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4 de junho de 2026

EDGELORD - Cap. III - Arco da Montanha Morta

 O cadáver do aracnóptilo ainda fumegava.

Ou melhor: o que restava dele.

Uma flecha de luz dourada havia atravessado o tórax da criatura e incendiado os tecidos internos. O cheiro de quitina queimada misturava-se ao odor úmido da caverna.

Àquela baixou o arco.

— Isso foi um pouco exagerado, não? - Àquela comenta. - Ele já estava morto!

Estebán observava os restos carbonizados.

— Talvez.

A ponta da bota empurrou um pedaço da carapaça.

— Talvez houvesse centenas de filhotes microscópicos escondidos na pele da mãe. Lidar com monstros como esse exige um “double tap”.

— Estebán. — Àquela suspirou. — Parece até que você está… “gostando” de ver sua velha masmorra em ação?

Os dois seguiram adiante.

A garganta da montanha se erguia acima deles como a boca de uma criatura colossal. As paredes negras desapareciam na escuridão. Aqui e ali ainda pendiam fragmentos de teia.

Estebán observou o teto.

— Interessante.

— O quê?

— Como eles passaram por aqui.

— O aracnóptilo?

— Bentho.

Ele apontou para as marcas de impacto espalhadas pela pedra.

— Padrão Hipnótico.  — conclui. — Coisa de Amellie. Eu esperava que criaturas no teto surpreende aventureiros invasores, mas eles perceberam.

Àquela sorriu. Estebán cruzou os braços.

— A maioria das pessoas olha para uma masmorra e vê monstros. — Ele começa — Os vilões que os projetam não.

— O que você vê?

— Eu vejo um terrário colossal.

Àquela já conhecia aquele tom. Era o tom de palestra.

— Ah não...

— Ah sim.

Ele apontou para o cadáver.

— Aracnóptilos controlam populações de criaturas menores. Consomem excesso de presas. Impedem superpopulação. Eu coloquei próximo da saída porque sua sensibilidade à luz do exterior já os manteriam em sua guarda, mas outras criaturas evitam seu território, não saem da masmorra.

Depois apontou para as teias.

— Biomassa para outras criaturas. Tudo em equilíbrio se usar os instintos predatórios e comensais do que coloca na masmorra. Os aracnóptilos mantêm os kobolds afastados. Os kobolds limitam os fungos. Os fungos alimentam todo o resto. 

— Por que não só enchem de mortos-vivos? — Àquela comenta. — Mortos-vivos não precisam de “biomassa”, repõem seus números com cadáveres de aventureiros, e obedecem sem questionar!

— Por que você teria um jardim se poderia só colocar flores de plástico? — O esposo parecia ofendido com a insinuação. — Lordes vampiros, múmias-regentes e liches… Eu deixo passar porque não tem como evitar. Mas um bom senhor do mal, com suas dungeons, deve ser elegante. A masmorra deve durar mais que o criador. 

— E como você vê os aventureiros?

— Gafanhotos. — Ele fala. — Sem ofensa.

Ela riu. 

— Isso explica muita coisa. — Ela riu. — Só entrei em masmorra umas três vezes na carreira antes de virar “A Dama do Arco” da Nova Guarda.  

Estebán deu de ombros.

— Um mestre de dungeon passa anos equilibrando populações, recursos, territórios e rotas migratórias.

— E então aparecem três idiotas armados — Ela faz pose jocosa. — E chamam isso de heroísmo.

Estebán ia continuar a explicação.

Abriu a boca.

E congelou subitamente. Àquela percebeu.

A expressão dele mudara.

O humor desapareceu.

— Não… Não não… — Ele ergueu lentamente a mão esquerda. Fechou os olhos.

Por um instante o ar pareceu vibrar.

Como cordas invisíveis sendo tensionadas através da pedra.

Àquela conhecia aquele gesto.

Vínculo. A Gladius Aeternum. Estebán permaneceu imóvel. Escutando. Sentindo.

Procurando. 

Então abriu os olhos.

Preocupado.

— Eles estão próximos do coração da montanha… Saíram do caminho que levava para o território de caça dos Trogloditas! Vão chegar nas câmaras do Tesouro!

