BLOGGER TEMPLATES AND MyYearBook Layouts »

9 de outubro de 2026

EDGELORD - Cap. FINAL - Arco da Perseverança

prólogo:

Cinco soldados marchavam a passos largos pela trilha irregular do povoado de Bearlord. A população inteira continuava trancada em casa; afinal, era feriado local e ninguém ali era doido de fazer qualquer trabalho útil antes do meio-dia. O destino do pequeno destacamento era a Igreja da Perseverança. Junto ao pátio, um cavaleiro anão, seu escudeiro, um cavalo e uma mula descansavam no poço, refrescando as montarias. No pórtico principal, a silhueta avantajada de um firbolg parecia conversar com alguém escondido na sombra da entrada.

— Rúnvald está no comando. Ótimo — comentou o cabo à frente do grupo, ajeitando o cinto de couro rasgado. — Ele é prático, não perde tempo com besteiras. Se o tal do Veneg estivesse no comando, seria duas horas de encheção de saco ...

— Seja rápido do mesmo jeito — o soldado ao lado resmungou, limpando o suor da testa. — É quase meio-dia. O Monsenhor ainda deve estar jogado em alguma sarjeta, mas pode voltar logo...

A chegada da patrulha a pé do palácio chamou a atenção dos acólitos. Embora, no papel, os Homens de Armas de Bearlord fossem a autoridade militar da Marca, a Cavalaria de Cartallas sempre os superou em números, recursos e, principalmente, no respeito do povo. Ainda assim, por pura cortesia institucional, aqueles sob a flâmula da Marquesa eram ouvidos. Claro que, assim que dobravam a esquina, eram devidamente esculhambados.

Os dois guardas da frente se destacaram, pisando firme para demonstrar uma autoridade que não sentiam. Só pararam quando Rúnvald deu um passo lento para o lado, desaparecendo.

Outro homem adiantou-se da sombra do pórtico, tomando o lugar do cavaleiro.

Ele trazia a insígnia de comando reluzindo no peito. E, mesmo que não a trouxesse, o tamanho do sujeito não deixava dúvidas. 

Era o Monsenhor. 
Sóbrio.


— V-Vossa Santidade! — engasgou o cabo, travando a marcha no ato. — Imaginávamos que o senhor estaria... ausente hoje.

— Fui forçado a encerrar minha folga algumas horas mais cedo, soldado — Capri, uma torre humana encarando os homens da flâmula do urso, respondeu com um desagrado quase palpável. — O que a Marquesa quer conosco a esta hora?

Os guardas se entreolharam. Aquele era, disparado, o pior cenário possível.

— Milhões de perdões, ó, Cicatriz do Titã — o segundo guarda interveio rápido, vendo o superior mudo de pavor. — Há algumas horas, a Marquesa sofreu um assalto em seu castelo... E este foi o único motivo da nossa vinda até aqui.

— Um assalto?!? — Capri ergueu uma sobrancelha. — Rogo a Cartallas que ela esteja bem de saúde...

— A Marquesa está física e moralmente abalada, e obviamente insatisfeita com a segurança.

— Eu não seria suspeito de ato tão vil, seria? — o Monsenhor cruzou os braços maciços.

Os dois hesitaram por um segundo longo demais.

— O senhor está acima de qualquer suspeita quanto ao caso — o cabo retomou a voz, pigarreando. — Mas um dos dois criminosos usou a identidade de uma antiga associada sua. A senhorita Amellie Silverleaf.

— Amellie nos deixou há pouco mais de dois anos. A Marquesa sabe disso — Capri pontuou, a voz calma. — Ela tinha quinze para dezesseis anos. É uma idade em que as pessoas mudam muito. A Marquesa tem certeza absoluta de que era ela?

— Certeza? Não, não tem ... — continuou o guarda, ajustando o elmo. — Mas, como usaram o nome dela, achamos que poderiam tentar contaminar a relação da sua estimada organização com o nosso comando... Já o segundo envolvido...

Enquanto falavam, os dois guardas esticavam o pescoço, tentando espiar pelas laterais do gigante.

