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14 de maio de 2026

[EDGELORD] - O PIRATA SOLAR & O HERDEIRO DA ESCURIDÃO III

 

✧ PARTE III ⚓ “Conexões” ✧



 — Aqui, capitão, o que pediu. — A Imediata entrega um cartaz enrolado para Lizzo. Não parecia uma carta náutica.

Então ela começa a andar na nossa direção. “Andar” talvez não fosse a palavra correta. Existia alguma intenção ali. Alguma consciência exagerada de equilíbrio, postura e movimento. Ela praticamente desfilava pelo convés.

Amellie percebeu isso rápido demais e já tomou a dianteira com a mão estendida, usando aquele sorriso diplomático que ela reservava para situações perigosas.

— Então você deve ser a tão falada Hon-sa de Thundera, o brinde que veio com o navio. Eu sou—

Hon-sa simplesmente saltou por cima dela.

Não foi um salto normal. Pareceu mais um daqueles movimentos absurdos que o corpo executa antes da mente aceitar que viu. Ela girou no ar, passou por Amellie sem sequer encostar nela e pousou na minha frente com suavidade irritante.

Ela era… felina, eu acho, mas seria uma Catfolk? Mais próxima de um humano do que Xitarro, mas ainda claramente não era ... Como falar sem ser "cancelado"? Os óculos de venezianas dela escondiam os olhos, embora uma luz escapasse pelas frestas enquanto ela analisava minha armadura com atenção quase invasiva. Parecia "escanear" minha armadura.

— Adamantina, Ferro-frio e… “Ferro quente”? — ela comentou, inclinando levemente a cabeça como alguém genuinamente ofendido pela existência de um conceito. — Sua armadura é singular, mas a nomenclatura metálica de Shén-li continua risível. E você desligou os servo-ampliadores de força. Por quê?

— Pedi para desligar. — respondo. — Não me adaptei bem.

Ela aproxima o rosto do elmo. Perto demais.

— Estranho. Segundo meus sensores, eles funcionam perfeitamente.

— Funcionavam para meu p... O antigo usuário, que precisava de força extra. - Eu falo com certo brio.

Atrás dela, Amellie pigarreia daquele jeito perigosamente educado.

— Ah, sim… — Hon-sa comenta, finalmente lembrando que havia outras pessoas vivas no convés, mas com um ar de arrogância. — Não, querida. Eu não vim com o navio. “Deixa em Branco” foi o brinde da minha presença.

Eu vejo a expressão da Amellie endurecer por meio segundo antes dela recuperar o sorriso.

— Hon-sa é amiga da família. — Lizzo interfere, divertido demais para alguém tentando evitar uma crise social. — Salvou meu avô há uns setenta anos. Depois disso teve viagem temporal envolvida, planetas destruídos e algum incidente diplomático em asteroides. História fascinante.

— Fascinante é aquilo ali. — Hon-sa tira os óculos pela primeira vez e volta seus grandes olhos castanhos diretamente para Xitarro.

Caramba, eu tinha até esquecido dele.

O Fera estava completamente imóvel, olhando para ela com os olhos arregalados, pupilas dilatadas, e um sorriso tão idiota que eu quase senti orgulho. Ela se aproxima sem qualquer cerimônia e ergue o queixo dele com dois dedos.

— Que espécime interessante… Alto, boa estrutura muscular, jovem… muito jovem. — Ela parecia analisar uma arma rara encontrada por acidente. — Isso é natural ou treinamento?

— Como o Lord Edgy comentou… — Amellie reaparece rápido demais na conversa, agora claramente competindo por espaço. — Xitarro também é um artista marcial excepcional.

— Mesmo? — Hon-sa pergunta sem tirar os olhos dele. — Quero por a prova isso... Mais alguma característica importante?

— Ele não é castrado! — LE-0 anuncia alto lá do alto da gávea.

Eu começo a rir imediatamente. Lizzo também. Xitarro parecia prestes a evaporar...

Hon-sa, por outro lado, apenas absorve a informação com interesse ... preocupante. Amellie gira nos calcanhares e começa a se afastar.

— ... E ele sente cócegas. — ela comenta, seca. — Já que estamos compartilhando informações íntimas relevantes.

O... que foi aquilo?

Amellie com ciúmes? De Xitarro?

Não... A rusga delas tinha começado antes. Olho para o capitão buscando alguma confirmação masculina de que mulheres simplesmente enlouquecem às vezes.

Não encontro.

