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22 de julho de 2026

EDGELORD - Cap. XIII - Arco da Montanha

O casal subia as escadarias em passos rápidos, banhado pela luz violeta que atravessava os vitrais do patamar. Na mão da jovem, a chave de metal vermelho reluzia como uma promessa. Era mais do que um pedaço de ferro antigo: era o passe livre para os domínios mais íntimos do Menestrel.

Alcançaram o corredor do segundo piso, diante da porta dos aposentos principais. A jovem adiantou-se, alinhando a chave à fechadura enquanto se esquivava, em uma manobra calculada e provocativa, dos toques que o acompanhante tentava lhe roubar pela cintura.

Girou o metal. A porta continuou trancada.

— É para usar aqui, não é? — ela perguntou, ajustando a postura. — Não achei que entrar no quarto do bardo seria tão difícil.

— Só uma pergunta antes — o rapaz murmurou com uma calma sugestiva, dando um passo à frente. — Depois disso, a porta se abre.

A jovem estranhou a hesitação e tentou encarar os olhos evasivos dele. Foi quando notou o objeto que ele mantinha oculto sob o terno: uma bengala de madeira escura, elegante e curvada no topo.



— Para que isso? — perguntou ele, franzindo o cenho. Nem se deu ao trabalho de como conseguiu roubar a bengala dela sem ser visto.

— Ah, não é para agora — disse a garota, tomando o objeto da mão dele com um sorriso misterioso. — Mas, um dia, vou precisar dela. Quero que as pessoas comecem a associar essa peça à minha imagem.

— Meio mórbido para a sua idade, não acha? — ele provocou, tentando puxar a bengala de volta. Ela se esquivou com leveza e cravou a ponta de madeira no chão de mármore, apoiando-se com a elegância severa de quem treinava para o futuro.

— Essa será a "Madame Morgan" em breve — afirmou ela, erguendo o queixo, com uma postura austera, jocosa. — Agora... a porta.

— Está aberta.

Morgan franziu a testa. Virou a maçaneta e, desta vez, o fecho cedeu sem resistência.

— O seu controle sobre este lugar é... tão preciso assim? — ela desconfiou, entreabrindo a madeira.

— Quando se vive no Vazio, onde nada existe, o potencial de criação é ilimitado — explicou o jovem meio-elfo, ajeitando a gola com um charme estudado. — Uma pena que eu não consiga levar nada daqui para o mundo lá fora. Exceto a chave.

— E você quer mesmo me convencer de que tenho acesso livre a esta mansão? — Morgan provocou, cruzando os braços. — Que posso vir quando quiser e não terei surpresas?

— Eu prometo — ele respondeu sem piscar.

Era um mentiroso impecável. Morgan teria acreditado em qualquer outra circunstância, não fosse a sua própria natureza.

Ao empurrar a porta do salão, porém, a promessa ruiu imediata e comicamente. Duas figuras femininas e diáfanas surgiram flutuando pelo corredor. Morgan deu um salto para trás, sobressaltada pela nudez escandalosa das espectras.

— Opa! Perdão, perdão! — adiantou-se o rapaz, erguendo a mão rapidamente. Com um gesto teatral de dedos, a névoa mágica ao redor das servas se retorceu, esticando o tecido translúcido até cobrir-lhes o terno e o colo. Ele deu um sorriso sem-graça, dando de ombros. — É... o melhor que posso fazer.

Morgan encarou a mágica com um olhar de puro ceticismo. Ela sabia reconhecer um improviso desajeitado quando via um.

— Eu acho que as suas ideias de decoração são um tanto... peculiares — murmurou a jovem.

— Elas são apenas manifestações para a limpeza! — o bardo defendeu-se prontamente. — São imateriais, frias e sem personalidade alguma. Diferente daquele outro charlatão que constrói chatôs que duram vinte e quatro horas, esta Mansão é perpétua. Ela precisa de manutenção... e meu inconsciente acabou moldando essas servas assim.

As duas espectras flutuaram pelo corredor fora, ignorando a presença dos dois.

