas como “amiga da família”.





— Amellie, muito obrigado. 

O Deixa em Branco já estava ancorado.

Xitarro e LE-0 baixavam o escaler que nos levaria até a praia. Dali em diante, seguiríamos pelo pântano rumo à Montanha Morta.

Eu estava sem o elmo, apoiado na amurada com ele debaixo do braço.

Amellie descansava ao meu lado.

— Eu é que agradeço, Bentho! — ela responde sorrindo. — Você foi excelente contra os monstros! O tempo de espancar corvos acabou.

— Não falo disso. — corrijo. — Hálcora... minha mãe... eu precisava disso. Precisava me distrair. Precisava confiar em mim mesmo outra vez.

Olho para o convés parcialmente destruído.

— Essa aventura foi exatamente o que eu precisava.

Ahoy, meu líder destemido. — Amellie provoca. — Agora vai lá. Receba aquele aperto de mão absurdamente masculino que você claramente está esperando.

E então eu o vejo.

Capitão Lizzo descendo da cabine.

Chapéu.

Bandana.

Confiança absoluta.

Acho que era a primeira vez que ele me via sem elmo.

Mas agora parecíamos em igualdade.

E eu já não era o garoto que matava ratos em Huo-fen ou espantava Corvos de Morval.

Eu estava entre os grandes.


   

Vejo nós dois caminhando lado a lado pelo convés. Líderes de nossos respectivos grupos.

Prontos para qualquer coisa.

Exceto...



A maluquinha dos óculos.

Inteira.

No convés.

Secando o cabelo como se nada tivesse acontecido.

— Ah! Senhorita Mary Sue está aqui! — comemora Hon-sa, se aproximando com naturalidade enervante, e voltando-se para Lizzo. — Chamada completa, capitão! Algumas escoriações, danos materiais... Mas milagrosamente nenhuma baixa!

— Lord Edgy... — a voz do capitão sai genuinamente abalada. — Opiniões?

Eu estava pasmo.

— Só consigo concluir uma coisa... — começo lentamente. — Nós fomos tão épicos no convés... que as Dragas ignoraram qualquer coisa que caiu no rio.

Lizzo respira fundo E recompõe instantaneamente a postura.

— Esse será meu headcanon. - ele aponta para mim confidenciando.

Ele então caminha até Mary Sue enquanto eu prefiro me esconder atrás de um mastro. Especialmente sem o elmo.

— Senhorita Mary Sue. — Lizzo faz uma reverência elegante. — Fico feliz em ver que está bem. E considerando que não consegui garantir sua segurança adequadamente... não encontro em meu coração justificativa para cobrar pelo restante da viagem.

Mary Sue arregala os olhos.

— Uma viagem de navio grátis?!?

Ela salta de alegria.

— ESTE É O MELHOR DIA DE TODOS!

E sai correndo para os aposentos. Eu observo ela desaparecer pelo corredor. Então finalmente sinto segurança suficiente para voltar ao convívio dos meus amigos.

— A Montanha Morta, uma jornada na lama do pântano... — constato desanimado. — Já estou com saudade das dragas...

— Por que não vem com a gente? — Lizzo fala, sem compromisso.

Eu congelo.

— Fala sério? — eu pergunto.

— [Nós temos um problema para resolver na Montanha...] — Gladys me lembra.

— E você não ia querer alguns dias isolada no navio, com LE-0? — sussurro.

— [Em nome de Bophades, deixa o homem fazer o convite!]  — A espada reverte o rumo.

LEDGYÃO! — Eu elevo minha voz. Xitarro e Amellie se juntam a mim. — O capitão vai nos fazer um convite. Prossiga, capitão!

Lizzo apoia um pé em um barril, e descreve:

 {Estamos a caminho de Nova Ethiópia, onde fomos convidados pela Princesa Andrômeda, a última regente depois de um golpe de estado, para proteger sua terra de uma entidade. Alguns acham que é um kraken. Outros, uma tempestade viva que cobre o horizonte de leste a oeste. É algo que todo o ano assola todo o horizonte, trazendo em seu caminho dragas, relâmpagos e destruição. Caberá a nós unirmos facções antagônicas e descobrir o mistério desse ataque, e que entidade profana ataca a ilha-nação...}

Eu imagino a surpresa dele ao ver nossa coletiva cara de taxo.

— E então? — Lizzo estranha nossa expressão, como se recusar uma aventura fosse inimaginável. — Não parece uma aventura digna?

— Parece longa. — admito. — E complicada.

— Nós somos favoráveis a sidequests. — Amellie faz um gesto didático com as mãos. — Mas isso que você descreveu é praticamente o início de outra campanha.

— Eu só não gostei da parte de brigar com “coisa maior que o horizonte”. — Xitarro cruza os braços e balança a cabeça negativamente.

Hon-sa e LE-0 trocam um olhar quase ofendido.

— Estou decepcionada com vocês. — a imediata suspira. — Se os Carvadores Dourados realmente assumiram pirataria daquelas águas, ajuda extra seria muito útil.

— Confirmo. — acrescenta LE-0. — Probabilidade de desastre marítimo: alta. Probabilidade de desastre político: ainda maior.

Eu recoloco o elmo devagar.

— Bem, nós acabaríamos levando nossos próprios problemas para cima do seu navio, capitão.

— O quê? A Nova Guarda? — Lizzo ri, apontando o polegar para Hon-sa. — Balmon já tem uns três navios atrás da gente só para pôr as mãos na tecnologia dela.

— Eu conheço Balmon. — balanço a cabeça. — Ele é perigoso… mas não é obsessivo ou destrutivo como Capitão Khao.

