— [Estou dizendo, foi por falta de opção. Nunca tentamos isso… pegar um bruxo descendente direto do anterior… mas tivemos tanta sorte com Lord Blunt… até os últimos dezessete anos de “pai de família”. Sim, o menino Bentho é uma decepção atrás da outra.]
Eu sou Gladius Aeternum. A Espada Eterna.
Fui empunhada por treze bruxos, com resultados variando entre derrubar muralhas, conquistar fortalezas e fundar cidades… até o limiar da dominação do mundo. Sou a ponte entre o Mundo dos Mortais e o Submundo, onde uma entidade de múltiplos olhos, ouvidos e presas escuta meus relatos e, quando satisfeita, concede poder ao meu portador.
Neste exato momento, no entanto, estou no fundo do Rio de Shén-li.
Descartada.
Moros, o Melodramático — décimo segundo portador — me lançou em um poço de desejos uma vez, para dar sorte. Aquilo foi a maior humilhação da minha existência.
Até hoje.
— [O Bentho está me chamando novamente, meu mestre.] - Falo sentindo a vibração. Assumo a obtusa forma de Greatsword de novo.
— [Farei como ordenado: uma parada na Montanha Morta, exposição aos Olhos da Aberração e então—]
A vibração corta a água ao meu redor, forte o suficiente para deslocar lama e atenção.
— [Ele deve estar com problemas.] — deduzo, mas sem muito entusiasmo em ajudar. Mera obrigação do pacto. — [Resolvo isso e retorno a ligação.]
A presença do meu senhor se dissipa, e eu abandono o leito do rio.
✧ PARTE II ⚓ “Herdeiros” ✧
Normalmente, eu ressurgiria diretamente nas mãos de Lord Edgy — décimo quarto portador… e causa recorrente da minha azia. Mas já ensaiamos este cenário depois dos Corvos em Huo-fen: mãos presas, situação comprometida, expectativas baixas.
Emerjo acima do convés de um navio que decide ser duas coisas ao mesmo tempo e não se compromete com nenhuma delas. Madeira clássica, reforços metálicos indecisos, estruturas que parecem obedecer a outra lógica. Piratas circulam como se aquilo fosse normal, o que, por si só, é preocupante.
E então eu o vejo. Lawful Evil Zero… Ora. Uma celebridade entre os artefatos milenares!
Confesso que não esperava encontrar outro longevo em campo. Muito menos um com histórico consistente de apunhalamentos estratégicos. A reputação procede — o alinhamento também, ao que tudo indica. Considero, por um instante, iniciar uma conversa apropriada entre relíquias… Mas o meu portador continua sendo uma prioridade ambulante de problemas.
Ajusto minha trajetória. Alvo: amarras. Execução direta.
Só então registro o estado completo da situação.
Ele está com as mãos presas. E os pés. E, considerando a postura, a dignidade também não saiu ilesa.
…De novo.
Aetíades sagrado.
Corrijo o ângulo no último instante e corto primeiro as amarras das mãos. As dos pés ficam para depois; há limites práticos até para milagres.
— [Lorde Edgy] — anuncio, com entusiasmo que a minha "Nova voz" exige. — [sua arma retornou].
Sabem, Ser a narradora é um desperdício do meu talento.
A partir daqui… o problema volta a ser dele.
Aposto que todos se surpreenderam quando Gladys se materializou acima do navio.
Eu não.
Quer dizer… Sim, mas de um jeito diferente.
Se não estivesse com a armadura dessa vez, provavelmente teria perdido os pulsos. Do jeito que foi, bastou um corte limpo para me livrar das amarras das mãos. Os pés vieram logo depois — com um leve atraso estratégico que prefiro não comentar.
— Edgy… Você estava farmando aura? — Amellie perguntou, com aquela calma irritante de sempre.
— N-não… — murmurei, ativando um Lay on Hands. — Acho que isso resolve gás lacrimogêneo também… né?
Respirei fundo.
Resolveu.
Ótimo. Informação útil para o futuro.
— Porque uma espada cair do céu e ficar parado por cinco segundos… — ela inclinou levemente a cabeça — …quatro a mais do que o necessário para acertarem sua cabeça… Costuma estrapolar a arte de aurafarming e ser só exibicionismo.
— Eu só—
— Depois você explica. — Ela não esperou resposta. — Capitão, uma palavrinha?
O Capitão Lizzo a puxou alguns passos para trás, educado e charmoso como nas histórias, como se não estivesse cercado por caos e um fanboy recém-desamarrado.
— Senhor Edy, certo? — disse ele, apontando com o queixo para mim. — Vá dar uma olhada no tombadilho. Retorno já.
— É… Edgy, capitão. - eu bato uma meia-continência constrangida.
Ele já não estava mais me ouvindo.
— [Então, escudeiro… o que eu perdi?] — Gladys comentou, com o mesmo tom de quem sai por quinze minutos e encontra a casa pegando fogo.
