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11 de setembro de 2026

EDGELORD - Cap. IV - Arco da Perseverança

 [Entre quatro e cinco anos atrás...]

O Monsenhor Capri Mordman, um dos homens mais poderosos daquelas terras, abriu os portões duplos de carvalho com um baque furioso.

— Eu nunca quis tanto SOCAR uma MULHER antes! — ele urrou, a voz ressoando pelas vigas do teto. O seu poderoso punho cerrado como se pudesse comprimir um carvão em diamante.

Eu corri atrás dele, tentando fechar as portas atrás de nós o mais rápido possível para que ninguém nos corredores ouvisse o surto de cólera do meu amigo.

— Fale baixo! — pedi, num sussurro desesperado. — E não, você não vai socar a Lady Ydal Bearlord!

— Tem razão... Seria rápido demais! — Ele se largou numa poltrona de couro, bufando e gesticulando. — Vou esganar... Apertar aquele pescocinho de franga. Não com toda a minha força, só o suficiente para ela definhar enquanto eu assisto!

— Capri, ela só tem essas provocações soltas agora! — Eu suava frio, tentando impedir que aqueles ataques de fúria ficassem à vista da nobreza local. — Você viu a carta que o capião Jackie mandou de Portos Dourados. O Triumvirato está com você. A Ydal não tem como deter a expansão da Igreja agora!

— Olhe só... — Ele começou a rir, uma risada amarga que misturava fúria, ironia e consternação. Ele apontou para uma jarra de cristal transparente sobre a mesa, contendo um líquido vermelho-vivo. — Ela mandou uma JARRA de VINHO para nós! Isso é provocação direta!

— É mera cortesia diplomática! — tentei defender.

— Você tem quatorze anos, e eu sou amaldiçoado por Ênya! — ele observou, encarando o recipiente com desprezo. — É para provocar!

— E... E se for só um suco de fruta? Um ponche?

Eu mesma não acreditava no que estava dizendo, mas Capri parecia insultado pela simples insinuação.

Ele estendeu o dedo indicador e tocou na superfície do líquido. Nem precisou olhar para saber o resultado. Quase instantaneamente, a cor avermelhada desvaneceu, e o conteúdo se converteu em água cristalina.

— Obrigado, Ênya! Sua vaca! — ele resmungou para o teto. — Estou dizendo... Nós temos mais homens que a Marquesa. E os nossos homens são melhores que os dela! Os poucos que restam a ela são, em boa parte, devotos de Cartallas. Eu deveria simplesmente terraplanar aquele castelo com aquela franga dentro!

— Ótimo! — resmunguei, cruzando os braços e elevando a voz para iguala-lo. — E depois, tome Portos Dourados também! E por que parar lá? Shén-Li está além das montanhas! Crie você mesmo um império ao seu redor!

Eu me esgueirei por trás da poltrona dele e sussurrei, na altura de seu ouvido:

— Você me aleijaria e me colocaria numa cadeira de rodas também?

Capri se levantou num pulo, atordoado, como se tivesse levado um tapa.

— Não foi legal, Amellie! — protestou ele, ajustando a túnica.

— Eu sei... Pesado demais — me desculpei na hora. — Sinto muito. Mas quando você fica furioso, só o absurdo consegue entrar nessa sua cachola!

Ele respirou fundo, soltando o ar devagar até os ombros relaxarem.

— Certo. Vou me comportar — aceitou, por fim. — Obrigado... Agora... tem certeza que não quer vir comigo?

Eu hesitei.

— É meio mórbido demais... — usei como desculpa.

— É o cadáver do Menestrel Yawe Cyrak! — ele insistiu. — O meu batalhão morreu para colocá-lo naquele esquife!

Precisei de um esforço colossal de concentração para não reagir como a minha memória antiga exigia àquela observação.

— Você... Pode me dizer como era... o verdadeiro Marquês de Bearlord? — perguntei, mudando de assunto. — Você sempre dizia que odiava o homem... e tudo o que ele fez com você, com seus companheiros e com o seu povo...

