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21 de março de 2026

EDGELORD - Cap. VI - Arco da Ledgyão

 Bem-vindo a Hál… Co... Não, não cheguei ainda.


Curiosidade inesperada: A cidade de Hálcora foi fundada por **Valerius, o Vaidoso**, o Dragonato, que foi o 10º usuário da linhagem da espada Gládius Aeternum.

Ela é o entreposto fora das Muralhas do Anel externo. Alguns acham até que ela nem pertence a Shén-li... Ou ao menos dizem isso para justificar não pagarem impostos.

A Nova Guarda interfere quase nada nessas terras. Fica no extremo oposto ao Castelo Negro, e por isso, acaba sendo um porto constantemente visitado por...

- Piratas?!? - exclamo. Eu estava na indumentária de Lord Edgy, seguia pela estrada da Boca do rio para o sul, para Hálcora, onde encontraria Amellie. Como estava indo na mesma direção, fui me inteirar com outro viajante, agora a meu lado.

- Sim, muitos. - o nome dele era Dalton. É um mascate, pele alva e orelhas pontudas, não era elfo, mas não deve ser 100% humano. Mas não quis comentar na hora. - Já ouviu falar de Capitão Lizzo? é frequentador assíduo de lá!

- “Lizzo o Esguio”? - eu comento conhecia as histórias. - O imediato que traiu Barba-suja, que foi o capitão de Dragão do Trio Quimera! Uma lenda!

- O Puto que saqueia os oceanos de Shén-li a Yoriki... - Ele me ajuda a subir em um desnível. - ... mas nunca tem um tostão sobrando. Daí o nome "lizo".

- Como será ele gasta tanto saque? - pergunto.

- É um mistério... - ele comenta. - Mulheres? Jogos? Patrono profano? Não pode ser bebidas, senão teria morrido na primeira semana. Alguns falam de uma maldição. Outros...

Ele faz um olhar sereno e pesaroso.

- Caruthers.

- Caruthers. - Resmungo junto. Escarro e cuspo no chão, como tradição.

Caruthers o Orangotango vermelho, o Deus da Mesquinharia. É uma entidade cruel e obcecada em fazer o mal... Não importa o nível: Desde criar em segredo o Império e por onze anos aterrorizar as Zonas Selvagens, até a impedir um jogador aleatório de ganhar uma provinha de feira de cidade do interior. Quando alguém tem um momento de azar absurdo, e resmunga "Caruthers", todos resmungam de volta, e escarra. Em solidariedade, e como mantra para afastá-lo.


- Desde que ele matou Barbasuja, ele oculta seu rosto, e usa uma bandana no rosto. Só se vê os olhos... E dizem que o Olho Esquerdo dele ... é o Olho da Morte! - Ele faz uma pausa enfática.

- Senhor... Dalton, certo? - Eu começo. - Eu me chamo Lord Edgy, e devo dizer que eu ... Não quero ser herói em sua cidade.

- Com armadura negra e de chifres? Quem acharia que você é um herói? - Dalton parece pasmo.

- Você se surpreenderia... - resmungo, lembrando de minha temporada em Huo-fen. - Bem, além do saques, como é a equipe de Capitão Lizzo?

- A tripulação? - ele coça o queixo. - Bem, ele tem acho que dois tripulantes de destaque... Se não me engano... Um é uma moça muito bonita e inteligente, o cérebro da operação.

- Como "Janete Quá" - eu rio comentando para mim mesmo. - Temos muito em comum... Lizzo e eu. Ocultamos o rosto, delegamos... E seria um bom exemplo de vilão bem-sucedido. Não teria como confundi-lo com boa pessoa. Não haveria nada errado em comparar algumas idéias dele.

- Acho que ele tem um último tripulante... A Fera.

— “A Fera”… — repito, provando o peso do nome. — Parece… sinistro.

— É mais que isso — diz ele. — Uma criatura meio homem, meio animal. Caos puro em movimento. Velocidade, garras… Quando alguém não obedece às ordens de Lizzo, ele solta a Fera. Tipo, Lizo matou um capitão lendário, mas a Fera faz coisas que o Capitão das Mãos Vazias não ousaria!

- [Lord Blunt era um senhor frio de controle.] - Gladys interfere seca, quase didática. -[Mas gente errática… só responde ao caos. Ele sempre mantinha alguém como Ga-shi para cumprir esse papel. Para ser “a Fera”.]

- Sim, excelente sugestão... - eu pondero. O mascate pensou que era com ele.

- [Contudo, Lembra-te que Ga-shi tentou roubar Blunt e te matar, certo?]

- Eu acho que a minha Ledgyão precisa de... Um "fera"... - Eu penso em voz alta.

- Bem... - Dalton pondera um segundo. - A gente vai passar pelo Ermitão de Hálcora... Acho que bate como "fera"! Se você o levar embora...

Eu paro no meio do passo. Havia um Fera em Hálcora?


Quanto tempo faz?

Não sei.

A mente corre.

Eles estão chegando. Paciência.

Reduza o universo.

Parado.

Quieto.

Vazio.

Um passarinho pousa na minha mão. Entre meus dedos, com minhas garras recolhidas.

Ele não sabe.

Sou galho. Sou nada.

Guarde a tempestade.

Ainda não.

Posso pegar. É fácil.

Mas não é o que eu quero agora.

Espero.

A cabeça coça. Não pensa. Não pensa.

... ah...

Ele vem. Rápido.

Melhor.

Tenho fome.

De carne.




Estava a menos de duas milhas da entrada de Hálcora. Paramos na praia. Ao longe, duzentos metros, posso ver uma ilha. Duas palmeiras, uma moita... Forço a visão... há algo lá... Pode ser uma barraca... pode ser um mendigo... pode ser "a fera".

- Ih... Água... - a experiência de afogar na fuga do Castelo negro me ocorre. - Tem como conseguirmos um barco?

- Não precisa. - Dalton ri.

- Não quero nadar de armadura até aquela ilha.

- Aquilo não é uma ilha. É a ponta de um enorme banco de areia - Dalton explica. - Na maré alta, a água não passa do joelho. Agora Dá para ir caminhando... O Ermitão lá escolheu ficar lá uns ... três ou cinco anos acho, sem contato com ninguém. Bebe água da chuva, come peixes e pássaros.

- Você viria comigo? - pergunto.

- Perdão, Senhor Edgy... - o Mascate passa a mão na testa. - Eu é que não chego perto do eremita. Todos em Hálcora o evitam.

- Entendo... - falo enfim. - Grato, senhor Dalton.

"Deve ser um ser perigoso", eu penso.

"É um chato de galocha", pensa Dalton.


Acho que a armadura mágica deve ser resistente à ferrugem, mas ainda assim me programo para limpar a salmora quando chegar em Hálcora. As águas são barrentas e escuras, mas o piso é firme. Areia dura por baixo.

O Ermitão de Hálcora está de costas para mim. Usa um traje maltrapilho, uma paródia de capuz. Vejo que todas as palmeiras são cortadas, da base às folhas. A Moita possui múltiplos cocos entreabertos.

- [Invoque-me...] - Gladys sugere.

- Se preciso. - retruco.

A criatura balança a cabeça levemente. Estava longe, mas ele parecia ter ouvido, ou percebido algo que não registrou. Decido limitar meus planos ao pensamento. Estava bem longe...

Mas me aproximando.

O cheiro dele era ocre. Mas sua posição era estável. Eu tentei fazer alguns exercícios monásticos com o capitão Khao - Sim, ele foi monge mais jovem, difícil imaginar ele sendo "zen" - e ele estava tão parado, que via quando um passarinho saltitava ao seu redor.

A primeira parte do corpo dele que vejo é a ponta das patas... Sim, patas. Dedos felpudos, e flagrei longas unhas negras despontando... Ele cercava o passarinho...

Eu ouço um chiado dos céus.

Só vejo um borrão. Um predador deu um rasante, e tomou o pássaro das mãos da Fera.

E a Fera reagiu. Um de seus braços girou no ar como um chicote, e suas garras outrora vazias, agora fincava uma ave de porte médio-a-grande sem vida.

- "Isso é um Falcão Mergulhão de Shén-li!" - eu penso, comentando com Gladys. - "Sua velocidade máxima em mergulho é 340 km/h. 100 M/S. E ele pegou sem piscar!"

- [De onde tirou esses números?] - Critica Gladys. - [Eles... Bem, honestamente, parecem certos].

- "Há um almanaque de COISAS VELOZES que os cadetes usam para comparar às flechas de minha mãe." - Comento, mas ficando preocupado. Ele era rápido, e cruel aparentemente. - "Vamos... manter distância dessa fera".

A ideia de “ter uma Fera” parecia grandiosa.

Assistir uma… não.

O focinho mergulha na carcaça. Presas rasgam. Vísceras. Frio. Ele devorava a ave.

Isso não é símbolo.  É realidade. E eu… não sabia lidar com isso.

Forte Jian era controle.  Multidões que eu ajudava como cadete, ainda humanas.

 Até os ratos de Huo-fen e os Corvos de Morval pulando para sua própria destruição contra mim pareciam civilizados perto disso.

Mas aqui? Era um primitivo.

E, ainda assim—

Isso levaria terror aos meus inimigos.

Eu preciso "disso".

— Oi…

A palavra escapa de minha boca antes do plano. Não ia adiantar ser eloquente. Mas eu deveria ter pensado melhor.

Por um instante, juro que ele desaparece. 

Some. sem traços

Gladys salta para minha mão.

Giro. Estaria em minhas costas? Nada. A ilha inteira tem menos de cinco metros quadrados, onde ele…

— [Na palmeira!] - Gladys alerta.


Rolo para trás.

Olho para cima a tempo de ver.

Ele escala como um animal, ignorando peso, gravidade, lógica. As garras cravam, rasgam, descem — controlando a queda em saltos curtos.

Os olhos.

Âmbar em chamas sob o capuz. Fixos em mim.

Uma voz enferrujada, como se não fosse usada há anos:

— Você… é um náufrago também?

— N-náufrago? — engulo seco. — Não, eu…

— Onde está seu barco?

A cabeça dele gira, desalinhada e inumana, enquanto desce.

Vejo por fim a cauda. Longa demais. Flexível demais.

