Ao contrário do castelo suntuoso no topo da colina, aquela igreja-fortaleza usava rochedos terrosos, extraídos diretamente de pedreiras locais. Seus paralelepípedos eram um tanto irregulares, mas ocupavam a área de forma inteligente, sem firulas ou ostentações desnecessárias. A estrutura austera lembrava o Forte Shan, em Shén-Li — ampla, funcional e desenhada para ser defensável a qualquer custo.
Eu realmente não conseguia encará-la como uma "igreja" tradicional. Mas havia algo ali... um peso no ar. Talvez eu estivesse apenas sendo sugestionado pela história da região? Afinal, apesar de Pallas ser um dos deuses mais antigos e reverenciados do continente, tudo ali começara com Cardullion, o Bode Bárbaro — um deus de quem ninguém esperava nada e a quem ninguém dava valor. Talvez essa essência humilde tivesse moldado as fundações do lugar.
O que estou dizendo? Eu não precisava especular: eu podia comprovar.
— Xitarro... — pedi, indicando a quina de uma construção vizinha. — Vigia nosso amigo inconsciente por favor.
O monge acomodou o homem deitado numa quina coberta de sombra. Aproximei-me e o ajudei a posicionar o sujeito de forma mais confortável contra a parede de pedra.
Só então caminhei até o meio da rua.
Fechei os olhos por um segundo e os esfreguei com força. Quando os abri, canalizando o dom que o meu juramento me concedera, a poeira e a lama da realidade se dissiparam. Eu via as galáxias e as correntes etéreas fluindo entre nós e o infinito.
Agora, eu via a igreja exatamente como ela deveria ser.
Dizem que os deuses da radiância são associados à cor azul, como a Trindade das Aves em Shén-Li. Ali, porém, apesar do marrom poeirento que dominava todos os aspectos do solo e das paredes, a luz mística que emanava das rochas era de um verde profundo e pulsante — a marca inconfundível dos deuses da natureza e da resiliência primordial. Eu imaginara que encontraria o vermelho, sinal dos deuses da guerra... mas não. Era uma energia em estado puro e natural.
A aura parecia uma aurora boreal emergindo do topo das torres quadradas, serpenteando e fluindo entre os mourões e os arcos de pedra como se o próprio vento tivesse se tornado visível.
É... dava para perceber que aquele templo não fora erguido sem dificuldade. Houve gente empenhada em tornar o caminho mais complicado do que precisava ser. Ainda assim, a Igreja da Perseverança ficara de pé. Sobrevivera a obstáculos que pareciam ter exigido mais paciência do que deveriam, a implicações pequenas demais para merecer tanta atenção e a situações que, em vez de testar a fé, pareciam testar quanto tempo alguém conseguia continuar tentando antes de perder a vontade de viver. Mas eles perseveraram. Talvez fosse essa a parte mais importante daquela história: não fora uma construção favorecida pelo destino ou pelo caminho fácil. Fora uma construção que persistiu apesar dele.
Quando a visão mística se esvaiu e o efeito do juramento passou, pisquei e voltei para onde Xitarro esperava. O mendigo gigante estava sentado, coçando a barba emaranhada.
— É real, amigo — falei para o monge, sentindo um nó na garganta pela solenidade do que vira. — Eu vi o peso que está cravado nessas pedras. E... espere. Quando foi que o nosso agregado acordou?
— Ele esteve acordado o tempo todo — respondeu Xitarro calmamente, ajustando sua postura. — Pediu para eu lhe dar um tempo enquanto você olhava para o nada...
— Bem... obrigado — sorri para o grandalhão, que apenas encarou a fachada do templo e soltou um arroto ressoante que estremeceu o ar da rua. — Agora, vamos ver o que este prédio pode fazer por você.
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Àquela observava a estátua da frente, a mais protuberante do conjunto. Era uma entre treze, cada qual com quatro metros de altura, esculpidas com um talento moderado. Ainda assim, uma delas parecia terrivelmente familiar.
— "A Honra da Infantaria Pesada de Bearlord" — traduziu Estebán, lendo a placa em entalhes arcaicos. — No idioma dos anões de Dol'oan. Era a elite de Glen Bearlord, os únicos capazes de ter executado o ataque preventivo que garantiu a vitória dele... derrubando o castelo de cartas de Cyrak. Militarmente falando, foi algo ousado e brilhante, mas...