Capri não pareceu abalado apesar da sensibilidade que aquele assunto deveria ter.

— Não leve a sério o meu discurso de "cutucar a carrapeta do demônio" — ele falou com certa leveza. — Sim, todo soldado tem suas rusgas com o superior. Mas isso não significa que não o respeitávamos. Ao menos em um exército saudável, isso é o normal.

— Mas ele ordenou que a sua companhia atacasse o exército bárbaro do Cyrak — observei. — Só você sobreviveu, e por pura sorte!

— O homem tinha uma visão, um ângulo estratégico — Capri comentou, olhando para a janela. — Não podemos julgar o passado apenas pelo que sabemos hoje. Ele ganhou a guerra a um preço alto, e isso lhe pesou pelo resto de seus anos. A cura vem com o presente e o futuro, não com o que não pode mudar. Eu sou a prova disso. Fui curado por Cardullion e hoje posso ajudar outros a se curarem.

Ele caminhou até o batente da porta e se deteve por um segundo. Então, fechou a porta ficando dentro do quarto.

— Então, talvez você esteja certa... — concluiu por fim. — Cutucar uma ferida antiga indo prestigiar o corpo exposto de um inimigo morto não seria saudável. E não vamos desperdiçar essa caríssima jarra de água pura que a Marquesa nos mandou, não é?

— Podemos beber em taças — comentei, rindo fraco.


[O PRESENTE]


A Igreja da Perseverança já era uma das três ou quatro maiores religiões do continente. E olha que sua consolidação tinha pouco menos de cinco anos.

Quando penso nisso, lembro o quanto Amellie é foda.

E ela está na minha "companhia maligna". Fingindo que eu sou o chefe...

Xitarro, por sua vez, tinha sido previsto para se tornar o Exemplar dos Monges. Pau-a-pau com Lord Blunt, Menestreil Cyrak, Arquimago Myrlen, Fausto Katzophlis...

Eu achei que tinha recebido um power boost desde os Piratas Solares. ~Ainda~ sou o menos impressionante da Ledgyão.

— Cara... a gente passou pela Igreja quando chegou e nem viu! — comento percebendo após a indicação que era um prédio grande de alvenaria bem na entrada da cidade, mas parecia tudo, menos um templo.

Estou arrastando, junto com Xitarro, um mendigo malcheiroso que pesa algo próximo de meia tonelada.

— Eu achei que era uma fortaleza quando passamos, ou um estábulo. — Xitarro responde. — Talvez até fosse o castelo que a senhorita Amellie ia visitar a viúva ber-sei-la-o-quê.

Você disse... — O bêbado começa a falar. — Amellie foi ver Bearlord?

— Sim, a gente fala um nome, você diz "você disse" e repete a última coisa que a gente falou! — dou um esporro. — É feio escutar a conversa dos outros, sabia?

— B-Bentho? — Xitarro me cutuca.

— Tá... tá... desculpa, tiozinho. — Respiro fundo, dando um tapa amigável no mendigo. — As últimas horas foram meio estressantes para mim. Não deveria descontar em você. Entre a armadura de Lord Blunt que eu destruí e...

— [Corvos de Morval.] — Gladys interrompe meus pensamentos. Eu paro.

— Como é?

— [Corvos de Morval.]

— A gente está do outro lado do continente em relação a Huo-fen! Se sobrou alguém sequerm em em Hálcora, não é...

— Só... olha para a frente, Bentho — Xitarro insiste.

Olho.

Ah.

Déjà vu.



___

Eu lembro que tinha todo um plano na cabeça na primeira vez que vim a Bearlord ao lado de Capri. Iria desgarrar da comitiva da Igreja. Esgueirar-me até o mausoléu, roubar de volta os melhores itens e levar um cacho de cabelos. Aquilo poderia ser a solução para o meu corpo original...

... Mas tive medo.

