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5 de agosto de 2026

EDGELORD - Cap. XV - Arco da Montanha Morta

Bem-vindo à Mansão Perpétua de Cyrak. O prato do dia: Torta de climão.

A velha Madame Morgan levantou a voz para Amellie. Sabe, aquela mesma língua ferina que faz meu pai, o terrível Lord Blunt, preferir imobilizar a dar a chance de ela falar algo e desestruturá-lo?

Amellie só ouviu. Assimilou. Baixou a cabeça e saiu.

Caminhou em passos firmes — obviamente pesados pela raiva contida — enquanto subia as escadarias do Foyer até desaparecer no segundo piso.

— Eu estou acomodada na Suíte Major! — resmungou Morgan em tom alto, fazendo questão de ser ouvida.

— Não mais! — respondeu Amellie lá do alto.

Levou alguns segundos antes de ouvirmos uma porta bater com força.

— Bem... — puxei a palavra. — Na falta da oradora do grupo, eu me vejo na obrigação de perguntar... Que MERDA é essa, vovó?!

A bruaca se arrepiou de espanto. Estranho para uma oráculo "não ver o que vinha".

— Linguagem, jovemzinho! — resmungou ela.

— O caralho! — retruquei. — Estou cansado de ver a senhora nos tratando como lixo estando no mesmo balde que a gente, esperando o mesmo lixeiro recolher!

— Eu vi e vivi os Segredos do universo e do destino, seu pivete, que você nem...

— Sim, e o que viu é que vai morrer num mausoléu sozinha, exatamente como Cyrak morreu! — Levantei a voz. — Amellie jamais será Cyrak? Pode ter certeza! E nem falo de gente como o Capitão Lizzo, minha mãe e toda a Igreja da Perseverança, que ela elevou ao seu melhor potencial. Se a gente não sair desse casebre, a Amellie vai ter a mim... — Hesitei por um segundo antes de emendar: — ...e ao Xitarro ao lado dela. Cyrak não vale a sombra dela. A SENHORA não vale a sombra dela!

As sobrancelhas dela se cerraram.

— Você acredita mesmo que Amellie vale tudo isso? — resmungou a velha. — Que ela não fez nada disso apenas por glória e prestígio?

— Eu... eu nem sei por que preciso me justificar a VOCÊ, dentre todas as pessoas.

Comecei a caminhar em direção à escadaria, ia atraz dela... Mas a bengala da velha foi atravessada no meu caminho.

— Me deixe tentar remediar, então — resmungou ela.

— Com essa má vontade? — protestei, empurrando a bengala para tirá-la da minha frente.

— Por favor.

Ok... essa me pegou desguarnecido.

Dei um passo para trás. A velha começou a caminhar em direção à escada... Não sei se estava literalmente queimando seu tempo restante de vida ou se era apenas limitação de movimento... mas começou a subir as escadas.

Sentei-me no sofá e deixei o sangue esfriar. Xitarro sentou-se ao meu lado.

— B-bentho... — ele começou. — Você falou... Não diria "bonito", tinha palavrões demais... Mas falou bem.

— Obrigado.

— Você acredita mesmo nisso? — perguntou Xitarro. — Amellie claramente tem coisas que não nos conta.

— Coisas de que tem vergonha — falei. — Mas se for importante, ela falaria. Não está resmungando por causa da barraquinha arcana de novo, está?

— Eu... Só acho que somos um grupo. Em teoria, amigos — disse ele. — Esconder coisas dos amigos, mesmo que seja para protegê-los... não sei se seria o certo. Você não faria isso.

Essa não.

Afundei no sofá.

— Faria sim, Xitarro.

— Eu não acho...

É... não tinha mais jeito.

Abri minha mochila e saquei um caderno velho, mofado.

— Ei... — Xitarro comentou, inclinando a cabeça. — Eu já vi esse livrinho!

— É o diário do capitão. Do navio em que você naufragou.

Xitarro arregalou os olhos.

— Eu lembro... Derramei tinta nele quando tinha dez anos...

— O capitão completou o diário. Leia as duas últimas páginas.

Entreguei o livro a ele. Xitarro hesitou.

Eu sabia exatamente o que ele leria. Mais insultos velados à criança. E, de repente, a tempestade. O navio encalhando. O pequeno catfolk caindo no mar. Sendo avistado e ignorado pela tripulação que abandonava a embarcação...

...Pelos seus próprios pais.



Xitarro ficou alguns segundos olhando para o nada. Em transe.

— Eu sinto muito, Xitarro.

— Eu... deduzi que eles tinham esquecido de mim — o monge comentou, a voz baixa.

Ele abriu a boca, mas ficou em silêncio alguns segundos antes de completar...

— Não imaginei que tivesse sido tão rápido.

— Eu deveria ter te contado. Isso foi imperdoável, e nem acredito nas minhas próprias desculpas. — falei. — Mas a Gladys comentou... Não importa.

— O que ela falou? A espada? — ele perguntou, ainda em choque. — É importante.

Respirei fundo.

— Quando nos conhecemos... você estava com tanto medo de ser deixado para trás que a Gladys comentou comigo. Ela disse que eu poderia usar esse seu medo para te moldar. Quebrar seu espírito para você odiar o mundo e virar um capanga sob o meu controle.

Xitarro congelou. As orelhas baixaram de vez.

— Eu achei... cruel — continuei, encarando as minhas próprias mãos. — Mas pensei que estava te protegendo ao não contar do diário. E não estava.