Capri, sem pressa alguma, olhou para trás.

Rúnvald estava pacientemente ajustando um par de manoplas novinhas da Ordem nas mãos do Senhor Tamar — que até poucas horas atrás era o respeitado Chefe da Guarda de Bearlord. Agora, o homem ostentava no peitoral o emblema reluzente do Capítulo de Pallas.

Os guardas encararam a cena. Encararam Tamar. Encararam o Monsenhor.

Capri continuou sem esboçar absolutamente nenhuma reação.

— Eh... é a vida — o cabo resmungou, soltando um suspiro derrotado. — O senhor prefere que voltemos ao castelo dizendo que o senhor se recusa a devolver suspeitos, ou que o senhor não os viu e nós não temos motivo para duvidar da sua palavra?

— Vocês terão substancialmente menos problemas burocráticos com a segunda opção, creio eu — o Monsenhor comentou, ajeitando a túnica nos ombros. — Mais alguma coisa que minha ordem possa fazer pela Marca?

— Não, Monsenhor. Muito grato pelo seu tempo — o segundo guarda adiantou-se, agarrando o cotovelo do cabo e já o puxando para trás. — Nos vemos na missa amanhã cedo!

Os cinco deram meia-volta em sincronia e começaram a regressar pelo paralelepípedo, numa marcha acelerada que quase virou corrida.




O Monsenhor

-__- Okey... eu já estava razoavelmente acostumado a ficar amarrado, e algo no solo sagrado impediu Gladys de vir me libertar desta vez. Mas a Amellie estava visivelmente furiosa. E Xitarro... bom, estava sendo o Xitarro, tentando usar a cauda para coçar atrás da orelha.

Éramos os "convidados de honra" nos aposentos pessoais do Monsenhor. Após meia hora nos deixando a pão e água para "pensarmos no que tínhamos feito", ele finalmente retornou. Desceu a escadaria vestindo a indumentária completa de líder da Igreja. Ele se deteve no topo dos degraus — como se já não fosse terrivelmente mais alto do que todos nós juntos — e declamou, a voz ressoando nas vigas do teto:

— Então o Herdeiro de Lord Blunt, fugitivo de Shén-Li e portador da Gladius Aeternum, cruzou a Montanha Morta e vem à MINHA igreja para usar o MEU portal místico para restaurar a Vigília Sombria?!? — proclamou ele, apontando o dedo na minha direção.

— Como você... — Amellie arregalou os olhos, surpresa. Em seguida, virou-se para mim com um olhar assassino. — Bentho... eu mandei você não falar nada com NINGUÉM até eu retornar!

— Não falar com os Cavaleiros! — protestei, tentando me ajeitar nas cordas. — Eu estava conversando só com o Xitarro! Aquele... aquele bêbado semiconsciente que arrastávamos estava ouvindo sem autorização! Acredite em mim, a gente até descascou ele por isso!

— Por Bophades, Bentho! — Amellie jogou a cabeça para trás. — Você fez um loredump melhor do que o meu! Não faltou detalhe nenhum!

— Olha quem fala! — Capri interrompeu do alto da escada, cruzando os braços gigantescos. — Você ASSALTOU a Marquesa de Bearlord?!?

— Assaltou?!? — eu me espantei, encarando a barda. — E aquele papo de "fazer emendas" e "fazer valer o que jurou a Madame Morgan"?

— Eu JURO que tentei, mas aquela dondoca é intratável! — Amellie baixou a cabeça, o tom murchando. Em seguida, voltou a encarar o Monsenhor. — E do que VOCÊ, dentre todos os homens do continente, está reclamando, Capri? Há três anos você berrava que queria "esganar aquela franga"!

— Eu queria esganar ela ONTEM! mas não o FIZ! — bufou o Monsenhor, espalmando o corrimão da escadaria. — e EU sou o porra-louca da dupla! Você é quem deveria ser a metade estável! Como me faz uma idiotice dessas?"? O que foi que você aprontou lá dentro?

— Eu explodi a esquife de Cyrak na cara dela.

