Título: "MEU PAI É O MAIOR VILÃO DO MUNDO... E OS MAIORES HERÓIS SÃO FALHOS."
Bem-vindos a SHÉN-LI.
Shén-Li é chamado de “o Coração do Mundo” não por tamanho, mas por controle.
Há dezessete anos, antes de eu nascer, Shén-Li quase foi derrubada.
Um Senhor da Guerra chamado Lorde Blunt ergueu-se das zonas selvagens, portando uma espada sombria que lhe concedia poder devastador. Aliados à sua técnica e sagacidade, ele reuniu um exército, saqueou cidades, quebrou alianças e cercou a capital. O mundo se preparava para cair.
E então, como toda boa história exige, heróis surgiram.
Vieram de terras distantes. Fortes. Treinados. Convictos de que força suficiente bastava para vencer o mal. Um monge que suportava mais do que qualquer homem deveria. Um mago que dominava os segredos do campo de batalha. Um ferreiro que prometia armas capazes de mudar o curso da guerra. E uma arqueira local.
A batalha final aconteceu onde o mundo gosta que batalhas finais aconteçam: às portas da capital, sob o olhar atento da História.
Um a um, os heróis tombaram. Quando tudo parecia perdido, Lady Àquela disparou a flecha que mudou o destino do mundo. Lorde Blunt caiu de joelhos. A Espada Negra foi perdida. O vilão foi derrotado.
Essa é a versão oficial.
A versão que se espalhou.
A versão proibida de ser questionada.
A versão que ninguém fiscaliza.
Desde então, Shén-Li vive em paz.
Uma paz eficiente.
Uma paz mantida por capitães que sabem o que procurar.
Uma paz protegida por uma Guarda que acredita que o maior mal já foi vencido. E ninguém ousa dizer o contrário.
Eu me chamo Bentho. Tenho 17 anos e vejo aquele quadro da versão oficial todos os dias, antes de ir para o Forte Jian. E acredito que, neste exato momento, os heróis que sempre admirei estão pensando em pintar uma versão mais “light” desse quadro, mas comigo como protagonista.
**
— “Relatório preliminar”... — anunciou Mestre Mentor Achima, depois que o salão ficou vazio demais para parecer honesto. — “Escudeiro Bentho, filho de Lady Àq…” (a verificar se vale a pena enfatizar ou não parentesco, nepotismo), flagrou três agentes renegados de Lorde Blunt tentando invadir a fortaleza, numa vã tentativa de resgatar seu senhor. Salvou o arquivista Estebán, feito refém. Neutralizou a ameaça com elemento surpresa, treinamento adequado e coragem além do dever. Sem baixas da Guarda.
— Isso não vai se sustentar... — rosnou Khao, o Punho de Concreto, com o braço petrificado apoiado na mesa como um martelo esquecido. — Ga-shi não era um saqueador comum.
— Não precisa se sustentar. Nada disso nunca precisou! — respondeu Balmon, o armeiro, quase reativamente, acomodando-se na cadeira grande demais para o anão. — Só precisa existir tempo suficiente para virar verdade.
Àquela não disse nada. Observava Estebán, que ajeitava o colarinho rasgado com uma calma quase ofensiva. Ela estava preocupada, especialmente agora que eu estava envolvido também. Khao fora o primeiro a entrar e ver a cena improvisada por Estebán e por mim. E provavelmente teria feito algo mais impensado… algo que ele sonha há dezessete anos… se os cadetes que o acompanhavam não começassem a me aplaudir.
— “Os cadetes auxiliares da Nova Guarda…” — continuou Achima, pigarreando para recuperar a palavra e a atenção dos quatro que o ouviam — “…foram instruídos a não espalhar o ocorrido.”
Khao bufou.
— Então amanhã todo mundo vai saber.
