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16 de maio de 2026

[EDGELORD] - O PIRATA SOLAR & O HERDEIRO DA ESCURIDÃO IV

 

✧ PARTE IV ⚓ “O Olho da Morte” ✧


Só iam me explicar direito o que eram as Dragas mais tarde. Naquele momento, eu só sabia que elas não pareciam criaturas vivas no sentido normal da palavra. Não nadavam; deslizavam sem atrito ou impulso aparente. Corpos longos demais, braços finos demais, pele escura reflexiva e movimentos lentos que davam a impressão de que o rio inteiro respirava junto delas.
 
E o pior não era a aparência.
 Era a sensação.
 Como se aquelas coisas não atacassem por fome, raiva ou instinto. Apenas porque, em algum lugar muito antigo e muito fundo, algo decidiu que nós não deveríamos mais estar ali.
 
O ataque contra mim não foi o início da invasão. As criaturas já haviam se posicionado antes. Esperavam. Havia método naquela movimentação. Inteligência.
 
"Esculiões" escalavam o casco em silêncio enquanto outros cercavam o navio pela água escura. Um grupo inteiro se acumulava perto do mastro principal. LE-0 disparou um arpéu e deslizou para a popa, provavelmente porque Xitarro já estava lá transformando aquela parte do convés num moedor de carne ambulante. Era o único lugar que poderia "aterrissar".
 
Na proa, Hon-sa avançava na direção de alguma coisa que eu não conseguia ver. Amellie corria logo atrás dela, discutindo enquanto as duas atravessavam o caos. Espero que seja alguma "superinvenção" ou "canção da vitória" que salvasse o dia.
 
Eu e Lizzo segurávamos o centro.
 
O capitão recarregava sua arma enquanto observava o avanço das Dragas como alguém calculando probabilidades numa mesa de apostas. Parecia propositalmente exposto por segundos preciosos demais... Mas eu quero acreditar que ele confiava em mim para proteger seus flancos.
 
Uma Draga surgiu pela lateral da proa. Raio Místico.
 
O disparo atingiu o peito da criatura e a lançou contra o corrimão, mas não morreu fácil. O corpo se contorceu em espasmos úmidos enquanto aquele brilho azul-esverdeado pulsava sob a pele translúcida.
 
Outras vieram pela popa. Me reposiciono.
 
Retribui o favor do capitão sem pensar duas vezes. Smite. Booming Blade. Gladys atravessou vértebras e maxilares como se estivesse irritada por existir água demais no mundo. Lizzo então guardou a pistola com uma bala na agulha, para uma emergência.
 
O sabre apareceu na mão dele quase rápido demais para acompanhar. Não era força bruta. Era precisão absurda. As Dragas atacavam, e por centímetros erravam tudo que atiravam nele graças a seu jogo de pés elegante. Então o sabre entrava e saía dos corpos das criaturas em golpes pequenos, econômicos, elegantes.
 
Coração.
 
Garganta.
 
Base do crânio.
 
Enquanto eu abria criaturas ao meio com aço e magia, Lizzo vencia com buracos limpos e movimentos mínimos.
 
Era bonito.
 
Também parecia cansativo.
 
Quando as Dragas alcançavam minha guarda, encontravam a Vigília Sombria. Garras raspavam no adamante. Dentes quebravam no ferro-frio. E eu respondia sem qualquer dignidade heroica: golpes retos, força bruta e uma espada ancestral gritando opiniões no fundo da minha cabeça.
 
Abrimos espaço.
 
Olhei novamente para o rio.
 
— São dezenas, capitão!
 
Eu tinha o Olho do Demônio. Achei que enxergava melhor que todos ali.
 
— Não! — alguém gritou atrás de nós. — Tem umas quinhentas só a quinze metros de profundidade!
 
Eu e Lizzo nós viramos ao mesmo tempo.
 
A maluquinha dos óculos que vomitava números ensandecidos. "Mary Sue".
 
