Há pouco menos de 1 dia atrás...
O PACTO DA MONTANHA MORTA
Amellie limpa uma poeira invisível de seu ombro, caminha em um semicírculo perfeito — dominando o espaço como se estivesse em um palco — e para diante do casal. Ela respira fundo, assumindo uma expressão grave, quase fúnebre.
— Eu sei da sua posição de respeito e prestígio na comunidade de vilões, Estebán... — ela começa, a voz séria, solene. — Mas não tem jeito. Eu preciso te informar uma coisa terrível, e não tem forma gentil de revelar: Seu filho é... **Uma boa pessoa.**
Estebán pisca, pego de surpresa pela gravidade do tom. Àquela suaviza a postura, confusa. Amellie gesticula com as mãos, dramatizando o fardo.
— E não me olhe assim, ele está profundamente confuso com isso também! O coitado tenta. Por Bophades, como ele tenta! Você precisava ver ele em Hálcora... Ele colocava aquela armadura medonha, tentava andar como um Tirano Sombrio, projetava a voz para parecer um ceifador de almas e... imediatamente parava para salvar um gatinho preso na árvore. Ele recitou um poema para o gato, Blunt! Um poema gótico, mas ainda assim, um poema!
Amellie dá mais dois passos, os olhos semicerrados, e subitamente gira nos calcanhares. Ela estende o braço, apontando um dedo acusatório diretamente para a arqueira.
— E quer saber? Eu não culpo você, Blunt. Você é um profissional do mal, tentou dar o seu melhor. Eu culpo... ELA! — Amellie semicerra os olhos para Àquela. — Ela e sua má... boa influência. Você estragou o garoto com essa sua mania de ter empatia e senso de justiça.
Àquela morde o lábio, tentando segurar um riso genuíno, enquanto Estebán cruza os braços.
— Uma... boa pessoa? — Estebán resmunga — Há alguma lição nesta performance?
— O que todo "herói" sabe fazer bem? — Amellie faz, desfazendo a performance. — Frustrar as expectativas de vilões. Entram em masmorra sem pensar... Masmorras desenhadas para sua destruição... passam uns apertinhos mas saem do outro lado.
Estebán suspira. O receio em sua voz é real.
— Eu não temo que enfrentem monstros. O que temo é uma situação para a qual ninguém consegue se preparar. Que vocês estão assumindo dali para frente é insano. Se nos afastarmos demais, e Gladius Aeternum armar uma situação de vida ou morte... vocês podem não ter como voltar.
Amellie amolece o olhar por um breve segundo, a barda dando espaço à amiga.
— Nós vamos conseguir. Confie no seu filho. Ele é teimoso como o pai, mas infelizmente para os seus planos de dominação mundial... Ele tem um coração heróico, e toda a maldita sorte que vem com isso.
🏔️ O Presente (Cerca de 24 horas após O Pacto)
A poeira da avalanche ainda flutua no ar confinado do túnel. O silêncio que se segue ao teste de Estebán é absoluto.
Àquela, que havia cochilado por alguns minutos de pura exaustão emocional escorada na rocha, acorda sobressaltada quando o vilão a toca de leve no ombro.
— Àquela... — a voz dele é um sussurro instável. — Eu não sinto mais. A ligação... sumiu. Não sinto mais a presença da espada sob as pedras.
O rosto da arqueira empalidece. Um momento de desespero cru toma conta de seus olhos, as lágrimas ameaçando transbordar diante do pior cenário possível. Ela abre a boca para gritar pelo filho, mas Estebán a segura pelos ombros, impedindo-a de desabar, e se desculpa rapidamente:
— Não, espere! Me desculpe, eu me expressei mal! — Ele limpa uma lágrima do rosto dela antes de se formar, os olhos dele brilhando com uma percepção avassaladora. — Isso não significa que eles estão mortos... Significa que eles não estão mais neste plano, sobre as pedras! De alguma forma, eles escaparam da Montanha Morta!
Àquela solta o ar, o peito subindo e descendo, assimilando o milagre.
— Isso é... Impossível, não é?
Estebán se afasta um passo, olhando para a parede de rocha maciça compactada. Seu rosto passa por uma transição bizarra: ele começa a sorrir, o alívio de pai transbordando em seu peito, mas logo em seguida suas sobrancelhas se curvam na velha e familiar expressão de Lord Blunt. Os punhos se cerram. A fúria do vilão arrogante assume o controle.