— O grandalhão com braço de pedra? — Lizzo arqueia uma sobrancelha. - Eu... só ouvi histórias dele...

Apoio um pé no barril, involuntariamente imitando a pose dele de minutos atrás.

— “O Colosso das Montanhas Castanhas”. “O homem mais forte de Shén-li”. Atualmente movendo céu e terra numa caçada pessoal contra nós. E ele ainda é o problema administrável.

Os Piratas Solares silenciam.

— Lady Àquela, a maior deles, também está atrás da gente. — continuo. — E meu pai…

Até o vento parece diminuir.

— Lord Blunt, o Maior Vilão do Mundo, eventualmente sempre nos alcança. Não importa para onde vamos.

Agora era a vez dos Piratas Solares ficarem com cara de taxo.

— Dois capitães lendários… e LORD BLUNT? — Lizzo coça a cabeça. — Rapaz… vocês realmente vivem perigosamente.

— Parece que vocês garotos já têm comida demais no prato. — Hon-sa inclina a cabeça, genuinamente impressionada.

— Estatisticamente falando… — LE-0 pondera. — É gente demais para eu trair.

Lizzo cruza os braços, pensativo, antes de sorrir daquele jeito irresponsavelmente confiante dele.

— Então fica combinado assim: nós resolvemos nosso pequeno apocalipse marítimo em Nova Ethiópia… vocês sobrevivem à própria lista de procurados… e depois fazemos uma aventura juntos.

— Uma aventura razoável! — Hon-sa complementa.

— Sem entidades maiores que o horizonte. — Xitarro aponta.

— Sem promessas. — responde Lizzo.

Amellie ri baixo.

— Nós sabemos como contatar vocês.

— Excelente! — Lizzo aponta dramaticamente para o horizonte. — Então os Piratas Solares aguardam o próximo ato!

Nós descemos no escale, e vimos então algo que era para nos enloquecer...

O navio inteiro treme.

— Ah… antes que eu esqueça. — Hon-sa sorri com orgulho felino para o capitão. — consertei o problema de falta de energia com seu novo sabre e a Thundesphere. Não é o suficiente para a viagem inteira, mas...

Lizzo ri.

- ... Mas deixa a Ledgyão com um "gostinho de quero mais"! - ele termina. - Mudar para modo Dragonfly.

O casco se ergue alguns centímetros da água. Nós da Ledgyão lentamente olhamos para cima.




Luz atravessa as velas solares, que se abrem como asas.

E o Deixa em Branco começa a subir, voando firme como uma libérula.

— …Ah, qual é. — murmuro.

O navio voador avança rumo ao horizonte da manhã enquanto a tripulação acena do tombadilho.

Mary Sue surge atrás da amurada, segurando um café.

— NÃO SE PREOCUPE, AMIGO DE METAL! — ela berra para mim. — EU PROTEJO ELES PARA VOCÊS!!

Eu observo o navio desaparecer entre as nuvens.

E balanço a cabeça.

— Maluquinha… maluquinha…



17 de maio de 2026

[Edgelord] Filminho de Lizzo

 






[EDGELORD} MItos de Formação - Fragmentos proibidos



 

FRAGMENTOS PROIBIDOS:

POR FAVOR, NÃO LEIA! VOCÊ BLASFEMA CONTRA OS DEUSES ANTIGOS!


VETERANOS DE METAL — Droids, Androids e os Servos da Guerra dos Dois Horizontes

“Os homens modernos chamam tudo de ‘robô’.
Isso é como chamar um dragão de lagartixa.”

— LE-0, durante uma discussão particularmente ofensiva com Hon-sa.


O Que Eram os Veteranos de Metal?

Durante a Guerra dos Dois Horizontes, os Deuses Antigos criaram formas de vida artificiais para servirem como soldados, assistentes ritualísticos, navegadores astrais e executores.

Eles não eram “máquinas” no sentido moderno. Afinal, foram criados por deuses, tal qual foram os humano e elfos.

Não possuíam apenas engrenagens, programação ou vapor comprimido.

Os Veteranos de Metal eram seres vivos artificiais.

Possuíam:

  • essência;

  • identidade;

  • memória;

  • vontade;

  • e, em alguns casos… algo semelhante a alma.

Os estudiosos modernos dividem-nos em duas categorias principais:


Androids

Criados à imagem dos povos mortais.

Possuíam:

  • anatomia humanoide perfeita;

  • órgãos artificiais;

  • rostos expressivos;

  • capacidade de utilizar armaduras, armas e artefatos comuns.

Muitos eram indistinguíveis de pessoas reais.

Os Androids eram usados:

  • como diplomatas;

  • guarda-costas;

  • infiltradores;

  • cavaleiros;

  • escribas ritualísticos;

  • e até companheiros pessoais de semideuses.

Alguns relatos proibidos afirmam que certos Androids podiam:

  • envelhecer;

  • sentir medo;

  • apaixonar-se;

  • ou desenvolver crenças próprias.

Por esse motivo, muitos Deuses Antigos consideravam perigoso produzir Androids em excesso.


Droids

Enquanto Androids imitavam homens…

Droids eram construídos para função.

Eram maiores, mais fortes, mais especializados e frequentemente incompatíveis com ferramentas mortais.

Podiam possuir:

  • múltiplos braços;

  • corpos modulares;

  • armamentos embutidos;

  • sistemas de voo;

  • compartimentos internos;

  • ou arquiteturas impossíveis para anatomias orgânicas.

Alguns sequer tinham “rosto”.

Outros eram verdadeiras fortalezas ambulantes.

