Bem-vindos ao Povoado de Bearlord.
A minha raiva só aumenta.
Passamos pelo trecho em que minha corda se partiu e, coisa de três horas depois, a escalada se torna absurdamente fácil. Depois encontramos uma trilha que levava diretamente ao castelo de Bearlord.
Foi quando Amellie se separou da gente.
Eu sou uma toupeira.Nada disso precisaria ter acontecido.
— Eu estou vendo umas casas... — Xitarro fala enfim.
Eu meio que "acordo".
Estava acostumado às cidades muradas de Shén-li. Muralhas sobre muralhas, torres, portões, bairros inteiros protegidos como se alguém pudesse simplesmente aparecer do horizonte e decidir invadir.
Mas aquele povoado jogado ao sopé de um platô maior — que devia abrigar o palácio do marquês — era tudo o que compunha Bearlord. O "CEP" da região, por assim dizer.
— Bem... "caótico" — observo, olhando as ruas tortas e sem estrutura planejada, calçamento irregular de pedras redondas. Haviam um "centro" com prédios mais altos e alguns becos, como se aquela "cidade" tivesse história: Um tempo em que era próspero, e um tempo que largou a mão do controle e seu crescimento se tornou irregular, ainda assim um ar de vazio.
— Sei não... Na Ilha dos Gatos é assim também. — Xitarro informa, pisando no calçamento pela primeira vez desde a escarpa.
— "Ilha dos Gatos" é de onde você vem?
— Sim.
— Não tem outro nome? — Eu coço a cabeça confuso.
— Não.
— E quem vocês cultuam lá?
— O Deus Gato.
— E qual o nome dele?
— Não entendi... — O catfolk me olha surpreso.
— Tipo, o Deus Águia é Aetíades, o Deus Carneiro é Pallas, o seu guaxinim é Don-o-Ron...
— Ah... — Xitarro pisca. — Só chamamos ele de "Deus Gato" mesmo.
Curioso... "Ilha dos Gatos que cultuam o Deus Gato".
— E ele é deus do quê?
— Da gente.
— Tipo... de "ser gato"? Não sei... Ter nove vidas, caçar ratos... Novelos de lã?
— Sabe, nunca pensamos muito nisso... — Xitarro coça o queixo, contemplativo. — Já tem deuses para cada coisa da vida. Acho que ele só fica deitado, preguiçoso, no alto de sua árvore-templo.
— Hmm... Justo — falo enfim, dando de ombros. — Acho que vi uma taverna ou algo que o valha ali na frente. Não vai ser nenhum "Olho da Maré", mas quem sabe o que vamos encontrar aqui, não é?
Pois é. A gente não tinha a menor ideia.

Amellie sempre tem um vestido extra. Este era curto. Pouco prático para escaladas... mas, em muitos aspectos, civilizado.
Os povos das montanhas são acolhedores à sua própria maneira. Uma casinha simples na subida do platô permitiu que ela entrasse para um "banho" rápido após a jornada. Ela se empolgou e decidiu tingir o cabelo em uma cor mais escura. Lembrava que fez exatamente o mesmo da última vez em que esteve em Bearlord...
... Mas, daquela vez, ela tinha vindo apenas como a "negociadora" do Monsenhor, tentando fazer com que a nobreza local tolerasse a presença da Igreja. Capri esteve ao seu lado o tempo inteiro, e a Marquesa Ydal estava de péssimo humor.
Amellie teve receio naquela época. Acabou jamais tocando no assunto principal. Nunca houve oportunidade.
Madame Morgan, no entanto, havia mostrado recentemente que pessoas como elas deveriam criar a oportunidade. Bem, Ydal não era nada como Morgan, mas o quanto dessa hesitação era apenas o preconceito herdado da memória antiga de Cyrak? Talvez houvesse um ser humano por baixo da fachada superficial e egoísta da atual marquesa de Bearlord.
— Essa é a Senhorita Amellie?! — exclama um homem assim que ela se aproxima do portão de ferro do castelo. Ele era... familiar. — A senhorita virou uma bela mulher!
— Obrigada... Senhor...?
— Chefe Tamar! — ele se apresenta, prestativo. Foi gentil ao perceber que a barda não o reconhecia de imediato. — Fui frequentador da Igreja e hoje sou o chefe da guarda de Bearlord! Seu criado!