— Eu não vim de barco! — aponto a espada. Outro se intimidaria, ele ignorava. Meus olhos eram o que ele mirava. — Eu caminhei até aqui!

Ele para. Inclina a cabeça. Parecia rir um pouco.

— O homem de metal… que caminha na água…

A voz muda. Curiosidade. Era insanidade? Ou era quase infantil.

— Você poderia… se quisesse… caminhar de volta?

Desafio? Loucura?

— Posso. — respondo, firme. Precisava me impor. — E vou!


Ele toca o chão.

De quatro.

Então se ergue.

Alto. Mais alto que eu. Longo. Desproporcional.

E…

Submisso.

As mãos se fecham. O capuz cai.

— O senhor… poderia me levar com você?

Aquilo me desarmou.



Era um Catfolk. uma raça animalesca, muito arisco, originário de uma ilha própria e cheio de mistérios. um Guepardo, pelo que me parece. Seria uma forma de me fazer baixar a guarda?

- Por que você não… - Eu estava perdendo minha “voz de Edgy”. Só aponto para a costa… Dá para ver Dalton ainda andando apressado na direção de Hálcora.

- Eu não sei nadar, senhor. - ele explica.

- Eh, eu tenho dificuldades também, mas é raso.

- Raso? - ele olha para mim como se eu estivesse usando palavras alienígenas.

- Você … Poderia ter simplesmente … - Eu olho ao redor. Carcaças de animais. Restos de barris antigos roidos. As palmeiras arranhadas de cima a baixo. -  Há quanto tempo você este aqui?

- Para cada dia… - ele aponta a palmeira maior, com o tronco cortado por linhas verticais curtas e irregulares. - eu faço um corte. 

- [Eu conto 1.521 cortes, mas pode ter perdido pedaços.] - Gladys analisa rapidamente. - [Por volta de quatro anos e dois meses… bem mais que três minutos]

- Você está dizendo que… - Algo estava errado. - Sua idade, ermitão?

- Quando cheguei ia fazer dez.

Meu deus… Quatorze anos… Ele tinha quase dois metros de altura mas…

- [Catfolks amadurecem mais rápido que humanos.] - Informa Gladys. - [Ele é formalmente mais velho que você!]

- Isso é uma pegadinha? - retruco. Algo era bom... ou ruim demais para ser verdade naquela história. Caruthers?

- Pe-ga… - ele hesita em responder.

- Você, fera… - decido impor minha maturidade. - Onde foi o ...

- Xitarro.

- Hã?

- Meu nome é Xitarro. Não “Fera”. A não ser que queira que meu nome seja “Fera”. Parece um nome legal…

- F-fiquemos com “Xitarro” por hora. - eu baixo a espada. - Você disse que é um náufrago? Náufrago de quê?

- Atrás da moita. - ele aponta para o leste da ilha

A “moita” não é uma moita.

É um abrigo improvisado — galhos, folhas, restos. Bem volumoso, era quase ¾ da ilha.

Dou a volta.

E vejo.

Não é destroço.

É um navio.

A uns cinquenta metros da faixa de areia — casco ainda firme, largo, um único deque. O mastro, partido. Tudo saqueado, limpo… mas estruturalmente intacto.

Não afundou.

Não quebrou.

Contudo, o banco era mais fundo alí, e tinha alguma correnteza. precisaria nadar, e a lembrança da fuga do Castelo Negro me retorna.

- Ouça Fera. Eu sou Lord Edgy, e você não está tentando me passar a perna, está?

- Pegar uma carona é “passar a perna”? - ele pergunta.

 Se a ingenuidade dele for mesmo um ato, ele poderia ensinar ópera a Amellie 

- Não.

-  Então, não. O senhor vai “Pernar a Passa” em mim? - ele pergunta. O que responder a isso?

- Eu estou aqui para torna-lo um capanga. E...

- Tudo bem

- Você… Não sabe o que é Capanga, sabe?

- É alguma coisa má? - ele deduz. Era pouco vívido, mas mais esperto. Algo em minha voz deixou claro que era um acordo de consequências.

- Bem, SIM! - eu urro. - Você vai estar a meu julgo, vai fazer minhas ordens. Vai levar terror a meus inimigos! Então pode se dizer que sim. Será algo que você carregará na consciência como ... "mau".

- Mas … você me levaria daqui, não é? - ele fala. - Então, pode ser.

- [Por Pyrro e Enya, vamos embora!] - rosna Gladys. - [Deve ter orfanatos em Hálcora, ou abrigos, ou pet shops!].

Algo estava estranho naquela história. O povo evitava o Ermitão, e ele apanhou um falcão, e saltou três metros. Ao menos fisicamente, ele era uma fera. 

O “Filho de Arquivista” em mim olha para o navio. Manifestos. Cartas. Registros. História.

Mas nadar até o barco de armadura seria complicado.

- Passo para trás, Xitarro. É uma ordem. - não ia baixar a guarda tão cedo.

A criatura recolheu-se atrás da Palmeira

- Vigília Sombria, modo Sentinela. - eu falo. A Armadura se abre no peito, e eu deslizo para fora. Só agora sentia o sol forte sobre a pele. A “fera” se encolhe assombrado. - Faça companhia ao jovem.

A cara esquelética de Virgílio gira para o catfolk.

- [Acha mesmo que “faça companhia” é um comando compreensível?] - Gladys me provoca.

- Só quero que ele ache que tem alguém de olho. - falo enfim. - Xitarro, eu já volto.

Mergulho nas ondas.

A maior parte do caminho depois disso, a água na cintura. Não muito difícil.

 Mais adiante, afunda de novo. A corrente puxa.

 Encontro apoio num trecho coberto de mexilhões. Subo.

O convés está vazio.

 Botes: levados.

 Cordas: cortadas.

 Marcas de garras.

Não foi uma fuga apressada. Foi abandono calculado.

A cabine… vazia.

 Cartas náuticas — inúteis para mim. Nenhum documento formal.

A cabine do capitão… também limpa.

 Exceto a cama.

Embaixo do colchão, um diário.

— Data de… quase cinco anos atraz. — comento com Gladys, que apoio na batente. — Uma família catfolk embarcou em Hálcora… pai, mãe e uma criança catfolk.

O capitão escreve que era a primeira jornada de cabotagem de Dol’oam a Shén-dao. Os “gatos” viajariam dali para Yalatanil, o reino élfico.

E então… “o terror”.

"A criança hiperativa. Corria por todo o barco. Desamarrava todas as cordas. Falava sem parar. Nem os pais conseguiam controlá-la. Ela era incapaz de ficar sentada por mais de cinco segundos…"

— [Chaaato…] — comenta Gladys. — [Pule para a parte em que ele está preparando uma emboscada para comer as SUAS tripas.]

— Gladys, o Mestre Achima ensinou sobre crianças assim. — digo, preocupado. — Mandou não diagnosticar, mas… Elas precisam de cuidados especiais. E não acho que esse capitão esteja dando o devido…

A página seguinte está coberta de tinta. Marcas de pata pequenas.

 Quase todas as informações posteriores foram perdidas — restam apenas as últimas duas.

“Malditas cartas vagabundas! Bati num banco de areia! A tempestade me fez encalhar, e vai ser tão caro desatolar que vale mais a pena comprar um novo barco.”

“E adivinha… a maldita criança-gato estava no topo do mastro! A gente gritava, e ela não descia! Quando bateu, foi ‘estilingada’ para o mar. Está escuro. Não podemos ver nada. Não me sinto bem dizendo isso, mas… já vai tarde!”

— [Bem, isso valida a história dele…]

— Por Aetíades sagrado… — engulo seco. — Não acabou, Gladys… isso é…

“Novidades. Enquanto evacuamos, um dos práticos avistou o moleque. Ele caiu numa ilha — ou banco de areia seco, não sei dizer.”

Eu leio saltando frases.

“Depois de algum tempo, ainda conseguíamos ouvir os miados frenéticos dele.”

“Alertamos os pais. Eles pegaram um escalé e foram embora.”

“Eles não nos ouviram. Ou, mais provavelmente… ouviram. E ignoraram.”

“Não tinha como não terme ouvido. Nós ou ele…”

Não consigo ler mais.

Sento na cama fétida.

O diário pesa nas mãos.

— [Isso é maquiavélico.] — diz Gladys, fria. — [Uma criança problema. Abandonada deliberadamente.]

— Eu sei…

Engulo o nó na garganta.

— [Use isso.]

Fecho os olhos. Sei o que a Espada dos Treze Tiranos vai sugerir.

— [Mostre a ele o mundo como ele é.]

 — [Mostre que foi rejeitado.]

 — [Que foi descartado.]

A voz dela afia.

— [E ele será seu.]

Abro os olhos.


Volto para a ilha.

Virgílio está enterrado até o pescoço na areia. Não vou poder vestir até tirar toda a terra.

 Xitarro está na “moita”. Ao me ver, encolhe-se — sabe que fez algo errado.

Estou bravo.

Mas não consigo me irritar.

— Xitarro… seu pai é Tan’pro, e sua mãe é Leona? — Pergunto. Esse nomes, encontrei isso no diário do capitão.

— Sim! — ele responde, animado. — Você os conhece?

— Não. - Eu escondo discretamente o diário na mochila. - Ainda não.

— Eles sempre diziam que eu estava com pressa para tudo! Para comer! Para beber! Então… — ele hesita — eles estavam vindo. Eu só não era… paciente.

— Paciente? — pergunto.

— Eu esperei algumas horas. Aí o sol saiu… e eles não chegaram, e o sol foi embora. — Ele fala com naturalidade. Aceitação. Eu… não.

— Então eu sentei. - ele continua, postando-se em posição de lótus e fechando os olhos, demonstrando para mim como foi obediente. - Me acalmei. Me comportei como eles pediam. E… o tempo passou melhor.

— Xitarro… — respiro fundo. — Eu tive um… “Professor” com problemas de temperamento chamado Khao. Hoje, ele é um grande homem porque aprendeu a controlar os impulsos com mestres quando era pouco mais velho do que eu.

Faço uma pausa.

— Você… aprendeu isso sozinho? Espontaneamente nesta ilha enquanto esperava alguém vir buscar você?

— Sim.

Olho ao redor.

A ilha.