— A Gladys falou isso...? — Xitarro perguntou. — Eu... Estava sim, e isso... isso dói. Mas eu precisava ouvir. Obrigado.

— Você pode gritar comigo ou sentir raiva — comentei. — Prometo fazer de tudo para reconquistar sua confiança. Mas...

— Você achou que estava me protegendo da Gladys... — Xitarro insistiu. Ele ainda parecia desorientado. — E talvez tenha me ajudado. Estamos de boa!

Não sei se ele estava realmente "de boa"... mas não parecia guardar hostilidade comigo, o que era um alívio imenso.

— Então... — perguntei, ainda hesitante. — Acha que a Amellie está escondendo algo assim da gente?

Xitarro olhou para mim lentamente, com os olhos arregalados.

Há dois dias...

O PACTO DA MONTANHA MORTA

Meu nome é Amellie... e passei a última hora tramando com os pais de meu melhor amigo. O tempo era curto. Gladys podia estranhar se percebesse Blunt e Àquela parados tanto tempo tão perto de nós.

Só tínhamos uma hora. Traçamos os planos.

Não poderíamos parecer aliados, ou Gladys perceberia...

...Isso me garantiria mais algum tempo com Bentho... Dias talvez. Até o inevitável momento em que o segredo seria revelado. E eu seria tão não-grata quanto tantos que mentiram para ele.

Estendi a esfera a Estebán. Era um sofisticado comunicador de duas vias, e seria usado em exceções.

— Bem, acho que essas bolinhas sempre foram suas, não é?

Ele olhou sério para o meu gesto, ponderando.

— Entregue a Àquela — ele falou seco, afastando-se.

Não entendi no momento... Mas logo vi.

Ela desviou o olhar.

Eu desviei.

Não importa quantas vidas eu viva, sempre decepciono as melhores pessoas. Por algum motivo, Blunt queria que eu falasse com a esposa. Bentho tinha comentado como Lady Àquela idealizava a figura da "Senhorita Amellie", a professora de ópera. Ela não devia ter muitas amigas fora as nobres deslumbradas pelo mito dela, ou os militares...

...E eu era apenas outra impostora.

— Eu... Estebán pediu para entregar a você...

— Eu ouvi — ela respondeu.

Ficamos em silêncio enquanto ela apanhava a esfera mensageira que tínhamos "encontrado" no cofre da Montanha Morta.

— Não atendam imediatamente, pode ser Bentho ou Xitarro brincando com minhas coisas. — adiantai. — Esperem a imagem aparecer.

— Farei isso — ela disse, desviando o olhar. Bem... era um progresso não ter um par de flechas mirando nos meus olhos.

— E também... — arrisquei. — Independentemente do que eu fiz... do que eu sou... Pense no Bentho. Vocês dois precisam um do outro.

Àquela baixou o semblante.

— Você quer ser chamada de "Amellie"... É assim que se identifica — apontou ela. — Eu vou respeitar isso.

Eu queria sorrir. Queria abraçá-la. Queria pedir um perdão mais apropriado.

Mas não era adequado. Não tínhamos tempo.

Contei em minha mente enquanto deixava a cena do complô. Blunt e Àquela me deram uma dianteira de uma hora. Quanto tempo eu conseguiria guardar aquele segredo?

...Quase nada.


Dobro uma esquina e vejo Xitarro.

Sentado. Abraçando os joelhos. Encarando o vazio.

Eu sou bem atenta... Àquela era uma militar treinada... Blunt era sobrenatural, se nenhum de nós o percebeu, então a capacidade dele de ficar quieto era assustadora... Mas Xitarro simplesmente estava ali.

— Olá, amigo... — comecei.

— Oi... — ele falou, tentando inutilmente esconder o choque. — Eu vi um guaxinim falante.

— Mesmo? — perguntei. — E o que mais?

Ele baixou o semblante.

— Eu vi você e os pais do Bentho tramando contra ele.

Direto e sincero.

— Não é contra ele — sentei-me ao seu lado. — Eu temo pelo que a Gladys pode fazer com ele. Tenho motivos para crer que a Espada está jogando com as nossas vidas.

— E por que não contou para o Bentho?

— A Espada está constantemente na mente dele — expliquei. — Com experiência, ele poderia aprender a segmentar pensamentos como o Estebán faz... Mas é perigoso, e não temos tempo... Você entende?

— Eu não sei... — ele falou.

— Xitarro, eu só quero o melhor para o Bentho — falei, por fim. — Mas preciso ser cuidadosa. Se você não confiar em mim, pode ficar de olho. Prometo que jamais farei nada de ruim para você ou para ele...

— Eu não sei se posso...

— Eu não sei se EU posso! — ri fraco. — E olha que mentiras meio que são a minha vida. Não quero envolver você... E se tudo mais der errado, eu assumo a culpa e arcarei com as consequências. Prometo que não vai ter nada entre você e o Bentho... Só quero protegê-lo da Gladys, entende?

Ele fez que sim com a cabeça, mas eu sabia que não. Só esperava que ele entendesse no caminho, antes que o pior acontecesse. Não sabia como eu poderia convencer a ele que Gladius Aeternum não tinha o melhor para nós em suas intensões...

— Não — Xitarro respondeu sem piscar.  — Amellie está de boa.

— Bem... — Dei os ombros, sem imaginar o peso daquele silêncio. — A propósito: parabéns pela vindoura promoção a Exemplar.