— Bela carreira, Chefe Tamar! — Amellie cumprimenta, oferecendo seu melhor sorriso diplomático. — Estive fora por tempo demais. Vim prestar meus respeitos à marquesa. A estrada estava terrível, então preferi começar por aqui.
— Ah, claro — Tamar ri, ajeitando o peitoral de couro. — Deve se lembrar que dia é hoje, não é?
Amellie estranha a pergunta, arqueando uma sobrancelha.
— Eh... Domingo? — ela arrisca, tentando puxar pela memória. — Três dias desde o aniversário de Lizzo e... Oh, não.
— Pois é! — Tamar dá uma gargalhada alta. — É hoje que a maldição do Monsenhor é suspensa! A cidade inteira se tranca! A senhorita fez muito bem em evitar o povoado!
Amellie sentiu o sangue congelar por um segundo. Ela tinha esquecido completamente do "feriado" do Capri.
Se Bentho e Xitarro fizerem besteira... aquilo seria um erro fatal.
— Eles estão fechando?!? — Xitarro observa.
As janelas da taverna já estavam lacradas. Do lado de dentro do estabelecimento, dava para ouvir o barulho frenético de vassouras e rodos raspando o assoalho.
A taverna em si não mostrava nenhum nome na fachada, apenas a placa de madeira com a gravura de uma caneca balançava em silêncio sob a fraca iluminação de uma lanterna. Mas, antes mesmo de chegarmos à entrada, um vulto enorme veio rolando porta afora, aterrissando com um baque pesado sobre alguns barris de lixo encostados na parede. Um homem que julgamos ser o taverneiro ou um senescal tentava conduzi-lo, mas perdeu o equilíbrio — ou a força — no final.
Ele estava nu. Logo atrás, um segundo homem de avental vinha correndo com o que parecia ser um poncho improvisado, feito da costura tosca de várias toalhas de mesa. O primeiro cobriu a modéstia do pobre diabo com o poncho.
— Não encontrei suas roupas, meu senhor... — o sujeito do avental justificou para o pelado descabelado, enquanto tentava ajeitá-lo sentado contra a madeira. — Não faço ideia de como o senhor conseguiu perdê-las... mas veste isso aqui por enquanto...
— Com licença... — Xitarro adiantou-se, pisando com cuidado. — Vocês estão fechando?
O homem abandonou momentaneamente o enorme maltrapilho confuso e se voltou para mim e para o Xitarro.
— Oh, forasteiros! Tinha de ser! — ele resmungou, enxugando o suor da testa com o braço. — Sinto muito, mas só vamos poder abrir à noite.
— Mas... estamos famintos! — Xitarro comentou, desanimado. — Tem outra taverna por aqui?
— Bem, tem três ao todo... fora a minha. Podem até arriscar, mas, pelo horário, nosso amigo aqui já deve ter passado por todas elas. — Ele deu um tapa leve no ombro do homem ébrio, que mal parecia registrar o toque.
— Ele é só um homem — eu comentei, cruzando os braços. — Não tem como ter comido o estoque de comida da cidade inteira!
— Não, não a comida — o taverneiro corrigiu. — Mas o álcool sim, pela semana... e a consequência disso é... Bem...
Ele puxou a porta da taverna para nos mostrar.
O cheiro pujante, ácido e azedo nos atingiu de frente como um soco no estômago. Lá dentro, um pequeno esquadrão de limpeza usando máscaras de praga esfregava com fúria manchas terrosas espalhadas pelo chão, pelas mesas e... pelo teto?! COMO?!
— O que aconteceu aqui?! — me assombrei, sentindo um alívio imenso no segundo em que ele bateu a porta de novo, reduzindo o fedor a sobrevivíeis 8%.
— Faz parte... — o taverneiro deu de ombros, acostumado. — Uma vez por ano. É um pequeno preço a pagar: por trezentos e sessenta e quatro dias de ordem, a gente aguenta um dia de putelância.
— Só uma vez por ano... — o calibrado repetiu num balbucio, oscilando a consciência e pendurando a cabeça para o lado. Eu não entendia nada...
Eu... Imagino que aquilo que eles falavam eram palavras. Mas a ordem delas não comunicou-nos nada.
