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11 de junho de 2026

EDGELORD - Cap. VI - Arco da Montanha Morta

Deixamos a câmara circular para trás.

O corredor seguinte era estreito e irregular, escavado diretamente na montanha. A pedra escura absorvia parte da luz das tochas, e a umidade escorria pelas paredes em filetes finos. Aqui e ali, raízes antigas surgiam entre as rachaduras.

Xitarro seguia na frente, aliviado por estar novamente no chão, e Amellie caminhava logo atrás dele.

Eu vinha por último.

Deveria estar satisfeito. Vencemos o Eyespy. Sobrevivemos.

Mas alguma coisa parecia errada.

Não ao meu redor.

Comigo.

Era como acordar cedo demais e passar a manhã inteira esperando a mente alcançar o corpo.

— Bentho? — perguntou Amellie, olhando por cima do ombro. — Você está bem?

— Hm?

Antes que eu respondesse, Gladys falou em minha mente.

— [Está bem, garoto?]

— Sim... — Pisquei. Acabei respondendo às duas. — Vocês combinaram isso?

— Combinaram o quê? - Amellie franziu a testa.

— Nada. - Olhei para a espada presa ao cinto. — Estou bem.

— [Tem certeza?] - Gladys demorou alguns segundos. — [Você enfrentou uma aberração extraplanar.]

— Nós enfrentamos. - Corrijo.

— A espada... — Amellie percebeu meu desconforto enquanto respondia quase sussurrando e deduziu. — Ela está preocupada?

— Acho que sim.

— Isso é novo. - Amellie deixa uma risada zombeteira escapar. — Mas... Faz sentido.

— Faz?

— Eh, O Menestrel Cyrak escreveu sobre isso. Num texto apócrifo quando enfrentou o Devorador de Nomes.

— Escreveu? Bem, você deve conhecer os "grandes bardos" mais que eu mas...

— Encontros com certas criaturas podem deixar uma pessoa... fora de sintonia com a realidade por algum tempo.

Pensei na expressão.

— Fora de sintonia? — Era exatamente aquilo o que estava sentindo. — Não gosto disso.

— Ninguém gosta. — Amellie falava com... familiaridade?

O som das botas e das patas de Xitarro ecoava pela passagem de pedra.

— Então eu vou ficar bem. Só, meio "aéreo" — Afirmo. — Tem uma espécie de porta alí na frente... Civilização?

— Melhor... — Xitarro fala animado. — LOOT!

Amellie sorriu.

— A melhor parte de explorar uma masmorra!


Àquela chegou primeiro à câmara. O arco já estava em suas mãos, não por nervosismo, mas por hábito.

A sala carregava os sinais de uma batalha feroz. Pedras rachadas. Estalagmites partidas. Marcas de queimadura espalhadas pelas paredes.

Uma área inteira da caverna estava coberta por uma camada branca de "creme". Sangue escuro salpicava o chão guiando o olhar ao canto mais distante da câmara, onde repousava o que restava do Eyespy.

Um amontoado de ossos, olhos ressecados e tentáculos esqueléticos. Imóvel. Melancólico.

— Não reconheça vocalmente a criatura como "algo vivo". - Estebán observou, estudando a cena inteira.

Àquela manteve os olhos na criatura.

— Isso parece uma instrução perigosamente específica.

— Porquê o é. - O bruxo sussurra. — O Eyespy está sofrendo de algo que chamamos de Morte Ontológica.

— E para nós, não-bruxos épicos... - Àquela parecia insultada. - Isso significaria o quê?

— Significa que ele acredita que morreu. E isso nos basta.

Àquela olhou novamente para o esqueleto.

O esqueleto parecia estar encarando o chão.

Triste.

— Ele "acredita"? — A arqueira estava desconfortável. — Mas não morreu?

— Não.

— E o corpo?

— Está acompanhando a crença. E retornará se essa crença for desfeita. Mas fora isso, ele está consciente e pacífico.

Àquela decidiu que não queria aprofundar o assunto.

O Eyespy finalmente percebeu a presença deles.

Alguns olhos se moveram.

Depois outros.

Até que todos encontraram Estebán.

— Master Blunt...

A voz era baixa. Abatida. Como uma criança que acabara de receber um castigo.

— Olá, Eyespy.

— I am dead, you see?.

— Sim, eu percebo. — O bruxo se aproxima, e se curva próximo a ele. Assentiu com seriedade. — Como isso aconteceu?

Àquela lançou um olhar para o marido. Ele parecia estar tendo uma conversa perfeitamente normal, apesar das circunstâncias enlouquecidas.

Lord Edgy me matou. — A tristeza do Eyespy desapareceu por um instante. Alguns dos olhos se arregalaram. — Epic attack. E ele disse que é seu heir!

— Foi mesmo? — Estebán cruzou os braços com um sorriso genuino.

— Greatest attack! — Os tentáculos se moveram animadamente. — Greatest warrior!