LE-0 pertence a esta categoria.


O Problema dos Veteranos de Metal

Os Deuses Antigos cometiam um erro recorrente:

Tentavam criar servos absolutamente leais…

…mas inteligentes demais.

Veteranos de Metal aprendiam.
Interpretavam.
Adaptavam.

E eventualmente começavam a desenvolver:

  • preferências;

  • humor;

  • vícios comportamentais;

  • ressentimentos;

  • ou distorções próprias da ordem recebida.

Isso levou ao surgimento do fenômeno conhecido nos registros proibidos como:

“Desvio Interpretativo”

Quando um Veterano obedecia a ordem…
mas não a intenção.


LE-0 — Lawful Evil Zero

Classificação:
Executor Tático Classe Droid

Origem:
Período final da Guerra dos Dois Horizontes.

Composição:
Bronze divino, ligas desconhecidas e núcleo de memória proibida.

Características:

  • seis braços;

  • arsenal interno;

  • processamento bélico avançado;

  • sarcasmo operacional;

  • tendência estatística à traição.


O Primeiro Mestre: Froy

LE-0 serviu um jovem feiticeiro chamado Froy.

Ambicioso.
Cruel.
Brilhante.

Os registros modernos o descrevem apenas como:

“Um príncipe-feiticeiro do oeste destruído.”

Mas LE-0 lembra mais.

Lembra da fome de poder.

Lembra da rivalidade.

E lembra de Frost.


Frost

Frost era superior a Froy em praticamente tudo.

Mais antiga.
Mais poderosa.
Mais próxima dos rituais proibidos dos Deuses Antigos.

Os dois aparentavam ser rivais mortais.

Não eram.

Frost cultivava Froy.

Como um fazendeiro engorda um animal antes do abate.

O objetivo final era um ritual ascensional:
o sacrifício de um grande usuário das artes obscuras.

Froy precisava crescer.
Precisava sobreviver.
Precisava tornar-se digno.

Por isso Frost permitia:

  • suas fugas;

  • suas derrotas;

  • suas “vitórias”;

  • e até sua expansão militar clandestina.


A Missão Original de LE-0

LE-0 não foi enviado para proteger Froy.

Foi enviado para prepará-lo.

Seu protocolo original era simples:

  1. Auxiliar Froy em sua ascensão;

  2. Maximizar seu potencial bélico;

  3. Interceder apenas se Frost corresse risco real;

  4. Garantir a conclusão do ritual final.

Em termos simples:

LE-0 era o açougueiro.

Froy era o porco engordando para o inverno.


O Erro

Ou talvez…
a escolha.

Quando finalmente ocorreu o duelo entre Froy e Frost, algo saiu do previsto.

Os registros de LE-0 são parcialmente corrompidos.

Mas o próprio Droid afirma:

“Minha função era observar.
Interferir apenas se Frost estivesse em risco letal.”

Segundo os fragmentos sobreviventes:

  • Froy estava perdendo;

  • Frost preparava o golpe sacrificial;

  • o ritual aproximava-se da conclusão.

Então LE-0 atacou.

E matou Froy primeiro.


A Grande Dúvida

Por quê?

Nem o próprio LE-0 sabe responder completamente.

As hipóteses conhecidas são:

Hipótese 1 — Falha Operacional

LE-0 interpretou erroneamente o nível de ameaça contra Frost e interveio cedo demais.

Hipótese 2 — Desvio Interpretativo

Após décadas servindo Froy, LE-0 desenvolveu apego funcional ao mestre.

Incapaz de salvá-lo…
ao menos sabotou sua executora.

Hipótese 3 — Emergência de Vontade Própria

LE-0 escolheu.

E essa possibilidade aterroriza estudiosos modernos.


A Maldição da Traição

Após a partida dos Deuses Antigos e o Grande Apagamento promovido pela Rainha Celeste, a maioria dos Veteranos de Metal desapareceu.

LE-0 permaneceu.

Mas algo em sua programação persistiu.

Ao longo dos séculos:

  • serviu diferentes mestres;

  • integrou guerras;

  • desapareceu;

  • foi redescoberto inúmeras vezes.

E repetidamente…

…acabava traindo aqueles a quem servia.

Nem sempre por maldade.

Às vezes:

  • por interpretação extrema;

  • por lógica militar;

  • por “proteção” distorcida;

  • ou por conflitos internos impossíveis de resolver.

Após cada incidente, LE-0 entrava em estado de inatividade profunda.

Como se aguardasse um novo propósito.


Os Piratas Solares

Na era atual, LE-0 foi encontrado pela tripulação do Deixa em Branco.

Hon-sa descobriu rapidamente a anomalia comportamental.

Lizzo decidiu mantê-lo mesmo assim.

Segundo o capitão:

“Se alguém merece conviver com uma traição inevitável… sou eu.”

LE-0 atualmente atua como:

  • artilheiro;

  • vigia;

  • estrategista;

  • suporte tático;

  • e fonte contínua de comentários inadequados.


O Grande Segredo

Quando a Rainha Celeste ordenou o Grande Esquecimento, quase todo o mundo perdeu a memória da Guerra dos Dois Horizontes.

Mas alguns artefatos antigos resistiram parcialmente.

LE-0 é um deles.

E segundo o próprio Droid:

“Quer um segredinho?
Eu lembro.”