— Bem... — Xitarro falou tristonho, levando a mão ao estômago. — Meu apetite acabou, de qualquer forma. Quer ir direto para a igreja agora, Bentho?
— Vocês vão à Igreja da Perseverança?! — O taverneiro se animou na hora, os olhos brilhando. — Poderiam fazer a gentileza de levá-lo com vocês? Cartallas vai abençoá-los regiamente por isso!
— Bem... acho que ele precisa de roupas, um banho, um exorcismo... — eu comentei, olhando para aquela montanha de carne caída pelas tabelas. — Ajuda aqui, Xitarro.
— Bentho, pensei que a gente não ia mais fazer "caridades"... — o monge murmurou no meu ouvido.
Eu esperei o taverneiro dar dois passos de volta para dentro para responder baixo:

— Pois é... — resmunguei. — Mas, sem a Amellie aqui para abrir as portas, a gente precisa de uma boa desculpa para pedir santuário na Igreja da Perseverança! Esse panguando deve servir.
— Você disse... Amellie?! — resmungou o bêbado, mexendo uma das orelhas.
— Esquece que ouviu esse nome, moço... — reclamei, já me aproximando dele. — Vai ter algum noviço lá que vai jogar você na água benta e...
— Ele é maior que o Khao? — Xitarro interrompeu, avaliando a largura das costas do sujeito.
— O quê?!
— Eu achei que o seu Capitão Khao era o maior humano que eu já tinha visto... — ele insistiu, sério. — Mas este cara é maior!
— Não — eu neguei de imediato. — Ele está só... mais largado, esticado no chão. Todo mundo fica mais comprido quando está sendo carregado.
Passei um dos braços pesados dele sobre os meus ombros, quase dobrando os joelhos com o peso. Xitarro fez o mesmo pelo outro lado, soltando um ganido curto pelo esforço. E assim, aos trancos e barrancos, fomos arrastando o gigante bêbado rua afora.
Era a primeira vez que Amellie visitava o mausoléu de Glen Bearlord. Ele não existia durante os primeiros tratados da Igreja com Bearlord, quando veio ao castelo.
Eu meio que "acordo".
Estava acostumado às cidades muradas de Shén-li. Muralhas sobre muralhas, torres, portões, bairros inteiros protegidos como se alguém pudesse simplesmente aparecer do horizonte e decidir invadir.
Mas aquele povoado jogado ao sopé de um platô maior — que devia abrigar o palácio do marquês — era tudo o que compunha Bearlord. O "CEP" da região, por assim dizer.
— Bem... "caótico" — observo, olhando as ruas tortas e sem estrutura planejada, calçamento irregular de pedras redondas. Haviam um "centro" com prédios mais altos e alguns becos, como se aquela "cidade" tivesse história: Um tempo em que era próspero, e um tempo que largou a mão do controle e seu crescimento se tornou irregular, ainda assim um ar de vazio.
— Sei não... Na Ilha dos Gatos é assim também. — Xitarro informa, pisando no calçamento pela primeira vez desde a escarpa.
— "Ilha dos Gatos" é de onde você vem?
— Sim.
— Não tem outro nome? — Eu coço a cabeça confuso.
— Não.
— E quem vocês cultuam lá?
— O Deus Gato.
— E qual o nome dele?
— Não entendi... — O catfolk me olha surpreso.
— Tipo, o Deus Águia é Aetíades, o Deus Carneiro é Pallas, o seu guaxinim é Don-o-Ron...
— Ah... — Xitarro pisca. — Só chamamos ele de "Deus Gato" mesmo.
Curioso... "Ilha dos Gatos que cultuam o Deus Gato".
— E ele é deus do quê?
— Da gente.
— Tipo... de "ser gato"? Não sei... Ter nove vidas, caçar ratos... Novelos de lã?
— Sabe, nunca pensamos muito nisso... — Xitarro coça o queixo, contemplativo. — Já tem deuses para cada coisa da vida. Acho que ele só fica deitado, preguiçoso, no alto de sua árvore-templo.
— Hmm... Justo — falo enfim, dando de ombros. — Acho que vi uma taverna ou algo que o valha ali na frente. Não vai ser nenhum "Olho da Maré", mas quem sabe o que vamos encontrar aqui, não é?
Pois é. A gente não tinha a menor ideia.
