A névoa tornava a Montanha Morta maior do que realmente era. Ou talvez menor. Difícil dizer. Ela é assombrosamente confusa, mesmo se a sua lenda fosse só estórias do passado.
A estrutura de pedra negra erguia-se além do pântano como um cadáver colossal semi-enterrado no mundo. Sem vegetação, pássaros ou qualquer sinal de vida acima das primeiras encostas. Só rocha escura, minas abandonadas e túneis que pareciam feridas abertas na montanha.
O vento soprava de dentro delas. Mesmo amanhecendo, dava para ver antigas vigas de sustentação despontando na encosta, restos de elevadores de minério enferrujados e trilhos interrompidos pelo tempo. Mais acima, sombras de muralhas de isolamento antigas.
Eu ajusto a espada nas costas.
— Bem-vindos à entrada da mina da Montanha Morta. A Montanha... morta.
Xitarro olha para mim.
— Você ensaia essas entradas?
— Às vezes elas simplesmente vêm. - eu me justifico.
— [Infelizmente.] — Gladys comenta.
O som dos nossos passos ecoa na pedra úmida enquanto avançamos pela garganta estreita da entrada principal. Por um instante, olho para as paredes escuras. Aqui foi a origem de quase todo o Ferro Frio do reino, extraído à exaustão como se exumasse um cadáver colossal de seus ossos.
O minério que transformou Lord Blunt de conquistador em ameaça inevitável. Hoje, eu carregava aquilo nos ombros. Na armadura. Na espada.
No sangue da minha família.
— Gladys, você teve doze portadores antes do meu pai... E diz que é feita de Ferro Frio. Mas acho que ninguém minerava aqui a tanto tempo assim.
— [Ferro Frio existia antes desta montanha virar um túmulo. Outros pereceram na Guerra... A Montanha era só a ... Maior.]
— Isso foi uma decepção ha alguns anos. — Amellie suspira, vendo que ponto eu levantei. — Depois de toda aquela crise para libertar Pyrros no Tempo do Fogo Frio, descobrir que os ossos do titã que o Monsenhor matou eram só titânio sem valor foi um golpe duro para a Igreja da Perseverança.
— O ponto é: — Eu comento. — montanhas ambulantes eram comum antigamente. Hoje em dia o mundo está... menos dramático.
— [Discordo.] — Gladys responde. - [Os Adversários quem estão mais ordinários!]
"Adversários". Eu paro, lembrando algo que eu pensei ao longo da noite. Então estalo os dedos.
— Certo. Isso me lembra: Precisamos de um sistema de rivais.
Amellie fecha os olhos devagar.
— Ah não. "Anti-heróis" e vilõezinhos episódicos usam o Sistema de Rivais!
— O que é “sistema de rivais”? — Xitarro pergunta.
— Simples. — aponto para nós três. — Nós temos três antagonistas principais. Se formos alcançados, cada um se encarrega de deter alguém.
— Ou... — Amellie ergue um dedo. — Nós três espancamos um alvo de cada vez. Conceito revolucionário: Ser eficiente!
— Não, porque eles provavelmente vão tentar nos dividir. — explico. — Então é melhor já pensar nisso antes. Eles fizeram isso em Hálcora, se lembra?
Amellie cruza os braços censurando. Infelizmente, isso só me incentiva.
— Amellie. Você fica com minha mãe.
— Ah claro. A barda contra a arqueira lendária. - ela tem um engasgo de ironia. - "Suporte contra puro DPS". Você pensou muito nisso, né, Bentho? É porque "as garotas devem brigar entre elas"?
— Na verdade: Você tem vantagem psicológica.
Ela pisca.
A expressão muda um pouco.
— Como assim?
— Você é “A” Amellie, a professora. — dou de ombros. — Mesmo depois que você saiu do Castelo Negro, minha mãe falava de você como alguém importante. Tipo... alguém que ela admirava e decepcionou sem saber por que você foi embora. Viu lá em Hálcora, ela hesitou quando você apareceu. Você é mestra de achar aberturas: Explore isso.
Amellie fica estranhamente quieta. Culpada? talvez. Oops. Talvez não devesse ter cutucado alguma ferida.
Continuo rápido demais para ela não responder.
— Xitarro, você pega Khao.
— O QUÊ?! EU?!? -Ele parecia intimidado.
— Você tem a vantagem da velocidade.
— ELE É DO TAMANHO DE UMA CASA!
— Sim, mas os golpes dele são previsíveis.
— Você literalmente descreveu ele ontem demolindo uma taverna porque estava de mau humor!
— Isso foi contexto diferente. Ele vai estar mais focado se estiver lutando com você!
— COMO ISSO AJUDA?!
Amellie dá uma risada cansada.
Xitarro aponta para mim acusatoriamente.
— Então me deixa pega o “tiozinho da mãozinha”!
— ... O quê?
Xitarro faz uma expressão séria.
Estica o braço.
Imita uma mão espalmada lentamente indo para frente.