— Eu calculei a engenharia do Salão para ser um colapso tectônico absoluto! — ele esbraveja para as paredes de pedra, misturando uma risada histérica de satisfação com uma indignação profissional genuína. — Era uma equação perfeita! Ninguém deveria sair dali vivo! E eles simplesmente... ignoram a física e pegam um atalho dimensional?!
Ele chuta um pedaço de cascalho, frustrado de um jeito quase cômico. Ainda segurando uma gargalhada
— Vocês, heróis... — Ele pausa apontando para Àquela satisfeito. — Vocês são... frustrantes!
Àquela pisca, estupefata. É a primeira vez que ela ouve Estebán usar aquela palavra para se referir ao filho. E, ao olhar para ela com aquele misto de fúria e resignação feliz, ele reconhece a mesma natureza nos olhos da esposa.
— Meu deus, Amellie estava certa! — Àquela realiza. — E você também tem razão! É frustrante! Um alívio, mas inconcebível!
— Não temos mais tempo a perder aqui. Khao já vai chegar. — Estebán recuperando o pragmatismo. — Falta uma breve escalada para deixarmos a montanha, e então, aguardar Amellie contactar ou a espada retornar para decidirmos o que fazer. Precisamos ir embora antes que nos cerquem.
Eles recolhem os mantimentos rapidamente, preparando-se para bater em retirada pelas sombras. Eles não fazem a menor ideia de como o trio operou aquele milagre místico, e muito menos onde eles foram parar, mas enquanto se esgueiram para fora da masmorra... Deveriam se preocupar. Não estavam mais no encalço como antes. Sem poder rastrear o grupo pela espada.
Àquela olhou para o corredor da montanha mais uma vez.
— Sabe... — ela hesitou. — Acho que eles vão dar um jeito.
Estebán permaneceu em silêncio por alguns segundos.
Então sorriu de canto.
— Também acho.
Começa o sub-arco: A MANSÃO PERPÉTUA DE CYRAK.
Quando a lâmina de Gladius encontrou o limite da película, não houve som de impacto, apenas o estalo ensurdecedor de uma realidade sendo rasgada como papel de seda. No milissegundo seguinte, o peso de toneladas de rocha sumiu... e nós caímos para cima.
Eu abri os olhos e a primeira coisa que me atingiu foi a cor. Não era a escuridão do subsolo, mas uma vastidão infinita e pulsante em tons de rosa-choque e rubro-neon que feriam a retina mesmo com os olhos fechados, como se estivéssemos flutuando dentro do estômago de uma divindade cósmica muito brega. Não havia norte, sul ou gravidade; éramos apenas três corpos à deriva em um oceano de nada.
O silêncio ali era uma mentira. Quando tentei respirar, notei que nossas vozes produziam ecos claustrofóbicos e abafados, ricocheteando a centímetros das nossas orelhas, como se o universo inteiro tivesse o tamanho de uma cabine telefônica — mesmo estando uns bons quatro metros afastados um do outro, ligados por uma corda providencial que funcionava como um cordão umbilical.
— Estão todos inteiros? — minha voz soou estranha, colada ao meu ouvido.
Um desfile flutuante de detritos que parecia a lixeira esvaziada por um furacão tentava nos distrair em órbitas preguiçosas: folhas de papel em branco, garfos de prata retorcidos, guarda-chuvas abertos e poltronas velhas. No centro daquela sucata dimensional, erguia-se a estrutura exótica. Uma mistura de torre acadêmica com uma estufa alongada. A "mansão de Amellie".
Xitarro apenas observava a cena, girando lentamente de cabeça para baixo no ar por falta de apoio.
— Xííí... — Ele estendeu as mãos, fazendo seu bastão crescer até se transformar em um cajado de pouco menos de dois metros. — Não é como cair, nem como água...
Ele acionou o Bastão Imovível. Num instante, o felino tornou-se um ponto fixo, um porto seguro na imensidão. Senti a corda esticar e, com um leve estalo, Amellie e eu começamos a flutuar na direção dele, sem peso. Agarramos o cajado, sentindo o primeiro princípio de estabilidade.
— Consegue alcançar em um pulo só? — perguntei, encarando a distância até o pórtico.
— Sozinho? Talvez... — Xitarro estreitou os olhos, fazendo cálculos felinos. — Mas o peso morto de vocês bagunça a trajetória.
— Não vamos fazer tudo de uma vez — interveio Amellie. — Vá dando pequenos pulinhos e acione o bastão para pararmos e corrigirmos o vetor.
— Meu bastão tem cargas limitadas — resmungou o monge. — Não devia ter gasto energia "demonstrando" lá na barraquinha...
— Xitarro... — chamei sua atenção. — Nós não temos peso. Você não pode nos "atirar" como fez com o carrinho em Hálcora e pular atrás?
O catfolk tateou o ar e pescou um objeto flutuante estranho. Lembrava uma chave, mas tinha uma capa de plástico preto onde se lia "Toyota". Ele fez um arremesso de teste e viu: O objeto viajou em uma linha sutilmente curva na direção da estrutura.
— Acho que é menos difícil do que pensei. As coisas caem na direção da mansão... uma gravidade residual. Vamos fazer o que Bentho disse. Se abracem, preciso arremessar os dois como um único bloco.
"Abraçar"? Eu realmente não estava preparado para aquela dinâmica de grupo.
Como sempre, Amellie tomou a iniciativa. Sem a menor cerimônia, ela encolheu o corpo e envolveu meu tórax, encaixando a cabeça embaixo do meu braço. Respirei fundo, completando o abraço desajeitado. Perdemos o contato com o bastão. Voltamos a flutuar.
Xitarro usou os pés para se firmar na arma imovível. Colocou as duas mãos espalmadas nas minhas costas, mirou o pórtico e deu o impulso. Nos afastamos lentamente. No vácuo, ele conseguiu se agachar no nada, dar um microimpulso com a ponta dos dedos enquanto destrava e recuperava o bastão em um movimento fluido. Foi um pouco imperfeito — a corda deu uma fisgada seca na minha cintura — mas nossa trajetória estava estipulada.
O problema é que, à medida que nos aproximávamos do monólito... a física do Vazio cobrou o preço. Nossos fluidos internos começaram a zumbir. Estávamos acelerando. Rápido demais. Sem um chão ou o vento batendo no rosto, a falta de referência nos impediu de notar o perigo até ser tarde.
— A-Acho que podemos dar uma reduzidinha... — comentei, o pânico subindo pela garganta. — Xitarro, pisa no freio com o bastão!
O monge ultrapassou nosso bloco flutuante pela corda, fincando as duas mãos na arma, esperando o travamento estático que nos salvaria. Ele clicou o botão. Nada aconteceu.
— Não está funcionando! — ele gritou, o pelo da cauda totalmente eriçado. — Acho que ele não carregou direito!
O pânico virou coral. Começamos a gritar em uníssono. A mansão crescia na nossa visão a uma velocidade suicida.
— Espere... não temos peso! — raciocinei no desespero. — Qualquer força deve ajudar! Gladys!
— [Lembrou de mim, Bentho?] — a voz ecoou, cínica, na minha mente.
— Dá uma freadinha no ar, como você fez na caverna!
— "Freada" na caverna? — Amellie exclamou, esmagada contra o meu peito.
— [Se eu conhecesse alguma "Gladys" talvez eu pedisse a ela...]
— Gladius Aeternum, a Espada do Pacto! — resmunguei, os dentes travados. — Não é hora para crise de identidade!
A lâmina manifestou-se na minha mão direita e, respondendo ao meu comando, começou a "ganhar peso" magnético e místico na direção oposta ao nosso movimento.
O impacto cinético nos separou. Xitarro e Amellie se soltaram de mim, sendo jogados para as pontas da corda. Senti o estresse absurdo nos meus braços; a empunhadura de Gladys vibrava violentamente sob o peso fictício de três corpos tentando dobrar a inércia do Vazio. A espada deu dois solavancos brutais — breves correções de curso que quase deslocaram meus ombros. Estávamos alinhados perfeitamente com o pórtico da frente.
Gladys reduziu consideravelmente nosso descontrole, mas o freio não foi suficiente. Ainda íamos nos esborrachar como insetos contra as portas duplas de madeira...
... Até que elas se abriram de repente.
Voamos para dentro do salão principal. O impacto que deveria ter quebrado minhas costelas foi absorvido por um imenso e macio sofá de veludo capitonê, que havia sido estrategicamente amarrado a duas pilastras com cordas grossas. O estofado rangeu sob o peso, os nós seguraram a pressão e nós afundamos na mobília em uma pilha confusa de membros, armaduras e respirações arfantes.
— Obrigado, Gladys... — balbuciei, sentindo meu elmo girar na cabeça.
— Agradeça à senhorinha também... — Xitarro comentou ao meu lado, massageando o focinho.
— Que senhorinha? — Amellie perguntou, desfazendo-se do nó da corda.