— Exatamente — disse o magae, sem ironia. — O segredo da mentira é esse. Proibida o bastante para parecer importante. Livre o bastante para se espalhar sozinha. Por isso aquela armadura aparece a cada dois dias na janela, e cadetes novatos pensam que não sabemos quando eles, curiosos, se infiltram na Donjon para ver Lorde Blunt preso.
Houve um silêncio curto. Denso. Khao o quebrou, como costuma quebrar tudo.
— O Conselho Regente… isso precisa ser reportado. E não se espantem se decretarem mudanças.
As palavras pesaram mais do que deveriam. Toda a estrutura de defesa e segurança de Shén-Li girava direta ou indiretamente em torno da infalibilidade da Guarda e da colaboração-prisão de Blunt.
— Se reportarmos — adiantou Balmon — o status de Estebán pode ser revisto. Prisioneiro com regalias é um acordo frágil. O Conselho pode decidir… endurecer.
— Ou revogar — completou Khao, nem tentando esconder um sorriso malicioso. — E então o vilão volta a ser oficialmente um vilão. Como, sejamos sinceros, nunca deixou de ser.
Estebán levantou os olhos pela primeira vez.
— Achima — disse ele, com educação. — Você é um homem prático.
O Mestre Mentor não gostava quando diziam isso em voz alta.
— Ga-shi está morto. Fato frio. Prático — continuou Estebán. — A ameaça imediata acabou. Você deduzirá isso sozinho ao pensar um pouco sobre nossa situação. Concluirá que não há risco iminente e recomendará cautela ante perguntas inconvenientes. O Conselho Regente o ouvirá.
Achima fechou os olhos por um instante. Era irritante quando alguém lia seus relatórios antes de serem escritos.
— Balmon — Estebán virou-se um pouco para o anão. — Você construiu uma vida confortável aqui. Respeitado. Bem pago. Nunca votaria por mudança quando o status quo te favorece. E o Conselho confia em você.
Balmon abriu a boca para negar. Não conseguiu.
— E você… — Estebán finalmente olhou para Àquela.
Ela sustentou o olhar. Firme. Antigo. A Dama do Arco. A gloriosa salvadora do reino. A garota-propaganda.
— Jamais votaria contra mim, mesmo se eu estivesse errado. E, no fundo, sabe que eu não estou — disse ele, sem arrogância. Como quem constata o clima, não quem tenta fazer chover.
O silêncio que se seguiu não foi de discordância.
Foi de reconhecimento. Uma articulação tácita que quase toda aquela cabala de conspiradores estava confortável em assumir.
Khao bateu o punho de pedra na mesa. Não forte o bastante para quebrá-la, embora forte o bastante para deixar a marca. Pois, no impasse, ele era voto vencido.
— Então é isso? — disse ele, revoltado. — Dezessete anos e vocês já esqueceram o que ele é?
Àquela respondeu antes que Estebán pudesse.
— Não esquecemos. Escolhemos lembrar de outra coisa. Você se lembra de um breve período dezessete anos atrás… nós lembramos de dezessete anos de paz, cumprindo os acordos. É isso que escolhemos lembrar.
Khao levantou-se. Grande. Rígido.
Sozinho.
— Eu não escolhi nada disso — disse, por fim. — Eu ainda vejo um inimigo entre nós.
Estebán inclinou levemente a cabeça.
— E é por isso, Khao — falou com suavidade perigosa — …que você ainda está segurando aquele dia, como se seu punho fosse imóvel.
Khao saiu sem responder.
Os outros ficaram.
A mentira estava salva.
Por enquanto.
No corredor, longe dali, eu encostava na porta do quarto, ouvindo passos, vozes abafadas…
Eu era o “herói da hora”, e já planejavam uma festa para comemorar meus feitos na manhã seguinte. Mas eu precisava continuar em meu posto pelo resto da noite, talvez para acertarmos detalhes da história. Por isso, vigiava a entrada.
Eu já sabia.
E agora testemunhava como a Nova Guarda agia entre as aparições públicas e os atos heroicos cirúrgicos.







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