Todos os músculos de Ornub estavam rijos.
A última coisa de que se lembrava era da melodia:
"I Spy a Huge Statue..."
Depois disso, apenas escuridão.
Agora estava deitado sobre a pedra fria, o corpo pesado como chumbo, enquanto Vlana lia um pergaminho debruçada sobre ele.
— Funcionou, capitão! — Ela retruca. Estava visivelmente sem fôlego. — Ornub não é mais uma estátua!
— O ... O que aconteceu? — O meio-orc se levanta com dificuldade.
— Bem... — Larincher arranca um tufo de "flores/cabelos" de sua cabeça. Igualmente consequência da luta. — Eu disse que aqueles tentáculos pareciam "cabelos de medusa"... e daí...
— Recuamos — Khao resume com raiva. Havia uma "gosma ácida" escorrendo da armadura dele, gotejando no chão e fazendo pequenos buracos. — Achamos alguns itens que nos ajudou, mas estávamos esperdiçando recursos com um... "subchefe".
— Sabemos que você é um fã do capitão, Ornub... — o Gnomo fala jocosamente. — Mas podia parar em uma das mãos, ao invés do corpo inteiro...
— Eu... — O meio-orc encara o Punho do capitão. — Peço perdão por ser um estorvo, meu líder. Na antiga horda, eu seria...
— Você não é mais da tribo que seguia Blunt, tenente. Você não é seu pai. — Khao rosna impaciente. — Você é um bom soldado da Nova Guarda. Não posso falar o mesmo de "Lady Àquela".
— Capitão... — Arleta aponta para uma passagem secreta se abrindo próximo.
Uma placa de pedra deslizou pela parede.
Todos se viraram ao mesmo tempo. Larrincher arranca mais uma flor que brotava em seus cabelos. Vlana aponta a varinha. Khao posiciona-se adiantado.
Rhoy surgiu da passagem secreta como se estivesse voltando de uma caminhada.
— Achei um caminho que contorna o Eyespy. — O anão fala. — Sigam-me.
— C-como você conseguiu achar isso? — Khao estava assombrado. — Nós passamos uma hora procurando saídas!
— Vai soar estranho... — Rhoy admitiu. — Mas e se eu disser que achei um guaxinim falante?
— [Aetíades seja louvado, você voltou!] — Gladys parecia berrar na minha cabeça.
Acho que minha "telepatia" estava mal sintonizada.
— Quanto tempo eu...
— [Mais de uma hora!] — ela protesta. — [Eu já estava fazendo planos para um décimo quinto bruxo!]
— Por que não volta para o meu pai? — eu rio.
— [Depois de perder o filho dele?] — a espada resmunga. — [Ele me derreteria e me transformaria em um sino!]
Respiro fundo.
Estava bem.
Melhor do que bem.
Melhor do que nunca.
— [Temos companhia.]
O som de passos ecoou pelo corredor antes que Amellie e Xitarro surgissem na curva.
— Olha só o que eu achei brincando de esconde-esconde! — Amellie brinca, apontando para o monge.
— Eu achei um guaxinim falante! — Xitarro ri. — E você, Bentho? Tirou um cochilo?
— Estou... recarregado. — Respondo enfim. — E esse cofre? Não abriram ainda?
O sorriso de Amellie desaparece.
— Estamos tempo demais nesta masmorra. — Ela cruza os braços. — E ainda não sabemos como abrir uma coisa dessas.
— Deixa comigo! — Xitarro estica as garras e se aproxima da fechadura.
— Xitarro, querido... — Amellie começa, paciente. — Não é tão simples assim. Você...
Eu a interrompo.
— Acho que ele consegue.
Ela me encara, surpresa.
O monge apoia uma orelha contra a porta de metal e cutuca a fechadura com as garras.
Por um instante, nada acontece.
Então uma sequência de estalos metálicos ecoa lá dentro.
Clik.
Clac.
Tlec.
Tlec.
Clanc.
— Consegui! — Ele comemora. Agarra a beirada e começa a puxar, mas a porta não se move.
— O que foi? — a barda estranha. — Está pesada?
Os dois sacudiam a porta. Ela parecia destrancada, mas não se movia mais que um centímetro.