Eu e a barda erguemos as cabeças, olhando para o interior daquela casa desconhecida. Foi aí que o meu ar que pegou no tranco sumiu de novo.
Em uma luz violácea e fantasmagórica, estendia-se a figura que nos aguardava. Ela parecia ter por volta de uns 70 anos, pairando sobre nossa humilhação como uma gárgula elegante e implacável. Seu olhar carregava uma severidade cirúrgica, gélida, daquelas que pesam nos ombros de quem recebe. Vestia um sobretudo pesado num tom de carmesim tão escuro que parecia sangue envelhecido sob as sombras arroroxadas do casarão, contrastando com um vestido cinza austero. Um broxe brilhava em seu peito, e um véu preto caía de sua cabeça como a própria noite.
Sustentando o corpo imponente sobre uma bengala de madeira escura e retorcida, ela nos encarava. O mais assustador, porém, era que ela não parecia nem um pouco surpresa com três adolescentes armados caindo do céu direto na sua sala. Ela já sabia.
— Essa não... — Amellie resmungou de repente, todo o seu glamour escorrendo pelo estofado do sofá.
— Q-Quem é ela? — sussurrei para a barda, sentindo um arrepio na espinha.
— Meu pior pesadelo... — Amellie afundou o rosto no veludo, completamente derrotada. — Uma das viúvas de Cyrak.
Mas a vergonha durou pouco. Recuperando o orgulho num estalo, Amellie levantou-se com elegância e disfarçou o desconforto com a maestria de uma atriz, torcendo para que a velhaca não tivesse percebido seu colapso milissegundos antes.
— Ei... é você! — Amellie abriu um sorriso radiante, dando um passo à frente. — Há quanto tempo!
A senhora nem piscou. O silêncio no salão era quase audível.
— Você não sabe quem eu sou, não é? — a voz da anciã ecoou, cortante como uma navalha.
— Claro que sei quem é você... amiga! — Amellie deu uma risadinha nervosa, gesticulando no ar. — Acho que você é quem não sabe quem...
— Eu sei quem você é. E sei exatamente quem você finge ser.
O sorriso de Amellie murchou um milímetro. Seus olhos correram para mim e para o Xitarro, buscando socorro brevemente.
— Eu... deveria... — gaguejou sutilmente, perdendo o chão.
— Supor a pior informação possível? Sim — a velha senhora completou, movendo os olhos lentamente em minha direção, como se as duas falassem em algum código antigo. — E agradeça por eu não ser mais óbvia!
— Bem, você me conhece, eu conheço você, não precisamos mais de... — Amellie tentou contornar, já engolindo em seco e girando nos calcanhares para dar as costas.
— Diga meu nome, Amellie! — a voz da senhora chicoteou pelo salão, fazendo minhas placas de armadura vibrarem. — Sem rodeios.
— Ah, mas você pode se apresentar tão bem...
— Amellie?! — Xitarro se aproximou de nós, caminhando calmamente pelo chão firme. — Eu poderia jurar que você não faz a menor ideia de quem seja essa senhora.
— O quê?! Nããão! — Amellie exclamou, desesperada, a máscara caindo por completo. — Ela é... Eh...
— A pior coisa que aconteceu a Cyrak. — a idosa interrompeu, batendo o cajado no mármore com um estalo seco. — Isso ajuda a lembrar?
Amellie estreitou os olhos para as rugas da idosa, semicerrando as pálpebras. De repente, uma lâmpada pareceu acender em sua cabeça — a engrenagem errada, claramente, misturando as memórias distantes da derrocada de seu próprio passado. Ela levou as mãos à boca, chocada.
— Ydal Bearlord?! Você envelheceu rápido demais, criatura!
A senhora cruzou os braços, bufando de uma fúria tão genuína que sua própria aura pareceu faiscar em tons de roxo ao redor do sobretudo carmesim.
— Eu... SABIA... que você estaria aqui e agora! — a idosa resmungou entre dentes, os nós dos dedos brancos de raiva ao redor da bengala.
Ela girou nos calcanhares com uma imponência assustadora e começou a mancar mansão adentro, o som ritmado do cajado batendo contra o chão ecoando firmemente pelo corredor escuro.
Amellie desabou os ombros. A ficha finalmente caiu, trazendo uma vergonha mística e avassaladora à tona. Ela cobriu o rosto com as duas mãos, soltando um gemido abafado.
— Galera... — ela falou enfim, completamente contrariada, cabisbaixa e com a voz derrotada. — Essa é Madame Morgan... a irmã do Mago.
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