Ele piscou, saindo do transe e ponderando por alguns segundos.

— Como assim?

— A coisa que Madame Morgan previu. —Dou um tapinha nos ombros dele. — Se não sou eu e não é a Amellie, sobrou você. O futuro Exemplar dos Monges! Mesmo nível de meu pai!

— Mas monges vivem em monastérios longínquos para virar monges alto-sei-lá-o-quê...

— Você viveu em uma ilha por cinco anos e bate mais forte do que muitos tenentes que eu já vi!

— C-catfolks vivem no máximo trinta anos! Monges não precisam ser anciões com séculos de...

— Monges de alto nível, quando passam a controlar o próprio corpo, simplesmente param de envelhecer — Lembrei. — Acho que ficar agindo como capanga pode só atrasar seu apogeu...

Xitarro baixou o semblante.

— Sei lá... Não gosto de saber meu destino — resmungou ele. — Preferia só curtir com meus amigos.

— É... — Estiquei os ombros. — A Madame Morgan estava certa sobre isso... Mesmo destinos teoricamente "bons" estragam a jornada e a surpresa.

— Ela é sábia... Embora rancorosa — ele comentou. — Espero que saiba lidar melhor com a Amellie...


4 de agosto de 2026

[Cain System] Sessão 0

 RELATÓRIO DE CAMPO // DIVISÃO TEMERITY — CAIN

AGENTE RESPONSÁVEL: Elias Moura (Ex-Perito Legista / Analista de Campo)

LOCAL DA REUNIÃO: Café Central — Old Ashford, Ashford City

DATA/HORA: 04 de Agosto de 2026, 19:00

DISPOSIÇÃO DA EQUIPE: Agentes Elias Moura, Peak Damien, Samael e Surya Tsukamoto. Contato primário: Leoni.



1. SUMÁRIO DA AMEAÇA E ANOMALIA

Recebemos através do contato Leoni a pasta de ocorrências da última semana. Os dados apontam para uma série de desaparecimentos padrão na região metropolitana, antecedidos por episódios de trauma severo.

  • Assinatura Residual: Alta concentração de Graça detectada nos locais de origem.

  • Padrão de Ocorrências:

    1. Suicídio paterno seguido da subtração da filha.

    2. Homicídio familiar múltiplo com sobrevivente (mãe) levada do local.

    3. Homicídio/Agressão na Reserva de Greywood: corpo feminino localizado no interior de uma barraca; o companheiro (trilheiro experiente) encontra-se paradeiro desconhecido.

  • Hipótese Analítica: O padrão não sugere uma manifestação errática de Pecado selvagem. A seletividade das vítimas e o uso de gatilhos traumáticos indicam recrutamento clandestino para rituais de exorcismo não autorizados ou catalisação forçada de cobaias em novos focos anômalos.

  • Diretriz Tática Geral: Exorcismo à revelia da CAIN configura violação de Protocolo Oculto Classe Zero. A instrução é a neutralização sumária da ameaça e contenção dos resíduos psíquicos.

2. AVALIAÇÃO DE CAMPO E PRÓXIMO ALVO (RESERVA DE GREYWOOD)

Decidi concentrar a varredura inicial na Reserva de Greywood (distrito de Harbor Point).

  • Justificativa da Escolha: Diferente dos episódios urbanos fechados, Greywood oferece uma Janela Temporal de vestígios mais preservada. Por ser uma área isolada, a contaminação do FLUXO por tráfego humano secundário é menor.

  • Ponto de Entrada: Início do rastreio pelo perímetro da barraca do casal, seguindo as malhas de trilhas do Portão Sul/Sudeste em direção ao Farol da costa.

  • Objetivo Imediato: Reconstituir o evento de remoção do homem desaparecido usando análise física e varredura de alterações temporais nos pertences da cena.

3. NOTAS DE LOGÍSTICA E COMPOSIÇÃO DE EQUIPE

  • Procedimento Pessoal: Checagem de fita métrica, luvas de nitrilo, reagentes para identificação de Graça e kit de primeiros socorros concluída. Reabastecimento do maço de cigarros antes do deslocamento.

  • Vetores de Risco Operacional: A dinâmica da equipe apresenta variações de estabilidade psíquica e comportamental consideráveis.

    • Agente Samael: Apresenta instabilidade sensorial/alucinações sob estresse de combate. Requer monitoramento preventivo do FLUXO ao redor para evitar gatilhos que comprometam a contenção.

    • Agentes Peak e Surya: Posturas de engajamento opostas (isolamento tático vs. exposição ostensiva). A navegação na névoa de Greywood exigirá disciplina de marcha para evitar separação no perímetro.

STATUS: A caminho do perímetro de Harbor Point.

Elias Moura — Registro encerrado.

🛡️ Personagens e Elenco

  • Leone: NPC Superior / Emissário da Caim. Entregou a pasta com os dados da missão no café.

  • Elias Moura (Jogado por Hardman): Ex-médico legista, 37 anos, nativo de Ashford. Organizado, metódico e focado em procedimentos. Vê as manifestações/pecados sob uma ótica quase médica/clínica. Fuma e tem tiques ritualísticos de verificação.

  • Damien Guisepe (Jogado por Leo / Peak): 33 anos, ex-exército, visual desleixado (marcas e cicatrizes no rosto cobertas por faixas do nariz para baixo). Mantém distância do grupo e busca se tornar mais forte.

  • Samael (Jogado por Lucas ): Apresenta-se como alguém civilizado e gentil na convivência social, mas extremamente imprevisível e violento em combate/ação. Sofre de visões/alucinações.

