A montanha continuou rugindo, ecos da avalanche.
Não era mais um desabamento, mas um animal colossal terminando de respirar.
Pedras menores ainda desciam pelas encostas, ricocheteando umas nas outras antes de desaparecer no vale.
Três quilômetros adentro, pelos corredores, minas e salões esquecidos, a vibração alcançou Estebán e Lady Àquela.
Os dois aceleraram o passo.
Aquilo não parecia um acidente.
— Estebán... — perguntou a arqueira. — Alguma armadilha?
— Não...
A resposta saiu rápida demais.
Não havia nenhuma armadilha naquele trecho.
Pelo menos... nenhuma.
Nos primeiros dias como Lord Blunt aprendera que fortalezas raramente caíam para invasores. Quase sempre caíam para seus próprios ocupantes. Hobgoblins obedeciam. Orcs, mercenários e homens, nem sempre.
Foi por isso que construiu o Salão da Derradeira Paz.
O aposento mais confortável de toda a masmorra.
Também o mais mortal.
Bastaria um único comando para fazer a montanha inteira desabar sobre quem estivesse ali.
Mas era impossível.
Não bastava conhecer o mecanismo. Era preciso reunir uma sequência de condições que só ele dominava.
Gladius Aeternum poderia descobrir o gatilho?
O restante...
Não.
Não havia como.
Caminharam mais um quilômetro.
A poeira engrossava o ar. Fragmentos de rocha ainda caíam do teto. Cada passo trazia um novo tremor, menor que o anterior, mas suficiente para lembrar que a montanha ainda se acomodava.
Estebán parou de procurar explicações.
Restava apenas uma.
Alguém havia fechado o Salão da Derradeira Paz.
— Beba, Bentho.
Abri os olhos sem entender onde estava.
Amellie segurava um frasco vazio. O gosto amargo ainda estava na minha boca.
Limão? Não...
Poção de cura.
A avalanche!
Sentei num salto. Conjurei Gladys por instinto.
— [Seu idiota! Você resolveu se matar junto?] — Ela berra para mim.
— Calma! — Xitarro ergueu as mãos para me acalmar. — Você abriu a cabeça. Espere a porção fazer efeito!
Ele estava sentado sobre um cobertor, desfazendo um torniquete improvisado na própria perna. Ao lado dele, dois frascos vazios de poção.
A perna parecia quase normal.
Olhei em volta. A lona vermelha envolvia tudo. Havia tapetes no chão, uma chaleira soltando vapor num canto e um saco de dormir tão largo e macio que mais parecia uma cama.
Era... aconchegante. Espaçosa...
Muito aconchegante. Até elegante.
Agora eu entendia por que Amellie nunca deixava ninguém entrar ali.
— Onde estamos?
— Na minha barraca. — ela respondeu baixinho.
Franzi a testa.
— ... Não.
Apontei para o teto.
— Estamos soterrados?
— Tecnicamente... — ela mordeu o lábio.
— Mostra pra ele. — interrompeu Xitarro, cruzando os braços.
Amellie suspirou como quem aceitava uma sentença. Abriu a lona da entrada. Do lado de fora... rochas. Só rochas.
Uma parede cinzenta compactada onde deveria existir um mundo. As rochas pressionavam a barraca por todos os lados. Mesmo assim...
Nenhuma delas entrava.
Ali dentro fazia uma temperatura agradável. O ar era limpo, e nem poeira havia.
Fechei a lona devagar. Assombrado.
— ... — Olhei para Amellie. Eu abri a boca e gesticulei... mas NADA saiu de minha boca.
— Eu posso explicar. — Ela ergueu um dedinho.
— Espero sinceramente que possa. - Xitarro resmunga... Nunca o vi agindo assim.
Ela coçou a nuca.
— Lembra quando atravessamos o pântano?
Xitarro respondeu antes de mim.
— O das moscas.
— Isso.
— Das sanguessugas.
— Isso.
— Dos zumbis.
— Isso.
Ele apontou ao redor.
— E aqui dentro tava quentinho e cheiroso.
— Desculpa. — Amellie baixa o semblante.
— Eu fui picado em lugares muito pessoais. — Xitarro insiste.
— Eu sei... — Ela cobriu o rosto.
Respirei fundo.
— Então... — eu insisti que ela confessasse.
— Então… todas as vezes que acampamos... Eu conjurava uma Tiny Hut dentro da barraca. — ela explica. — Minha magia mais poderosa.
— Antes de qualquer coisa... isto é incrível. — Apontei para a lona. — Agora...
Cruzei os braços.
— Vamos conversar sobre a parte em que você nunca compartilhar.
Ela apertou as mãos uma na outra.
— Sabe quando você conhece uma pessoa... E não sabe se a amizade vai dar certo...
Assenti.
— ...aí você esconde uma coisinha. Só por garantia.
Continuei ouvindo.
— Depois... dá tudo certo.
Ela sorriu, constrangida.
— Só que aí passou tanto tempo que contar a verdade parece muito mais estranho do que continuar escondendo.
Olhei para Gladys.
