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11 de setembro de 2026

EDGELORD - Cap. IV - Arco da Perseverança

 [Entre quatro e cinco anos atrás...]

O Monsenhor Capri Mordman, um dos homens mais poderosos daquelas terras, abriu os portões duplos de carvalho com um baque furioso.

— Eu nunca quis tanto SOCAR uma MULHER antes! — ele urrou, a voz ressoando pelas vigas do teto. O seu poderoso punho cerrado como se pudesse comprimir um carvão em diamante.

Eu corri atrás dele, tentando fechar as portas atrás de nós o mais rápido possível para que ninguém nos corredores ouvisse o surto de cólera do meu amigo.

— Fale baixo! — pedi, num sussurro desesperado. — E não, você não vai socar a Lady Ydal Bearlord!

— Tem razão... Seria rápido demais! — Ele se largou numa poltrona de couro na antecâmera cedida a nossa igreja em Bearlord, bufando e gesticulando. — Vou esganar... Apertar aquele pescocinho de franga. Não com toda a minha força, só o suficiente para ela definhar enquanto eu assisto!

— Capri, ela só tem essas provocações soltas agora! — Eu suava frio, tentando impedir que aqueles ataques de fúria ficassem à vista da nobreza local. — Você viu a carta que o capião Jackie mandou de Portos Dourados. O Triunvirato está com você. A Ydal não tem como deter a expansão da Igreja agora!

— Olhe só... — Ele começou a rir, uma risada amarga que misturava fúria, ironia e consternação. Ele apontou para uma jarra de cristal transparente sobre a mesa, contendo um líquido vermelho-vivo. — Ela mandou uma JARRA de VINHO para nós! Isso é provocação direta!

— É mera cortesia diplomática! — tentei defender.

— Você tem quatorze anos, e eu sou amaldiçoado por Ênya! — ele observou, encarando o recipiente com desprezo. — É para provocar!

— E... E se for só um suco de fruta? Um ponche?

Eu mesma não acreditava no que estava dizendo, mas Capri parecia insultado pela simples insinuação.

Ele estendeu o dedo indicador e tocou na superfície do líquido. Nem precisou olhar para saber o resultado. Quase instantaneamente, a cor avermelhada desvaneceu, e o conteúdo se converteu em água cristalina.

— Obrigado, Ênya! Sua vaca! — ele resmungou para o teto. — Estou dizendo... Nós temos mais homens que a Marquesa. E os nossos homens são melhores que os dela! Os poucos que restam a ela são, em boa parte, devotos de Cartallas. Eu deveria simplesmente terraplanar aquele castelo com aquela franga dentro!

— Ótimo! — resmunguei, cruzando os braços e elevando a voz para iguala-lo. — E depois, tome Portos Dourados também! E por que parar lá? Shén-Li está além das montanhas! Crie você mesmo um império ao seu redor!

Eu me esgueirei por trás da poltrona dele e sussurrei, na altura de seu ouvido:

— Você me aleijaria e me colocaria numa cadeira de rodas também?

Capri se levantou num pulo, atordoado, como se tivesse levado um tapa.

— Não foi legal, Amellie! — protestou ele, ajustando a túnica.

— Eu sei... Pesado demais — me desculpei na hora. — Sinto muito. Mas quando você fica furioso, só o absurdo consegue entrar nessa sua cachola!

Ele respirou fundo, soltando o ar devagar até os ombros relaxarem.

— Certo. Vou me comportar — aceitou, por fim. — Obrigado... Agora... tem certeza que não quer vir comigo?

Eu hesitei.

— É meio mórbido demais... — usei como desculpa.

— É o cadáver do Menestrel Yawe Cyrak! — ele insistiu. — O meu batalhão morreu para colocá-lo naquele esquife!

Precisei de um esforço colossal de concentração para não reagir como a minha memória antiga exigia àquela observação.

— Você... Pode me dizer como era... o verdadeiro Marquês de Bearlord? — perguntei, mudando de assunto. — Você sempre dizia que odiava o homem... e tudo o que ele fez com você, com seus companheiros e com o seu povo...

Capri não pareceu abalado apesar da sensibilidade que aquele assunto deveria ter.

— Não leve a sério o meu discurso de "cutucar a carrapeta do demônio" — ele falou com certa leveza. — Sim, todo soldado tem suas rusgas com o superior. Mas isso não significa que não o respeitávamos. Ao menos em um exército saudável, isso é o normal.

— Mas ele ordenou que a sua companhia atacasse o exército bárbaro do Cyrak — observei. — Só você sobreviveu, e por pura sorte!

— O homem tinha uma visão, um ângulo estratégico — Capri comentou, olhando para a janela. — Não podemos julgar o passado apenas pelo que sabemos hoje. Ele ganhou a guerra a um preço alto, e isso lhe pesou pelo resto de seus anos. A cura vem com o presente e o futuro, não com o que não pode mudar. Eu sou a prova disso. Fui curado por Cardullion e hoje posso ajudar outros a se curarem.

Ele caminhou até o batente da porta dupla e se deteve por um segundo. Então, trancou a porta ficando dentro do cômodo.

— Então, talvez você esteja certa... — concluiu por fim. — Cutucar uma ferida antiga indo prestigiar o corpo exposto de um inimigo morto não seria saudável. E não vamos desperdiçar essa caríssima jarra de água pura que a Marquesa nos mandou, não é?

— Podemos beber em taças — comentei, rindo fraco.


[O PRESENTE]


A Igreja da Perseverança já era uma das três maiores religiões do continente. E olha que sua consolidação tinha pouco menos de cinco anos.

Quando penso nisso, lembro o quanto Amellie é foda.

E ela está na minha "companhia maligna". Fingindo que eu sou o chefe...

Xitarro, por sua vez, tinha sido previsto para se tornar o Exemplar dos Monges. Pau-a-pau com Lord Blunt, Menestrel Cyrak, Arquimago Myrlen, Fausto Katzophlis de Meliny...

Eu achei que tinha recebido um power boost desde os Piratas Solares. ~Ainda~ sou o menos impressionante da Ledgyão.

— Cara... a gente passou pela Igreja quando chegou e nem viu! — comento percebendo após a indicação que era um prédio grande de alvenaria bem na entrada da cidade, mas parecia tudo, menos um templo.

Estou arrastando, junto com Xitarro, um mendigo malcheiroso que pesa algo próximo de meia tonelada.

— Eu achei que era uma fortaleza quando passamos, ou um estábulo. — Xitarro responde. — Talvez até fosse o castelo que a senhorita Amellie ia visitar a viúva ber-sei-la-o-quê.

Você disse... — O bêbado começa a falar. — Amellie foi ver Bearlord?

— Sim, a gente fala um nome, você diz "você disse" e repete a última coisa que a gente falou! — dou um esporro. — É feio escutar a conversa dos outros, sabia?

— B-Bentho? — Xitarro me cutuca.

— Tá... tá... desculpa, tiozinho. — Respiro fundo, dando um tapa amigável no mendigo. — As últimas horas foram meio estressantes para mim. Não deveria descontar em você. Entre a armadura de Lord Blunt que eu destruí e...

— [Corvos de Morval.] — Gladys interrompe meus pensamentos. Eu paro.

— Como é?

— [Corvos de Morval.]

— A gente está do outro lado do continente em relação a Huo-fen! Se sobrou alguém sequer em em Hálcora, não é...

— Só... olha para a frente, Bentho — Xitarro insiste.

Olho.

Ah.

Déjà vu.



___

Eu lembro que tinha todo um plano na cabeça na primeira vez que vim a Bearlord ao lado de Capri. Iria desgarrar da comitiva da Igreja. Esgueirar-me até o mausoléu, roubar de volta os melhores itens e levar um cacho de cabelos. Aquilo poderia ser a solução para o meu corpo original...

... Mas tive medo.

Eu podia dar a justificativa que quisesse — que precisaria abandonar a Igreja, que seria perseguida — mas a verdade era mais simples: foi um medo primitivo de encarar meu antigo corpo morto. Algo que teria de fazer agora, se quizesse ter uma audiência com Ydal.

Glen Bearlord queria o duelo. Acho que foi exatamente por isso que Cyrak o recusou, mesmo sabendo que venceria com pouca dificuldade. Quando o Marquês finalmente alcançou o acampamento principal dos bárbaros, Cyrak já estava morto... e eu "renascia" em um solar em Yalatanil.

Glen Bearlord se certificou de que o cadáver era genuíno; afinal, tinha todos os motivos do mundo para suspeitar de algum truque do Menestrel. Depois, restaurou o corpo a uma forma apresentável, o lacrou num esquife com seus itens pessoais e prestou os devidos ritos ao inimigo... Uma dignidade que, ironicamente, a própria esposa viria a lhe negar.

