23 de setembro de 2026

EDGELORD - Cap. VI - Arco da Perseverança

 A primeira vez que o sangue de Khao correu frio foi aos dezessete anos.

Aos catorze, ele já era uma lenda entre os seus: o garoto-problema que deu o golpe de misericórdia no Grande Carneiro da Montanha, o rito sagrado dos bárbaros. Aos dezessete, sem nenhum guerreiro na tribo que conseguisse mantê-lo no chão, ele subiu a colina rumo ao povoado sob o Castelo de Bearlord procurando o que faltava em seu lar: uma briga de verdade.

Ele espancou alguns soldados rasos e, então, encontrou "o homem". Não um guerreiro de peito aberto como os seus, mas uma montanha revestida em cota de malha, empunhando um martelo de guerra. Lembrava-se de um dos fracotes chamá-lo de “Sargento”. O resto do nome se perdera.

Khao lembrou-se do som de suas próprias costelas estalando antes de ser arremessado do penhasco. Lembrava-se da queda, da água gélida do rio e, depois, do silêncio.

O cheiro de incenso substituiu o cheiro de sangue.

Khao despertou sobre uma maca rústica num monastério distante rio abaixo. Um monge de túnica pálida lhe disse que fora um milagre ter sobrevivido às águas.

Khao pediu para ser aceito entre eles, os Monges do Caminho do Punho de Pedra, que seriam exterminados por Teth Ymosso anos depois. Ajoelhou-se e jurou devoção, fingindo que queria retribuir a salvação. Mas, por trás dos olhos cerrados, o jovem bárbaro só pensava em uma coisa: aprender o caminho dos forasteiros para voltar e quebrar o cabo daquele martelo na garganta do Sargento.


— [Isso é muito inconveniente!] — Gladys falou em minha mente, ressaltando o óbvio.

Xitarro voltou à janela alta, por onde conseguia ver além das muralhas externas. O Capitão Khao andava de um lado para o outro no pátio de pedra, como uma fera que encurralara suas presas.

— Nenhum tenente?!? — perguntei.

— Ele está sozinho! — Xitarro respondeu lá de cima.

— Eles devem estar cercando a fortaleza para nos pegar se sairmos pelos fundos — deduzi. — Conseguimos despistar meu pai, mas o Khao está cagando para jurisdição.

— ... E... — Xitarro pendurou-se ligeiramente para me olhar por cima do ombro. — Que papo é esse de "Sargento"?

— Ah, eles espalharam que eu cuidei de Ga-Shi e dos infiltrados dele — expliquei, dando um de ombros sem modéstia. — Vai ver me promoveram e esqueceram de avisar. Ele bem que podia ter dado as boas-novas lá em Hálcora...

Xitarro encolheu a cabeça num golpe só. Pela cara dele, Khao devia ter olhado exatamente na direção da janela.

Ao nosso lado, o mendigo que arrastáramos pelas ruas finalmente decidiu se mexer. Ele se sentou na cama improvisada, esfregou as sobrancelhas com violência e...

... Fez as duas mãos brilharem em uma luz dourada e suave.

— Isso é Lay on Hands?!? — espantei-me, dando um passo para trás. — Você é um colega paladino, cavaleiro de Cartallas, agregado?

— Dentre outras coisas... — ele resmungou. A voz, pela primeira vez, saiu limpa e firme, embora arrastada. — Não ajuda em nada com a ressaca, o que é uma merda...

— Bem, você deveria ter pensado nisso antes de devastar todas as tavernas do povoado! — tomei a postura de moralista. — É essa a imagem que o Deus da Perseverança quer passar para o mundo?

— Eu persisto, não persisto? — ele retrucou, largando os braços sobre os joelhos.

— Olha, não conheci o Monsenhor de vocês, mas conheci Jack Filler, o Capitão Lizzo — argumentei, compenetrado. — Ele me contou como estava destruído física e espiritualmente e como esta igreja o colocou de pé novamente. Ele é imensamente grato ao Monsenhor. Então, sou obrigado a supor que ele ...