— Peço desculpas se foi desrespeitoso — ele emendou, suavizando o tom de voz para aquele tom aveludado que costumava dobrar reinos inteiros.

— V-vamos jantar primeiro? — Morgan tentou mudar de assunto, sentindo o ambiente esquentar. — Eu ainda tenho dúvidas e...

— Minha reputação a intimida, senhorita?

— Não... Digo... — Ela pigarreou, tentando recuperar a compostura. — Eu não estou aqui contra a minha vontade. E se isto vai ser um erro? Certamente. Você não vai deixar de ouvir do meu irmão... e nem eu.

— Eu ainda voto que Myrlen não precisa saber de nada disso — o rapaz piscou, dando meio passo na direção dela. — Mas a decisão é sua.

Morgan estacou, pensativa. O silêncio entre os dois pesou no corredor violeta.

— Só me prometa uma coisa... O que quer que aconteça aqui hoje — ela falou, a voz perdendo a afetação defensiva —, você estará aqui amanhã de manhã.

— Eu prometo — respondeu ele, sem receios, com segurança e naturalidade. — O Salão dos Banquetes está pronto. E sem espectras.

Ele era charmoso, atencioso e impecavelmente respeitoso. Mas era tudo um teatro. E Morgan sabia disso.

O erro dela não fora ceder ao charme do bardo, mas ter olhado para o futuro antes de subir aquelas escadas.

Morgan sabia que Cyrak não estaria ali na manhã seguinte. Sabia que a chave rubra que segurava na mão só voltaria a funcionar cinco décadas mais tarde, quando o grande Menestrel já não passasse de uma memória morta. Ela não buscava um companheiro, um casamento ou promessas eternas; queria apenas uma aventura sem consequências, convencida de que tinha o controle da situação.

Ela pretendia não se envolver.

Mas envolveu-se. E aquele único encontro desencadearia uma sequência de eventos devastadores para os dois.

O Presente

Eu, Amellie e Xitarro fomos até as portas duplas, as mesmas pelas quais entramos. Amellie ainda olhava por cima dos ombros. Madame Morgan nos encarava do alto das escadas.

A chave rubra encaixou na fechadura das portas duplas do foyer. O metal rangeu, a tranca cedeu, mas a madeira mal se moveu um centímetro. Pela fresta, só se via uma parede maciça de rocha escura e esmagada — o resultado da avalanche da Montanha Morta.

— Satisfeito? — Morgan perguntou, bebendo o resto do chá sem qualquer pressa. — Cyrak podia transitar por aqui como quisesse, mas a chave era um acesso com precauções. A mansão flutua no Vazio seguindo o proprietário, então usar portas é a forma mais segura de não sair embaixo de uma avalanche.

— Então você está presa aqui conosco? — Amellie provocou. — Ou só estava esperando a gente para escapar?

— E como você pretende escapar, Amellie? — a velha falou, com tom divertido.

— A casa, a porta... — eu tentava compreender a regra. — Ela tem uma "correspondência" física com o nosso mundo? Tipo: a parte da frente é onde estava a barranquinha, e por aí vai?

— A caverna colapsada era grande o suficiente para acomodar toda a mansão — Amellie comentou.

— Toda não, tem uma parte "fora" da montanha — eu comentei. — Quando eu... "me projetei" na direção de Katzophlis, eu olhei para baixo... vi a mansão sobreposta à montanha. Tinha um canto do lado de fora da rocha.

— Tem certeza, Bentho? — Amellie segurava minha capa. — Você estava na quinta dimensão, e ainda estava anuviado pelo Eyespy. E a mansão pode ter se movido desde então...

— Senhora Morgan? — Xitarro observou. — O que a senhora acha?

A anciã parecia considerar.

— Se vocês vão pedir piedade ao Destino, não me peçam opiniões — ela resmungou.

— C-como assim? — eu me adiantai. — Se a gente achar uma saída daqui, podemos levar a senhora junto.