Amellie sempre tem um vestido extra. Este era curto. Pouco prático para escaladas... mas, em muitos aspectos, civilizado.
Os povos das montanhas são acolhedores à sua própria maneira. Uma casinha simples na subida do platô permitiu que ela entrasse para um "banho" rápido após a jornada. Ela se empolgou e decidiu tingir o cabelo em uma cor mais escura. Lembrava que fez exatamente o mesmo da última vez em que esteve em Bearlord...
... Mas, daquela vez, ela tinha vindo apenas como a "negociadora" do Monsenhor, tentando fazer com que a nobreza local tolerasse a presença da Igreja. Capri esteve ao seu lado o tempo inteiro, e a Marquesa Ydal estava de péssimo humor.
Amellie teve receio naquela época. Acabou jamais tocando no assunto principal. Nunca houve oportunidade.
Madame Morgan, no entanto, havia mostrado recentemente que pessoas como elas deveriam criar a oportunidade. Bem, Ydal não era nada como Morgan, mas o quanto dessa hesitação era apenas o preconceito herdado da memória antiga de Cyrak? Talvez houvesse um ser humano por baixo da fachada superficial e egoísta da atual marquesa de Bearlord.
— Essa é a Senhorita Amellie?! — exclama um homem assim que ela se aproxima do portão de ferro do castelo. Ele era... familiar. — A senhorita virou uma bela mulher!
— Obrigada... Senhor...?
— Chefe Tamar! — ele se apresenta, prestativo. Foi gentil ao perceber que a barda não o reconhecia de imediato. — Fui frequentador da Igreja e hoje sou o chefe da guarda de Bearlord! Seu criado!
— Bela carreira, Chefe Tamar! — Amellie cumprimenta, oferecendo seu melhor sorriso diplomático. — Estive fora por tempo demais. Vim prestar meus respeitos à marquesa. A estrada estava terrível, então preferi começar por aqui.
— Ah, claro — Tamar ri, ajeitando o peitoral de couro. — Deve se lembrar que dia é hoje, não é?
Amellie estranha a pergunta, arqueando uma sobrancelha.
— Eh... Domingo? — ela arrisca, tentando puxar pela memória. — Três dias desde o aniversário de Lizzo e... Oh, não.
— Pois é! — Tamar dá uma gargalhada alta. — É hoje que a maldição do Monsenhor é suspensa! A cidade inteira se tranca! A senhorita fez muito bem em evitar o povoado!
Amellie sentiu o sangue congelar por um segundo. Ela tinha esquecido completamente do "feriado" do Capri.
Se Bentho e Xitarro fizerem besteira... aquilo seria um erro fatal.
— Eles estão fechando?!? — Xitarro observa.
As janelas da taverna já estavam lacradas. Do lado de dentro do estabelecimento, dava para ouvir o barulho frenético de vassouras e rodos raspando o assoalho.
A taverna em si não mostrava nenhum nome na fachada, apenas a placa de madeira com a gravura de uma caneca balançava em silêncio sob a fraca iluminação de uma lanterna. Mas, antes mesmo de chegarmos à entrada, um vulto enorme veio rolando porta afora, aterrissando com um baque pesado sobre alguns barris de lixo encostados na parede. Um homem que julgamos ser o taverneiro ou um senescal tentava conduzi-lo, mas perdeu o equilíbrio — ou a força — no final.
Ele estava nu. Logo atrás, um segundo homem de avental vinha correndo com o que parecia ser um poncho improvisado, feito da costura tosca de várias toalhas de mesa. O primeiro cobriu a modéstia do pobre diabo com o poncho.
— Não encontrei suas roupas, meu senhor... — o sujeito do avental justificou para o pelado descabelado, enquanto tentava ajeitá-lo sentado contra a madeira. — Não faço ideia de como o senhor conseguiu perdê-las... mas veste isso aqui por enquanto...
— Com licença... — Xitarro adiantou-se, pisando com cuidado. — Vocês estão fechando?
O homem abandonou momentaneamente o enorme maltrapilho confuso e se voltou para mim e para o Xitarro.
— Oh, forasteiros! Tinha de ser! — ele resmungou, enxugando o suor da testa com o braço. — Sinto muito, mas só vamos poder abrir à noite.