Aquela piada cruel do destino. Tantos que sabiam que ele estava aqui e deixaram para lá. Mas era um lugar de paz. Onde ele precisou aprender a sobreviver dos elementos. Conhecer o próprio corpo. Como os primeiros monges das Montanhas Castanhas em ambientes ermos e cruéis.

— E-eu ainda vou ser seu capanga… Certo? - Ele pergunta. Eu deveria estar deixando algum sentimento vasar. Ele temia que eu tivesse mudado de idéia e o deixasse na ilha.

— Capanga… É… — inspiro fundo. — Quando estou na armadura, eu sou Lorde Edgy. Você é capanga dele. - Eu pauso. — E o que combinamos… continua valendo.

Ele assente.

— Mas, sem a armadura… — continuo — eu sou Bentho.

Olho direto para ele.

— É importante que você entenda: somos pessoas diferentes, Bentho e Edgy. É como eu opero, certo?

— E eu sou seu capanga também, Bentho?

— Não. — respondo, firme. — Eu vou ser seu… amigo.








15 de março de 2026

[Monstro da Semana]O "Humano Normal"

Humano Normal

Origem: Parte da Dungeon do Mestre Irritadinho


 Humano Normal
Humanoide médio (definitivamente humano), desalinhado

Classe de Armadura: 8
Pontos de Vida: 45
Deslocamento: 6 m


FOR 14
DES 6
CON 16
INT 2
SAB 6
CAR 3



Resistências a Dano: cortante, perfurante
Imunidades a Dano: ácido
Imunidades a Condição: caído (humanos normais são muito estáveis)
Sentidos: percepção às cegas 9 m, percepção passiva 8
Idiomas: nenhum (humanos normais às vezes preferem silêncio)
Nível de Desafio: questionável


Traços

Anatomia Completamente Normal
O corpo do Humano Normal se comporta de maneiras inteiramente ordinárias, como dissolver armas que o atingem. Armas não-mágicas sofrem 1d4 de dano ácido e correm o risco de serem destruidas

Baba Ácida
O Humano Normal escorre ácido constantemente. Criaturas que o tocam sofrem dano ácido menor (1d6).


Ações

Ataque Normal de Tentáculo Ácido
Ataque corpo a corpo.
O Humano Normal golpeia com um perfeitamente normal pseudópode coberto de ácido com +4 para atingir.
Dano: 7 (1d8+2) de concussão + 4 (1d8) de ácido.

Abraço Envolvente Normal (recarga: 5/6)
O Humano Normal tenta um abraço muito normal, envolvendo o alvo em limo ácido.

Ataque corpo a corpo: +4 para atingir.

Se acertar, o alvo sofre 10 (2d6+3) de dano ácido e fica agarrado (CD 12). Enquanto estiver agarrado:

  • sofre 7 (2d6) de dano ácido no início de cada turno

  • fica contido

  • começa a se questionar que talvez isso não seja um humano normal

“Metagame Detection” — o Humano Normal ganha vantagem em ataques contra jogadores que disserem “isso é claramente um ooze”. 🧪

Após derrotar o Humano Normal, resta apenas uma poça de gosma.
O texto da dungeon observa:

"O humano normal infelizmente derreteu."



13 de março de 2026

[Edgelord] O Capitão e a Relíquia

 Abaixo, apresento um relato detalhado unindo a trajetória desses dois personagens improváveis que agora cruzam os mares no navio de nome incerto, o "Deixa em Branco".

O Capitão e a Relíquia: O Relato de Lizzo e LE-0

No vasto horizonte dos mares de outrora, poucos nomes evocam tanta contradição quanto Lizzo Filler. E poucas máquinas causam tanto calafrio quanto o droid que o protege, a unidade LE-0.

Lizzo: O Pirata de Mãos Vazias


Lizzo não nasceu na pirataria, ele foi forjado nela. Órfão do distrito de Huo-fen, foi acolhido pelo lendário Clã Filler, piratas conhecidos tanto pela audácia quanto pela crônica incapacidade de batizar seus navios de forma definitiva. Assim, ganhou o mundo como Jack Filler.

Como imediato do Capitão anão Barbasuja, Lizzo tornou-se um swashbuckler extraordinário. Ele elevou o saque à categoria de arte: em vez de canhões, usava o carisma; em vez de sangue, usava o diálogo. Sua meta sempre foi o saque sem vítimas, o lucro sem o luto. Contudo, seu destino foi manchado por Caruthers, o Deus da Mesquinharia. Através de uma maldição baseada nas próprias palavras de Lizzo, o deus o compelira a trair seu mentor, Barbasuja.


Embora tenha se libertado, a culpa tornou-se sua sombra. Hoje, carrega o apelido de "Lizzo", pois, apesar de saques bem-sucedidos, ele nunca tem uma moeda no bolso. A lenda diz que ele gasta tudo em vícios, mas a verdade brilha no orfanato de Huo-fen: cada centavo é enviado secretamente para as crianças da sua terra natal — o mesmo lugar que recebeu o infame porco de LordEdgy.

LE-0: O Pacificador de Bronze (Lawful Evil Zero)


Atrás de Lizzo, sempre se ouve o chiado rítmico de pistões e o escape de vapor. Este é LE-0, um droid de controle de multidões que remonta à era pré-guerra dos Dois Horizontes.

LE-0 é uma "arma viva" projetada para a eficiência absoluta. Com seis braços capazes de operar simultaneamente, ele é considerado o pistoleiro mais rápido dos mares. Sua programação original era limpar áreas infestadas por pragas ou insurgências numerosas, tornando-o o guarda-costas perfeito para varrer tombadilhos inimigos em segundos.

O Paradoxo do Droid:

 * A Natureza: Ele é Lawful Evil (Leal e Mau). Ele segue ordens à risca, mas sua lógica interna é desprovida de moralidade ou empatia.

 * O Hábito: LE-0 possui uma falha sistêmica (ou uma diretriz oculta): ele costuma trair seus mestres. Não por malícia, mas por uma obediência mecânica a "novas ordens" que parecem chegar de frequências desconhecidas.

 * A Penitência: Lizzo o mantém por perto não apenas por sua força, mas como um lembrete constante da sua própria traição contra Barbasuja. É um jogo perigoso: Lizzo sabe que, a qualquer momento, o droid pode receber um novo comando e se voltar contra ele.

"Deixa em Branco"

Hon-sa: A Engenheira Multiversal do Caos



​Hon-sa não pertence meramente aos mares, mas às fendas entre as dimensões. Originária de uma linhagem de nobres felinos conhecidos por sua dedicação inabalável à verdade e à justiça, ela sempre foi a "peça fora da engrenagem". Enquanto seus pares seguiam códigos rígidos de conduta, Hon-sa era movida por uma curiosidade insaciável e uma moralidade imprevisível. Sua frase recorrente, "Eu quero ser boa, mas não consigo", resume seu dilema: o desejo de fazer o que é certo, mas a incapacidade de seguir as regras para chegar lá.

​Foi esse espírito livre que a levou a aceitar a missão da família Filler: atravessar realidades levando consigo o navio que Lizzo herdaria. Para ela, o "Deixa em Branco" não é apenas madeira e velas, mas uma tela em branco para suas modificações tecnológicas.

O Arsenal da Imediata

​Hon-sa opera através de uma fusão única de engenharia e magia cósmica, utilizando dois itens que a tornam indispensável para a sobrevivência do grupo:

  • O Painel Blaster: Mais do que uma arma, é uma extensão de sua mente analítica. Este dispositivo multifuncional permite que ela escaneie estruturas complexas, entenda tecnologias alienígenas e realize o "hackeamento" de qualquer sistema programável em segundos. Quando as negociações de Lizzo falham, o painel se converte instantaneamente em uma pistola de raios de alta precisão.
  • Thundersfear: Uma esfera flutuante que segue Hon-sa como uma sombra fiel. A Thundersfear é um repositório de energias cósmicas, capaz de absorver ataques energéticos inimigos, analisar sua composição e redirecioná-los com força dobrada. Em situações críticas, a esfera serve como o "coração" do navio, fornecendo energia pura para escapar de tempestades dimensionais ou bloqueios navais.
​A Dinâmica do Trio

​No "Deixa em Branco", Hon-sa ocupa uma posição estratégica: ela é o único ser capaz de verdadeiramente compreender e conter LE-0. Enquanto Lizzo vê o droid como uma penitência, Hon-sa o vê como um quebra-cabeça tecnológico. Ela vive "brincando" com o sistema de LE-0 para tentar neutralizar as tentativas de traição do droid, muitas vezes tratando as falhas morais da máquina com a mesma leveza com que trata as suas próprias.

​Sua lealdade a Lizzo é profunda, enraizada nos laços com a família Filler, mas sua natureza caótica garante que a vida a bordo nunca seja monótona. Ela é a razão pela qual o navio ainda voa (ou navega), transformando cada desastre em uma nova oportunidade de "ajustar" a realidade ao seu redor.



10 de março de 2026

EDGELORD - Cap. V - Arco da Ledgyão

Janete Quá

 Bem vindos a...

...

Não sei mais onde estou. Minha cabeça está girando...

- [Huo-fen, Complexo dos Corvos Mensageiros de Morval. Uma moça que você citou algumas vezes é uma espiã, eu acho... Lançou um padrão hipnótico baseado em sons e nocauteou os...]

- Cadete mamãe! - ela baixa o florete e me abraça. Como na primeira aula de ópera da minha mãe que eu me envolvi. - Ainda não sabe o que fazer com as mãos, Não é? Já fazem dois anos?!? Como vai Àquela?

- S-senhorita Amelie, você é a espiã?!?

- Oh... quem dera fosse tão simples... - ela fala, se afastando saltitante, mas com um ar de tédio. - Me ajude a amarrar os corvinhos. Alaúdes não são as melhores armas, mas estava com as mãos ocupadas.

Ela baixa e começa a usar uma corda para amarrar um dos bandidos.

- M-mas... você é uma professora de ópera! Não uma e-espiã! - eu protesto.

- Eu não acredito que você ainda acha que aquilo era ópera... - ela parecia impaciente. - Alguma vez você cantou? usou perucas? Pensei que você veio aqui me “resgatar” por ter entrado para os negócios da sua família!

- N-negócios?!?

