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15 de junho de 2026

EDGELORD - Cap. VII - Arco da Montanha Morta

 — Eu sou Lord Edgy, Terror da Escuridão...

— [Bentho, está monologando de novo...] — Gladys fala em minha mente. — [Mas "Terror da Escuridão" é de longe a melhor das variações de seus títulos].

— Eu sei... — Bentho comenta. — Eu estou melhor, acho. Mas a Armadura... Virgilio... Ela está estranha.

— [Você notou?]

— Notei.

— [Curioso...] — Gladys comenta. — [Depois da disassociação da realidade, geralmente vem uma "hiper-associação" com a realidade. Você ganha foco, e maior perspicácia].

— E você Sabia que isso ia acontecer?

— [Sabia] — Gladys comenta. — [O que mais lhe ocorre, versão "sábia" de Bantho?]

Eu respiro.

— Amellie disse que não lia sobre o "Eyespy" havia décadas... — Aquilo me incomodava. — Mas ela tem menos de vinte anos... Isso é estranho...

— [Bem, sim!] — Gladys parecia interessada. — [Eu mesma não acredito que EU não percebi isso...]

— Você não confia em Amellie... — Eu comento. — Nem meu pai.

— [Ela sabia sobre minha voz com Blunt, esqueceu o nome do samurai do Limbo das Sombras... Mas como?] 

— E você está me manipulando neste momento para ficar contra ela...

— [Devo admitir que tenho meus receios...] — A espada tenta florear. — [Mas se eu estivesse, garoto, você nem perceberia. Eu sou mais esperta que você...]

Eu rio.

— [Sério.] — ela insiste. — [Não tem como você esconder nada de mim... Talvez agora, com hiperfoco... mas isso vai passar.]

— Poderia me chamar de "Escudeiro"... e imitar Khao uma vez mais? — eu a provoco.

— [O ... O que?!?]

— Faz, por favor!

— [Você mentiu para mim sobre a voz?]

— E sem "hiperfoco" — Eu relaxo.

Eu ainda buscava meu lugar no mundo.

Podia não saber intelectualmente, filosoficamente. Apenas instinto. Agora eu posso explorar isso.

Eu fui de garoto travesso na Torre do Castelo Negro a um homem que lutou contra invasores dragas. Que confrontou uma aberração cósmica.

Eu estava pronto para o próximo nível.

E meu corpo decidiu me acompanhar.

Eu desapareci lentamente de dentro da armadura... Deixando Virgílio para traz.

— [Essa não ... eu perdi o moleque!]


Arletta permanece no corredor de acesso. Larrincher e Ornub cercam o capitão que tomava o centro da câmara circular. Sombras de outros dois circundavam o ambiente oculto pelas formações naturais.

— Você derrubou uma cidade na minha cabeça! — Khao rosna, apontando para Àquela.

— Foram só barris. — Àquela rebate imediatamente.

— TODOS os barris!

— Deixa de ser chorão. — Ela cruza os braços. — Eu sei que você está ganhando tempo para Vlana e Rhoy ficarem em posição nos flancos. Acha mesmo que Estebán não percebeu isso?

— Estou genuinamente curioso para ver as Contas de Contrafeitiço em Cadeia funcionando. — O Senhor do Sombrio observa a estalagmite onde a maga elfa se esgueirava buscando um flanco, e pisca com intimidade desconcertante.

O silêncio dura apenas alguns segundos. Estebán então toca o braço de Àquela.

— Não lute desta vez.

Ela vira a cabeça.

— O quê?

— Você é o alvo deles, não eu. - Estebán comenta com leveza. - Acho que para eles é pessoal. Eu sou o objetivo final, mas você é o meio.

— Estebán...

— O acordo era impedir que Lord Blunt causasse danos permanentes aos seus amigos. - Ele observa Khao. Depois os outros. — E sinceramente... Neste momento, você parece muito mais disposta a causar danos permanentes do que eu.

Ornub engasga uma risada.

Khao não.

