Poucas horas atrás...
O PACTO DA MONTANHA MORTA
— Isso foge do Ethos dele.
— Lá vem você com o Ethos. — Estebán esfrega as têmporas. — É exatamente por isso que eu odeio bardos.
— Porque importa. — Amellie bate o pé. — Literalmente "O Irmão que Obedeceu". Me ajude aqui, Àquela...
— Não fale comigo... — A arqueira fecha o cenho.
A barda encolhe um pouco.
— Vocês transformam tudo em história. Tudo em tema. Tudo em metáfora. — Blunt resmunga. — Pessoas morrem e você responde com "estrutura narrativa".
— Se ele quisesse só "ser mau e destruir o mundo", ele poderia levantar a bunda do trono dele, vir atrás de nós. — Amellie explica. — Pense na motivação dele antes de marcar como o culpado!
— Então me diga. — continuou Estebán. — Se não ele, quem é o culpado? O Mordomo com um candelabro?
Àquela não estava gostando de ver "Lord Blunt" e "Menestrel Cyrak" em discussões vilanescas. Mas não deixou de pensar no que eles falavam.
— Ele é um "entretainer clássico", que segue código próprio de conduta maligna. — A arqueira decide opinar. — Não faria algo sem uma garantia de que a "lei" o cobre. Seja a própria, seja a dos deuses.
Estebán olha para a esposa, e sorri.
— Ele tem garantia.
A barda não respondeu.
— Ele sabe que não importa o que façamos. Nem nós. Nem os deuses. Nem qualquer outro agente. Esta etapa já está vencida.
Amellie joga a cabeça para trás e bate palmas.
— Você matou a charada, Blunt. — O sorriso de Amellie desapareceu. — O Eyespy não foi uma maldade aleatória. Foi uma parte de algum ritual. E haverá outras.
A arqueira olhou de um para o outro.
— Espera. — Ela levou alguns segundos. Então seus olhos se arregalaram. — Falam de uma ... Profecia?
Amellie mordeu o lábio. Estebán fechou os olhos.
— Bem... — Àquela se junta aos outros dois formando um círculo conspiratório. — Como impedimos essa profecia?
Os dois pareciam lutar contra algo. A barda olha com "piedade" para a arqueira. Estebán não consegue encarar a esposa.
— Vocês heróis são adoráveis. — Amellie falou, com a mesma expressão de alguém observando uma criança tentar discutir com a chuva.
— Não faça isso. — advertiu Estebán, com a voz grave. Era Lord Blunt emergindo de sua persona em defesa da esposa.
— Me desculpe... Mas... — Amellie segura o sorriso. — Ela acabou de perguntar "como impedir uma profecia".
Àquela apontou para ambos.
— Porque é exatamente o que deveríamos fazer!
Estebán respirou fundo.
— Querida... Profecias não funcionam assim. — Ele fala com paciência. — Uma profecia é um momento do destino inexorável.
— Então impedimos esse momento. — A esposa insiste. A barda volta a rir. — Por que não estão levando a sério isso?
— Porque até as tentativas de impedir já fazem parte da profecia. — O marido explica.
Àquela abriu a boca para responder.
Fechou.
Abriu de novo.
— Isso é absurdo. — A arqueira protesta.
— Tão absurdo quanto lutar contra um Eyespy, mas acontece... — Amellie comenta. — Heróis passam séculos tentando impedir profecias. Nunca conseguem.
— Isso não pode ser verdade! — Àquela protesta. — Das histórias que eu vivi... E das que li... Nove de cada dez vezes os heróis derrotam os tais "vilões proféticos"!
— Os vilões é que são idiotas. — Amellie abriu um sorriso. — Pense bem: eles "vencem" a parte que estava escrita. A profecia sempre se cumpre. Dez em cada dez vezes.
— Eles perdem apenas na etapa seguinte. — completou Estebán. — Depois que a profecia termina.
Ele abriu um sorriso sem humor.
— Quando o destino finalmente tira as mãos do tabuleiro. E é para esse momento que nós três vamos nos preparar.
Amellie relembra as primeiras trocas de idéias. De o que Gladius estava planejando. Procuraria sinais... mas por hora, ela seguia um "Bon senso".
Estebán deu uma idéia geral do que estava por vir. Se a espada fizesse algo perigoso, ela estaria pronta para interferir.
Ao menos, era o que esperava.
Foi o trecho mais longo que caminhamos sem armadilhas ou problemas.
Eu, Xitarro, e Amellie passamos por zonas sem ameaças... Bom, depois do Eyespy, era melhor só caminhar.
A passagem do cofre nos levou a um corredor enorme. A geometria era fascinante: quase um retângulo perfeito, com reforços distribuídos em intervalos regulares. Era largo o suficiente para dez pessoas caminharem lado a lado.
O túnel subia.
No começo, a inclinação era óbvia. Depois de algumas horas, porém, nossos corpos se acostumaram. Apenas os estalos ocasionais nos ouvidos denunciavam que continuávamos ganhando altitude.