— Cruel — completou Àquela, num tom baixo. — Não valeu a pena.
Estebán preferiu não contestar. Então, desconversou.
— Agora, sabendo o que sei de Amellie, tudo faz sentido — o Senhor do Sombrio ergueu os olhos, acompanhando o traçado da estrada. Em menos de meia hora estariam no povoado. — A presença da Gladius Aeternum é intensa, mas isso a torna confusa. Difícil de ver com precisão. A lâmina está tentando se ofuscar e eu achei que era a distância desde meu pacto... Bem, eu estou fazendo o mesmo agora. Ela não sabe quão perto estamos.
— Ela sabe que chegaremos, mas não quando? — confirmou Àquela.
— Sim. E agora vem a parte mais difícil... Ao menos para você, querida.
A arqueira baixou o semblante.
— Pensei que iríamos apenas os seguir à distância...
— Gladius Aeternum conhece minhas capacidades. Eu eventualmente iria deduzir que ela me rastreia, e estaria articulando o grupo para se mover assim que eu me aproximar demais. Queria poder afirmar com certeza que eu mesmo concluiria isso por conta própria, mas, se aquela espada tentar algo contra Bentho, esta distância atual é inaceitável.
— Isso não interfere na tal "profecia"? — Àquela questiona.
— Nada interfere.
— E eu terei de ir sozinha?
— Como em Hálcora — ele confirmou. — Ela não pode rastrear você, e vai deduzir que eu estou usando das regras do jogo contra ela. E você não vai tentar conversar desta vez... vai agir. Sem tempo para confusões ou fugas.
— Você está me mandando disparar flechas em nosso filho... sabe disso, não é?
— Se ele estiver vestindo a armadura, não precisa se segurar. A Vigília Sombria vai protegê-lo — comentou Estebán. — Mas eu tive uma ideia melhor.
— Que bom... — ela suspira, aliviada por um segundo.
— Capture o garoto-gato.
A arqueira ergueu as sobrancelhas, pega de surpresa.
— O Catfolk é absurdamente rápido e imprevisível — explicou o Senhor do Sombrio. — Mesmo se você conseguir imobilizar o Bentho, não vai conseguir escapar do felino. Mas se você capturar o rapaz e fugir com ele, eliminando a vantagem da velocidade do trio... Bentho virá atrás de você sem pensar duas vezes. Corra na minha direção e "a gladis" não terá opções de manipulação. Com nós dois juntos, asseguraremos o garoto.
— "Sequestrar o melhor amigo para atraí-lo a uma armadilha"... — Àquela soltou um riso sem humor, com evidente desgosto. — Esse é o "Lord Blunt" de quem eu me lembro.
— E se for este o Lord Blunt de quem Gladius Aeternum espera... manteremos o disfarce de Amellie impecável — pontuou Estebán. — E isso tira um pouco da carga do segredo de Amellie.
— Eu ainda... — Àquela voltou a encarar as estátuas de pedra. — Não consigo afastar a sensação de familiaridade dessa estátua...
— Khao.
— Não, Estebán, não é ele! — Àquela forçou a visão sobre a fisionomia do guerreiro esculpido. — Khao jamais conseguiu ter uma barba, então...
— Eu digo que Khao está se aproximando.
Àquela deu um salto, sobressaltada.
Pela estrada coberta de poeira, aproximava-se o Capitão da Nova Guarda. Olhar duro e fixo para a frente, passos lentos, contidos e pesados.
— Agora não... — resmungou Àquela. — Bentho está tão perto...
— Eu... não sinto a presença dos Tenentes — Estebán parecia genuinamente preocupado. — Rhoy eu concebo que consiga se esconder adequadamente, mas...
— Ele não pode saber que o Bentho e os garotos estão aqui... — comentou Àquela. — Vamos atraí-lo para o penhasco do Norte e despistá-lo.
— Esta é a terra nativa de Khao — cortou Estebán. — Ele a conhece melhor do que nós, despiste é inviável. Ele pode interferir e Bentho escapará na confusão de novo. Isto termina aqui.
