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25 de agosto de 2026

EDGELORD - Cap. II - Arco da Perseverança

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Começamos com uma descida no cascalho logo após cairmos do Vazio, fugindo do colapso da Mansão de Cyrak. Depois veio a travessia da ravina: acampamos, conversamos, zoamos, brigamos com lobos falantes.
E agora... uma escarpa.

Um paredão íngreme açoitado por um vento congelante. Tínhamos equipamento e tínhamos Xitarro, que caminhava na parede quase vertical com a mesma facilidade que eu andaria em uma superfície plana. Mas nem de longe aquilo era seguro.

A culpa, no fim das contas, foi minha. Eu estava carregando peso demais e acabei ficando para trás. Tive orgulho de reclamar ou de pedir uma pausa ao ver Amellie e Xitarro subindo com tanta facilidade.

Por causa disso, perdemos um dos nossos companheiros. Um desfalque irreparável para a Ledgyão.

As lendas das Montanhas Castanhas falam do "Vento Uivador", uma corrente de ar brutal que sopra entre as frestas das rochas; dizem que pode matar um homem desprotegido em minutos. Estávamos agasalhados, mas aquele último sopro doeu até o fundo dos meus ossos. Parei a escalada para abraçar o próprio corpo e tentar recuperar a sensibilidade dos dedos. Pelo que pude ver, Xitarro fizera o mesmo, embora estivesse quase no limite da corda que nos prendia. Amellie, contudo, continuava a subir quase o alcançando.

Eu já tinha ouvido alguns estalos antes... até que veio o evento que todo montanhista teme.

A rocha cedeu sob o meu espigão.

Eu caí.

A corda de segurança possuía múltiplas salvaguardas, e todas foram acionadas de uma vez. Amellie sentiu o solavanco da minha queda, mas seu gancho resistiu. Xitarro percebeu o perigo e cravou as garras na pedra, pronto para nos segurar caso o ponto de ancoragem de Amellie cedesse.

O problema é que parei em um trecho de rocha negativa — o paredão se projetava meio metro para fora, sem qualquer contato com os meus pés. Eu não tinha onde me apoiar, não podia fixar outro espigão nem ajudar de forma alguma. Estava inteiramente à mercê dos meus amigos.

E os estalos continuavam.

A pouca distância do meu peito, a corda começava a desfiar, soltando fibras como fios de cabelo mal penteados.

— Bentho! — Amellie gritou por entre o uivo do vento. — Segure firme!

Comecei a subir pela corda a seco. Queria alcançar a parte intacta antes que tudo se rompesse...

Não deu tempo.

Despenquei como um petardo.

Caí por bons cinco metros até sentir Gladys surgir espontaneamente na minha mão direita.

— [Atenção na encosta!] — ela ordenou na minha mente. — [Só vamos ter uma chance!]

Entendi o plano na hora.

Mais abaixo havia um paredão liso e contínuo. Nós o evitamos durante a subida por ser uma face rochosa sem fendas, mas agora ele era minha única esperança para reduzir a velocidade.

Cravei a lâmina de Gladys na rocha. Deslizamos abrindo um sulco profundo, lançando faíscas e cascalho. Meus ombros ardiam com o esforço, mas mantive as mãos firmes.

Enfim, parei...

...Mas Gladys começou a deslizar para fora da fenda em pequenos lances.

— [Está pesado demais!] — ela alertou. — [Livre-se do peso!]

— Tudo o que eu tenho está na Sacola de Armazenamento! — protestei, sem fôlego. — O peso é insignificante!

— [Não... Não tudo.]

Um gelo desceu pela minha espinha. Percebi na hora o que ela estava insinuando.

— Eu não posso largar o Virgílio! — gritei contra o vento.

— [Eu tolerei seu apego infantil, mas ela não é um ser vivo! Você é!] — Gladys contra-argumentou com severidade. — [SOLTE-A!]

— Bentho, estou chegando! Aguenta! — ouvi o berro de Xitarro vindo do alto, embora não pudesse vê-lo. O som de suas garras raspando a rocha estava cada vez mais perto.

Gladys cedeu mais um pouco. A lâmina vibrava no limite do metal.