— Evitar trogloditas não é uma coisa boa?!? — Ela pergunta.

— Acredite… — Esteban começa a caminhar em passada veloz, beirando a corrida. — A tribo troglodita era o caminho mais fácil!

Esteban se questiona por que a Espada não guiou pelos caminhos menos arriscados? Havia uma passagem de acesso secreta onde poderiam repousar. 

Mas agora, eles iriam enfrentar … O Olho da Aberração.

Por mais que tenham se saído bem desde Hálcora... Bentho e seus amigos não estavam prontos.



A mina foi ficando mais silenciosa conforme avançávamos.

Não o silêncio confortável.

Não o silêncio vazio.

O tipo errado de silêncio.

O som de nossos passos parecia morrer rápido demais. A luz das tochas não alcançava tão longe quanto deveria. Até o eco parecia cauteloso.

O corredor finalmente desembocou numa enorme câmara circular. Perfeita demais para ser natural.

As paredes curvas desapareciam na escuridão. Estalagmites erguiam-se como colunas tortas sustentando um teto invisível. Água escorria por rachaduras antigas, formando pequenos espelhos negros pelo chão.

E havia alguma coisa no centro.

Descendo lentamente de uma estalactite.

Primeiro vi os tentáculos.

Depois mais tentáculos.

Depois percebi que todos pertenciam à mesma criatura.


Eles eram compridos o suficiente para tocar o chão muito antes do corpo principal terminar de descer. A coisa deslizou alguns passos sobre os próprios membros, tentáculos fazendo vezes de cauda de serpente encontrando patas de aranha, soltando a pedra do teto, e então permaneceu imóvel, nos encarando.

Ou melhor...

Nos encarando de várias formas diferentes.

Primeiro eu vi os olhos.

Não o corpo. Os olhos. Espalhados pela escuridão. 

Um aqui.

Outro ali.

Mais alguns surgindo conforme a criatura avançava. Só depois percebi que todos pertenciam à mesma coisa. Ela possuía algo parecido com um corpo central. Não exatamente uma cabeça. Nem exatamente um rosto. Era uma massa de carne rosada e nodosa da qual brotavam dezenas de tentáculos.

E nas pontas de alguns deles havia olhos. Quatro grandes.

Dezenas menores.

Todos observando.

Todos piscando em ritmos diferentes.

O estranho era que nenhum parecia olhar para a mesma coisa, como se cada um enxergasse um mundo diferente. A criatura ergueu-se sobre os tentáculos sem olhos que lhe fazia as vezes de "pernas de aranha" ou "cauda de serpente" e girou lentamente a massa total de seu corpanzil.

Um dos olhos se arregalou.

Depois outro.

Depois outro.

Até que todos se abriram ao mesmo tempo.

E eu tive a sensação de que, pela primeira vez, ela realmente nos viu.

— Ooooooh...

Os tentáculos começaram a bater uns nos outros.

— ~Visitors~! — exclamou a criatura, animada. — Visitantes! Faz muito tempo!

— Ah não... — suspirou Amellie.

— Ah sim! — corrigiu a criatura imediatamente.

Ela abriu um sorriso. Dentes triangulares surgiram em fileiras demais para uma boca daquele tamanho. Parecia ... feliz. Estranhamente feliz. Desconfortavelmente feliz.

— Isso é um beholder? — perguntou Xitarro.

— Não é um beholder. — respondeu Amellie sem hesitar.

— É um beholder. — afirmei.

— Não é.

— Tem olhos.

— Você também tem olhos. — retrucou Amellie.

— Tem tentáculos.

— Polvos têm tentáculos.

— Parece um beholder.

— Isso não é um critério científico!

— É um critério visual.

— Não é assim que funciona!

— Funciona para mim. — Xitarro interrompe nossa discussão.

— [I spy with my little eye...] — começou a cantarolar Gladys dentro da minha cabeça.

A criatura girou abruptamente.

Todos os olhos voltaram-se para mim.

I AM NOT A BEHOLDER!

— Viu? — disse Amellie, apontando para ela. — A própria criatura discordou de você.

— E você vai confiar mais na opinião de um beholder do que na minha? — perguntei.

— NÃO É BEHOLDER! — protestou a criatura.

