Título: "MEU PAI É O MAIOR VILÃO DO MUNDO... E UM DIA EU VOU SER TAMBÉM, SE O MUNDO NÃO SE DESTRUIR SOZINHO"
Bem-vindos a SHÉN-LI.
Shén-Li é chamada de “o Coração do Mundo” não por tamanho, mas por mentiras.
Há dezessete anos, antes de eu nascer, Shén-Li quase foi derrubada. Um Senhor da Guerra chamado Lorde Blunt ergueu-se das zonas selvagens, portando uma espada sombria que lhe concedia poderes destrutivos. Aliados à sua técnica e sagacidade, esses poderes lhe permitiram angariar um exército mortal.
Quando Shén-Li estava prestes a cair, um bando de aventureiros que se achavam melhores do que realmente eram marchou rumo ao TPK: Khao, Punho de Concreto, monge bárbaro que aguentava porrada, mas tinha limites; o mago Alchima, que se tornaria Mestre Mentor poucos meses depois ao perceber que magia de batalha não era seu forte; Balmon, ferreiro anão que ~dizia~ ter praticamente inventado a arma de fogo que conhecemos hoje; e Lady Àquela... uma arqueira local. Precisavam de alguém que conhecesse a região, que lutasse sem se expor e roubasse a glória dos heróis.
Um a um, esses idiotas iam tombando diante do poder do vilão, tentando deter sua marcha. Lord Blunt, de bom humor, escolheu perder alguns minutos com eles. E, quando tudo parecia perdido, Lady Àquela, arqueira lendária, disparou a flecha que mudou o destino do mundo.
Pois chamou a atenção de Lord Blunt, o maior vilão de todos, mesmo se fragmentando sem causar dano contra a Armadura Negra.
– Àquela?! – falou o senhor de todo o mal, com surpresa genuína.
– V-você me conhece?! – a arqueira sussurrou, assombrada. – Lord Blunt sabe meu nome...
Ela se posicionou entre o orgulhoso Khao caído e o maior mal da história.
– Você não deve nada a esse estrangeiro! – rosna a voz cavernosa de Lord Blunt, senhor da guerra e da escuridão, com surpresa e ironia.
– Talvez... – Àquela ergueu seu arco com a última flecha, na esperança de que um tiro à queima-roupa fosse mais eficiente. Queria continuar com alguma frase que a fizesse parecer intimidante, ou ao menos confiante de que sabia o que estava fazendo... mas nada lhe ocorreu.
– Você está aqui para proteger o estranho, e não seu palácio?! – admira-se Blunt. Parecia mesmo que a arqueira não percebera onde aquela batalha se dava. – Você sabe quem EU sou?! E ainda ousa me desafiar?!
Se ela tivesse qualquer chance de vencer, teria sido disparando naquele instante. Mas estava em pânico. Seus dedos não respondiam. Permaneceu ali, ameaçando mas sem concretizar a ameaça. Blunt deu mais alguns passos, até ficar quase face a face com ela, e segurou o arco da arqueira.
– "Se não houvesse medo, não haveria coragem. Caminhe. Mesmo tremendo. Porque quem acha que força justifica crueldade precisa ser enfrentado".
Lord Blunt, senhor da guerra, repetiu para ela, com precisão surpreendente, palavras de outro. Àquela lembrou-se delas, pois as dissera para confortar alguém.
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Dias antes. Era um jovem adulto atrapalhado. Não particularmente bonito ou ostentoso. Esbarrou em um bêbado numa taverna e passou a ser seguido por ele e mais três figuras mal-encaradas. A guarda local nada fez. Àquela estava ali à procura de emprego no mural dos aventureiros, mas não pôde ignorar a situação.
Viu quando os três empurraram o forasteiro insignificante, tomaram-lhe uma saca de moedas e estavam prestes a espancá-lo. Ela disparou uma flecha de aviso no chão na frente do líder. Os três se intimidaram, mas não a ponto de pânico ou temor real. Preferiram ir embora simplesmente. Levaram o dinheiro, mas cessaram a agressão. Ela o conduziu de volta e pagou-lhe um caldo quente.
Ele disse ser arquivista. Controlava documentos de suprimento da guerra — Blunt chegaria à capital se não o detivessem — e acreditava que, se o vilão esmagasse aquele antro de covardes, seria melhor assim. A Guarda vira que ele estava em perigo e não fizera nada. E ainda reclamara que ele, sozinho, era fraco demais.
Àquela entristeceu-se com a falta de esperança do simpático rapaz que acabara de salvar. Então falou aquele mesmo discurso: “Se não houvesse medo, não haveria coragem”. Bem, talvez não tenha sido tão eloquente quanto o vilão; gaguejou, errou a entonação, mas as palavras foram exatas.
O homem, revoltado por sua aparente impotência, sorriu. Viu uma fagulha de luz na forma daquela arqueira.
Conversaram mais. Tornaram-se amigos. Viram-se outras vezes depois daquela noite.
