MEU PAI É O MAIOR VILÃO DO MUNDO…
E MINHA VIDA ATÉ HOJE FOI UMA MENTIRA!
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Bem-vindos a SHÉN-LI.
Shén-Li é chamada de “o Coração do Mundo”, não por tamanho, mas por centralidade:
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rotas comerciais convergem ali
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decisões políticas irradiam dali
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guerras começam ali… ou morrem cedo
Há dezessete anos, antes de eu nascer, Shén-Li quase foi derrubada. Um Senhor da Guerra chamado Lorde Blunt, um ser demoníaco envolto em pesada armadura negra, ergueu-se das zonas selvagens, portando uma espada sombria que lhe concedia poderes destrutivos. Aliados à sua técnica e sagacidade estratégica, ele angariou um exército letal e seguidores terríveis. A aldeia de Huo-Fen foi saqueada, garantindo-lhe armas e suprimentos. Lian-Zhou, nossa luz de entendimento, firmou pactos de não intervenção para não ser destruída. A estrada para Wei-Kang tornou-se tão infestada de bandidos mercenários que as comunicações se tornaram inúteis. E, enfim, após isolar a capital, Lorde Blunt sitiou a própria Shén-Li.
Nenhuma força no reino conseguia detê-lo. Ele era tido como o Maior Vilão da história.
Quando Shén-Li estava prestes a cair, um ousado grupo de campeões marchou para a batalha final. O implacável Khao, Punho de Concreto, colosso das Montanhas Castanhas. Mestre Mentor Archima, que moldava a realidade no campo de batalha como se estivesse contando uma história. Balmon da Torre da Bigorna, ferreiro anão que praticamente inventou a arma de fogo como a conhecemos hoje. E, é claro, Lady Àquela, a lendária arqueira.
Um a um, esses heróis, outrora tidos como invencíveis, iam tombando diante do poder do vilão, tentando deter sua marcha. Sucumbiam em armadilhas extremamente elaboradas ou diante do poder bruto concedido pela espada negra. E quando tudo parecia perdido, Lady Àquela, a Dama do Arco, disparou sua última flecha, mudando o destino do mundo.
A heroína lendária ainda alega que seus companheiros, antes de serem retirados de combate, minguaram pouco a pouco a força do vilão, e que só por isso ela pôde desferir o golpe final. Ela é tão humilde quanto bela. Mas no Palácio da Nova Guarda, a pintura de dois metros e meio a retrata com o punho erguido, triunfante, diante do vilão crivado de flechas, ajoelhado, com o semblante respeitosamente abaixado.
Quase às portas do Palácio de Shén-Li, Lorde Blunt foi derrotado.
Eu me chamo Bentho. Tenho dezessete anos e vejo aquele quadro todos os dias antes de ir para o Forte Jian, onde me apresento para meu treinamento. Pretendo me tornar um paladino defensor de Shén-Li e sentinela permanente da Nova Guarda. E, apesar de ser apenas um cadete em avaliação, posso viver no Palácio da Nova Guarda, a fortaleza onde outrora o próprio Lorde Blunt declarou guerra ao Coração do Mundo.
Porque Lady Àquela é minha mãe.
Sim, eu ouço as provocações por isso e acho que para sempre estarei sob a sombra da Dama do Arco. Mas pior do que isso é quando alguns colegas descobrem quem é meu pai.
Senhor Estebán é um arquivista desajeitado, com roupas fora de moda, bem mais velho que minha mãe. Magro, pálido como se nunca tivesse tomado sol. Não me lembro de nenhum momento em que ele tenha deixado as muralhas do palácio, nem mesmo quando fui aceito no Forte Jian. Se viver à sombra da maior heroína do mundo é pesado, tente explicar que seu velho é esse cara… cringe.
O antigo palácio de Lorde Blunt é a única fortificação oficial fora do que chamamos de Anel Externo, um complexo de muralhas e fortalezas para impedir que outros aspirantes a conquistadores desafiem nosso reino. Mas o palácio possui muitos segredos e suas próprias defesas. Livros e tratados escritos pelo próprio Blunt são perigosos demais até para serem transportados livremente, desde técnicas nefastas até nomes de espiões e traidores espalhados por todo o reino. Por isso, a Nova Guarda, formada pelo grupo original mais um exército de escolhidos de elite, decidiu, com a bênção do Conselho Regente, que ali seria sua sede. E transferiu para aqueles salões, sob os cuidados de meu pai Estebán, informações cruciais para melhor agir.