Um silêncio absoluto e constrangedor caiu sobre a sacristia. O poeirão da sala até parecia ter parado no ar.

— Isso... — Capri começou, massageando o queixo. — Isso é muito melhor do que esganar...

— Eu não fiz nada de errado... — Xitarro arriscou do meu lado, com a voz bem baixinha.

— Mesmo?!? — Capri o encarou com pura ironia. — Sabia que a criminalidade, tanto nos povoados quanto nos ermos, subiu quatro mil por cento nos últimos cinco dias devido ao suposto retorno de *Don-o-Ron, o Deus Guaxinim dos Ladrões*? Todos citando um certo catfolk chamado "Xitarro" como o profeta da causa? E pelo que entendi, você é um ... pirata náufrago ou... admito que eu estava muito bêbado na sua parte do relato.

— Eles não são piratas, Capri! — Amellie saiu em nossa defesa. — Só pegamos uma carona com o Jackie há algumas semanas.

— O Capitão Lizzo? — Capri espantou-se, relaxando a postura por um segundo. — Como aquele garoto está?

— Muito bem... — Amellie sorriu, nostálgica. — Ah, e eu finalmente conheci a tal imediata dele... Mas não gostei dela.

Deixei um riso abafado escapar. Os dois ficaram em silêncio um segundo, me encarando.

— Achou algo engraçado, Filho de Blunt? — Capri rosnou, cravando os olhos em mim.

— A dinâmica de vocês dois... — confessei, olhando do Monsenhor para a Amellie. — É... muito sincera. Eu realmente não esperava nada disso.

Capri deu outra bufada, tentando parecer contrariado, mas já estava completamente desguardado.

— Vou libertar vocês três agora, e manter o santuário concedido. — resmungou, por fim, descendo o restante dos degraus. — Amellie, o seu antigo quarto ficou para o Rúnvald. Vai se virar com as estadias temporárias.

— N-nós vamos poder usar o portal? — perguntei, sentindo a esperança acender.

— De forma alguma! — Capri retrucou, sem hesitar.

— Monsenhor... um amigo precisa disso! — protestei, inclinando o corpo enquanto ele começava a soltar os nós das minhas cordas. — Ele salvou a minha vida duas vezes... Eu devo essa a ele.

Capri terminou de libertar a Amellie e caminhou na minha direção, ajeitando as placas pesadas dos ombros.

— Deixa eu ver as joias, então.

— Estão com o Xitarro.

O Monsenhor pegou a bolsa de armazenamento — detendo-se por um segundo ao constatar que o garoto-gato já tinha tirado as próprias mãos das amarras há tempos, embora preferisse não dizer nada — e virou o conteúdo sobre a mesa de madeira rústica, Olhando com cuidado enquanto espalhava nosso saque com um estrondo.

— Opalas e diamantes negros. Isso é o que alimenta a matriz do portal... deve dar para pelo menos dois usos. Ida e volta — disse ele, separando as pedras reluzentes com os dedos calosos. — Os diamantes regulares são a doação de vocês à igreja.

— DOAÇÃO?!? — nós três protestamos em uníssono.

— Muito provavelmente vou ter que consumir essas pedras para trazer vocês de volta à vida! "Limbo das Sombras"... — resmungou o Monsenhor para si mesmo, cerrando os olhos. — E as safiras nós vamos mandar para o palácio, para a Marquesa esquecer de vez os eventos desta manhã...

— Mas... isso é o NOSSO loot! — reclamei, esfregando os pulsos vermelhos.

— Masmorra da Montanha Morta? Erguida por Lord Blunt? — Capri comentou, sem nem olhar para mim.

— Sim... Então, tecnicamente é antecipação de herança!

— Lord Blunt "tecnicamente" não seria um nobre exilado e proscrito, cujos bens pertencem por direito ao Estado de Shén-Li? — ele completou.

Nenhum de nós respondeu.

— Shén-Li, a quem estamos tratando há anos como aliados comerciais e militares? — continuou o Monsenhor, empurrando as gemas para o canto da mesa. — A meu ver, esse tesouro é tão ilegal quanto se vocês tivessem tirado do bolso do próprio Aetíades. Não quero as moedas com cunhagem oficial para não me enrolar mais do que já estou. Podem ficar com o que restou.