Então a empolgação desapareceu tão rápido quanto surgiu.

— Então eu morri. Very tragic.

— Sem dúvida.

O Eyespy pareceu refletir sobre aquilo.

Depois voltou a encarar o chão.

Master Blunt?  Are you proud?

Estebán ficou em silêncio por um instante. Olhou as marcas da batalha. O sangue. A destruição. Os sinais deixados pela passagem dos aventureiros.

E sorriu discretamente.

— Sim, Eyespy. Dos dois. Foi uma luta épica.

A criatura pareceu satisfeita com a resposta.

— Antes de deixá-lo descansar... Você poderia me mostrar o passado? E o que aconteceu? — Estebán fala como se fosse curiosidade. Mas Àquela sabia... era o mais importante.

Os olhos da criatura se voltaram para ele. Curiosos. Pela primeira vez desde que chegaram, o esqueleto pareceu genuinamente animado. Os tentáculos começaram a se agitar.

— I can do that!



Continuamos avançando pelo corredor da mina. A passagem foi ficando menos natural conforme descíamos. As paredes de pedra bruta deram lugar a blocos cuidadosamente assentados. As marcas de ferramentas eram visíveis em alguns pontos. Em outros, suportes de metal sustentavam lanternas de luz permanente.

Parecia menos uma caverna.

Foi então que notei uma alcova na parede. Era estreita, discreta. Fácil de ignorar se estivesse caminhando depressa. Ao se espremer, um pequeno corredor desaparecia na escuridão.

Diminuí o passo.

— Hm...

— [Não.] — respondeu Gladys imediatamente.

— Eu nem falei nada.

— [Não entre aí.]

— O que tem lá dentro?

A espada permaneceu alguns segundos em silêncio.

— [Imagine que Lord Blunt alugou um quarto dentro da Montanha Morta para Caruthers... então eu... ]

Parei de olhar para a alcova imediatamente.

— Não precisa dizer mais nada. Entendi.

— [Você não entendeu, mas não posso elaborar...]

— Entendi o suficiente. — apresso o passo. — Sem Caruthers nesta história!

Isso pareceu satisfazê-la.

Pouco depois, alcançamos a tal porta. Não estava trancada.


Empurrei a porta devagar e congelei no limiar. A sala iluminada por arandelas parecia um escritório secreto escondido nas profundezas da pedra. Uma mesa ocupava o centro do aposento, coberta por mapas, uma sacola, pergaminhos e anotações, cercada por cadeiras vazias. Um baú reforçado repousava diante da parede do fundo, mas era impossível prestar atenção nele por muito tempo.

Atrás do baú erguia-se uma porta colossal de metal, incrustada na rocha. Não era uma porta comum, mas um cofre gigantesco, coberto de engrenagens, travas e mecanismos complexos. Por um instante, permaneci imóvel, ouvindo apenas o crepitar distante das chamas. Aquela estrutura não parecia feita apenas para proteger um tesouro; parecia construída para manter algo inacessível. E isso me fez pensar no que poderia existir do outro lado.

— Certo... — murmurou Amellie. — Isso é interessante.

— Isso é assustador. — corrigiu Xitarro.

— As duas coisas não são mutuamente exclusivas.

O felino apontou para o baú.

— Eu voto por começar por aquilo.

— Tem medo de ser um mímico? — perguntei.

— Respeito a possibilidade.

Amellie começou a examinar a sala em busca de armadilhas.

Xitarro aproximou-se cautelosamente do baú.

Eu me sentei, fiquei com a mesa.

Sobre ela havia algumas moedas espalhadas e um saco de veludo vermelho. Ainda meio aéreo... Peguei o saco e despejei seu conteúdo. Pequenas esferas translúcidas rolaram pela superfície da madeira. Apanhei uma em minha mão e a estudei.

Outra esfera sobre a mesa imediatamente projetou uma imagem em miniatura minha, repetindo meus gestos.

Dei um pulo saíndo da cadeira.

O "pequeno Edgy" também.

— Eu estou viajando ou isso é legal?

Isso chamou a atenção de Amellie. Ela se aproximou e observou as esferas. Pegou uma delas. Aquela com "meu minimin"... A esfera que eu segurava passou a exibir uma pequena versão da barda.

— Oh... — Agora ela parecia interessada. — Acho que são esferas de mensagem.

O som saiu com alguns segundos de delay daquela em minha mão.

— São como comunicadores?

— Mais sofisticadas. — Ela observou as esferas por mais alguns segundos. — Suponho que são em pares...

Então começou a contar as esferas. Nove ao todo. A expressão mudou.

— Não toque nas outras ainda. — ela me alerta. — Tem um número ímpar. Falta uma. Existe uma chance razoável de ser uma nas mãos de Estebán. Essas duas que pegamos são as únicas seguras por hora.

Devolvi imediatamente a esfera para Amellie.

