A pancada do metal contra a névoa ressoava através do tempo. Mas lá fora, no mundo dos vivos, o som que importava era o do vento cortando as escarpas do Vale de Alaxar.
Khao é, no papel, personagem forte e seguidor sério da lei. Tal qual Javer de Les Mis; ou o inspetor Fix de A Volta ao Mundo Em 80 Dias. O questão é que, quando eles vencem, a história acaba.
Então, obras longas ou atrasam da eventual vitória, ou eles perdem.
E Khao teve MUITAS derrotas.
Com uma transformação do personagem, decidi que seria a hora dele ganhar algumas wins para variar.
Parte I: A Presa Suprema
Eu sou Khao do Pedermonte. Ainda não sei se ainda posso me chamar de "Capitão Khao da Nova Guarda". Por isso, tirei a armadura. Por agora... potencialmente em definitivo.
Eu vi algo que não imaginei antes. Caravanas. Pessoas como eu, viajando pelas estradas. Estava em Shén-li quando as primeiras notícias da Guerra de Bearlord chegaram. E quando terminaram. Achei que era o fim, mas estava assistindo a um recomeço.
Mas será que EU sou digno?
Aos catorze anos, participei da minha primeira caçada ao Grande Carneiro Montanhês. Graças às táticas de emboscada da tribo, o carneiro veio na minha direção. Eu dei o golpe que o derrubou. Aquilo parecia o presságio de grandes coisas para mim... e foi a última vez que me achei realmente importante.
Explicando: antes do inverno, Pallas, o deus protetor do povo nativo, lança a "Presa Suprema". O Grande Carneiro é absurdamente forte. Absurdamente inteligente. Capaz de correr por superfícies íngremes que homens teriam dificuldade até para escalar. Se uma tribo conseguisse caçar o carneiro e oferecê-lo ao deus, eles perdurariam pelo inverno... Caso falhassem, sacrificariam um bode comum e humildemente pediriam desculpas por não terem sido fortes o suficiente, prometendo ser melhores no ano seguinte.
Abusando dessa tradição, Cyrak nos levou à guerra. À beira da extinção. E eu não estava lá para interferir. Estava em Shén-li... vigiando Lord Blunt.
Hoje, falam de "Cartallas", um deus que não liga para tradições... ao menos é o que ele me passa. Nem sei se Pallas ainda existe. Não sei se eu poderia aceitar esse novo deus, muito menos o tal "Cardulion". Irônico, considerando que até ontem eu ostentava a águia de Aetíades na armadura.
Eu não me apresentei à caravana. Via, atrás do Vale de Alaxar, a fumaça de onde seria o assentamento, o embrião da nova encarnação dos bárbaros das montanhas. Não sabia se podia ir até lá...
...até que tive um sinal.
O Grande Carneiro da Montanha.
Vi a criatura correndo por uma escarpa quase totalmente vertical. Estava esbaforido, parecia cansado, embora ainda absurdamente rápido... E era fora da época da caçada, mas aquilo parecia profundamente simbólico.
Eu me esgueirei pelo topo da escarpa, ao encontro dele fora de suas vistas. Como um caçador faria.
Meus pulmões ardiam. Não era mais um garoto. Acredito que ele não percebeu que eu corria acima dele, mas eu não deixaria espaço para fuga. Precisava escolher o momento exato de pular. Usaria a queda contra ele, mas precisava sobreviver após isso; precisava de um platô embaixo.
Vi a oportunidade em uma protuberância que eu poderia planejar cair. Não era o ideal, mas era a minha chance.
Corri pela escarpa até começar a perder o contato... e então, saltei.
Vi a presa se aproximar cada vez mais...
...e ela, agilmente, se esquivou. Apanhei apenas vento e desci como um petardo até o platô abaixo, caindo pesadamente.
Bem... se um único caçador capturasse um Grande Carneiro sem ajuda, isso significaria se tornar o "Chefe dos Chefes". Nem mesmo os maiores líderes da nossa história fizeram tal feito. Eu não estava destinado a capturar a Presa Definitiva sozinho.
Eu teria uma parceira involuntária.
O Carneiro buscou o chão alto para escapar de mim, e quase caiu em outra emboscada. O rugido furioso a entregou. Um enorme vulto, assombrosamente rápido para o tamanho, chegou a roçar no pelo do animal.
Era Avelã, a ursa-atroz.
Ela provavelmente era o motivo de o carneiro estar correndo para começo de conversa, tendo escapado da grande besta de 4 metros que encontrei ao chegar nas montanhas. Ela estava na posição que quase me deu a chance de pegá-lo. Minha tentativa fracassada deu à ursa a oportunidade de alcançá-lo. Chegou mais perto do que eu... mas falhou, também por pouco, e rolou pela escarpa. Ela não pensou em um platô como eu pensei, mas eventualmente firmou as garras e começou a escalar.
O Carneiro correu na direção oposta à que vinha, mais longe da ursa. Ia passar por cima de mim... Veio na minha direção mais uma vez, mas em teoria fora de meu alcance, como caçador cauteloso... Eu não tinha a segurança de uma base abaixo para tentar cair com ela. Não tinha espaço para corrida. Não havia margem. Não havia como planejar.
Então, não planejei.
