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7 de março de 2026

[Edgelord] Mito de formação: Amellie parte 1

 PARTE I - a Professora de Ópera



[se possível leia ouvindo Amellie's Jam]

- Bem-vinda a Shén-li! O Coração do Mundo!

O entusiasmo dela é cativante.

Lady Àquela foi quem me recebeu nas muralhas que guardam o acesso ao Aro Externo. É uma mulher de beleza marcante — loira, de traços firmes e maduros. Deve ter algo entre trinta e trinta e cinco anos, imagino. Biologicamente, pelo menos vinte anos a mais que eu.

Sua armadura é impressionante. Toda trabalhada no tema da águia, com placas que evocam asas. Ainda assim, nada nela parece meramente ornamental: cada peça transmite a sensação de ter sido feita para a guerra. É um raro equilíbrio entre funcionalidade e beleza.

Quando ela se move, entende-se por quê. Lady Àquela não veste apenas aquela armadura — ela a encarna. É o próprio símbolo da Nova Guarda… de Shén-Li.

- E então? - ela fala, quebrando o protocolo. - Seja brutalmente honesta comigo!

Isso foi há dois anos atrás.

Meu nome, ao menos por agora, é Amellie Silverleaf de Yalatanil. Tenho dezesseis anos.

Passei os últimos três dividida entre cortes e igrejas, entre aventuras perigosas e uma busca desesperada por alguma forma de reverter uma maldição que insiste em me acompanhar.

Ainda assim, ali estava eu — diante das muralhas do Aro Externo — como convidada de honra da mulher mais importante de Shén-Li.

- Você não vai querer isso ... - Ameaço ela.

- Senhorita Amellie, o Conselho Regente tem alto estima em sua opinião. - Lady Àquela "A Dama do Arco", estende a mão para me ajudar a descer da carruagem. Bem militar... Bem "masculina". Devo quebrar isso...

- Certo... - despejo enfim. - Sua segurança nessa frase brega demonstra que é um Mantra!

Ela está assombrada. Eu AVISEI que ela não estava pronta.

- Bem, "Coração do Mundo" é nosso lema. - ela defende. - Todos no Reino recebem visitantes com isso.

- Você faz isso há Dez anos?, imagino...

- Quinze. - ela me corrige. Eu sabia que eram quinze. Eu errei de propósito. Quero que o tempo seja bem assimilado.

— Sua fala não hesita. Já soa natural, quase instintiva. O seu gestual é cativante… mas… — faço uma breve pausa e então aponto. — Os olhos se entregam.

Indico com o dedo as belas safiras que brilham em seu rosto.

- Os "olhos"?!? - ela parecia confusa.

- Você fala, mas não "compra" a mensagem. Não acredita nela. - concluo.

Ela recupera a compostura. Se torna uma militar de repente. Busca refúgio onde ela se sente segura... Devo definitivamente tirar isso dela.

- Talvez seja sua presença aqui....

- Explique... - eu estimulo.

- "Coração do mundo" soa... Imperialista. - ela confessa enfim. - A forma que nos referimos ao resto do continente... "Zonas Selvagens"... Acho que temo ser julgada.

Não era isso...

- Hmm... É isso. - eu sorrio.

- Agora você... Amellie Silverleaf, escriba da Igreja da Perseverança, que derrubou um titã e destruiu o Império de Caruthers...

— Não devem ter muitos bardos na sua companhia. Nós só damos suporte aos pesos-pesados — digo, com uma falsa modéstia que não faço muita questão de esconder. — O Monsenhor foi quem fez o trabalho pesado.

Dou de ombros, quase despreocupada.

— Aliás, a Igreja se formou depois da queda do Império… por causa da queda do Império. Eu só fiquei com a parte burocrática. — Inclino levemente a cabeça. — Se já conheceu um arquivista, sabe bem como somos chatos.

Ela acha que eu não vi o brilho no olhar dela. Achava que eu não sabia de nada, inocente. Mas eu tinha feito a lição de casa. Nada iria me surpreender.