Mesmo com a Marca falida pela guerra e por suas consequências, Bearlord ergueu o mausoléu original para expor o corpo de Cyrak, além da estátua em homenagem à Infantaria da Montanha, sacrificada em nome da vitória. Ele investiu tudo para reanimar a moral de suas forças e, mais tarde, viu-se forçado a aceitar contratos mercenários em lugares como Portos Dourados para tentar se reerguer. Foi em uma dessas campanhas — na Guerra de Kazu Marzu contra os goblins — que Glen Bearlord encontrou seu fim.

Capri já não era mais um soldado de Bearlord na época, mas estava lá. Ainda não era o líder da Igreja, mas providenciou os primeiros arranjos para comunicar a Marquesa... E só agora eu descobria que aqueles tinham sido os únicos.

— Tamar, posso conversar um pouco com você?

— Claro, senhorita.

O chefe da guarda destoava completamente dos poucos guardas maltrapilhos que eu via enquanto era conduzida pelas áreas satélites do castelo. Não era apenas o equipamento bem-cuidado, mas a postura. Ele dissera que fora da Igreja; provavelmente tinha treinamento de cavaleiro e um senso de justiça que o lugar há muito esquecera.

— Como está o ânimo geral da fortaleza?

Tamar hesitou, ajustando a braçadeira de couro.

— Melhorou nos últimos anos — comentou, com a voz baixa. — Não há mais protestos populares nas portas por conta dos saques nas estradas, embora os habitantes mais tradicionalistas ainda reclamem do retorno dos bárbaros. Mas...

— ... Mas esses eventos são consequência da presença do Capítulo de Cardullion e seus cavaleiros andantes, não da administração da Marquesa — completei.

— Acredito que a Marquesa seja grata ao Monsenhor... — disse ele, medindo as palavras. — Graças a isso, podemos nos dedicar a outras atividades de que a região necessita.

— Conseguiu atrair companhias mineradoras? Exploradores? Geógrafos?

— Milady, eu... prefiro não...

— ... Não difamar a inaptitude de sua mestra? Como diria meu atual empregador: "Justo"... — interrompi com suavidade. — Eu entendo e não o culpo. E eu ficaria muito satisfeita em ter um defensor do seu calibre, e com a sua lealdade.

Eu olhei diretamente nos olhos dele.

... E senti que ele entendeu.

Entendeu que havia uma fagulha ali. Algo perigoso, silencioso e indispensável... algo que precisaria ser feito muito em breve.

___

Cinco homens estavam no caminho. Pareciam particularmente ameaçadores, talhados para a violência e prontos para ela. Não meros "posers"... 

— Okay... vocês são um pouco grandes para ladrões — observo. — E nem nos cercaram ainda. Temos corredor livre atrás de nós!

O homem que parecia ser o chefe sorri.

— Oh, vá em frente. Tentem correr. — Ele abre os braços. — Adoramos uma perseguição!

Okey, ele parecia falar sério...  e eu acho que vou roubar essa fala. Ficou muito maneira.

— Somos as Cinco Máscaras de Don-o-Ron! — Um ao lado dele comenta. 

— Você disse Don-o-Ron?! — Xitarro arregala os olhos. 

— Você também vai começar com isso de "você disse seilaoque"? — Resmungo com o monge.

— Bentho... Don-o-Ron é o "meu guaxinim" — Ele me lembra. — Aquele que você e Amellie acham que eu inventei! 

O líder se aproxima.

— Você deve ser Xitarro, o catfolk que concluiu a Era do Fogo Frio libertando nosso novo senhor.

Caramba.

A maluquice da história de Xitarro era real?

Ou pelo menos os ladrões cara-pintada acreditavam...

— Bem, senhores "Cinco Máscaras"... — largo o mendigo nas mãos de Xitarro. — Primeiro: excelente nome. dedicação ao tema...

Olho para as máscaras.

— E essas máscaras de guaxinim são tatuagens permanentes?

Um dos homens no fundo se arrepia.

— Você é louco?! É pintura lavável, claro! Temos vida fora da Guilda!

— Vocês ... Vocês são infinitamente melhores nisso do que meu último encontro com uma "guilda de ladrões", devo dizer. — Cruzo os braços, admirado. — Até usam espadas de verdade, e não tonfas!

— O que seria "tonfas"? — pergunta outro. Vou chamá-lo de *Máscara nº 3*.

— É uma arma idiota... — Esfrego as sobrancelhas. — Como eu descrevo para vocês... Bem pensem em...

— Bentho, eu tenho uma aqui. — Xitarro senta o cachaceiro atrás de um barril e abre a sacola.

— O... POR QUE você guardou uma dessas coisas?

— Lembrança de nossa primeira aventura junto em Hálcora! — O monge comenta. Ele saca a tonfa e joga para *Máscara nº 1*. O homem pega o objeto no ar com competência.

Olha para o cabo longo.

Olha para o cabo curto transversal.

Vira a arma de cabeça para baixo.

— Tipo... — ele começa. — É um martelinho de madeira? Precisa mirar a pecinha na testa de alguém?

— Não. — Respondo. — Eles seguram pelo cabo menor e giram o maior em grip invertido. Ou usam no antebraço como um escudo.

Os cinco se entreolham.

Silêncio.

— Mas... isso é imbecil.

Obrigado! — eu e Xitarro agradecemos em uníssono.

*Máscara nº 1* joga de volta a arma.

— Podem ficar com essas "fonfas". — Ele aponta para nossas mochilas. — Mas deixem todo o resto.

— Ah, cara... achei que a gente estava se dando bem.

— E estamos, vocês são divertidos! — diz a *Máscara nº 4*. — Mas negócios são negócios.

— Só me dá um segundinho para falar com meu associado? — Levanto um dedo. Não espero resposta.

___





Eu... estava... horrorizada.

Não cheguei a entrar no "meu" mausoléu à época em que vim com Capri, mas imaginava um prédio cerimonioso e respeitável. Grande, até. Mas o que encontrei agora... era a porcaria de um **SALÃO DE BAILE!**

Ouvia-se uma lira arranhada por uma senhora de talentos medianos bem na entrada. Os soldados dali usavam camisões em vez de uniformes e armaduras — pareciam garçons improvisados, não guardiões!

E o chão... assoalho de madeira nobre! Ela devia ter trazido do Distante Norte ou de Shén-Li. O fluxo de moedas de impostos claramente melhorara desde que a Cavalaria estabilizara a região, mas gastar aquilo num salão suntuoso e profano era simplesmente obsceno.

E lá estava a peça principal.

Não num altar reservado, mas no centro do salão como uma mesa de frios, imediatamente abaixo de um "trono" singular.

O cadáver do Menestrel Cyrak. Em um esquife de cristal.


— A escriba da Igreja... — disse Ydal, com um sorriso refinado que não chegava aos olhos para não provocar pés de galinha. — Como o tempo voa. A juventude tem esse hábito vulgar de parecer radiante sem precisar de esforço, não é? Aproveite cada segundo, Amellie... a decadência é uma cliente muito pontual para quem não tem onde investir.

— Minha senhora... — respondi, engolindo o empenho. — Acho que... evitei por tempo demais ver este esquife...

— Já ouviu falar das "viúvas de Cyrak"? — ela perguntou.

Após o encontro com Morgan, eu não me surpreenderia se Ydal já soubesse da verdade... mas não, era pura vaidade aristocrática.

— Elas são tão famosas quanto o próprio menestrel — pontuei.

— Todas falsas! — retrucou Ydal, abanando-se com o leque e expondo um decote desnecessariamente generoso em seu vestido azul. — Pois ele só morreu por uma! Não concorda? Só uma, sua última amante em vida, poderia clamar esse título.

— Minha senhora... — segurei o fôlego. — Devo dizer... vocês dois se mereciam.

— Pena que só o conheci quando já estava comprometida com meu pobre Glen... — ela começou, dedilhando o vidro com unhas pintadas.

— A senhora não me entendeu — eu a interrompi, sem sequer elevar a voz. — Poucos conhecem Cyrak como eu. Eu achava que ele era o ser vivo mais egoísta que os Deuses Antigos já haviam colocado nestas terras... Mas vejo que ele era apenas o segundo.

— Segundo? — Ela franziu o cenho.

Troquei um olhar rápido com Tamar.

— A injustiça é que, se a senhora não estivesse comprometida com Glen Bearlord, Cyrak jamais daria atenção a você... — complementei. — O que é uma pena. Eu imagino vocês dois como um glorioso e poderoso casal, fazendo a vida um do outro miserável *ad eternum*.

Ela começou a fechar a cara, dando os primeiros sinais de ofensa. Finalmente ela falava a mesma língua que eu! Eu estava a segundos de apenas dizer que ela era "feia e boba".

— A jovenzinha já foi mais educada no passado...

— A senhora quer ver um truque de mágica? - eu cortei com um ar inocente.

Ela arqueou as sobrancelhas, quase desprendendo um dos cílios postiços.

— Bem... poderia compensar essa sua língua ferina com algo assim.

— A senhora jamais abriu este esquife, nem o danificou, eu suponho? — perguntei.

— Ele é hermeticamente selado em cristal — a dama concordou. — Passei horas sobre ele no dia em que chegou. Conheço cada centímetro desta peça como conheço meu próprio corpo.