— Mas... estamos famintos! — Xitarro comentou, desanimado. — Tem outra taverna por aqui?
— Bem, tem três ao todo... fora a minha. Podem até arriscar, mas, pelo horário, nosso amigo aqui já deve ter passado por todas elas. — Ele deu um tapa leve no ombro do homem ébrio, que mal parecia registrar o toque.
— Ele é só um homem — eu comentei, cruzando os braços. — Não tem como ter comido o estoque de comida da cidade inteira!
— Não, não a comida — o taverneiro corrigiu. — Mas o álcool sim, pela semana... e a consequência disso é... Bem...
Ele puxou a porta da taverna para nos mostrar.
O cheiro pujante, ácido e azedo nos atingiu de frente como um soco no estômago. Lá dentro, um pequeno esquadrão de limpeza usando máscaras de praga esfregava com fúria manchas terrosas espalhadas pelo chão, pelas mesas e... pelo teto?! COMO?!
— O que aconteceu aqui?! — me assombrei, sentindo um alívio imenso no segundo em que ele bateu a porta de novo, reduzindo o fedor a sobrevivíeis 8%.
— Faz parte... — o taverneiro deu de ombros, acostumado. — Uma vez por ano. É um pequeno preço a pagar: por trezentos e sessenta e quatro dias de ordem, a gente aguenta um dia de putelância.
— Só uma vez por ano... — o calibrado repetiu num balbucio, oscilando a consciência e pendurando a cabeça para o lado. Eu não entendia nada...
Eu... Imagino que aquilo que eles falavam eram palavras. Mas a ordem delas não comunicou-nos nada.
— Bem... — Xitarro falou tristonho, levando a mão ao estômago. — Meu apetite acabou, de qualquer forma. Quer ir direto para a igreja agora, Bentho?
— Vocês vão à Igreja da Perseverança?! — O taverneiro se animou na hora, os olhos brilhando. — Poderiam fazer a gentileza de levá-lo com vocês? Cartallas vai abençoá-los regiamente por isso!
— Bem... acho que ele precisa de roupas, um banho, um exorcismo... — eu comentei, olhando para aquela montanha de carne caída pelas tabelas. — Ajuda aqui, Xitarro.
— Bentho, pensei que a gente não ia mais fazer "caridades"... — o monge murmurou no meu ouvido.
Eu esperei o taverneiro dar dois passos de volta para dentro para responder baixo:
— Pois é... — resmunguei. — Mas, sem a Amellie aqui para abrir as portas, a gente precisa de uma boa desculpa para pedir santuário na Igreja da Perseverança! Esse panguando deve servir.
— Você disse... Amellie?! — resmungou o bêbado, mexendo uma das orelhas.
— Esquece que ouviu esse nome, moço... — reclamei, já me aproximando dele. — Vai ter algum noviço lá que vai jogar você na água benta e...
— Ele é maior que o Khao? — Xitarro interrompeu, avaliando a largura das costas do sujeito.
— O quê?!
— Eu achei que o seu Capitão Khao era o maior humano que eu já tinha visto... — ele insistiu, sério. — Mas este cara é maior!
— Não — eu neguei de imediato. — Ele está só... mais largado, esticado no chão. Todo mundo fica mais comprido quando está sendo carregado.
Passei um dos braços pesados dele sobre os meus ombros, quase dobrando os joelhos com o peso. Xitarro fez o mesmo pelo outro lado, soltando um ganido curto pelo esforço. E assim, aos trancos e barrancos, fomos arrastando o gigante bêbado rua afora.
Era a primeira vez que Amellie visitava o mausoléu de Glen Bearlord. Ele não existia durante os primeiros tratados da Igreja com Bearlord, quando veio ao castelo.
O Senhor Urso.Seu último inimigo.
Uma alcova na ala norte dos portões de pedra, logo depois da guarita onde encontrara Tamar. Uma reentrância que poderia ser usada, em tempos de grande atividade, como barricada, oficina ou enfermaria. Por isso, era estranho haver ali uma estrutura destinada a permanecer. Mais estranho ainda que aquele fosse o destino final do maior nobre da região.
Amellie já havia visto o quadro desgastado pelos elementos que adornava a parede: Glen montado em Avelã, a ursa atroz, coberta de armadura. Mas aquela pintura deveria estar no alto da lareira do salão de banquetes. Não naquela alcova escondida.