— Só mais alguns segundos! — supliquei.

— [Eu estava lá quando seu pai forjou a Armadura no Limbo das Sombras. Eu a respeito... mas como um instrumento!] — a espada insistiu, implacável. — [Tal qual ela, minha missão é proteger o Portador.]

— Gladys... por favor...

Houve um segundo de silêncio absoluto.

A ponta da lâmina começou a se afastar da fenda. Uma chuva de pedrinhas caía sobre mim, indicando que Xitarro estava a poucos metros — tão perto, mas ainda inalcançável.

Então, a voz de Gladys ressoou, fria e diretiva:

— [Vigília Sombria... você põe em perigo o Sangue de Blunt.]

A mochila nas minhas costas sacudiu violentamente.

Soltei uma das mãos para tentar segurá-la, quase perdendo o equilíbrio. As peças metálicas da armadura começaram a se rearranjar Sozinhas dentro da bolsa, esquivando-se do meu toque.

De repente, a estrutura ejetou-se da mochila.


Vi a forma esquelética de metal negro despencar. Atravessou a névoa fria da montanha e desapareceu na escuridão da base.

Dez segundos depois, veio o eco do impacto final: um estrondo seco de ferro se despedaçando contra a rocha.

Nem vi quando a garra de Xitarro finalmente se cravou no meu pulso.

Fiquei completamente entregue enquanto ele me puxava de volta para um trecho escalável. Eu estava tão anestesiado que nem notei quando desanquei Gladys da rocha e a embainhei no automático.

— Bentho! Você está bem?! — o monge perguntou, arfando.

— A G-Gladys me salvou... — murmurei, a voz embargada. — E Virgílio me salvou...

— Vamos esperar a Amellie — disse ele, tentando me acalmar.

— Não. Vai lá ajudar ela — respondi, enxugando as lágrimas com a manga do casaco. — Chega de acidentes. Eu vou descer. Talvez... talvez ainda dê para recuperar as peças.

— Bentho, não acho uma boa ideia...

— Eu preciso fazer isso, Xitarro! — esbravejei, caindo em si com uma raiva impotente.

O catfolk assentiu em silêncio e voltou a subir para dar suporte à barda. Fixei um novo espigão na rocha e verifiquei a tensão da corda.

Inspirei fundo, invoquei Gladys de volta ao cinto e comecei a descida sozinho rumo ao nevoeiro.




— Foi cortada, não foi? — Xitarro indaga Amellie.

— Não. — Ela fala. Quando soube que Bentho estava bem, ela decidiu reaver a corda que foi rompida. — É estranho uma corda romper, mas não foi lâmina, calor, ou atrito. Para todos os efeitos, a fibra irregular mostra um ponto fraco que não suportou. E Bentho realmente estava pesado.

— Então a espada é inocente ao menos nisso?

— Não iria tão longe, mas não podemos provar. — Amellie suspira. — Mesmo considerando que ela sabia que poderia salvar Bentho, ganhar pontos caso a gente confrontasse ela... A Armadura é parte do Bruxo. Ela não largaria a armadura mais importante do continente, não acha?

— Eu... — Xitarro baixa a cabeça confuso. — Não tenho capacidade de elaborar como vocês. E é melhor eu nem saber, não é mesmo?

Amellie olha triste para o monge.

— Bem, a espada estava certa. Vigilia Sombria era extraordinária, mas uma armadura. A vida de Bentho era mais importante... Mas ele não vai pensar assim. Vamos... Vamos guardar luto e respeito por ele.

— Certo. — o Monge concorda. — Vamos descer.



Dois cavaleiros surgiram no horizonte, ostentando flâmulas marrons ao vento. Um parecia mais próspero — um anão robusto em uma armadura adornada —, enquanto o outro era um jovem humano vestindo um gibão reforçado para se proteger do frio. Pareciam cavaleiros andantes.

Cavalos tinham alcance limitado nas Montanhas Castanhas; poucas eram as passagens com solo plano o bastante para cavalgadas longas. Por isso, enquanto o anão, que parecia o líder, manteve-se à distância, o jovem de gibão — um escudeiro, arriscaria Khao — cavalgou em sua mula até o solo ficar pedregoso demais. Ali, desmontou e seguiu a pé, parando a respeitáveis doze metros do Capitão.