— Alguma vez tirou o anel da mão esquerda dele?

Ela se debruçou para olhar. Irônico para alguém que "conhecia cada centímetro" precisar conferir.

— É um anel mágico. Com uma carga da magia *Despedaçar* — expliquei. — Desde que o bruxo Morro, décimo Segundo portador da Gladius Aeternum, morreu por não conseguir atravessar uma claraboia no palácio da Rainha dos Malditos, Cyrak usava esse anel em vez de confiar no próprio corpo contra vidro temperado. Ele fugiu do seu marido usando esse truque, se não me engano, quando foram flagrados na primeira vez.

— Eu admito que não percebi... — ela se afastou, desconfiada. — Mas não calunie um evento sem saber ...

Ela achava que eu não tinha visto o sinal discreto que dera. Os "guardas-garçons" estavam se aproximando devagar... Mas o meu plano só funcionaria com eles a três metros de distância de mim, dou-lhe o tempo.

— Pois bem... — concluí. — Aprendi um truque na Montanha Morta...

Espalmei minhas mãos. Direita sobre a esquerda. Girei as palmas, invertendo a posição num movimento invisível aos olhos destreinados.

*Truque de Mãos*.

O anel de *Despedaçar* do Menestrel Cyrak já estava brilhando no meu próprio dedo. Ela constata um pouco atrasada, que não estava mais na mão do cadáver selado.

— GUARDAS! — ela urrou. — UMA LADRA!

Sempre havia ao menos uma carga guardada nesses anéis de loot.

Bati a mão com o anel contra o esquife de cristal e acionei o encanto.

Uma esfera trovejante explodiu ao meu redor. Ydal e seus guardinhas foram projetados para trás, com estilhaços de cristal cortando-lhes a pele e o ar. Sofri eu mesma um baque secundário pela onda de choque, mas permaneci de pé, firme no coração daquela explosão.

O esquife evaporara em mil pedaços.

Eu estava, finalmente, diante do meu antigo corpo.

— TAMAR! GUARDAS! — urrava a Marquesa no chão. — TODOS AQUI, AGORA!

Peguei o punhal na cintura do cadáver. A arma de apoio.

— Olá, *Dançarina*...

Sussurrei o comando. A adaga de prata saltou da bainha e voou em disparada até a entrada do salão, girando no ar contra qualquer um que se aproximasse. Os primeiros reforços que tentaram atender ao chamado foram pegos totalmente de surpresa. Não era um ataque mortal, mas, sem preparo, eles ficaram rendidos e acuados na alcova de acesso por preciosos segundos.

Passei a "saquear" a minha própria carcaça.

O chapéu emplumado — mestre em disfarces e ilusões.

Meu sabre... tantas lembranças, tantos duelos.

As botas de couro fino — precisaria vesti-las mais tarde...

O Anel de Estocagem. A pulseira com pó do sono.

E o principal prêmio... o Alaúde de Mogno atingido pelo trovão de Khyrator. Aquele cujas notas uma vez levaram a Velha Etiópia às lágrimas...

Um único acorde no instrumento original... e minha magia era maximizada.

Um grupo reservista vinha acelerando pela entrada dos fundos. Canalizei o *Padrão Hipnótico* através do alaúde. Uma luz espiralada tomou o corredor e todo aquele flanco paralisou em desespero, preso em ilusões escabrosas.

Os guardas-garçons originais recuperaram-se do ataque trovejante e avançaram sobre mim...

... Mas o Chefe Tamar interveio. Espada longa em punho, desarmando-os e brandindo a lâmina com a maestria de um veterano de guerra.

— O que você PENSA que está FAZENDO, TAMAR?!? — protestou a Marquesa, atônita.

Não sei, madame! — ele retrucou, chutando um dos seus ex-subordinados ao chão. — Pode ser loucura provisória, pode ser um encantamento contra meu melhor julgamento... — Um soldado tentou passar por ele para me alcançar, mas Tamar o deteve com um golpe de ombro violento que o fez capotar de costas. — ... Ou eu posso estar simplesmente retomando as rédeas das minhas convicções!

A Marquesa tentou correr em direção à saída... mas eu cortei sua rota.

Ou melhor, uma imagem ilusória minha cortou.

Ydal viu-se subitamente cercada. Quatro de mim, idênticas e sorridentes, bloqueavam cada saída.

Forcei-a a recuar passo a passo, até que ela tropeçou e caiu sentada em seu próprio "trono".



— V-você não pode ser a mesma Amellie com quem tratei por tantos anos! — gaguejou ela, encarando as ilusões. — V-você é uma impostora desbocada... uma ladra desprezível!

— Você está certa... — Aproximei-me, debruçando meu rosto a centímetros do dela. — Eu sou a Condessa do Crime, Janete Quá...

Ydal fechou os olhos e cobriu o rosto, encolhendo-se como se fosse receber um tapa.

Apenas me levantei, rindo fraco. Quem eu não havia derrubado, Tamar já tinha nocauteado no chão do salão. O capitão cobria meu recuo, e me acompanhava.

— E, segundo Cyrak... — pontuei, ajeitando o chapéu emplumado enquanto caminhava para fora do mausoléu. — Você *ronca*!

___

Recuo até Xitarro e o bêbado semiconsciente.

— Okey, estamos carregados de gemas para o Portal da Igreja... — Eu relembro. — Então, sermos assaltados não é uma opção para restaurar a Virgilia Sombria. 

Não vou nem falar nada... - "gorfa" o mendigo bêbado.

— Bentho... — Xitarro fala baixo. — É idêntico a Hálcora, quando fomos emboscados pelos Corvos.

— Bem... não tanto.

— Você estava sem poder usar a armadura. — Ele olha para os homens. — Estava tentando me proteger...

— Neste caso, eu quero poupar o mendigão ali. — Aponto para o bêbado. E ele parece estar tentando se levantar... melhor que os mascarados o ignorasse...

— Eu posso com eles. — Xitarro fecha os punhos. — Eu assumo a dianteira. Você me cobre com os raios da espada.

— Sei não. — Observo as Cinco Máscaras. — Eles obviamente são melhores que os Corvos tem até espadas de verdade!

— E eu fiquei mais forte desde Hálcora! — Ele dá um passo à frente. — Você disse que eu devia ser o rival do Capitão Khao, mas não me deixa pegar uns bandidos?

Você disse Khao? — resmunga o mendigo. 

Olho para ele censurando.

Desculpe. — ele acena, e volta a nos ignorar.

Volto meu olhar para as Cinco Máscaras. Realmente poderíamos correr, deixando o manguaçeiro para trás. Xitarro com certeza conseguiria despistá-los. Eu, talvez.

Mas carregando aquela massa de músculos e cerveja seria impossível. Seria falta de honra deixá-lo para trás. E também pegaria mal o futuro Senhor do Sombrio ser expulso de mais uma cidade.

— Vou tentar o que fiz com os lobos — digo enfim. — Intimidar eles.

— Melhor não... — Xitarro insiste.

Melhor não... — o bêbado concorda, acho.

— [Comigo, são três votos.] — Gladys sussurra na minha mente.

Olho para os três.

— Okay, Ledgyão... — Aponto para Xitarro. Depois para o bêbado. — ...e Agregado.

O cachaceiro ergue uma sobrancelha.

— Sugestão anotada. Mas vou tomar uma decisão executiva agora.

E começo a andar na direção das Cinco Máscaras.

— Eu sou Bentho, principal servo de Lord Edgy, o Herdeiro da Escuridão, e portador do arsenal de Lord Blunt. Portanto, pensem muito bem antes de decidir se realmente querem descobrir o que acontece quando alguém desafia o homem que carrega o poder de dois dos maiores nomes do Sombrio. Podemos fazer negócios no futuro, mas não com vocês faltando pedaços! Estamos entendidos?!

Devo ter falado muito maneiro... porque os cinco começaram a ficar brancos.

Xitarro colou nas minhas costas, gaguejando.

Será que eu intimidei ele também?

— EU PERGUNTEI!

Eu estava na crista da onda. Materializei Gladius Aeternum na minha mão e gritei:

— ESTAMOS ENTENDIDOS?!




— P-perdão, mo-mo-mo-senhor... — Máscara 1 respondeu. Acho que ele quis dizer “meu senhor”. — Não o reconhecemos.

Ele guardou as espadas. Os demais ou as atiraram fora ou simplesmente correram para longe.

Hmm... minha lenda já chegou até aqui?

— Como eu disse... — dou de ombros. — todos cometem erro e ...

— Vamos voltar para o Assentamento Ymosso. — ele fala, enfim, abaforado. — Não vamos voltar ao povoado. Prometemos!

— Ei! — resmungo. — Não é para tanto! Eu estava pensando em fazermos uma alian...

**BAQUE.**

Só ouvi um som pesado atrás de mim, comparável à avalanche da Montanha Morta.

Em algum momento, o velho bêbado tinha se levantado atrás de mim, enquanto eu intimidava as Máscaras. Ficou de pé por alguns segundos, cambaleando, até despencar pesadamente para trás.