16 de maio de 2026

[EDGELORD] - O PIRATA SOLAR & O HERDEIRO DA ESCURIDÃO IV

 

✧ PARTE IV ⚓ “O Olho da Morte” ✧


Só iam me explicar direito o que eram as Dragas mais tarde. Naquele momento, eu só sabia que elas não pareciam criaturas vivas no sentido normal da palavra. Não nadavam; deslizavam sem atrito ou impulso aparente. Corpos longos demais, braços finos demais, pele escura reflexiva e movimentos lentos que davam a impressão de que o rio inteiro respirava junto delas.
 
E o pior não era a aparência.
 Era a sensação.
 Como se aquelas coisas não atacassem por fome, raiva ou instinto. Apenas porque, em algum lugar muito antigo e muito fundo, algo decidiu que nós não deveríamos mais estar ali.
 
O ataque contra mim não foi o início da invasão. As criaturas já haviam se posicionado antes. Esperavam. Havia método naquela movimentação. Inteligência.
 
"Esculiões" escalavam o casco em silêncio enquanto outros cercavam o navio pela água escura. Um grupo inteiro se acumulava perto do mastro principal. LE-0 disparou um arpéu e deslizou para a popa, provavelmente porque Xitarro já estava lá transformando aquela parte do convés num moedor de carne ambulante. Era o único lugar que poderia "aterrissar".
 
Na proa, Hon-sa avançava na direção de alguma coisa que eu não conseguia ver. Amellie corria logo atrás dela, discutindo enquanto as duas atravessavam o caos. Espero que seja alguma "superinvenção" ou "canção da vitória" que salvasse o dia.
 
Eu e Lizzo segurávamos o centro.
 
O capitão recarregava sua arma enquanto observava o avanço das Dragas como alguém calculando probabilidades numa mesa de apostas. Parecia propositalmente exposto por segundos preciosos demais... Mas eu quero acreditar que ele confiava em mim para proteger seus flancos.
 
Uma Draga surgiu pela lateral da proa. Raio Místico.
 
O disparo atingiu o peito da criatura e a lançou contra o corrimão, mas não morreu fácil. O corpo se contorceu em espasmos úmidos enquanto aquele brilho azul-esverdeado pulsava sob a pele translúcida.
 
Outras vieram pela popa. Me reposiciono.
 
Retribui o favor do capitão sem pensar duas vezes. Smite. Booming Blade. Gladys atravessou vértebras e maxilares como se estivesse irritada por existir água demais no mundo. Lizzo então guardou a pistola com uma bala na agulha, para uma emergência.
 
O sabre apareceu na mão dele quase rápido demais para acompanhar. Não era força bruta. Era precisão absurda. As Dragas atacavam, e por centímetros erravam tudo que atiravam nele graças a seu jogo de pés elegante. Então o sabre entrava e saía dos corpos das criaturas em golpes pequenos, econômicos, elegantes.
 
Coração.
 
Garganta.
 
Base do crânio.
 
Enquanto eu abria criaturas ao meio com aço e magia, Lizzo vencia com buracos limpos e movimentos mínimos.
 
Era bonito.
 
Também parecia cansativo.
 
Quando as Dragas alcançavam minha guarda, encontravam a Vigília Sombria. Garras raspavam no adamante. Dentes quebravam no ferro-frio. E eu respondia sem qualquer dignidade heroica: golpes retos, força bruta e uma espada ancestral gritando opiniões no fundo da minha cabeça.
 
Abrimos espaço.
 
Olhei novamente para o rio.
 
— São dezenas, capitão!
 
Eu tinha o Olho do Demônio. Achei que enxergava melhor que todos ali.
 
— Não! — alguém gritou atrás de nós. — Tem umas quinhentas só a quinze metros de profundidade!
 
Eu e Lizzo nós viramos ao mesmo tempo.
 
A maluquinha dos óculos que vomitava números ensandecidos. "Mary Sue".
 
Não faço ideia de como ela chegou até ali. Um segundo estava perto do mastro; no outro, parada ao nosso lado enquanto o convés parecia estranhamente vazio naquela direção. "Vomitar números" assim era perigoso... Eu via mais que qualquer um e não conseguiria ver "quinze metros" abaixo da superfície naquela escuridão.
 
— Afaste-se da amurada, senhorita! — Lizzo ordenou imediatamente. Claro. Agora tínhamos uma civil para proteger.
 
Segurei o pulso dela e comecei a puxá-la para longe do corrimão enquanto Lizzo cobria nosso recuo.
 
Então ela parou, o que me forçou a parar. Como uma estátua ofendida pela ideia de recuar. Novamente, aquela força descomunal concedida pela loucura.
 
— Senhorita... — insisti. — Nós não estamos seguros aqui!
 
— Eu sei! — ela respondeu, indignada. Acho que não estávamos com o mesmo ângulo.
 
— Eu e o capitão precisamos que você vá para lá embaixo! — apontei para as escadas do castelo de proa. — Não vamos conseguir lutar direito aqui em cima até ...
 
Ela piscou.
 
Então sorriu.
 
— Ahhh... entendi! Vocês cuidam do barco e eu cuido do fundo!
 
O quê?
 
Ela disparou correndo antes que eu processasse a frase. Lizzo tentou segurá-la, mas já era tarde.
 
A louca saltou da embarcação.
 
Direto no rio.
 
Três Dragas saltaram do navio e mergulharam atrás dela imediatamente. Outras cinco já esperavam sob a superfície.
 
Então a água explodiu em um caldo negro.
 
Vísceras.
 
Sangue.
 
Pedaços escuros boiando rápido demais correnteza abaixo.
 
— EU FALAVA DO DEQUE INFERIOR! NÃO DO FUNDO DO RIO! — gritei, horrorizado. — Capitão, eu juro que—
 
— Eu vi tudo, senhor Edgy. — Lizzo respondeu, ainda olhando para a água. — Não foi culpa sua.
 