- Eu pedi para o seu Conselho não mandar apoio, eu disse, me viro... - ela bufa com algum despeito. - Eles realmente precisam confiar um pouco. Nem na sua mãe eles levam fé! Quem não confia em Lady Àquela, a Dama do Arco?

- Você está trabalhando para o Conselho Regente?!? Pensei que era uma agente dos Corvos de Morval!

- Pois é... Anda difícil manter a narrativa com tantas traições e plot twists. Eu mataria por uma narrativa mais simples... - eu tinha amarrado o segundo. Ela vem verificar, e desmonta o nó, e, bem, faz direito. - Agente duplo... triplo... Eu fui mandada primeiro para investigar sua mãe, mas parece que quem eles queriam desmascarar era...

- Balmon era o corrupto. Eles me falaram. - Constato.

- Na verdade, uma sentinela chamada "Mirian". - ela informa. - Balmon passava a mão nos corvos menos perigosos, mas não ia por seu reino em perigo. Ele está todo sujo, mas ao menos acha que faz algo certo. Mirian quis entregar o ouro a um cara chamado Ga-shi. quase não pude mandar um mensageiro anônimo fazer seus capitães voltarem para atrapalhar. Mas soube que você cuidou de tudo!

- Você disse Mirian?!? Eu conheço ela! Sim... ela não voltou da patrulha e eu fui verificar… Quando esbarrei em Ga-shi...

Ga-shi, antigo tenente de Blunt que invadiu o castelo atrás do Arsenal de Lord Blunt. Forçou meu pai a se revelar para mim. Claro, os cúmplices... Mirian foi a sentinela que não apareceu, que me fez ir averiguar e flagrei a invasão. 

- Eu pensei que você quem tinha matado Ga-shi e os dois cúmplices. Mirian era um deles! - Ela olha com rabo de olho. Era o "relato" de Achima. Na verdade, meu pai sertuiu o trio, enquanto Achima colocou em meu nome para impedir de expor Lord Blunt, e eu fugi com Gladys e Virgílio antes de sentar e combinar a história.

- [Bentho... Sei que a mocinha parece legal, mas que tal ver o que houve com "Virgílio"?]

- A... Armadura! - eu exclamo enfim.

Eu corro.

- Paraí, Cadete ma ma ... BENTHO! - Amellie tenta chamar minha atenção. E ...

Ah, então ela SABE que meu nome é Bentho, e só me chama de "Cadete Mamãe" para me irritar!

- [Chato isso, né?] - Comenta Gladys por ... Algum motivo.

 Mas eu deveria ter ouvido.

Sair de um complexo de ladrões exige um pouco mais de cuidado do que "sair correndo" pela porta da frente. Ela vem atrás de mim, tentando fazer eu não chamar a atenção… Mas eu estava muito adiantado. E todos ouviam os passos. Todos os “Corvos” que estavam de bobeira.

Consigo passar pela porta, olhando em volta. Ela ficou para trás, tentando me fazer esperar, mas agora os demais corvos estavam a seus calcanhares.

Eu percebo que ela escapa por um fio de ser apanhada, cruza o batente da porta... Mas os que tinham vindo atrás de mim param. Voltam-se para ela.

Amellie estava cercada. Eu podia correr, mas não corro.

Então....

Um balde. Certo na cabeça de um dos corvos.

Dois. alguém pisa e tropeça.

Uma quantidade aparentemente interminável de baldes caem do céu. Derrubam os bandidos, soterram uns. Vejo Amellie com um balde na cabeça cobrindo sua visão, cambaleando para longe.

No telhado do prédio da maquinaria, ainda jogando baldes, a esquelética figura da Vigília Sombria.

- [Como em nome de Aetíades ela foi de "jogar alguns baldes" a "subir no prédio com todos os baldes"?] - Gladys tenta desenvolver.

Amellie e os bandidos estão cobertos, cegos e distraidos. Era minha chance.

Saco a Adaga. Ela cresce. Era novamente Gládius Aeternum, a Espada do Pacto.

- Virgilia Sombria! - eu urro. - Pare tudo e só... ME VISTA!

- [Não faz isso, Bentho!!!] - Gladys tenta me avisar.

Então... dez quilos de aço e ferro saltaram de uma altura de quatro metros em minha direção. Só posso me preparar para o impacto.

Amellie chegou a levantar o balde de sua cabeça, mas ao ver aquele petardo caindo em minha direção, cobriu de volta.


Nem todos os Corvos estavam no complexo. Morval Menor juntou novos ajudantes para bater bolsas e assustar os moradores da triagem.

Eles se separam em dois grupos, e seu grupo acha uma vítima. Uma mulher loira de túnica de couro. Obviamente uma forasteira.

- Por favor, não me machuquem! - fala a loira.

Morval Menor sorri com uma presa fácil. Puxa sua tonfa… mas seu parceiro o detém.

- Ei... - observa ele. - Essa aí é Lady Àquela!

- Não, não é! - fala Morval.

- Não, não sou! - protesta a vítima.

- É sim! - insiste o parceiro do Morval. - Se você prestasse atenção no rosto ao invés dos peitos, ia reconhecer!

- Já disse que não sou a Arqueira! - reclama a vítima. - Mas _se fosse_, ela apreciaria que você a vê mais que peitos.

Morval começa a acreditar.

- Olha, a gente não fez nada errado! - resmunga, e joga a tonfa no chão. - Se é uma "operação pega-ladrão" da Nova Guarda, vocês não tem nada contra nós. Estamos de saída

- Não, sério! - insiste a loira. - Sou só uma forasteira sozinha, fiz a curva errada e...

- Sei, Dona Àquela... - resmunga o Corvo, saindo do beco. - Bate-estaca! - ele grita. - Vamos embora!

Um careca musculoso, com a tatuagem no rosto, emerge de um beco, carregando Estebán pelo colarinho.

- Mas que papagaiada é… - resmunga Morval. - Solta esse tiozinho!

- Ei, essa é a Lady Achima?

- Àquela! - corrige o parceiro. - Achima é o velhinho de vestido! E você... eh, fez um novo amigo?

"Bate-estaca" não era brilhante... Mas não era tolo. Percebeu que estavam com problemas com a Nova Guarda.

- Esse moço estava ... Procurando uma taverna, não era, tiozinho?

- Sim, meu bom senhor. - Estebán olhou acusadoramente sua esposa. - E você me ajudou a achar minha sacola de moedas, não, lady Àquela.

- Devolva a sacola do moço, bate-estaca! - ameaça Morval Menor por entre os dentes, tentando ser discreto.

Bate-estaca tira uma sacola do cinto, e coloca nas mãos de Estebán. O grupo vai embora, deixando o casal naquele beco.

- Eu achei que poderia fazer isso... - Àquela parecia frustrada. - Senhorita Amellie ficaria decepcionada comigo...

- Você é uma estrela, meu bem. - Estebán entrega um cartaz enrolado, fruto de sua bem-sucedida passagem pelo submundo. - A maior atriz do mundo não ocultaria sua grandiosidade. Eles até que foram simpáticos para brutos assaltantes, e foi bem informativo. Não tanto quanto em meu tempo, mas...

- Bem... você se sujeitou àquele troglodita mesmo sabendo que poderia mandá-lo ao submundo com um gesto. Estou orgulhosa de você, minha vítima de assalto! - ela se aproxima e beija a testa do marido. - Isso é outro pôster de procurado do Bentho?

- Pior...

“pior”?!? Àquela fica nervosa. E desembrulha.

Era um cartaz feito primariamente de giz de cera, mostrava desenhos infantis de uma casa, um porco assado. Mas havia um chamado serifado que convidava para um banquete beneficente do orfanato. O desenho principal era um homem com armadura negra, chifres, e um sorriso infantil.

- Lorde... "Edgy"?!? - ela exclama lendo os detalhes. - Não é a sua armadura, ou é?

- Um porco feito pela Mestra Bragar, dez peças de ouro cada prato, leilão pelas partes nobres. - Estebán observa. - Banquete de realeza, inflacionado por ser dada por um "herói local", em prol de crianças... Esse "Edgy" acabou de render a um orfanato pelo menos mil peças de Ouro.

- Acha que foi o Bentho? -Àquela pergunta.

Estebán estava furioso. Ele só segue andando pelas ruas.

- Amarania Bragar... - Àquela considera. - Acha que dá tempo de participar? Deve ser ... Estebán! Espera!


Amellie é esperta o bastante para não estar mais lá quando os corvos começavam a se recuperar da surpresa. O que eles vêem é um amontoado de aço, envolto em uma capa púrpura real... Pulsando com magia paladina.

Usava meu "Lay on hands" para me curar da cacetada... Mas também estava...

... Farmando Aura.


Lord Edgy, O Herdeiro da Escuridão, emerge das sombras, espada em punho.

- [Me arrependi de pedir "Herdeiro do Terror" de volta!"]

Raio Místico! Desenho um arco, e separo o raio em dois, atingindo dois avulsos. Isso dói, mas não os tiram de combate... ainda não. Aprendi algumas coisas em nossa luta anterior.

- [Concentre em um, Diminua os números!] - Gladys tenta me orientar.

- Não dessa vez... - eu falo presunçoso.

Já vi aquela cena. Os Corvos são cabeça dura, e atacam em bando. Eu parto para cima.

Deixo me cercarem.

Mantenho a guarda alta, as tonfas tem bem menos alcance que minha Espada Pesada. Eu controlo o ritmo da luta.

Mas eles eram muitos. Mesmo que por acidente, teve um que passou em minha defesa, e está em minhas costas. Ele avança para me pegar por onde não posso bloquear... Mas por algum motivo, ele para com cara de abobado.

- [What the f...] - Gladys está surpresa. **EU** estou surpreso.

Desarmo um deles. Mais dois Raios Místicos. Todos eles foram feridos em algum momento de minha luta. Um deles parte para um "Tackle" em mim... eu...

Escuto música?

Me sinto leve. Atento. Atlético. Desvio com graça aquele ataque, mesmo com o peso da armadura. O agressor rola no chão... e finalmente entendo...

... Alguém nas sombras estava cobrindo minha retaguarda. 

Inspiração bárdica.

Magia de imobilização sutil.

O sorriso iluminado de Senhorita Amellie...

Agora eles estão ao meu redor. Baqueados, mas vão insistir em vir para cima... Todos como... Um bando de ratos num porão.