— Chefe Tamar... — ela pergunta. — Não tem uma pedra, ou alguma coisa, indicando onde enterraram o corpo?
— O corpo do Marquês ficou em Portos Dourados — ele informa.
— Vocês não o trouxeram de volta? — Amellie se surpreende. — Eu sei que o Monsenhor tinha providenciado o envio de um mensageiro com a ursa e os pertences dele. E a Guerra de Kazu Marzu terminou há anos...
Tamar hesita.
— A Marquesa não... teve a oportunidade de prestar as devidas homenagens ao fundador.
Amellie sente o peso das palavras. Era uma mentira, tecnicamente. Não uma mentira para enganá-la, mas para proteger sua senhora de algo que o próprio Tamar parecia condenar.
Ela olha novamente para a alcova.
— Esta alcova escura, mal arrumada... — observa. — É tudo o que sobrou da lembrança dele?
— Sim — Tamar suspira. — Até a ursa foi largada na ravina. Tivemos problemas com ela atacando caravanas por um tempo, mas passou. Não sei se morreu ou se aprendeu a conviver conosco.
Ele dá de ombros.
— Faz tantos anos que, a esta altura, provavelmente morreu de velhice, a pobrezinha. Mas seria pior com os cortes de custos que a mestra... Melhor não comentar.
Amellie permanece em silêncio. Estava assombrada.
Glen Bearlord fora uma figura malquista nas altas cortes do Império. O que, considerando o revisionismo histórico da revelação de Caruthers, era um elogio. Acabou relegado àquelas terras duras e difíceis, levando consigo a esposa, Ydal, e a ursa. Tentou impor suas graças colonialistas, e equilibrar o estilo de vida metropolitano de Ydal com saraus e festas.
Foi assim que Cyrak se envolveu com aquela família. Com Ydal. E provocou a fúria do nobre.
Eles poderiam ter duelado. Por mais que Glen fosse um militar competente, Cyrak era o Exemplar dos Bardos. Mas aquilo seria simples demais para Cyrak. Egomaníaco como era, ele transformou tudo em espetáculo: "A Guerra de Bearlord" e todas as suas repercussões.
Roubou o animal sagrado dos bárbaros. Despertou sua consciência para manipulá-los. E então perdeu o controle da criatura.
Bearlord e sua infantaria fizeram um ataque preventivo. O animal escapou. E se tornou Cardullion. Bárbaro. Deus da teimosia. Um terço do atual Cartallas.
Os bárbaros supersticiosos viram naquela fuga um mau presságio. Cyrak estava cercado: de um lado, o exército dos bárbaros; do outro, os homens de Bearlord.
A fuga era impossível. Em vida.
Se ele soubesse que Myrlen havia danificado o homúnculo... Seu clone... Aquele que retornaria à vida quando o original perecesse... Talvez tudo tivesse sido diferente.
Talvez não houvesse... Amellie.
Bearlord foi um líder melhor que Cyrak a despeito de suas limitações, e triunfou. De uma forma absurda, Cyrak com outros olhos e outra vida agora olha seu velho inimigo sendo desrespeitado em sua própria casa e sente por ele.
— A Marquesa vai recebê-la agora, senhorita — Tamar estende a mão para indicar o caminho, liberando um mensageiro que lhe trouxe o aviso enquanto a barda estava perdida em pensamentos sobre as circunstâncias. Ela ergue os olhos.
— Serei recebida ... No castelo?
— Melhor — ele aponta para uma passagem de pedra para o pátio interno. — No mausoléu do Menestrel Cyrak.
Bearlord foi um líder melhor que Cyrak a despeito de suas limitações, e triunfou. De uma forma absurda, Cyrak com outros olhos e outra vida agora olha seu velho inimigo sendo desrespeitado em sua própria casa e sente por ele.
— A Marquesa vai recebê-la agora, senhorita — Tamar estende a mão para indicar o caminho, liberando um mensageiro que lhe trouxe o aviso enquanto a barda estava perdida em pensamentos sobre as circunstâncias. Ela ergue os olhos.
— Serei recebida ... No castelo?
— Melhor — ele aponta para uma passagem de pedra para o pátio interno. — No mausoléu do Menestrel Cyrak.

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