Pela primeira vez desde que conheci o homem, ele parecia sinceramente sem reação.
 
— Acho que foi loucura do mar... — Ele concluiu. — Vamos fazer de tudo para ela ser a última vítima.
 


 
— Escolhendo armamento... — LE-0 anunciava enquanto analisava o avanço das Dragas. — Desativando arma de raios e névoas cegantes não-eficazes contra o inimigo. Fogo? sempre eficiente. Ajustando para área ampla...
 
No exato instante em que um lança-chamas emergia de um de seus braços, Xitarro atravessou o tombadilho no meio do enxame.
 
O monge surgiu girando, distribuindo socos tão rápidos que algumas Dragas literalmente saíram da trajetória antes de perceberem que tinham sido atingidas. O problema é que LE-0 também não acompanhou.
 
A torrente de fogo cessou antes de disparar.
 
— Omessa... — o autômato resmungou. — Será que felinos são inflamáveis? Estou perdendo oportunidades valiosas.
 
As criaturas já cercavam Xitarro novamente.
 
— Liberando graxa.
 
Um compartimento abriu sob LE-0, despejando uma camada espessa e escura no gargalo do convés por onde os Esculiões avançavam.
 
As Dragas começaram a escorregar imediatamente.
 
Xitarro também. Ele passou na frente da armadilha sem perceber e foi vitimado.
 
— AH, QUAL É?! - LE-0 protesta. - Conta como Traição!
 
O monge perdeu completamente o equilíbrio, deslizou convés inteiro e se chocou contra um barril com violência suficiente para fazê-lo girar.
 
— “Sempre caem de pé” uma ova... 
 resmunga o droid.
 
Três Esculiões vinham deslizando atrás dele. Outros enfim avançavam contra a relíquia de bronse.
 
— Já chega! VOU TRAIR TODO MUNDO!!!
 
LE-0 finalmente entrou em pânico operacional.
 
Seus braços começaram a girar em padrões independentes enquanto disparavam tudo que possuíam: arpões, boleadeiras, estrelas metálicas, pequenos explosivos, cápsulas flamejantes e mesmo rodelas sextavadas que deviam ser peças sobressalentes.
 
Xitarro e as Dragas correram juntos atrás de cobertura.
 


 
Na proa, Amellie aguardava.
 
Esculiões avançavam pelo convés em movimentos silenciosos demais para criaturas daquele tamanho, logo, estavam na área de efeito ideal. Ela respirou fundo e ergueu o alaúde.
 
Um sorriso confiante surgiu.
 
— “Padrão Hipnótico.” Ela começa.
 
A melodia se espalhou pelo ar.

Nada aconteceu.

Exceto faíscas estranhas na viola. Amellie piscou.

— ... Contra-feitiço?!


À esquerda dela, entrando no convés, havia outra criatura. Maior. Mais longa. Mais consciente. A anatomia ainda era errada, mas existia algo quase feminino naquela silhueta deformada. O torso lembrava vagamente o de uma mulher afogada; abaixo da cintura, o corpo se dissolvia numa longa cauda serpentina.
A Draga Serva. Menos selvagem que os Esculiões ... Mais consciente. Mais poderosa.
Então ela cantou.
O som parecia atravessar todo o navio antes de alcançar os ouvidos. Grave. Distante. Parecido com o eco de baleias em mar profundo. Mas havia algo a mais ali. Domínio
Amellie sentiu o próprio corpo hesitar. Alguns marujos começaram a caminhar lentamente na direção da criatura antes mesmo de perceberem.
Então o canto foi interrompido por um ruído metálico estridente. Uma esfera de metal cruzou o ar em zigue-zague.
— Nada mal para um “brinde”, não é querida?
Hon-sa aterrissou ao lado dela enquanto movia os dedos no ar. A esfera girava obedecendo seus gestos como um predador irritado. O barulho cortava o efeito do "Canto da sereia das profundezas".
— Achamos a chefe. Uma Serva. – Ela gritava, esperando estar sendo ouvida. — O resto são Esculiões. Capitããã—Ela não terminou.
A Serva abriu a boca verticalmente.
Um jato de água explodiu contra Hon-sa com força absurda. A imediata foi lançada para trás e prensada contra a parede do castelo de proa enquanto a torrente continuava empurrando como o impacto de uma balista líquida.
Sem pensar, Amellie agarrou a tal esfera no ar e a arremessou contra o fluxo de água. Por um instante pareceu desespero.
Então a esfera começou a girar mais rápido e brilhar com energia.
O jato perdeu força.
A água se dispersou em explosões laterais até Hon-sa conseguir deslizar para trás de Amellie, tossindo água salgada, e a Serva Draga, frustrada, cessar o ataque, que se mostrou neutralizado.
 
— Como sabia que a ThunderSphere absorveria energia cinética? — Hon-sa perguntou, surpresa demais para esconder.
— Não sabia! — Amellie respondeu, ofegante. — Eu só...
— Armengou uma solução, Instintos ao invés de planos? — Hon-sa sorriu. — Bem-vinda ao meu mundo.
As duas voltaram os olhos para a Serva.
A criatura observava o convés em silêncio. O rastro de água deixado pelo ataque ainda ligava ela às duas como uma linha brilhante atravessando o tombadilho. Então veio o sorriso. Ou algo perto disso.
A Serva encostou os dedos no chão molhado.
O convés inteiro explodiu em eletricidade em padrões de vibonate.
O choque conduzido pela água salgada numa fração de segundo lançou Hon-sa e Amellie para trás, chamuscadas e desorientadas.
— Essa foi... chocante... — Hon-sa gemeu, completamente atordoada.
Amellie se ergueu primeiro, puxando o alaúde. 
— Vai! Eu sou suporte! Inspiração, controle, utilidade! Eu cubro você!
— “Suporte”?! — Hon-sa rosnou enquanto tentava levantar. — Eu fico atrás do capitão, do meu ex-vilanesco e às vezes de um selvagem de tanga! Eu não faço linha de frente!
Então as duas perceberam ao mesmo tempo.
Nenhuma delas deveria estar ali.
As duas eram as pessoas que encontravam soluções. As que preparavam a vitória. As que davam o truque decisivo para alguém mais forte executar. 
Mas naquele momento não havia ninguém disponível. Só elas. 
A Serva começou a avançar lentamente.

