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29 de julho de 2026

EDGELORD - Cap. XIV - Arco da Montanha Morta

O PRESENTE


Chegamos a uma biblioteca. Na verdade, chamá-la assim era um elogio generoso — aquilo era um autêntico "Salão da Vaidade". As prateleiras abrigavam exclusivamente livros escritos por Cyrak ou tomos inteiros dedicados a falar sobre Cyrak. Quadros do bardo cobriam as paredes, muitos deles ao lado de suas famosas "conquistas". Pelos cortes de cabelo e estilos de roupas das acompanhantes, ficava claro que ele havia cruzado eras e terras distantes. Não sabíamos se havia ali alguma ordem cronológica ou uma hierarquia de preferência... mas notamos, sem precisar dizer uma palavra, uma mancha retangular e vazia na parede. O papel de parede rasgado identificava a retirada brusca de um quadro. Onde provavelmente figurava uma jovem Madame Morgan. Achamos melhor não comentar.

Logo em seguida, as espectras trouxeram um quadro enorme montado sobre rodas de rolamento, riscado com giz colorido. Nele, via-se um mapa meticuloso da Mansão, dividido em seus três níveis.

— Eu cortaria as portas próximas à entrada... — comentei, cruzando os braços. — Já que sabemos que é onde ficava a Cabaninha, daria direto no meio da avalanche.

— Acho que todo o andar térreo pode ser ignorado — observou Amellie, inclinando-se sobre o mapa. — Pelo que Gladys disse, estávamos perto da saída da montanha, mas, geometricamente, ela é mais larga embaixo do que em cima. Concordam?

— Hmm... O terceiro piso é estreito... Os andares mais baixos vão mais longe... Não dá para simplesmente eliminar um andar inteiro sem... O que é isso, Amellie?

Minha atenção se desviou do mapa para o livro de capa vermelha e sem estampa que ela manuseava. Parecia um manuscrito artesanal à primeira vista, mas o relevo prensado na borda do couro não enganava: era um tomo com o selo do Castelo Negro.

Não era um livro qualquer. Era um objeto com história, carregado de uma importância silenciosa que ressoava desde o Arco II.

— "O Devorador de Nomes" — disse ela, acariciando a lombada com uma mescla de nostalgia e respeito. — Seu pai me deu no tempo em que morei com vocês no Castelo Negro. Cyrak e Blunt já se conheciam na época, mas precisaram unir forças contra uma criatura... Uma espécie de Eyespy que tomou esteroides.

— E você vai deixar um tomo original do Castelo Negro aqui?!

— Claro que não — Amellie sorriu fraco, segurando o livro junto ao peito. — Mas Cyrak amava guardar histórias sobre si mesmo... E esta em particular o deixou tão empolgado, lutar ao lado de outra lenda, que ele sequer se lembrava dos detalhes reais. Blunt escreveu tudo em segredo. E como a Casa pode gerar e preservar uma cópia... veja.

Amellie pousou o volume vermelho sobre uma bandeja de prata no balcão.

Uma das espectras surgiu atrás do balcão e mergulhou as mãos translúcidas na capa como quem entra na água. A superfície do livro ondulou e um segundo exemplar emergiu entre seus braços. A fantasma acomodou a cópia na estante e sorriu.

— Viu? A Mansão guarda a cópia e a história não se perde.

Ela pegou o volume novinho em folha e me entregou, pegando o original da estante para oferecer a Xitarro.

— E você leia este. — A barda insiste. — Para conhecer um pouco de Cyrak... fora só o "Bardo tarado" que devem ter aprendido.

— Eu? — O felino pareceu genuinamente surpreso.

— Você é quem mais vai gostar.

Xitarro abriu o volume enquanto caminhávamos. Mal percorreu duas páginas e começou a comentar...

— O narrador fala muito rebuscado, e é quase clínico. Parece evitar qualquer adjetivo desnecessário... — Folheou mais algumas. — Mas quando Cyrak entra em cena, o texto muda completamente. Começa a florear. Frases mais longas, comparações poéticas. A impressão é que o pai do Bentho está tentando preservar a forma como ele falava. Eu acho que esse contraste cria um ruído narrativo, mas reforça que esse Cyrak era incapaz de falar normalmente.

Fiquei olhando para ele por um instante, alternando entre o livro e o felino. Aquela análise literária profunda foi um choque. E ver Xitarro dissecando a conduta de Cyrak daquela forma me lembrava o quanto o fantasma daquele bardo parecia infectar tudo ao nosso redor.