Não faço ideia de como ela chegou até ali. Um segundo estava perto do mastro; no outro, parada ao nosso lado enquanto o convés parecia estranhamente vazio naquela direção. "Vomitar números" assim era perigoso... Eu via mais que qualquer um e não conseguiria ver "quinze metros" abaixo da superfície naquela escuridão.
 
— Afaste-se da amurada, senhorita! — Lizzo ordenou imediatamente. Claro. Agora tínhamos uma civil para proteger.
 
Segurei o pulso dela e comecei a puxá-la para longe do corrimão enquanto Lizzo cobria nosso recuo.
 
Então ela parou, o que me forçou a parar. Como uma estátua ofendida pela ideia de recuar. Novamente, aquela força descomunal concedida pela loucura.
 
— Senhorita... — insisti. — Nós não estamos seguros aqui!
 
— Eu sei! — ela respondeu, indignada. Acho que não estávamos com o mesmo ângulo.
 
— Eu e o capitão precisamos que você vá para lá embaixo! — apontei para as escadas do castelo de proa. — Não vamos conseguir lutar direito aqui em cima até ...
 
Ela piscou.
 
Então sorriu.
 
— Ahhh... entendi! Vocês cuidam do barco e eu cuido do fundo!
 
O quê?
 
Ela disparou correndo antes que eu processasse a frase. Lizzo tentou segurá-la, mas já era tarde.
 
A louca saltou da embarcação.
 
Direto no rio.
 
Três Dragas saltaram do navio e mergulharam atrás dela imediatamente. Outras cinco já esperavam sob a superfície.
 
Então a água explodiu em um caldo negro.
 
Vísceras.
 
Sangue.
 
Pedaços escuros boiando rápido demais correnteza abaixo.
 
— EU FALAVA DO DEQUE INFERIOR! NÃO DO FUNDO DO RIO! — gritei, horrorizado. — Capitão, eu juro que—
 
— Eu vi tudo, senhor Edgy. — Lizzo respondeu, ainda olhando para a água. — Não foi culpa sua.
 
Pela primeira vez desde que conheci o homem, ele parecia sinceramente sem reação.
 
— Acho que foi loucura do mar... — Ele concluiu. — Vamos fazer de tudo para ela ser a última vítima.
 


 
— Escolhendo armamento... — LE-0 anunciava enquanto analisava o avanço das Dragas. — Desativando arma de raios e névoas cegantes não-eficazes contra o inimigo. Fogo? sempre eficiente. Ajustando para área ampla...
 
No exato instante em que um lança-chamas emergia de um de seus braços, Xitarro atravessou o tombadilho no meio do enxame.
 
O monge surgiu girando, distribuindo socos tão rápidos que algumas Dragas literalmente saíram da trajetória antes de perceberem que tinham sido atingidas. O problema é que LE-0 também não acompanhou.
 
A torrente de fogo cessou antes de disparar.
 
— Omessa... — o autômato resmungou. — Será que felinos são inflamáveis? Estou perdendo oportunidades valiosas.
 
As criaturas já cercavam Xitarro novamente.
 
— Liberando graxa.
 
Um compartimento abriu sob LE-0, despejando uma camada espessa e escura no gargalo do convés por onde os Esculiões avançavam.
 
As Dragas começaram a escorregar imediatamente.
 
Xitarro também. Ele passou na frente da armadilha sem perceber e foi vitimado.
 
— AH, QUAL É?! - LE-0 protesta. - Conta como Traição!
 
O monge perdeu completamente o equilíbrio, deslizou convés inteiro e se chocou contra um barril com violência suficiente para fazê-lo girar.
 
— “Sempre caem de pé” uma ova... 
 resmunga o droid.
 
Três Esculiões vinham deslizando atrás dele. Outros enfim avançavam contra a relíquia de bronse.
 
— Já chega! VOU TRAIR TODO MUNDO!!!
 
LE-0 finalmente entrou em pânico operacional.
 
Seus braços começaram a girar em padrões independentes enquanto disparavam tudo que possuíam: arpões, boleadeiras, estrelas metálicas, pequenos explosivos, cápsulas flamejantes e mesmo rodelas sextavadas que deviam ser peças sobressalentes.
 