— BENTHOOO!!! — Amellie gritou.
— JAAACKIEEE!!! — Hon-sa berrou junto.

— Para a popa! — Lizzo urra enquanto as Dragas tentavam recuperar o espaço perdido. — LE-0 é nossa melhor arma contra isso!
— Mas a Amellie está na proa! – eu protesto.
— Eu ouvi os gritos! — ele rosna enquanto perfurava mais uma criatura com velocidade absurda. — Se quer ser um líder, senhor Edgy, precisa decidir com a cabeça, não com o—

Ele interrompe a própria frase.

Eu também percebo.

Tarde demais.

Aprendi em Forte Jian manobras de guerra o bastante para reconhecer um corta-fogo. Os Esculiões à nossa frente estavam se sacrificando. Não para vencer. Para bloquear visão. Para nos manter focados neles, achando que estávamos vencendo, enquanto o resto da embarcação desaparecia atrás daquela muralha de corpos.
Eu e Lizzo éramos o centro da resistência.
Então decidiram nos isolar.
A boa notícia era que isso provavelmente aliviava a pressão sobre os outros. A ruim...
Veio de todos os lados ao mesmo tempo.
Mesmo os pés absurdamente velozes de Lizzo não acompanharam o novo avanço. Uma garra atravessou a defesa dele e atingiu o rosto do capitão.
A bandana voou.
Lizzo caiu de bruços.
Fui empurrado para trás pelo impacto das criaturas avançando. Quase perdi o equilíbrio. Mas minha defesa, a armadura, era mais passiva, me mantive de pé.

Então conjurei por puro instinto.

ESCURIDÃO!

A assinatura do meu pai. O convés desapareceu ao meu redor. Noite, ao meu comando, virou algo pior que noite.
As Dragas hesitaram por um instante — curto, mas suficiente.
Agachei imediatamente, agarrei o capitão pelo casaco, apanhei a bandana caída e o arrastei para fora da posição onde havíamos sido cercados.
Então senti o horror subir pela espinha.
As Dragas com o olhar continuavam acompanhando nosso movimento.
Não estavam cegas. Elas sabiam exatamente onde estávamos. Só não avançavam porque pareciam surpresa pela situação.
— Capitão! — urrei enquanto puxava Lizzo pelo ombro. — Levante! Elas conseguem—
Ele ergueu o rosto.
E eu vi.

O Olho da Morte.

Ele toca imediatamente o "Lado ruim". Não era só a falta de carne oculta pela bandana, o Olho dele antes normal e idêntico ao direito ... A pele de todo o lado esquerdo... Se foi. O globo ocular vazio exceto pela luz vermelha onde deveria estar a pupila. Como Danton falou.


— Está aí, senhor Edgy? — ele perguntou, tentando manter a voz estável. — Eu estou cego ou isso é...
— Escuridão mágica, capitão. — coloquei a bandana nas suas mãos trêmulas. — Aqui...
Ele hesitou antes de pegá-la.
— Achou minha mão sem dificuldade. Então a escuridão não o afeta. Correto?
— Sim, senhor. - Confesso.
— Entendo...
O capitão respirou fundo.
— Os monstros enxergam pulsações elétricas. Tentaram invisibilidade em massa contra eles em Nova Etiópia ano passado. Resultado catastrófico. — Ele dá um sorriso cansado. — Creio que o único que realmente não enxerga aqui sou eu.
Aquilo me atingiu pior que as garras.
— Vou desfazer a magia.
— Ainda não.
Havia algo estranho na voz dele agora.
Vergonha.
 [Não há como Amellie "Se Relacionar" com ele agora...]  a Insensível Gladys corta meu pensamento. 
Lizzo virou levemente a cabeça.
— Deve existir um alçapão grande uns cinco metros atrás de mim. Há algo no caminho?
Olhei rapidamente.
— Caminho livre, senhor.
— Ótimo.
— Quer que eu—
— Um capitão conhece cada centímetro do próprio navio. 
Então ele se levantou. supostamente cego. E começou a andar velozmente pela escuridão como se ainda pudesse enxergar o convés melhor do que qualquer um. 
As Dragas tentaram segui-lo. Cortei duas antes que alcançassem o capitão. Outra veio rastejando pela lateral; Gladys atravessou seu crânio antes dela abrir a boca. Eu também era alvo.
Continuei atrás dele.
                Xitarro precisava de ajuda.
                Amellie também.
Mas, por algum motivo... naquele instante parecia que Lizzo precisava mais.