  • Surya Tsukamoto (Jogado por Pedro / Pedrolas): Visual chamativo (roupas de grife, cicatrizes no rosto, piercings, cabelo e barba coloridos). Arrogante, trata os outros com desdém, mas é observador.

Simple Wish

 

Desejo Simples (Simple Wish)

by Matt Mercer
3º nível de Conjuração
Tempo de Conjuração: 1 ação
Alcance: Pessoal
Componentes: V
Duração: Instantânea

Desejo Simples é, bem, certamente uma magia versátil sob a maioria dos critérios. Ao pronunciar em voz alta algo bastante simples, você dobra um minúsculo fragmento da realidade na tentativa de torná-lo real.

O uso básico desta magia é duplicar qualquer outra magia de 2º nível ou inferior. Por ser uma magia de 3º nível, possui grande utilidade. Se você a usar desta forma, não precisa cumprir nenhum requisito ou componente da magia duplicada; ela simplesmente entra em vigor.

Como alternativa, você pode criar um dos seguintes efeitos:

  • Criação de Objeto: Você cria um objeto não mágico valendo até 50 peças de ouro.
  • Ligeiramente Mais Saudável: Você permite que você mesmo e até 2 criaturas que possa ver recuperem 2d6 pontos de vida.
  • Resistência Breve: Você concede a até 5 criaturas que possa ver resistência a um tipo de dano à sua escolha. Esta resistência dura até o final do seu próximo turno.
  • Perícia Repentina: Você se torna proficiente em uma perícia à sua escolha por 1 minute, e seu bônus de proficiência para essa perícia é dobrado durante a duração.

Remodelar a Realidade Simples... Mais ou Menos: Você pode desejar algo que não esteja incluído em nenhum dos outros efeitos, mas deve ser algo razoavelmente pequeno e que geralmente afete apenas o momento presente, outra criatura que você possa ver, ou a si mesmo de maneira menor. Para fazê-lo, declare seu desejo simples ao Mestre o mais precisamente possível.

O Mestre possui grande liberdade para decidir o que ocorre em tal instância; quanto maior for o desejo simples, maior a probabilidade de que algo dê hilariamente errado. A magia pode simplesmente falhar, ou produzir um resultado inesperado. Por exemplo, desejar que um inimigo perigoso caia de um penhasco pode fazer com que um inimigo não visto tropece de um muro acima e caia diretamente em cima de você.

Se o seu desejo for concedido e seus efeitos gerarem consequências para toda uma facção ou cidade, é provável que você atraia inimigos ligeiramente mais poderosos (embora ainda apenas moderadamente acima do nível apropriado para o grupo).

Se você desejar um item mágico incomum ou mais raro, em vez disso pode criar uma réplica inflável dele ao seu alcance.

Se você tentar desejar desfazer o próprio multiverso, ameaçar a cidade de Sigil ou afetar a Senhora da Dor de qualquer maneira, você claramente não leu esta descrição nem se importou em jogar dentro das fronteiras amorfas desta magia, e os genitais do seu personagem murcham, transformando-se no rosto de uma bruxa velha que se diverte zombando de você.

3 de agosto de 2026

[CAIN SYSTEM] Ashford City


 

Ashford City - Guia do Universo & Distritos
Documentação do Universo — Arquivos CAIN

Ashford City

A Superfície vs. A Cidade Oculta

  • Aparência Pública: Ashford City aparenta ser uma metrópole americana vibrante, caótica e global na costa leste, movida por negócios, arte, diversidade cultural e desigualdades sociais.
  • A Camada Sobrenatural: Sob os metrôs, edifícios e igrejas, existe uma cidade oculta onde organizações contêm manifestações sobrenaturais e eventos inexplicáveis decorrentes de tragédias e marcas emocionais passadas.
  • O Mapeamento dos Pecados: Sentimentos humanos extremos (culpa, luto, ambição, desespero) acumulados pela alta densidade urbana dão origem aos Pecados, tornando Ashford um dos maiores focos de operação da CAIN no mundo.
  • Acobertamento Sistemático: A população comum ignora a ameaça; autoridades e mídias rotulam eventos anômalos como falhas elétricas, incêndios ou crimes organizados.

Capítulo I — História e Geografia de Ashford

  • Fundação e Geografia: A cidade nasceu na foz de dois rios (Grey e Ash) que deságuam em uma baía protegida, surgindo como um porto seguro para pesca e comércio.
  • Evolução Histórica: Desenvolveu-se em quatro séculos: começou com fortificações coloniais, expandiu-se na industrialização com ferrovias e indústrias, e consolidou-se no século XXI como um polo financeiro e tecnológico.
  • O Subsolo Labiríntico: Abaixo da cidade moderna existem fundações centenárias, galerias de serviço e túneis ferroviários abandonados que acumulam séculos de memórias e sofrimento.
  • Topografia do Crescimento: A cidade expandiu-se em formato de estrela ao redor do porto original:
    • Centro / Orla: Distritos financeiros e governamentais.
    • Rios e Ferrovias: Cinturão industrial e docas.
    • Periferia e Transições: Bairros residenciais, parques e polos comunitários de imigrantes.

Capítulo II — A Estrutura dos Distritos

Setores Administrativos: Ashford é dividida em sete grandes distritos com identidades econômicas e sociais próprias.