Xitarro ainda parecia processar a injustiça das moscas.
Então respondi:
— ... Eu sei exatamente como é. — Eu respondi enfim. — Está tudo bem.
Amellie sorriu, aliviada.
Ela achou que eu estava falando da magia.
Não estava.
Porque eu também escondia uma coisinha. E, a cada dia que passava... Parecia tarde demais para contar.
O antigo salão da Derradeira Paz agora era apenas uma parede de pedras comprimidas.
O túnel havia desaparecido.
Lady Àquela passou a mão pela superfície irregular. Segurando o fôlego, temendo colapsar em choro se o soltasse de vez.
— Não sobrou entrada.
Estebán não respondeu. Fechou os olhos. Procurou.
Sob toneladas de rocha... uma presença.
Inconfundível.
Gladius Aeternum. Ela estava lá. Alguns metros à frente. Fazia quase dois meses desde a última vez que ele a ergueu, para salvar Bentho.
Seu coração acelerou.
— Encontrou alguma coisa? — Àquela percebeu.
Ele assentiu devagar.
— Gladius.
A arqueira respirou aterrorizada.
— Então Bentho... O que isso significa?
Estebán ergueu lentamente a mão.
Pela primeira vez em muitos anos...
Estebán intimamente rezou para fracassar.
— Gladius Aeternum.
Eu sou Lord Blunt.
Décimo Terceiro Portador.
Venha.
O silêncio respondeu. A espada não veio.
Durante um segundo inteiro, Estebán apenas permaneceu imóvel.
Então soltou o ar que nem percebera estar prendendo.
— Graças a Aetíades...
Àquela franziu a testa.
— Você... Queria que ela não viesse?
— Se Gladius me reconhecesse, seria porque o Décimo Quarto teria perecido...
Ele abriu os olhos.
— Então Bentho ainda está vivo. — Estebán se senta, exausto.
Àquela retirou a pequena esfera mensageira do bolso.
— E Amellie?
Estebán balançou a cabeça.
— Se ela pudesse responder... já teria respondido. — Ele permite-se relaxar. — Ou não pode, ou não é conveniente para nosso complô, indicando algum controle da situação, mesmo que nós dois não concebamos "como".
Ela guardou a esfera outra vez.
Os dois voltaram a encarar a montanha.
Silêncio.
— Então abra um caminho. — disse Àquela. — O que está esperando?
Estebán apoiou a mão na pedra.
Sentiu seu peso.
Sentiu suas fraturas.
Sentiu os vazios escondidos em seu interior.
E retirou a mão.
— Você consegue! — Incentiva a esposa.
— Não é isso. Consigo até destruir esta montanha. — Olhou para a arqueira de forma pesarosa. — O problema é que Bentho pode estar do outro lado da primeira rachadura. Ou em um vão instável que colapsaria. Estou cego quanto a isso.
Àquela compreendeu imediatamente. Qualquer golpe errado... Seria o último.
— Precisamos encontrar o vazio antes da pedra. — Àquela observava as microfrestas.
Estebán fitou o maciço à frente.
— Precisamos de... Alguém que conheça a língua da rocha e sua natureza. Alguém com mente analítica e bons instintos... — O marido dá com os ombros. — Precisamos de alguém que saiba "ler" uma montanha.
Àquela completou:
— Como Rhoy. — ela concluiu também.
— ... E só nós dois não podemos mover com segurança essas pedras. — Estebán olhava para o chão com impotência. — E precisamos de mais mãos, em especial, fortes o bastante para remover toneladas de rocha sem derrubar o resto.
Silêncio.
Os dois permaneceram calados.
Porque ambos já sabiam.
— Khao.
— ...e os Tenentes.
Àquela sorriu de lado.
— Vai ser humilhante.
— Vai. — Estebán também sorriu. Ele olhou uma última vez para a montanha. — Eu vou engolir meu orgulho e me submeter, se isso os convencer ... Nos ajudar a salvar Bentho.
— Nós dois vamos. — A arqueira concorda. — Eu devo buscá-lo… Ou você?
— Ele suspeitaria de armadilhas, e não nos ouviria. — Estebán debruça-se sobre seus joelhos. — Melhor que chegue aqui e nos veja. Eles estavam em nosso encalço, devem chegar em breve.
— Bem, me diga COMO você tem magia para ERGUER uma montanha?!? — Xitarro abriu um buraquinho no teto da lona e tentou empurrar as pedras para cima.
— Não é a lona que faz o Tiny Hut. — Amellie explica. — Bardos usam magia da Palavra da Criação. Eu... a partir de um ritual bem complicado, puxo um "cobertor" feito da "Película do Vazio"...
— Um ... O que?!?
— É complicado explicar para leigos... — ela balança a cabeça. — Bentho... quer ouvir?
— Desculpe... — Eu me explico. — Gladys estava dizendo "não se preocupe nós vamos ficar bem"... Mas acho que ela falava para a Armadura, já que nós vamos morrer de fome e/ou sede em alguns dias, e eles não...