— Que conveniente. — o capitão cruza os braços sorrindo. — Perdeu a armadura. Perdeu a espada. Agora resolveu descobrir a diplomacia?

O braço de pedra range.

— Agora finalmente podemos descobrir quanto sobrou sem o arsenal, e sedentário por dezessete anos.

Estebán suspira como um professor cansado ouvindo um aluno insistir num erro básico.

— Khao... Estamos no coração de uma montanha com resquícios de ferro frio. — O Senhor do Sombrio abre os braços. Sua voz fica mais grave. A escuridão parece responder. — Centenas de metros de rocha reforçada acima de nós.

O chão vibra quase imperceptivelmente.

— Sem testemunhas.

Outra vibração.

— Sem colaterais.

Pequenos fragmentos de poeira começam a cair do teto. As sombras entre as colunas parecem se alongar.

— Aqui é exatamente onde sou mais perigoso.

O sorriso desaparece do rosto de Khao.

— Por quê?

— Porque finalmente posso admitir que estou vulnerável. Não tenho a Vigília Sombria para amaciar seus punhos... Mas, não preciso diminuir minha força. Como um predador antigo encurralado, com um único meio de continuar caçando.

A montanha responde com um estalo profundo. Como algo gigantesco mudando de posição.

— Eu forjei esse covil, que foi moldado para ser susceptível à realidade. Aqui eu posso reescrever o que é pedra e o que não é. Aqui, tudo o que despejar no ambiente só encontrará vocês como alvo! Aqui, eu sou Lord Blunt. Sem freios de remorso! É isso que vocês querem enfrentar?



Xitarro, sorridente, sai da câmera. Olha dos dois lados, e decide ir no caminho de volta. Acaba avistando a alcova na parede, que perdeu quando passou. Era estreita, discreta. Ao se espremer numa rachadura, um pequeno corredor desaparecia na escuridão surgia para ele.

Era o esconderijo perfeito!

Então, a passagem que era uma rachadura na parede se mostra mais perfeito ainda. O ágil monge avança até que alcança uma gruta natural, com um pequeno altar de obsidiana, e uma gaiola de ferro frio, pendurada acima dela por correntes.

Dentro da gaiola, um guaxinim do porte de um humano adulto.

— Eh... Olá? — arriscou Xitarro.

O guaxinim arregalou os olhos.

— FINALMENTE! — urrou. — DEPOIS DE QUATRO ANOS! O DESTINO DOS DEUSES ESTÁ—

— Shhhhh! — Xitarro interrompeu imediatamente.

O guaxinim congelou.

— ...O quê? 

— Fala baixo.

— Você me mandou FALAR BAIXO?! EU?!?

— Estou brincando de esconde-esconde.

— ...

— Senhorita Amellie pediu para eu me esconder. Ela foi enganar meu melhor amigo e depois eles vão me procurar.

O guaxinim permaneceu em silêncio por vários segundos.

— Você está ciente de que está no coração da Montanha Morta?

— Sim... E... Quem é você?

— Você não sabe QUEM SOU EU?!? — Fala a criatura com arrogância. — EU sou aquele que você PROCURA! O ÚLTIMO DEUS PRIZIONEIRO! E o Fim das ERA DO FOGO-FRIO FINALMENTE ...

— Você é um ... Deus? — Xitarro parecia incrédulo.

— Você achou que eu era apenas um "guaxinim falante"?

— Bem... Eu sou um gato falante!

— Eu sou DON-O-RON! — o Guaxinim fica em pé, no limite do espaço que aquela grade de ferro frio lhe permite. — O LADRÃO DE SOMBRAS! PADROEIRO DOS LADRÕES! O TERCEIRO DEUS DO TEMPO DO FOGO FRIO!

— "Tempo do... " — Xitarro lembra das histórias de Bentho. — Foram só dois deuses!

— N-Não! — corrige o Guaxinim. — Somos três! Caruthers usou a princesa e o trono para capturar nós três e fazer suas crueldades!