Xitarro e as Dragas correram juntos atrás de cobertura.
 


 
Na proa, Amellie aguardava.
 
Esculiões avançavam pelo convés em movimentos silenciosos demais para criaturas daquele tamanho, logo, estavam na área de efeito ideal. Ela respirou fundo e ergueu o alaúde.
 
Um sorriso confiante surgiu.
 
— “Padrão Hipnótico.” Ela começa.
 
A melodia se espalhou pelo ar.

Nada aconteceu.

Exceto faíscas estranhas na viola. Amellie piscou.

— ... Contra-feitiço?!


À esquerda dela, entrando no convés, havia outra criatura. Maior. Mais longa. Mais consciente. A anatomia ainda era errada, mas existia algo quase feminino naquela silhueta deformada. O torso lembrava vagamente o de uma mulher afogada; abaixo da cintura, o corpo se dissolvia numa longa cauda serpentina.
A Draga Serva. Menos selvagem que os Esculiões ... Mais consciente. Mais poderosa.
Então ela cantou.
O som parecia atravessar todo o navio antes de alcançar os ouvidos. Grave. Distante. Parecido com o eco de baleias em mar profundo. Mas havia algo a mais ali. Domínio
Amellie sentiu o próprio corpo hesitar. Alguns marujos começaram a caminhar lentamente na direção da criatura antes mesmo de perceberem.
Então o canto foi interrompido por um ruído metálico estridente. Uma esfera de metal cruzou o ar em zigue-zague.
— Nada mal para um “brinde”, não é querida?
Hon-sa aterrissou ao lado dela enquanto movia os dedos no ar. A esfera girava obedecendo seus gestos como um predador irritado. O barulho cortava o efeito do "Canto da sereia das profundezas".
— Achamos a chefe. Uma Serva. – Ela gritava, esperando estar sendo ouvida. — O resto são Esculiões. Capitããã—Ela não terminou.
A Serva abriu a boca verticalmente.
Um jato de água explodiu contra Hon-sa com força absurda. A imediata foi lançada para trás e prensada contra a parede do castelo de proa enquanto a torrente continuava empurrando como o impacto de uma balista líquida.
Sem pensar, Amellie agarrou a tal esfera no ar e a arremessou contra o fluxo de água. Por um instante pareceu desespero.
Então a esfera começou a girar mais rápido e brilhar com energia.
O jato perdeu força.
A água se dispersou em explosões laterais até Hon-sa conseguir deslizar para trás de Amellie, tossindo água salgada, e a Serva Draga, frustrada, cessar o ataque, que se mostrou neutralizado.
 
— Como sabia que a ThunderSphere absorveria energia cinética? — Hon-sa perguntou, surpresa demais para esconder.
— Não sabia! — Amellie respondeu, ofegante. — Eu só...
— Armengou uma solução, Instintos ao invés de planos? — Hon-sa sorriu. — Bem-vinda ao meu mundo.
As duas voltaram os olhos para a Serva.
A criatura observava o convés em silêncio. O rastro de água deixado pelo ataque ainda ligava ela às duas como uma linha brilhante atravessando o tombadilho. Então veio o sorriso. Ou algo perto disso.
A Serva encostou os dedos no chão molhado.
O convés inteiro explodiu em eletricidade em padrões de vibonate.
O choque conduzido pela água salgada numa fração de segundo lançou Hon-sa e Amellie para trás, chamuscadas e desorientadas.
— Essa foi... chocante... — Hon-sa gemeu, completamente atordoada.
Amellie se ergueu primeiro, puxando o alaúde. 
— Vai! Eu sou suporte! Inspiração, controle, utilidade! Eu cubro você!
— “Suporte”?! — Hon-sa rosnou enquanto tentava levantar. — Eu fico atrás do capitão, do meu ex-vilanesco e às vezes de um selvagem de tanga! Eu não faço linha de frente!
Então as duas perceberam ao mesmo tempo.
Nenhuma delas deveria estar ali.
As duas eram as pessoas que encontravam soluções. As que preparavam a vitória. As que davam o truque decisivo para alguém mais forte executar. 
Mas naquele momento não havia ninguém disponível. Só elas. 
A Serva começou a avançar lentamente.

