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7 de março de 2026

[Edgelord] Mito de formação: Amellie parte 2

 Parte 2 - o Devorador de Nomes


 Foi a melhor idéia que eu já tive. Àquela estava acostumada a ser reverenciada, agora era uma competidora pela atenção da professora.

 E surpreendentemente, Cadete Mamãe tinha personalidade. Entusiasmo. Em pouco tempo era meu melhor aluno, e com isso levantava a barra mais para o alto. Como um monitor, eu tinha uma segunda voz para Àquela treinar. Ensinei ele a estender a vocalidade a ponto que ele podia razoavelmente imitar outros.

 Seria um bardo de razoável-a-bom, se não tivesse colocado na cabeça que seria um paladino de Shén-li.

Mas isso eram as tardes. As noites, eu queria um tempo para mim.

 O Palácio da Nova Guarda era muitas coisas — fortaleza, quartel, tribunal — mas definitivamente não era um bom lugar para um bardo entediado.

Não havia instrumentos para dedilhar. Nem músicos pelos corredores. A biblioteca, quando enfim a encontrei, revelou-se pouco melhor: fileiras intermináveis de tratados técnicos. Logística militar. Manutenção de armaduras. Arquitetura de muralhas. Estratégias de patrulha. Tomos grossos e severos, escritos por homens que pareciam desconfiar profundamente da ideia de entretenimento.

Suspirei e puxei um volume ao acaso.

Bandoleiros nas Estradas de Lian-Zhou: Relatório das Campanhas de Lord Blunt.

Nada leve. Mas era o menos árido que encontrei.

Abri o livro e comecei a folhear distraidamente. Relatos de emboscadas, rotas de contrabando, nomes de líderes de bando. Aos poucos, parei de ler o texto e comecei a imaginar as lacunas. Quem eram aquelas pessoas antes de virarem bandidos? Que tipo de vida levava alguém a escolher as estradas e o risco constante da forca?

Talvez desse uma boa história.

Eu já estava inventando diálogos inteiros na cabeça quando uma sombra caiu sobre a mesa.

Um livro pousou diante de mim.

Levantei os olhos.

O arquivista-chefe Estebán ocupava a cadeira oposta com a tranquilidade de quem sempre soube que chegaria naquele momento.

— É a coisa mais lúdica que temos — disse ele.

Olhei para o volume.

Capa de couro vermelho, claramente artesanal. As bordas gastas pelo manuseio, mas bem cuidadas. Não parecia um tratado. Nem um manual.

Passei os dedos pela lombada.

— Capa feita à mão… — comentei. — Um diário?

— Leia a antecapa.

Abri o livro.

A primeira página trazia uma caligrafia elegante, serifada, quase cerimonial.

O Devorador de Nomes.

Ergui uma sobrancelha.

— O menestrel Cyrak nunca escreveu esta epopeia. — folheei mais algumas páginas, mas soava reepreensível. — Parece… apócrifo.

Estebán se recostou na cadeira.

— O autor foi testemunha ocular. — disse simplesmente. — Está no direito de relatar. Guardou o manuscrito por muitos anos como lembrança.

Fez uma pequena pausa.

— Sabe declamar o discurso final? Quando Cyrak confrontou o Devorador… enquanto Lord Blunt se esgueirava para dar o golpe decisivo?

Fechei o livro por um instante, pensativa.

— Pelo que ouvi… Cyrak improvisou tudo. — respondi. — E nem conseguia repetir o discurso depois que o monstro caiu.

Estebán inclinou levemente a cabeça.

Então começou a recitar.

"Eu sou Cyrak, o Conquistador 

o eco nas cortes douradas,

o sussurro que antecede rebeliões,

o verso que fez reis ajoelharem e amantes se levantarem.


Meu nome não é uma palavra.


É um refrão.”

— O senhor leu isso recentemente? — perguntei.

— Não abro esse livro há vinte anos. — Estebán respondeu sem hesitar. — Amaldiçoado com memória eidética.

Ele apoiou os cotovelos na mesa, como quem consulta uma estante invisível.

— “Eu sou excesso. Sou hipérbole encarnada. Sou metáfora ambulante. Sou a vírgula que impede o fim da frase. Tente me nomear — e verá que meu nome se multiplica.”

Folheei o manuscrito rapidamente.

Ipsis litteris.

— Cyrak enfrentou um ser ancestral que devora egos — comentei, passando os olhos pelas páginas. — E, em vez de ocultar o nome verdadeiro… ele o berrou. Entregou tudo. Ego, história, identidade. Fez um devorador de existências ter indigestão.