— Pyrros, deus dragão do fogo... — Xitarro enumera. — Enya, deusa vaca da agricultura... 

— E DON-O-RON! — Insiste o guaxinim, apontando vigorosamente para si próprio.

— Nunca ouvi falar... Mas... Isso explica... — Xitarro ri. — Em Shén-li inteira só tinha uma guilda de ladrões... e eles eram péssimos!

— Só UMA?!? — Ele parecia ofendido. — Terei MUITO o que fazer quando sair daqui!

— os "Corvos Mensageiros de Morval". — Xitarro ri.

— MORVAL! O CORVO?!? — Don-O-Ron parecia ofendidíssimo. — Ele é o DEUS DA NECROMANCIA! Ele não tem nada a se meter em meus negócios!!!



Eu caminhava. Não sobre pedra, não sobre ar. Nem mesmo sobre algo que pudesse receber um nome. A direção era uma decisão, não um movimento. Escolhia um caminho e ele surgia sob meus pés.

Olhei para trás.

A Montanha Morta pairava distante. Pequena. Aberta como uma maquete ou um mapa. Como se alguém tivesse removido os limites entre interior e exterior.

Vi a sala do Eyespy. Vi o vazio para onde ele havia nos expulsado. Objetos impossíveis flutuavam naquele não-lugar. A mansão de Amellie também estava lá. Projetada para fora dos limites da montanha.

Parte dela existia onde o mundo acabava. As luzes estavam apagadas agora. E, pela primeira vez, compreendi que aquilo me incomodava menos do que deveria.

Talvez porque algo dentro de mim estivesse mudando.

Foi então que percebi que não estava sozinho.



Galáxias atravessavam sua armadura como reflexos sobre metal polido.

Uma espada repousava diante dele.

As duas mãos apoiadas sobre o pomo.

A postura lembrava um guarda.

Ou um juiz.

Ou ambos.

— Estava esperando você, Bentho, filho de Àquela e filho de Blunt.

Sua voz não atravessou o espaço.

Foi o espaço que pareceu se reorganizar para acomodá-la.

— Você... é um Deus?!?

— Sou Mortal, como você. — Fala o estranho. — Apenas mais velho. Mais experiente.

Por algum motivo, aquilo pareceu mais sincero do que qualquer declaração de divindade.

— O Eyespy foi um teste. — Ele diz. — Estebán falhou no tempo dele, e trouxe muita dor em sua jornada. Mas você, terá uma nova oportunidade.

— Um teste?

— Não para medir sua força. Eu observo seu mundo desde o dia que decidi parar de viajar eu mesmo. — Ele fala com certo saudosismo. — É tão novo, mas com tanto potencial. Mesmo os aspectos mais sombrios de sua terra possuem tanta personalidade, como um projeto de paixão. Seja seu pai, seja deuses sombrios como Morval e Bophades. 

— Mesmo ... Caruthers?

A entidade sorri.

— Não. Vocês ficariam melhor sem ele.


Uma parede distante se move.

Khao cospe no chão.

— Sabia que era questão de tempo. — O capitão fala. Ele queria desabafar havia meses agora.

— Khao... — Àquela fecha os olhos.

— Não. Quero dizer isso. — Ele aponta para Estebán. — Você eu já conhecia. É o mesmo tigre, com outras listras!

Depois aponta para ela.

— Você... achei que estava deslumbrada. Que quando seu esposo mostrasse as garras, voltaria à razão.

A arqueira enrijece.

— Mas não. — O capitão balança a cabeça julgando. — Você sempre escolheria ele.

A frase atinge. Mais do que deveria, mais do que Àquela gostaria.

Mas Khao ainda não terminou.

— Minha verdadeira decepção é Bentho.

— Khao... — Agora é Estebán quem fica imóvel.

O capitão dá um passo.

— Eu realmente achei que aquele garoto era um quadro em branco.

Outro passo.

— Que podia fazer dele um homem melhor do que você.

Outro.

— Melhor do que eu!

O silêncio torna-se absoluto.

— Mas aparentemente estava criando só mais um tirano.

Àquela reage antes de perceber.

— Cale a boca. — A voz sai baixa. Perigosa.

Khao faz uma concha com a mão na orelha.

— O que foi, loira? Não ouvi. — Ele brinca.

Àquela inspira fundo.

E então grita:

— ATRÁS DE VOCÊ, SEU IMBECIL!!!

Estebán arregala os olhos.

Não para Khao.

Para Àquela.

— ...O quê? — Khao percebe a reação.

E isso o faz virar.

Devagar, com muito cuidado.

A poucos metros.

Uma pilha de ossos.

Um enorme crânio deformado.

Um único olho. E o olho pisca.

— Hi you.

Khao dá um salto para trás.

— ESSA COISA ESTÁ VIVA?!

— Não... — Estebán olha para Àquela incrédulo e em choque. — O que você fez?!

— Não fui eu! — ela rebate imediatamente, sem demonstrar qualquer remorso. — Foi ele.

O grande olho gira. Confuso e pensativo.

— ...Did he just say that I'm alive?

— Nova Guarda! — Khao aponta para a criatura. — Novo hostil! Atenção! Arletta, tente traduzir!

Carne rósea começa a surgir entre os ossos.

Fibras musculares se esticam.

Veias aparecem.

Tentáculos começam a crescer do nada.

— Did he say...

A criatura ergue-se lentamente.

Flutuando.

— THAT...

Mais olhos se abrem.

— I'M...

O sorriso se alarga.

Antinatural.

— ALIVE?!

Os tentáculos se projetam em todas as direções.

O olho central abre-se completamente.

— I AM ALIVE!!!

— Você atirou o Eyespy contra a Guarda! — Constata o esposo com olhar furioso.

— Só... faça o "puuf" que a gente sai daqui! — Àquela fala com urgência, forçando a mão do esposo para a sua cintura. — Rápido!

Estebán hesita.

— Agora! — Ela insiste.

Vlana sente uma série de explosões em sequência em seu colar de contas, a ponto de sua placa peitoral esquentar com a energia quase queimando-a. As pétalas de contra-feitico em cadeia são acionadas. Todas de uma vez. Poder suficiente para deter a magia da revoada de Yalatanil... Não impediu que, em uma nuvem sóbria gerada palo passo nebuloso, Blunt e Àquela se teleportassem para fora do cômodo.

Seu "Ás na manga"... foi irrelevante. E nem foi para deter um dos maiores encantamentos do exemplar dos bruxos.

A criatura ergue-se acima de todos os que ficaram.

Rindo maniacamente.

— E EU SOU... — Pausa dramática. — A BEHOLDER!!!

— Capitão... — Larrincher urra preocupado. —I-isso é ruim?

— EU NÃO SEI! — Khao berra. — EU NUNCA ACORDEI UM ANTES!




— Eu estava náufrago numa ilha na época. — Xitarro senta-se. — Não tinha fogo na minha ilha, então não senti a falta de Pyrros. Mas lembro que minhas palmeiras, que me davam água de coco, quase morreram, e Bentho falou que foi por causa da cornucópia de Enya ter sido roubada. 

— Então... — o Guaxinim se encolhe na cela. — Ninguém sentiu minha falta? por todos estes anos?

— Bem, não é bem assim. — Xitarro tenta apaziguar. — Quando o "Trio Quimera" libertou Pyrros, precisaram despertar um titã nas Zonas Selvagens, que causou todo o tipo de catástrofe. E para recuperar a cornucópia de Enya, acabaram acidentalmente libertando o Rei Blod, vampiro ancião. Vai ver, eles sabiam que se libertassem você, iam trazer algo ruim para o mundo, não acha?

O Guaxinim desvia o olhar culpado.

— Era isso, não era? — Xitarro provoca. — Caruthers fez algo ruim para o caso alguém o libertasse?

— A tranca da gaiola... — ele aponta. — Se abrisse, derrubaria um vidro no chão com um produto que ressucitaria a Montanha Morta, e provavelmente ela rolaria para cima de Shén-li.

— E você DEIXARIA isso acontecer? —  o Catfolk estava horrorizado.

— Eu admito que não pensei muito nisso... — Ele resmunga. — Eu não sou Aetíades! Cuido só de meus negócios.

— Olha, se você me ajudar com a tranca e impedir que "Ressucitem a Montanha Morta" — Xitarro rola os olhos. — Eu te tiro daqui... 

— Não acredito que estou rebaixado a fazer acordo com mortais, mas certo. — O guaxinim faz um gesto. — Isso deve lhe ajudar.

As garras de Xitarro saem espontaneamente. Elas pareciam mais finas, delgadas, como instrumentos de precisão.

— Imagino que não tenha um kit de destrancar. — O guaxinim fala. — Agora você os tem permanete em suas mãos, bem como o conhecimento para usá-los.

— Se o senhor tem poder para fazer isso... — Xitarro resmunga — por quê não só... "Teleporta" para fora?

— Se os Deuses interferem assim, chama-se "Deus Ex Machina". — ele explica, enquanto recolhia o frasco-armadilha. — Mortais devem cumprir missões em nosso nome. É um tabú.

— Pois... — o Felino começava a usar seus recem-descobertos talentos para abrir a gaiola. — Imagine se você, um deus, andasse no meio dos aventureiros resolvendo os problemas deles... Seria apelação, não é?

Uma idéia surge na mente do guaxinim.

— Sim... seria ... Apelação.



O Guardião se aproxima de mim. Suas dimensões estelares pareciam o tornar bem mais interagível. Era apenas um homem grande e poderoso, quase tanto quanto capitão Khao.

— Poderia dizer por quê deixou o Castelo Negro e começou esta jornada?

— Eu prefiro não dizer. — Eu resmungo. — E se você vê a história de deuses... Eu devo ser só mais um ratinho com angústias.

— O universo é tão grande quanto seus menores... "ratinhos". — Ele fala. — Devo arriscar: você não concorda com o que viu?

Eu silencio.

— Em termos gerais... Sim.

— E decidiu que o mundo precisava mudar? — ele insiste. — Não sabe ainda como... Mas quer ser parte disso?

— O senhor está aqui para me recrutar? — Eu deduzo.

Ele silencia.

— Em termos gerais... Sim.

Eu me volto para trás. Quero ir embora, mas não sabia ainda como.

— Se você quer um herói, veio ao lugar errado.

— Você não confia em "heróis". — ele fala. — Não vê diferença de um herói que mente e um vilão que é genuíno.

— Você também tem uma agenda. — eu falo. — Meu pai tem sua agenda. Minha mãe, a Nova Guarda. A única diferença é que eu CONHEÇO eles.

— Eu me chamo Katzoplys. Me conhece agora. — Ele fala. — Sim, eu tenho planos. Eu acho que sei o que é melhor para o mundo, mas não sou arrogante a ponto de achar que sei tudo. Que meu caminho é o único. Você é, Bentho, filho de Blunt?

Eu não respondo.

— Você já fez a iniciação aos paladinos, correto?

— Não fiz o Juramento. — eu afirmo. — E não farei à coroa de Shén-li, ou à família sagrada. Eu não sei se acredito mais neles.

— Acredita em si mesmo?

Eu não respondo.

— Não que você seja o mais sábio. — Ele coloca a mão em meu ombro. — Você sabe quando seus companheiros tem talento que você não tem. Isso é louvável. Você vai escutar, e aceitar quando não tiver as respostas. Mas quando as tiver, vai se assegurar que vai aplica-las? Mesmo contra seus pais? Seu reino? ou a mim?

— Eu... — Era interessante. Mas eu sentia algo, como quando Gladys jogava com meus desejos, oferecendo poderes. Mas ele não os oferecia. Não me tirava do caminho para alterações. Ele me deixava "segurar" o que eu precisava.

— Você tem uma bússola. Sua consciência. — O Katzophlis afirma. — Eu lhe proponho apenas oferecer ferramentas para combater o que está errado neste mundo... Que é o que você estava fazendo até hoje. Só que em outra escala. Você será o juiz, não eu. Muito do que você fez ao longo de sua jornada, eu censuro, mas dou a você a liberdade. Se for fiel a suas convicções, você estará no caminho correto, mesmo se erguer sua espada contra mim.

— Tem certeza que ... Qualquer um... deveria ter tanto poder?

O Guardião sorri.

— Ninguém deve, mas alguém precisa.

Eu fui Bentho, filho de Àquela. Treinado em forte Jian para proteger Shén-li como paladino. Mas não posso de livre consciência cumprir um voto em que não acredito.

Hoje, eu me curvo a um estranho.

Eu não sou protetor do reino, mas da realidade.

Eu estou em sintonia com a minha existência.

E sinto o que é certo e errado.

E faço o voto.

Consertar.

Ser a seta que aponta o caminho.

Ser um dos Vigilantes.


Estebán e Àquela emergiram na passagem para a câmara do tesouro, no extremo oposto do salão do Eyespy, que mais uma vez havia se transformado em um campo de batalha.

A arqueira precisou puxar o marido pelo braço para evitar que fosse atingido por um relâmpago que parecia rasgar a montanha de fora a fora.

— Estebán, o que está fazendo? — perguntou ela, pronta para continuar correndo na direção onde sabiam estar Bentho.

Mas Estebán ficou para trás.

Ele desamarrou um cinto carregado de frascos rubros e começou a remexer nas próprias vestes.

— Vou deixar para trás algumas poções de cura... E um pergaminho restaurador. — afirmou. — Isso mesmo, "Arqueira Lendária". Suas ações fizeram Lord Blunt ter piedade do Capitão Khao.

Àquela sentiu uma pontada de remorso.

— Eles vão ficar bem?

Estebán não respondeu imediatamente.

Esticou o pescoço para observar o combate à distância. Uma lufada de vento sacudiu seus cabelos. Com cuidado, lançou o embrulho improvisado para um canto da sala.

— Normalmente eu diria 60/40 de chance de sobrevivência. — analisou. — Mas Bentho e os amigos cansaram o Eyespy. Khao vai ficar bem.

Então voltou a caminhar corredor adentro.

Àquela o seguiu.

— Eu sou Lord Blunt. — disse Estebán enquanto se afastavam da batalha. — Eu aceitei isso, Àquela.

— Somos vilões agora. Nós dois. — respondeu ela.

— Bentho... Acho que algo mais sério está acontecendo. 

Estebán interrompeu a corrida.

— Khao ainda está próximo! — insistiu Àquela. — Não podemos ficar aqui!

— Querida... É nosso filho. — respondeu ele. — Precisamos ser o melhor que pudermos ser se quisermos protegê-lo. E ele não será receptivo, constatamos em Hálcora. Está em perigo, e não é apenas Khao. Não é apenas esta montanha.

— Ele tem a nós dois. — afirmou Àquela. — Querendo ou não, o Maior dos Vilões e a Arqueira Len...

Ela não conseguiu terminar.

— Eu aceitei as sombras. — disse Estebán. — Você só vislumbra este mundo, porque sempre se sentiu uma impostora desempenhando o papel da "face do reino", a heroína perfeita. Mas você é a Arqueira Lendária. A luz de Shén-Li. Alguém que pode deter... A mim, no meu pior.

A voz dele suavizou.

— Não tente me imitar. Seja aquela mesma jovem que confrontou o Monstro Conquistador. Eu... eu preciso daquela heroína. A verdadeira.

Os dois ficaram imóveis por alguns segundos.

Apenas se encarando.

Então uma terceira voz, familiar, ecoou pelo corredor.

— Bentho precisa daquela heroína também.

O Senhor do Escuro ergueu a mão imediatamente.

A Dama do Arco encaixou duas flechas na corda.


Amellie ergueu ambas as mãos em rendição.

— Eu só vim conversar.

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