Eu podia dar a justificativa que quisesse — que precisaria abandonar a Igreja, que seria perseguida — mas a verdade era mais simples: foi um medo primitivo de encarar meu antigo corpo morto. Algo que teria de fazer agora, se quizesse ter uma audiência com Ydal.

Bearlord queria o duelo. Acho que foi exatamente por isso que Cyrak o recusou. Quando o Marquês finalmente alcançou o acampamento principal dos bárbaros, Cyrak já estava morto... e eu "renascia" em um solar em Yalatanil.

Glen Bearlord se certificou de que o cadáver era genuíno; afinal, tinha todos os motivos do mundo para suspeitar de algum truque do Menestrel. Depois, restaurou o corpo a uma forma apresentável, o lacrou num esquife com seus itens pessoais e prestou os devidos ritos ao inimigo... Uma dignidade que, ironicamente, a própria esposa viria a lhe negar.

Mesmo com a Marca falida pela guerra e por suas consequências, Bearlord ergueu o mausoléu original para expor o corpo de Cyrak, além da estátua em homenagem à Infantaria da Montanha, sacrificada em nome da vitória. Ele investiu tudo para reanimar a moral de suas forças e, mais tarde, viu-se forçado a aceitar contratos mercenários em lugares como Portos Dourados para tentar se reerguer. Foi em uma dessas campanhas — na Guerra de Kazu Marzu contra os goblins — que Glen Bearlord encontrou seu fim.

Capri já não era mais um soldado de Bearlord na época, mas estava lá. Ainda não era o líder da Igreja, mas providenciou os primeiros arranjos para comunicar a Marquesa... E só agora eu descobria que aqueles tinham sido os únicos.

— Tamar, posso conversar um pouco com você?

— Claro, senhorita.

O chefe da guarda destoava completamente dos poucos guardas maltrapilhos que eu via enquanto era conduzida pelas áreas satélites do castelo. Não era apenas o equipamento bem-cuidado, mas a postura. Ele dissera que fora da Igreja; provavelmente tinha treinamento de cavaleiro e um senso de justiça que o lugar há muito esquecera.

— Como está o ânimo geral da fortaleza?

Tamar hesitou, ajustando a braçadeira de couro.

— Melhorou nos últimos anos — comentou, com a voz baixa. — Não há mais protestos populares nas portas por conta dos saques nas estradas, embora os habitantes mais tradicionalistas ainda reclamem do retorno dos bárbaros. Mas...

— ... Mas esses eventos são consequência da presença do Capítulo de Cardullion e seus cavaleiros andantes, não da administração da Marquesa — completei.

— Acredito que a Marquesa seja grata ao Monsenhor... — disse ele, medindo as palavras. — Graças a isso, podemos nos dedicar a outras atividades de que a região necessita.

— Conseguiu atrair companhias mineradoras? Exploradores? Geógrafos?

— Milady, eu... prefiro não...

— ... Não difamar a inaptitude de sua mestra? Como diria meu atual empregador: "Justo"... — interrompi com suavidade. — Eu entendo e não o culpo. E eu ficaria muito satisfeita em ter um defensor do seu calibre, e com a sua lealdade.

Eu olhei diretamente nos olhos dele.

... E senti que ele entendeu.

Entendeu que havia uma fagulha ali. Algo perigoso, silencioso e indispensável... algo que precisaria ser feito muito em breve.

___

Cinco homens estavam no caminho. Pareciam particularmente ameaçadores, talhados para a violência e prontos para ela. Não meros "posers"... 

— Okay... vocês são um pouco grandes para ladrões — observo. — E nem nos cercaram ainda. Temos corredor livre atrás de nós!

O homem que parecia ser o chefe sorri.

— Oh, vá em frente. Tentem correr. — Ele abre os braços. — — Adoramos uma perseguição!

Okey, ele parecia falar sério...  e eu acho que vou roubar essa fala. ficou muito maneira.

— Somos as Cinco Máscaras de Don-o-Ron! — Um ao lado dele comenta. 

— Você disse Don-o-Ron?! — Xitarro arregala os olhos. 