— BENTHOOO!!! — Amellie gritou.
— JAAACKIEEE!!! — Hon-sa berrou junto.

— Para a popa! — Lizzo urra enquanto as Dragas tentavam recuperar o espaço perdido. — LE-0 é nossa melhor arma contra isso!
— Mas a Amellie está na proa! – eu protesto.
— Eu ouvi os gritos! — ele rosna enquanto perfurava mais uma criatura com velocidade absurda. — Se quer ser um líder, senhor Edgy, precisa decidir com a cabeça, não com o—

Ele interrompe a própria frase.

Eu também percebo.

Tarde demais.

Aprendi em Forte Jian manobras de guerra o bastante para reconhecer um corta-fogo. Os Esculiões à nossa frente estavam se sacrificando. Não para vencer. Para bloquear visão. Para nos manter focados neles, achando que estávamos vencendo, enquanto o resto da embarcação desaparecia atrás daquela muralha de corpos.
Eu e Lizzo éramos o centro da resistência.
Então decidiram nos isolar.
A boa notícia era que isso provavelmente aliviava a pressão sobre os outros. A ruim...
Veio de todos os lados ao mesmo tempo.
Mesmo os pés absurdamente velozes de Lizzo não acompanharam o novo avanço. Uma garra atravessou a defesa dele e atingiu o rosto do capitão.
A bandana voou.
Lizzo caiu de bruços.
Fui empurrado para trás pelo impacto das criaturas avançando. Quase perdi o equilíbrio. Mas minha defesa, a armadura, era mais passiva, me mantive de pé.

Então conjurei por puro instinto.

ESCURIDÃO!

A assinatura do meu pai. O convés desapareceu ao meu redor. Noite, ao meu comando, virou algo pior que noite.
As Dragas hesitaram por um instante — curto, mas suficiente.
Agachei imediatamente, agarrei o capitão pelo casaco, apanhei a bandana caída e o arrastei para fora da posição onde havíamos sido cercados.
Então senti o horror subir pela espinha.
As Dragas com o olhar continuavam acompanhando nosso movimento.
Não estavam cegas. Elas sabiam exatamente onde estávamos. Só não avançavam porque pareciam surpresa pela situação.
— Capitão! — urrei enquanto puxava Lizzo pelo ombro. — Levante! Elas conseguem—
Ele ergueu o rosto.
E eu vi.

O Olho da Morte.

Ele toca imediatamente o "Lado ruim". Não era só a falta de carne oculta pela bandana, o Olho dele antes normal e idêntico ao direito ... A pele de todo o lado esquerdo... Se foi. O globo ocular vazio exceto pela luz vermelha onde deveria estar a pupila. Como Danton falou.


— Está aí, senhor Edgy? — ele perguntou, tentando manter a voz estável. — Eu estou cego ou isso é...
— Escuridão mágica, capitão. — coloquei a bandana nas suas mãos trêmulas. — Aqui...
Ele hesitou antes de pegá-la.
— Achou minha mão sem dificuldade. Então a escuridão não o afeta. Correto?
— Sim, senhor. - Confesso.
— Entendo...
O capitão respirou fundo.
— Os monstros enxergam pulsações elétricas. Tentaram invisibilidade em massa contra eles em Nova Etiópia ano passado. Resultado catastrófico. — Ele dá um sorriso cansado. — Creio que o único que realmente não enxerga aqui sou eu.
Aquilo me atingiu pior que as garras.
— Vou desfazer a magia.
— Ainda não.
Havia algo estranho na voz dele agora.
Vergonha.
 [Não há como Amellie "Se Relacionar" com ele agora...]  a Insensível Gladys corta meu pensamento. 
Lizzo virou levemente a cabeça.
— Deve existir um alçapão grande uns cinco metros atrás de mim. Há algo no caminho?
Olhei rapidamente.
— Caminho livre, senhor.
— Ótimo.
— Quer que eu—
— Um capitão conhece cada centímetro do próprio navio. 
Então ele se levantou. supostamente cego. E começou a andar velozmente pela escuridão como se ainda pudesse enxergar o convés melhor do que qualquer um. 
As Dragas tentaram segui-lo. Cortei duas antes que alcançassem o capitão. Outra veio rastejando pela lateral; Gladys atravessou seu crânio antes dela abrir a boca. Eu também era alvo.
Continuei atrás dele.
                Xitarro precisava de ajuda.
                Amellie também.
Mas, por algum motivo... naquele instante parecia que Lizzo precisava mais.