Estebán começou a marchar firme na direção do capitão.
Ele sentia que algo estava profundamente diferente. A aura ancestral do bárbaro sobrepunha-se à do soldado. O fato de estar aparentemente sozinho pesava. E, diferente de todos os outros inimigos de Lord Blunt, Khao vivera por demais. Ponderara e martelara cada derrota ao longo dos anos. Mesmo com a abissal diferença de poderes entre eles, o Senhor do Sombrio respeitava aquele que mais tempo se dedicara ao preparo do duelo.
O homem que esperou por dezoito anos.
Foi então que algo segurou a mão de Estebán, impedindo-o de ir de encontro ao seu caçador.
A mão de sua esposa.
— Não lute — disse ela, enfim.
— Você... — Estebán virou-se, confuso. Remeteu a quando ele fez tal pedido à esposa na Montanha Morta. — Tem certeza de que quer tentar desta vez? Eu compreendo que...
— Está diferente — comentou ela, a voz suave. — Ele está sentindo dor.
— Àquela... ele é perigoso e imprevisível — insistiu Estebán, tensionando os ombros. — Vocês dois se feriram muito no passado. Eu posso assumir esta luta.
— Não haverá luta.
Àquela segurou as duas mãos do esposo e, mantendo o olhar firme no horizonte, começou a marchar sozinha na direção do capitão.
Demorou alguns passos para que Estebán percebesse, assombrado, o que a esposa acabara de depositar em suas mãos desarmadas.
O próprio arco dela.
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— Sacrilégio! — gritou Xitarro, apontando para o pórtico do templo com o rosto pálido.
— O... O quê?!? — O cavaleiro à nossa frente se assombrou.
— Ele quis dizer "Santuário", não "sacrilégio" — corrigi rapidamente, puxando o monge pelo ombro. — Nós três viemos pedir a proteção de Cartallas.
Um cavaleiro e dois acólitos se aproximaram a passos firmes. Sem fazer perguntas, a dupla de acólitos partiu para nos substituir, tomando o pesado e semiconsciente mendigo para dentro da fortificação. Não emitiram um único resmungo sobre o peso... deviam estar com a musculação em dia.
— Cartallas vai agradecer-lhes, forasteiros — o cavaleiro falou por fim, encarando a cena. — Entrem. O Santuário está concedido. Vamos trazer um pouco de água... vocês parecem exaustos.
Xitarro deu um sorriso aliviado para mim. Quase podia ler sua mente dizendo "nós conseguimos"... Mas eu me detive no limiar da porta.
— N-nós dois estamos armados — comentei, indicando a espada e minhas adagas. — Precisam reter as...
— Bobagem — o cavaleiro deu de ombros. Tratava-se de Rúnvald, um firbolg alto e corpulento de pelagem castanho-acinzentada, com cabelos longos e desgrenhados presos atrás da cabeça. O rosto era largo, de traços bovinos e gentis, com pequenos chifres curvados para trás. Seus olhos tinham uma expressão tranquila, quase sonolenta, mas extremamente observadora.
— Shén-Li, correto? Sou excelente com sotaques — continuou Rúnvald. — Seu Aetíades exige que entrem desarmados?
— Bem, sim — respondi.
— As terras de Bearlord ainda estão sendo acalmadas — ele riu, sem dentes. — Só alguém com merda na cabeça não tem uma...
Xitarro soltou um riso de puro nervoso.
— A-algum problema? — Rúnvald franziu os chifres.
— O senhor falou... "mer..."... numa igreja... — o garoto-gato justificou-se, ainda atônito.
— E...? — O cavaleiro divertiu-se com a ingenuidade. — Teme que Cartallas vá jogar um raio na minha carrapeta por causa de um palavrão?
— "Carrapeta"? — Xitarro estranhou a palavra.
— Eh... — interferi, limpando a garganta. — É o mesmo que "cu".
Xitarro desabou na gargalhada, cobrindo a boca.
— Ele tem quatorze anos — expliquei para o firbolg. — A "quinta série" dele acabou de cumprimentar a "quinta série" do senhor.
— Sem problemas... — O firbolg estendeu a mão enorme para o monge. — Você se encrenca mais com Cartallas se se chamar de "bonito" com fingimento do que se chamar ele de "arrombado" com sinceridade.