A Nova Guarda é o sonho de todos os soldados e aventureiros de Shén-Li. Eles não são um exército enorme, mas sua eficiência é ímpar. Rastreiam antigos seguidores de Lorde Blunt, previnem cultos e focos problemáticos. Em dezessete anos, nunca tivemos nada sequer remotamente parecido com o Levante de Blunt. Hordas de bandidos ou monstros das terras selvagens evitam nossas rotas comerciais.
Mas o mais importante é que ali fica a prisão de Lorde Blunt.
Infelizmente, minha mãe não executou o vilão quando teve a chance. O Conselho Regente de Shén-Li, piedoso, achou que matar alguém rendido seria cruel. Em vez disso, confinou Lorde Blunt no topo da Grande Donjon, a torre mais alta, cujo acesso é proibido a todos, exceto capitães e sentinelas indicados que o vigiam perpetuamente. Suas paredes são de rocha com o núcleo de ferro-frio da Montanha Morta, imune a magias e a tudo abaixo da intervenção dos próprios deuses.
Uma vez, aos oito anos, escapei durante uma troca de guarda e vi aquele homem sinistro, enorme, preso à própria armadura, com movimentos limitados por grilhões encantados, vigiado vinte e quatro horas por dia por soldados da Nova Guarda, mal recebendo luz pela minúscula janela gradeada. Meu pai me repreendeu e ordenou que jamais voltasse ali. E que nunca falasse do que vi a ninguém.
Voltei umas três ou quatro vezes desde então.
E contei para todo mundo.
Do descampado à base da colina onde fica a torre, se você ficar tempo suficiente observando a janela gradeada da Donjon, tem a chance de ver o Homem Mais Infame do mundo passar de relance.
Dias atrás, os capitães da Nova Guarda se reuniram. Eu sou apenas um aprendiz, mas sou filho da Lendária Arqueira e morador do Castelo Negro. Permitiram que eu acompanhasse. Aparentemente, um discípulo de Lorde Blunt, Ga-shi, foi visto causando brigas em uma taverna de um vilarejo dentro do Anel Externo. Chegou a desafiar a guarda abertamente, diante de testemunhas. O Capitão Khao sentiu-se pessoalmente ofendido. Queria partir imediatamente para “proteger a honra da guarda” desse criminoso.
Mestre Mentor, voz da razão, observou que, após tantos anos, o ressurgimento de membros ativos da antiga horda de Blunt era estranho. Balmon adotou uma posição intermediária. Achava que Ga-shi precisava ser retirado de circulação por ser um arruaceiro com passado perigoso, mas ponderava se valia o esforço.
— Por que agora? — disse meu pai, diante dos maiores heróis de Shén-Li.
Que vergonha.
O constrangimento entre os capitães, exceto minha mãe, aquela santa, era palpável.
— Pelo histórico — continuou Estebán, o “sem-noção”, que estava ali apenas para trazer fichas e relatos dos suspeitos e ficar na dele — Ga-shi era um executor pouco brilhante. E ousaria ser visto publicamente além do Anel Externo? Ainda por cima, provocando a guarda? Ele é um oficial conhecido de Blunt. Sabe que vocês não poderiam ignorar seu ressurgimento.
— Vai ver passou vinte anos preso debaixo de uma pedra e agora quer reencontrar o chefe — ironizou Khao. Entre os capitães, ele era o que mais resmungava da presença de meu pai. Foi um dos poucos que trocou golpes diretamente com Lorde Blunt e que, não fosse por um extrato de Medusa lançado no punho dele, poderia ter vencido antes da flecha final de minha mãe. Khao decidiu usar a mão indestrutível da maldição como sua assinatura.
Daí a alcunha Punho de Concreto.
Fora Lady Àquela, ele é meu favorito da Nova Guarda.
— O… o senhor está certo, capitão — respondeu meu pai, pensativo. Na hora, achei que ele tivesse percebido a besteira de falar naquela reunião.
— Não temos escolha a não ser investigar — concluiu Mestre Mentor. — A vila fica após o Forte Shan, dentro da minha área de influência. Mas gostaria que Lady Àquela viesse junto. Ela pode intimidar algum séquito de Blunt sem escalar o conflito.