— [Lord Blunt usava esta rota para mover tropas das montanhas para o pântano.] — Gladys explicou certa vez. — [E, de lá, para qualquer lugar de Shén-li.]
Havia marcas antigas de passagem nos dois sentidos. Fora isso, tudo parecia abandonado.
O caminho que não escolhemos levava para uma rede de cavernas ocupada por trogloditas, kobolds e orcs. Honestamente, depois do Eyespy, eu preferia lidar com qualquer um deles.
Águas passadas.
O corredor finalmente desembocou numa bifurcação: Uma das passagens continuava morro acima, por uma rampa ainda mais íngreme. A outra se abria para a maior caverna que havíamos encontrado até então.
Xitarro foi o primeiro a examinar o teto, "procurando monstros do Gotcha".
Parecia um mosaico de rochas encaixadas, formando uma cúpula colossal selada por magia antiga.
Uma nascente discreta brotava de uma das paredes. A água era limpa e gelada. Havia também uma pedra redonda, enorme, que podia ser rolada para bloquear a entrada por dentro.
Era uma fortaleza natural.
— Por quantas horas andamos? — perguntei.
Amellie consultou o relógio-bússola.
— Não faço ideia. — Ela inclinou a cabeça. — Mas são quase onze da noite.
Seu sorriso apareceu distante.
— Sabe o que isso significa?
— Que eu deveria estar dormindo há uma hora? — arriscou Xitarro.
— Também. — Ela riu. — Mas, em uma hora, será quinta-feira.
A barda passou os braços pelo meu pescoço.
— Feliz quase-aniversário, líder destemido.
Senti meu rosto esquentar sob o elmo.
— Em Shén-li, aniversários começam com o nascer do sol. — Comentei. — Temos chance de ver um ao menos amanhã?
— [Existe uma saída de sentinela acima da encosta. Duas horas de caminhada e uma de escalada.] — respondeu Gladys. — [O Corredor da Tropa termina na base da Ravina de Avelã. Quatro ou cinco horas, mas a subida reduz boa parte da distância horizontal.]
Repeti a informação. Amellie congelou.
— A Ravina de Avelã? — Ela me encarou. — Espera. A Ravina de Avelã?
— Foi o que ela disse.
— Durante o Tempo do Império inteiro havia uma passagem ligando a Montanha Morta à fronteira de Bearlord? — Ela estava surpresa... O Império certamente cobiçava Shén-li, única potência político-militar fora de seu julgo.
— Parece que sim. — Comento. — Gladys diz que não passa por aqui há mais de 18 anos, vai ver lacraram. Se for o caso... Vamos precisar voltar.
— O Castelo Bearlord esteve vulnerável a Blunt... — concluiu Amellie.
— [Não.] — Gladys interrompeu. Eu repito.
Todos olharam para mim.
— A base da ravina exige uma escalada difícil. Excelente para pequenos grupos. Terrível para exércitos. — Eu repeti suas palavras. — Lord Blunt sabia disso. Os penhascos favoreciam os homens de Bearlord. A passagem servia para infiltração, reconhecimento e movimentação discreta.
— Bem, temos equipamento de escalada, mas nenhuma vontade de escalar um penhasco... Vamos pelo "buraco de Sentinela". —Amellie comenta, abrindo sua sacola e sua enorme e confortável tenda de lona vermelha. — Mas só amanhã. Concordam?
Ela olha para mim... Mas por algum motivo, achei que ela olhava mais para Gladys.
— [Este lugar é bem seguro... Não vejo problema...]
— Parece Unânime, já que Xitarro já foi dormir... — Eu comento. — Primeiro turno é meu.
— Me acorde em ... Três horas. — Amellie fala.
— Tem certeza? — Insisto. — No pântano você disse que não fazia vigílias...
Ela baixa o semblante. Parecia corada...
— Considere um presente de aniversário.
— Senhor... Uma palavra? — Vlana adianta-se na fila até alcançar o capitão.
— Tenente. — Khao assente, mas sem interromper a marcha.
— Meu trunfo contra Lord Blunt não fez diferença nenhuma.
— Acontece. — Khao dá de ombros.
— Eu sei que o senhor nunca acreditou muito na minha ideia. E estava certo. Rhoy é o rastreador. Ornub e Larincher são seu apoio imediato. Até Arletta tem valor com seus mapas e relatórios...
Ela hesita.
— Então por que eu estou aqui?
Khao permanece alguns segundos em silêncio.
— Você viu como Blunt... ou Estebán... encara uma luta?
— Vi.
— Eu penso nisso há dezoito anos. — Khao suspira. — Há um abismo de poder entre nós e ele. Mas ele age como uma criança tentando apanhar borboletas.
— Não entendo.
— Porque ele pode esmagar qualquer um de nós até por acidente. — Khao sorri, com a mão humana espalmada à frente, como se tentasse pegar algo delicado. — Mas não quer. Então aproxima as mãos devagar, tentando ser cuidadoso.
O capitão fecha o punho lentamente.