Lizzo já não prestava mais atenção em mais ninguém. O sorriso atrás da bandana tinha sumido enquanto ele analisava o cartaz enrolado nas mãos.

— Capitão... o senhor conhece as duas há mais tempo. — pergunto. — Eu perdi algum contexto? Qual é o problema delas?

— Qual é o SEU, senhor Edgy?

Essa foi gratuita. Eu achava que eu e o capitão estávamos nos entendendo bem até ali.

Lizzo ergue o cartaz enrolado que Hon-sa havia entregado. O papel já estava parcialmente amassado na mão dele, como se tivesse perdido a paciência antes mesmo de começar a conversa.

— Achamos isto em Huo-fen. Poderia explicar?

Mal consegui ver o conteúdo.

Era meu cartaz de procurado? Eu tinha visto dúzias do Lizzo tanto em Huo-fen quanto em Hálcora, ele é mais procurado do que eu. Talvez o do “Bentho desaparecido”? Mas eu não tirava o elmo desde que chegara ao "Deixa em Branco". A menos que Amellie tivesse contado...

— Pensei que Senhoria Amellie tivesse explicado. — comento, ainda confuso com a mudança brusca de humor. — Sou um Senhor do Escuro. A conquista de Shén-li faz parte dos meus objetivos. Naturalmente, isso me torna procurado pela Nova Guarda.

Lá no alto, LE-0 ergue a cabeça tão rápido que quase parece interessado pela primeira vez desde que nos conhecemos.

— “Conquista de Shén-li”?!? — Vapor escapa pelas juntas do pescoço LE-0 descia da gávea. — Avaliação preliminar: 34% mais ambicioso que “assaltar barcos pesqueiros”. Solicito autorização para mudança de tripulação, Capitão.

— NEGADA, senhor LE-0! — Lizzo corta imediatamente, ríspido o bastante para até eu estranhar.

O autômato inclina a cabeça.

— Registro de insatisfação. — ele declara no mesmo tom monótono de sempre. — Depois recebem uma traição “do nada” e esta unidade vira a culpada.

— Foram três só este mês. Não vou perder o sono por causa da sua rebeldia.

— A-ha! — LE-0 ergue três braços em triunfo. — Correção: QUATRO! Houve uma tão pífia que o senhor sequer registrou!

— Perdão, capitão... — tento intervir antes que a discussão evoluísse para estatística criminal. — Eu tenho segredos piores que pareceram aceitáveis. Não entendi por que essa novidade afetou nosso relacionamento. Deram uma recompensa? É maior que a sua ou...

Lizzo finalmente abre o cartaz.





Eu encaro o desenho por alguns segundos longos demais.

“BANQUETE BENEFICENTE ... ORFANATO ....”

A ilustração tentava me representar de armadura, e a Mestra Bragar.

Bophades que me carregue.

Lembro da "festa"! em Huo-fen após eu ter "salvo" uma criança e a barragem. A Mestra Bragar me dando o leitão chique, e eu deixando lá para tentar a vilania outra vez. Eu mandei ficarem com a carne... ou "doar"? Não lembro.

— Um banquete beneficente? — Amellie se inclina sobre meu ombro direito, surpresa demais para esconder o sorriso. Uma mão na minha cintura. — Que lindo, Bentho!

— Um “Senhor da Escuridão” que não consegue parar de fazer o bem... — Hon-sa comenta ao meu lado esquerdo, apoiando os braços atrás das minhas costas enquanto observa o cartaz. — Eu já namorei um cara assim uma vez.

Normalmente ser o centro da atenção das duas mulheres mais perigosas do convés seria uma vitória pessoal gigantesca. Infelizmente, o capitão parecia ficar mais irritado a cada segundo que aquilo durava.

— C-capitão, eu lhe garanto que isso foi só mais uma sequência clássica de trapalhadas minhas. — tento explicar rapidamente. — Eu jamais, em sã consciência, faria uma doação dessas para um orfanato.

— Por quê?! — Lizzo rebate na mesma hora, genuinamente ofendido agora. — Os órfãos não são bons o bastante para o senhor Edgy?

— Eu nunca desembarquei em Huo-fen. — Hon-sa comenta com Amellie, ignorando completamente o conflito crescente. — Onde fica o orfanato mesmo?

— É do lado da prefeitura.

— Ah, o prédio vermelhinho?

— Não, o vermelhinho É a prefeitura. O maior é o Orfanato.

Hon-sa para por um instante, então estala os dedos.