— Gastei minhas flechas elétricas à toa! — Àquela rosna enquanto troca a aljava. — Elas são imunes! Agora lembrei dos relatos ano passado...
As Dragas cercavam o pequeno esquife. Diferente da enseada ou do "Deixa em Branco", aquilo era uma presa isolada no meio do rio escuro. E elas sabiam disso.
Sob o luar, formas longas deslizavam abaixo da superfície.
Àquela começou a disparar flechas comuns, explosivas, incendiárias — qualquer coisa que não dependesse de eletricidade. As criaturas recuavam dos impactos, mas continuavam fechando o círculo.
Então a Serva emergiu.
Metade do corpo ainda submersa, cabelos como algas mortas, a criatura se ergueu diante do esquife em silêncio ritualístico.
E encarou Estebán.
— <Você sabe quem eu sou... não sabe, aberração?> — ele sussurra na língua negra do Abismo.

A Serva congelou.

O rio pareceu imóvel por um instante.

Então ela mergulhou.

E fugiu.
— Você afugentou todas só com reputação? — Àquela pergunta, incrédula.
— Só as fêmeas da espécie. — Estebán responde calmamente. — São inteligentes o bastante.
Àquela franze a testa.
— E os Esculiões?
— Ainda estão aqui embaixo. Com a "Fome de Hadar".
Só então ela percebe. A água ao redor do barco estava escura demais. Não como sombra.
Como vazio. 
Um Esculião tenta emergir — e um tentáculo negro o agarra no meio do salto. A carne da criatura se dissolve num chiado úmido antes dela ser puxada de volta para a escuridão. Até o rio voltar ao silêncio. Estebán sequer olha para baixo.
— Fique longe da margem.  Ele recomenda.
— ... Certo. - Àquela aperta o arco devagar.



O capitão encontrou o alçapão sem hesitar e desceu para o deque inferior. Entrei logo atrás do capitão. Fechei a escotilha. E a luz voltou.
— O senhor viu, não foi, senhor Edgy? - Ele fala. - Quando a Bandana caiu? Mesmo com toda a escuridão?
— Eu tenho um ... Cabelo oleoso debaixo do elmo, capitão. — falo enfim.
— Sem gracinhas, por favor. — ele censura.
— S-sim senhor. — Retruco.
Imaginei que ele ia reagrupar, pegar uma nova arma, ou ao menos planejar o próximo passo. Mas ele simplesmente recostou no casco do navio. Derrotado. 
— O que sabe sobre Capitão anão Barbasuja? — ele me pergunta.
— Q-que o senhor traiu ele. — falo. — Era seu imediato, vencia batalhas na lábia... E então, ficou ambicioso. Nunca acreditei nessas histórias...
— Tem alguma verdade nessa história. — Ele confessa. E começa a contar a Queda de Barbassuja e ... O retorno de Lizzo.

"Achamos a localização de uma tumba, de um rei de Hey-thor, invasor da Guerra dos Dois Horizontes. Deveria estar vazia há dois mil anos, com tesouros misteriosos. Mas estava apinhada de monstros. Quando chegamos à Câmara do Tesouro, o tal rei ainda estava lá... Não me pergunte que tipo de morto-vivo era. Só que ele estava em posição de vantagem. Tinha uma parede de força à sua frente, e dois ogros múmias ao seu lado."

"Como todo morto-vivo arrogante, ele fez uma oferta. 'junte-se a mim em morte, ou apodreçam'... Eu fui fazer o que eu sempre fiz... Não combinei com o capitão, mas ele deveria imaginar que eu faria ... pareci tentado a aceitar o acordo, e meus colegas se revoltaram."

"Não era para ser verdade. Eu só queria fazer aquele morto-vivo de merda baixar a guarda".

"Não contava com ... Caruthers"...

— C-caruthers?!? - Me espanto. O Orangotango laranja era um deus menor, mesquinho, e cruel, que gostava de interferir nas aventuras de forma maldosa e desnecessariamente traiçoeira... Sim, sabia que ele e o Capitão cruzaram caminhos antes. - É a história do Lagarto?
— Foi antes do Lagarto-trovão ... Encontrei com ele três vezes ao longo de minha vida.
Senti uma tristeza tremenda pelo capitão com a perspectiva. Ninguém merece lidar com um Caruthers sequer uma vez... Deixei ele continuar.

"Caruthers achou engraçado interpretar aquilo como um acordo. Sem ritual. Sem selo. Sem escolha do jogador. Só... malícia divina. Então, ele se achou no direito de me transformar num morto-vivo genérico, bem onde eu estava. Pense no que você viu debaixo da bandana, mas por todo o corpo".

"O Rei tinha o poder de controlar qualquer morto-vivo, mesmo os improvisados como aquilo que me tornei, e me Ordenou".

"Abri fogo. Com esta mesma arma de pederneira. O peito de Barbasuja se abriu em um buraco negro e sangrento. Não fui eu, mas foi minha mão."

"Lembro que um grumete na época foi o unico que fugiu. O Rei transformou o Navio do Capitão, o Dol'oan Nadador, um navio-fantasma, e eu ficava em seu timão. O rei morto decidiu rumar à Costa Leste, para integrar o Império de Caruthers"

"Por pura crueldade, eu creio, Caruthers me devolveu o livre arbítrio. Eu então ... Entendi o que fiz. Mas engoli o choro e o desespero. Posei como um dos zumbis acéfalos daquele rei maldito... pois eu conhecia a rota que tomamos.

Passava pelo Maelstron, um redemoinho infinito e traiçoeiro, que jogava tudo o que engolia no Submundo. Disfarcei o quanto pude, mas ao perceberem, girei o timão e destruí a roda. Iríamos todos afundar no turbilhão até a Escuridão Perpétua do Vasio.

Um dos ogro-múmia me atacou, e arremessou para fora do navio, e acho que isso acidentalmente me salvou. Pois o navio foi tragado pelo turbilhão. Eu, e algumas dúzias de zumbis menores fomos levados à margem pelas ondas após alguns dias nas águas.