Xitarro caiu na gargalhada de novo, a ponto de eu precisar segurá-lo pelo cotovelo para ele não tropeçar no próprio rabo.
— Isso é tão errado... — o felino arfava, quase sem fôlego. — Me desculpe!
Enfim, entramos.
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Estebán estava tenso. A esposa, desarmada, estava diretamente no caminho do implacável Khao. A diferença de estatura entre os dois era tremenda; ele parecia uma montanha prestes a esmagar uma flor de sal.
— Khao... você está bem? — ela começou, tentando manter a voz firme. — Onde estão seus tenentes? Algo aconteceu com eles?
O capitão não disse uma palavra.
— Fale comigo, Khao! — ela insistiu, dando um passo à frente.
O gigante parou. Mais um único passo e ele trombaria na loira. Ele se detinha por um segundo, os olhos escuros fixos nela, sem piscar.
Então, deu um passo para a esquerda.
E continuou em sua marcha silenciosa.
Estebán por um instante pensou que ele era o próprio destino caminhando. Seus olhos se cruzaram com os do capitão por uma fração de segundo, mas o capitão estava mesmo afetado: não havia ali a prepotência característica, nem a fúria ocasional de um bárbaro. Havia um vazio absoluto no semblante do homem.
O Senhor do Sombrio deu ele mesmo um passo para o lado, permitindo que o gigante seguisse além dele, incólume.
Àquela foi logo atrás, precisando apressar o passo para alcançá-lo. Estebán apenas observou de longe, intrigado. O Capitão a ignorou por longos metros, até que enfim parou.
Seu olhar repousou sobre as estátuas — os monumentos na entrada do povoado de Bearlord. Concentrou-se especificamente no homem barbudo representado na estátua da frente.
— Você conhecia esse homem? — Àquela arriscou, aproximando-se com cautela.
— Conheço... — A voz de Khao finalmente saiu. Parecia vir do fundo de uma caverna; grave, arranhada, nada familiar.
Àquela observou melhor aquela representação em pedra. Com um refinamento limitado de lapidação, exibia uma armadura de cota de malha reforçada com placas e rebites. Representava um sujeito consideravelmente encorpado. Ela deduziu tratar-se de um dos oficiais do antigo exército de Glen Bearlord...
... E, de repente, Àquela se lembrou das antigas conversas sobre o passado.
De quando Khao e ela não atiravam flechas, barris e beholders um no outro. De quando a farda não pesava tanto e Khao se permitia ficar vulnerável e nostálgico ao redor de uma fogueira.
— É o "Sargento"? — ela perguntou, sentindo um aperto no peito. — É esse o homem que fez você deixar o seu lar?
Khao teve uma reação quase espasmódica, como se acordasse trancado de um transe. Ele olhou para a sua antiga companheira de armas e declarou, seco:
— Volte para casa e se entregue, loira — ele resmungou. — Ou não. Eu não ligo.
Khao voltou a caminhar, contornando as estátuas e avançando em linha reta rumo ao povoado. Àquela assistiu em choque, imóvel onde estava.
Enfim, Estebán se aproximou devagar e colocou a mão no ombro da esposa.
— Eu estou legitimamente sem explicação — ele falou, franzindo o cenho. — O que foi isso?
— Ciúmes, Estebán? — Àquela comentou, sem desviar os olhos das costas do gigante. — Com medo de não ser mais o maior inimigo de Khao?
— O quê?!?
— Desculpe... — Ela esfregou as sobrancelhas, soltando um suspiro pesado. — É algo pessoal para ele. Ele tem uma rixa mortal com um desses soldados...
— Historicamente falando... Sabe quem é o único "soldado" do antigo exército de Glen Bearlord que sobreviveu à guerra, não sabe? — O Senhor do Sombrio comentou, a voz caindo num tom sombrio.
Àquela se assustou. As peças se encaixaram com uma clareza aterrorizante em sua mente. Ela o conhecera... lá em Yalatanil.
— Não... Não pode ser aquele sargento! — Ela empalideceu no mesmo instante, encarando o marido com os olhos arregalados. — Khao pode estar em perigo!
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Rúnvald nos fez atravessar um micropátio antes do salão de missas, que ocupava pelo menos metade do espaço total da igreja.
Bancos organizados em quatro fileiras, separados por três alas com tapetes rústicos, concentravam a atenção em um pódio num palanque ligeiramente elevado, acompanhado por arcos que levavam ao interior do templo. Uma galeria funcional estendia-se tanto no térreo quanto no segundo piso. Fomos guiados à esquerda, para uma reentrância com uma cama improvisada, um balde ao lado e o cheiro de incensos de canela fortes tentativa de diminuir o fedor de gororoba e cerveja choca. O manguaceiro já estava lá, sendo acomodado pelos acólitos.
— Não vão dar algum energético ou um "lay-on-hands" para ajudar o cara? — perguntei, vendo o estado do sujeito.
— Ele vai estar bem em duas horas... — Rúnvald comentou displicentemente. — Uma vez por ano... Estamos acostumados.
De novo?!? O que diabos era aquilo? Mantra?
— Bem, se não for incômodo... — adiantai-me, ajeitando o cinto. — Como conseguimos uma audiência com o Monsenhor?
Rúnvald parou, atônito, encarando-me de cima a baixo.
— Sério? — Será que eu falei alguma coisa errada? Minha heráldica era péssima... vai ver o homem mais foda da igreja precisa de mais que estranhos chamando ele.
— ... Só se ele não estiver indisposto no momento — tentei aliviar a ousadia.
— Pode-se dizer que ele está bastante indisposto no momento — Rúnvald soou terrivelmente irônico. — Mas certamente vocês serão os convidados dele para o almoço. Querem um tour pelo arsenal enquanto esperam?
— Você disse... Arsenal? — Eu sussurro assombrado, e ciente da ironia.
Então, virando a quina do corredor, entendi exatamente onde estávamos.
— Essa é a armadura do Monsenhor?!? — espantei-me.
Era uma vitrine de madeira escura e vidro, embutida contra a parede de pedra. Dentro dela, exposta sobre um suporte quase invisível, repousava uma armadura completa.
Extremamente pesada. As placas de aço eram prateadas, polidas pelo tempo e cobertas por ornamentos gravados nos ombros, peitoral e pernas. O desenho mais chamativo estampava o peito: uma cabeça de bode com grandes chifres curvados. O rosto metálico parecia quase vivo, com olhos estreitos e uma expressão severa. Por baixo, tecidos verdes e castanhos ricamente bordados sobressaíam-se; um manto escuro caía pelas costas, enquanto uma longa faixa branca trazia bordado o símbolo de Cartallas, grande o suficiente para ser visto a léguas.
— É a cerimonial e de tempos de guerra total, mas não viu tanta ação assim — comentou o firbolg. — Mas se quer ver o que derrubou Caruthers e o Titã que aprisionou Phyrros, o Deus do Fogo... está ali atrás.
Espadas largas eram a minha especialidade. E aquela coisa enorme... era quase um escudo com pomo e cruzeta. Um ricasso protuberante, uma gema redonda azulada e três tipos de metal diferente ao longo da lâmina. Mesmo assim, exibia trincas que indicavam ter sido testada até o limite. Aquela lâmina viu ação...
Diferente da armadura, não havia proteção para ela. A lâmina estava apenas recostada sobre a parede de pedra. Na base, uma placa de latão trazia a inscrição:
— "Avalanche!" — suspirei. — Parece bem pesada...
— Mais ainda — Rúnvald riu, cruzando os braços. — Quer tentar levantar?
— Você não vai se encrencar? — insisti.
— Preocupado se alguém invadiria esta fortaleza, pegaria a espada pessoal do Monsenhor e fugiria? — Ele deu de ombros. — Se alguém conseguisse tal feito, seria um homem que não conseguiria dormir em paz sabendo quem o caçaria. Já eu... Só acho que você não a tira do chão.
Bem, eu não a levantaria aquela lâmina... se fosse uma questão puramente muscular.
Mas eu sou um Hexblade. É a força da minha personalidade e da minha determinação que guia e empunha a minha lâmina.
Para o absoluto choque do Cavaleiro Rúnvald, segurei o cabo de Avalanche com uma única mão e, num arranco limpo, a ergui bem acima da minha cabeça!