A mesma pose que ele viu em Hálcora.
Silêncio.
— Você tá falando do meu pai? — pergunto.
— Sim! O homem assustador da mãozinha! Eu pego ele, você pega o gigante!
— Xitarro, aquele era Lord Blunt. — Amellie fala imediatamente. — Isso não é um “rival”. Isso é desastre natural ambulante.
— Lord Blunt é responsabilidade minha — falo enfim. — Eu consigo.
Os dois olham para mim.
Até Gladys fica quieta ... por pelo menos um segundo.
— [Não consegue.] — ela comenta.
Ignoro.
— Eu tenho a armadura. Tenho a espada. Sou o décimo quarto portador agora.
Amellie me encara por alguns segundos.
Não com deboche.
Com preocupação.
— Bentho... você quer mesmo enfrentar ele ou só quer impedir de enfrentar sua mãe?
A pergunta fica no ar.
Droga.
— Nenhum de nós está no nível de Estebán. — Eu falo enfim. — Se fugir não for uma poção, temos de partir para cima... E eu me encarrego disso. Ele não hesitaria em trucidar vocês dois, mas eu sou o filho dele... Não estou sendo suicida, se é o que estão pensando.
Amellie suspira pelo nariz. Então sorri de lado. Eu sei o que ela está pensando... que eu vou fazer "sacrifício" pelos amigos.
— “Sabe o que falam dos caras que não podem perder?” - Eu falo. Tentei imitar a voz dela.
Amellie reconhece a frase imediatamente. De Huo-Fen.
Nosso reencontro.
Ela sorri também.
— “Eventualmente eles perdem.” - ela completa.
— Exato. — respondo.
— Então tudo bem. Podemos ter seu “sistema de rivais” como plano B.
— Plano B? — Xitarro pergunta.
— Plano A continua sendo sobreviver juntos. — ela responde. - Khao apareceu, nós três vamos para cima.
— Isso parece razoável. — Xitarro sorri aliviado.
Então seguimos adiante.
Pela garganta escura da Montanha Morta.
— Capitão? — Arletta chamou pela terceira vez.
Khao despertou do transe.
No meio da trilha do pântano após o cais clandestino, sinais do acampamento ainda fumegavam em pequenos pontos onde fogueiras tinham sido apagadas às pressas. Pegadas afundavam na lama. Marcas de arrasto. Sangue podre escurecido entre raízes mortas.
Rhoy agachou-se próximo a um corpo parcialmente afundado no charco. Um zumbi sem mandíbula.
— Eles acamparam aqui... — comentou o anão, passando os dedos pela lama. — E enfrentaram alguns mortos-vivos durante a noite.
— Ainda bem... — Ornub suspirou aliviado. O tenente meio-orc apoiava um machado enorme no ombro. — Quando vimos aquele navio voador, achei que tinham ido parar em outro continente. Por que a Nova Guarda não tem um navio voador?
— Porque Achima e Balmon nunca chegaram a um consenso. — Vael respondeu sem erguer os olhos do grimório preso à cintura. — Achima queria uma Jugernauta arcana de Yalatanil. Balmon insistia num vertodirigível movido a vapor e rotores. Os dois passaram cinco reuniões tentando provar que a ideia do outro explodiria primeiro.
— E qual delas explodiria primeiro? — Ornub perguntou.
Vael espera um segundo e responde:
— Sim.
Rhoy soltou uma risada curta.
Khao permaneceu em silêncio.
Ao longe, além da mata pantanosa, a Montanha Morta dominava o horizonte, mas a partir de lá, algo a suplantava. Despontava detrás dos picos negros mais altos.
As Montanhas Castanhas.
Mais altas.
Mais antigas.
Mais próximas do que ele gostaria.
Passado.
— Capitão? — Arletta tentou de novo.
Khao percebeu que apertava o próprio punho com tanta força que os dedos estalavam.
— Não foi nada. — cortou ele rapidamente. — Tempo, Rhoy?
O ranger analisou as pegadas mais uma vez.
— Partiram antes do amanhecer. Sem carga pesada. Ritmo rápido... já devem ter alcançado a entrada da mina.
— Ainda temos chance de interceptar a Loira e Blunt. — disse Khao imediatamente. — Marcha forçada agora. Sem pausas.
Ele sequer esperou resposta. Simplesmente tomou a dianteira. O barro afundava sob seus passos pesados enquanto avançava pela trilha estreita como um animal tentando escapar das próprias memórias.
Os outros demoraram alguns segundos para acompanhá-lo.
Arletta diminuiu o ritmo até ficar ao lado do meio-orc.
— Ornub... — sussurrou ela. — Você conhece o capitão há mais tempo.
O meio-orc não respondeu de imediato.
— Eu sei o que vai perguntar. — Ele resmunga incomodado. Como se, em não constatando, não seria verdade.
— Então percebeu também?
Ornub lançou um olhar cauteloso para Khao, já vários metros adiante.
— Nunca vi aquilo nos olhos dele.