Atrás de nós ouviu-se o som de uma tampa se abrindo.

Xitarro havia vencido sua batalha contra o baú.

— Não é um mímico! — Ele disse triunfante. — E tem roupas!

— Que tipo?

— Roupas mágicas para frio!

— Muito excelente. — Amellie observa. — As Montanhas do outro lado podem ser cruéis para quem não se protege!

Amellie observou o conteúdo do baú. Depois olhou para Xitarro. Eu estava mesmo cansado... ao piscar, perdi sintonia.

— Bentho.

— Sim? — respondo salteado.

— Talvez seja uma boa oportunidade para um descanso curto.

— Eu pareço tão mal assim?

— Você parece alguém que enfrentou uma aberração cósmica. — Ela sorriu.

— Justo. — Eu Franzi a testa. Percebi que Xitarro tinha sumido. — Para onde ele foi?

— Curiosidade de gato... — ela suspira. — Vou garantir que ele não se perca.

— Sozinha?

— Não vou longe. — Ela pegou uma das esferas da mesa e colocou em minha mão. — Se precisar de mim, me chame. Se eu precisar de você, eu chamo.

Olhei para a esfera. Depois para ela. Depois para o cofre. Realmente raciocinar estava difícil.

— Certo.

Amellie sorriu. E partiu na direção pela qual Xitarro havia desaparecido.

Fiquei sozinho com o cofre. Mas não por muito tempo.




O enorme e complexo holograma ocupava toda a câmera.  Não era uma ilusão refinada, parecia um desenho semi-realista feito por uma criança que havia acabado de descobrir que tudo fica mais impressionante quando se adicionam espinhos, sombras e explosões.

Bentho surgia enorme. A capa parecia duas vezes maior do que realmente era.

A Gladius Aeternum deixava um rastro negro exagerado.

— Lord Edgy was awesome... — murmurou o esqueleto.

Estebán observava em silêncio. Àquela também. Por trás dos exageros infantis, ainda era possível enxergar o que realmente havia acontecido.

O momento exato em que a armadura servira de distração.

O salto. A aproximação por cima. O golpe.

— O que ele fez com minha armadura para ela estar tão "esquelética"? —  Blunt pergunta indignado.

— Ele estava ferido, Estebán! — observou Àquela. Não parecia uma crítica, parecia uma mãe genuinamente preocupada. — Olhe o rosto dele! 

Estebán não desviou os olhos da imagem.

— Durante dezessete anos você voltou para casa ferida das atividades da Nova Guarda. — O marido fala casualmente. — Flechas quebradas. Costelas trincadas. Queimaduras. Cortes.

O holograma continuava exibindo detalhes. Amellie no limite do campo, com algum suporte; o garoto catfolk rendido de ponta-cabeça em um dos tentáculos

— ... Houve dias em que pensei em abandonar a Torre. Quebrar o acordo. Caçar pessoalmente quem tivesse ousado encostar em você.

A arqueira ergueu uma sobrancelha.

— Eu não sabia... você escondia bem.

— Eu escondia. — Ele cruzou os braços caminhando a esmo pela cena exposta. — Com o tempo aprendi que aquele era o seu trabalho.

O holograma mostrou Bentho surgindo acima do Eyespy, prestes a enfrentar a aberração O marido apontou a cena.

— Acho que chegou a sua vez de aprender isso. 

A imagem congelou. Estebán estreitou os olhos. Algo chamara sua atenção.

Não o golpe.

Nem a espada, embora reconhecesse que Bentho optou pelo caminho da Espada Sangrenta.

Seu olhar foi para Vigília Sombria. Para a posição exata da armadura. Ele chegou a se curvar, para estar na altura do que o Eyespy via...

Para o instante em que ela bloqueava completamente a linha de visão do monstro. O antigo Lord Blunt ficou imóvel por alguns segundos, e então falou, quase para si mesmo:

— Interessante...

Àquela percebeu a mudança.

— O quê?

— A manobra. — Um pequeno sorriso apareceu. — Eu conheço essa manobra. Um corta-fogo. Uma distração deliberada. Uma peça sacrificada para abrir caminho ao ataque principal. Bentho não é dependente da armadura como eu temia ser.

Àquela olhou novamente para o holograma. Realmente era uma decisão tática corajosa.

— Bem, ele derrotou um monstro que você achava que estava acima do nível dele. — A mãe coloca a mão no ombro do marido. — Nosso garoto é excepcional, e nós nunca percebemos...

— Corta fogo... — Estebán repete para si mesmo por um segundo. — Ele aprendeu isso em Fort Jian? Com você...

Ele ergueu os olhos para a entrada da câmara.

— ...Capitão Khao?

O silêncio durou apenas um instante, e então, a enorme figura do capitão surgiu na passagem.


Atrás dele vinham os tenentes da Nova Guarda.

Cobertos de poeira.

Cansados.

Mas ainda avançando. 

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