- Bem, de uma "lenda" para a outra... - ela fala. - Bem-vinda a Shen-li, Senhorita Silverleaf. genuinamente. Eu estou nas suas mãos. Como Capitã e como aluna.

- Certo. - eu sorrio. - Então, vamos começar com o lendário Castelo Negro.

A mão dela vai instintivamente aos arreios de seu cavalo.

- ... Como uma DAMA! - interrompo ela. - A capitã está de licença de imediato. - Aponto para uma fila de soldados. - Pegue alguns para guiar minha... Melhor: NOSSA carruagem. Abrir as portas, e tudo mais.

- Eu... Adoraria. - fala enfim.

— Só evite o cadete número sete… — digo, apontando discretamente. Meu olhar clínico captara algo… estranho. — Está fora de formação.

A capitã reage como uma águia que avista movimento no campo. Vira-se imediatamente para onde indiquei. A linha inteira de cadetes se recompõe num estalo.

— Eu… vou dar um jeito naquele cadete.

Foi fabuloso de assistir.

Ela marchou na direção deles como uma general — ou talvez uma deusa da guerra — e parou bem diante do garoto que eu havia notado. Ele claramente acabara de assumir posição. O elmo estava torto, um passo adiantado demais, e o rapaz suava como se estivesse prestes a enfrentar um dragão vermelho. O Monsenhor teria uma síncope ao vê-lo.

— Cadete, apresente suas armas!

Ele melhorou um pouco. Estendeu a lança cerimonial com firmeza aceitável. Ainda assim, havia algo estranho: os outros jovens da fileira pareciam conter um sorriso. Havia um ar de zombaria no ar. Eu estava perdendo alguma coisa.

— Cadete — continuou a capitã — o Capitão Khao concedeu sua licença de uma semana, conforme programado?

— Sim, senhora! — respondeu ele, seco e marcial.

Àquela percebeu o murmúrio contido ao redor. Vi surgir em seus lábios um pequeno sorriso — o tipo de sorriso de quem aprecia um certo… exercício de autoridade.

— Então você vai nos acompanhar na saída da cidade e depois seguirá para a casa de sua família. Estou errada?

— Sim… Não! Digo, não senhora!

O pobre diabo estava completamente perdido.

— Então vai ser meu escudeiro nesta viagem. Vai guiar meu cavalo ao lado da carruagem… e vai defender a convidada com a sua vida. Entendeu?

— Sim, senhora!

— Gosto de como você me chama de “senhora”, cadete.

Ela parecia crescer diante da formação inteira.

— Mas quando estiver oficialmente de licença… vai me chamar de "mamãe".

A fileira inteira quebrou. Risos sufocados escaparam apesar de todos os esforços heroicos de disciplina. Sem sucesso.

Tenho quase certeza de que o cadete sete encolheu uns dez centímetros de pura vergonha.

- Que tal isso? - Àquela fala. - Domínio, autoridade...

- Fabulosos... - Eu aplaudo simbolicamente. - Mas não sabia que você era "dessas".

- "Dessas"?!?

- O "Cadete mamãe" tem idade para ser seu filho... - Eu comento. - É legal aqui em Shén-li? Devo comunicar alguém?

Eu vejo Lady Àquela, A Arqueira Lendária, a campeã do Levante de Lord Blunt, ficar vermelha como as escamas de Pyrros.

- Pelo amor de Aetíades, não é isso!!! - ela urra. - O que você pensa de... BENTHO! O Cadete Mamã... O Cadete Sete é meu filho! Digo, de sangue, vida real! Acabou de entrar na guarda! Sentido Bentho!

Os colegas de Bentho, bem como alguns mais veteranos se caem de rir. Cadete Sete para o que estava fazendo e posta-se em posição de sentido. Acho que herdou muito mais do pai, mas percebo a simpatia materna nele.