— Não suponha — o "mendigo sóbrio" me interrompeu, encarando-me nos olhos. — Ele ainda é um cuzão.

Fechei o cenho diante de tanta impiedade.

— Ótimo, todos a postos pelo que vejo! — Rúnvald aproximou-se carregando duas espadas nos braços. A visão animou Xitarro a descer da parede e se juntar a nós. — Temos sete acólitos, Sir Veneg da Torre do Martelo, o escudeiro dele... e agora nós dois. Mas acho que esse homem com mão de pedra não pretende entrar.

— Aquele lá fora é Khao de Shén-Li — adverti. — Capitão da Nova Guarda. É casca-grossa!

— Não dá para mandar prendê-lo? — Xitarro arriscou, orelhas baixas. — Por... sei lá... balbúrdia?

— Vocês prendem pessoas por "bagunça" na terra de vocês? — Rúnvald encarou o monge com genuíno espanto. — Isso é ser o "Coração do Mundo" ou "Coação do Mundo"?

— Deixem comigo — dei um passo à frente, inflando o peito. — Ele veio aqui por nossa causa. Mas o Xitarro vai resolver isso agora.

Xitarro assentiu com a cabeça, solene.

Aí a ficha caiu. Ele piscou.

— E... E-EU?!?

— "Sistema de Rivais"! — lembrei, vitorioso. — O combinado na Montanha Morta! O Khao é o SEU rival!

— M... M-mas esse era o Plano B!

— Justo. O Plano A, contudo, era nós três lutarmos juntos — ponderei com calma. — A Amellie não está aqui e eu estou sem minha armadura, então...

O garoto-gato abaixou as orelhas até colar no crânio e engoliu em seco. Respirou fundo.

— T-tá certo... "Plano B", então.

Ele girou nos calcanhares e deu o primeiro passo em direção ao portão principal.

— Xitarro — chamei.

Ele parou, tenso.

— Estou brincando. Eu vou com você.

— Graças a Cartallas! — o monge soltou o ar de uma vez, os ombros despencando de alívio.

Empunhei a espada e passei a marchar ao lado dele rumo ao pátio. Eu ostentava um sorriso confiante no rosto, tendo a absoluta certeza de que iria morrer nos próximos três minutos.

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No corredor interno, o silêncio retornou assim que os passos dos dois garotos se distanciaram rumo às portas pesadas do santuário.

Rúnvald observou a partida da dupla por alguns segundos antes de se voltar para o homem que permanecia sentado na borda da cama. Sem dizer uma palavra, o cavaleiro firbolg levou a mão ao próprio peitoral e destacou uma peça metálica trabalhada — o fecho adornado com a insígnia oficial de Cartallas, que identificava a autoridade máxima daquele templo.

Ele estendeu a peça na direção do sujeito desalinhado.

— Ainda estou de folga — recusou o homem, afastando o fecho com um aceno seco de cabeça. — Mas vou precisar de uma armadura.

Rúnvald gesticulou com o queixo na direção dos escombros de vidro e madeira entalhada no chão do corredor.

— Não essa — cortou o veterano, massageando as têmporas para dispersar os últimos vestígios da bebida. — É só um sujeito com a mão de pedra do lado de fora. Não preciso dessa fantasia pesada. Só uma mais firme, Adamantina. E já que o desgraçado veio urrando pelo "Sargento"... traga as minhas placas antigas.



Estebán e Àquela seguiam a estrada imperial por onde Khao viera, retornando na direção do entreposto de Poeira da Estrada.

— Devo admitir que sinto pena do Capitão — Estebán comentou, ajeitando a gola e engolindo seco enquanto caminhava. — Quando ele não está obstinado em ser derrotado pelo "Maior Vilão do Mundo"... dá um jeito de tropeçar, dentre tantos sargentos do antigo império... nele?!?

— Há alguma chance dele relevar o desafio de Khao? — Àquela perguntou, ajustando a alça do arco nas costas. — Foi há tanto tempo, os dois passaram por tanta coisa desde então...