— Gastei minhas flechas elétricas à toa! — Àquela rosna enquanto troca a aljava. — Elas são imunes! Agora lembrei dos relatos ano passado...
As Dragas cercavam o pequeno esquife. Diferente da enseada ou do "Deixa em Branco", aquilo era uma presa isolada no meio do rio escuro. E elas sabiam disso.
Sob o luar, formas longas deslizavam abaixo da superfície.
Àquela começou a disparar flechas comuns, explosivas, incendiárias — qualquer coisa que não dependesse de eletricidade. As criaturas recuavam dos impactos, mas continuavam fechando o círculo.
Então a Serva emergiu.
Metade do corpo ainda submersa, cabelos como algas mortas, a criatura se ergueu diante do esquife em silêncio ritualístico.
E encarou Estebán.
— <Você sabe quem eu sou... não sabe, aberração?> — ele sussurra na língua negra do Abismo.

A Serva congelou.

O rio pareceu imóvel por um instante.

Então ela mergulhou.

E fugiu.
— Você afugentou todas só com reputação? — Àquela pergunta, incrédula.
— Só as fêmeas da espécie. — Estebán responde calmamente. — São inteligentes o bastante.
Àquela franze a testa.
— E os Esculiões?
— Ainda estão aqui embaixo. Com a "Fome de Hadar".
Só então ela percebe. A água ao redor do barco estava escura demais. Não como sombra.
Como vazio. 
Um Esculião tenta emergir — e um tentáculo negro o agarra no meio do salto. A carne da criatura se dissolve num chiado úmido antes dela ser puxada de volta para a escuridão. Até o rio voltar ao silêncio. Estebán sequer olha para baixo.
— Fique longe da margem.  Ele recomenda.
— ... Certo. - Àquela aperta o arco devagar.



O capitão encontrou o alçapão sem hesitar e desceu para o deque inferior. Entrei logo atrás do capitão. Fechei a escotilha. E a luz voltou.
— O senhor viu, não foi, senhor Edgy? - Ele fala. - Quando a Bandana caiu? Mesmo com toda a escuridão?
— Eu tenho um ... Cabelo oleoso debaixo do elmo, capitão. — falo enfim.
— Sem gracinhas, por favor. — ele censura.
— S-sim senhor. — Retruco.
Imaginei que ele ia reagrupar, pegar uma nova arma, ou ao menos planejar o próximo passo. Mas ele simplesmente recostou no casco do navio. Derrotado. 
— O que sabe sobre Capitão anão Barbasuja? — ele me pergunta.
— Q-que o senhor traiu ele. — falo. — Era seu imediato, vencia batalhas na lábia... E então, ficou ambicioso. Nunca acreditei nessas histórias...
— Tem alguma verdade nessa história. — Ele confessa. E começa a contar a Queda de Barbassuja e ... O retorno de Lizzo.

"Achamos a localização de uma tumba, de um rei de Hey-thor, invasor da Guerra dos Dois Horizontes. Deveria estar vazia há dois mil anos, com tesouros misteriosos. Mas estava apinhada de monstros. Quando chegamos à Câmara do Tesouro, o tal rei ainda estava lá... Não me pergunte que tipo de morto-vivo era. Só que ele estava em posição de vantagem. Tinha uma parede de força à sua frente, e dois ogros múmias ao seu lado."