Influência no Sobrenatural: A CAIN utiliza o perfil psicológico e a rotina de cada distrito para prever e identificar os padrões das manifestações de Pecados, que refletem os conflitos e emoções da população local.

👑 Crown District
"Onde os sonhos aprendem o preço do sucesso"
Perfil
Centro financeiro e administrativo, repleto de arranha-céus, sedes corporativas, hotéis de luxo e construções históricas. Possui um ritmo acelerado e desumano focado em produtividade e mercado.
Padrão Sobrenatural
Concentra manifestações ligadas à Ambição, Orgulho, Obsessão e Burnout. Tem alto risco de pânico público e danos estruturais.
Locais Importantes
Meridian Tower, Bolsa de Valores (Ashford Stock Exchange), Biblioteca Metropolitana, Catedral de São Miguel e Liberty Plaza.
Lideranças
Meridian Holdings (Richard Hawthorne), Special Incident Bureau/SIB (Capitã Olivia Mercer) e Arquidiocese (Arcebispo Michael Donnelly).
⚠️ Rumores & Anomalias
Andares ocultos na Meridian Tower, livros que retornam sozinhos na biblioteca e sinos da catedral que tocam antes de grandes tragédias.
🎨 East Borough
"Todo bairro guarda lembranças..."
Perfil
Bairro histórico e residencial focado em preservação, arte e memória familiar, marcado por sobrados de tijolos, galerias e cafés em galpões revitalizados. Enfrenta tensões devido ao avanço da especulação imobiliária.
Padrão Sobrenatural
Manifestações ligadas ao luto, nostalgia, medo da mudança e apego ao passado.
Locais Importantes
Riverside Market, Ash Bridge Park, Old Harbor Warehouses, St. Brigid School e The Lantern Café.
Lideranças
Associação de Moradores (Margaret O'Connell), Fundação Riverside de Artes (Daniel Brooks), Irmandade de Santa Brígida (Padre Thomas Gallagher) e Elena Rossi (Lantern Café).
⚠️ Rumores & Anomalias
Casas que recebem cartas de falecidos, apitos de fábricas demolidas ao amanhecer e figuras misteriosas no parque no outono.
🏭 North End
"Aqui ninguém espera que a vida seja fácil..."
Perfil
Antigo cinturão industrial e bairro operário de classe trabalhadora. Enfrentou um forte declínio com o fechamento de fábricas e tenta se reconstruir mantendo um forte senso comunitário de vizinhança.
Padrão Sobrenatural
Manifestações ligadas ao desespero coletivo, instinto de sobrevivência e medo da perda.
Locais Importantes
Ashford Steel Works (antiga siderúrgica), Memorial Stadium, Saint Anne General Hospital, Victory Square e Union Rail Depot.
Lideranças
United Workers Association (Marcus Doyle), North End Community Watch, Ashford Titans (Coach Raymond Ellis) e Dra. Sophia Bennett (Hospital St. Anne).
⚠️ Rumores & Anomalias
Sirenes da fábrica desativada em noites de neblina, trens fantasmas nos trilhos abandonados e o estádio que nunca parece ficar vazio.
🌐 Westgate
"Em nenhuma outra parte da cidade existem tantas formas diferentes de chamar Ashford de lar"
Perfil
O distrito mais diverso e multicultural da cidade, funcionando como polo acadêmico, jovem e ponto de entrada para imigração. Marcado pelo choque entre tradições familiares e a vida moderna.
Padrão Sobrenatural
Manifestações ligadas a crises de pertencimento, conflitos de identidade, medo da rejeição e busca por aceitação.
Locais Importantes
Grand Bazaar, Jardins de Harmony, Universidade Internacional de Ashford, Templo das Quatro Lanternas e Westgate Station.
Lideranças
Conselho Comunitário (Aisha Rahman), Fundação Horizonte (Marta Alvarez), Universidade Internacional (Prof. Kenji Sato) e Li Wei (Casa de Chá).
⚠️ Rumores & Anomalias
Barracas de culturas irreconhecíveis no Grand Bazaar, o lago de Harmony refletindo paisagens distantes e corredores universitários que mudam de acordo com o idioma falado.
⚓ Iron Harbor
"Tudo o que chega a Ashford passa por aqui. Nem tudo deveria"
Perfil
O motor industrial e logístico da cidade, dominado por guindastes, estaleiros, armazéns e o movimento contínuo do porto. Sua atmosfera isolada favorece atividades clandestinas.
Padrão Sobrenatural
Funciona como a principal porta de entrada de artefatos anômalos na cidade e palco para manifestações que se escondem na rotina fabril.
Locais Importantes
Porto Internacional, Estaleiros Blackwater, Pier 19, Mercado dos Marinheiros e Farol de Blackwater.
Lideranças
Autoridade Portuária (Harold Pierce), Sindicato dos Estivadores (Rosa Alvarez), Consórcio Blackwater e Capitão Ethan Cole.
⚠️ Rumores & Anomalias
Cargueiros fantasma na neblina, armazéns no Pier 19 que ninguém se arrisca a abrir de madrugada e luzes anômalas no farol.
🌲 Harbor Point
"Até a cidade precisa de um lugar para ficar em silêncio"
Perfil
O distrito mais calmo, menos populoso e geograficamente isolado no extremo sul da baía. Caracterizado por praias, áreas verdes, cemitérios e antigas fortificações militares.
Padrão Sobrenatural
Manifestações associadas à solidão, ao luto e ao desejo de isolamento do mundo. Excelente para operações veladas da CAIN pela baixa densidade populacional.
Locais Importantes
Blackwater Lighthouse, Fort Hamilton, Seacliff Cemetery, Harbor Point Marina e Greywood Preserve.
Lideranças
Guarda Costeira (Capitão Benjamin Hayes), Sociedade Histórica (Margaret Sullivan), Associação dos Pescadores e Arthur Doyle (Faroleiro).
⚠️ Rumores & Anomalias
Ilhas que surgem na neblina ao amanhecer, sinos do antigo forte durante tempestades e uma floresta preservada que nem sempre devolve as pessoas da mesma forma.
🏛️ Old Ashford
"Algumas cidades escondem seus segredos. Ashford construiu ruas sobre eles"
Perfil
O berço histórico da cidade, caracterizado por ruas de pedra, casarões centenários, instituições governamentais e uma vasta rede subterrânea. É o centro da memória coletiva da metrópole.
Padrão Sobrenatural
É o distrito de maior relevância histórica para a CAIN, concentrando Pecados ligados ao remorso, fanatismo e tragédias históricas não resolvidas.
Locais Importantes
City Hall (Prefeitura), Museu Histórico, Arquivo Municipal, Universidade Saint Edmund e Catacumbas de Old Ashford.
Lideranças
Instituto Histórico, Fundação Saint Edmund, Prefeita Eleanor Graves, Prof. Jonathan Whitmore e Irmã Beatrice Holloway.
⚠️ Rumores & Anomalias
Túneis não mapeados encontrados em todas as grandes obras, documentos sobre investigações antigas que somem do arquivo e catacumbas que parecem alterar suas rotas.