Olhei para a minha cópia e suspirei.

— Eu não consegui ler. — Dei com os ombros frustrado.

Amellie respondeu sem levantar os olhos do mapa:

— Não se culpe. A escrita do seu pai é densa mesmo.

— Não... — Balancei a cabeça negativamente. — Eu não consegui ler.

Virei o livro na direção deles. O silêncio na biblioteca caiu de uma só vez.



As páginas da minha cópia eram um caos. Cada frase usava uma caligrafia diferente; algumas letras cresciam até ocupar meia página, enquanto outras encolhiam ao tamanho de grãos de areia. Parágrafos inteiros faziam espirais e linhas atravessavam as margens, cruzando-se até desaparecer. Era como se a magia da Mansão tivesse desmontado a obra e colado as palavras no escuro.

Amellie puxou o volume das minhas mãos. Franziu o cenho, folheando mais duas páginas com urgência antes de olhar discretamente para a estante onde o original repousava. Eu conferi a cópia de Xitarro... a letra de meu pai era belíssima, quase uma prensa. Não podia ser mais diferente.

— Será que é alguma proteção de meu pai? — pergunto. — E funciona com pergaminhos?

— Eu... não sei dizer... — Amellie parecia frustrada. — Mas não, não replica pergaminhos.

— Falando nisso... — eu lembro. — O que era aquele que achamos no cofre da Montanha Morta?

— Um truque. — Amellie sorri. — Meio bobo mas bem prático... veja...

Amellie espalma a chave rubra. Coloca-a na palma da mão esquerda que estava completamente horizontal. Cobre com a mão direita e então gira os pulsos, fazendo a mão de cima trocar de lugar com a mão de baixo.

Ao abrir as mãos, a chave havia sumido.

— Hey! — Xitarro se assusta. Ele estava com a chave em suas mãos, quase cinco metros afastado de Amellie, e comigo no caminho.

— Chama de "Truque de Mãos". Não confundir com "Prestidigitação", que tem nome parecido em Élfico. — Ela diz, repetindo o gesto, mas com as mãos vazias, recuperando a peça. — Bom para pegar pequenas coisas, equipar itens, ao alcance dos olhos. Suspeito que funciona através de vidros e frestas, vou testar mais à frente.

— Tem algum "Laboratório arcano" aqui? — Eu pergunto.

Amellie volta a olhar o livro que estava na minha mão. Uma espectra o toma e leva para a estante.

— Vamos testar algumas portas antes. — Ela fala enfim. — Ala oeste, segundo piso.


— Este é meu quarto! — Xitarro declara.

Nós nos separamos de Amellie em algum momento. Achei um corredor de serviços, e uma série de portões de ferro... mas quando abrimos, parecia um jardim, ou um pedaço de uma floresta tropical.

— X-xitarro... — eu sussurro, tentando ser educado.

— É muito parecido com meu quarto na Ilha dos Gatos... Só menor. — Ele subia em uma árvore artificial, e depois pula até uma rocha. — Ei, olha só... — ele acha uma "gaveta" na pedra. — Isso é tira-gosto!

— Eu diria... "Ração"... — Comento. Eu caminho até atravessar a "selva" e encontro um vidro espesso que separava de um corredor mais arrumado, e outras como aquela, com vegetação ligeiramente diferente. — Isto é um zoológico, XItarro!

— Não! — Ele não parecia aceitar. — Vai ver esse tal de Cyrak só não era fã de privacidade. Essa janela aí é meio exposta...

— O que vocês dois estão fazendo?!? — Amellie surgia, do outro lado da "Janela". — Como vocês entraram aí?!?

— Eu achei um acesso estreito nos fundos. — Comento. — Vai ver as "peladonas" podem cansar de atravessar portas e paredes...

— Amellie... — Xitarroo parecia desafiante. — Pode dizer ao Bentho o que exatamente é isto aqui? EU digo que é um hotel!

— É um Menagerie! — Ela fala sem hesitar.

— A-ha! — Ele comemora, apontando para mim. — Ele falou que era um zoológico!

— Ele está mais perto do correto do que você. — Ela comenta. — Uma coleção de criaturas raras... mais um catálogo vivo.

O catfolk perde o ânimo.

— Então isto aqui não é decoração?

Ele afasta uma moita, revelando uma carcaça de ossos brancos limpos, quase cartunescos. O osso não estava quebrado. Não havia marcas de dentes. Não havia sangue, nem cheiro ruim.