— Você também vai começar com isso de "você disse seilaoque"? — Resmungo com o monge.

— Bentho... Don-o-Ron é o "meu guaxinim" — Ele me lembra. — Aquele que você e Amellie acham que eu inventei! 

O líder se aproxima.

— Você deve ser Xitarro, o catfolk que concluiu a missão do Fogo Frio.

Caramba.

A maluquice da história de Xitarro era real?

Ou pelo menos os ladrões cara-pintada acreditavam...

— Bem, senhores "Cinco Máscaras"... — largo o mendigo nas mãos de Xitarro. — Primeiro: excelente nome. dedicação ao tema...

Olho para as máscaras.

— E essas máscaras de guaxinim são tatuagens permanentes?

Um dos homens no fundo se arrepia.

— Você é louco?! É pintura lavável, claro! Temos vida fora da Guilda!

— Vocês ... Vocês são infinitamente melhores nisso do que meu último encontro com uma "guilda de ladrões", devo dizer. — Cruzo os braços, admirado. — Até usam espadas de verdade, e não tonfas!

— O que seria "tonfas"? — pergunta outro. Vou chamá-lo de *Máscara nº 3*.

— É uma arma idiota... — Esfrego as sobrancelhas. — Como eu descrevo para vocês... Bem pensem em...

— Bentho, eu tenho uma aqui. — Xitarro senta o cachaceiro atrás de um barril e abre a sacola.

— O... POR QUE você guardou uma dessas coisas?

— Lembrança de nossa primeira aventura junto em Hálcora! — O monge comenta. Ele saca a tonfa e joga para *Máscara nº 1*. O homem pega o objeto no ar com competência.

Olha para o cabo longo.

Olha para o cabo curto transversal.

Vira a arma de cabeça para baixo.

— Tipo... — ele começa. — É um martelinho de madeira? Precisa mirar a pecinha na testa de alguém?

— Não. — Respondo. — Eles seguram pelo cabo menor e giram o maior em grip invertido. Ou usam no antebraço como um escudo.

Os cinco se entreolham.

Silêncio.

— Mas... isso é imbecil.

Obrigado! — eu e Xitarro agradecemos em uníssono.

*Máscara nº 1* joga de volta a arma.

— Podem ficar com essas "fonfas". — Ele aponta para nossas mochilas. — Mas deixem todo o resto.

— Ah, cara... achei que a gente estava se dando bem.

— E estamos, vocês são divertidos! — diz a *Máscara nº 4*. — Mas negócios são negócios.

— Só me dá um segundinho para falar com meu associado? — Levanto um dedo. Não espero resposta.

___





Eu... estava... horrorizada.

Não cheguei a entrar no "meu" mausoléu à época em que vim com Capri, mas imaginava um prédio cerimonioso e respeitável. Grande, até. Mas o que encontrei agora... era a porcaria de um **SALÃO DE BAILE!**

Ouvia-se uma lira arranhada por uma senhora de talentos medianos bem na entrada. Os soldados dali usavam camisões em vez de uniformes e armaduras — pareciam garçons improvisados, não guardiões!

E o chão... assoalho de madeira nobre! Ela devia ter trazido do Distante Norte ou de Shén-Li. O fluxo de moedas de impostos claramente melhorara desde que a Cavalaria estabilizara a região, mas gastar aquilo num salão suntuoso e profano era simplesmente obsceno.

E lá estava a peça principal.

Não num altar reservado, mas no centro do salão como uma mesa de frios, imediatamente abaixo de um "trono" singular.

O cadáver do Menestrel Cyrak. Em um esquife de cristal.


— A escriba da Igreja... — disse Ydal, com um sorriso refinado que não chegava aos olhos para não provocar pés de galinha. — Como o tempo voa. A juventude tem esse hábito vulgar de parecer radiante sem precisar de esforço, não é? Aproveite cada segundo, Amellie... a decadência é uma cliente muito pontual para quem não tem onde investir.