Ela falou do contrato de Khao e seus amigos, que ousariam atacar Blunt quando ele chegasse à capital. Seriam heróis, pois eram mais fortes que a Guarda. O amigo de Àquela ficou preocupado, e ela o assegurou de que estaria fora de perigo: ficaria escondida no palácio, com tiros de supressão, fora de alcance. Jamais enfrentaria Lord Blunt diretamente.
E agora, ela estava ali... Ouvindo Blunt repetir as palavras que dissera ... A Estebán.
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| A Mentira |
Eu me chamo Bentho. Tenho 17 anos. Cresci sob este quadro antes de ir para Forte Jian, aprendendo a chamá-lo de história antes mesmo de entender a palavra vitória: minha mãe, Lady Àquela, com o punho erguido e o arco ainda tenso, sorri como quem já pagou o preço do amanhã, enquanto Lord Blunt ajoelha em sombras, atravessado por flechas e pelo próprio fim; atrás dela estão Balmon, a barba pesada de coragem; Kaoh, feito um trovão contido; e Alchima, olhos de cálculo e fumaça. Os que se tornariam os capitães da Nova Guarda, mas que aqui ainda são apenas testemunhas fiéis do instante em que o mundo mudou. O cenário é o que sobrou de quando o canto superior esquerdo explodiu ao revelar a Espada Negra. Os capitães da Nova Guarda se reerguem para assistir ao triunfo de Àquela.
Há poucos minutos, descobri que aquele quadro seria uma mentira.
– Não... você não pode falar com ele! – meu pai sussurrava. Para si mesmo? Para a espada? – Ele não fez o que eu fiz...
Olhei por cima do ombro. Meu pai, o arquivista patético que não saía do palácio havia dezessete anos, ostentava a Espada Negra. Falava com ela como se falasse com uma velha amiga.
Antes disso, dissera algo que ficaria para sempre em minha mente:
“Eu sou Lorde Blunt.”
– Aquilo... É uma mentira, então?! – falei enfim, após o choque, apontando para o quadro.
– De forma alguma – respondeu meu pai, desajeitado outra vez, como se pudesse esconder o que me fora revelado. – Olhe de novo. Olhe para esse quadro como se fosse a primeira vez.
– O que eu vejo é um vilão imponente e poderoso se rendendo a uma arqueira infalível. E hoje me parece que a arqueira era qualquer coisa, e o vilão pesa setenta quilos...
– Insista, meu filho – havia energia em sua voz, como se esperasse por aquele momento, ainda que em outras circunstâncias. – Ignore as histórias que ouviu e essa poluição de cenário, como firulas, como se fosse um grafite em cima da verdade. Tire seu viés. Olhe de novo.
Eu estava furioso. Mas e se tudo fosse uma brincadeira? "Gei-xa", ou seja lá qual fosse o nome do suposto assecla de Blunt, poderia ser um ator; magias ilusórias... qualquer coisa. Menos me tirar o heroísmo de minha mãe e me ligar à escuridão encarnada de Blunt.
Mas fiz a vontade do meu pai.
Olhei para o quadro como nunca tinha olhado antes.
O que eu via?
Minha mãe. Luzes sobre ela? Ou só a cor branca?
Lord Blunt, o terror em forma de... Não. Pense sem viés. Ignore as flechas. Era um homem.
De joelhos, diante de uma mulher.
Aquilo não era rendição.
Era um pedido de casamento.
Eu via agora meu pai, como Blunt, ajoelhado não em derrota, mas em súplica; onde antes eu jurava ver rendição. Minha mãe, Lady Àquela, não em triunfo, mas em surpresa contida, segurando um “sim” que mudaria o mundo. As flechas cravadas na armadura eram adições posteriores à obra original, assim como a camada que escurecia e desfocava a cena. Uma luz suave a envolvia, denunciando a mensagem que só se lê quando se ama. Ao fundo, Balmon, Kaoh e Alchima não celebravam uma queda; guardavam o instante como capitães que juram silêncio, testemunhas de um pedido de casamento mascarado de lenda. Pétalas e poeira conspiravam para ensinar que a história escolheu lembrar a guerra, quando o que realmente nasceu ali foi um pacto.
A verdade estivera ali o tempo todo, exposta a todos. Até mesmo a Espada perdida de Lord Blunt estava encrustada na moldura.
Mas eu vira Lord Blunt aos oito anos... A criatura mais assustadora da história.
– A armadura? – riu meu pai, como se lesse minha mente. – Ela me faz ficar vinte centímetros mais alto, e as ombreiras me fazem parecer mais musculoso. Precisava ver com a capa de escamas. Não era prática, mas passava a mensagem certa.
Ele dizia isso enquanto movia a Espada Negra, devolvendo-a ao esconderijo, com a leveza de quem sacode uma toalha.
– A força da personalidade do usuário é que a move, não os músculos – explicou. – Compensa um corpo menor.
