O portal se abriu entre as névoas do Limbo das Sombras, rasgando o tecido da realidade com um chiado úmido.
A névoa azul, espessa e gélida, limitava a visão a poucas centenas de metros, mas a sensação era a de uma planície infinita e desolada — um vazio sepulcral onde o próprio ar pesava contra o peito, denso de opressão.
Três silhuetas surgiram da passagem, hesitando em dar o próximo passo. Antes que pudessem avançar, o samurai de pesada armadura azul adiantou-se no vapor. Ele berrou uma ordem-saudação em um idioma gutural, arrastado e estranho... mas os três invasores não pareceram entender. Ou simplesmente não estavam dispostos a escutar.
— Qual de vocês... é o Portador da Gladius Aeternum? — o samurai ordenou de novo. Desta vez, usou o idioma do continente, mas os vocábulos saíram duros, trincados, como se ele forçasse a língua a articular sons de um mundo já esquecido.
Um jovem de cabelos negros e pele morena deu um passo à frente do grupo. Em sua mão direita, ele estendia uma espada longa e delgada, cuja lâmina pulsava em uma luminância roxa e soturna.
A Gladius Aeternum. A Espada do Pacto.
— Você ousa me enfrentar, Iorikijin? — o jovem perguntou, com um tom de voz que não aceitava contestação.
O guardião removeu o elmo, revelando feições rígidas. Olhos amendoados, pele oliva e longos cabelos tingidos de branco, presos em um coque severo.
— Você não está sozinho... não é? — observou o guardião, apertando o cabo de sua lança.
— Tenho dois servos, e uma horda atrás de mim — o jovem retrucou, frio. — O que você tem?
— Se uma horda atravessar a passagem... — o samurai fez uma pausa, buscando as palavras corretas no idioma imperfeito, mas a ameaça passou com clareza cristalina — ...todos os mortos se voltarão contra você.
O jovem silenciou por um segundo. A cabeça levemente inclinada, como se escutasse um sussurro invisível vindo do aço de sua espada. Para os bruxos daquela linhagem, a Gladius Aeternum era mais do que uma arma: era a mentora, a vontade soberana das forças do submundo guiando seu hospedeiro.
— Como assim "todos os mortos"? — o jovem desafiou.
— O Limbo das Sombras não coaduna com a vida. Só morte — declarou o samurai, ajustando a base dos pés no solo estéril. — Aqui estão todos os que já morreram, desde muito antes da Era dos Deuses Antigos. Para cada pessoa viva na sua terra... há sete mil mortos aqui. Sempre que um soldado da sua horda tombar neste solo, ele se tornará mais um soldado servindo aos mortos. Você pode se julgar poderoso, Portador da Espada Eterna... mas o triunfo é matematicamente impossível.
Ao lado do jovem bruxo, a figura que o acompanhava em silêncio deu um passo à frente. Usava um pesado capuz negro, com grossas correntes caindo sobre os ombros. Quando ergueu a cabeça para encarar a escuridão, a luz mágica revelou uma franja escura sobre olhos de um vermelho vivo, presas protuberantes e uma mão direita completamente desprovida de carne — apenas ossos alvos e articulados.
— A legião de malditos pode servi-lo neste caso, meu senhor — deduziu o ser de capuz, a voz suave e soturna. — Não há vida entre os meus.
O jovem líder fez um gesto sutil com a mão livre, descartando a sugestão. Em seguida, ergueu o queixo, encarando o guardião de armadura azul.
— Se uma horda entrar, causará um distúrbio por excesso de vida — o bruxo raciocinou alto. — Mas e se um homem entrar sozinho? Haverá distúrbio?
O samurai hesitou. O olhar amendoado varreu o jovem com uma mistura de cautela e respeito involuntário.
— Sim... haverá — declamou o guardião, por fim. — Mas esse distúrbio será... controlável.
O jovem voltou-se para a entrada do portal. Atrás do ser de capuz, a terceira figura aguardava: uma fera imponente, um guerreiro de ombros largos e presas expostas, exalando a violência bruta de um predador de elite da Marca Rubra.
— O tolo está armando uma armadilha, meu senhor — a fera rosnou, o tom grave fazendo o ar do Limbo vibrar. — Ele acha que se só o senhor entrar, ele terá alguma chance de vencê-lo.
— Não sinto malícia nas palavras dele — o bruxo respondeu, sem sequer se dar ao trabalho de olhar para trás. — O que me incomoda é que ele não parece ter medo.
Um silêncio pesado caiu sobre o grupo. Ninguém ousava interrompê-lo.
— A Gladius Aeternum diz que ele foi instruído — explicou o portador da espada. — E que eu devo seguir sozinho.
— Meu senhor, como seu _senescal_... — o vampiro de capuz começou a intervir.
— Sim, usar a "semântica" dos mortos seria uma opção conveniente, Henfyl — o bruxo o interrompeu com firmeza. — Mas eu vou seguir sozinho ainda assim. Dê-me os projetos da Vigília Sombria. Depois, recuem com as tropas até as Cavernas de Han-do. Eu vou voltar mudado, irreconhecível, deste lugar... mas você me reconhecerá pela *Gladius Aeternum*. Ajub... você cuidará da disciplina da Horda na minha ausência.
O senescal vampírico retirou das mangas largas um estojo cilíndrico de couro negro e o entregou ao seu mestre. Ao lado, o bruto general da Marca Rubra bateu o punho fechado contra o peito com força suficiente para criar um hematoma, dando dois passos para trás em sinal de absoluta submissão.
O bruxo embainhou a espada com um estalo seco, guardou o cilindro no manto e deu o primeiro passo além do portal, adentrando definitivamente o domínio dos mortos.
Aquele jovem parecia pequeno demais para o poder que ostentava, quase insignificante diante do samurai coberto pela pesada armadura de talas de metal tradicional. Os olhos de serpente do garoto analisaram o ambiente infinito, o ar gélido e, por fim, o guardião que ousara ficar em seu caminho.
Com a voz firme, cortante e desprovida de qualquer hesitação, ele declarou:
— Eu sou Lord Blunt.
### **O PRESENTE**
— Temos gravidade... e o som parece normal — comentou Xitarro, encarando a vastidão e estalando o dedo paar testar os próprios ouvidos. — Mas o chão parece... "carne".
Olhei para baixo. Uma névoa intensa, púrpura e rasteira, cobria o solo até a altura das canelas, impedindo-nos de ver os próprios pés. Sacudi a capa, forçando uma corrente de ar. O vapor dissipou-se por um instante.
Olhos. Pequenos olhos negros e opacos, espalhados por uma superfície púrpura-escura. Alguns fechados, outros nos encarando fixamente através do ar denso.
Xitarro e eu saltamos para trás. Amellie, ao contrário, agachou-se sem hesitar.
— São cadáveres. Vorme púrpura.
— Uma ponte de cadáveres de vormes? — Xitarro franziu o cenho. — Que poético...
— Eu não achei poético! — reclamei.
Amellie ignorou e tocou a superfície gélida.
— Não há como eles sobreviverem aqui, por isso morreram. E... Pelo tempo que caminhamos... — ela olhou para trás, onde a cortina gélida já cobria nosso rastro. — ...devem ser vários agrupados.
— Quantos? — perguntou Xitarro.
— Dezoito... talvez vinte — calculou ela.
— Vinte vormes púrpuras? — reagi.
— Aproximadamente.
O vapor fluía pelos vincos da pele morta, dando a falsa impressão de que se mexiam.
Continuamos andando em linha reta. Amellie parou subitamente e olhou para trás. A névoa abriu uma brecha, revelando o mesmo padrão exato de olhos e peles laceradas. As mesmas vinte vormes, em uma repetição geométrica impossível.
— Interessante... — murmurou a barda.
— Não é interessante — retruquei com nojo.
Amellie sorriu.
— É um pouco interessante, vai.
— Estou vendo a saída! — Xitarro gritou, apontando para além da neblina.
— [A partir daqui vai haver "o distúrbio"...] — Gladys comentou em minha mente.
— Devagar, Xitarro! — alertei. — A Gladys está avisando algo...
— [Sabe como no Vazio não havia nada, e de vez em quando algo caía lá? Por isso, fora bolsões como a Mansão, não havia sequer gravidade?]
— Lembro — concordei em silêncio.
— [No Limbo das Sombras, é como se o universo não tivesse espaço para a vida] — Gladys filosofou. — [Ter um ser vivo aqui é como acender uma vela em um quarto hermeticamente fechado. Vai causar um grande distúrbio na escuridão. E a escuridão reage. Sendo três seres vivos a mais quando o natural é zero...]
— Entendo... — ponderei. — Seremos um grande chamariz da "morte" conceitual do Limbo. Talvez eu devesse ter vindo sozinho...
— Isso não é uma opção, Bentho — Amellie cortou.
— Por que só você pode fazer suas "aventuras" solo?
— Eu prefiro ir junto também — Xitarro acenou, embora parecesse esquisito. Ele olhava intensamente para Amellie, com uma postura rígida.
— [De qualquer forma... é tarde demais] — Gladys interrompe. — [Portais são diferentes das passagens de Han-do. Chegamos...]
Foi o tempo de Xitarro pisar além da última carcaça do Vorme púrpura para o cenário sob nossos pés se dissolver em névoa.
O ar clareou ligeiramente, revelando uma planície vasta e vazia, cortada por correntes de ar gélido... e dezenas de vultos enfileirados ao nosso redor. Eles não eram apenas translúcidos; eram silhuetas sombrias e massivas, desprovidas de feições, exceto por pares de olhos que brilhavam com uma luz azul gélida e aterrorizante na escuridão enevoada.
Um deles avançou — correndo e flutuando ao mesmo tempo em um movimento antinatural. Xitarro reagiu por instinto e desferiu um soco direto no que seria o queixo.
A entidade se desfez em fumaça, mas Xitarro soltou um berro de dor. A pele da sua mão escureceu na hora, com um aspecto necrótico e doloroso.
— O que era aquilo?!? — Amellie se adiantou. — Xitarro, deixa eu ver essa mão!
— Está queimando! — ele protestou.
Saquei Gladys e abri fogo. Meus raios místicos derrubavam os vultos com facilidade. Eram visivelmente mais fracos que humanos normais, o que me permitia rebentar vários com disparos divididos... mas a quantidade era absurda. Eles iam nos soterrar eventualmente.
— Amellie, a barraquinha! — falei com urgência.
— Não dá para levantar a estrutura tão rápido! — ela informou, tentando recuar.
— Não toquem neles! — Xitarro avisou, franzindo a testa. — E não deixem eles tocarem em vocês! Não vou poder usar esta mão, nem o bastão...
Um vulto se aproximou pela lateral. Usei Gladys para um corte defensivo, pretendendo apenas afastá-lo, mas um mero roçar da lâmina fez a criatura se desintegrar. Nada aconteceu comigo ou com a espada.
— Com armas é tranquilo! — berrei. — Amellie?
Ela mexia rápido em um anel no dedo.
— Todos perto de mim!
Não sei que tipo de encantamento ela ativou, mas um estalo e uma vibração eclodiram do anel, abrindo uma clareira de três metros ao nosso redor e destruindo os vultos mais próximos.
— Eu tive uma ideia — Xitarro comentou.
Com a folga momentânea, Amellie foi examinar o punho do monge, enquanto ele sacava algo da cintura usando a mão boa.
Uma arma mais leve. Uma...
Aff. Uma tonfa.
— Sério? — resmunguei.
— Bentho, foco! — Amellie me advertiu.
Eram muitos. Não mantinham formação e nem colaboravam entre si e, ainda assim, nos cercavam por todos os lados. Precisávamos entender como avançar. Como bastava um toque para dissolver os vultos, Xitarro seria nossa melhor vantagem por seus golpes rápidos, mas estava limitado a uma só mão. Meu "dano massivo" era um exagero desnecessário para alvos tão frágeis, e as magias de Amellie precisavam ser racionadas.
De repente, quatro vultos explodiram em sequência. Onde antes estavam as criaturas, flechas azuis estavam cravadas no solo.
Flechas?
M-mãe?
Um arqueiro em uma pesada armadura de placas samurai, laqueada em um azul profundo e ornamentada com dourado, posicionava-se além da multidão de espectros. Seus longos cabelos brancos escapavam por baixo do capacete imponente. Ele disparava com uma velocidade assustadora usando um arco longo decorado em dourado, a ponta de cada flecha brilhando com uma intensa energia azul, idêntica aos olhos dos vultos que ele destruía. Ele não estava cobrindo nossa posição; estava "cavando" um corredor na nossa direção.




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