— Desde quando você se tornou esse "personagem político"? — Amellie observou, tombando a cabeça para o lado.

— Necessidade — o Monsenhor colocou o que restou das moedas e gemas de volta na bolsa e a atirou de volta para Xitarro. — Afinal... Você foi embora, Amellie.

A barda baixou a cabeça, o sorriso irônico desaparecendo por um instante.

O som grave de um sino ressoou do lado de fora, ecoando pelas paredes da catedral e indicando o meio-dia.

— "Obrigado, Ênia, sua vaca!" — Capri murmura, parte como prece, parte como resmungo insatisfeito. — Podemos almoçar agora. No fim da tarde o portal estará pronto.

Cardullion


— Uma bíblia de Cartallas... — Rúnvald entregou o livro encadernado em couro surrado a Xitarro. — Espero que o seu interesse na nossa igreja não seja só para ter passe livre para falar palavrão.

— Eu passei cinco anos... dos dez aos quinze, preso em uma ilha de quinze metros quadrados — Xitarro respondeu, folheando as páginas com cuidado para não enganchar as garras no papel antigo.

— Hmm... — O firbolg coçou o cavanhaque grisalho, emitindo um som grave do fundo do peito. — É... você se qualifica no requisito "Perseverança".

— O que exatamente significa a estampa desse bode no fecho? Esse "Capítulo de Cardullion"? — perguntei, apontando para as garras de ferro que prendiam o tomo.

Rúnvald soltou uma risada curta, que mais parecia um abalo sísmico no peito.

— Significa o braço rústico da fé, garoto. Os cavaleiros ligados ao Capítulo de Cardullion lida diretamente com os bárbaros das montanhas. Você queria o quê? Que eles usassem rapé e fizessem reverência de mesura? Se um cavaleiro tentar aplicar o dogma refinado de uma catedral em cima de um guerreiro tribal que perdeu toda a sua linhagem, ele leva um machado na testa antes de terminar a bênção.

Ele apontou para a própria armadura e completou:

— Eles são rústicos por necessidade, mas nunca desrespeitosos. Protegem as estradas, ampliam o alcance da igreja e ajudam esse povo a reencontrar o próprio destino. Para você entender a divisão: Eu sou ligado ao Capítulo de Pallas que é a nossa cavalaria regular; o Capítulo de Cartallas as extensões coordenadas pelo Monsenhor pessoalmente; e o de Cardullion são cavaleiros andantes e é a linha de frente na poeira.

— Faz sentido — comentou Xitarro, sem tirar os olhos do papel. — A rusticidade gera confiança.

— É mais do que isso — Rúnvald ficou sério, cruzando os braços gigantescos. — É reparação. O Império e a guerra de Bearlord quase varreram a etnia do mapa. O Monsenhor levantou esta igreja e o Capítulo de Cardullion para garantir que os sobreviventes e seus descendentes tenham para onde voltar, com cavaleiros dispostos a escoltá-los, erguer abrigo e falar a língua deles sem frescura diplomática. Se para ajudar esse povo a regressar à sua terra nós tivermos que ser meio rudes e comer poeira na estrada, que seja. Cartallas não se importa com a compostura das suas botas, mas com a firmeza do seu passo.

Ele balançou a cabeça, encarando o pátio silencioso onde a poeira da luta entre Khao e Capri ainda baixava. Enquanto o firbolg absorvia o peso da própria fala, inclinei meu corpo contra um pilar de pedra e puxei um palito do bolso.

— É... justo — comecei, limpando um dente com a ponta do palito —, mas olhando pelo lado prático do nosso lado da moeda... a má notícia é que, se surgirem esses tais "Máscaras de Don-o-Ron" em todo o lugar, eles vão suplantar os "Corvos de Morval" em questão de semanas em Shén-li. Isso significa concorrência mais competente para o nosso empreendimento, mais trabalho para a Igreja e Bearlord.