Khao havia tirado a armadura reluzente e acendera uma fogueira de carvão mineral — um truque clássico de seu povo para esconder a fumaça. Sem identificação e com o peito exposto ao Vento Uivador, ele tomara o cuidado de envolver o antebraço esquerdo com uma manta puída para ocultar seu braço petrificado, uma identificação inegável.

— Está longe de tudo, estranho! — gritou o jovem, com uma confiança (ou petulância) desconcertante. — Não há caça por estas paragens. Está em viagem?

— Pode-se dizer que sim — Khao retrucou, firme.

— Não vejo armas com o senhor — o rapaz insistiu, estreitando os olhos.

— Talvez eu não queira que as veja.

O jovem sorriu, debochado. Virou-se para o cavaleiro anão no topo do declive e urrou:

— Thur-gûn ur-kâz durn-gâr!

— Respeite o estranho, garoto! — ordenou o anão, esbravejando no idioma comum. — Fale o que quiser falar na cara dele, não em meu idioma!

O escudeiro se voltou para Khao, pronto para inventar uma desculpa, mas o Capitão o interrompeu antes:

— "Um bárbaro orgulhoso e perdido" — recitou Khao com sotaque perfeito. — Eu conheço o idioma do Povo Robusto de Dol'oan.

— Hmm... culto... — o jovem deu de ombros, sem se abalar. — Vamos resumir, então.

— Faça o seu pior — Khao o desafiou, tensionando os músculos do tronco.

O rapaz olhou para trás, encarou o Capitão de cima a baixo e franziu a testa, confuso:

— O... o senhor acha que eu vim fazer o quê? Assaltá-lo?

Khao arqueou as sobrancelhas.

— Era o que parecia.

O jovem ajoelhou-se devagar, colocou uma bolsa de lona sobre o cascalho e começou a recuar. Deu alguns passos de costas antes de se virar e caminhar de volta à sua montaria.

— Se seguir nessa direção, vai dar direto na Marca de Bearlord! — informou o cavaleiro anão, gritando do alto. — Mas acho que seu destino é mais ao norte, contornando o penhasco!

— E por que você acha que eu não deveria ir para Bearlord? — Khao desafiou, apontando com o queixo para o volume na poeira. — E o que é isto na sacola?

— Ração desidratada, vinho velho e um mapa geral da região — o escudeiro respondeu, ajustando a sela da mula. — Achamos que você estava a caminho do chamado. O Assentamento de Teth Ymosso.

— Ymosso foi um chefe das Tribos Baixas — observou Khao. — Morreu na Guerra de Bearlord.

— Bem informado, o sujeito... — riu o anão. — Batizaram o assentamento em homenagem a ele. Mas se preferir ir à Marca de Bearlord para cortejar a Lady Ydal ou encher o saco do meu chefe na Igreja da Perseverança, fique à vontade!

Khao buscou na memória as antigas interações que tinha com os homens do Império em sua juventude. Aqueles novos "homens da lei" eram bem mais rústicos e afetados, mas transbordavam um tipo diferente de postura...

— Vocês são Cavaleiros de Cartallas?

— Eu sou — respondeu o anão, estufando o peito. — Capítulo de Cardullion. Este aqui ainda não, é meu escudeiro... embora não seja dos melhores!

— Foda-se — resmungou o jovem humano, sem se importar.

Khao era alto comandante das forças da Nova guarda. Aquela informalidade e falta de disciplina absoluta eram simplesmente desnorteantes.

— E vocês viajam por aí... "ajudando" bárbaros?

— Podemos usar a palavra "bárbaros"? — riu o cavaleiro anão, divertido. — As mocinhas das aldeias nos ameaçam de "cancelamento" se não os chamarmos de "povos das montanhas" ou "nativos originais".

— Bem-vindo às montanhas, "original"! — o escudeiro zombou, montando na mula e pondo-se a trotar ao lado de seu senhor. — E persevere!



A armadura mudava de forma, mas o elmo sempre era o mesmo.

Desde o tempo do Levante de Blunt.