— Eu também quero ir — acrescentou o Punho de Concreto. — Caso decidamos… escalar o conflito.
— Bem, alguém precisa cuidar da parte administrativa — suspirou Balmon. — E ficar na sede.
— Por que não deixa isso com o Estebán? — riu Khao. — Afinal, ele não sai mesmo daqui.
— Khao! — repreendeu Lady Àquela.
Hoje eu sei que havia uma censura escondida naquela interjeição.
E jamais voltarei a ouvir aquele tom da mesma forma.
— Ficarei bem, senhores — disse Estebán, relevando a alfinetada. — Vocês devem voltar pela manhã com mais um prisioneiro. Aqui, será só burocracia.
Decidiu-se que os capitães e seus respectivos sectos investigariam. Originalmente, eu iria também, mas minha mãe, por algum motivo, achou que eu estaria mais seguro no palácio. Meu pai ordenou que a maior parte da guarda reforçasse a vigia de Lorde Blunt e que os restantes patrulhassem os arredores além das muralhas. Acho que ele nem percebeu quando voltei e assumi uma das atalaias internas.
Naquela madrugada, eu entendi como o sucesso nos deixa relaxados.
Um dos sentinelas da estrada não voltou para reportar. Isso, por si só, já era errado. Hesitei alguns segundos antes de sair da atalaia para averiguar. Talvez fosse apenas uma troca de turno fora de formação. Talvez alguém tivesse cochilado em serviço. Talvez eu estivesse vendo perigo onde não havia.
Talvez…
Eu quisesse ser o herói daquela noite.
Desci pelos corredores laterais, atento demais para alguém que deveria soar o alarme. Foi então que vi, de relance, três vultos atravessando o arco do salão principal.
Meu estômago afundou.
Eu deveria ter tocado o alarme.
Eu sabia disso.
Mas meus pés continuaram andando.
A coincidência só me atingiu tarde demais. A Nova Guarda inteira havia sido destacada naquela noite. Os capitães tinham partido. O castelo estava quase vazio. E alguém sabia disso.
Tudo deu errado porque eu achei que dava conta. Justificava dizendo que “não queria pagar mico tocando alarme por causa de sombras ou guaxinins”. Mas, no fundo, eu sonhava com um ladrão. E comigo o derrotando. Sendo herói por algo além de ser filho de Lady Àquela.
O salão principal parecia maior à noite.
As tochas lançavam sombras longas sobre a pintura. Minha mãe, punho para o alto. Os Três campeões... Kaoh, Achima e . E Lorde Blunt, ajoelhado. A mesa redonda no centro refletia a luz como um lago imóvel.
Três homens encapuzados estavam ali. Espadas curtas, postura relaxada demais para ladrões comuns. No peito, um broche metálico. Só depois entenderia o que ele significava.
E à frente deles… sozinho… desarmado…
Meu pai.
— Eu suspeitei que você viria esta noite, Ga-shi — disse Estebán. A voz não tremia. Não era a voz que eu conhecia.
— Eu conheço você, magrelo? — respondeu o maior deles, largo como um touro, cabelo seco e avermelhado. Ele sorria enquanto falava. Um sorriso treinado para matar. — Você não me é estranho.
Enquanto falava, os outros dois se moveram, fechando o cerco ao redor do pequeno escriba.
— Você não me conhece — disse meu pai, calmo demais. — Não de verdade. Mas eu conheço você melhor do que você se conhece. Lorde Blunt deve estar satisfeito com sua lealdade. Mas isso termina aqui.
O homem gargalhou.
— Lealdade? Eu sei que ele não está aqui.
Vi meu pai hesitar. Um único instante.
— A armadura negra é bem visível se… — começou Estebán.
— Ela também é uma armadura animada. Ele a usava para atrair assassinos — corrigiu o bruto.
— Sim… sim. Como fez nas Cavernas de Han-do. Você era um escudeiro, se não me falha a memória. Faz sentido. Isso explica muita coisa…
Um dos capangas riu.
— O velhinho sabe bastante da história do Blunt.
Meu coração batia rápido demais.
Blunt não estava na torre?
A armadura era encenação?
Meu pai cercado. Três assassinos.
Eu podia agir.
Eu devia agir.
— Então — disse Estebán — se você sabe que Lorde Blunt não está aqui… por que invadir o Castelo Negro da Nova Guarda?
— Pela espada — respondeu Ga-shi, erguendo o punho, como se esperasse que algo lhe fosse entregue.
O rosto de meu pai mudou. Pela primeira vez, vi algo parecido com raiva ali.
— Então você trai o reino… e trai Blunt também? — provocou, com desprezo na voz. — Jogo perigoso para um capanga. Tenente de terceira linha.
— Blunt está morto, e a história dele é um mito de acomodação! — zombou Ga-shi. — Shén-Li é uma farsa que vive de mentiras! — Ele apontou a espada curta para o quadro de minha mãe. — Eu lutei naquela batalha, com a “lendária arqueira”! Ela não era tudo isso! Blunt teria partido aquela rameira ao meio se ela chegasse tão perto quanto mostra o quadro!
Eu perdi o controle.
Era da minha mãe que ele falava.
Saí das sombras gritando.
Meu pai me viu. Por um instante apenas. E naquele olhar havia algo que eu ainda não entendia.
Ga-shi não se surpreendeu. Girou rápido demais. Nossas espadas se chocaram no ar. Ele era mais forte. Mais rápido. Ainda acho que poderia superá-lo com técnica, mas naquela hora esqueci tudo o que me ensinaram. Ele me jogou no chão como se eu não fosse nada.
Minha espada escorregou para longe.
Ele sorriu.
— Ah… o filho da arqueira…
Ele me conhecia.
Archima estava certo.
Estebán estava certo.
Era um ataque deliberado.
— Ele não, Ga-shi! — rugiu meu pai. — Ele não!
O bruto ignorou. Tomou seu tempo para armar o golpe que seria o fim da minha vida. Calculei as chances de esquivar ou recuperar a espada. Nenhuma parecia boa. Os capangas correram em direção ao meu pai. Talvez para agarrá-lo. Talvez para algo pior.
Eles caíram um metro antes de alcançá-lo.
Eu estava ocupado demais para perceber.
Então o mundo ficou escuro.
Não foi gradual. Não foi sombra. Foi como se alguém tivesse arrancado a luz do ar. O som de metal caiu no chão. Algo agarrou meu pé e me puxou para trás, com força e precisão impossíveis naquela escuridão.
— Já disse… ele não.
A voz não era a de Estebán.
Era mais grave.
Mais firme.
Autoritária.
— Isso… isso não pode ser… — gaguejou Ga-shi.
A lâmina cortou o vazio. Senti o vento passar perto demais. Fui puxado de novo, guiado por alguém que enxergava onde ninguém mais podia, desviando dos golpes como se fosse uma dança.
— Só siga minha voz, tenente de terceira linha — disse meu pai, guiando-me para fora da escuridão enquanto atraía o assassino.
Passos inseguros.
Respiração irregular.
Ga-shi reapareceu sob a luz pálida das tochas. Estava branco como um cadáver.
— Truques — disse ele, tentando rir, tentando se convencer. — A escuridão… a voz… Você imita bem ele…
— Você ainda não viu nada.
A confiança na voz do escriba era… atordoante.
Meu pai subiu na mesa. Estendeu a mão em direção ao quadro. O quadro da glória de minha mãe sobre o maior vilão do mundo. A parte superior, felizmente longe das figuras, explodiu em fragmentos de madeira e tecido quando uma longa espada negra voou de seu esconderijo direto para a mão de meu pai.
Num único movimento em arco, Estebán brandiu o artefato e conjurou um raio místico fatal a partir da lâmina. O golpe queimou a túnica negra, atravessou a couraça de couro, quebrou as costelas de Ga-shi e lançou seu corpo três metros para trás, sem vida.
O homem que eu desprezei por toda a minha vida permaneceu ali, imóvel, por quatro segundos que pareceram uma eternidade. Segurava a espada que simbolizava toda a maldade que já flagelara o reino.
No instante seguinte, reassumiu a postura acanhada e voltou-se para mim.
Ele ficou ali.
A espada negra nas mãos.
O homem que eu desprezei.
O vilão que eu temia. que TODOS achavam que era sinônimo de todo o mal.
— Não era assim que eu queria que você descobrisse, Bentho… — disse ele. — Eu sou Lorde Blunt.
Ouça o Tema l em: https://suno.com/s/wFrt36IrsM7UZdT0




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