— E qual é a boa notícia? — Xitarro estranhou, erguendo os olhos do livro.

— A boa notícia: agora despistamos os meus pais e o Capitão Khao não está mais caçando a gente. Podemos finalmente voltar para Shén-Li assim que restaurarmos Virgílio na Terra das Somb...

— *Limbo* das Sombras — Rúnvald corrigiu, sem nem pestanejar. — Você sequer sabe o que é esse lugar, garoto?

— Hmm... O meu pai seguiu uma pista no começo da carreira dele para forjar a armadura original lá — puxei da memória, tentando lembrar das histórias vagas da infância. — A Amellie fala que ele até fez um amigo naquele lugar, o que eu acho bem difícil de crer... Não ter gente lá, mas meu pai fazer amigos.

— O Limbo das Sombras é um subdomínio do próprio Submundo — explicou o firbolg, a voz descendo uma oitava, como o som de cascalho rolando. — Pense nele como o domínio do vazio, uma passagem obrigatória para a terra dos mortos. Aqueles que têm a passagem livre sob a graça da Dama-Doji (a Garça, Deusa da Velhice e da Morte Natural) são os poucos felizardos que cruzam direto. Mas todas as outras formas de morte... as mortes de merda, violentas, injustas, ou aquelas em que a vítima deixou assuntos inacabados... todas deixam sua marca sombria por lá.

Ele fez uma pausa.

— A vida não deveria existir naquele lugar.

— A própria Gladys não sugeriu que era mais fácil chegar lá pelo Submundo do que tentar ir direto? — Xitarro relembrou, erguendo a cabeça do livro.

— Bem, o meu pai conseguiu... e ele nem era o todo-poderoso "Lord Blunt" na época... — argumentei.

— Mas ele já era um líder de Horda, e escolheu ir sozinho — Rúnvald insistiu, encarando-me com seus olhos calmos e profundos. — Talvez esse seja o seu verdadeiro talento dos Blunt... A sua forma de sobreviver. Fazendo cagadas incompreensíveis e pegando a Morte de surpresa.


O Gigante


O cheiro denso de incenso de resina misturado à umidade da pedra antiga preenchia o pequeno cubículo. Amellie estava sentada atrás da grade de madeira, o corpo tenso, pronta para disparar o cinismo habitual que sempre lhe serviu de escudo. Do outro lado da divisória, o silêncio de Capri era vasto como uma montanha. Amellie mudou muito desde que foi a Shén-li. E Capri sentia que algo faltava nela. E Amellie dentre tantas emendas que fez, jamais fez uma última.

— As outras igrejas usam isso como desculpa para roubar segredos de devotos e vendê-los por influência em cortes elegantes... Você sabe, não sabe? — Amellie perguntou, soltando um riso seco que morreu antes de alcançar seus olhos.

— Eu sou um péssimo sacerdote — a voz do Monsenhor ressoou do outro lado, grave e profunda, feito o rosnar de placas tectônicas se acomodando. — Não saberia o que fazer com um segredo nem se ele valesse moedas de ouro. E você tem uma língua de prata... poderia mentir o quanto quisesse e eu acreditaria. Só... fale o que precisa falar.

Amellie mordeu o lábio inferior até sentir o gosto metálico. A máscara de barda e a persona de Janete Quá começavam a estilhaçar.

— Eu sou um gigante — ela começou, a voz oscilando.

— Você já me contou histórias bem melhores que essa — interrompeu Capri, sem ponta de malícia, soltando uma risada abafada achando que ouvia apenas mais uma das baboseiras da amiga.

— Você me mandou confessar, não mandou?! Agora escuta! — Amellie explodiu em um sussurro furioso, encostando a testa na grade. — Eu sou colossalmente grande. Do tipo... em que vocês, mortais, são menos que formigas. Ou ao menos eu era. Eu pisava em vocês sem nem gastar pensamento. Gigantes não devem satisfação a insetos.

Uma lágrima quente escorreu por sua bochecha, mas ela a enxugou com ignorância, escondendo o rosto na penumbra. Na mente, flashes de um passado antigo voltavam: de quando enxergava os bárbaros como brutos de mil metros que podia manipular apenas amarrando uma corda no pescoço de um bode.