Desde a primeira vez em que o coloquei no rosto na Donjon.

Agora, o elmo estava partido.

A segunda metade só foi encontrada a vinte metros do rochedo onde imaginei que ocorreu a primeira colisão. Eu trazia nos braços um punhado de ferragens retorcidas; algumas exigiam uma dose amarga de imaginação para deduzir que, um dia, aquilo fora uma armadura. Ou uma forma semi-humanoide. Um amigo. Eu juntei o que achei em uma primeira procura... Mas sei que há mais por aqui.

Xitarro e Amellie finalmente se aproximaram. Caminhavam em silêncio.

Eu sabia exatamente o que pensavam: que eu estava exagerando, que era só um monte de metal.

— [Há um meio-termo, Bentho.]

Gladys?

— [Eu não me arrependo do que fiz. Salvei sua vida no limite das minhas condições, mas não me sinto feliz por ser a responsável pela destruição da Vigília Sombria.]

— Eu... eu entendo — falo, enfim. — A culpa foi minha. Eu deveria ter verificado a tensão da corda. Eu...

— Bentho? — Amellie dá um passo à frente, os olhos fixos na espada na minha cintura. — A Gladys está...

— Está tentando tirar a culpa de cima de mim — digo, me levantando. A poeira da montanha cobria meu rosto, misturando-se ao suor e formando uma crosta cinzenta. — A Armadura de Lord Blunt... a armadura do Lord Edgy... se foi.

— [Não necessariamente.]

Olho para a empunhadura, surpreso.

— Gladys? O que quer dizer?

Amellie e Xitarro me rodeiam na hora, compenetrados, quase como se pudessem ouvir a voz ressoando na minha mente.

— [As Cavernas de Han-do ficam a dez dias daqui. Há uma passagem para o Submundo, um labirinto perigoso. Mas, a partir do Submundo, teríamos acesso direto ao Limbo das Sombras.]

— O Limbo das Sombras... — vocalizo para os dois. — Foi lá que a mestra ferreira Hamme forjou a Vigília Sombria.

— [Após tantos anos, é provável que ela já tenha partido. Mas suas ferramentas devem continuar lá... com sorte, talvez um aprendiz.]

— A Gladys está sugerindo ir às Cavernas de Han-do! — explico aos meus companheiros, recuperando um resquício de esperança. — Para achar o lugar onde a Virgílio possa ser restaurada!

— Han-do? Tsk... — Amellie resmunga. Havia uma hesitação estranha em seu tom. — Se o objetivo é apenas chegar ao Limbo, não bastaria usar um portal direto?

— Um... portal?

— A Igreja da Perseverança tem um portal, e nós temos as gemas do cofre da Montanha Morta para alimentá-lo — Amellie lembra, cruzando os braços. — Por mais que eu adorasse uma viagem até a casa de Bophades após um labirinto mortal, se apertarmos o passo, no fim da tarde chegamos à Marca de Bearlord e vamos direto ao destino.

— Pergunte à Gladys se isso é uma alternativa — interveio Xitarro, desconfiado.

Espero a resposta mental.

— Ela... ela está aliviada por nossa jornada ser mais curta! — comemoro. — Mas... tem certeza disso, Amellie?

— É pelo Edgy... e pela Virgílio — Amellie comenta, desviando o olhar.

— O quê?! — Xitarro pisca, perdido.

— A Amellie não queria usar os recursos da Igreja nas nossas "vilanias" — explico ao monge. — Foi algo que conversamos antes de eu te encontrar.

— Já que você tocou no assunto... — Amellie hesita, o semblante ficando sério. — Eu talvez não deva entrar com vocês na cidade.

— O quê?! Por quê?

— Eu pude fazer emendas com a Morgan. Mas há uma viúva em Bearlord... Uma que faz a bruxa da Mansão parecer uma vovozinha que faz doces.

— A esposa de Bearlord? A Lady Ydal?

Amellie baixa o olhar, o tom pesado.

— Assim que entrarem na igreja, peçam santuário — recomenda a barda. — Não façam tratativas com ninguém até que o bode velho, o Monsenhor ou algum oficial sóbrio, venha até vocês. Se o assunto do portal surgir, conversem sobre ele. Senão, fiquem quietos e me esperem.