- BLADE BURST!



Era um ataque de giro. Um ataque de área! Sacrifico potência bruta por praticidade. A onda de choque bastou para os corvos, todos já feridos, tombarem em um único ato.

Lord Edgy triunfou.

E ... Aplausos! Literalmente desta vez, não só na minha cabeça. 

Amellie sai das sombras com um sorriso entusiasmado.

- Foi Incrível, Bentho! - ela fala. - Essa luta tinha história! Você obviamente tem passado com eles! Fez muitos recalls! Tinha ... Alma! - ela olha para o infinito, como se visse uma platéia assistindo.

- Eu me chamo **Lord Edgy**, Senhorita! - Eu corrijo. - Sou o Herdeiro da Escuridão.

- Herdeiro do Estebán, isso sim! - ela fala, levantando minha capa, notando os detalhes da armadura. - É a Gladius Aeternun?!? - Ela toma a espada de mim... Tão rápida que mal tenho tempo de reagir.

- Estou falando! - insisto. - Sou uma pessoa perigosa que por acaso...

- Diminua o grave. “Grovel”! “Grovel”! Senão vai detonar sua garganta em poucas horas. - ela corrige minha "voz de Lorde Edgy". - Relaxe as cordas vocais e deve bastar... Vai poder ser esse seu personagem por mais tempo! Calma que a voz está completamente diferente, quase não percebi! Bom trabalho!

Dou com os ombros. Felizmente todos os corvos estavam desacordados. Tiro o elmo.

- Eu vou deduzir que... Você sabe de meu pai pelo Conselho...

- Não, sei de Lorde Blunt porque sou só... "Esperta" desse jeito! - ela ri, colocando Gladys contra a luz da lua. - Mas qual é o seu ângulo aqui?

- Eu... - Sim, qual *era* meu ângulo? Eu era mais popular que a Nova Guarda quando queria ser mais detestado que Lord Blunt, - Eu não gostei do que fizeram. E ... Decidi fazer as coisas do meu próprio jeito. Mas acho que ... Não estou fazendo direito. A espada fica buzinando na minha cabeça com a voz da minha mãe e...

- Você ouve a mamãe na espada?!? - ela se espanta. - Bem, economizamos com dubladora! Mas seu pai ouvia um "Dai-doi-jai-joi"... Como é que era o nome? Um cara de Hatamon, eu acho! A lenda é que a espada usa a voz de alguém que você respeita de seu passado!

- [C-como ela sabe da Voz que Lord Blunt associava a mim?] - resmunga Gladys.

- S-senhorita Amellie, devo confessar que meus pais não fazem idéia... Quer dizer, sabem a esta hora. mas eu estou montando meu próprio Império e...

- Um senhor da guerra autodidata! - ela elabora, mais para si mesma do que para mim. - Cara, depois de tanto tempo sendo secretária da igreja, fofoqueira do Conselho... Sua - ela hesita em usar palavras. - ... Sua proposta é inovadora! refrescante! Você tem as ferramentas! Só falta a Direção! Uma... Uma guia!

Ela estava se empolgando. Me empolgando! Mesmo quando eu estava perdendo a esperança.

- Senhorita Amellie... - falo enfim. - Está pensando o mesmo que eu?

- Sim, Lorde Edgy. - ela tinha aquele olhar faceiro e triunfante.

Apontamos um para o outro.

Falamos ao mesmo tempo, em uníssono.

— VOCÊ VAI SER MEU CAPANGA!

— VOCÊ VAI SER MEU PROJETO!


- [Eu ouvi "VOCÊ VAI SER MEU CPARPOAJNEGTAO"...] -

- Você disse "Capanga"? - ela me pergunta.

- Você disse "Projeto"? - Eu pergunto confuso.

- Veja bem... - ela fala primeiro. - Lord Blunt, é **fantástico**... Uma força imparável. Mas a história do vilão que não pode perder é que eventualmente ele perde. Fica previsível. Mas você? Você é falível, é apaixonado! Dramático! Vai vencer? Vai perder? Quem sabe! a audiência quer ouvir até o fim, não só esperar quando uma loirinha vai acertar uma flecha no seu joelho! Agora... "Capanga"?

- Posso dar um título melhor... Estava com "capanga" na cabeça desde o Castelo negro - eu corrijo. - O fato é que é duro ser o Bento, o Edgy, programar o Virgílio e a GLADIS aqui (estendo a espada) Não me ajuda! Aparecer e tentar bater não está funcionando muito bem a longo prazo. Preciso delegar...

- "Gladys"? - Amellie gargalha. - Ela deve odiar isso!

- [E ODEIO!]

- Então, Eu (ela aponta seu coração), se fosse sua "capanga" (aponta o meu)... Precisaria de um pseudônimo. Amellie é muito famosa.

- Que tal... Janete Quá? - eu recordo.

- Perfeito. - ela sorri, e estende os braços teatralmente. - Eu vou te abraçar agora, não se assuste, e você pode colocar as mãos em minhas costas ou ombros, não muito baixo, oquei?

Eu fico constrangido um segundo, e ela vem a mim. A armadura me protege de ratos e tonfas, mas sinto o calor dela passando pelo ferro.


- Agora que estamos juntos... - ela fala, aqueles olhos encantadores olhando os meus. - Vamos nos separar.

- O ... O que?!?

- Os corvos só viram as luzes apagarem antes de Lord Edgy chegar. - ela explica, amarrando o alaúde nas costas e ajeitando o vestido. - Vão estar procurando um casal fujão, separados eles não nos incomodam. E eu vi seu rosto nos cartazes lá dentro... Mantenha o elmo!

- Sim, claro. - Falo, colocando o elmo de volta. - Edgy é bem popular por aqui...

- Sim, mas não é isso o que você quer. - ela fala. - Vamos nos encontrar em Hálcora. Eu vou pela estrada da muralha, você segue a trilha do rio. De lá, começamos nosso projeto, certo, Lord Edgy?

- Certo, Lady Janete Qua.

- [Eu estou com múltiplas ressalvas...] - resmunga Gladys.

Eu ignoro.

Amellie viu o que eu queria fazer. Ela... Ela era o que precisava. Eu estava começando a duvidar de mim, a fé dela me deu novo ânimo.

Acho que Hálcora será uma fase melhor para nós!


Estalagem de Gotar. Muitos aventureiros passam por lá. Tecnicamente nunca fechei meu quarto lá. Mas Eu era um assunto.

- Lord Edgy é quem está certo! - fala o bêbado simpático a Blunt. - Ele usa o Elmo de Lord Blunt como símbolo! Um símbolo de "Foda-se a Nova Guarda"

Ele recebe um "uhhay" dos demais bêbados da estalagem.

- Foda-se aquele velho broxa do Áchima!

- "Uhhay"... mas mais contidos. Alguns se calam. Algo acontecia na estalagem, que a maioria dos bêbados ignorava.

- Foda-se Balmon, o nanico! - ele continua, no balcão. Estranha que o estalajadeiro Gotar dá alguns passos para traz, mas não se detêm. - Foda-se aquela perua da Àquela!

Ninguém faz "uhhay". Apenas o homem, no balcão, de costas para a entrada, ignorava uma presença.

- E foda-se aquela "biba bombada" do Kh...

Ele não termina a frase.

Uma mão enorme agarra seus cabelos, e força, com peso absurdo, seu rosto para baixo, quebrando nariz e deixando dentes na madeira do balcão.

Capitão Khao ergue-o pelos cabelos com uma mão, só a ponto de estar balançando. Três soldados da Nova Guarda o acompanhavam. Ninguém ousa impedir quando o Colosso das Montanhas Castanhas o joga no chão, inconsciente.

- Só vou falar uma vez! - urra Khao, desembrulhando um novo cartaz de "procurado". Nele, uma figura de armadura negra e o elmo com chifres. - Onde eu encontro o foragido conhecido por "Lorde Edgy"?

Silêncio.

- Se quiser pegar Edgy... - Gotar se adianta. - Terá que passar por todos nós.

Khao percebe que o caneco do homem que ele nocauteou ainda estava no balcão. Ele o apanha, e vira na garganta de uma vez.

- Eu não gostaria que fosse de nenhuma outra forma. - Ele estala o pescoço, e alonga os braços ameaçadoramente.



8 de março de 2026

Universo Edgelord — Guia de Leitura

Guia de Capítulos do Universo Edgelord



O projeto Edgelord é uma saga de fantasia ambientada em um mundo de heróis lendários, segredos antigos e histórias contadas por diferentes perspectivas.

A trama acompanha principalmente Bentho, um jovem que começa a descobrir verdades desconfortáveis sobre seus pais, seu passado e o mundo ao seu redor — uma jornada que pode levá-lo a um destino bem diferente do heroísmo.

Se você é novo na saga, comece aqui:

Explicando o projeto
https://dragaodeplutonio.blogspot.com/2026/01/em-breve-edgelord.html



ARCO DA NOVA GUARDA

A primeira grande história da saga, apresentando os personagens principais e os primeiros sinais de que o mundo é maior — e mais perigoso — do que parece.

Capítulo I
https://dragaodeplutonio.blogspot.com/2026/01/edgelord-i-arco-da-nova-guarda.html


Capítulo II
https://dragaodeplutonio.blogspot.com/2026/02/edgelord-ii-arco-da-nova-guarda.html

Capítulo III
https://dragaodeplutonio.blogspot.com/2026/02/edgelord-iii-arco-da-nova-guarda.html

Versão de Lord Blunt – A Batalha de Shén-li
https://dragaodeplutonio.blogspot.com/2026/02/edgelord-mais-uma-versao-da-batalha-de.html

Capítulo IV
https://dragaodeplutonio.blogspot.com/2026/02/edgelord-iv-arco-da-nova-guarda.html

Capítulo V
https://dragaodeplutonio.blogspot.com/2026/02/edgelord-v-arco-da-nova-guarda.html


MITOS DE FORMAÇÃO


Histórias do passado que ajudam a entender personagens e eventos importantes do mundo.

🎵 Loredump musical – Amellie resume o primeiro arco de Edgelord
https://suno.com/s/v27shTareqcQU1Mw

Os Irmãos do Limiar
https://dragaodeplutonio.blogspot.com/2026/02/edgelord-mito-de-formacao-os-irmaos-do.html


ARCO DA LEDGYÃO: HUOO-FEN

A saga continua em Huo-Fen, onde novos personagens surgem e antigas histórias começam a se conectar.

Capítulo I
https://dragaodeplutonio.blogspot.com/2026/02/edgelord-cap-i-arco-da-ledgyao.html

Capítulo II
https://dragaodeplutonio.blogspot.com/2026/02/edgelord-cap-ii-arco-da-ledgyao.html

Capítulo III
https://dragaodeplutonio.blogspot.com/2026/03/edgelord-cap-iii-arco-da-ledgyao.html

Capítulo IV
https://dragaodeplutonio.blogspot.com/2026/03/edgelord-cap-iii-arco-da-ledgyao_5.html

Capítulo V

https://dragaodeplutonio.blogspot.com/2026/03/edgelord-cap-v-arco-da-ledgyao.html

Capítulo VI - Xitarro
https://dragaodeplutonio.blogspot.com/2026/03/edgelord-cap-vi-arco-da-ledgyao.html

Capítulo VII
Em breve



Histórias de Amellie

Essas histórias acontecem entre os capítulos IV e V do Arco da Ledgyão.

Amellie – Parte 1: A Professora de Òpera
https://dragaodeplutonio.blogspot.com/2026/03/edgelord-mito-de-formacao-amellie-parte.html

Amellie – Parte 2: O Devorador de Nomes
https://dragaodeplutonio.blogspot.com/2026/03/edgelord-mito-de-formacao-amellie-parte_7.html



Trilha sonora da saga

Também criei uma playlist no Suno com músicas inspiradas no universo da história:

https://suno.com/playlist/78fa83a6-05fd-4c98-ba26-ab10d9c90e36

Mais capítulos serão adicionados conforme a saga continua.

Bentho chegará na capital?


7 de março de 2026

[Edgelord] Mito de formação: Amellie parte 2

 Parte 2 - o Devorador de Nomes


 Foi a melhor idéia que eu já tive. Àquela estava acostumada a ser reverenciada, agora era uma competidora pela atenção da professora.

 E surpreendentemente, Cadete Mamãe tinha personalidade. Entusiasmo. Em pouco tempo era meu melhor aluno, e com isso levantava a barra mais para o alto. Como um monitor, eu tinha uma segunda voz para Àquela treinar. Ensinei ele a estender a vocalidade a ponto que ele podia razoavelmente imitar outros.

 Seria um bardo de razoável-a-bom, se não tivesse colocado na cabeça que seria um paladino de Shén-li.

Mas isso eram as tardes. As noites, eu queria um tempo para mim.

 O Palácio da Nova Guarda era muitas coisas — fortaleza, quartel, tribunal — mas definitivamente não era um bom lugar para um bardo entediado.

Não havia instrumentos para dedilhar. Nem músicos pelos corredores. A biblioteca, quando enfim a encontrei, revelou-se pouco melhor: fileiras intermináveis de tratados técnicos. Logística militar. Manutenção de armaduras. Arquitetura de muralhas. Estratégias de patrulha. Tomos grossos e severos, escritos por homens que pareciam desconfiar profundamente da ideia de entretenimento.

Suspirei e puxei um volume ao acaso.

Bandoleiros nas Estradas de Lian-Zhou: Relatório das Campanhas de Lord Blunt.

Nada leve. Mas era o menos árido que encontrei.

Abri o livro e comecei a folhear distraidamente. Relatos de emboscadas, rotas de contrabando, nomes de líderes de bando. Aos poucos, parei de ler o texto e comecei a imaginar as lacunas. Quem eram aquelas pessoas antes de virarem bandidos? Que tipo de vida levava alguém a escolher as estradas e o risco constante da forca?

Talvez desse uma boa história.

Eu já estava inventando diálogos inteiros na cabeça quando uma sombra caiu sobre a mesa.

Um livro pousou diante de mim.

Levantei os olhos.

O arquivista-chefe Estebán ocupava a cadeira oposta com a tranquilidade de quem sempre soube que chegaria naquele momento.

— É a coisa mais lúdica que temos — disse ele.

Olhei para o volume.

Capa de couro vermelho, claramente artesanal. As bordas gastas pelo manuseio, mas bem cuidadas. Não parecia um tratado. Nem um manual.

Passei os dedos pela lombada.

— Capa feita à mão… — comentei. — Um diário?

— Leia a antecapa.

Abri o livro.

A primeira página trazia uma caligrafia elegante, serifada, quase cerimonial.

O Devorador de Nomes.

Ergui uma sobrancelha.

— O menestrel Cyrak nunca escreveu esta epopeia. — folheei mais algumas páginas, mas soava reepreensível. — Parece… apócrifo.

Estebán se recostou na cadeira.

— O autor foi testemunha ocular. — disse simplesmente. — Está no direito de relatar. Guardou o manuscrito por muitos anos como lembrança.

Fez uma pequena pausa.

— Sabe declamar o discurso final? Quando Cyrak confrontou o Devorador… enquanto Lord Blunt se esgueirava para dar o golpe decisivo?

Fechei o livro por um instante, pensativa.

— Pelo que ouvi… Cyrak improvisou tudo. — respondi. — E nem conseguia repetir o discurso depois que o monstro caiu.

Estebán inclinou levemente a cabeça.

Então começou a recitar.

"Eu sou Cyrak, o Conquistador 

o eco nas cortes douradas,

o sussurro que antecede rebeliões,

o verso que fez reis ajoelharem e amantes se levantarem.


Meu nome não é uma palavra.


É um refrão.”

— O senhor leu isso recentemente? — perguntei.

— Não abro esse livro há vinte anos. — Estebán respondeu sem hesitar. — Amaldiçoado com memória eidética.

Ele apoiou os cotovelos na mesa, como quem consulta uma estante invisível.

— “Eu sou excesso. Sou hipérbole encarnada. Sou metáfora ambulante. Sou a vírgula que impede o fim da frase. Tente me nomear — e verá que meu nome se multiplica.”

Folheei o manuscrito rapidamente.

Ipsis litteris.

— Cyrak enfrentou um ser ancestral que devora egos — comentei, passando os olhos pelas páginas. — E, em vez de ocultar o nome verdadeiro… ele o berrou. Entregou tudo. Ego, história, identidade. Fez um devorador de existências ter indigestão.

— Enquanto isso… — completou Estebán — o estoico Lord Blunt compartimentava o próprio ser. Atrás de pseudônimos. Dentro de uma mente labiríntica. Avançando como uma muralha de ferro frio.

Assenti.

— Uma aliança improvável.

— Uma aliança de necessidade. Uma aliança dada ao Ocaso. — corrigiu ele. — Dois dos poucos seres no mundo capazes de enfrentar aquela criatura.

Fez uma pausa.

— Mas sabe qual foi a lição que Lord Blunt tirou disso?

Levantei os olhos do livro.

— Estou curiosa.

Estebán inclinou-se um pouco sobre a mesa. O gesto era pequeno, mas tinha algo de predatório.

— Cyrak é perigoso.

A frase ficou no ar entre nós.

— Mesmo se Cyrak gostasse dele? — retruquei. — Mesmo se admirasse aquele campeão das trevas marchando contra o mundo?

Estebán apoiou o queixo na mão.

— Eis a parte mais triste. - Seus olhos se perderam por um instante em algum ponto distante da biblioteca. — Cyrak nem precisa querer causar mal. Ele apenas… causa.

Fez um pequeno gesto com a mão, como quem folheia décadas.

— Bearlord. Cardulion. Cahuthers. Cinco reinos antes dos quinze anos.

Ele me olhou de novo.

— E viveu oitenta e sete.

Baixei o olhar para o manuscrito. Era uma análise incômodamente boa.

Depois de um tempo, falei:

— Sentimos sua falta no funeral do mago.

Estebán não respondeu imediatamente.

— Eu não pude ir. — disse por fim. — Não posso deixar o castelo.

Fez uma pequena pausa.

— Mas fui correspondente de Myrlen nos últimos anos. Quando a doença começou a avançar.

Ergui os olhos.

— Todos esses anos?

— Amizades como aquela são difíceis de conquistar. — respondeu. — E deveriam ser preservadas.

Se recostou na cadeira, pensativo.

— Assombroso como Cyrak conseguiu desperdiçar a dele.

O silêncio se estendeu entre nós.

— Nos últimos anos — continuou ele — Myrlen se arrependeu de muitas coisas. Do mal que fez. Do mal que permitiu. Mas acho que você já sabe disso.

— Sim… — murmurei.

Normalmente eu teria uma resposta pronta. Uma observação espirituosa. Um comentário capaz de desmontar o clima pesado da sala.

Agora não tinha nada.

Estebán me observou por alguns segundos.

— Eu não sou tolo, senhorita Silverleaf. — disse finalmente. A frase não era acusação. Nem exatamente ameaça. — Estarei sempre com minha guarda levantada.

Ele empurrou o manuscrito um pouco mais para perto de mim.

— Mas Myrlen sentia, ao mesmo tempo, arrependimento… e orgulho de Amellie Silverleaf.

Fechei o livro com cuidado.

A encadernação era simples: couro e costura firme, feita com precisão quase acadêmica. Nada ornamental, mas impecável.

Narrado pelo próprio Lord Blunt.

Valia uma pequena fortuna.

O Conselho Regente provavelmente daria cambalhotas de indignação ao descobrir que aquele manuscrito havia saído das muralhas do castelo.

E agora estava nas minhas mãos.

{Ouça o Monólogo de Cyrak que destruiu o Devorador de Nomes em SUNO.COM}


Metade da manhã já havia passado. Depois das aulas de Couture e Poise, a sala ainda cheirava a incenso leve e tecido recém-passado. Eu ajudava Àquela a recolher almofadas e alinhar cadeiras para a segunda parte das lições.

Ela estava inquieta. Não era difícil perceber.

A arqueira lendária, a capitã da Nova Guarda, a mulher que enfrentara monstros e generais… estava nervosa como uma debutante.

Finalmente criou coragem.

— A senhorita viaja muito, obviamente — disse, ajeitando um pano que já estava perfeitamente alinhado. — Não pensa em… se acomodar algum tempo?

Levantei os olhos.