— E sabe o que isso me tornou? Sozinha. O tempo todo — a voz dela ruiu. — Todo mundo se aproxima porque o gigante é grandioso, mas ninguém aguenta olhar para o quanto ele é terrível. Sem amigos de verdade. Amantes ocasionais que viraram inimigos amargurados... Tribos inteiras que eu joguei umas contra as outras como se fossem peças de um jogo fútil. Até a morte... até a morte foi só um inconveniente técnico. A morte também era uma formiguinha pra mim.

Do outro lado, o som do riso de Capri sumiu. Ele fechou o cenho na escuridão do cubículo, em absoluto e pesado silêncio, absorvendo a assombrosa confissão que se desenrolava.

Amellie agora chorava sem contenção, descarregando o peso e a culpa de décadas de arrogância em um único e convulsivo desabafo.

— Mas um dia... eu encolhi — ela soluçou, abraçando o Alaúde de Mogno contra o peito como se fosse um escudo. — E agora eu vejo o mundo pela altura das formigas. Eu vejo as marcas do pé do gigante por toda parte. Vejo o quanto as pessoas o odiavam. Elas me contam sobre os crimes que esse gigante cometeu, sem saber que fui eu quem assistiu a tudo lá do alto, cabeça além das nuvens... E agora qualquer um poderia me pisar do mesmo jeito que eu pisava os outros. Eu tenho medo, Capri. Eu deveria ser pisada. Uma parte de mim queria continuar sendo o gigante — não para pisar nos outros, mas para conseguir não me importar... Só que agora eu me importo. Eu me importo com tudo.

O som da madeira pesada rangendo ecoou pela sacristia. Capri destravou a porta do confessionário e se colocou de pé. Ele era uma figura monumental, um colosso de carne e fardos. Ele abriu a portinhola lateral e olhou para baixo.

Lá estava Amellie. Pequena, encolhida, com o rosto encharcado de lágrimas.

— Eu adoraria esmagar a cabeça desse gigante... — disse Capri. Havia uma verdade brutal e honesta em seu tom. — Eu perdi irmãos de arma para esse mesmo gigante. Mas eu também esmaguei formigas que carregavam o meu próprio sangue nestas montanhas quando a fúria cega me levava. Sei bem o quão enevoante é ser gigante!

O Monsenhor estendeu uma mão gigantesca e calejada. Não para punir, mas para acolher.

— A Perseverança que eu aprendi a pregar não é sobre fingir que o gigante nunca existiu. É sobre aceitar que o gigante morreu e aprender a andar com o que sobrou dele. Aceitar e seguir em frente.

Amellie soltou um arfar profundo, o corpo tremendo enquanto sentia a gravidade do segredo finalmente se dissipar no ar, dissolvido naquela metáfora. Monsenhor achava que falava de algo, ou compreendeu tudo? Quem liga?

— "Eu sou um gigante"... — Capri deu um sorriso terno, quase paternal, voltando a fechar a portinhola. — Você continua sendo a melhor contadora de histórias que eu conheço, garota.

Amellie enxugou os olhos vivazes com a manga do vestido, soltando um riso fraco entre os últimos soluços.

— E você? Quando foi que virou um mentiroso tão talentoso?

Capri piscou, genuinamente confuso.

— Como é? Mentiroso EU?!?

— Eu quase acreditei quando você disse que era um péssimo sacerdote.

O silêncio voltou a tomar conta do confessionário, mas desta vez não havia peso. Pela primeira vez em duas vidas completas, a Primeira Escriba da história do Bode havia escrito o capítulo mais difícil e aterrorizante de sua existência: a sua própria absolvição.

Epílogo

— Eu preferia o outro alaúde... — Xitarro olhava com desdém para o Alaúde de Mogno. — Esse cheira a queimado... e morte.

— É menos charmoso, mas mais elegante... e absurdamente mais poderoso! — Amellie insistiu, abraçando o instrumento contra o peito com um brilho renovado nos olhos.