— [Escudeiro!] — Gladys assumiu uma imitação terrível de capitão Khao. — [Só repita para Amellie que está perto de descobrir: Eye... Spy.]

Inclinei a cabeça.

— Ela entende nosso idioma perfeitamente? — Perguntei.

— Claro que entende. — respondeu Amellie.

— Então por que continua falando o idioma dos Antigos?

A criatura ergueu dois tentáculos.

Because it's cool.

— Justo. — tive de concordar.

Pensei por um instante.

— Então, Amellie: Gladys disse que o nome dele é "Ai Espia".

— Eyespy. — corrigiu Amellie, lembrando. 

— Foi o que eu disse.

— Não foi.

— Foi sim.

— Não foi.

— Foi.

NÃO FOI! — berrou a criatura.

Ela apontou dois tentáculos para si mesma.

I'M AN EYESPY!

— Claro que é, meu querido! — respondeu Amellie enquanto sacava o alaúde. — Caramba... eu li sobre isso décadas atrás...

— ESSE NÃO É MY NAME! — reclamou o Eyespy. — É MY SPECIES! New RULES!!!

— Igualzinho um beholder. — concluí.

Os tentáculos começaram a se contorcer nervosamente.

— I'M NOT!

— Beholder. — XItarro provoca.

— I'M NOT!

— Beholder. — Eu repito.

— STOP IT!

— Beholder.

— STOOOOOOP!

Um dos olhos menores brilhou.

Depois outro.

Depois outro.

Uma sensação ruim percorreu a sala inteira.

Instintivamente puxei Gladys.

Amellie ergueu uma mão e recuou para o fundo da mina.

Xitarro abaixou o centro de gravidade.

Todos percebemos ao mesmo tempo.

A brincadeira tinha acabado.

O Eyespy abriu um sorriso infantil demais para uma criatura daquele tamanho.

— I spy...

Um dos olhos encarou uma estalagmite.

— ...FIREBALL!

A estalagmite explodiu.

Uma bola de fogo do tamanho de uma carroça atravessou a câmara.

Recebi a explosão de frente. O calor engoliu metade da sala.

Minha capa começou a queimar.

Um dos ombros da armadura ficou em brasa.

Fui empurrado dois passos para trás. A armadura foi projetada para isso, ainda assim baqueei com a pancada. Doeu o suficiente para eu parar de sorrir.

Amellie por sorte estava fora da área da explosão.

Xitarro conseguiu saltar para trás no último instante, só se chamuscou aparentemente, mas ainda foi lançado contra uma coluna. Pedras despencaram do teto.

Fumaça espalhou-se pela caverna.

E o Eyespy gargalhou.

Não uma gargalhada maligna.

Pior.

Uma gargalhada infantil.

Again! Again! Again! — comemorou a criatura, batendo os tentáculos uns nos outros.

Outro olho brilhou.

Xitarro não parecia interessado em repetir a experiência.

Disparou antes que qualquer um de nós pudesse formular um plano.

O Eyespy acompanhou o movimento dele.

— I spy...

O chão à frente do catfolk transformou-se numa camada lisa de gelo.

— ...ICE FLOR!

Xitarro deu dois passos.

Escorregou.

Girou.

Bateu numa pedra.

Escorregou de novo.

— OPA—

— Xitarro! — gritou Amellie. — Ele tem AÇÃO DE COVIL?!? 

— EU TÔ BEM! — respondeu o felino.

Fez uma pausa, olhando algo no chão escorregadia em que estava.

— NÃO TÔ BEM!

Tentáculos surgiram do chão, ocultos na neve.

Agarraram o monge.

Ergueram-no de cabeça para baixo.

Levaram-no lentamente até a criatura.

O Eyespy começou a bater os tentáculos como uma criança assistindo a um espetáculo.

FUNNY CAT! — comemorou.

Xitarro girava no ar como um peixe fisgado.

FUNNY CAT!

— Eu te odeio! — respondeu o catfolk.

FUNNY CAT! FUNNY CAT! FUNNY CAT!

Foi naquele momento que percebi algo preocupante.

Aquilo não estava nem tentando nos matar.

Estava brincando.

E estava nos vencendo enquanto brincava.



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