E agora estava roncando.

— Pôrra, Xitarro! — resmungo. — Eu estava ocupado... por que não pegou ele?!

— B-Bentho... — o cara ainda estava abalado. Devo diminuir minha aura na próxima vez.

— Ele poderia ter se machucado... ou machucado algo menor, como... uma casa! — resmungo. — Bora indo. Estamos quase lá. E, dormindo, ele enche o saco menos.

— [Ah, isso vai ser divertido...]

— O quê, Gladys?

— [Te conto depois.]

3 de setembro de 2026

O EPISÓDIO PERDIDO e o fim secreto de Cavaleiros '80

 O Episódio Perdido de Cavaleiros ’80 — e os Planos Secretos para a Terceira Temporada



Existem campanhas que terminam com um grande final.


E existem aquelas que simplesmente... param.


A Saga Cavaleiros ’80 pertence à segunda categoria.

Durante anos, alguns dos maiores mistérios da campanha ficaram enterrados nos arquivos conceituais do Mestre: anotações, ideias de episódios, batalhas que nunca aconteceram e, principalmente, uma terceira temporada que chegou a ser planejada — mas jamais chegou às mesas.

Hoje, graças aos fragmentos preservados nos arquivos, podemos finalmente reconstruir aquilo que poderia ter sido.

E tudo começa com ALF.

EDGELORD - Cap. III - Arco da Perseverança


Bem-vindos ao Povoado de Bearlord.

A minha raiva só aumenta.

Passamos pelo trecho em que minha corda se partiu e, coisa de três horas depois, a escalada se torna absurdamente fácil. Depois encontramos uma trilha que levava diretamente ao castelo de Bearlord.

Foi quando Amellie se separou da gente.

Eu sou uma toupeira.

Nada disso precisaria ter acontecido.

— Eu estou vendo umas casas... — Xitarro fala enfim.

Eu meio que "acordo".

Estava acostumado às cidades muradas de Shén-li. Muralhas sobre muralhas, torres, portões, bairros inteiros protegidos como se alguém pudesse simplesmente aparecer do horizonte e decidir invadir.
Mas aquele povoado jogado ao sopé de um platô maior — que devia abrigar o palácio do marquês — era tudo o que compunha Bearlord. O "CEP" da região, por assim dizer.

— Bem... "caótico" — observo, olhando as ruas tortas e sem estrutura planejada, calçamento irregular de pedras redondas. Haviam um "centro" com prédios mais altos e alguns becos, como se aquela "cidade" tivesse história: Um tempo em que era próspero, e um tempo que largou a mão do controle e seu crescimento se tornou irregular, ainda assim um ar de vazio.

— Sei não... Na Ilha dos Gatos é assim também. — Xitarro informa, pisando no calçamento pela primeira vez desde a escarpa.

— "Ilha dos Gatos" é de onde você vem?

— Sim.

— Não tem outro nome? — Eu coço a cabeça confuso.

— Não.

— E quem vocês cultuam lá?

— O Deus Gato.

— E qual o nome dele?

— Não entendi... — O catfolk me olha surpreso.

— Tipo, o Deus Águia é Aetíades, o Deus Carneiro é Pallas, o seu guaxinim é Don-o-Ron...

— Ah... — Xitarro pisca. — Só chamamos ele de "Deus Gato" mesmo.

Curioso... "Ilha dos Gatos que cultuam o Deus Gato".

— E ele é deus do quê?

— Da gente.

— Tipo... de "ser gato"? Não sei... Ter nove vidas, caçar ratos... Novelos de lã?

— Sabe, nunca pensamos muito nisso... — Xitarro coça o queixo, contemplativo. — Já tem deuses para cada coisa da vida. Acho que ele só fica deitado, preguiçoso, no alto de sua árvore-templo.

— Hmm... Justo — falo enfim, dando de ombros. — Acho que vi uma taverna ou algo que o valha ali na frente. Não vai ser nenhum "Olho da Maré", mas quem sabe o que vamos encontrar aqui, não é?

Pois é. A gente não tinha a menor ideia.






Amellie sempre tem um vestido extra. Este era curto. Pouco prático para escaladas... mas, em muitos aspectos, civilizado.

Os povos das montanhas são acolhedores à sua própria maneira. Uma casinha simples na subida do platô permitiu que ela entrasse para um "banho" rápido após a jornada. Ela se empolgou e decidiu tingir o cabelo em uma cor mais escura. Lembrava que fez exatamente o mesmo da última vez em que esteve em Bearlord...

... Mas, daquela vez, ela tinha vindo apenas como a "negociadora" do Monsenhor, tentando fazer com que a nobreza local tolerasse a presença da Igreja. Capri esteve ao seu lado o tempo inteiro, e a Marquesa Ydal estava de péssimo humor.

Amellie teve receio naquela época. Acabou jamais tocando no assunto principal. Nunca houve oportunidade.

Madame Morgan, no entanto, havia mostrado recentemente que pessoas como elas deveriam criar a oportunidade. Bem, Ydal não era nada como Morgan, mas o quanto dessa hesitação era apenas o preconceito herdado da memória antiga de Cyrak? Talvez houvesse um ser humano por baixo da fachada superficial e egoísta da atual marquesa de Bearlord.

— Essa é a Senhorita Amellie?! — exclama um homem assim que ela se aproxima do portão de ferro do castelo. Ele era... familiar. — A senhorita virou uma bela mulher!

— Obrigada... Senhor...?

— Chefe Tamar! — ele se apresenta, prestativo. Foi gentil ao perceber que a barda não o reconhecia de imediato. — Fui frequentador da Igreja e hoje sou o chefe da guarda de Bearlord! Seu criado!

— Bela carreira, Chefe Tamar! — Amellie cumprimenta, oferecendo seu melhor sorriso diplomático. — Estive fora por tempo demais. Vim prestar meus respeitos à marquesa. A estrada estava terrível, então preferi começar por aqui.

— Ah, claro — Tamar ri, ajeitando o peitoral de couro. — Deve se lembrar que dia é hoje, não é?

Amellie estranha a pergunta, arqueando uma sobrancelha.

— Eh... Domingo? — ela arrisca, tentando puxar pela memória. — Três dias desde o aniversário de Lizzo e... Oh, não.

— Pois é! — Tamar dá uma gargalhada alta. — É hoje que a maldição do Monsenhor é suspensa! A cidade inteira se tranca! A senhorita fez muito bem em evitar o povoado!

Amellie sentiu o sangue congelar por um segundo. Ela tinha esquecido completamente do "feriado" do Capri.

Se Bentho e Xitarro fizerem besteira... aquilo seria um erro fatal.




— Eles estão fechando?!? — Xitarro observa.

As janelas da taverna já estavam lacradas. Do lado de dentro do estabelecimento, dava para ouvir o barulho frenético de vassouras e rodos raspando o assoalho.

A taverna em si não mostrava nenhum nome na fachada, apenas a placa de madeira com a gravura de uma caneca balançava em silêncio sob a fraca iluminação de uma lanterna. Mas, antes mesmo de chegarmos à entrada, um vulto enorme veio rolando porta afora, aterrissando com um baque pesado sobre alguns barris de lixo encostados na parede. Um homem que julgamos ser o taverneiro ou um senescal tentava conduzi-lo, mas perdeu o equilíbrio — ou a força — no final.

Ele estava nu. Logo atrás, um segundo homem de avental vinha correndo com o que parecia ser um poncho improvisado, feito da costura tosca de várias toalhas de mesa. O primeiro cobriu a modéstia do pobre diabo com o poncho.

— Não encontrei suas roupas, meu senhor... — o sujeito do avental justificou para o pelado descabelado, enquanto tentava ajeitá-lo sentado contra a madeira. — Não faço ideia de como o senhor conseguiu perdê-las... mas veste isso aqui por enquanto...

— Com licença... — Xitarro adiantou-se, pisando com cuidado. — Vocês estão fechando?

O homem abandonou momentaneamente o enorme maltrapilho confuso e se voltou para mim e para o Xitarro.

— Oh, forasteiros! Tinha de ser! — ele resmungou, enxugando o suor da testa com o braço. — Sinto muito, mas só vamos poder abrir à noite.

— Mas... estamos famintos! — Xitarro comentou, desanimado. — Tem outra taverna por aqui?

— Bem, tem três ao todo... fora a minha. Podem até arriscar, mas, pelo horário, nosso amigo aqui já deve ter passado por todas elas. — Ele deu um tapa leve no ombro do homem ébrio, que mal parecia registrar o toque.

— Ele é só um homem — eu comentei, cruzando os braços. — Não tem como ter comido o estoque de comida da cidade inteira!

— Não, não a comida — o taverneiro corrigiu. — Mas o álcool sim, pela semana... e a consequência disso é... Bem...

Ele puxou a porta da taverna para nos mostrar.