Old Ashford: O Labirinto da Memória e da Pedra

Se a Ashford moderna se ergue em arranha-céus de vidro e ferro, Old Ashford é a fundação de pedra sobre a qual tudo foi construído. É o distrito onde o tempo não passou — ele acumulou.

Localizado na zona histórica da metrópole, o distrito preserva a arquitetura colonial e vitoriana, com ruas de paralelepípedos estreitas, igrejas centenárias de fachada austera e casarões de tijolos escuros que sobreviveram a incêndios, guerras e reformas urbanas. É o centro político e acadêmico tradicional da cidade, abrigando a Prefeitura (City Hall), o Arquivo Municipal, o Museu Histórico e a Universidade Saint Edmund.

Mas para além da fachada institucional, Old Ashford é um lugar sustentado pelo peso dos séculos. Abaixo do nível da rua, existe uma cidade-espelho: uma vasta e sinuosa rede de catacumbas, criptas e antigos túneis ferroviários não mapeados que datam dos primórdios da ocupação americana.

Enquanto em Crown a energia da cidade se manifesta na Ambição e em North End no Desespero, Old Ashford é o epicentro do Remorso, do Fanatismo e das Tragédias Históricas Jamais Resolvidas. Para a CAIN, é o distrito com a maior densidade de anomalias ligadas à memória impregnada na matéria.

29 de julho de 2026

EDGELORD - Cap. XIV - Arco da Montanha Morta

O PRESENTE


Chegamos a uma biblioteca. Na verdade, chamá-la assim era um elogio generoso — aquilo era um autêntico "Salão da Vaidade". As prateleiras abrigavam exclusivamente livros escritos por Cyrak ou tomos inteiros dedicados a falar sobre Cyrak. Quadros do bardo cobriam as paredes, muitos deles ao lado de suas famosas "conquistas". Pelos cortes de cabelo e estilos de roupas das acompanhantes, ficava claro que ele havia cruzado eras e terras distantes. Não sabíamos se havia ali alguma ordem cronológica ou uma hierarquia de preferência... mas notamos, sem precisar dizer uma palavra, uma mancha retangular e vazia na parede. O papel de parede rasgado identificava a retirada brusca de um quadro. Onde provavelmente figurava uma jovem Madame Morgan. Achamos melhor não comentar.

Logo em seguida, as espectras trouxeram um quadro enorme montado sobre rodas de rolamento, riscado com giz colorido. Nele, via-se um mapa meticuloso da Mansão, dividido em seus três níveis.

— Eu cortaria as portas próximas à entrada... — comentei, cruzando os braços. — Já que sabemos que é onde ficava a Cabaninha, daria direto no meio da avalanche.

— Acho que todo o andar térreo pode ser ignorado — observou Amellie, inclinando-se sobre o mapa. — Pelo que Gladys disse, estávamos perto da saída da montanha, mas, geometricamente, ela é mais larga embaixo do que em cima. Concordam?

— Hmm... O terceiro piso é estreito... Os andares mais baixos vão mais longe... Não dá para simplesmente eliminar um andar inteiro sem... O que é isso, Amellie?

Minha atenção se desviou do mapa para o livro de capa vermelha e sem estampa que ela manuseava. Parecia um manuscrito artesanal à primeira vista, mas o relevo prensado na borda do couro não enganava: era um tomo com o selo do Castelo Negro.

Não era um livro qualquer. Era um objeto com história, carregado de uma importância silenciosa que ressoava desde o Arco II.

— "O Devorador de Nomes" — disse ela, acariciando a lombada com uma mescla de nostalgia e respeito. — Seu pai me deu no tempo em que morei com vocês no Castelo Negro. Cyrak e Blunt já se conheciam na época, mas precisaram unir forças contra uma criatura... Uma espécie de Eyespy que tomou esteroides.

— E você vai deixar um tomo original do Castelo Negro aqui?!