— Minha senhora... — respondi, engolindo o empenho. — Acho que... evitei por tempo demais ver este esquife...

— Já ouviu falar das "viúvas de Cyrak"? — ela perguntou.

Após o encontro com Morgan, eu não me surpreenderia se Ydal já soubesse da verdade... mas não, era pura vaidade aristocrática.

— Elas são tão famosas quanto o próprio menestrel — pontuei.

— Todas falsas! — retrucou Ydal, abanando-se com o leque e expondo um decote desnecessariamente generoso em seu vestido azul. — Pois ele só morreu por uma! Não concorda? Só uma, sua última amante em vida, poderia clamar esse título.

— Minha senhora... — segurei o fôlego. — Devo dizer... vocês dois se mereciam.

— Pena que só o conheci quando já estava comprometida com meu pobre Glen... — ela começou, dedilhando o vidro com unhas pintadas.

— A senhora não me entendeu — eu a interrompi, sem sequer elevar a voz. — Poucos conhecem Cyrak como eu. Eu achava que ele era o ser vivo mais egoísta que os Deuses Antigos já haviam colocado nestas terras... Mas vejo que ele era apenas o segundo.

— Segundo? — Ela franziu o cenho.

Troquei um olhar rápido com Tamar.

— A injustiça é que, se a senhora não estivesse comprometida com Glen Bearlord, Cyrak jamais daria atenção a você... — complementei. — O que é uma pena. Eu imagino vocês dois como um glorioso e poderoso casal, fazendo a vida um do outro miserável *ad eternum*.

Ela começou a fechar a cara, dando os primeiros sinais de ofensa. Finalmente ela falava a mesma língua que eu! Eu estava a segundos de apenas dizer que ela era "feia e boba".

— A jovenzinha já foi mais educada no passado...

— A senhora quer ver um truque de mágica? - eu cortei com um ar inocente.

Ela arqueou as sobrancelhas, quase desprendendo um dos cílios postiços.

— Bem... poderia compensar essa sua língua ferina com algo assim.

— A senhora jamais abriu este esquife, nem o danificou, eu suponho? — perguntei.

— Ele é hermeticamente selado em cristal — a dama concordou. — Passei horas sobre ele no dia em que chegou. Conheço cada centímetro desta peça como conheço meu próprio corpo.

— Alguma vez tirou o anel da mão esquerda dele?

Ela se debruçou para olhar. Irônico para alguém que "conhecia cada centímetro" precisar conferir.

— É um anel mágico. Com uma carga da magia *Despedaçar* — expliquei. — Desde que o bruxo Morro, décimo Segundo portador da Gladius Aeternum, morreu por não conseguir atravessar uma claraboia no palácio da Rainha dos Malditos, Cyrak usava esse anel em vez de confiar no próprio corpo contra vidro temperado. Ele fugiu do seu marido usando esse truque, se não me engano, quando foram flagrados na primeira vez.

— Eu admito que não percebi... — ela se afastou, desconfiada. — Mas não calunie um evento sem saber ...

Ela achava que eu não tinha visto o sinal discreto que dera. Os "guardas-garçons" estavam se aproximando devagar... Mas o meu plano só funcionaria com eles a três metros de distância de mim, dou-lhe o tempo.

— Pois bem... — concluí. — Aprendi um truque na Montanha Morta...

Espalmei minhas mãos. Direita sobre a esquerda. Girei as palmas, invertendo a posição num movimento invisível aos olhos destreinados.

*Truque de Mãos*.

O anel de *Despedaçar* do Menestrel Cyrak já estava brilhando no meu próprio dedo. Ela constata um pouco atrasada, que não estava mais na mão do cadáver selado.

— GUARDAS! — ela urrou. — UMA LADRA!

Sempre havia ao menos uma carga guardada nesses anéis de loot.

Bati a mão com o anel contra o esquife de cristal e acionei o encanto.

Uma esfera trovejante explodiu ao meu redor. Ydal e seus guardinhas foram projetados para trás, com estilhaços de cristal cortando-lhes a pele e o ar. Sofri eu mesma um baque secundário pela onda de choque, mas permaneci de pé, firme no coração daquela explosão.