— Enquanto isso… — completou Estebán — o estoico Lord Blunt compartimentava o próprio ser. Atrás de pseudônimos. Dentro de uma mente labiríntica. Avançando como uma muralha de ferro frio.

Assenti.

— Uma aliança improvável.

— Uma aliança de necessidade. Uma aliança dada ao Ocaso. — corrigiu ele. — Dois dos poucos seres no mundo capazes de enfrentar aquela criatura.

Fez uma pausa.

— Mas sabe qual foi a lição que Lord Blunt tirou disso?

Levantei os olhos do livro.

— Estou curiosa.

Estebán inclinou-se um pouco sobre a mesa. O gesto era pequeno, mas tinha algo de predatório.

— Cyrak é perigoso.

A frase ficou no ar entre nós.

— Mesmo se Cyrak gostasse dele? — retruquei. — Mesmo se admirasse aquele campeão das trevas marchando contra o mundo?

Estebán apoiou o queixo na mão.

— Eis a parte mais triste. - Seus olhos se perderam por um instante em algum ponto distante da biblioteca. — Cyrak nem precisa querer causar mal. Ele apenas… causa.

Fez um pequeno gesto com a mão, como quem folheia décadas.

— Bearlord. Cardulion. Cahuthers. Cinco reinos antes dos quinze anos.

Ele me olhou de novo.

— E viveu oitenta e sete.

Baixei o olhar para o manuscrito. Era uma análise incômodamente boa.

Depois de um tempo, falei:

— Sentimos sua falta no funeral do mago.

Estebán não respondeu imediatamente.

— Eu não pude ir. — disse por fim. — Não posso deixar o castelo.

Fez uma pequena pausa.

— Mas fui correspondente de Myrlen nos últimos anos. Quando a doença começou a avançar.

Ergui os olhos.

— Todos esses anos?

— Amizades como aquela são difíceis de conquistar. — respondeu. — E deveriam ser preservadas.

Se recostou na cadeira, pensativo.

— Assombroso como Cyrak conseguiu desperdiçar a dele.

O silêncio se estendeu entre nós.

— Nos últimos anos — continuou ele — Myrlen se arrependeu de muitas coisas. Do mal que fez. Do mal que permitiu. Mas acho que você já sabe disso.

— Sim… — murmurei.

Normalmente eu teria uma resposta pronta. Uma observação espirituosa. Um comentário capaz de desmontar o clima pesado da sala.

Agora não tinha nada.

Estebán me observou por alguns segundos.

— Eu não sou tolo, senhorita Silverleaf. — disse finalmente. A frase não era acusação. Nem exatamente ameaça. — Estarei sempre com minha guarda levantada.

Ele empurrou o manuscrito um pouco mais para perto de mim.

— Mas Myrlen sentia, ao mesmo tempo, arrependimento… e orgulho de Amellie Silverleaf.

Fechei o livro com cuidado.

A encadernação era simples: couro e costura firme, feita com precisão quase acadêmica. Nada ornamental, mas impecável.

Narrado pelo próprio Lord Blunt.

Valia uma pequena fortuna.

O Conselho Regente provavelmente daria cambalhotas de indignação ao descobrir que aquele manuscrito havia saído das muralhas do castelo.

E agora estava nas minhas mãos.

{Ouça o Monólogo de Cyrak que destruiu o Devorador de Nomes em SUNO.COM}


Metade da manhã já havia passado. Depois das aulas de Couture e Poise, a sala ainda cheirava a incenso leve e tecido recém-passado. Eu ajudava Àquela a recolher almofadas e alinhar cadeiras para a segunda parte das lições.

Ela estava inquieta. Não era difícil perceber.

A arqueira lendária, a capitã da Nova Guarda, a mulher que enfrentara monstros e generais… estava nervosa como uma debutante.

Finalmente criou coragem.

— A senhorita viaja muito, obviamente — disse, ajeitando um pano que já estava perfeitamente alinhado. — Não pensa em… se acomodar algum tempo?

Levantei os olhos.

— Tipo… em Shén-li?

Oficialmente, era minha primeira visita à cidade.

Oficiosamente… eu poderia ensinar a ela onde ficavam os verdadeiramente melhores bares, os becos mais barulhentos e os músicos mais interessantes. Conhecimentos herdados de uma outra vida, enterrada sob camadas de tempo.

— Eu penso que… — ela continuou, escolhendo as palavras com cuidado — você é o pacote completo. Refinada, culta, aventureira… e não tem medo. Viu boa parte do mundo. Deve ter uma carta de pretendentes…

Soltei uma pequena risada.