— Claro que não — Amellie sorriu fraco, segurando o livro junto ao peito. — Mas Cyrak amava guardar histórias sobre si mesmo... E esta em particular o deixou tão empolgado, lutar ao lado de outra lenda, que ele sequer se lembrava dos detalhes reais. Blunt escreveu tudo em segredo. E como a Casa pode gerar e preservar uma cópia... veja.

Amellie pousou o volume vermelho sobre uma bandeja de prata no balcão.

Uma das espectras surgiu atrás do balcão e mergulhou as mãos translúcidas na capa como quem entra na água. A superfície do livro ondulou e um segundo exemplar emergiu entre seus braços. A fantasma acomodou a cópia na estante e sorriu.

— Viu? A Mansão guarda a cópia e a história não se perde.

Ela pegou o volume novinho em folha e me entregou, pegando o original da estante para oferecer a Xitarro.

— E você leia este. — A barda insiste. — Para conhecer um pouco de Cyrak... fora só o "Bardo tarado" que devem ter aprendido.

— Eu? — O felino pareceu genuinamente surpreso.

— Você é quem mais vai gostar.

Xitarro abriu o volume enquanto caminhávamos. Mal percorreu duas páginas e começou a comentar...

— O narrador fala muito rebuscado, e é quase clínico. Parece evitar qualquer adjetivo desnecessário... — Folheou mais algumas. — Mas quando Cyrak entra em cena, o texto muda completamente. Começa a florear. Frases mais longas, comparações poéticas. A impressão é que o pai do Bentho está tentando preservar a forma como ele falava. Eu acho que esse contraste cria um ruído narrativo, mas reforça que esse Cyrak era incapaz de falar normalmente.

Fiquei olhando para ele por um instante, alternando entre o livro e o felino. Aquela análise literária profunda foi um choque. E ver Xitarro dissecando a conduta de Cyrak daquela forma me lembrava o quanto o fantasma daquele bardo parecia infectar tudo ao nosso redor.

Olhei para a minha cópia e suspirei.

— Eu não consegui ler. — Dei com os ombros frustrado.

Amellie respondeu sem levantar os olhos do mapa:

— Não se culpe. A escrita do seu pai é densa mesmo.

— Não... — Balancei a cabeça negativamente. — Eu não consegui ler.

Virei o livro na direção deles. O silêncio na biblioteca caiu de uma só vez.



As páginas da minha cópia eram um caos. Cada frase usava uma caligrafia diferente; algumas letras cresciam até ocupar meia página, enquanto outras encolhiam ao tamanho de grãos de areia. Parágrafos inteiros faziam espirais e linhas atravessavam as margens, cruzando-se até desaparecer. Era como se a magia da Mansão tivesse desmontado a obra e colado as palavras no escuro.

Amellie puxou o volume das minhas mãos. Franziu o cenho, folheando mais duas páginas com urgência antes de olhar discretamente para a estante onde o original repousava. Eu conferi a cópia de Xitarro... a letra de meu pai era belíssima, quase uma prensa. Não podia ser mais diferente.

— Será que é alguma proteção de meu pai? — pergunto. — E funciona com pergaminhos?

— Eu... não sei dizer... — Amellie parecia frustrada. — Mas não, não replica pergaminhos.

— Falando nisso... — eu lembro. — O que era aquele que achamos no cofre da Montanha Morta?

— Um truque. — Amellie sorri. — Meio bobo mas bem prático... veja...

Amellie espalma a chave rubra. Coloca-a na palma da mão esquerda que estava completamente horizontal. Cobre com a mão direita e então gira os pulsos, fazendo a mão de cima trocar de lugar com a mão de baixo.

Ao abrir as mãos, a chave havia sumido.

— Hey! — Xitarro se assusta. Ele estava com a chave em suas mãos, quase cinco metros afastado de Amellie, e comigo no caminho.

— Chama de "Truque de Mãos". Não confundir com "Prestidigitação", que tem nome parecido em Élfico. — Ela diz, repetindo o gesto, mas com as mãos vazias, recuperando a peça. — Bom para pegar pequenas coisas, equipar itens, ao alcance dos olhos. Suspeito que funciona através de vidros e frestas, vou testar mais à frente.

— Tem algum "Laboratório arcano" aqui? — Eu pergunto.

Amellie volta a olhar o livro que estava na minha mão. Uma espectra o toma e leva para a estante.

— Vamos testar algumas portas antes. — Ela fala enfim. — Ala oeste, segundo piso.


— Este é meu quarto! — Xitarro declara.

Nós nos separamos de Amellie em algum momento. Achei um corredor de serviços, e uma série de portões de ferro... mas quando abrimos, parecia um jardim, ou um pedaço de uma floresta tropical.

— X-xitarro... — eu sussurro, tentando ser educado.

— É muito parecido com meu quarto na Ilha dos Gatos... Só menor. — Ele subia em uma árvore artificial, e depois pula até uma rocha. — Ei, olha só... — ele acha uma "gaveta" na pedra. — Isso é tira-gosto!

— Eu diria... "Ração"... — Comento. Eu caminho até atravessar a "selva" e encontro um vidro espesso que separava de um corredor mais arrumado, e outras como aquela, com vegetação ligeiramente diferente. — Isto é um zoológico, XItarro!

— Não! — Ele não parecia aceitar. — Vai ver esse tal de Cyrak só não era fã de privacidade. Essa janela aí é meio exposta...