— Bem, Bentho esteve no vazio comigo, quando o Eyespy nos fez desaparecer...
— "Eyespy"?!? — Xitarro estranha.
— O Beholder — Amellie resmunga. Não era um beholder, mas o catfolk parecia não aceitar isso.
— Ah...
— Então... Pense... — Ela puxa um tapete. — Que nosso mundo é esse tapete... Todas as dimensões, tempo, espaço... Eu faço uma breve curva deixando uma camada ínfima de "nada" como a barreira de uma tenda.
— E você pode nos mandar para o "vazio", já que pode "dobrar" essa barreira?!? — Eu pergunto.
— Um dia, talvez... — ela fala com nostalgia. — Hoje eu não tenho tanto poder assim... E acredite: Por que iríamos para o...
— Eu vi a mansão duas vezes — Eu sorrio.
— A Mansão?!? — Ela estala o dedo. — Sim, a minha Mansão está lá fora! Acho que me segue, está sintonizada a mim!
— Ah, agora você tem uma mansão?!? — Xitarro protesta. — Ficar no pântano está se tornando inaceitável!
— Eu... — Amellie parecia escolher as palavras. — Não criei a mansão. Nem tenho mais poder para acessá-la. Mas, bem, ela responde a mim se acessar... Posso explicar outro dia. Mas não temos como alcançar o vazio...
— "O Vazio"? — eu pergunto. — Aquele lugar que o Eyespy nos mandou? Eu ... Acho que posso...
Xitarro e Amellie olham para Bentho.
— Quando fiz o juramento com Katzophlis, ganhei um novo Smite. — explico. — "O Smithe de banimento". Excelente para mandar demônios e aberrações embora, mas nunca imaginei fazer turismo da paulada. Quem eu atinjo é enviado para o vazio, e depois eles ressurgem no inferno de onde eles vieram. Claro, preciso bater em vocês com uma arma... Estou fazendo "brainstorm" aqui.
— Não ia funcionar, mesmo se não fosse um problema ter a "Espada Negra de Lord Blunt" atravessando nossas cabeças... — Amellie comenta.
— Pode ser outra arma… — insisto. — Estou jogando idéias para ver o que cola…
— Não é isso... — Amellie resmunga. — Nós três somos desta dimensão. Mesmo se sobrevivêssemos ao ataque, iríamos para o vazio por alguns instantes, e voltaríamos para cá logo em seguida... Ou pior: em um lugar já semicolapsado.
— Amellie... — Xitarro olha ao redor. — Você não disse que esta "barraquinha" vem do vazio?
A barda ia responder, mas olha para o ritual. Olha para mim e Gladys. Seus olhos subitamente brilham.
— Xitarro... Acho que você achou um loophole herege na palavra da Criação!
Ela se estica até uma composição ritualística de cristais e pó de coral.
— Caramba, nós vamos extrapolar uma quantidade irresponsável de regras, apelar para o "Rule of cool"... — Ela estava quase hiperventilando. — EU particularmente faço bem essa barraquinha, mas, quando estava aprendendo e ficava imperfeita, ela era quase física... bem, um alvo. E alvos...
— Podem tomar cacetadas minhas! — começo a compreender. — Mas e a gente?
— Estaremos DENTRO da barraca! — Amellie aponta. — Não somos o alvo, mas vamos ser arrastados para lá por estarmos na "barriga" dela! Mas vai ser violento...
— E a gente não conseguia nadar lá. — lembro. — Não teríamos um ponto de apoio... como...
Xitarro pega seu bastão, e liga o "travamento", fazendo-o fixo no vazio.
— Temos, sim.
— Na mansão talvez tenhamos como sair... E, se não tiver, teremos mais recursos lá do que aqui... e também mais tempo. Vamos trocar de prisões, mas há esperança!
— E pensar que... — eu comento. — ... Que, se não tivéssemos despistado meus pais e capitão Khao, ficar aqui seria melhor que à deriva no vazio... Algum deles poderia nos resgatar.
Amellie hesita um pouco.
— Mas eles não estão vindo, não é? — ela pergunta.
Eu ouço a espada.
— Gladys acha que não. Que o "Ferro Frio" despistou o "sentido Blunt".
— Bom saber... — Amellie resmunga.
Amellie sopra a poeira de coraline de Nova Ethiópia, e move os cristais alguns centímetros. Para mim, parecia pouquíssima coisa, mas eu sinto.
Os Olhos do Vigilante.
Entre a lona e a rocha havia uma película rubra. Quase um véu etéreo... Eu sabia o que precisava acertar.
Xitarro amarra nós três. Eu me preparo. Escolho um canto em que eu ficasse mais no centro da abóbada.
Ergo Gladius Aeternum. Amellie assegura que todos os nossos pertences estavam seguros, exceto a barraca de lona que teria de ficar para trás.
Eu suo um pouco...
Mas então ...
Ergui Gladius Aeternum.
Respirei.
Pela primeira vez...
Eu não queria acertar um inimigo.
Queria acertar uma barraca.
— Banishing Smite.
A espada desceu.


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