A pancada seca do metal contra a névoa ressoava através do tempo.
Enxofre. Poeira antiga. O cheiro invadia as narinas, misturado à respiração arfante de um homem que lutava para permanecer de pé. Ao redor, o silêncio absoluto de quem apenas observava. Por duas vezes um portador da *Gladius Aeternum* cruzou as dimensões. Por duas vezes a *Vigília Sombria* estaria na forja além do Submundo.
---
## PASSADO
Para enfrentar os últimos dois, Aoi Ayro precisou sacar a katana.
Durante anos, as agressões dos Famintos haviam sido esparsas. Afinal, só existia uma pessoa viva em todo o Limbo das Sombras. Agora, havia duas.
Lord Blunt permanecia de pé, inabalável. Não procurou cobertura, não sacou a espada, sequer esboçou uma reação. A defesa dos dois ficou inteiramente a cargo do samurai.
— Está ferido, guerreiro?
Ayro balançou a cabeça. Guardou os próprios pensamentos para si.
— A armadura de minha irmã me protegeu.
— Ah. Então você é o irmão.
O jovem bruxo percorreu a postura do guerreiro com um olhar analítico, mas não arrancoubreação. Havia algo de provocação na pergunta seguinte.
— O mais velho? É o chefe? Pelo que entendo de sua cultura...
— É complicado. — Ayro recolheu a katana. — Mas, formalmente, não. Ela é a líder da casa. Eu sou seu guardião.
— Você poderia ter me pedido ajuda... Contra os famintos.
— Sim, poderia. — Ayro inspirou fundo antes de falar, recuperando a compostura e o fôlego.
— E não pediu.
— Você não ajudaria. — O samurai respondeu rápido, como se tivesse aceitado a realidade.
Blunt hesitou um segundo e então soltou uma risada escarnecedora.
— Por eu ser fraco?
— Não. Porque está ocupado demais me analisando.
O bruxo se calou por um instante.
— Você percebeu? — Balançou a cabeça, quase divertido. — Isso é raro. Costumo ser bem mais discreto.
Ayro removeu a proteção do antebraço. Apesar da armadura, um dos Famintos conseguira tocá-lo. A dor era debilitante, gélida. Passaria.
— Você só enxerga duas categorias no mundo: servo ou inimigo. Enquanto não puder me chamar de servo, vai me analisar como um potencial inimigo.
— Está errado, samurai. — O humor de Blunt adquiriu uma tonalidade soturna. — Não vejo ninguém como servo. Apenas inimigos que ainda não criaram coragem para me desafiar.
Ayro estava cansado. Ferido. Ainda assim, levantou-se e se colocou entre o bruxo e a névoa. Era mais alto que o jovem de cabelos negros a quem prometera proteger.
— É uma forma muito triste de viver.
---
## PRESENTE
O estalo do ferrolho de madeira pesada ecoou pelas paredes de pedra.
O som trouxe Bentho de volta. O gosto metálico de sangue seco persistia em sua boca, e o frio sobrenatural do abrigo parecia piorar a cada respiração. O bunker era inteiramente feito de pedra, como se alguém tivesse escavado o interior de um cubo maciço de nove metros de aresta. Uma porta pesada de madeira reforçada, trancada pelo lado de dentro. Uma janela estreita, à altura dos olhos. Nada mais.
Bentho imaginou aquele arqueiro como um velhote de barba cumprida e cabelos brancos. Em vez disso, viu um homem relativamente jovem. Vinte e poucos anos, talvez.
— Poderia repetir? — Amellie insistiu. — Seu nome.
— Aoi Ayro. — O samurai já verificava a estreita abertura da janela, respondendo no automático.
— Uau... Então *essa* é a voz? — murmurou a barda, ligando as pontas. — Mais intensa que o seu Khao, Bentho!
— Minha mão melhorou! — anunciou Xitarro, flexionando os dedos. — Ainda dói pra caramba, mas já consigo mexer!
— O que eram aquelas coisas lá fora? — Bentho perguntou, limpando o suor da testa.
— Famintos. — Ayro não se virou. — Os que morreram de fome ou sede. Os que já não tinham energia para continuar. São os mais numerosos do Limbo. Devoram os vivos e outros espíritos, mas perdem o interesse depressa quando não encontram vida e energia.
— [Repita: Domo arigato, Ayro-sempai] — instruiu Gladys na mente do garoto.
— "Sem pai"? — Bentho resmungou em voz alta, encarando juvenil a espada negra. — Está tentando me fazer ofender o cara? Não basta o que me fez passar com o Monsenhor?