— Sabia que ele pleiteou ser um dos Exemplares no passado? — Estebán soltou um riso anasalado. — Eu e Myrlen fomos obviamente contra... E ele ficou furioso. "O Sargento" é um vulcão de orgulho e raiva precisando de muito pouco para ser provocado.

— Um... Exemplar?!? — Àquela só ficava mais preocupada.

— E só foi rejeitado por ser multiclasse, por não ter "pureza" da arte, não por falta de poder bruto. — continuou o Senhor do Sombrio, num tom divertido. — Se eu decidir vestir a Vigília Sombria e marchar contra Shén-Li de novo, posso recomendar colocá-lo na minha vanguarda... Vai ser um espetáculo épico.

Àquela encarou as torres do palácio de Bearlord ao longe, o peito apertado por uma preocupação crescente.

— Deveríamos ir lá... — ela disse, encurtando o passo.

— Nós aparecendo de surpresa no meio do caos de Khao? Primeiro: esta é a típica situação que Bentho usaria para fugir, como em Hálcora — argumentou Estebán, parando na estrada. — Segundo: Khao é orgulhoso, não vai ficar feliz com você interferindo. De Poeira da Estrada, podemos controlar e interceptar se necessário, embora Omar Yarol seja um desestímulo...

Àquela ignorou a ponderação do marido e sacou a esfera mensageira da algibeira.

— Querida, você vai contactar a Amellie?!? — Estebán estranhou, franzindo o cenho. — Isso é altamente irregular! Bentho e Xitarro podem nos flagrar!

— Eu não ligo — cortou ela, ativando o artefato. — O Khao já deve estar lá...

A imagem mágica começou a se projetar no ar e uma voz a interrompeu do outro lado da linha:

— ... Isso é altamente irregular! Bentho e Xitarro poderiam nos flagrar! — Amellie reclamou do outro lado, antes mesmo que a imagem se cristalizasse. — Ei! Àquela! Você voltou a usar uma armadura?!?

— Amellie?!? Você está nos ermos? — a arqueira estranhou, vendo a encosta pedregosa ao fundo da projeção. — Estebán pensou que vocês estivessem no povoado...

— Os meninos estão no povoado... Por sorte — a barda comentou, ajustando a alça de uma bolsa nos ombros. — Devem estar na Igreja da Perseverança... Estão seguros lá.

— Não — Àquela empalideceu, encarando o pátio da igreja à distância. — Lá é o PIOR lugar possível!



Cara... o Capitão Khao estava furioso.

Xitarro travou no arco de acesso ao pátio. Eu dei um empurrãozinho de leve nas costas dele para a gente ganhar o pátio.

— Estou com você, amigo — encorajei, embora a coragem estivesse vacilando em mim mesmo.

Ao pisarmos no pátio, o vento frio das montanhas varreu a poeira entre nós e a silhueta colossal de Khao. Segurei a empunhadura da espada com mais força do que o necessário, erguendo o queixo para sustentar o olhar do Capitão.

— Cruzamos metade do continente, Capitão Khao! — alertei, tentando infundir autoridade na voz, embora o suor frio me descesse pela nuca. — Íamos a Yalatanil ou às fronteiras de Yoriki, e você continuaria no nosso encalço como um pesadelo incansável... Se a intenção era nos perseguir até a Nova Ethiópia, saiba que a corrida acaba aqui! Nós não vamos correr mais!

Uivante, a ventania sobrenatural mais fria das Montanhas, escolheu se manifestar exatamente naquele momento. A poeira se elevou com o ar gélido, cobrindo o pátio com uma tonalidade avermelhada sob o sol forte. Khao ergueu a fronte para nós e disse, com sua voz encorpada e grave:

— Caia fora daqui, Bentho!

Eu... realmente fiquei surpreso.

— Eu disse que não iria mais...

— Só vai embora! — ele berrou, exasperado. — Passo MESES caçando vocês e, no momento em que dou uma pausa para resolver os MEUS problemas, vocês, seus pais... até OMAR YAROL brotam do chão no meu caminho!

