— Então... um beholder? — Àquela pergunta.
— Jamais fale isso para ele! — Estebán repreende.
— Ele é uma aberração cósmica de tentáculos que lança magias pelos olhos? — Àquela tenta racionalizar.
— Não é magia... — Estebán insiste. — É a realidade!
— Como Desejo?
— Ele pensa que está vendo um golem, e um golem aparece. — Estebán explica. — Se ele não acredita que foi ferido, ele continua.
— Os garotos são espertos. — Àquela tenta argumentar. — Eles fugiram de nós, sobreviveram ao rio... aos aracnóptilos...
— O Eyespy era um trunfo meu. — Estebán hesita antes de regressar à voz de Lord Blunt. — Alguém como Amellie vai tentar usar a instabilidade emocional e a inteligência limitada dele...
— Burro, certo? — Àquela observa.
Estebán precisa diminuir o ritmo. Recuperar o fôlego. Foram dezessete anos longe das masmorras... Não estava acostumado a correr, evitar armadilhas. Deveria estar cobrindo os rastros para o caso de Khao estivesse os rastreando, mas não tinham tempo.
— Isso pode ser... desastroso!
— Raio Místico!
Eu disparo. Ele é grande demais, não tem como errar. Eu poderia ter matado um ser humano com o tanto que acertei... Do Eyespy tirei apenas um:
— Owie!
E logo depois, "estalagtites" brotaram do chão.
Mesmo com uma das mais impressionantes armaduras da história, eu perco o fôlego. Sinto o esterno forçar as costelas para dentro.
— Estalagmites são no chão! Estalactites do teto! — corrige Amellie. — Hold Monster...
— Nooo... — a criatura oscila um pouco.
— Aetíades nos proteja... Resistência lendária... — ela resmunga.
Xitarro golpeia o tentáculo que segurava sua canela, libertando-se. Mas, antes de chegar ao chão, outros dois o agarram. O monge normalmente não seria preso tão facilmente por qualquer oponente, mas o Eyespy e seus tentáculos pareciam ter tempo e paciência para brincar de malabares com o "Funny Cat".
Minha conclusão: somente meus smites poderiam derrubar o monstro. Com a Espada Sedenta, eu teria inclusive múltiplas tentativas. Mas, se eu chegasse ao alcance dos tentáculos, teria o mesmo destino de Xitarro... e nem de longe eu teria a desenvoltura do monge. Sem as magias de Amellie o imobilizando, só me restava tentar cansa-lo com raios místicos.
— I spy... — ele começa.
Eu já seguro Gladys com tanta força que cogitaria partir a empunhadura.
Então ele termina:
— Gasssss...
Uma bola fumegante voa no meu rosto, explodindo imeterialmente. Os gases entram pelas frestas do meu elmo. Meus olhos queimam. O esôfago se fecha...
Aquilo podia ser fim de jogo.
Mas consigo me agachar e lançar Lay on Hands. Alivio imediato, mas preciso de uns cinco segundos antes de conseguir me levantar novamente.
Ele então olha para Amellie.
— I SPY... YOU... CREMATED!!!
Eu arranho o idioma dos Antigos. "Cremated" era...
CREMADA?!
Ainda parcialmente cego, entro em pânico, e vejo algo cair sobre Amellie.
A visão turva mostra...
Uma gosma branca.
— C-creme?! — ela protesta. — Você atirou creme em mim?!
— BWAHAHAHA! Again! Again!!!
— Tá bom... tá bom... todo mundo para! — Amellie parecia ter encontrado o limite da loucura que poderíamos tolerar. Ela consegue a atenção da aberração, que para.
Xitarro, vendo que deixou de ser sacudido, decide obedecer e escutar.
Eu não pararia, se não estivesse desorientado.
— Eyespy, amigo... — ela fala com um tom adequado para uma criança de cinco anos. — Você está se divertindo?
— A little... — ele responde, como se não quisesse admitir.
Mas até agora não representávamos risco algum para ele.
— Quer aprender uma nova brincadeira? — ela pergunta.
— C-continue... — ele responde.
— Conhece... "Peek-a-boo"? — Amellie cobre os olhos. — Ei, cadê o Eyespy?!? Ele sumiu!!!
A criatura ri.