— Você tem certeza de que esse tal "Shadowlimbo" tem gravidade? — perguntei, ajeitando as alças da bolsa. — Depois do que passamos na mansão, perdendo ar, gravidade e som... Será que o Monsenhor não empresta a Avalanch...

— Não! — Capri urrou, antes mesmo que eu terminasse a palavra.

— [NÃO!] — Gladys ressoou na minha mente quase simultaneamente, vibrando a bainha em um acesso de puro ciúme.

Estávamos no salão principal de missas, diante de um arco macabro esculpido em ossos de marfim. Um círculo de gemas negras distribuído pelo Monsenhor queimava em chamas silenciosas, soltando uma fumaça densa que se transformava em uma névoa azulada. Lentamente, o tecido do espaço se rasgava, revelando a passagem.

— O portal fica aberto por uma hora — explicou o Monsenhor, observando o vórtice se firmar. — Como o solo do meu lado é sagrado, as chances de alguma aberração atravessar de lá para cá são baixas... Mas eu e os cavaleiros ficaremos a postos.

— Mesmo se acharmos a forja imediatamente, consertar uma armadura e restaurar a Vigília Sombria leva muito mais do que uma hora — relembrei. — Talvez dias, semanas. Pode fechar quando nós passarmos.

— Quando estivermos prontos... — Amellie meteu a mão no bolso, tirando um par de esferas mensageiras de cristal e entregando uma a Capri. — Avisamos por isso aqui. É só você reabrir o portal. Deixamos mais opalas com você.

— A missa de amanhã não vai ser bem agradável com esse trambolho atrás de meu púlpito... — Capri resmungou irônico, cruzando os braços gigantescos. — Mas desmontar e remontar pode ser um problema em caso de emergência.

— Monsenhor... — dei um passo à frente. — Eu realmente não consigo encontrar palavras para agradecer ao senhor por tudo... Pelo que fez com o Khao, por nos ajudar com o Virgílio...

Capri se agachou devagar para alinhar seu rosto colossal à altura dos meus olhos. Ele colocou uma mão sábia, pesada e serena sobre o meu ombro e aproximou a boca da minha orelha.

— Se você magoar a Amellie... — ele sussurrou, a voz caindo em um tom tão grave que fez meus dentes vibrarem. — Eu vou encontrar você e atirá-lo do topo de um penhasco. Não importa quem sejam seus pais.

Ele deu dois "tapinhas amigáveis" no meu ombro para disfarçar a ameaça, quase me enterrando alguns centímetros no piso de pedra.

— Próxima parada... — Xitarro sacou o bastão, girando-o no ar com um entusiasmo sanguinário. — Terra do Limbo das Sombras! E o que quer que esteja nos esperando lá dentro!

— Mas antes... — Amellie se adiantou, parando a um passo do portal e encarando Capri com um ar repleto de mistério. — Tenho uma última missão para você, Monsenhor.

— Eu já não estou fazendo muito, garota?

Amellie olhou para mim de canto de olho e sorriu.

— Preciso que você encontre três lendas da literatura... — comentou ela. — Inagami... Renai... e Omar Yarol. Você vai entender o porquê no caminho.

— Quer que eu mande um dos cavaleiros atrás de...

— Tem que ser você — Amellie insistiu, irredutível.

— Meu tempo de andarilho acabou! — ele bufou. — Eu sou a cabeça de toda...

— Se você não se divertir com o resultado, eu como meu alaúde! — Amellie sorriu, transbordando uma confiança enigmática.

— Se voltar com o alaúde velho, eu ajudo a temperar esse aí... — Xitarro concordo, soltando um riso gutural.

Capri resmungou e rolou os olhos, dando a entender, com a pior das más vontades, que faria o que foi pedido.

O arco de ossos estalou e o portal azulado se expandiu, largo o suficiente para a travessia. Chegara a hora de dar o passo em direção ao próximo capítulo.

Novos perigos.

Uma terra de mortos na borda do próprio Submundo... Quem será que iríamos encontrar por lá?



0 comentários: