"Meu pai é o Maior Vilão do Mundo. E ELE DEIXOU A APOSENTADORIA... Xííí"
Bem-vindos a Huo-Fen.
Se Shén-Li é o Coração do Mundo, Huo-Fen é o seu Funny Bone.
Há dezessete anos, quando a escuridão de Lorde Blunt emergiu das zonas selvagens, Huo-Fen foi a primeira a cair.
E eles… ficaram de boa.
Eu me chamo LORD EDGY. E meu título é...
É—
Ah, a quem estou enganando?
Vamos ver como eu derrapo hoje.
— [Então, Edgy…] — Gladys estava num humor crítico. — [Você decidiu salvar um garoto da barragem prestes a romper.]
— Ele estava chorando! A mãe dele estava chorando! — eu me justifico. — Como vou aterrorizar alguém se ninguém presta atenção às ameaças? ALias, tecnicamente eles estavam "implorando..."
— [Eu até toleraria isso…] — Era mentira. — [Mas relembre-me: como você salvou o menininho?]
Fico mudo, emburrado.
- [Vaaamos....] - ela insiste. - [E o que isso fez?]
- Uma ponte... Derrubando um cedro sobre o açude.
- [Uma ... Ponte]
- Eu não podia atravessar a nado uma barragem fazendo redemoinho, ainda mais de armadura. Quase me afoguei na fuga do Palácio!
- [E a ponte permitiu o quê?]
— ... Que os artesãos de pedra e os cimenteiros alcançassem a barragem antes que ela partisse.
Silêncio de quase dez segundos para eu pensar.
— [Um colapso civil e ecológico impedido indiretamente. Excelente trabalho, herói.]
— Não enche — viro o copo de bebida morna.
O "bêbado simpático a Blunt" que conheci nesta estalagem na noite anterior enfia um chapeuzinho de festa no meu elmo.
— [Voltemos ao garoto.]
— Não quero.
— [Quem era a mãe chorosa? Você deveria saber. Morou no Palácio da Nova Ordem.]
Eu suspiro.
— A mestra cozinheira da Família Sagrada, Amarania Bragar.
O salão abre espaço.
Uma mulher de pele clara, traços delicados e expressão marcante surge com reverência cerimonial.
E então colocam diante de mim um leitão inteiro.
Caramelizado. Maçã na boca e "luvinhas de coentro" nas patas.
A pele brilhava como âmbar derretido. Cravos, especiarias, redução de vinho, fios de açúcar puxado. Era peça central de mesa real.
Os presentes aplaudem.
— [Eu estipulo não menos que cento e cinquenta peças de ouro. Preço de mercado.] — diz Gladys, triunfante. — [Um presente diplomático disfarçado de gratidão.]
Eu encaro o caldo.
Doce e salgado. Não curto a mistura.
— [Está com fome?] — ela provoca.
— Um pouco…
Eu puxo uma cadeira e começo a remover o elmo.
— [Ah, vai revelar sua identidade secreta?]
— Não posso comer de elmo e—
Eu congelo.
— É ISSO. - eu grito de entusiasmo. Acabo chamando a atenção.
Os foliões param.
Eu espero retomarem a conversa.
— Lord Edgy é uma força da natureza — sussurro. — Eu afasto oportunidades de vilania e atraio necessitados. Mas Bentho… longe do Castelo e de Forte Jian… é só um qualquer querendo se provar.
— [Continue.]
— Posso me infiltrar. Observar. Escolher o momento certo. E quando eu tiver certeza de que não estou interrompendo um ritual de invocação do Lobo de Três Cabeças do Submundo…
— [Lord Edgy entra em cena.]
— Exatamente.
— [Pode parecer loucura, mas não vejo falhas imediatas.] - Estava tão na baixa que não ser criticado por Gladys era a primeira vitória da semana!
Eu me levanto. Ajusto a capa.
Saio da estalagem.
— Ei, Edgy! — grita o meu amigo de bebidas. — Esqueceu o porco!
Eu não olho para trás.
— Pode doar! - grito.
Silêncio enquanto eu deixava o lugar para me "transformar discretamente".
— Ele mandou DOAR?! esta IGUARIA?!? — o estalajadeiro pisca.
— Para quem? - pergunta a Mestra Amarania
— hmm... O orfanato ao lado da prefeitura… imagino.
Outro silêncio.
— A bondade dele não conhece limites?
Não pelas ruas largas — Estebán evitava avenidas desde que voltara a vestir o próprio nome. Seguiam por vielas de uma aldeia intermediária, conhecidas apenas por quem já sitiou o reino… ou o defendeu. Àquela mantinha o capuz baixo, mas, já dentro do galpão, o deixou cair. A insígnia da Nova Guarda permanecia oculta sob o manto escuro, pesado nas bordas como se tivesse atravessado batalhas demais.
— Se ele souber o que sabemos, ele vai direto para Huo-Fen — ela disse, a mão apoiada no batente de madeira de um espelho antigo, alto demais para aquele depósito esquecido.
— Khao sempre vai direto — respondeu Estebán. — É a coisa mais admirável nele.
O atalho os levou a um velho depósito depois das fazendas do Arco Interior: madeira escura, janelas altas empoeiradas, ferragens enferrujadas. A fechadura ainda cedia ao mesmo toque discreto. Na porta, um cartaz de alistamento... Àquela odiava aquela imagem. Parecia, centrar mais nos seus seios do que na mensagem.
Lá dentro, o ar cheirava a óleo velho, couro e passado.
Estebán acendeu uma lâmpada a óleo presa à parede. A chama oscilou e revelou o que o tempo não ousara tocar: escudos empilhados, alguns com mossas profundas; um elmo apoiado sobre um caixote; espadas encostadas como sentinelas aposentadas; baús alinhados; um estandarte dobrado; mapas enrolados com marcas de campanha. Memorabilia da era do levante, tanto da Horda de Blunt como relíquias da Nova Guarda recen-formada. Não expostas como troféus, mas guardadas como lembranças que doem.
— Você guardou tudo — disse a Estebán, observando-a pelo reflexo.
Ela pousou a mão sobre o antigo arco recurvo encostado à moldura do espelho. Não o de capitã — o primeiro. O de aventureira, quando ainda lutava por moedas e não por bandeiras.
— Preciso trocar — disse, já soltando os fechos da armadura da Nova Guarda. O som do metal ecoou pelo galpão vazio, misturando-se ao estalar da lâmpada.
Peça por peça, a capitã foi desmontada.
Àquela vestiu a túnica antiga, que moldava-se diferente agora. O couro escuro marcava as curvas que o tempo e a maternidade haviam redesenhado. Ela ergueu o queixo, estudando a própria imagem com um meio sorriso. Não era vaidade. Era reconhecimento.
Fez uma careta breve.
— Está apertada nos quadris.
Estebán não conteve o sorriso.
— Você tinha dezessete anos a menos… e nenhum filho.
Ela lançou um olhar enviesado pelo reflexo.
— Está dizendo que engordei?
Ele se aproximou sem pressa. A luz quente da lâmpada desenhou sombras mais profundas em seu rosto — linhas novas, mais marcadas que na muralha anos atrás. Parou a alguns passos, como se admirasse não apenas o corpo, mas a história que ele carregava.
— Estou dizendo que você parece mais linda hoje do que nos portões do palácio.
Àquela sustentou o olhar dele pelo espelho. Havia confiança ali — não a bravata juvenil, mas a serenidade de quem sabe exatamente do que é capaz. A arqueira que enfrentara muralhas agora conhecia o peso de um filho dormindo no quarto ao lado.
— Não tente me distrair — murmurou ela, embora a voz tivesse suavizado. — Precisamos falar do que você pode… ou não pode… fazer.
Estebán passou os dedos pela moldura do espelho, marcado por impacto de lança. A poeira levantou-se no ar, dançando na luz.
— Eu sei.
— Não, você sabe em teoria. Mas quero ouvir de você.
Ela amarrou o último fecho. Endireitou os ombros. No espelho, a ex-heroína estava ali outra vez. Mais contida, mais precisa. Menos símbolo, mais pessoa. Mais mulher do que estandarte.
— Não fazer mal à Guarda, mesmo Khao — disse Blunt, firme. — Eles acreditam no que estamos protegendo. Não machuque inocentes. Não transforme um porto numa cratera só porque fiquei irritado.
Ele fechou os olhos por um segundo.
Quando os abriu, não eram os de Lorde Blunt. Eram os de Estebán.
— Farei o mesmo acordo que fiz com o Conselho Regente. Serei pacífico… a menos que precise protegê-la.
Ela virou-se do espelho para encará-lo diretamente.
— E se Khao tentar nos prender?
— Não o matarei. - ele começa disciplinado, mas não dura. - Mas o deterei com…
— Estebán. - ela repreende.
— Não o matarei. Ponto. — conclui ele.
O silêncio entre eles se tornou denso, preenchido apenas pelo estalar da chama e pelo peso dos escudos que testemunhavam.
— E Bentho? — ela perguntou, mais baixo.
Ali estava o verdadeiro núcleo.
A lâmpada oscilou com uma corrente de ar que ninguém sentiu.
— Eu o trarei para você. Contudo... Se qualquer ameaça real chegar ao nosso filho… — a voz dele mudou, não mais alta, mas mais profunda — a ira de Lorde Blunt será liberada.
Não havia teatralidade. Não havia promessa vazia. Era constatação.
Àquela desviou o olhar para o estandarte dobrado no canto, o símbolo do levante que ajudara a derrubar. Depois voltou ao espelho. A mulher refletida ali não era a jovem arqueira tremendo na muralha. Era alguém que escolheria a guerra de novo, se preciso.
— Se ele estiver em perigo… — disse a Dama do Arco, finalmente — eu mesma pedirei por Lorde Blunt.
As palavras ficaram suspensas no ar, entre escudos e memórias.
Ela não as disse como heroína relutante.
Disse como mãe.
E algo mudou ali.
Não foi a luz.
Foi o eixo.
Um pequeno, quase invisível deslocamento — como o instante exato antes de uma flecha deixar a corda.





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