— [Se estiver travada, é melhor esquecer.] — Gladys resmunga em minha cabeça, apressada. — [Já tivemos lucro com essas coisas aqui fora. Vamos embora logo...]
Eu me levanto. Passo as mãos pelos olhos por um instante e, por um segundo... vejo galáxias.
Tudo o que era.
E tudo o que não era.
— Bentho?
Amellie dá um passo para trás quando eu me aproximo. Eu me concentro em uma das travas que reforçavam o cofre. Um anel de metal dessa trava, mais especificamente.
Estendo a mão. Giro a peça. Então a removo toda a trava como se não tivesse peso. Ela não estava presa a nada, mas impedia que a porta abrisse.
A porta despenca para a frente, quase esmagando Xitarro.
Eu largo a trava no ar.
Ela permanece flutuando imóvel como se apoiada numa estante invisível.
— Isso é um bastão imovível?! — Amellie ri. — Estebán, seu cachorro malandro!
— Não é um bastão imovível... — respondo.
Apanho a peça no ar. Era uma barra delgada de metal com pouco mais de meio metro de comprimento, cujo anel que ajustava seu peso ficava perfeitamente ao alcance dos dedos de quem a empunhasse.
Eu a movimento com firmeza enquanto giro o anel.
As extremidades se estendem, uma após a outra.
A barra cresce.
Transforma-se em um cajado.
Amellie e Xitarro observam em silêncio.
Eu giro o cajado em seu eixo, e me viro razoavelmente bem. Eu tinha treinamento com cajados... Mas não com aquele.
Golpeio o chão.
O impacto é brutal.
A ponta delgada de aço sulca a pedra e abre rachaduras como se o golpe tivesse sido desferido pela cabeça de um martelo de guerra.
— É um bastão de densidade variável?! — Amellie identifica. — Isso é raríssimo!
— Uma boa arma para monges. — Eu falo, arremessando-o para Xitarro.
O felino agarra a arma, animado. Era seu primeiro loot desde o dia que saiu da ilha. Mas ela encolhe de volta às proporções de uma clava.
— Ué... Quebrou? — ele estranha.
— Armas mágicas precisam de tempo para se sintonizar com seus usuários. — Amellie explica. — Fique treinando e estudando ela. Aos poucos, vai começar a responder.
— Mas... Por que Bentho não precisou disso?
Amellie congela por um instante. Ela enfim percebeu que a arma havia respondido a mim imediatamente. Eu queria explicar.
Mas o tempo estava acabando.
Entro no cofre.
— Bentho... cuidado! — ela alerta.
— Pergaminho mágico escondido... — arremesso um tubo de madeira para ela, com o papiro. — Achei também uma Bolsa do armazenamento... Hmm, munição mágica de handcrosbow... Precisamos comprar um handcrosbow!
Eles entram logo atrás.
O interior era pouco mais que uma reentrância escavada na rocha, isolada pela pesada porta de metal.
Barras de ouro, Joias, Pratarias. Tudo empilhado sem qualquer cuidado.
Mas meus olhos já procuravam outra coisa.
Uma estátua horrenda ocupava o fundo do compartimento. Contudo, eram os olhos dela que chamavam minha atenção.
Aproximo-me.
Destravo um par de anéis ocultos no rosto da escultura. Havia magia neles. Eu podia sentir.
— Um para a dama. Um para mim. — digo, entregando um deles a Amellie.
— Igualmente, vai precisar de sintonia... — ela começa.
Então para no meio da frase.
— E não deveria funcionar com a manopla de Virgílio...
Aproximo o anel do dedo.
As placas metálicas da manopla que cobriam minhas falanges se afastam sozinhas.
Como pétalas de uma flor de aço se abrindo.
— [A armadura evolui com você e resguarda os itens.] — Gladys comenta. — [Deve ter pelo menos a capa de dragão negro e um Talismã da Saúde nela. Mas esses só funcionam com seu pai.]
— Eu... — exponho a mão enquanto a manopla cresce ao redor do anel. — Sinto como se ela recebesse um encantamento meu... e o guardasse. Poupa um spell slot.
Meus olhos ardem.