O esquife evaporara em mil pedaços.

Eu estava, finalmente, diante do meu antigo corpo.

— TAMAR! GUARDAS! — urrava a Marquesa no chão. — TODOS AQUI, AGORA!

Peguei o punhal na cintura do cadáver. A arma de apoio.

— Olá, *Dançarina*...

Sussurrei o comando. A adaga de prata saltou da bainha e voou em disparada até a entrada do salão, girando no ar contra qualquer um que se aproximasse. Os primeiros reforços que tentaram atender ao chamado foram pegos totalmente de surpresa. Não era um ataque mortal, mas, sem preparo, eles ficaram rendidos e acuados na alcova de acesso por preciosos segundos.

Passei a "saquear" a minha própria carcaça.

O chapéu emplumado — mestre em disfarces e ilusões.

Meu sabre... tantas lembranças, tantos duelos.

As botas de couro fino — precisaria vesti-las mais tarde...

O Anel de Estocagem. A pulseira com pó do sono.

E o principal prêmio... o Alaúde de Mogno atingido pelo trovão de Khyrator. Aquele cujas notas uma vez levaram a Velha Etiópia às lágrimas...

Um único acorde no instrumento original... e minha magia era maximizada.

Um grupo reservista vinha acelerando pela entrada dos fundos. Canalizei o *Padrão Hipnótico* através do alaúde. Uma luz espiralada tomou o corredor e todo aquele flanco paralisou em desespero, preso em ilusões escabrosas.

Os guardas-garçons originais recuperaram-se do ataque trovejante e avançaram sobre mim...

... Mas o Chefe Tamar interveio. Espada longa em punho, desarmando-os e brandindo a lâmina com a maestria de um veterano de guerra.

— O que você PENSA que está FAZENDO, TAMAR?!? — protestou a Marquesa, atônita.

Não sei, madame! — ele retrucou, chutando um dos seus ex-subordinados ao chão. — Pode ser loucura provisória, pode ser um encantamento contra meu melhor julgamento... — Um soldado tentou passar por ele para me alcançar, mas Tamar o deteve com um golpe de ombro violento que o fez capotar de costas. — ... Ou eu posso estar simplesmente retomando as rédeas das minhas convicções!

A Marquesa tentou correr em direção à saída... mas eu cortei sua rota.

Ou melhor, uma imagem ilusória minha cortou.

Ydal viu-se subitamente cercada. Quatro de mim, idênticas e sorridentes, bloqueavam cada saída.

Forcei-a a recuar passo a passo, até que ela tropeçou e caiu sentada em seu próprio "trono".



— V-você não pode ser a mesma Amellie com quem tratei por tantos anos! — gaguejou ela, encarando as ilusões. — V-você é uma impostora desbocada... uma ladra desprezível!

— Você está certa... — Aproximei-me, debruçando meu rosto a centímetros do dela. — Eu sou a Condessa do Crime, Janete Quá...

Ydal fechou os olhos e cobriu o rosto, encolhendo-se como se fosse receber um tapa.

Apenas me levantei, rindo fraco. Quem eu não havia derrubado, Tamar já tinha nocauteado no chão do salão. O capitão cobria meu recuo, e me acompanhava.

— E, segundo Cyrak... — pontuei, ajeitando o chapéu emplumado enquanto caminhava para fora do mausoléu destruído. — Você *ronca*!

___

Recuo até Xitarro e o bêbado semiconsciente.

— Okey, estamos carregados de gemas para o Portal da Igreja... — Eu relembro. — Então, sermos assaltados não é uma opção para restaurar a Virgilia Sombria. 

Não vou nem falar nada... - "gorfa" o mendigo bêbado.

— Bentho... — Xitarro fala baixo. — É idêntico a Hálcora, quando fomos emboscados pelos Corvos.

— Bem... não tanto.