— Respeite a Espada Eterna! — repreendeu o samurai, com uma firmeza que não admitia discussão. — É sua professora, e guarda sabedoria incalculável.
— Eita! — Bentho piscou. — Você achou um fã, Gladys!
— Claro. Você esteve aqui com Estebán! — Amellie se adiantou, encarando o estranho com evidente desconforto.
— Quem é Gladys? E quem é Estebán? — Ayro deu de ombros. Seu olhar, entretanto, já examinava Bentho. A postura. A maneira de sustentar o peso. Os pequenos sinais de cansaço que o garoto tentava esconder.
O trio se entreolhou.
— Ora, ora... — Amellie coçou a cabeça. — Tantas histórias do Limbo, e o velho Lord Blunt nunca lhe contou o próprio nome? Sabe o quanto Cyrak tinha inveja de você, senhor Ayro? Blunt era "o cara legal entre os caras legais". Quando alguém assim paga pau para outro nós só podemos...
— Vocês três são barulhentos. — Ayro interrompeu, desatou as pesadas talas dos ombros e se recolheu a um canto do bunker. Sentou-se no chão estéril, cruzou as pernas e repousou as mãos sobre os joelhos. — Fiquem quietos, só assim os Famintos irão embora. Só alguns minutos é o que eu peço.
---
## PASSADO
A névoa soprou contra o rosto de Ayro, gélida o bastante para cortar a pele.
À frente, os passos de Blunt esmagavam a cascalheira. Rápidos. Impacientes.
— Podemos ir mais depressa, Ayro-sama.
— "Sama" não é o pronome adequado — Ayro afirmou. — Me dá autoridade sobre você. Está tentando mexer com meu ego?
Blunt deixou um sorriso de deboche escapar.
— Movimento é sinal de vida e ação — respondeu o samurai, sem alterar o ritmo. — Vida atrai Famintos. Ação atrai Furiosos... E falta de sorte atrai Pestilentos.
Blunt inclinou a cabeça, organizando as informações.
— Furiosos são vítimas de emoções agressivas como guerras e lutas. Pestilentos, os mortos por doenças. Acertei?
— Parcialmente.
— As formas mais comuns de morrer, "fome, guerra e doenças". — Blunt explicou seu raciocínio.
Ayro lançou-lhe um olhar. Havia nele uma ponta involuntária de admiração.
— Os Furiosos são aqueles que morreram sob uma emoção intensa. O combate é apenas uma delas. Não recomendo tentar adivinhar tudo. Pode cometer um erro crasso.
— Teremos tempo para aprender os meandros do Limbo. — Blunt se adiantou, impaciente. — Apenas me leve até sua irmã. A "maior armeira viva"...
— Minha irmã não é a maior armeira viva.
O bruxo parou. Virou-se devagar.
— O que disse?
— Sou o único ser vivo no Limbo das Sombras — informou Ayro, com a mesma serenidade de antes. — Passei anos sendo atacado pelos espíritos deste lugar até aprender a coexistir com eles. Sua presença provocará mais...
— Eu me referia que... Quer dizer que sua irmã NÃO está aqui? — A voz de Blunt subiu de tom. A *Gladius Aeternum* começou a emitir uma luz roxa, pulsante e perigosa.
Ayro sorriu. Um desafio silencioso.
— Eu disse que você estava tentando adivinhar. Que cometeria erros. — O samurai não pareceu notar, ou não se importou, com a fúria e a ameaça velada do bruxo. — Sou o único vivo. Minha irmã é a maior armeira. Mas não a maior armeira viva.
---
## PRESENTE
O chão do bunker tremeu.A temperatura despencou. O ar tornou-se tão gélido que a respiração dos três se condensou em névoa branca.
— TÁ CHEGANDO! — berrou Xitarro, espiando pela janela. — Parece uma mais sinistra que os com fome!
Bentho e Amellie correram para a abertura. O monge colou o rosto à fresta, tentando enxergar através da névoa.
Ayro permaneceu imóvel, os olhos fechados.
— Esse é diferente! — urrou Bentho. Os pelos de seus braços se eriçaram sob a pressão espiritual. — É alta! Azul e branco...
— Senhor Ayro? — A voz de Amellie falhou ligeiramente. — Esse parece diferente...
O samurai abriu os olhos.
— Abram a porta.
— Tem certeza?! — Xitarro hesitou, a mão tremendo sobre o ferrolho.
— Vocês vieram procurar a criadora da Vigília Sombria. A armeira Hamme. — Ayro ergueu o rosto na direção da porta. — Ela está aqui.