Arletta hesitou antes de dizer.
— Parecia... medo.
O meio-orc franziu a testa.
— Capitão Khao não tem medo de luta.
— Nem de Lord Blunt? O mais poderoso senhor da guerra de todos?
— Blunt? Jamais. — Ornub respondeu sem hesitar. — Khao espera essa revanche há dezessete anos.
A oficial observou o capitão abrir caminho mata adentro como uma locomotiva furiosa.
— Então o que é?
Ornub demorou um pouco para responder.
Quando falou, sua voz saiu mais baixa.
— As Montanhas Castanhas ficam além da Montanha Morta. — continuou ele. — É o "caminho para casa".
Arletta piscou.
— Casa?
— Antes da Nova Guarda. Antes de Shén-li. Antes de virar capitão... Khao veio de lá. Se ele confidenciou um inimigo ou algo que o assustasse mais que Lord Blunt, foi justamente a sua antiga melhor amiga... A capitã traidora.
O silêncio pesou entre eles. À frente, Khao não olhava para a mina. Olhava para além dela.
Para algum lugar enterrado vinte anos no passado.
Ornub então concluiu, quase para si mesmo:
— Blunt não assusta Khao. A morte não assusta Khao.
Seus olhos acompanharam o capitão.
— Ele teme algo pior que Lord Blunt. — conclui Arletta.
— Algo... Ou alguém. — o meio-orc completa.
— Eu só vou olhar para o teto. — declarou Xitarro. - Desculpa se eu tromar em vocês...
A entrada da Montanha Morta se abria diante de nós como a garganta de alguma criatura colossal. Pedra negra, úmida, veios de ferro frio aparecendo aqui e ali. Acima, a abóbada desaparecia na escuridão. Eu estava com armadura e elmo vestidos. Amellie ficava atrás de nós. Estava acendendo a lamparina para enxergarmos melhor.
— Isso é ridículo. — Amellie revirou os olhos. — Todo aventureiro olha para o teto quando procura armadilhas e monstros.
— Não. Nas histórias que eu ouvi, o grupo sempre acha que está atento. Aí o monstro estava no teto o tempo todo.
— Porque eram aventureiros incompetentes. - Amellie protesta.
— O nome dele era Gharo... Mas a gente chamava ele de "Gotcha" porque ele gostava de "surpreender" todo mundo... e era obcecado por nomes começados por "G".
— Então deveria chamar ele de "Garuthers" - ela resmunga. - Preste atenção onde você pisa e...
Eu a detenho.
— Tem alguma coisa no teto. - Afirmo sussurrando.
Os dois congelaram.
Eu não teria visto se não fosse Xitarro comentando dos "perigos do teto", e se não tivesse o Boom do Olho do Demônio. Ao deixar os olhos se ajustarem à escuridão, delinha-se um enorme casulo, mais como uma teia/ninho...
Lá em cima, entre grossas camadas de teia branca, pendiam formas escuras. Um aracnóptilo adulto permanecia imóvel, misturado às sombras. Vários menores espalhavam-se ao redor dele se arrastando para ficar em posição.
— Ah. — disse Amellie. — Xitarro, o "MVP" de Hálcora começa forte na Montanha Morta...
— Aquilo são morcegos ou aranhas? — Xitarro pergunta com a voz trêmula. - Não que importe... eu odeio os dois...
Observei as criaturas.
— São os dois. São mesmo aracnoptilos... - Eu comento. Eu sabia por alto que criaturas eram aquelas... o sonar e a sede de sangue de um morcego vampiro; teia e ferramentas de caça de uma aranha gigante. Material de pesadelos. — Plano?
— Simples. — Amellie já puxava o alaúde. — Padrão Hipnótico. Eles olham para as luzes, esquecem que sabem voar e caem.
— Isso funciona com monstros?
— Funciona surpreendentemente mais vezes do que deveria.
Xitarro sorriu, estalando os dedos.
— E aí eu recolho os pedaços.
— Eu recolho os que sobrarem. — concordei.
Amellie respirou fundo.
— Sabe qual é a parte triste? — resmunga a barda
— Qual?
— Eu tive um "Garruthers" também quando aprendia a contar histórias na Escola. Na próxima caverna eles provavelmente não estarão no teto.
— Como sabe?
— Porque o "meu" gotcha ficava frustrado quando a gente percebia as armadilhas antes e dobrava o trabalho para parecer "genial e surpreendente" nas seguintes.
Ela apontou para a escuridão adiante.
— Então começou a esconder os monstros debaixo da terra. Não importa o que fizéssemos, eles iam nos agarrar as canelas.
As cordas do alaúde vibraram. Luzes coloridas floresceram pela caverna. Os aracnóptilos imediatamente começaram a despencar, uma adulta e cerca de uma dezena de pequenos demônios voadores.
O resto foi apenas trabalho braçal. Era um encontro fácil. Pelo que aprendemos sobre a Montanha Morta, isso provavelmente significava que algo muito pior estava esperando mais adiante.

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