— Omar Yarol?!? — Xitarro ergueu as orelhas num salto. — Eu ADORO os livros dele! Ele salvou a Dama Dai e carregou milhares de bebês nos...

— Capitão... — murmurei, num misto contrastante de alívio e indignação, desembainhando e estendendo a Espada Negra. — EU estou aqui! Olha a Gladys... diga "oi, Khao", Gladys.

— [Oi, Khao] — ela falou em minha mente. — [Sabe que ele não me ouve, certo?]

— O que seria mais importante para você cruzar as montanhas se não a Ledgyão? — questionei.

— Creio que seria eu... — Uma voz cavernosa e terrivelmente familiar veio de trás de nós. — Deixem os homens conversarem, meninos.

Olhamos para trás. Era o cavaleiro bêbado.

Ele trazia no corpo uma armadura antiga de placas, desgastada pelo tempo, mas perfeitamente sólida e funcional.

... E empunhava a Avalanche.

Eu quase podia ouvir os ossos da mão de Khao trincando pela força com que ele fechava o próprio punho de pedra.

— O Sargento... enfim.




Da primeira vez, ele tinha vindo até mim porque espanquei dois de seus recrutas.

Desta vez, fui eu quem fui até ele.

Caminhei sob uma chuva fria de verão. As ruas de terra do povoado estavam encharcadas, viradas em poças de água barrenta. Cheguei a cruzar com dois soldadinhos no caminho, mas os ignorei. Eles olharam feio, claro — era um bárbaro andando solto na cidade deles —, mas minha atenção e minha energia estavam reservadas inteiramente para o Sargento.

E lá estava ele. Havia envelhecido bastante em apenas um ano. Bebia com outros homens, gargalhando, fanfarrão.

Dez segundos depois de me ver, ele estava assombrado.

O homem não entendia se havia levado um ou dois socos meus antes de conseguir reagir. Não entendia como eu estava contornando as placas de sua armadura com passos curtos, nem como eu amortecia o impacto devastador do seu martelo usando a rotação do meu próprio corpo. Eu já não era só fúria; era técnica.

Gargalhei alto quando acertei um golpe limpo e vi o supercílio dele rasgar e sangrar.

Dois minutos depois... ele reverteu tudo.

E eu estava com a cara socada no chão, aspirando lama fria e sentir os braços prestes a serem arrancados do corpo enquanto o joelho dele cravava na minha nuca, pesando toneladas.

Só recuperei parte da consciência quando a pata maciça e úmida da ursa apareceu a poucos centímetros do meu nariz. Era o Marquês de Bearlord, montado em Avelã, encarando a cena no meio da tempestade.

Dois soldados precisaram se juntar para puxar o Sargento de cima de mim. Nem a presença e a autoridade do líder dos homens de armadura conseguiam conter a raiva descontrolada dele.

Eu?

Um braço quebrado, pneumonia, e uma ordem expressa para deixar as Montanhas Castanhas para sempre.

Eu não entendia na época o peso das palavras do Marquês. Baixei a cabeça e fingi obediência, mas por dentro eu sabia que aquilo era como tentar erguer uma parede de vento no meu caminho. Eu voltaria para aquele lugar se quisesse... Quando quisesse.

... Quando estivesse pronto.

Conheci Achima e Balmon em Dol'oan; Àquela em Shén-li. Nos unimos contra Lord Blunt... Eu tive uma vida. Acabei ignorando o meu passado.

Meu povo morria na minha ausência.

E o Sargento... permaneceu vivo.


Eu e Xitarro fomos direto para o meio da rua. Não tínhamos motivo nenhum para ficar espremidos entre aqueles dois brutamontes.

O Cavaleiro parecia absurdamente leve, descansando a espada sobre o ombro... E que bela espada era a Avalanche como se...

— [Foque na batalha!]

— Tá, Gladys!

Era como se nenhum dos dois ousasse dar o primeiro golpe. Havia uma tensão no ar... uma fúria contida... Ou talvez um estudo de alto nível, onde cada um avaliava e media os passos do outro.

Khao quebrou o silêncio.

— Você envelheceu muito... — disse, com um tom carregado de deboche. — Você nem se lembra de mim, não é?