- Isso explica... - eu provoco. - Vou ficar de olho no "Cadete Mamãe" para você, milady.

---

Oficialmente, eu estava em Shén-li para ajudar na tal “chancelaria da fronteira”.

Com o Império de Caruthers reduzido a cinzas, reinos novos estavam surgindo por toda parte. O Conselho Regente queria transformar antigas “Terras Selvagens” em parceiros — e a Igreja da Perseverança, recém-fundada por Monsenhor Capri, era uma dessas pontes.

Eu mesma tinha ajudado a organizar a Igreja. Divulgar a palavra de Cartallas, negociar com nobres hostis, resolver problemas deixados pela Era do Fogo Frio… até convencer Lady Ydal a tolerar nossa presença em suas terras. Era o tipo de currículo que fazia diplomatas suspirarem.

Então me mandaram treinar Lady Àquela.

A Arqueira Lendária era a face perfeita da Nova Guarda — respeitada, admirada, quase impossível de odiar. Se alguém poderia abrir as portas de Shén-li para o resto do continente, era ela. Mas um velho senhor feudal de Yoriki não se impressiona com uma flecha oportuna no Senhor da Escuridão.

Esse era o motivo oficial.

O motivo real era outro.

O Conselho Regente não confiava totalmente na Nova Guarda. Encontros estranhos, rumores, pequenas inconsistências. Nada concreto — mas suficiente para levantar sobrancelhas.

Então me enviaram para observar.

Uma missão dentro da missão.

... E olha que eles nem imaginavam que eu já sabia sobre Estebán.

---

Eu janto toda a noite com Lady Àquela e sua família. Ela é bondade pura no coração... Este reino não merece alguém como ela. Bentho, o "Cadete mamãe", é extremamente empolgado, mas está intimidado por eu estar aqui. Guarda tudo o que está pensando por causa da "estranha"... Exceto uma coisa:

 O quão desconfortável é seu pai.

 Estebán é um "arquivista", como eu.. Ironia. Seu comportamento é o típico calado, sisudo, sempre ocupado. Chega tarde para as refeições e sai antes de todos. Para um garoto de... Chutaria 15 anos... Ele queria alguém ativo e másculo, como aquele brutamontes do Capitão Khao. Pobre coitado... Bem, cabe à família, não a mim, mostrar como ele estava errado.

Manhãs: nossas aulas são Couture e Poise. Pausa, retoma com Diálogo. Um pouco de etiqueta feminina... para salões chauvinistas. À tarde, debate e Oratória para salões não tão chauvinistas. Ela precisava saber impor Shén-li. Era difícil. Ela é amável e buscava aceitar os outros... Precisaria tirar isso dela também.

Mas o período seguinte, a tarde começava com... Actour

Roleplay.

Ela precisa COMPRAR o que vende. Não só repetir "bem-vindos a Shén-li, o Coração do raio-que-o-parta"! Precisava entrar na Personagem. Ser alguém que olha o abismo e manda cair dentro.

— Cena! — anuncio, batendo palmas uma vez. — Você recebe dignitários estrangeiros. Todos octogenários. E todos parecem mais interessados nas suas pernocas do que no tratado de cooperação que você deveria apresentar… o qual você mal compreende.

Àquela pisca, pega de surpresa.

— T-tem algum palanque? — pergunta. — Algo para me esconder? Ficar só da cintura para cima?

Inclino a cabeça.

— Você tem certeza que quer fazer isso?

Não era exatamente um desafio. Era uma escolha. Usar as pernas como arma… ou removê-las da equação. Não havia resposta errada, exceto se tomasse e se arrependesse.

Ela pensa demais.

— Eu consigo…

— Fale como o personagem! — corto imediatamente. — Nada de general pensando antes da batalha.

Ela se enrijece.

Então bato palmas de novo.

— Evento aleatório! — anuncio. — Alerta de intrusos. Gritos de batalha. O palácio está sendo invadido. Já estão no corredor.

Àquela não hesita dessa vez.