Levo uma mão ao rosto.
A sensação desaparece tão rápido quanto veio.
— Acho que... Passou, por hoje. — constato.
— Bentho... — Amellie me observa por alguns segundos. — Você estava detectando magia...
Ela aponta para a manopla.
— E usando itens mágicos sem precisar de sintonia?
— Eu... Acho que sim. — comento. — Parecia natural para mim.
— [Ah, que Bophades rasgue suas entranhas!] — Gladys rosna. — [Você pegou nível de paladino?!]
— Eu... — sorrio.
Precisava explicar aquilo para Amellie e Xitarro também.
— Conheci um homem. Um forasteiro chamado Kaztophlis...
Os olhos de Amellie se arregalam.
— O forasteiro que foi o Exemplar dos Paladinos! — Ela o identifica. — O Voto dos Vigilantes.
Ela cruza os braços.
— Sim. Isso explica muita coisa.
— [Nem para virar um "Conquistador", "Quebra-votos" ou algo mais sinistro!] — a espada explode em frustração. — [Bem... Podia ser pior. Em Meliny existem votos como "Luz", "Amor" e "Pôneis Coloridos"!]
Eu rio... Não esperava esse comentário da espada. Amellie ignora completamente.
— Bentho... — ela respira fundo e volta a olhar o tesouro. — Mesmo com a Sacola do Armazenamento, é coisa demais para carregarmos.
Ela começa a apontar os itens.
— Prioridade para as roupas do baú, joias e objetos mágicos. Eu fico com as esferas. Xitarro leva o bastão. Um anel para cada um de nós que usamos magias. Mais tarde eu estudo o pergaminho.
— Bem... — estico os ombros. — Gladys também está com pressa...
Olho da barda volta-se para a espada.
— É bom ver vocês duas concordando tanto ultimamente. — Eu comento.
— É... grandes mentes pensam iguais... — Amellie lança um olhar estranho para Gladys. — E eu ainda quero ouvir a história do guaxinim de Xitarro...
}}}Pouco menos de uma hora antes...{{{
Meu nome ... É Amellie. Eu me decidi por isso. Mas meus pecados carregam nome de outro.
Eu sabia que não seria bem recebida.
Ainda assim, ter duas das maiores potências do reino me encarando como se eu fosse um dragão ancião era... intimidante.
— Onde está meu filho, Cyrak? — Àquela pergunta, sem rodeios.
— Logo ali na curva do corredor. — Respondo com deboche. — Está embrulhado, usando uma fita roxa na cabeça e um cartaz escrito...
Elevo a voz:
— EU NÃO VOU TRAIR MEU AMIGO!
— Sem piadas. — A voz de Lord Blunt era fria e ameaçadora.
— Sério, Estebán... — inclino a cabeça. — Você contou para ela?
— EU recebi você em MEU LAR! — Àquela explode. Ela... Ela parecia prestes a chorar! — Eu incentivei Bentho a sair do casulo para acabar nas mãos de ... De um ELFO PERVERTIDO DE NOVENTA ANOS?!
— Eu me ofendo com isso. — aponto para mim mesma. — Sou meio-elfo.
— Você tem histórico de provocar homens poderosos. — Estebán comenta. — Mas a mim? Foi de longe seu pior erro.
Inspiro fundo.
— Imagino que ela pretenda colocar uma flecha em cada um dos meus olhos e que você despache o que sobrar para o colo de Bophades... — digo, tentando manter a voz firme. — Mas um condenado pode fazer algumas perguntinhas antes da execução?
Nenhum dos dois responde.
— Eu sei que você está rastreando a Gladius Aeternum. — digo enfim. — Mas aqui dentro... no coração da montanha, e esse ferro frio... isso cortaria a conexão?
— Não. — responde Estebán.
Uma pausa.
— Esse era o plano? — Estebán se permite rir. — Achava que meu vínculo era tão fácil de ser desfeito?
— Não o meu plano. Só fui na onda. — Engulo em seco. — O plano é da Gladys.
— Quem é "Gladys"? — Àquela franze a testa.
— Blunt... — abaixo as mãos. — Acho que a Gladius Aeternum está jogando com todos nós.