— Ahhh, já sei qual é. Bela propriedade.

— Sim... — começo a responder automaticamente, ainda tentando sobreviver ao olhar do capitão. — É uma das maiores construç—

Eu paro.

Olho para o cartaz. 

Depois para Lizzo.

Depois para o cartaz outra vez.

O orfanato era mesmo gigantesco.  O pirata lendário que nunca tinha dinheiro.

— O “Capitão das Mãos Vazias”... — murmuro enfim.

Hon-sa afasta-se imediatamente e desvia o olhar para o horizonte. Muito interessada nas nuvens de repente, especialmente uma que parecia coelho ameaçador. Acho que ela percebeu que juntei pontos de um dos segredos de Capitão Lizzo.

— O que foi, Edgy? — Amellie pergunta.

— "Capitão Lizzo saqueia portos de Hálcora até Yoriki mas nunca tem uma moeda no bolso". — Eu cantarolo um conhecido Shanty, enquanto olho lentamente para ele. — Não são Mulheres, Jogos, Bebidas ou patrono funesto. O senhor gasta tudo com o orfanato onde cresceu, não é?

— A Nova Guarda confiscaria ouro de pirataria se eu anunciasse isso! — ele explode, girando na nossa direção. — E que tipo de pirata respeitável faz caridade? Eu fiz centenas de milhares de dobrões para aquele orfanato, mas o herói é o "Senhor Edgy" e seu porquinho!

Ele respira fundo, claramente arrependido de ter deixado aquilo escapar.

Então olha por cima do ombro, recuperando parte da postura feroz.

— Tenho um navio para comandar, senhores. Se me dão licença...



Anoitecia. Mas a escuridão chegou antes na Enseada de Hálcora.

— CHEGANDO!!! — O alerta vem tarde demais.

Um clarão azul explode das ondas e rasga a enseada. O relâmpago atravessa o cais direto na direção do grupo, mas Khao se joga na frente antes do impacto atingir os tenentes.

A descarga acerta o braço de pedra com violência suficiente para iluminar o porto inteiro. O cheiro de ozônio invade o ar. Parte do cais estilhaça.

Khao permanece de pé.

O corpanzil do bárbaro sacode os últimos arcos elétricos do ombro como quem tenta afastar fumaça de churrasco.

— Eles estão mirando no senhor, capitão! — Larincher grita enquanto tenta enxergar movimento nas águas escuras abaixo da enseada. O gnomo apertava os olhos, já rastreando novas formas se movendo sob a superfície. — Mais contatos vindo pelo sul!

Khao sorri. Não um sorriso calmo.

Um sorriso de guerra.

— Excelente! Que concentre em mim então! — Ele gira sua mão humana. — Formação de sítio cancelada! Quero esses filhos da puta em terra firme! Onurb, comigo! Restante, posição elevada! Vamos transformar peixe em sushi!

Os tenentes já começam a se mover antes da ordem terminar. Um meio-orc com clava e escudo permanece ao lado do capitão.

— Confirmação do Capitão Balmon! — Arletta anuncia enquanto segura o comunicador rúnico junto ao ouvido. — São as mesmas criaturas que atacam todo ano Nova Ethiópia! Os registros anteriores indicavam ataques em alto-mar, nunca tão perto da costa!

O sorriso do Khao desaparece por um instante.

— Merda... então isso não é coisa do Blunt.

Outro clarão explode nas águas. Algo enorme se move sob a superfície. Khao ergue a voz acima do caos.

— Nova Guarda! Somos tudo entre essas monstruosidades e os civis! Os bruxos e a traidora loira podem esperar!

Ele aponta para a enseada.

— EM FORMAÇÃÃÃO!!!



— [Se serve de consolo…] — Gladys comenta recostada no mastro. — [Este é exatamente o nível de fracasso ao qual você está habituado.]

A noite caía cedo no rio. Para a maioria das pessoas, o mundo terminava alguns metros além das lanternas do "Deixa em Branco". Para mim não.

O Olho do Demônio não era mera visão no escuro. Se não existisse algo sólido bloqueando o caminho, eu via. E o o rio … era lindo.

Nenhuma tempestade. Nenhum combate entre embarcações. Nenhum monstro colossal emergindo das águas, ainda assim havia um espírito aventuresco naquele tombadilho. Quase fazia parecer que minha vida tinha entrado nos trilhos errados por acidente. Já que estava sozinho, removi o elmo por alguns minutos para deixar a pele respirar.