— O que vocês dois estão fazendo?!? — Amellie surgia, do outro lado da "Janela". — Como vocês entraram aí?!?

— Eu achei um acesso estreito nos fundos. — Comento. — Vai ver as "peladonas" podem cansar de atravessar portas e paredes...

— Amellie... — Xitarroo parecia desafiante. — Pode dizer ao Bentho o que exatamente é isto aqui? EU digo que é um hotel!

— É um Menagerie! — Ela fala sem hesitar.

— A-ha! — Ele comemora, apontando para mim. — Ele falou que era um zoológico!

— Ele está mais perto do correto do que você. — Ela comenta. — Uma coleção de criaturas raras... mais um catálogo vivo.

O catfolk perde o ânimo.

— Então isto aqui não é decoração?

Ele afasta uma moita, revelando uma carcaça de ossos brancos limpos, quase cartunescos. O osso não estava quebrado. Não havia marcas de dentes. Não havia sangue, nem cheiro ruim.

Apenas... um animal que parecia ter simplesmente deixado de existir.

— Primeiro o livro, agora isso?!? — Amellie resmungou. — Não são animais de verdade, são cópias. E a casa deveria nutri-los... O "Devorador de Nomes"!

— O... O "Eyespy com esteroides"? — Me arrepiei da cabeça aos pés. — Tem um aqui?!?

Amellie parecia nem me ouvir. Ela começou a andar apressada pelo longo corredor, examinando os habitats do Menagerie um por um... até que perdeu o passo e começou a flutuar.

— Benthooooo! — ela gritou. O corpo dela começava a subir sem controle rumo ao teto.

O caminho pelo corredor de serviço seria demorado demais para contornar. Mas Xitarro pensou rápido.

Ele arremessou seu bastão com densidade máxima, partindo a vidraça espessa em mil cacos e nos dando um acesso direto. Eu corro na frente.

— Gladys, me ancore! — pedi rápido. — A gravidade maluca voltou!

Saquei a espada e corri atrás da barda. Em poucos passos senti meus próprios pés querendo deixar o chão; antes de perder o contato com o piso, dei um salto desesperado para alcançar a barra do vestido dela. Gladys percebeu a manobra, fincou-se firme e começou a nos puxar de volta para onde a gravidade ainda funcionava.

Amellie olhou para a ala oeste. Podíamos ver vasos e mobílias inteiras flutuando no ar, além da luz do exterior entrando muito mais forte do que deveria. Nenhum sinal de vida nos outros habitats.



Metade da ala oeste da mansão estava simplesmente inacessível — devorada pelo Vazio.



— Sim... — Madame Morgan coordenava com calma duas espectras enquanto ajeitavam o sofá que nos salvara na chegada. — A Mansão Permanente de Cyrak está morrendo.

— E quando pretendia nos dizer?! — Amellie se revoltou, os punhos cerrados ao lado do corpo.

— Eu ficaria preocupado em saber que uma mansão supostamente "perpétua" está morrendo... — Xitarro comentou, a orelha abaixada.

— Cyrak era a âncora desta criação... e Cyrak está morto. Não é verdade? — A anciã lançou um olhar profundamente insinuante para Amellie, desfrutando do silêncio tenso. — A ala Norte foi a primeira a ceder. Uma pena. O "Labirinto de Espelhos", onde qualquer um que olhasse via apenas o reflexo de Cyrak, era uma verdadeira obra de arte. Assim como o camarim dele, que conseguiu ser maior do que o próprio anfiteatro.

— Amellie... — Olhei para a barda, juntando as peças na minha cabeça. — Você, como a nova "dona" do legado dele... não pode fazer nada?

Amellie apenas encarou a anciã, o olhar pesado. Morgan soltou uma risada seca e zombeteira.

— Como o quê? Criar uma nova?! — A megera espantou com a mão a última espectra que arrumava as almofadas.

— Espera aí... — comentei, dando um passo à frente enquanto a lógica se desenhava na minha mente. lembrei da frase exata dela, até imitei a voz dela ao repetir, com razoável precisão. — "Você vai passar seus últimos anos aqui até encontrar três jovens. Um deles em breve será um Exemplar."

Morgan piscou, surpresa por um milissegundo:

— É... é algo que eu de fato disse.

— Eu sou multiclasse, o que me desqualifica na hora, já que Exemplares exigem pureza absoluta na sua arte — comecei, organizando os fatos com frieza. — Mas Amellie... Ela carrega a essência pura de Bardo, domina a teoria, tem o talento prático e, acima de tudo... não caiu na armadilha do ego. Enquanto Cyrak usava a magia para erguer estátuas de si mesmo e quartos de espelhos, Amellie usa o bardo para consertar estragos e cuidar do grupo. Se a profecia exige um purista em sua forma mais elevada, e alguém ultraqualificada... a próxima Exemplar só pode ser ela.

Madame Morgan, a lendária "Irmã do Mago", caiu na gargalhada.

Foi uma risada tão violenta e rasgada que temi que ela expelisse o próprio pulmão ali mesmo no tapete, como se eu tivesse acabado de proferir a maior estupidez de toda a história do continente.

Aos poucos, a crise de tosse passou. Ela se recompôs lentamente, ajeitou a postura na bengala e nos encarou com aquele olhar austero, frio e cruel que só cinquenta anos de amargura conseguem lapidar.

Então, ela decretou:


— Amellie Silverleaf JAMAIS será nem mesmo a sombra do que foi Cyrak!


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