– Mas o que está acontecendo aqui?! – explodi, num misto de revolta e assombro.
– Você foi forçosamente integrado ao maior segredo de Shén-Li. Um segredo perigoso. Um segredo que a manteve segura por dezessete anos.
– E o segredo é que você é Lord Blunt?! – urrei.
– Shh... ainda há sentinelas por aí – disse ele, e vi meu pai patético emergir outra vez. Mas não ousei chamá-lo assim de novo. – O segredo é que Lord Blunt se aposentou.
– Aposentou?!
– É complicado e... na verdade, é simples – falou, olhando para a imagem de minha mãe. – Eu não podia simplesmente desaparecer, eu mostrei a fraquesa de Shén-li, outros continuariam de onde eu parei. Já tinha a persona de Estebán. Você não imagina como é fácil saber o número de soldados e quanto uma cidade aguenta um cerco quando se administra recibos. Eu sabia derrubar muralhas antigas só dividindo as pedras adquiridas pela área onde seriam aplicadas.
– Então você deixava sua armadura se passando por Lord Blunt e ia roubar papelada para saber como derrubar a cidade?!
– Não é só isso – continuou. – Quando se é baixo como eu e se veste fora de moda, as pessoas o ignoram e acham que podem pisar em você. Eu tinha um roteiro: colocava-me como vítima nas cidades, andando descuidado por ruas perigosas, para medir o tempo de reação da Guarda e a moral do povo. Com o tempo, cada insulto que recebi ficou. Eu odiava as cidades que espionava. Isso justificava minha guerra, alimentava minha violência. Mas tudo mudou quando Estebán conheceu sua mãe.
– No campo de batalha?
– Bem antes disso – respondeu. – Ela me salvou quando a Guarda não ligou. Estavam preocupados demais com Lord Blunt para pensar nos pequenos problemas. Mas ela não. Ela sabia o que era coragem. E o que o medo fazia...
– Chega! Pode parar agora, o roteiro é manjado! – protestei. – Já seria desagradável ouvir esse discurso do "poder do amor" vindo do meu pai arquivista. Não vou escutar isso do homem que mais temi na história.
– CALE A BOCA, MOLEQUE!
Era Lord Blunt falando. Não meu pai arquivista. O homem que poderia ter o reino a seus pés. Eu me calei.
– Quer saber o que é o mal? – confesso que estava horrorizado e, ao mesmo tempo, fascinado, ouvindo o discurso do vilão final de todas as histórias. – É quando você não reconhece mais a virtude. Nem em si, nem em seus capangas, nem em seus adversários. Eu aceitei a escuridão dentro de mim. Julguei o mundo por ela, quando os ditos heróis eram arrogantes, covardes, desrespeitosos... ou burros demais para admitir a derrota.
Com um gesto de quem comandava exércitos, ele me fez recuar. Era o mesmo homem carregado de papéis que ouvia calado os insultos passivo-agressivos de Capitão Khao?
– Sua mãe poderia ter se escondido, como covarde – continuou, desfazendo gradualmente as sombras do alter ego. – Poderia fugir. Eu tinha muito o que fazer antes de ir atrás de uma testemunha do meu triunfo. Poderia também me enfrentar por glória ou oportunismo. E teria encontrado mais do que esperava. Já aconteceu. Um gordo lançou-se sobre mim gritando que tinha ao seu lado “o poder de deus e do animê”, antes que eu o cortasse.
Ela sabia quem eu era. Sabia que não podia vencer. Mas não podia recuar.
Um barulho. Cavalos apressados. A Nova Guarda deve ter percebido que Ga-shi se expôs de propósito para deixar o castelo desguarnecido. Esperávamos que voltassem pela manhã, mas ainda estava escuro. Ergui-me e olhei pelo vitral a agitação. Os sentinelas logo abririam os portões.
De repente, meu pai me esbofeteou. Costas da mão direto no olho e supercílio.
– Ouch! O que foi isso?!
– Escudeiro Bentho flagrou três criminosos, dentre eles Ga-shi, tenente de Lord Blunt, tentando invadir o palácio. Heroicamente salvou a fortaleza, sua guarnição e seu patético pai, feito refém – disse Estebán, arrancando botões do colarinho e bagunçando o cabelo. – Mas você não venceria um inimigo como Ga-shi sem sofrer ferimentos, não é?
– Para que tudo isso?! – resmunguei. – Mamãe e os capitães sabem de você.
- Mas os cadetes não. - pontua meu pai. - Meu acordo com o Conselho Regente era que jamais pisaria fora deste castelo. E jamais empunharia a espada outra vez. O que eu lhe falei serão os fatos. Você será o herói da vez. Eu lido com Khao e os outros.
- Isso não vai dar certo, pai...
- Acredito que dará... - Esteban senta-se à mesa, incorporando o homem amedrontado após uma situação de estresse. - Porque a alternativa é... Eu me tornar Lord Blunt outra vez...
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| A Verdade |