— Ele acredita que já venceu. Que não temos para onde fugir. — Khao parece resignado. — Funcionaria com borboletas.
Khao cessa e aponta para ela.
— Mas nós não somos borboletas. — Ele fala determinado.
— O que somos?
— Uma vespa.
Vlana pisca.
— Uma vespa?
— Ele vai aproximar as mãos bem devagar... — Khao repete o mesmo gesto. Mas agora fecha o punho de repente. — E vai nos dar uma chance de ferroá-lo.
O dedo de Khao para sobre o peito dela.
— E você, Vlana, é o nosso ferrão!
A tenente parece pensar naquilo por um momento.
— Senhor... vespas têm ferrão?
— Claro que têm.
— Acho que o senhor está pensando em abelhas.
Khao fica imóvel.
— Mas NINGUÉM quer ser uma abelha gordinha e amarela! — Ele resmunga. — Vespas são radicais!
Khao vira a cabeça para o próximo da fila.
— Rhoy! Vespas têm ferrão?
Sem sequer erguer os olhos, o anão explica:
— As fêmeas possuem um ovipositor adaptado. Injeta veneno, paralisa presas e deposita ovos em carcaças. Não é como os ferrões da abelha, mas ela pode picar múltiplas vezes, ao invés de uma única.
— Está vendo? — Khao aponta para Rhoy, enquanto encara Vlana. — Muito mais assustador que uma abelha.
Ele volta-se para Vlana. A maga balança a cabeça.
— Somos vespas.
— [Bentho... Acorde....]
— Eu não estou dormindo.
Olho para a vela. Tinha pouco menos de duas horas. Xitarro estava inconsciente de sono... Amellie, na barraca, não fazia barulho.
— [Tem alguma coisa errada... Eu sinto]
— É para acordar os outros? — Pergunto.
— [Ainda não, mas pode gritar, mas só se algo acontecer...]
Eu visto Virgílio, mas procuro andar em silêncio.
— [atrás da porta] — Ela comenta. — [Empurre-a!]
— O que você viu? — Insisto.
— [Não há termo para isso...] — Ela fala após uma pausa. — [Mas um Vigilante pode reconhecer quando vir... Algo no Ferro Frio...]
Eu tiro as travas da pedra. Empurro. A porta não é muito barulhenta, mas vejo que Xitarro levanta a cabeça ainda deitado, esfregando o olho.
— Vai para o banheiro? — Ele pergunta.
— Não sei ainda... — É o que respondo.
Dou um passo para fora.
— Posso tentar usar meus olhos... — Sugiro...
— [É tarde... Passou por mim! Está... Oh, Bentho...]
A espada estava estranha... ela vibra.
Mesmo sem os Olhos eu percebo um brilho súbito. Não sei a natureza disso...
Espalhou pelo corredor. Concentrou-se na espada. Dela... Entrou na caverna. A caverna em que Amellie e Xitarro estavam desamparados...
O primeiro pedregulho cai.
Foi no centro dela. Não vi mais Xitarro.
Tudo... Toda a montanha começa a tremer!
— AMELLIE!!! XITARRO!! — Eu grito. Avanço um pouco, e de repente eu paro.
Gladys para no ar forte o bastante para eu não avançar. Nunca antes ela se recusou a me obedecer. Eu nem sabia que ela era tão forte assim!
— [É Tarde demais!] — Ela comenta. — [Foi alguma armadilha de seu pai que ele não me mostrou! Não entre lá!]
Eu mal conseguia mexer a espada no ar...
Ela estava me atrasando.
Eu a desembainho, e a largo.
— [Não seu tolo!] — Ela urra. — [Volte aqui!]
Eu olho brevemente para o teto. Aquele "mosaico de rochas" estava se desfazendo. Pedras grandes como carroças, algumas como casas. Milhares de quilos cada... e só ia piorar.
Eu vejo a barraca da Amellie. Tento correr para lá.
Um fragmento me atinge no elmo. Era "pequena"... Devia ter uns oito quilos. Vou ao chão atordoado... Algo molhado escorre dentro de meu elmo, provavelmente sangue.
Rolei tentando me levantar, antever outras pedras. E elas vieram.
Uma pedra bem maior, talvez três metros de lado, cai quase em mim, na vertical. Mas começa a se inclinar para me esmagar.
Xitarro surge entre a poeira. Coloca o bastão imovível dele no caminho da rocha... E impede que sejamos esmagados. Eu vejo o pânico em seus olhos... Não consigo ouvir, por causa do barulho.
Rochas bem maiores caem a nosso redor. Uma cai na tal rocha acima de nós. O bastão não cedeu... Mas a montanha ao redor, sim.
A pedrada que me acertou foi pior do que eu pensei. Começo a ver pontos pretos na visão. Xitarro berrava, mas eu não ouvia. Eu não consigo me levantar...
Xitarro desaparece, saíndo de perto de mim.
Alguém puxa minha perna.
Foi tudo assustador. Confuso. Eu estava quase desmaiado. Mas vejo a grande pedra descer.
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