Eu saltei. Tive fé.
Eu CACEI o Carneiro Montanhês mais uma vez! Eu era um dos escolhidos de Pallas! Um dos mais fortes entre os fortes!
Parte II: A Língua das Bestas
Minha vez de ser o Narrador. 🐐
Khao e a ursa? Foi a caçada mais ridícula que nós já vimos. O gorila com a mão de pedra querendo despencar... e a ursa precisava treinar cárdio, quase vomitou as tripas. Mas eles conseguiram. Nunca achei que o Veterano pensava bem em suas provinhas...
Se o janotinha de Shén-li fosse mais ousado, teríamos duas oferendas: Carneiro e gorila. Oh, bem... A ursa estava escalando até onde nós dois estávamos. O peso do carneiro não era nada para a garota; ela podia ter ficado com a perna que o macaco pegou... podia ter carregado mais dez pernas.
Mas ela não esperava achar OUTRO daqueles "grandes carneiros" que caçou aqui em cima. Nem a mim, ao seu lado.
Um bodinho lindo que observava a cena do alto do platô.
— Sério? A espécie predadora invasora? — o carneiro resmungou.
— Sério? O maneta de Shén-li? — retruquei.
Avelã rosnou. Não dava para culpá-la: mal um estranho tentou roubar seu jantar, agora duas "presas" discutiam na sua frente sem respeito por ela.
— Curioso você questionar MINHAS escolhas depois do Capri — provocou o veterano.
— Capri não foi "escolha", foi o que restou — retruquei, torcendo o focinho. — Demos sorte com ele. Ele era maneiro.
— "Maneiro"... Capri era o maior campeão do inimigo! Sim, não tínhamos opção mas... A sua escolha é a montaria do inimigo! Algo absurdo e fora de local!
— ... Que está há anos sobrevivendo nas suas montanhas, suas "provações" quando deveria ter morrido pelo raciocínio do povo! — cortei de forma sagaz. — Já o seu escolhido viveu a vida mansa no estrangeiro, coçando o saco até hoje decidir lembrar que já morou aqui!
Avelã urrou e investiu. Se para defender a carcaça ou porque queria devorar nós dois junto, não saberia dizer. Mas eu estava me divertindo com a discussão.
Precisei me agigantar um pouco. Encaixei os meus chifres de prata no espaço entre as garras da ursa, mas não mais que isso, queria que ela achasse que era uma luta justa. Agora tínhamos tamanhos similares, Mas ela era mortal. Eu era ... Bárbaro!
— Isso é heresia! — o carneiro veterano resmungou. — Essa besta está afrontando você!
— Que nada! — Eu ri de volta, me divertindo com a disputa de força. — Ela só está querendo brincar, não é fofinha?
— Beh, você é a teimosia encarnada, Cardullion! Não vou convencê-lo de nada! — o veterano enfim decidiu. — Então, peço o mesmo para o meu escolhido. Só aceite. Faça sua coisa com a ursa, e eu faço a minha com o Khao.
Como um desfecho, eu ergui minha cabeça, levantando a ursa-atroz de quatro metros até o zênite antes de depositá-la com um pouquinho de pujança no chão, apenas atordoada uns instantes. Trotei de volta.
— Para não dizer que sou intransigente... — respondi com contentamento. — Abaixe aí.
Voltei às dimensões mortais. Pallas rebaixou a cabeça.
Seus chifres tocaram os meus.
Então, nós voltamos a ser o Terceiro. O Regente das Montanhas. O Deus da Perseverança.
Cartallas.
Parte III: A Tribo de Dois
Dei a primeira bocada na carne ainda crua. Não higiênico, mas era necessário. A fogueira que improvisei já estava formando brasa; iria cozinhar o resto.
O ideal era que eu e Avelã comêssemos juntos... mas eu realmente não sabia como proceder quando um dos caçadores era um animal retornando à selvageria, e que poderia querer meus intestinos como sobremesa...
Foi quando ouvi os rosnados dela vindo do platô acima de mim, para onde ela arrastou a sua parte (bem, quase a totalidade) da caça.
Achei que ouvia... vozes? Pelo menos dois discutindo como velhos rabugentos...
De repente, um barulho seco ecoou e o chão vibrou, como se algo enorme se chocasse contra a rocha. Segundos depois...
UMA COLUNA DE CHAMAS VERDES COBRIU TODO O TOPO DO PENHASCO!
— AVELÃ! — eu urrei.
Comecei a escalar apressadamente. Afundava o punho de concreto nos trechos fofos de pedra para criar apoio onde não existia, mas eu não tinha a facilidade da ursa ou dos carneiros.
Eventualmente, cheguei ao topo.
Era um descampado calcinado. Avelã estava no centro, movendo-se devagar, se levantando com dificuldade e com focos de fogo verde estalando sobre seu pelo espesso e soltando fumaça.
— Calma, eu ajudo! — urrei por instinto.
Saquei minha capa de capitão e envolvi o corpanzil dela, sufocando as chamas que conseguia ver.
— Calma, garota — falava, tentando tranquilizá-la. — Você está bem?
— Você está pisando no meu focinho! — ela respondeu. Voz rouca, firme e segura de si.
— Tá... desculpe.
Eu recuei e...
...
Peraí.


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