— Tipo… em Shén-li? Na capital?

Oficialmente, era minha primeira visita.

Oficiosamente… eu poderia ensinar a ela onde ficavam os verdadeiramente melhores bares, os becos mais barulhentos e os músicos mais interessantes. Conhecimentos herdados de uma outra vida, enterrada sob camadas de tempo.

— Eu penso que… — ela continuou, escolhendo as palavras com cuidado — você é o pacote completo. Refinada, culta, aventureira… e não tem medo. Viu boa parte do mundo. Deve ter uma carta de pretendentes…

Soltei uma pequena risada.

— Que é isso! Olhe para mim. Eu tenho só…

Olhei para mim.

Minhas mãos.

A altura da mesa.

Dezesseis anos.

Nossa.

O tempo voou.

Por um instante senti algo estranho — como se uma memória antiga tivesse tropeçado dentro de mim e caído de cara no chão da realidade.

— Vou ser direta então — disse Àquela, tão nervosa que nem percebeu minha pausa. — Não sei se reparou no Bentho… mas eu suspeito que—

— Poderia me dar um segundinho?

Não esperei resposta.

Saí do salão.

O corredor estava fresco e silencioso. Caminhei alguns passos até parar diante de uma janela estreita, olhando o pátio da Nova Guarda.

Respirei fundo.

Uma vez.

Duas.

Aquilo estava ficando perigoso.

Não o tipo de perigo que envolve monstros antigos ou duelos em pontes estreitas.

Outro tipo.

Bentho com sua sinceridade desajeitada.

 Àquela tentando parecer composta enquanto claramente conspirava como uma mãe orgulhosa.

 As aulas. As conversas. As risadas.

Família.

A palavra ecoou na minha cabeça como um sino rachado.

Eu já tinha visto esse padrão antes.

Eu chegava.

 Encantava.

 Agitava o mundo ao redor.

E então as coisas… quebravam.

Reinos. Amizades. Confianças.


Castelos-fortalezas não costumam ter os luxos de uma mansão, mas aquele tinha um pequeno lavabo separado do banheiro.

E o lavabo tinha um espelho.

E o espelho era meu confidente.

Passo a mão pelo peito, avaliando o volume.

“Pequenos caroços”, concluo mentalmente.

Desço as mãos pela cintura.

“Algumas curvas… mas ainda reta demais”, murmuro.

Levanto um pouco a saia e observo as pernas.

“Isso não são pernas. São salsichas.”

Então ergo o olhar.

Amellie Silverleaf me encara do outro lado do espelho. Deflorando postura delicada e olhos vivos. Para qualquer observador, ela seria simplesmente… bonita.

— Ah, não… — suspiro.

Cruzo os braços, estudando meu próprio reflexo.

— Eu sei exatamente o que estou fazendo. Catalogando defeitos, exagerando proporções, ignorando o conjunto…

Inclino a cabeça.

— Eu sou adorável.

Faço uma pausa.

— …e ainda assim estou aqui procurando problemas.

Respiro fundo, derrotada pela conclusão inevitável.

— Pronto. Confirmado.

Aponto para o espelho.

— Eu sou oficialmente uma garota.

Myrlen, o Exemplar dos Magos que me amaldiçoou, avisou que chegaria aquele momento de decisão. Se tudo desse certo, eu teria recuperado meu corpo àquela altura. Mas não. Eu fracassei.

Estava ocupada me desculpando com Cardullion, e depois adotei aquele maluco bêbado. Curei ele, o tornei um campeão, e arrumei sua igreja, e emendei daí em uma vida de aventuras por três anos. Eu vim para Shén-li por achar que novos ares me devolveriam a claridade...

... Mas acho que perdi tempo demais.

Não vejo forma de retornar, e o Mundo já aceita Amellie... Mais do que jamais aceitará Cyrak.

Escrevo uma carta para me despedir de Lady Àquela. Peço a Esteban que entregue, pois não queria entregar em pessoa e precisar me justificar.

Decido não explicar que sim, eu vi que o pequeno “Cadete Mamãe” estava caidinho por mim, por isso não concentrava na formação, nos seguia como um cachorrinho, e era o aluno mais esforçado que eu tive em quase noventa anos. E que ela daria uma boa casamenteira se a história de “ser o rosto do Coração do Mundo” não desse mais certo...

Escrevo também ao Conselho regente que não: Suas dúvidas estavam infundadas. Àquela era uma defensora do Acordo. O Palácio negro defendia Shén-li e nada mais.

Tentei me afastar.

Shen-Dao, a capital, era enorme, e um bom lugar para me esconder um tempo. E por dois anos comecei a chamar de lar.

Comecei a fazer conexões.

E então, uma noite em que fui me aventurar em Huo-fen, me deixei capturar pelos Corvos de Morval, para descobrir quem era o patrono secreto deles. Quando decidi que era hora de ir embora com o que eu consegui levantar, o destino me atrapalha outra vez.

... E lá estava eu, com o florete na garganta de outro prisioneiro...

- "Cadete mamãe?" - o jovem ficou mais alto, mais forte, mais homem. Devia ter 17 anos agora.

- S-senhorita Amellie?!?






[Edgelord] Mito de formação: Amellie parte 1

 PARTE I - a Professora de Ópera



[se possível leia ouvindo Amellie's Jam]

- Bem-vinda a Shén-li! O Coração do Mundo!

O entusiasmo dela é cativante.

Lady Àquela foi quem me recebeu nas muralhas que guardam o acesso ao Aro Externo. É uma mulher de beleza marcante — loira, de traços firmes e maduros. Deve ter algo entre trinta e trinta e cinco anos, imagino. Biologicamente, pelo menos vinte anos a mais que eu.

Sua armadura é impressionante. Toda trabalhada no tema da águia, com placas que evocam asas. Ainda assim, nada nela parece meramente ornamental: cada peça transmite a sensação de ter sido feita para a guerra. É um raro equilíbrio entre funcionalidade e beleza.

Quando ela se move, entende-se por quê. Lady Àquela não veste apenas aquela armadura — ela a encarna. É o próprio símbolo da Nova Guarda… de Shén-Li.

- E então? - ela fala, quebrando o protocolo. - Seja brutalmente honesta comigo!

Isso foi há dois anos atrás.

Meu nome, ao menos por agora, é Amellie Silverleaf de Yalatanil. Tenho dezesseis anos.

Passei os últimos três dividida entre cortes e igrejas, entre aventuras perigosas e uma busca desesperada por alguma forma de reverter uma maldição que insiste em me acompanhar.

Ainda assim, ali estava eu — diante das muralhas do Aro Externo — como convidada de honra da mulher mais importante de Shén-Li.

- Você não vai querer isso ... - Ameaço ela.

- Senhorita Amellie, o Conselho Regente tem alto estima em sua opinião. - Lady Àquela "A Dama do Arco", estende a mão para me ajudar a descer da carruagem. Bem militar... Bem "masculina". Devo quebrar isso...

- Certo... - despejo enfim. - Sua segurança nessa frase brega demonstra que é um Mantra!

Ela está assombrada. Eu AVISEI que ela não estava pronta.

- Bem, "Coração do Mundo" é nosso lema. - ela defende. - Todos no Reino recebem visitantes com isso.

- Você faz isso há Dez anos?, imagino...

- Quinze. - ela me corrige. Eu sabia que eram quinze. Eu errei de propósito. Quero que o tempo seja bem assimilado.

— Sua fala não hesita. Já soa natural, quase instintiva. O seu gestual é cativante… mas… — faço uma breve pausa e então aponto. — Os olhos se entregam.

Indico com o dedo as belas safiras que brilham em seu rosto.

- Os "olhos"?!? - ela parecia confusa.

- Você fala, mas não "compra" a mensagem. Não acredita nela. - concluo.

Ela recupera a compostura. Se torna uma militar de repente. Busca refúgio onde ela se sente segura... Devo definitivamente tirar isso dela.

- Talvez seja sua presença aqui....

- Explique... - eu estimulo.

- "Coração do mundo" soa... Imperialista. - ela confessa enfim. - A forma que nos referimos ao resto do continente... "Zonas Selvagens"... Acho que temo ser julgada.

Não era isso...

- Hmm... É isso. - eu sorrio.

- Agora você... Amellie Silverleaf, escriba da Igreja da Perseverança, que derrubou um titã e destruiu o Império de Caruthers...

— Não devem ter muitos bardos na sua companhia. Nós só damos suporte aos pesos-pesados — digo, com uma falsa modéstia que não faço muita questão de esconder. — O Monsenhor foi quem fez o trabalho pesado.

Dou de ombros, quase despreocupada.

— Aliás, a Igreja se formou depois da queda do Império… por causa da queda do Império. Eu só fiquei com a parte burocrática. — Inclino levemente a cabeça. — Se já conheceu um arquivista, sabe bem como somos chatos.

Ela acha que eu não vi o brilho no olhar dela. Achava que eu não sabia de nada, inocente. Mas eu tinha feito a lição de casa. Nada iria me surpreender.

- Bem, de uma "lenda" para a outra... - ela fala. - Bem-vinda a Shen-li, Senhorita Silverleaf. genuinamente. Eu estou nas suas mãos. Como Capitã e como aluna.

- Certo. - eu sorrio. - Então, vamos começar com o lendário Castelo Negro.

A mão dela vai instintivamente aos arreios de seu cavalo.

- ... Como uma DAMA! - interrompo ela. - A capitã está de licença de imediato. - Aponto para uma fila de soldados. - Pegue alguns para guiar minha... Melhor: NOSSA carruagem. Abrir as portas, e tudo mais.

- Eu... Adoraria. - fala enfim.

— Só evite o cadete número sete… — digo, apontando discretamente. Meu olhar clínico captara algo… estranho. — Está fora de formação.

A capitã reage como uma águia que avista movimento no campo. Vira-se imediatamente para onde indiquei. A linha inteira de cadetes se recompõe num estalo.

— Eu… vou dar um jeito naquele cadete.

Foi fabuloso de assistir.

Ela marchou na direção deles como uma general — ou talvez uma deusa da guerra — e parou bem diante do garoto que eu havia notado. Ele claramente acabara de assumir posição. O elmo estava torto, um passo adiantado demais, e o rapaz suava como se estivesse prestes a enfrentar um dragão vermelho. O Monsenhor teria uma síncope ao vê-lo.