— Que é isso! Olhe para mim. Eu tenho só…

Olhei para mim.

Minhas mãos.

A altura da mesa.

Dezesseis anos.

Nossa.

O tempo voou.

Por um instante senti algo estranho — como se uma memória antiga tivesse tropeçado dentro de mim e caído de cara no chão da realidade.

— Vou ser direta então — disse Àquela, tão nervosa que nem percebeu minha pausa. — Não sei se reparou no Bentho… mas eu suspeito que—

— Poderia me dar um segundinho?

Não esperei resposta.

Saí do salão.

O corredor estava fresco e silencioso. Caminhei alguns passos até parar diante de uma janela estreita, olhando o pátio da Nova Guarda.

Respirei fundo.

Uma vez.

Duas.

Aquilo estava ficando perigoso.

Não o tipo de perigo que envolve monstros antigos ou duelos em pontes estreitas.

Outro tipo.

Bentho com sua sinceridade desajeitada.

 Àquela tentando parecer composta enquanto claramente conspirava como uma mãe orgulhosa.

 As aulas. As conversas. As risadas.

Família.

A palavra ecoou na minha cabeça como um sino rachado.

Eu já tinha visto esse padrão antes.

Eu chegava.

 Encantava.

 Agitava o mundo ao redor.

E então as coisas… quebravam.

Reinos. Amizades. Confianças.


Castelos-fortalezas não costumam ter os luxos de uma mansão, mas aquele tinha um pequeno lavabo separado do banheiro.

E o lavabo tinha um espelho.

E o espelho era meu confidente.

Passo a mão pelo peito, avaliando o volume.

“Pequenos caroços”, concluo mentalmente.

Desço as mãos pela cintura.

“Algumas curvas… mas ainda reta demais”, murmuro.

Levanto um pouco a saia e observo as pernas.

“Isso não são pernas. São salsichas.”

Então ergo o olhar.

Amellie Silverleaf me encara do outro lado do espelho. Deflorando postura delicada e olhos vivos. Para qualquer observador, ela seria simplesmente… bonita.

— Ah, não… — suspiro.

Cruzo os braços, estudando meu próprio reflexo.

— Eu sei exatamente o que estou fazendo. Catalogando defeitos, exagerando proporções, ignorando o conjunto…

Inclino a cabeça.

— Eu sou adorável.

Faço uma pausa.

— …e ainda assim estou aqui procurando problemas.

Respiro fundo, derrotada pela conclusão inevitável.

— Pronto. Confirmado.

Aponto para o espelho.

— Eu sou oficialmente uma garota.

Myrlen, o Exemplar dos Magos que me amaldiçoou, avisou que chegaria aquele momento de decisão. Se tudo desse certo, eu teria recuperado meu corpo àquela altura. Mas não. Eu fracassei.

Estava ocupada me desculpando com Cardullion, e depois adotei aquele maluco bêbado. Curei ele, o tornei um campeão, e arrumei sua igreja, e emendei daí em uma vida de aventuras por três anos. Eu vim para Shén-li por achar que novos ares me devolveriam a claridade...

... Mas acho que perdi tempo demais.

Não vejo forma de retornar, e o Mundo já aceita Amellie... Mais do que jamais aceitará Cyrak.

Escrevo uma carta para me despedir de Lady Àquela. Peço a Esteban que entregue, pois não queria entregar em pessoa e precisar me justificar.

Decido não explicar que sim, eu vi que o pequeno “Cadete Mamãe” estava caidinho por mim, por isso não concentrava na formação, nos seguia como um cachorrinho, e era o aluno mais esforçado que eu tive em quase noventa anos. E que ela daria uma boa casamenteira se a história de “ser o rosto do Coração do Mundo” não desse mais certo...

Escrevo também ao Conselho regente que não: Suas dúvidas estavam infundadas. Àquela era uma defensora do Acordo. O Palácio negro defendia Shén-li e nada mais.

Tentei me afastar.

Shen-Dao, a capital, era enorme, e um bom lugar para me esconder um tempo. E por dois anos comecei a chamar de lar.

Comecei a fazer conexões.

E então, uma noite em que fui me aventurar em Huo-fen, me deixei capturar pelos Corvos de Morval, para descobrir quem era o patrono secreto deles. Quando decidi que era hora de ir embora com o que eu consegui levantar, o destino me atrapalha outra vez.

... E lá estava eu, com o florete na garganta de outro prisioneiro...

- "Cadete mamãe?" - o jovem ficou mais alto, mais forte, mais homem. Devia ter 17 anos agora.

- S-senhorita Amellie?!?






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