— Eu não ouvi meu próprio conselho — a velha falou. — O Destino não é como o que vocês classificam como "deuses". Ele é como um "autor" escrevendo um livro... e ele vive exclusivamente no Presente. Ele começou a escrever uma história, digamos... — Ela olhou para nós três, fingindo escolher alguém ao acaso. — Digamos a Amellie. No momento em que ela nasceu, ele projetou o que ela iria ser e que seu final seria ficar presa aqui, neste mausoléu extraplanar.

— Mas digamos que, à medida que vive o presente e escreve a vida de Amellie, ele comece a gostar dela. Ou odiar, ou ficar curioso. Acha que ela perecer aqui seria um desserviço à história. Então, ele deixa uma pista. Uma esperança. Um "garoto" que viu uma forma de sair, e ela sai.

— Está dizendo que profecias podem ser mudadas? — Amellie estranhou.

— De forma alguma — a anciã resmungou. — Digo que há esperança até o Destino decidir ou se comprometer. Nós, visionárias e oráculos, temos acesso ao Destino. Digamos que eu pergunte: "Qual é o seu plano para Amellie?", e ele me confidencie: "Ah, aquela garota que fala alto? Vai ficar presa no casarão"... O Destino se pronunciou. Mesmo se ele mudar de ideia ao longo do caminho, não vai querer se fazer passar por mentiroso para mim. Você morreria aqui.

Amellie olhou para aquela anciã desgostosa da vida.

— Você perguntou sobre você, não foi? — disse a barda, enfim.

— Eu fiz tudo de errado, cometi todos os erros de uma visionária. — a velha resmungou. — "Destino, meu irmão tem uma doença. Eu vou ter também?" "Sim", ele respondeu. — Madame Morgan simulava o diálogo. — "Vou sofrer como meu irmão?" "Não, você vai definhar em paz, mas na casa de Cyrak." "Eu vou ter a oportunidade de sair de lá?"

Ela fez uma pausa.

— "Você vai passar seus últimos anos aqui até encontrar três jovens. Um deles em breve será um Exemplar, como lhe foi negado. Mas seu destino é jamais deixar a Casa de Cyrak."

Ela corrigiu sua postura e girou os calcanhares com dificuldade, apoiada pela bengala.

— Eu posso perguntar sobre vocês... mas podem não gostar da resposta. Não saber pode ser sua única salvação.

Ela se afastou, com o agora tão familiar barulho da bengala contra o mármore.

É... O clima pesou.

— Amellie, sabíamos que vir para cá era um salto de fé, um tiro no escuro — comentei. — Ao menos temos tempo, espaço e recursos aqui. Acredite, se saímos da avalanche, isso aqui vai ser muito mais fácil!

A barda estava cabisbaixa.

— Vamos testar outras portas — ela comentou. — Mas primeiro, vamos nos acomodar.

Assenti em silêncio, mas minha mente já estava em outro lugar. Mais especificamente, na dinâmica bizarra entre Amellie e uma das tais “viúvas”.

Pelo pouco que me lembrava da época, o Menestrel Cyrak era o suprassumo do pior tipo de bardo. Um meio-elfo mulherengo que parecia ter um fetiche quase cirúrgico por mulheres "proibidas" — fossem casadas, noivas ou simplesmente fora do seu alcance. Ele seduzia, conquistava e, assim que o charme perdia a novidade, desaparecia no mapa.

Quando ele morreu na Guerra de Bearlord, há uns cinco anos, o drama não acabou. Enquanto o corpo dele virava peça de exposição no Palácio de Bearlord, suas "viúvas" — uma espécie de clube informal dessas nobres desiludidas — viraram o mundo do avesso atrás do patrimônio do falecido e de algum tipo de reparação.

E agora, aqui tínhamos nós. Em uma mansão secreta flutuando no meio do Vazio... com uma dessas viúvas dividindo o mesmo teto.

Eu temia muito saber a resposta, mas Amellie teria que se explicar mais cedo ou mais tarde.

Caramba... isso era infinitamente mais sensível do que o egoísmo dela de não querer compartilhar a barraquinha arcana.



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