LE-0 permanecia na gávea, imóvel como uma gárgula mecânica.

Amellie estava sentada perto da maluquinha dos óculos, mas claramente fingia prestar atenção na conversa. Seus olhos voltavam para a proa a cada poucos segundos. Onde Hon-sa conversava com Xitarro.

Ou melhor: Hon-sa falava. Xitarro ria nervosamente enquanto tentava sobreviver à experiência.

— [Você acha que eles vão copular?] — Gladys pergunta de repente.

— GLADYS!

— [O quê?]

— Você vai acabar cancelada falando assim!

A espada fica em silêncio por alguns segundos.

— [Ainda não compreendi perfeitamente o conceito de “cancelamento”.]

—  Coisa de Amellie. Acho que envolve ser menos invasiva. — dou de ombros. — Tente “namorar”. Ou “se relacionar”. Parece socialmente mais aceitável.

— [Entendido.] — ela responde, pensativa. — [Xitarro vai “se relacionar” com a Imediata?]

Apesar de tudo, acabo sorrindo.

— Honestamente? Estou torcendo por eles. Mas ela é intrusiva, enquanto ele é tímido… talvez os dois se equilibrem.

— [E Amellie vai “se relacionar” com o Capitão Lizzo?]

— O quê?! De onde veio isso? - Dou um salto surpreso.

— [São atraentes. Viveram aventuras juntos. Compartilham atividades criminosas há anos.]

— Isso não significa nada! Bardos e swashbucklers são naturalmente… charmosos.

— [Você ficou defensivo.]

— Não fiquei!

— [Você quer “se relacionar” com Amellie?]

Engasco um pouco com saliva. Coincidência apenas.

— Essas ênfases anulam completamente o eufemismo de "relacionar"! Que é isso! Ela é só...

— [Se não é Amellie o problema, você quer “se relacionar” com o Capitão Lizzo? Não julgo. Seu pai no Limbo das Sombras tinha ...]

— CHEGA!

Algumas cabeças no convés viram discretamente na minha direção.

— De onde estão vindo essas perguntas?!

E então Gladys explode:

— [EU QUERO "ME RELACIONAR" COM LAWFUL EVIL ZERO!]


— Okey. Isso foi pior do que eu esperava.

— [E como apenas bruxos conseguem me ouvir, você precisará me acompanhar para traduzir.]

— Fundo do rio. Agora. - Eu coloco o elmo de volta. Seguro a espada pelo cabo e começo a arrastá-la pelo tombadilho.

— [Pense racionalmente.] — ela insiste enquanto raspa no convés. — [Se não for você intermediando, Só me resta seu pai.]

— Isso não ajudou!

— [Você realmente prefere imaginar Lord Blunt flertando com um autômato?]

— FUNDO. DO. RIO.

Eu já estava chegando perto da amurada quando a luz de um holofote brutal desce da gávea e me acerta em cheio.

— Interrompa seu avanço, senhor Edgy. — anuncia LE-0.

— [Romeu veio me salvar.] — Gladys suspira.

— Você estava ouvindo essa conversa?! — resmungo para o alto. — Isso não foi legal, robô!

— Criatura hostil detectada no tombadilho. - LE-0 eleva a voz, mas não o tom.

— Eu não sou host—

— Não estava falando do senhor.

O estampido me interrompe.

Lizzo surge atrás de mim já disparando. A arma de fogo de pederneira ruge.

Algo se ergue nas minhas costas no exato momento em que o tiro atravessa seu peito.

Não ouvi passos. A criatura simplesmente estava ali.

O disparo ilumina o corpo por um instante: pele negra azulada refletindo a luz como petróleo, costelas visíveis sob carne translúcida, braços longos demais se dobrando em ângulos errados enquanto ela cai para trás.

Não mergulha. O rio parece recebê-la.

Corro até a amurada.

A água é negra para todos os outros. Para mim não. Vejo bem a superfície e alguns metros abaixo.

Dezenas de formas deslizam sob o casco do "Deixa em Branco". Longas. Silenciosas. Cabelos ondulando como algas mortas. Pequenos pulsos azul-esverdeados atravessando a pele sempre que se movem.

Nenhuma nada. O rio simplesmente deixa que passem.

Uma delas vira o rosto na minha direção. Só reflexos pálidos de olhos negros … e uma boca vertical se abrindo devagar demais.

Meu estômago afunda.

Então Lizzo grita atrás de mim:

— DRAAAAGAS!!!!


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