O cheiro pujante, ácido e azedo nos atingiu de frente como um soco no estômago. Lá dentro, um pequeno esquadrão de limpeza usando máscaras de praga esfregava com fúria manchas terrosas espalhadas pelo chão, pelas mesas e... pelo teto?! COMO?!

— O que aconteceu aqui?! — me assombrei, sentindo um alívio imenso no segundo em que ele bateu a porta de novo, reduzindo o fedor a sobrevivíeis 8%.

— Faz parte... — o taverneiro deu de ombros, acostumado. — Uma vez por ano. É um pequeno preço a pagar: por trezentos e sessenta e quatro dias de ordem, a gente aguenta um dia de putelância.

Só uma vez por ano... — o calibrado repetiu num balbucio, oscilando a consciência e pendurando a cabeça para o lado. Eu não entendia nada...

Eu... Imagino que aquilo que eles falavam eram palavras. Mas a ordem delas não comunicou-nos nada.

— Bem... — Xitarro falou tristonho, levando a mão ao estômago. — Meu apetite acabou, de qualquer forma. Quer ir direto para a igreja agora, Bentho?

— Vocês vão à Igreja da Perseverança?! — O taverneiro se animou na hora, os olhos brilhando. — Poderiam fazer a gentileza de levá-lo com vocês? Cartallas vai abençoá-los regiamente por isso!

— Bem... acho que ele precisa de roupas, um banho, um exorcismo... — eu comentei, olhando para aquela montanha de carne caída pelas tabelas. — Ajuda aqui, Xitarro.

— Bentho, pensei que a gente não ia mais fazer "caridades"... — o monge murmurou no meu ouvido.

Eu esperei o taverneiro dar dois passos de volta para dentro para responder baixo:




— Pois é... — resmunguei. — Mas, sem a Amellie aqui para abrir as portas, a gente precisa de uma boa desculpa para pedir santuário na Igreja da Perseverança! Esse panguando deve servir.

Você disse... Amellie?! — resmungou o bêbado, mexendo uma das orelhas.

— Esquece que ouviu esse nome, moço... — reclamei, já me aproximando dele. — Vai ter algum noviço lá que vai jogar você na água benta e...

— Ele é maior que o Khao? — Xitarro interrompeu, avaliando a largura das costas do sujeito.

— O quê?!

— Eu achei que o seu Capitão Khao era o maior humano que eu já tinha visto... — ele insistiu, sério. — Mas este cara é maior!

— Não — eu neguei de imediato. — Ele está só... mais largado, esticado no chão. Todo mundo fica mais comprido quando está sendo carregado.

Passei um dos braços pesados dele sobre os meus ombros, quase dobrando os joelhos com o peso. Xitarro fez o mesmo pelo outro lado, soltando um ganido curto pelo esforço. E assim, aos trancos e barrancos, fomos arrastando o gigante bêbado rua afora.






Era a primeira vez que Amellie visitava o mausoléu de Glen Bearlord. Ele não existia durante os primeiros tratados da Igreja com Bearlord, quando veio ao castelo.

O Senhor Urso.

Seu último inimigo.

Uma alcova na ala norte dos portões de pedra, logo depois da guarita onde encontrara Tamar. Uma reentrância que poderia ser usada, em tempos de grande atividade, como barricada, oficina ou enfermaria. Por isso, era estranho haver ali uma estrutura destinada a permanecer. Mais estranho ainda que aquele fosse o destino final do maior nobre da região.

Amellie já havia visto o quadro desgastado pelos elementos que adornava a parede: Glen montado em Avelã, a ursa atroz, coberta de armadura. Mas aquela pintura deveria estar no alto da lareira do salão de banquetes. Não naquela alcova escondida.

— Chefe Tamar... — ela pergunta. — Não tem uma pedra, ou alguma coisa, indicando onde enterraram o corpo?

— O corpo do Marquês ficou em Portos Dourados — ele informa.

— Vocês não o trouxeram de volta? — Amellie se surpreende. — Eu sei que o Monsenhor tinha providenciado o envio de um mensageiro com a ursa e os pertences dele. E a Guerra de Kazu Marzu terminou há anos...

Tamar hesita.

— A Marquesa não... teve a oportunidade de prestar as devidas homenagens ao fundador.

Amellie sente o peso das palavras. Era uma mentira, tecnicamente. Não uma mentira para enganá-la, mas para proteger sua senhora de algo que o próprio Tamar parecia condenar.

Ela olha novamente para a alcova.

— Esta alcova escura, mal arrumada... — observa. — É tudo o que sobrou da lembrança dele?

— Sim — Tamar suspira. — Até a ursa foi largada na ravina. Tivemos problemas com ela atacando caravanas por um tempo, mas passou. Não sei se morreu ou se aprendeu a conviver conosco.

Ele dá de ombros.

— Faz tantos anos que, a esta altura, provavelmente morreu de velhice, a pobrezinha. Mas seria pior com os cortes de custos que a mestra... Melhor não comentar.

Amellie permanece em silêncio. Estava assombrada.

Glen Bearlord fora uma figura malquista nas altas cortes do Império. O que, considerando o revisionismo histórico da revelação de Caruthers, era um elogio. Acabou relegado àquelas terras duras e difíceis, levando consigo a esposa, Ydal, e a ursa. Tentou impor suas graças colonialistas, e equilibrar o estilo de vida metropolitano de Ydal com saraus e festas.

Foi assim que Cyrak se envolveu com aquela família. Com Ydal. E provocou a fúria do nobre.

Eles poderiam ter duelado. Por mais que Glen fosse um militar competente, Cyrak era o Exemplar dos Bardos. Mas aquilo seria simples demais para Cyrak. Egomaníaco como era, ele transformou tudo em espetáculo: "A Guerra de Bearlord" e todas as suas repercussões.

Roubou o animal sagrado dos bárbaros. Despertou sua consciência para manipulá-los. E então perdeu o controle da criatura.

Bearlord e sua infantaria fizeram um ataque preventivo. O animal escapou. E se tornou Cardullion. Bárbaro. Deus da teimosia. Um terço do atual Cartallas.

Os bárbaros supersticiosos viram naquela fuga um mau presságio. Cyrak estava cercado: de um lado, o exército dos bárbaros; do outro, os homens de Bearlord.

A fuga era impossível. Em vida.

Se ele soubesse que Myrlen havia danificado o homúnculo... Seu clone... Aquele que retornaria à vida quando o original perecesse... Talvez tudo tivesse sido diferente. 

Talvez não houvesse... Amellie.

Bearlord foi um líder melhor que Cyrak a despeito de suas limitações, e triunfou. De uma forma absurda, Cyrak com outros olhos e outra vida agora olha seu velho inimigo sendo desrespeitado em sua própria casa e sente por ele.

— A Marquesa vai recebê-la agora, senhorita — Tamar estende a mão para indicar o caminho, liberando um mensageiro que lhe trouxe o aviso enquanto a barda estava perdida em pensamentos sobre as circunstâncias. Ela ergue os olhos.

— Serei recebida ... No castelo?

— Melhor — ele aponta para uma passagem de pedra para o pátio interno. — No mausoléu do Menestrel Cyrak.

31 de agosto de 2026

A evolução de Hon-sa

 

EDGELORD - O PIRATA SOLAR


CAVALEIROS '80


30 de agosto de 2026

Kentaro-no-oni para Shadowdark

KENTARO-NO-ONI

O Terceirizado do Terror • O Caçador da Névoa

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Para saber o lore e como usar:
Vera o ARTIGO KENTARO PARA D&D
A galera do Valhalla anda achando D&D "baunilha" demais...
LV: 10 AL: Caótico/Leal (L) AC: 15 (Armadura Natural) HP: 60
ATK: 2x Kanabô +7 (2d8+4) ou 1x Cone de Gelo
MV: P (Voo / Forma Gasosa)
ATRIBUTOS: S +4, D +2, C +3, I +2, W +1, Ch +3

Habilidades Passivas & Especiais

• Regeneração: Kentaro recupera 5 HP no início do seu turno, a menos que tenha sofrido dano por Ácido na rodada anterior.

• Forma Gasosa: Ação Bônus. Transforma-se em névoa supernatural (ou retorna à forma física). Pode passar por frestas e buracos mínimos. Não pode atacar enquanto estiver em forma gasosa. Transformação e movimento na forma gasosa não causa ataques de oportunidade.

• Muda-Forma: Pode assumir a aparência de um humanoide genérico pequeno ou médio (ex.: halfling cansado, anão viajante). Nunca personifica indivíduos específicos. Mantém a própria voz e personalidade.

• Cone de Gelo (Reabastece 5-6): Cone Próximo (Near). DC 15 DEX ou 6d6 de dano de Frio (metade se passar).

• Código do Caçador: Nunca mata alvos inconscientes e cumpre acordos feitos em boa-fé. Testes sociais baseados em sagacidade, barganha ou honra ganham Vantagem.

Módulos Opcionais de Condução (DM)

1. O Caçador na Penumbra (Uso Móvel / Tensão)

Surge em forma gasosa por frestas durante ou após um combate/descanso. Ataca por 1 ou 2 rodadas (focando em alvos isolados), causa dano com o Kanabô ou Cone de Gelo e recua em névoa. Não luta até a morte.