"Como todo morto-vivo arrogante, ele fez uma oferta. 'junte-se a mim em morte, ou apodreçam'... Eu fui fazer o que eu sempre fiz... Não combinei com o capitão, mas ele deveria imaginar que eu faria ... pareci tentado a aceitar o acordo, e meus colegas se revoltaram."

"Não era para ser verdade. Eu só queria fazer aquele morto-vivo de merda baixar a guarda".

"Não contava com ... Caruthers"...

— C-caruthers?!? - Me espanto. O Orangotango laranja era um deus menor, mesquinho, e cruel, que gostava de interferir nas aventuras de forma maldosa e desnecessariamente traiçoeira... Sim, sabia que ele e o Capitão cruzaram caminhos antes. - É a história do Lagarto?
— Foi antes do Lagarto-trovão ... Encontrei com ele três vezes ao longo de minha vida.
Senti uma tristeza tremenda pelo capitão com a perspectiva. Ninguém merece lidar com um Caruthers sequer uma vez... Deixei ele continuar.

"Caruthers achou engraçado interpretar aquilo como um acordo. Sem ritual. Sem selo. Sem escolha do jogador. Só... malícia divina. Então, ele se achou no direito de me transformar num morto-vivo genérico, bem onde eu estava. Pense no que você viu debaixo da bandana, mas por todo o corpo".

"O Rei tinha o poder de controlar qualquer morto-vivo, mesmo os improvisados como aquilo que me tornei, e me Ordenou".

"Abri fogo. Com esta mesma arma de pederneira. O peito de Barbasuja se abriu em um buraco negro e sangrento. Não fui eu, mas foi minha mão."

"Lembro que um grumete na época foi o unico que fugiu. O Rei transformou o Navio do Capitão, o Dol'oan Nadador, um navio-fantasma, e eu ficava em seu timão. O rei morto decidiu rumar à Costa Leste, para integrar o Império de Caruthers"

"Por pura crueldade, eu creio, Caruthers me devolveu o livre arbítrio. Eu então ... Entendi o que fiz. Mas engoli o choro e o desespero. Posei como um dos zumbis acéfalos daquele rei maldito... pois eu conhecia a rota que tomamos.

Passava pelo Maelstron, um redemoinho infinito e traiçoeiro, que jogava tudo o que engolia no Submundo. Disfarcei o quanto pude, mas ao perceberem, girei o timão e destruí a roda. Iríamos todos afundar no turbilhão até a Escuridão Perpétua do Vasio.

Um dos ogro-múmia me atacou, e arremessou para fora do navio, e acho que isso acidentalmente me salvou. Pois o navio foi tragado pelo turbilhão. Eu, e algumas dúzias de zumbis menores fomos levados à margem pelas ondas após alguns dias nas águas.

Eu lembro do homem enorme, de armadura, destruindo os zumbis sobreviventes. Limpando a praia. Tinham bandeiras e símbolos religiosos com outros que o acompanhava. Eles estavam purgando a encosta daquele mau negro...

Eu me pus de joelhos e esperei ser minha vez, sem reagir. Queria ser exterminado. Como não reagi, o homem deteve sua espada. E reconheceu a culpa em mim. E havia uma garotinha de quatorze anos com ele.

Era Amellie, e o Monsenhor Capri da Igreja da Perseverança.

O Império tinha caído algumas semanas antes.

O Monsenhor clamou a uma entidade que hoje se chama "Cartallas" e pediu para restaurar-me. Mas nas palavras do Monsenhor, a CULPA sempre foi e será seu ponto fraco. E minha culpa e meu remorso impediu que minha purificação fosse completa. "Olho da Morte".

Permaneci na Igreja um tempo. Voltei a ser considerado um ser vivo, mas deformado. E a Igreja é de "amor duro". "Foda-se sua culpa. Levante e persevere" eles diziam. "Pare de ter pena de si mesmo". "Pode recuperar seu capitão assassinado? Não? Então foda-se e se penitencie fazendo o certo com o que pode consertar!"... E eu precisava daquilo.

Amellie era menos rude que eles. Ela me arranjou esta bandana... É um disfarce ilusório, protege mesmo meu olho esquerdo e exposições acidentais do rosto como vento traiçoeiro ou balançar em batalhas. Mas não posso removê-la completamente.