— M-mas... — Xitarro batia os dentes, encarando o vulto colossal que avançava pela névoa, congelando o solo a cada passo. — Mas é mais um espírito!
— Fantasma — corrigiu Ayro, com uma solenidade quase fúnebre.
A porta se abre.
A névoa do Limbo recuou ligeiramente da soleira da porta, revelando uma figura alta, envolta em trajes de forja tradicionais e reluzindo em um tom azul-prateado astral. A presença de Aoi Hamme trazia um calor estranho oriundo de seu brazeiro, quase acolhedor, que contrastava com o pavor natural do Limbo.
— Ayro-san — disse Hamme. A voz do fantasma soou como o badalar de um sino de vento em uma noite tranquila. — Você trouxe convidados barulhentos.
— P-perdão, senhora fantasma! — Xitarro recuou, tenso.
— Não peça perdão. — Ela sorriu maternalmente. — Eu gosto do barulho. Sinto falta dele.
— Ufa... — Bentho sorriu para Amellie. — Um sisudo e uma pessoa que gosta da gente. Depois da Morgan e do Capri, estava preocupado.
— Bentho... — Amellie não parecia compartilhar do alívio. — Ainda é cedo. Mochila. Agora.
O rapaz, alheio ao aviso, abriu-a e despejou o conteúdo no chão.
Os fragmentos retorcidos da *Vigília Sombria* tilintaram contra a pedra, espalhando uma fuligem fria e gasta.
Hamme parou de sorrir.
O silêncio que se seguiu foi tão denso que mesmo a existência dos espíritos famintos no exterior pareceu abafada. A cabeça do fantasma inclinou-se devagar. Primeiro para a esquerda. Depois para a direita. Os olhos azul-prateados percorreram cada fivela partida, cada juntura esmagada e a placa do peitoral, rachada como vidro temperado.
Um dos dedos longos e diáfanos de Hamme ergueu-se, tremendo em uma indignação contida.
— ...Ayro-san.
— Hai.
— **O QUE É ISSO?!**
O grito não fez apenas o ar estagnar; fez a névoa na soleira da porta ser arremessada para trás. Xitarro se escondeu atrás de Bentho. Bentho se escondeu atrás de Amellie. Amellie, sem ninguém para usar de escudo, cobriu o próprio rosto.
Hamme deu um passo à frente, e a temperatura do bunker caiu dez graus de uma só vez. A linguagem da nobreza de Hatamon fluiu de sua boca como uma avalanche de lâminas:
— **NANI WA KORE?! DARE GA KORE O KONNA SUGATA NI SHITA?!** — apontou para os destroços, a voz oscilando entre o choque estético e o desgosto técnico. — **KONO KINZOKU NO ATSUKAI WA NAN DA?! KOKORO GA NAI NO KA?! TE GA NAI NO KA?!**
— Hai — respondeu Ayro, com uma calma quase milenar.
Hamme virou-se para ele, os olhos faiscando em azul-astral.
— **HAI JANAI!**
— Hai — o samurai repetiu.
— **AYRO-CHAN!** — o fantasma protestou.
— O pactuado, Hamme — disse o samurai, suavemente, no idioma do continente. — O segundo encargo. Era obviamente consertar a primeira armadura.
Hamme congelou. Por um instante, o fantasma teve a expressão de quem acabara de se lembrar de uma promessa antiga e amarga. Duas encomendas em troca da companhia para o irmão. A primeira já fora um suplício — forjar aquela abominação de estética estrangeira, pesada e sem elegância, a pedido de um bruxo cínico.
Descobrir que a segunda encomenda era remendar a própria aberração arruinada era um insulto pessoal.
— ...*Sou datta* — murmurou ela, entredentes. A contragosto, a memória do dever pesou-lhe nos ombros. Mas a raiva não diminuiu. — *Wakatta. Wakatta kedo!*
Ayro baixou ligeiramente o olhar. Havia uma sombra imperceptível no rosto do samurai. Ele não a apressava pela armadura; pedia-lhe paciência porque sabia o que viria depois. Cada martelada que ela desse naquela armasura seria um segundo a menos que passariam juntos.
Ignorando a tristeza silenciosa do irmão, Hamme começou a circular os destroços, erguendo cada pedaço com a delicadeza de quem segurava um cadáver profanado.
— Quão sortudo é o sucessor de Lord Blunt? — A fantasma resmungou. — Só vou poder afirmar na forja, mas não sinto sangue quente. A *Yamikaze*... "Vigília Sombria" provavelmente está morta!





0 comentários:
Postar um comentário