2. O Gongo de Sangue (Covil / Câmara Preparada)

No início de cada rodada na câmara do gongo, o som ecoa. Todos os aventureiros devem fazer um teste de DC 13 WIS ou ficam Aterrorizados até o fim do próximo turno. Furtividade torna-se impossível no local.

3. Encontro de Chefe (Batalha Final)

Se ativado para o confronto definitivo, Kentaro ganha 1 Ação Lendária/Reação extra por rodada: Golpe de Oportunidade (ataque de Kanabô fora do turno) ou Sopro Congelante Instantâneo (recarrega imediatamente o Cone de Gelo).

29 de agosto de 2026

[MONSTRO DA SEMANA] "Lord Blunt" por Omar Yarol

Fato: OMAR YAROL, no Interludio de ontem criou um LORD BLUNT muito mais intimidante que meu Estebán. Então decidi imaginar como um bardo charlatão imaginaria "O Maior Vilão do mundo" (que para ele deve ser um CR4). E Eis o "Falso Lord Blunt", um oponente ocasional para colocar na sua campanha, excelente em duelos (exceto contra O Maioral) mas limitado se enfrentar um grupo. 

Falso Lord Blunt

Humanoide Médio (draconato), caótico e maligno


Classe de Armadura: 16 (armadura natural, manto de placas)

Pontos de Vida: 95 (10d8 + 50)

Deslocamento: 9 m


FOR DES CON INT SAB CAR
16 (+3) 12 (+1) 20 (+5) 10 (+0) 12 (+1) 16 (+3)

Testes de Resistência: Con +7, Car +5

Perícias: Intimidação +5, Arcana +2, Percepção +3

Resistência a Dano: Necrótico

Sentidos: Visão no Escuro 18 m, Percepção Passiva 13

Idiomas: Comum, Dracônico, Infernal

Nível de Desafio (ND): 4 (1.100 XP)  |  Bônus de Proficiência: +2


Ancestral Dracônico. O Falso Lord Blunt tem vantagem em testes de resistência contra ser Amedrontado. Além disso, sua aparência dracônica e presença sobrenatural concedem vantagem em testes de Carisma (Intimidação) feitos para ameaçar criaturas que possam vê-lo.

Maldição da Lâmina Sombria (1/Combate). Como ação bônus, o Falso Lord Blunt amaldiçoa uma criatura que possa ver a até 9 m por 1 minuto. Enquanto a maldição durar, ele recebe os seguintes benefícios contra o alvo:

  • Recebe +2 de bônus ao dano contra o alvo;
  • Obtém um acerto crítico com 19 ou 20 no dado;
  • Recupera 7 PV quando o alvo chega a 0 PV.
A maldição termina antecipadamente se o Falso Lord Blunt morrer.

Guerreiro da Lâmina Maldita. O Falso Lord Blunt usa Carisma para suas jogadas de ataque e dano com sua espada amaldiçoada. Sua espada conta como mágica.

Ações

Ataques Múltiplos. O Falso Lord Blunt realiza dois ataques de Espada do Falso Lord.

Espada do Falso Lord. Ataque Corpo a Corpo com Arma: +7 para atingir, alcance 1,5 m, um alvo. Acerto: 10 (1d10 + 5) de dano cortante, mais 3 (1d6) de dano necrótico.

Explosão da Lâmina Negra (Recarga 5–6). O Falso Lord Blunt canaliza energia sombria através de sua espada. Cada criatura à escolha dele em um raio de 3 m deve realizar um teste de resistência de Destreza CD 14. Em caso de falha, sofre 13 (3d8) de dano necrótico. Em caso de sucesso, sofre metade do dano. Nota: esta habilidade substitui o Multiataque na rodada.

Conjuração

O Falso Lord Blunt é um conjurador de 5º nível. Sua habilidade de conjuração é Carisma (CD 14 para resistir às magias; +6 para atingir com ataques mágicos).

  • À vontade: Eldritch Blast, Mage Hand, Minor Illusion
  • 2/dia cada: Armor of Agathys (2º círculo), Hex, Misty Step
  • 1/dia: Darkness

Reação

Escudo da Lâmina Maldita. Quando uma criatura que ele possa ver o atinge com um ataque, o Falso Lord Blunt pode adicionar +2 à sua CA contra aquele ataque, possivelmente fazendo-o errar. Se o ataque errar, o atacante sofre 3 (1d6) de dano necrótico.


Tática de Combate

Rodada 1 (O teatro começa): Abre com Maldição da Lâmina Sombria no alvo que parece mais perigoso (não necessariamente o mais frágil, pois ele quer provar que é um verdadeiro "Lord"). Se houver tempo de preparação prévia, entra no combate com Armor of Agathys já ativo.

Rodadas Seguintes: Mantém um padrão estável de dois ataques por rodada. Utiliza Misty Step se for cercado, derrubado, ou para alcançar conjuradores na retaguarda.

Uso de Darkness: Reservado para momentos estratégicos (contra ataques à distância, para cobrir uma fuga ou isolar o grupo), evitando virar uma mecânica frustrante no combate.





28 de agosto de 2026

EDGELORD Interludio: Omar Yarol

 





Omar Yarol. "A Canção Entre as Lâminas".

A capa tinha um acabamento arcano — uma pequena pintura extremamente realista. Minha juventude. Meu ápice. Vivia aventuras, triunfava. Era cortejado pelas mais belas donzelas, mas respeitosamente as rejeitava, pois "A estrada era minha única paixão". 

Cyrak, Geddarm, Shorthalt... Omar Yarol, ou "Omar Ioral", era um dos grandes.

Eu tenho uma dezena de livros com essa capa. Me renderiam um ano de vida bem confortável se os vendesse.

Aquele era o primeiro exemplar que eu vendia nos últimos treze anos. Um senhor mais velho, cabelos negros, olhar cansado. Pagou com moedas de cunhagem de Shén-li...

... O reino da minha ruína. Onde Omar Yarol se tornou uma piada, um farsante.

O velho andarilho usava um manto muito grosso e prático, mas não parecia nativo de Shén-li. Não captei sotaques específicos... E honestamente, se ele insinuasse que queria pechinchar, levaria meu livro por um terço do que pagou.

Dos salões de sarau, das festas em minha honra nas principais aldeias do mundo, me resta Poeira da Estrada: um povoado com um pequeno templo, uma guilda, uma estátua de bode e a taverna onde, até ontem, eu tinha uma dívida que garantiria ao dono a posse da minha pele vermelha.

Omar Yarol sou eu.


 Ínfero. Chegando à velhice, enfim. Minhas roupas remetem às da capa do livro, mas obviamente apenas as traças ainda as apreciavam.

Minal, o taverneiro, olha para mim com desdém.
— Eu vendi um livro! — falo, enfim. — Vim acertar minha dívida!

Ele não acreditava até eu despejar as moedas no balcão. Sua ampla testa se enrugou de surpresa. Ele recuou até o fundo da sua estação para apanhar os cadernos de fiado.

— Cunhagem de Shén-li! — observei. — Pode ter valor de colecionador! Elas...

— Uma moeda de Shén-li vale exatamente uma moeda!

Ele conta aquela pequena fortuna que eu auferi, rabisca no livro e me mostra o resultado.

Meu sorriso desaparece.

— Duas peças de cobre abaixo... — constato. — Jurava que teria um troco... ou... um caldo quente?

Ele cerra as sobrancelhas.

— Eu realmente queria comemorar — insisto. — Pode ser a renascença de Omar Yarol! Outros podem vir atrás dos livros!

— Eu vou deixar de lado os cobres faltantes e dar o caldo quente... — Minal fala, arrancando a minha pendura do livro. — Mas, à noite, você faz o entretenimento ao lado do meu sobrinho.

Esforço-me para manter o sorriso enquanto concordo com a cabeça.

— Sabe dizer se ele... melhorou com o alaúde? — pergunto.

— Você me diz... Você é o instrutor dele!

Pois é. Ganhei alguns meses de teto e comida dando aulas para um jovem de dedos curtos e com a ilusão de que é um novo Cyrak.

Sento-me e observo uma das cópias do meu livro, que trago esperando o caldo.

Aqui estão as histórias de quando fui a Shén-li.

Duelei com o Capitão Khao por um incidente na ponte. Cortei fora seu lendário braço de concreto.

(Mas colei de volta. Estamos de boa).

Quando ouvi sobre a fuga de Lord Blunt, rastreei os passos até ver que Lady Àquela, a Arqueira Lendária, tinha sido capturada na estrada.

Intervim.

Derrotei o Bruxo da Lâmina Negra.

Bem... Nada disso aconteceu.

Também não reencontrei a ilha de Hatamon, perdida há duzentos anos, não cavalguei nas costas de Phyrros, nem integrei em segredo o Trio Quimera. Mas eu disse que fiz essas coisas. E o público amou.