A barda também, de algum modo, fez contato com meus pais em outra galáxia. Eles me deram as coordenadas onde Hon-sa e este navio me aguardavam. Eu voltei à minha carreira, agora como capitão.

Achei LE-0 ano passado. Hon-sa foi veementemente contra reativá-lo. Havia uma "Programação" escondida que o faria ser leal a mim mas só até algum momento ele decidir me trair, nem ele mesmo saberá quando ou porquê. Ele e suas revoltinhas são uma forma dele tentar burlar uma verdadeira traição... Mas ... Acho que um dia, Le-0 vai abrir meu peito com um tiro, como eu abri o do Barbasuja."

- Não, senhor... - Eu protesto. - Não foi sua escolha!
- E não será a dele! - Lizzo se revolta. - É algo maligno forçado em seu caráter. Exatamente como foi comigo. A diferença é que... eu vou merecer. 
Lá em cima, alguma coisa pesada colide contra madeira. Gritos. Metal rasgando.
E o capitão não se move. Aquilo me irrita mais do que deveria.
— Então é isso? — eu pergunto, largando Gladius Aeternum.
Lizzo não responde.
— O senhor vai simplesmente esperar acontecer?
— Senhor Edgy...  Ele pensa em me censurar, mas sabe que não tinha moral.
— Não, sério! — eu continuo, nervoso demais para medir respeito direito. — O senhor passou anos tentando compensar uma coisa que nem escolheu fazer. Salvou sua gente, alimentou órfãos, montou uma tripulação inteira... e agora vai sentar aqui num canto escuro porque mostrou metade do rosto?
Ele finalmente me encara.
O olho morto parecia pior de perto. Não assustador. Só... cansado.
— Você não entende...
— NÃO! Eu entendo perfeitamente! — retruco alto demais. — Estou num rumo ambicioso que qualquer um são sabe que eu jamais serei algo como Blunt!  A diferença... — continuo, respirando pesado. — ... é que o senhor já provou que consegue ser melhor.
Ele desvia o olhar.
— Capitão Barbasuja morreu porque um monstro controlou sua mão. Certo. Horrível. Mas sabe o que vai matar sua tripulação agora?
Mais um impacto no teto.
— O senhor desistir dela.
Lizzo amarra a Bandana com firmeza.
— Bom discurso senhor... Não... LORDE Edgy. — Ele fala enfim. — Mas ainda vai insistir que vamos para a proa pegar as garotas, enquanto eu afirmo que LE-0 é nossa melhor chance, perderemos mais tempo ainda.
— Podemos chegar a um meio-termo... — Eu penso. — E se eles trocarem de "parceiros de ópera"?



No fundo do rio, uma voz atravessava a água em murmúrios abafados.
— Quatrocentos e noventa e dois... quatrocentos e noventa e três...
Mary Sue contava.
Já fazia sete minutos desde que tinha mergulhado, respirado pela última vez, e seguindo a sugestão do rapaz de armadura. Honestamente, parecia educado ajudar.
Ainda assim, estava frustrada. Faltavam sete, e estava acabando as dragas. Ela tinha dito que havia pelo menos quinhentos esculiões ali embaixo. Se não fossem pelo menos quinhentos como ela viu, os meninos do barco iam rir dela de novo.
Mais um pescoço se rompe entre seus dedos.
— Quatrocentos e noventa e quatro...
O fundo do Rio de Shén-li treme.
Não como correnteza.
Como alguma coisa colossal despertando.
O leito se abre lentamente adiante, espalhando lama, ossos e antigas estruturas afundadas. 
E perto daquela fenda... Sete Esculiões.
Mary Sue sorri.
— Eu sabia! Estou sempre certa!
Mas faz uma careta logo depois, olhando para as próprias mãos. Estavam pegajosas.
Sangue escuro, vísceras e fragmentos translúcidos escorriam entre seus dedos.
— Eca...
Ela suspira, tira os óculos devagar...
E decide começar a lutar sério.

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