— Silly girl! — ele faz uma careta.
— Sério... funciona... Testa aí! — Ela revela o rosto com um sorrisão. — Aí está você!
Ah, Amellie e sua mente diabólica...
Se ele fechar os olhos, eu posso dar um ataque de carga. Alcançá-lo antes que os tentáculos me parem. E, se eu conseguir libertar Xitarro, é só nós dois espancarmos a criatura no corpo-a-corpo.
Eu me coloco discretamente de pé.
Seria a carga da minha vida.
O monstro oscila com a cabeça. Decidindo se tentava brincar.
Os olhos em toda parte...
E de repente ele berra:
— PEEK-A-BOO!
E fecha seus múltiplos olhos. De uma única vez.
...
Eu e Amellie desaparecemos.
— A-Aquela é minha mansão?!? — Amellie aponta para uma estrutura quadrangular alongada e exótica. — As luzes estão acesas?!? Eu deixei as luzes acesas por seis anos?!?
Eu olho ao redor.
Era como flutuar em um espaço rosa e rubro, vazio, com objetos aleatórios, como uma bola verde que vem em minha cara, papéis, garfos, guarda-chuvas ... até um prédio quadrado irregular flutuando. Nossas vozes produziam ecos como se estivéssemos dentro de uma câmara minúscula.
Tento chamar Gladys à minha mão.
Ela não vem.
— Amellie... Onde nós estamos?!? — eu urro.
— Em Lugar Nenhum! — ela urra.
— A vila goblin?
— Não! O vazio entre dimensões! — Ela estava em pânico. — Aquela... coisa... simplesmente nos fez DEIXAR DE EXISTIR!
— F-FECHANDO OS OLHOS?!? — eu protesto diante do absurdo.
— Pior... — ela responde. — Acreditando que fechar os olhos faz a gente deixar de existir...
Ela tenta "nadar" na direção da tal "mansão".
E acho que as aspas não fazem justiça ao quanto nada daquilo parecia real.
— E como nós vamos...
— ...sair deste lugar? — eu pergunto, imediatamente trombando de costas. Bem, trouxe uma bola verde do "Lugar nenhum" para provar que eu não delirei.
De volta à câmara circular. Amellie cai sentada também.
— [Oh, ele estava de bom humor...] — Gladys comenta em minha mente.
Jamais admitirei, mas era bom saber que ela estava por perto outra vez.
— Filthy liar! — a aberração resmunga, parecendo irritada. — Vocês não sumiram... E essa é minha bola que eu tinha perdido!
— Sumiram sim! — Xitarro parecia aliviado. — Vocês dois ficaram invisíveis por uns trinta segundos quando esse beholder fechou os olhos...
— I AM NOT... A... BEHOLDER! — a criatura resmunga.
Mas parecia cansada de repetir aquilo.
— Ele... — Amellie estava com medo genuíno. — Ele nem percebeu que nos fez deixar de existir... Bentho, o que ele vê é o que... ele altera a REALIDADE!
— ESCURIDÃO!
Eu lanço a magia.
Uma esfera de trevas nos envolve. Queria poupar minhas energias para mais smites... mas, se ele realmente precisa nos ver, a escuridão seria nossa melhor saída.
— Hey... where are you?!? — a criatura protesta. — Apareçam!
— Não vai rolar, seu beholder! — eu resmungo. Busco a mão de Amellie, que estava cega a tudo ao nosso redor. — Os adultos vão conversar.
— I am... not... — a criatura começa a olhar para si mesma.
Um barulho estranho sai dela.
Como entranhas se rearranjando.
Xitarro cobre a boca para não vomitar.
— Bentho?!? — Amellie parece preocupada. — Não consigo ver... O que ele está fazendo?
— A-Acho que chamamos ele de "beholder" um pouco... demais...
Os tentáculos que faziam as vezes de pernas começam a deixar o chão, enquanto ele flutuava emitindo o som que parecia escapamento de gas.
A criatura começa a flutuar.
A carne de sua massa central se rasga, revelando um novo olho.
Maior.
Mais sinistro.
Ele olha para minha escuridão.
...
E ela se desfaz. Sob o cone anti-magia de um genuíno Beholder.
— Ele... — Amellie constata. — Ele acredita que é um beholder agora!




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