— Você estava sem poder usar a armadura. — Ele olha para os homens. — Estava tentando me proteger...

— Neste caso, eu quero poupar o mendigão ali. — Aponto para o bêbado. E ele parece estar tentando se levantar... melhor que os mascarados o ignorasse...

— Eu posso com eles. — Xitarro fecha os punhos. — Eu assumo a dianteira. Você me cobre com os raios da espada.

— Sei não. — Observo as Cinco Máscaras. — Eles obviamente são melhores que os Corvos tem até espadas de verdade!

— E eu fiquei mais forte desde Hálcora! — Ele dá um passo à frente. — Você disse que eu devia ser o rival do Capitão Khao, mas não me deixa pegar uns bandidos?

Você disse Khao? — resmunga o mendigo. 

Olho para ele censurando.

Desculpe. — ele acena, e volta a nos ignorar.

Volto meu olhar para as Cinco Máscaras. Realmente poderíamos correr, deixando o manguaçeiro para trás. Xitarro com certeza conseguiria despistá-los. Eu, talvez.

Mas carregando aquela massa de músculos e cerveja seria impossível. Seria falta de honra deixá-lo para trás. E também pegaria mal o futuro Senhor do Sombrio ser expulso de mais uma cidade.

— Vou tentar o que fiz com os lobos — digo enfim. — Intimidar eles.

— Melhor não... — Xitarro insiste.

Melhor não... — o bêbado concorda, acho.

— [Comigo, são três votos.] — Gladys sussurra na minha mente.

Olho para os três.

— Okay, Ledgyão... — Aponto para Xitarro. Depois para o bêbado. — ...e Agregado.

O cachaceiro ergue uma sobrancelha.

— Sugestão anotada. Mas vou tomar uma decisão executiva agora.

E começo a andar na direção das Cinco Máscaras.

— Eu sou Bentho, principal servo de Lord Edgy, o Herdeiro da Escuridão, e portador do arsenal de Lord Blunt. Portanto, pensem muito bem antes de decidir se realmente querem descobrir o que acontece quando alguém desafia o homem que carrega o poder de dois dos maiores nomes do Sombrio. Podemos fazer negócios no futuro, mas não com vocês faltando pedaços! Estamos entendidos?!

Devo ter falado muito maneiro... porque os cinco começaram a ficar brancos.

Xitarro colou nas minhas costas, gaguejando.

Será que eu intimidei ele também?

— EU PERGUNTEI!

Eu estava na crista da onda. Materializei Gladius Aeternum na minha mão e gritei:

— ESTAMOS ENTENDIDOS?!




— P-perdão, mo-mo-mo-senhor... — Máscara 1 respondeu. Acho que ele quis dizer “meu senhor”. — Não o reconhecemos.

Ele guardou as espadas. Os demais ou as atiraram fora ou simplesmente correram para longe.

Hmm... minha lenda já chegou até aqui?

— Como eu disse... — dou de ombros. — todos cometem erro e ...

— Vamos voltar para o Assentamento Ymosso. — ele fala, enfim, abaforado. — Não vamos voltar ao povoado. Prometemos!

— Ei! — resmungo. — Não é para tanto! Eu estava pensando em fazermos uma alian...

**BAQUE.**

Só ouvi um som pesado atrás de mim, comparável à avalanche da Montanha Morta.

Em algum momento, o velho bêbado tinha se levantado atrás de mim, enquanto eu intimidava as Máscaras. Ficou de pé por alguns segundos, cambaleando, até despencar pesadamente para trás.

E agora estava roncando.

— Pôrra, Xitarro! — resmungo. — Eu estava ocupado... por que não pegou ele?!

— B-Bentho... — o cara ainda estava abalado. Devo diminuir minha aura na próxima vez.

— Ele poderia ter se machucado... ou machucado algo menor, como... uma casa! — resmungo. — Bora indo. Estamos quase lá. E, dormindo, ele enche o saco menos.

— [Ah, isso vai ser divertido...]

— O quê, Gladys?

— [Te conto depois.]

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