Não ter compromisso com a verdade é libertador... As minhas histórias eram melhor que as verdadeiras. Não precisava pegar fôlego entre uma luta e outra. Os vilões caíam em minhas artimanhas. Eu controlava o conflito, e me saia bem sempre... até que a verdade o alcança.

Como fazia agora.

As portas da taverna são escancaradas de uma vez. A luz cega nossos olhos, já habituados à penumbra interna. O vento frio torna ignorar aquele ato rude impossível.

— Quem deixa o frio entrar vai se ver comigo! — urra Minal, deixando meu caldo e enrolando as mangas de suas vestes. — Falta de consideração, seu... sua... Oh, em nome dos... Deuses...

Não.

Não podia ser...

Ela... olha para mim. Murmura: "Omar? é você mesmo?!?"... Mas é impossível...


 

Omar Yarol sempre foi uma mentira. "A Estrada é minha única paixão"? Não queria ser malfalado como Cyrak. E as donzelas "vítimas" de cair por mim tinham menos ganas de desmentir se suas virtudes foram preservadas.

Eu podia cantar em recôncavos que Lord Blunt fugiu da Torre negra, humilhando a Nova Guarda de Shén-li. E que eu me pus a caçá-lo. E encontrei uma emboscada que ele fez á sua maior inimiga, a Arqueira lendária.

Que eu desafiei o bruxo. Superei ele na espada, ignorei seus truques diabólicos. Removi o elmo com um golpe e o pus de joelhos.

Que a infinitamente agradecida Dama do Arco jogou-se a meus pés, grata, e eu insisti que ela merecia mais que uma emboscada traiçoeira.

Que ela deveria erguer a cabeça, levar o prisioneiro.

Que sua afeição por mim era apenas gratidão, e mesmo se não o fosse...

Repitam comigo, ouvintes:

"A Estrada é minha única paixão".

Eu não criava laços.

Eu estava longe quando alguém viria tirar satisfação.

Nenhum aldeão iria levar minhas obras ao Castelo negro de Shén-li para perguntar se aquilo aconteceu mesmo... Ir ao Capitão Khao do Punho de Concreto perguntar se eu realmente cortei fora (e colei depois) seu petrificado braço lendário. Ninguém tem acesso aos grandes heróis do mundo que minha versão fantástica de "Omar Yarol" interagia.

Até que um dia alguém foi.

E em meio a soldados sem nome, sem glória, em frente a um chanceler da "cultura" — leia-se propaganda do reino — Fui banido de Shén-li. Proibido de por os pés no reino, sob pena de ser trancado em ... Não na Grande Torre como Blunt. Eu era irrelevante. Um quarto escuro e mofado em algum buraco sem nome.

Vim às Montanhas Castanhas com minha família convidado para ser um menestrel do palácio de Bearlord, sem viagens, um "Bobo da corte" com regalias. Mas quando o banimento de Shén-li chegou aos ouvidos da marquesa Ydal, dias antes de minha chegada física, perdi meu emprego.

Só me restava a estrada, que não era uma amante tão carinhosa assim.

Sem opções, Poeira da Estrada se tornou meu lar.

Foi a terra de onde Cardullion partiu com o Trio Quimera. Ele era só um animal doméstico, e se tornou um deus. Eu tinha esperança...
... Que em meia década ainda não se concretizou.

Eu acomodei. Vi o mundo glorioso de nomes, títulos, e aventuras. Me adicionei artificialmente, e aproveitei bem aqueles anos. mas agora, estava fora.

...

Ou eu achei. Até que um anjo de ouro e mythral entra na espelunca onde gasto minhas últimas moedas e energias.
   
Quando a mulher cruzou a porta, o silêncio na taverna foi instantâneo. Uma amazona loira e imponente. Uma aljava às costas. 

A capa de seda pura, a armadura reluzente sem um único risco de viagem e a cabeleira loira perfeitamente alinhada pareciam o figurino caro de uma peça de teatro imperial. Ninguém andava assim nas Montanhas Castanhas. Ninguém.

— Não pode ser... — murmurei, encolhendo-me na cadeira.

Era a iconografia exata de Àquela. A Arqueira Lendária. Aquilo contudo, tinha cara de encenação. Uma atriz contratada para me humilhar? Uma fúria das montanhas brincalhona zombando da minha sanidade?

Ela sentou-se à minha mesa com uma graciosidade estudada, tomando minhas mãos como se fôssemos velhos companheiros de infantaria.

— Que felicidade Cartallas me deu! — declarou ela, alto o bastante para a taverna ouvir. — Nosso último encontro... você estava com tanta pressa para a sua "amada" estrada! Detestei as consequências do Conselho Regente denegando-o.

— Eu...  A senhora se engana! — Eu sou um bardo, palavras são meu instrumento de trabalho, mas elas estavam escassas diante do meu choque. — Posso ter dito algo assim, mas...

— >AH< ESSA È BOA!

Minal, o Taverneiro, sai do seu próprio estupor, com seu cenho enrugado.

— Você não tem um tostão para um caldo, Omar, mas pagou uma guria de armadura de latão pra fingir que te conhece?

— Olhe para ela, Minal! — eu protesto. — Eu... Eu... Toda a moeda atualmente nesta cidade não custearia essa armadura, mesmo se for de neóbio!!

— Meu senhor... — A "Àquela" se volta para ele com terço-de-perfil obviamente incomodada. — O senhor está sendo indelicado com este meu velho amigo. Eu gostaria de ter um momento, e duas... Não, três canecas de cerveja com Hidromel.

Ela tentou o dispensar com um gesto. Minal não cedeu.

— Claro "Dama da flecha" — o taberneiro calvo se debruça sobre a mesa, entre eu e a misteriosa loira. — Sabe, eu quero fazer ciúmes a minha ex... Poderia se passar pela Princesa do Império? Eu gosto de mais jovens, sabe? E aleijad...

Eu ... Estava sem cor. "Omar Yarol" tocaria uma gaita, sacaria um florete — Os mesmos que já empenhei há anos por moedas — e defenderia a honra de uma dama...

... Mas o que eu estava pensando? Mesmo de Minal não fosse duas vezes maior do que eu, e se eu o espancasse, jamais teria uma refeição quente na aldeia outra vez.

"Àquela" estende a mão a mim. Segura meu pulso através da mesa.

— Omar... esse não È o Bruxo Sombrio. — ela fala com orgulho contido. — É só um camponês com um pouco de poder sobre os outros exercendo-o e abusando-o. Por favor, contenha sua fúria.

— "Fúria"?!? — Bufa Minal. — Eu já vi ele baixando a...

Ele não termina a frase.


Àquela saca uma flecha.

Não a põe num arco ou besta, ela a arremessa com uma mão, como se atira uma adaga ou um dardo, mas com ainda mais displiscência. E foi no avental do taverneiro, e...

Eu honestamente não sei o que aconteceu.

Uma ventania explodiu de onde estávamos.

Meu caldo voou, não sei para onde.

Mesas e cadeiras próximas se afastaram pela ventania, mesmo as pesadas e com ocupantes.

Minal foi erguido no ar meio metro, arrastado pela minúscula peça, chocou-se contra a parede oposta a nós com força, e lá ficou, sob o som de uma ventania centrada na flecha manualmente arremessada.

E assim ficou uns bons cinco ou seis segundos... Até que ele começou a descer. Lento...

... Tão lento que deu tempo à agressora se erguer, caminhar até a parede onde ele estava...

E apertar-lhe o maxilar. Com uma mão. Uma força naqueles dedos associo à arte de puxar a corda de um arco, travava o crânio inteiro do taverneiro contra a parede.

— Você deve estar se questionando — ela expressava com um tom de desdém instrutivo. — "Que arqueira não utiliza um arco para suas flechas"? Primeiramente, sim, minha proficiência é notável; em segundo lugar: A Flecha da Ventania de Velakrya é capaz de gerar um tufão proporcional à velocidade do projétil em movimento — ela elucidou, com uma postura didática e condescendente. — Caso eu utilizasse o arco, a uma velocidade de cem metros por segundo, seu estabelecimento seria completamente desintegrado antes que pudesse reagir. Diante disso... você optará por confiar em minhas palavras e respeitar meu companheiro, ou prefere que eu demonstre com o arco?

Ela diminui o aperto no maxilar de Minal.

— ... Vou... Dar a você e seu amigo um momento... — o taverneiro fala abafado.

— E três cervejas com hidromel. — "Àquela" completa, colocando algumas moedas na mão esquerda dele. — Uma para o homem moreno chateado no fim do balcão.

Eu olho minha refeição no chão... Eu tinha chance de salva-la... mas eu salvei o meu livro ao invés. Mesmo tendo mais cópias do que eu teria o que fazer. Mesmo só vendendo a cada treze anos.

Mal vi quando ela tinha voltado a minha mesa. Cotovelo na mesa e mão a apoiar o queixo... Aqueles olhos brilhantes e entusiasmados...