Os dois permanecem em silêncio.
— Ela mentiu para Bentho diversas vezes.
— Impossível. — Estebán rebate. A "mão mágica" pairando ao seu lado perde parte da tensão. — A Espada do Pacto obedece ao portador. Ela oferece aquilo que seu coração deseja. Não possui agendas próprias.
— No começo eu achei que era você controlando a espada em algum jogo doentio. — Confesso. — Mas Bentho e a gente passamos por coisas...
Procuro as palavras.
— Coisas que você jamais permitiria que acontecessem com seu próprio filho.
O olhar de Estebán muda.
Só um pouco.
— Como o Eyespy? — Ele deduz. Cruza os braços. — Sim. Eu também estranhei isso.
— Não acredite nela... Nele! — Àquela rosna. — Mentir sempre foi a especialidade dessa ... Coisa!
— Eu não posso contar isso ao Bentho. — Eu confesso. — Tudo o que eu digo, a espada pode ouvir pelo vínculo mental. E, se eu estiver certa, ela pode reagir.
Respiro fundo.
— Vocês dois são a minha única opção.
Àquela parece prestes a responder.
Mas Estebán segura o arco dela.
— Sabe o que isso significa "Amellie"? — pergunta o Senhor do Sombrio.
Ele dá um passo à frente.
— Quando Bentho descobrir...
Sua voz permanece calma e ameaçadora.
— Vai interpretar isso como uma quebra de confiança.
O silêncio pesa.
— Tão grave quanto a minha. — Ele enumera. — Tão grave quanto a de Àquela.
— O quê? — Àquela se vira para ele, chocada. — Você não está sugerindo isso, está? Isso não faz sentido!
— Tem certesa, Àquela? A espada só obedece um dos bruxos. — diz Estebán olhando meus olhos. — Certamente não é a mim que ela escuta.
Uma pausa.
— E Bentho parece ser apenas um instrumento. Morro morreu aos meus pés. Todos os meus antecessores mortais se foram.
Meu estômago afunda. Eu entendo o que ele sugere.
— Apenas um teria autoridade sobre aquela arma acima da minha... ou da de Bentho.
}}}O Presente.{{{
Quando Bentho perguntou se Gladys podia "rastrear" Estebán, ela respondeu que não podia "ajudar com isso". Não que "Não podia rastrear". Acho que ela pode, mas não vai nos ajudar.
A diferença importa.
Ela quer Estebán por perto por algum motivo. Próximo para nos seguir, mas longe demais para interferir.
A única vez que chegaram próximos o bastante, em Hálcora, foi porque Àquela se adiantou, longe dele. Aquilo a surpreendeu.
Hoje: Eu consegui uma pequena vantagem negociada, uma hora de dianteira, mas a perseguição deve seguir normalmente. Eles podem nos alcançar, e seremos inimigos como esperado. A espada quer distância. Mas não quer perder contato.
Bem... Quando Bentho descobrir que agi pelas suas costas, estará tudo acabado.
A Ledgyão.
Janete Quá.
Tudo isso.
Eu queria uma história inédita.
Algo novo para contar a vocês.
Ainda temos alguns capítulos.
Oponentes impressionantes.
Visitantes ilustres.
Mas algumas histórias já sabemos como terminam.
Só os personagens ainda não perceberam. A Mocinha e o Protagonista não vão ficar juntos no final.
Deixamos para trás mais ouro do que qualquer um de nós carregaria em uma vida inteira. Tesouros esquecidos por quase vinte anos. A montanha podia ficar com eles.
Xitarro girava o bastão enquanto caminhava na frente. Bentho seguia entre nós dois.
Silencioso.
Pensativo.
Feliz.
Foi como no Navio de Lizzo, ou quando nos reencontramos em Huo-fen. Ou quando ele entrou para as minhas "Aulas de Ópera" dois anos atrás.
A luz da lanterna desaparecia aos poucos atrás de nós.
O cofre tornou-se apenas mais uma sombra entre milhares.
Mais uma porta fechada.
Mais um segredo enterrado.
— Então... — Xitarro quebrou o silêncio. — O guaxinim tinha um nome.




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