— Por que me chamou de escudeiro? — ah. Tá. Khao. Respirei fundo. — Em resumo: Conheci meu ídolo, passei vergonha na frente dele, e sobrevivi.
— [Não me diga que você nos embaraçou na frente de LE-0.]
— Eu falava do capitão... — Resmungo estranhando. — O Danton não mencionou o robô… Nem que o Lizzo era do clã Filler. E eu olhei bem nos olhos do capitão. Não tem “Olho da Morte”.
— [Temo que, assim como com Lady Àquela e Lord Blunt, sua idolatria opere com filtros… imprecisos.]
— Isso explica muita coisa. — baixo a cabeça.
Mais à frente, o Capitão Lizzo e Amellie conversavam em tom mais baixo. Ele ouvia com interesse prático; ela, com aquele cuidado de quem sabe exatamente o que está entregando.
— Sério? Esse cabeça oca? — ele soltou uma risada curta, olhando na minha direção. — Você era figurona na Igreja da Perseverança, e migrou para o enlatado e o chita? Perdeu aposta?
— Falando na Igreja… — Amellie desviou, suave — “aquilo” não voltou, não?
— Cem por cento "mundo dos vivos" para este pirata, madame — respondeu ele, batendo de leve na própria bandana. — O Monsenhor é melhor com maldições do que ele admite. E isso aqui… — puxou o tecido um pouco — …é um disfarce honesto.
Ele fez um gesto curto, encerrando o assunto.
— Agora me fala do “Lord Blunt júnior”. — prossegue, meio que coletando informações.
Amellie ergueu uma sobrancelha.
— Como você soube?
— Do quê? Que ele comprou um cosplay no mercado de pulgas do Senhor da Escuridão?
Ela se inclinou e sussurrou algo no ouvido dele.
Lizzo não reage na hora.
O olhar fica parado por um segundo a mais do que deveria.
Ele pisca.
Uma vez.
Devagar.
— …é filho dos dois?
Mais à frente, vejo aquela moça de óculos me observando.
Jovem. Muito bonita. Postura discreta demais para alguém naquele navio. E principalmente, não olhava com desprezo para mim.
…Perfeito.
Danton mencionou alguém assim. “Muito bonita e inteligente”. Cérebro da operação de Lizzo.
Talvez eu ainda consiga salvar minha reputação junto à tripulação. Se a tripulante "bonita" falar bem de mim, talvez eu possa recomeçar com o capitão.
Aproximo-me com o que considero meu melhor sorriso — o que a armadura permite, pelo menos.
— A senhorita deve ser a Imediata da tripulação do Capitão Lizzo — digo, voz de veludo calibrada. — Sua beleza é lendária, mas ainda assim não faz jus à—
— As latas estavam gostozinhas?
…
— Perdão? — Eu realmente não estava esperando aquilo.
— Você queria comer as latas, ou era para outra coisa? Era sua família?!? — ela continua, como se estivéssemos no meio de uma conversa, e nada do que ela falava fazia sentido... Ao menos para mim, fora da cachola dela. — Você foi embora e nem conversamos!
Pisco. Uma vez.
— Eu… Certamente me lembraria, senhorita...
— Estranho — ela inclina a cabeça, confusa de verdade. — Você estava diferente. Mais silencioso.
Antes que eu consiga responder, ela segura meu elmo pelos chifres. Meu corpo inteiro acompanha o movimento sem qualquer negociação.
Forte.
Muito forte.
Não "forte para uma garota", mas "Forte para fazer queda-de-braço com o capitão Khao" de forte.
De repente, estou a centímetros do rosto dela. Olhos curiosos. Nenhum esforço aparente.
— Nossa… — ela murmura — tem uma pessoa aqui dentro agora.
Começo a suspeitar que o “cérebro da operação” estava em curto-circuito.
— HEY, EDGY! — a voz do Capitão Lizzo corta o convés. — Deixa minha passageira em paz! Ela pagou pela viagem, coisa que você ainda não fez! Mil perdões, Senhorita Mary Sue. Vou manter ele longe de você.
— Não é preciso, capitão — respondo rápido demais recolhendo um pouco da dignidade. — Eu me mantenho longe.
"Bem longe". penso em completar.
- [Não ousaria acusa-lo de "competente" ou "sortudo"] - Gladys comenta. - [Mas ao menos ele começou a acertar seu nome... Sério, mesmo para SEUS padrões você está errando tudo!]
Xitarro se aproxima, cauteloso.
— Chefe… Por experiência própria… Provocar gente num navio costuma dar problema. Quando eu fiz isso, fiquei náufrago numa ilha por cinco anos.
— Eu não sou uma criança, meu caro. — Falo recuperando um pouco da compostura. - Estou numa maré de azar, só isso. Basta controlar meus impulsos até acalmar as coisas e... OLHA AQUELE QUADRO NO TIMÃO!!!
Xitarro tentou me impedir de correr escadaria acima. Não foi rápido o bastante.