Apenas... um animal que parecia ter simplesmente deixado de existir.

— Primeiro o livro, agora isso?!? — Amellie resmungou. — Não são animais de verdade, são cópias. E a casa deveria nutri-los... O "Devorador de Nomes"!

— O... O "Eyespy com esteroides"? — Me arrepiei da cabeça aos pés. — Tem um aqui?!?

Amellie parecia nem me ouvir. Ela começou a andar apressada pelo longo corredor, examinando os habitats do Menagerie um por um... até que perdeu o passo e começou a flutuar.

— Benthooooo! — ela gritou. O corpo dela começava a subir sem controle rumo ao teto.

O caminho pelo corredor de serviço seria demorado demais para contornar. Mas Xitarro pensou rápido.

Ele arremessou seu bastão com densidade máxima, partindo a vidraça espessa em mil cacos e nos dando um acesso direto. Eu corro na frente.

— Gladys, me ancore! — pedi rápido. — A gravidade maluca voltou!

Saquei a espada e corri atrás da barda. Em poucos passos senti meus próprios pés querendo deixar o chão; antes de perder o contato com o piso, dei um salto desesperado para alcançar a barra do vestido dela. Gladys percebeu a manobra, fincou-se firme e começou a nos puxar de volta para onde a gravidade ainda funcionava.

Amellie olhou para a ala oeste. Podíamos ver vasos e mobílias inteiras flutuando no ar, além da luz do exterior entrando muito mais forte do que deveria. Nenhum sinal de vida nos outros habitats.



Metade da ala oeste da mansão estava simplesmente inacessível — devorada pelo Vazio.



— Sim... — Madame Morgan coordenava com calma duas espectras enquanto ajeitavam o sofá que nos salvara na chegada. — A Mansão Permanente de Cyrak está morrendo.

— E quando pretendia nos dizer?! — Amellie se revoltou, os punhos cerrados ao lado do corpo.

— Eu ficaria preocupado em saber que uma mansão supostamente "perpétua" está morrendo... — Xitarro comentou, a orelha abaixada.

— Cyrak era a âncora desta criação... e Cyrak está morto. Não é verdade? — A anciã lançou um olhar profundamente insinuante para Amellie, desfrutando do silêncio tenso. — A ala Norte foi a primeira a ceder. Uma pena. O "Labirinto de Espelhos", onde qualquer um que olhasse via apenas o reflexo de Cyrak, era uma verdadeira obra de arte. Assim como o camarim dele, que conseguiu ser maior do que o próprio anfiteatro.

— Amellie... — Olhei para a barda, juntando as peças na minha cabeça. — Você, como a nova "dona" do legado dele... não pode fazer nada?

Amellie apenas encarou a anciã, o olhar pesado. Morgan soltou uma risada seca e zombeteira.

— Como o quê? Criar uma nova?! — A megera espantou com a mão a última espectra que arrumava as almofadas.

— Espera aí... — comentei, dando um passo à frente enquanto a lógica se desenhava na minha mente. lembrei da frase exata dela, até imitei a voz dela ao repetir, com razoável precisão. — "Você vai passar seus últimos anos aqui até encontrar três jovens. Um deles em breve será um Exemplar."

Morgan piscou, surpresa por um milissegundo:

— É... é algo que eu de fato disse.

— Eu sou multiclasse, o que me desqualifica na hora, já que Exemplares exigem pureza absoluta na sua arte — comecei, organizando os fatos com frieza. — Mas Amellie... Ela carrega a essência pura de Bardo, domina a teoria, tem o talento prático e, acima de tudo... não caiu na armadilha do ego. Enquanto Cyrak usava a magia para erguer estátuas de si mesmo e quartos de espelhos, Amellie usa o bardo para consertar estragos e cuidar do grupo. Se a profecia exige um purista em sua forma mais elevada, e alguém ultraqualificada... a próxima Exemplar só pode ser ela.

Madame Morgan, a lendária "Irmã do Mago", caiu na gargalhada.

Foi uma risada tão violenta e rasgada que temi que ela expelisse o próprio pulmão ali mesmo no tapete, como se eu tivesse acabado de proferir a maior estupidez de toda a história do continente.

Aos poucos, a crise de tosse passou. Ela se recompôs lentamente, ajeitou a postura na bengala e nos encarou com aquele olhar austero, frio e cruel que só cinquenta anos de amargura conseguem lapidar.

Então, ela decretou:


— Amellie Silverleaf JAMAIS será nem mesmo a sombra do que foi Cyrak!


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