— Eu pego o palanque e arrasto para bloquear as portas!

Ah, aí está.

— Você consegue. Fácil — digo. — A porta está lacrada. Mas os dignitários… velhos, frágeis… estão em pânico.

Ela vacila outra vez.

— Mas… acalmar os dignitários é o correto? Instinto de preservação…

Perdi ela de novo.

Empurro uma cadeira simples para o centro da sala.

— Nova sidequest. Sua missão agora é mantê-los vivos. Suba e faça um discurso.

Ela encara a cadeira.

— Para acalmá-los? Prepará-los?

Balanço a cabeça.

Escolher é parte do jogo.

Ela ainda está pensando quando—

Então, "Clang".

Um escudo de enfeite no corredor é derrubado ruidosamente, anunciando um espião. Àquela fecha o cenho.

- Apareça, Bentho! - ela fala impaciente.

 Eu demorei a lembrar, mas de repente, lá estava o Cadete Mamãe.

- E-Eu ouvi gritos... - ele tenta justificar.

- Eu estou ocupada com aulas.

- de quê? - ele pergunta.

A Arqueira Lendária, campeã de batalhas, heroína do Levante… parece subitamente uma estudante pega colando.

— De… — ela começa.

Pausa.

— Ópera!

"Opera"? devo ter levantado uma sobrancelha.

- Eh, faz sentido... - Bentho assente com uma seriedade impressionante. - Me perdoe por...

— "Cadete mamãe" — digo rapidamente — poderia ficar um momento?

- Tem... Certeza, Senhorita Amellie? - havia censura no olhar dela. Ela não queria expor tanto suas fragilidades, ou do seu governo? 

- Você não vai poder sempre escolher a... "Audiência da ópera". - Por que em nome de Bophades ela escolheu "ópera"? - Você está envergonhada com o julgamento dele? Ótimo! Temos que quebrar sua vergonha! até onde ouviu, Cadete mamãe? envergonhe a Dama do Arco!

- Bem... - ele introduz até onde ouviu. - Na sua música, invasores estavam no portão. Precisa lidar com alguns homens indecorosos ou ...

- Bom, vá até aquela cadeira, e tome o lugar de sua mamãe...

Ele obedece, duro como se soubesse que ia receber uma reprimenda quando eu saísse. Vejo as safiras nos olhos de Àquela brilharem com reprovação silenciosa.

— Então, cadete — digo —, o que faria?

— Quantos deles podem lutar? — ele pergunta.

— Nenhum. — respondo. — Todos são velhos.

Ele franze o cenho.

— Mas a vida deles está em risco!

— Bentho… — murmura Àquela.

— É o cenário — respondo. — Velhos amedrontados. Proteja-os.

Ele sobe na cadeira.

— Não!

Silêncio.

— Eu… não sei que discurso faria… — diz ele. — Mas eles deveriam lutar! Eu daria minha vida por eles… mas não aceito que eles nem tentem!

Ele olha ao redor, procurando algo.

— Eles deveriam pegar pedras! Paus! Ou—

CRACK

Ele pisa na cadeira.

A cadeira quebra.

Bentho segura uma das pernas como se fosse um cacetete.

— Ou ISSO!

Silêncio absoluto.

O garoto percebe, de repente, o que fez.

— E-eu… desculpe… — começa a tentar remontar a cadeira.

— Você ia distribuir pernas de cadeira para os velhos imaginários? — pergunto, séria.

— Mãe, senhorita Amellie, eu—

Eu o abraço.

O pobre coitado não sabe o que fazer com as mãos.

— Cadete mamãe… você comprou a ideia!

- O ... O que?!? - Àquela olha, num misto de assombro... e inveja.

— Imaginação — declaro. — Esse é o combustível. Você acredita no cenário… e todos acreditam com você. Cadete Mamãe... Aceitaria ser meu segundo aluno de... Eh... Ópera? Sua mãe precisa de um parceiro, e eu de uma musa!

Continua

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