Eu cesso alguns degraus antes. Aquele homem musculoso eu conhecia. Capitão Ben Filler, do "Sem Inspiração". Segundo da linhagem do clã. Filho do Comodoro Benjamin Filler. Procurado em outros mundos.
…E abraçado a uma moça-ciborgue… Curiosa.
— Quem é a piranha? — eu pergunto.
E imediatamente eu ouço COMO as palavras que saíram da minha boca. E amaldiçoo meu vernáculo.
— E por… “Piranha”… — tento consertar, virando para trás com cuidado — obviamente me refiro à temática da senhora ciborgue. Um motivo agressivo, predatório e adequado a uma pirata… Criaturas carnívoras de água doce… Nada que envolva qualquer tipo de julgamento moral ou social—
O Capitão Lizzo já estava atrás de mim. A menos de um metro. Olhar neutro.
O convés inteiro em silêncio. Amellie fazendo "facepalm". Acho que até o vento parou para ouvir minha execução.
—E que… Considerando minha sorte, provavelmente ela seria... — Eu continuo, e gesto contínuo aponto para o capitão. Meio que adivinhei a resposta que veio.
— Minha mãe. — Ele fala.
— Claro que seria isso… — murmuro para mim mesmo. — Isso faz o senhor meio-ciborgue? Meio-peixe? Meio...
— Adotado. — Ele estava sendo civilizado. Bom sinal.
— Muito nobre deles. — retruco.
Lizzo caminha lentamente até parar do meu lado.
— Qual é a de pais e suas obsessões com quadros de casal no trabalho? — ele fala, com algum humor na voz. — Ao menos, não posso reclamar. Aqui, um não está flechando o outro.
— Amellie te falou? E dos perrengues de ontem? — falo resignado, deduzindo que se referia ao quadro no Castelo Negro. Ele acena com a cabeça. — Deve ser legal ter a família em sintonia, trabalhando no mesmo time. Não uma heroína, um megavilão e ... O que quer que eles achem que eu sou.
— Sabe que eu fui adotado por causa de seu pai? — ele replica.
— Lord Blunt deixou muitos órfãos em seu tempo... — resmungo.
— No levante de Dezoito anos atrás, Lord Blunt procurou meu avô. Queria fechar os mares com uma Frota dos Filler. Cortar qualquer apoio concebível a Shén-li. Existia a chance de isso aqui virar um paraíso pirata, se ele tivesse tomado a capital, e foi por muito pouco.
Ele dá de ombros.
— Então meu avô decidiu preventivamente plantar raízes. Fez meus pais formarem uma família, adotarem um filho com sangue local, e me tiraram de um orfanato de Huo-fen. Me ensinaram o ofício. Quando o levante acabou e as pretensões foram frustradas, o clã reduziu presença. Eu fiquei para trás com o que sobrou.
— Fascinante — digo, com sinceridade suficiente. — E agora … Eu vou me afastar sem tocar no timão e arruinar sua rota.
— LE-0 te derrubaria antes de chegar ao timão — ele responde, apontando para a gávea. O droid acena de volta, com o arpão gigante exposto.
— Justo... — Eu começo a caminhar, devagar mas mais aliviado. Eu não sei se teria a paciência dele tratando com um moleque imaturo como eu...
— [Sério? Xitarro enterrou sua armadura, e você ainda o carregou para fora da ilha!] — Gladys comenta.
— Capitão, uma coisa… — digo, já mais recomposto, enquanto me junto a Amellie e Xitarro na frente do castelo de proa. — Eu me inspirei bastante na sua operação.
Ele não responde. Só escuta.
— Consegui montar algo parecido, até. — aponto para Xitarro. — Uma fera.
Xitarro inclina a cabeça, sem saber se aquilo foi elogio.
— E… — olho para Amellie — …uma estrategista competente. Inteligente. Discreta.
Pausa.
— Discreta? — Amellie resmunga, com as mãos indo à cintura.
— Eu ouvi esses comentários da tripulação. — Lizzo deixa um riso escapar. — a frase correta é "Uma garota bonita e Inteligente que comanda a operação". Certamente deméritivo, mas não consegue constatar o óbvio da senhorita Amellie sem parecer asqueroso, senhor Edgy?
— Bem... — Eu fico um tanto constrangido. Amellie se diverte com meu desconcerto. — Então ou estou mal informado… ou o senhor está trabalhando desfalcado.
Lizzo se aproxima de Amellie.
Depois, olha com interesse Xitarro. Focaliza acho que nas orelhas felinas dele.
Um canto da boca sobe por baixo da bandana.
— Eu sei exatamente de onde veio isso. — Ele vira o rosto, sem pressa. — Ouviu isso, imediata?
A porta do castelo de popa se abre.
Sem som de passos.
Só madeira rangendo.
—
Uma silhueta surge na penumbra.
Alta.
Ferina.
Imóvel por um segundo a mais do que o necessário.





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