— Cadete, apresente suas armas!

Ele melhorou um pouco. Estendeu a lança cerimonial com firmeza aceitável. Ainda assim, havia algo estranho: os outros jovens da fileira pareciam conter um sorriso. Havia um ar de zombaria no ar. Eu estava perdendo alguma coisa.

— Cadete — continuou a capitã — o Capitão Khao concedeu sua licença de uma semana, conforme programado?

— Sim, senhora! — respondeu ele, seco e marcial.

Àquela percebeu o murmúrio contido ao redor. Vi surgir em seus lábios um pequeno sorriso — o tipo de sorriso de quem aprecia um certo… exercício de autoridade.

— Então você vai nos acompanhar na saída da cidade e depois seguirá para a casa de sua família. Estou errada?

— Sim… Não! Digo, não senhora!

O pobre diabo estava completamente perdido.

— Então vai ser meu escudeiro nesta viagem. Vai guiar meu cavalo ao lado da carruagem… e vai defender a convidada com a sua vida. Entendeu?

— Sim, senhora!

— Gosto de como você me chama de “senhora”, cadete.

Ela parecia crescer diante da formação inteira.

— Mas quando estiver oficialmente de licença… vai me chamar de "mamãe".

A fileira inteira quebrou. Risos sufocados escaparam apesar de todos os esforços heroicos de disciplina. Sem sucesso.

Tenho quase certeza de que o cadete sete encolheu uns dez centímetros de pura vergonha.

- Que tal isso? - Àquela fala. - Domínio, autoridade...

- Fabulosos... - Eu aplaudo simbolicamente. - Mas não sabia que você era "dessas".

- "Dessas"?!?

- O "Cadete mamãe" tem idade para ser seu filho... - Eu comento. - É legal aqui em Shén-li? Devo comunicar alguém?

Eu vejo Lady Àquela, A Arqueira Lendária, a campeã do Levante de Lord Blunt, ficar vermelha como as escamas de Pyrros.

- Pelo amor de Aetíades, não é isso!!! - ela urra. - O que você pensa de... BENTHO! O Cadete Mamã... O Cadete Sete é meu filho! Digo, de sangue, vida real! Acabou de entrar na guarda! Sentido Bentho!

Os colegas de Bentho, bem como alguns mais veteranos se caem de rir. Cadete Sete para o que estava fazendo e posta-se em posição de sentido. Acho que herdou muito mais do pai, mas percebo a simpatia materna nele.

- Isso explica... - eu provoco. - Vou ficar de olho no "Cadete Mamãe" para você, milady.

---

Oficialmente, eu estava em Shén-li para ajudar na tal “chancelaria da fronteira”.

Com o Império de Caruthers reduzido a cinzas, reinos novos estavam surgindo por toda parte. O Conselho Regente queria transformar antigas “Terras Selvagens” em parceiros — e a Igreja da Perseverança, recém-fundada por Monsenhor Capri, era uma dessas pontes.

Eu mesma tinha ajudado a organizar a Igreja. Divulgar a palavra de Cartallas, negociar com nobres hostis, resolver problemas deixados pela Era do Fogo Frio… até convencer Lady Ydal a tolerar nossa presença em suas terras. Era o tipo de currículo que fazia diplomatas suspirarem.

Então me mandaram treinar Lady Àquela.

A Arqueira Lendária era a face perfeita da Nova Guarda — respeitada, admirada, quase impossível de odiar. Se alguém poderia abrir as portas de Shén-li para o resto do continente, era ela. Mas um velho senhor feudal de Yoriki não se impressiona com uma flecha oportuna no Senhor da Escuridão.

Esse era o motivo oficial.

O motivo real era outro.

O Conselho Regente não confiava totalmente na Nova Guarda. Encontros estranhos, rumores, pequenas inconsistências. Nada concreto — mas suficiente para levantar sobrancelhas.

Então me enviaram para observar.

Uma missão dentro da missão.

... E olha que eles nem imaginavam que eu já sabia sobre Estebán.

---

Eu janto toda a noite com Lady Àquela e sua família. Ela é bondade pura no coração... Este reino não merece alguém como ela. Bentho, o "Cadete mamãe", é extremamente empolgado, mas está intimidado por eu estar aqui. Guarda tudo o que está pensando por causa da "estranha"... Exceto uma coisa:

 O quão desconfortável é seu pai.

 Estebán é um "arquivista", como eu.. Ironia. Seu comportamento é o típico calado, sisudo, sempre ocupado. Chega tarde para as refeições e sai antes de todos. Para um garoto de... Chutaria 15 anos... Ele queria alguém ativo e másculo, como aquele brutamontes do Capitão Khao. Pobre coitado... Bem, cabe à família, não a mim, mostrar como ele estava errado.

Manhãs: nossas aulas são Couture e Poise. Pausa, retoma com Diálogo. Um pouco de etiqueta feminina... para salões chauvinistas. À tarde, debate e Oratória para salões não tão chauvinistas. Ela precisava saber impor Shén-li. Era difícil. Ela é amável e buscava aceitar os outros... Precisaria tirar isso dela também.

Mas o período seguinte, a tarde começava com... Actour

Roleplay.

Ela precisa COMPRAR o que vende. Não só repetir "bem-vindos a Shén-li, o Coração do raio-que-o-parta"! Precisava entrar na Personagem. Ser alguém que olha o abismo e manda cair dentro.

— Cena! — anuncio, batendo palmas uma vez. — Você recebe dignitários estrangeiros. Todos octogenários. E todos parecem mais interessados nas suas pernocas do que no tratado de cooperação que você deveria apresentar… o qual você mal compreende.

Àquela pisca, pega de surpresa.

— T-tem algum palanque? — pergunta. — Algo para me esconder? Ficar só da cintura para cima?

Inclino a cabeça.

— Você tem certeza que quer fazer isso?

Não era exatamente um desafio. Era uma escolha. Usar as pernas como arma… ou removê-las da equação. Não havia resposta errada, exceto se tomasse e se arrependesse.

Ela pensa demais.

— Eu consigo…

— Fale como o personagem! — corto imediatamente. — Nada de general pensando antes da batalha.

Ela se enrijece.

Então bato palmas de novo.

— Evento aleatório! — anuncio. — Alerta de intrusos. Gritos de batalha. O palácio está sendo invadido. Já estão no corredor.

Àquela não hesita dessa vez.

— Eu pego o palanque e arrasto para bloquear as portas!

Ah, aí está.

— Você consegue. Fácil — digo. — A porta está lacrada. Mas os dignitários… velhos, frágeis… estão em pânico.

Ela vacila outra vez.

— Mas… acalmar os dignitários é o correto? Instinto de preservação…

Perdi ela de novo.

Empurro uma cadeira simples para o centro da sala.

— Nova sidequest. Sua missão agora é mantê-los vivos. Suba e faça um discurso.

Ela encara a cadeira.

— Para acalmá-los? Prepará-los?

Balanço a cabeça.

Escolher é parte do jogo.

Ela ainda está pensando quando—

Então, "Clang".

Um escudo de enfeite no corredor é derrubado ruidosamente, anunciando um espião. Àquela fecha o cenho.

- Apareça, Bentho! - ela fala impaciente.

 Eu demorei a lembrar, mas de repente, lá estava o Cadete Mamãe.

- E-Eu ouvi gritos... - ele tenta justificar.

- Eu estou ocupada com aulas.

- de quê? - ele pergunta.

A Arqueira Lendária, campeã de batalhas, heroína do Levante… parece subitamente uma estudante pega colando.

— De… — ela começa.

Pausa.

— Ópera!

"Opera"? devo ter levantado uma sobrancelha.

- Eh, faz sentido... - Bentho assente com uma seriedade impressionante. - Me perdoe por...

— "Cadete mamãe" — digo rapidamente — poderia ficar um momento?

- Tem... Certeza, Senhorita Amellie? - havia censura no olhar dela. Ela não queria expor tanto suas fragilidades, ou do seu governo? 

- Você não vai poder sempre escolher a... "Audiência da ópera". - Por que em nome de Bophades ela escolheu "ópera"? - Você está envergonhada com o julgamento dele? Ótimo! Temos que quebrar sua vergonha! até onde ouviu, Cadete mamãe? envergonhe a Dama do Arco!

- Bem... - ele introduz até onde ouviu. - Na sua música, invasores estavam no portão. Precisa lidar com alguns homens indecorosos ou ...

- Bom, vá até aquela cadeira, e tome o lugar de sua mamãe...

Ele obedece, duro como se soubesse que ia receber uma reprimenda quando eu saísse. Vejo as safiras nos olhos de Àquela brilharem com reprovação silenciosa.

— Então, cadete — digo —, o que faria?

— Quantos deles podem lutar? — ele pergunta.

— Nenhum. — respondo. — Todos são velhos.

Ele franze o cenho.

— Mas a vida deles está em risco!

— Bentho… — murmura Àquela.

— É o cenário — respondo. — Velhos amedrontados. Proteja-os.

Ele sobe na cadeira.

— Não!

Silêncio.

— Eu… não sei que discurso faria… — diz ele. — Mas eles deveriam lutar! Eu daria minha vida por eles… mas não aceito que eles nem tentem!

Ele olha ao redor, procurando algo.

— Eles deveriam pegar pedras! Paus! Ou—

CRACK

Ele pisa na cadeira.

A cadeira quebra.

Bentho segura uma das pernas como se fosse um cacetete.

— Ou ISSO!

Silêncio absoluto.

O garoto percebe, de repente, o que fez.

— E-eu… desculpe… — começa a tentar remontar a cadeira.

— Você ia distribuir pernas de cadeira para os velhos imaginários? — pergunto, séria.

— Mãe, senhorita Amellie, eu—

Eu o abraço.

O pobre coitado não sabe o que fazer com as mãos.

— Cadete mamãe… você comprou a ideia!

- O ... O que?!? - Àquela olha, num misto de assombro... e inveja.

— Imaginação — declaro. — Esse é o combustível. Você acredita no cenário… e todos acreditam com você. Cadete Mamãe... Aceitaria ser meu segundo aluno de... Eh... Ópera? Sua mãe precisa de um parceiro, e eu de uma musa!

Continua