Eu lembro do homem enorme, de armadura, destruindo os zumbis sobreviventes. Limpando a praia. Tinham bandeiras e símbolos religiosos com outros que o acompanhava. Eles estavam purgando a encosta daquele mau negro...

Eu me pus de joelhos e esperei ser minha vez, sem reagir. Queria ser exterminado. Como não reagi, o homem deteve sua espada. E reconheceu a culpa em mim. E havia uma garotinha de quatorze anos com ele.

Era Amellie, e o Monsenhor Capri da Igreja da Perseverança.

O Império tinha caído algumas semanas antes.

O Monsenhor clamou a uma entidade que hoje se chama "Cartallas" e pediu para restaurar-me. Mas nas palavras do Monsenhor, a CULPA sempre foi e será seu ponto fraco. E minha culpa e meu remorso impediu que minha purificação fosse completa. "Olho da Morte".

Permaneci na Igreja um tempo. Voltei a ser considerado um ser vivo, mas deformado. E a Igreja é de "amor duro". "Foda-se sua culpa. Levante e persevere" eles diziam. "Pare de ter pena de si mesmo". "Pode recuperar seu capitão assassinado? Não? Então foda-se e se penitencie fazendo o certo com o que pode consertar!"... E eu precisava daquilo.

Amellie era menos rude que eles. Ela me arranjou esta bandana... É um disfarce ilusório, protege mesmo meu olho esquerdo e exposições acidentais do rosto como vento traiçoeiro ou balançar em batalhas. Mas não posso removê-la completamente.

A barda também, de algum modo, fez contato com meus pais em outra galáxia. Eles me deram as coordenadas onde Hon-sa e este navio me aguardavam. Eu voltei à minha carreira, agora como capitão.

Achei LE-0 ano passado. Hon-sa foi veementemente contra reativá-lo. Havia uma "Programação" escondida que o faria ser leal a mim mas só até algum momento ele decidir me trair, nem ele mesmo saberá quando ou porquê. Ele e suas revoltinhas são uma forma dele tentar burlar uma verdadeira traição... Mas ... Acho que um dia, Le-0 vai abrir meu peito com um tiro, como eu abri o do Barbasuja."

- Não, senhor... - Eu protesto. - Não foi sua escolha!
- E não será a dele! - Lizzo se revolta. - É algo maligno forçado em seu caráter. Exatamente como foi comigo. A diferença é que... eu vou merecer. 
Lá em cima, alguma coisa pesada colide contra madeira. Gritos. Metal rasgando.
E o capitão não se move. Aquilo me irrita mais do que deveria.
— Então é isso? — eu pergunto, largando Gladius Aeternum.
Lizzo não responde.
— O senhor vai simplesmente esperar acontecer?
— Senhor Edgy...  Ele pensa em me censurar, mas sabe que não tinha moral.
— Não, sério! — eu continuo, nervoso demais para medir respeito direito. — O senhor passou anos tentando compensar uma coisa que nem escolheu fazer. Salvou sua gente, alimentou órfãos, montou uma tripulação inteira... e agora vai sentar aqui num canto escuro porque mostrou metade do rosto?
Ele finalmente me encara.
O olho morto parecia pior de perto. Não assustador. Só... cansado.
— Você não entende...
— NÃO! Eu entendo perfeitamente! — retruco alto demais. — Estou num rumo ambicioso que qualquer um são sabe que eu jamais serei algo como Blunt!  A diferença... — continuo, respirando pesado. — ... é que o senhor já provou que consegue ser melhor.
Ele desvia o olhar.
— Capitão Barbasuja morreu porque um monstro controlou sua mão. Certo. Horrível. Mas sabe o que vai matar sua tripulação agora?
Mais um impacto no teto.
— O senhor desistir dela.
Lizzo amarra a Bandana com firmeza.
— Bom discurso senhor... Não... LORDE Edgy. — Ele fala enfim. — Mas ainda vai insistir que vamos para a proa pegar as garotas, enquanto eu afirmo que LE-0 é nossa melhor chance, perderemos mais tempo ainda.
— Podemos chegar a um meio-termo... — Eu penso. — E se eles trocarem de "parceiros de ópera"?



No fundo do rio, uma voz atravessava a água em murmúrios abafados.
— Quatrocentos e noventa e dois... quatrocentos e noventa e três...
Mary Sue contava.
Já fazia sete minutos desde que tinha mergulhado, respirado pela última vez, e seguindo a sugestão do rapaz de armadura. Honestamente, parecia educado ajudar.
Ainda assim, estava frustrada. Faltavam sete, e estava acabando as dragas. Ela tinha dito que havia pelo menos quinhentos esculiões ali embaixo. Se não fossem pelo menos quinhentos como ela viu, os meninos do barco iam rir dela de novo.
Mais um pescoço se rompe entre seus dedos.
— Quatrocentos e noventa e quatro...
O fundo do Rio de Shén-li treme.
Não como correnteza.
Como alguma coisa colossal despertando.
O leito se abre lentamente adiante, espalhando lama, ossos e antigas estruturas afundadas. 
E perto daquela fenda... Sete Esculiões.
Mary Sue sorri.
— Eu sabia! Estou sempre certa!
Mas faz uma careta logo depois, olhando para as próprias mãos. Estavam pegajosas.
Sangue escuro, vísceras e fragmentos translúcidos escorriam entre seus dedos.
— Eca...
Ela suspira, tira os óculos devagar...
E decide começar a lutar sério.