— Sei quem você é, não quem foi — o Cavaleiro deu de ombros, indiferente.

— Você me atirou de um PENHASCO! Eu tinha dezessete anos!

Eu... perdi o fôlego. Que... monstro! E eu carreguei esse cara pelo povoado inteiro?!?

— Acho que me lembro... Sim — ele coçou a barba desgrenhada. — Você era um merdinha do Pedermonte, se não me engano...

— E depois você tentou me AFOGAR EM UMA POÇA DE LAMA! — Khao ergueu o punho de concreto com pura raiva, quase espumando.

— O... O monge?!? — O Cavaleiro fez menção de gargalhar. — Juro por Cartallas que até este exato momento eu achei que eram DOIS BOSTINHAS diferentes da montanha!

— Seu cretino! — Khao estava fumegando.

— Meu jovem, você mereceu cada pedaço do que recebeu... Você era difícil-e-meio! — O Cavaleiro começou a caminhar calmamente pelo pátio, sem buscar nenhuma cobertura. — Mas realmente não foi esse o motivo pelo qual fiz o que fiz. E acho que foi justamente isso que te trouxe até aqui agora. É o máximo de desculpas que você vai conseguir extrair de mim.

— Posso me contentar em extrair o seu sangue, então... — Khao esticou o pescoço tenso. Ouviam-se estalos secos, como se uma placa continental estivesse se assentando sob sua pele.

O Cavaleiro balançou a cabeça pesarosamente.

— Bem, o meu passado querendo cobrar conta... — resmungou. — Acredite, rapaz... você não precisa disso.

— "RAPAZ"?!? — Aquela palavra engrenou algo em Khao, que berrou a plenos pulmões: — Eu sou Khao, o Invicto de Pedemonte! O Campeão do Levante de Blunt! Eu duelei pessoalmente contra o Senhor do Sombrio! Sou o Fundador da Nova Guarda de Shén-Li! Eles me chamam de O Colosso das Montanhas Castanhas! o Homem Mais Forte de Shén-li! É ISSO que está na sua frente, não um "rapaz"!

O Cavaleiro parecia se segurar com todas as forças para não pedir para ele falar baixo por causa da ressaca.

— Tá... perdão... — esfregou as têmporas, a voz carregada de ironia. — Vou levar tudo isso em conta, "senhor".

Khao soltou um riso seco.

— E você? — o Capitão provocou, enfim. — O que fez nos últimos dezoito anos?

O Cavaleiro foi extremamente teatral.

— Bem... fiquei muito bêbado... uma vez por ano... Maldição de Ênia, a deusa-vaca da vida para "meu bem" de alguma forma... — Olhou de relance para mim e para o Xitarro. — E também...

Ele olhou quase perdido ao longo do pátio, até encarar a estrutura atrás de si mesmo, como se estivesse "surpreso". A igreja-fortaleza.

— Ah, sim, claro... — falou, por fim. — Eu levantei essa igreja.

Khao gargalhou, posando as mãos na cintura.

— Ah, virou um pedreiro?!? Bem apropriado para os seus talentos...

O Cavaleiro congelou. Um ar sombrio e pesado tomou conta de seu rosto.

— Eu ouvi essa mesma piada antes... E não gostei.

Algo na atmosfera mudou drasticamente. Khao parecia sentir também.

— Você... entrou para a Cavalaria de Cartallas? — Khao deu um passo atrás, franzindo o cenho.

— Eu disse que eu levantei essa igreja.

— Esse templo em particular? — Khao insistiu, a voz perdendo a certeza. — A fortificação?

O Cavaleiro parou de responder. O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.

— Você... Não pode ser "aquele" Capri — o Capitão finalmente pareceu juntar as peças, os olhos arregalados. — Você é...

— Capri Mordman.

Uma pausa.

Último oficial da infantaria de Glen Bearlord. Primeiro Devoto de Cardullion. Libertador de Portos Dourados. Destruidor do Império. Flagelo de Titã... e Monsenhor da Igreja da Perseverança.



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