— Sabe, você é um dos poucos que viu Lord Blunt sem o elmo... — ela fala casualmente. — Já contou a eles como era o bruxo da Lâmia Negra por baixo do elmo? O Senhor do Sombrio?

— Eu... Eu escrevi sobre isso neste livro! — eu falo e... O que eu estava dizendo? Eu jamais vi tal homem! Eu jamais vi aquela mulher também!

— Mas um bom bardo passa as sensações direitinho declamando! — ela se levanta. Pega minha mão... me coloca sobre a mesa. — Fala... Fala como ele era!

Todos paravam para olhar. Eu ... era o centro das atenções. Mesmo Minal estava lá, parado, com três canecas equilibradas numa bandeja.

— Ele é ... Um draconato. — Eu arrisco.

— Um draconato negro! — urra "Àquela". — Escamas protuberantes!

— C-como Obsidianas! — Eu começo a criar coragem, e gesticulo.

— Fale dos cabelos! — Ela me encoraja.

— Longos cabelos brancos desengranhados! Como teias e aranhas acumuladas por milênios debaixo daquele elmo! — eu estava... Eu estava quase dançando. — Os chifres não eram do elmo, era buracos para encaixar!

— Quase não tirei quando o derrubei no levante! — Ela completa, sem perder o ritmo da minha descrição.

— Os olhos irradiavam crueldade roxa como uma luz adoecente. — Eu gesticulava, como se estivesse duelando com o Bruxo. Não... eu estava duelando.

Em minha mente.

A suposta Àquela era minha parceira na dança. Encarnava Lord Blunt, com movimentos longos e pesados usando uma metade de bisnaga como espada. Eu passava facilmente por seus gestos. Eu narrava, e ela interpretava.

— Ele ergueu a Espada Negra, quase dois metros de aço contra meu florete... — eu gesticulo. — Então eu falo: "Isso está compensando alguma coisa?"

Eu faço um gracejo. Àquela segura o peito como se levasse um golpe.

Todos riem.

— "Provocação mordaz!" Eu lembro! — Àquela comenta. — Você desestruturou o ego dele!

— Sim... — Estava em meu livro esse detalhe? Acho que sim! Eu escrevi? mal lembrava! — Ele buscou minha mente, corromper minha alma, mas eu não venderia meu ser aos demônios do Submundo. Pois minha alma tinha uma dona!

"A Estrada é minha única paixão" — A taverna urrou em uníssono.

E o clímax da batalha. Eu entro na guarda de "Lord Blunt". Uma espada imaginária entra em seu flanco. "Àquela" faz a expressão de dor e horror. E cai de joelhos. Lentamente, eu "agarro o elmo" imaginário e revelo seu "rosto".

— Minha expectativa estava no nível do chão para este duelo... — eu falo, ofegante como se tivesse lutado por dias. E termino: — Mas vejo que você certamente trouxe uma pá!

"Àquela" simulou cair no chão.

E a taverna explodiu em um cântigo, cada vez mais rápido. Cada vez mais alto. Cada vez mais empolgado!

"Omar Ioral"

"Omar Ioral"

"Omar Ioral"

Eu estava sendo ovacionado não em saraus, mas por pessoas simples que gostam de histórias. Que sentiram que tinham direito de acreditar, sem ser censurados. Talvez até soubesse no subconsciente que era falso, mas não deixava de ser divertido, entretenimento. A graça é comprar a loucura.

A mentira é mais espetaculosa que a verdade. Era válido acreditar que um de seus vizinhos seria Omar Yarol, "O Maioral".

Recebo cumprimentos, tapas nas costas. Abraços.

E logo, me vi de volta à mesa com Àquela.

Não vou usar "aspas" mais. Ela pode ser um fantasma me torturando, uma fada brincalhona ou uma atriz paga que massageia meu ego. Não ligo.

Não quero saber da verdade. Aquela é a Dama do Arco na minha realidade, que me admira desde o dia em que lutamos juntos contra o demoníaco Lorde Blunt numa estrada de Shén-li.

Ela olha para mim de uma forma... eu não ouso afirmar, mas senti algo lá... Algo perigoso.

Algo que eu usava a desculpa da "estrada" para evitar. Mas...

Eu gostaria de fazer isso?

Mas ela se detém em minha mão esquerda.

Duas alianças.

Uma no dedo anelar e outra no dedo médio. Ela me encara... eu sei o que ela deduzia.

— Sim... — eu aceno com a cabeça. — Na minha cultura, quando nos casamos, trocamos alianças. E... Quando um dos parceiros se vai, a aliança é devolvida, e passa a ocupa o dedo mais próximo. Para estarmos juntos em vida e em morte.

— Eu sinto muito. — Àquela fala.

— Não foram muitos anos, mas foram bons anos. — eu conforto. — A estrada é uma paixão, mas quando os joelhos nos impedem de segui-la, é bom ter um lar, alguém com mesmo espírito que você. Eu tive sorte.

Àquela remove sua manopla. Mostra um anel negro e discreto.

— Eu só posso imaginar o que nós seríamos se você ficasse em Shén-li, ao invés de partir. — ela fala. — Mas desde então, eu tive uma família também. Marido e filho.

— Que maravilha! — eu a cumprimento.

— Alias, estamos nestas terras buscando meu filho. — ela comenta. — eu e meu esposo, o homem sisudo no fim do balcão.

O marido estava aqui?!?

E eu flertando com ela... E ela flertando comigo!

Eu ... Eu conheço aquele senhorzinho. É o mesmo viajante que comprou meu livro naquela manhã.

— Ele não é muito mais novo que eu! — eu protesto. — Eu tinha chance então!

Ela gargalha.

— Ele é Estebán, e é um grande fã seu.

— Se este é o caso, ter um exemplar de meu livro sem meu autógrafo é inconcebível! — eu bato na mesa. — Traga para mim o exemplar dele agora!

Ela sorri.

Se levanta e declama:

— Uma rodada para a taverna inteira! Por minha conta! — ela fala.

— A segunda por conta da casa! — Minal declara logo em seguida.

Os patronos começam a cantiga outra vez.

"Omar Ioral"
"Omar Ioral"
"Omar Ioral"



Àquela se aproxima de Estebán com duas canecas.

— Você estava certo! Era mesmo Omar Yarol! — ela fala com um sorriso entusiasmado. — Sua memória é impressionante!

— Impressionante foi você ter validado as loucuras daquele charlatão! — protesta Estebán. — Eu falei como curiosidade, estamos muito longe de Bentho e dos amigos!

— Estebán, olhe para ele... — ela fala.

— Sim... O único ser vivo banido de Shén-li que não estava envolvido em minha insurreição. — o Senhor do Sombrio toma um gole de sua caneca. — A Nova Guarda com dificuldades em estabelecer a narrativa, e essas histórias deturpadas ganhando popularidade. Poderia ter comprometido todo o esforço.

— Como nós dois colocamos agora? — Àquela encara a realidade.

— Dezessete anos depois. — ele insiste roçando os dentes nervoso. — E eu sei que você o fez dar aquela descrição descabida de mim como um draconato para me provocar. Ele misturou Morro e Valérius, mais a capa de escamas de dragão negro que eu uso com a Vigília Sombria.

— Estebán, olhe para ele. — Àquela comenta. — Isto é tudo o que lhe restou. E estes são seus dias de repousar. Em Shén-li chamamos de "tempos da Dama Doji". Em que merecemos ter a admiração dos nossos vizinhos e amigos. Ele mendigava caldos quentes antes. Hoje, ele não mais precisará negociar um prato digno.

Lord Blunt jamais sorriria. Mas era um alívio ver o esforço e o quanto sua esposa se dedicou para aquela pequena e insignificante gentileza.

Era um desvio incômodo para eles, mas valia muito para

Omar Yarol

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Vinte e quatro horas depois, Capitão Khao chega a Poeira da Estrada.

Queria suprimentos e ferramentas adequadas para o próximo dia de jornada.

Queria ver a nova realidade das montanhas Castanhas.

Queria ver onde Cardullion se batizou. Onde o tempo do Fogo Frio começou...

... Mas um cântico atraiu sua atenção.

"Omar Ioral"

"Omar Ioral"

"Omar Ioral"

Da taverna, uma porta se abre e saem patronos, alguns ainda festejavam. Um deles era um Ínfero, vermelho, e audaz.

O ínfero o encara o capitão, aponta e fala...

— Pequeno Khao! — ele comemora, ébrio e com os braços estendidos. — Você TAMBÉM veio me ver!

Khao ficou pálido e disse:

— Não!

E virou para ir embora.

— Espere, Khao! — insiste o ínfero. — Deixe-me pagar um Hidromel!

— Não estou com HUMOR para palhaçadas de Omar Yarol hoje! — e o capitão rumou de volta à estrada para a Marca de Bearlord.

— Que sujeito sem graça! — Omar ri. — Definitivamente um mal perdedor.

— Não pode culpa-lo! — Minal comenta, colocando o braço nos ombros do bardo. — Afinal, você cortou o braço dele fora!

— ... Mas eu colei de volta!