— [Não fique convencido...] — Gladys resmungou dentro do meu crânio, ciumenta como sempre. — [É só uma tábua de ferro velhaca!]
— Não... não é uma tábua... — murmurei, sentindo o ar rarefazer.
Imediatamente, o meu corpo... o chão... o corredor inteiro começaram a vibrar.
— Isso é impossível! — Rúnvald exclamou, descruzando os braços num salto. — Você sintonizou com a Avalanche?!?
— [Uma barra de ferro convencida e sem personalidade! Não é um verdadeiro artefato como eu!] — Gladys insistia em minha cabeça, mesmo eu estando maravilhado. — [Só deixa essa tranqueira aí!]
— Bentho... — Xitarro chamou baixinho, as orelhas dobradas para trás. — Abaixe isso aí!
— Isso é vento?!? — perguntei, sentindo os cabelos levantarem. — Não... é Gravidade! Ela... Ela gera a sua própria gravidade?!? É como ter uma montanha nas minhas mãos e...
Tentei baixá-la... Mas o peso gravitacional me puxou rápido demais.
BOOM!
A ponta da lâmina atingiu o piso de pedra. Uma onda de choque invisível e devastadora estendeu-se em pulso pelo corredor.
Quadros nas paredes despencaram.
A vitrine de madeira e vidro da armadura do Monsenhor estilhaçou-se em mil pedaços.
O balde de vômito do mendigo voou e rolou por cima de Xitarro — que só não foi banhado pela gororoba porque usou seus reflexos felinos para dar um salto mortal para o lado. Apenas a cama de madeira maciça onde o bêbado ressonava era pesada demais para ser lançada ao ar.
Um silêncio constrangedor e denso tomou conta do corredor coberto de poeira e cacos de vidro.
Rúnvald caminhou devagar, tomou a espada da minha mão sem dizer uma palavra e encarou o estrago. Por fim, suspirou:
— Eu vou pegar algumas vassouras.
— Nós vamos ajudar na limpeza... — comentei, engolindo em seco.
— Obviamente — ele corrigiu, apontando o dedo na minha cara. — As vassouras são para vocês!
Eu e Xitarro fomos deixados lá, a sós com o mendigo e a bagunça.
— Bentho... — Xitarro censurou, limpando a poeira dos ombros. — Parece o navio dos Piratas Solares de novo... Vão precisar amarrar você?
— Agora também são piratas... — o bêbado resmungou virando de lado e puxando o balde de volta. — Que turminha, menina!
— Bem, a culpa foi deles por nos dar santuário sem perguntar primeiro... — brinquei, tentando aliviar o peso da culpa. — Mas depois de tantas confusões, entre o Castelo Negro, Huo-Fen, Hálcora, o pântano, a Montanha Morta e a Mansão de Cyrak, eu acho que peguei o padrão.
— E qual seria?
— Um: Eu faço algo, dois: Dá confusão... — fui enumerando nos dedos. — Três: Tento fazer algo para dirimir, a confusão aumenta... E repete. Mas se a gente só aceitar a confusão que já fizemos, a coisa não piora. Concorda?
Xitarro coçou o queixo, avaliando a lógica duvidosa.
— Você consegue ficar parado?
— Vou considerar o desafio — puxei dois bancos de madeira do canto do corredor. Sentei-me em um e ofereci o outro ao monge.
Nos sentamos em silêncio, esperando Rúnvald voltar com as vassouras. Ou que Amellie aparecesse com a etiqueta e o bom senso que nos faltavam...
... Até que fomos sobressaltados por um urro monstruoso vindo do pátio externo:
— SARGENTOOO!!!
— SAIA AQUI FORA, SEU MERDA!
Eu... estava horrorizado. Sentira o chão da igreja tremer sob a vibração daquela voz.
— Eu... conheço essa voz — murmurei, com o sangue congelando nas veias.
Xitarro levantou-se num salto, escalou a parede de pedra com a agilidade de um felino e espiou por uma janela longa e estreita, três metros acima de nós. Quando desceu, caiu de pé, mas com o rosto completamente pálido.
— É... — disse ele, a voz falhando ligeiramente. — Ficar parado não ajudou. O Capitão Khao nos achou.


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