— "Santuário". Entendi. Algo mais?

— Bem... os Cavaleiros de Cartallas são meio desbocados. Se preparem.




Omar Yarol. "A Canção Entre as Lâminas".

A capa tinha um acabamento arcano — uma pequena pintura extremamente realista. Minha juventude. Meu ápice. Vivia aventuras, triunfava. Era cortejado pelas mais belas donzelas, mas respeitosamente as rejeitava, pois "A estrada era minha única paixão". 

Cyrak, Geddarm, Shorthalt... Omar Yarol, ou "Omar Ioral", era um dos grandes.

Eu tenho uma dezena de livros com essa capa. Me renderiam um ano de vida bem confortável se os vendesse.

Aquele era o primeiro exemplar que eu vendia nos últimos treze anos. Um senhor mais velho, cabelos negros, olhar cansado. Pagou com moedas de cunhagem de Shén-li...

... O reino da minha ruína. Onde Omar Yarol se tornou uma piada, um farsante.

O velho andarilho usava um manto muito grosso e prático, mas não parecia nativo de Shén-li. Não captei sotaques específicos... E honestamente, se ele insinuasse que queria pechinchar, levaria meu livro por um terço do que pagou.

Dos salões de sarau, das festas em minha honra nas principais aldeias do mundo, me resta Poeira da Estrada: um povoado com um pequeno templo, uma guilda, uma estátua de bode e a taverna onde, até ontem, eu tinha uma dívida que garantiria ao dono a posse da minha pele vermelha.

Omar Yarol sou eu.


 Ínfero. Chegando à velhice, enfim. Minhas roupas remetem às da capa do livro, mas obviamente apenas as traças ainda as apreciavam.

Minal, o taverneiro, olha para mim com desdém.
— Eu vendi um livro! — falo, enfim. — Vim acertar minha dívida!

Ele não acreditava até eu despejar as moedas no balcão. Sua ampla testa se enrugou de surpresa. Ele recuou até o fundo da sua estação para apanhar os cadernos de fiado.

— Cunhagem de Shén-li! — observei. — Pode ter valor de colecionador! Elas...

— Uma moeda de Shén-li vale exatamente uma moeda!

Ele conta aquela pequena fortuna que eu auferi, rabisca no livro e me mostra o resultado.

Meu sorriso desaparece.

— Duas peças de cobre abaixo... — constato. — Jurava que teria um troco... ou... um caldo quente?

Ele cerra as sobrancelhas.

— Eu realmente queria comemorar — insisto. — Pode ser a renascença de Omar Yarol! Outros podem vir atrás dos livros!

— Eu vou deixar de lado os cobres faltantes e dar o caldo quente... — Minal fala, arrancando a minha pendura do livro. — Mas, à noite, você faz o entretenimento ao lado do meu sobrinho.

Esforço-me para manter o sorriso enquanto concordo com a cabeça.

— Sabe dizer se ele... melhorou com o alaúde? — pergunto.

— Você me diz... Você é o instrutor dele!

Pois é. Ganhei alguns meses de teto e comida dando aulas para um jovem de dedos curtos e com a ilusão de que é um novo Cyrak.

Sento-me e observo uma das cópias do meu livro, que trago esperando o caldo.

Aqui estão as histórias de quando fui a Shén-li.

Duelei com o Capitão Khao por um incidente na ponte. Cortei fora seu lendário braço de concreto.

(Mas colei de volta. Estamos de boa).

Quando ouvi sobre a fuga de Lord Blunt, rastreei os passos até ver que Lady Àquela, a Arqueira Lendária, tinha sido capturada na estrada.

Intervim.

Derrotei o Bruxo da Lâmina Negra.

Bem... Nada disso aconteceu.

Também não reencontrei a ilha de Hatamon, perdida há duzentos anos, não cavalguei nas costas de Phyrros, nem integrei em segredo o Trio Quimera. Mas eu disse que fiz essas coisas. E o público amou.

Não ter compromisso com a verdade é libertador... As minhas histórias eram melhor que as verdadeiras. Não precisava pegar fôlego entre uma luta e outra. Os vilões caíam em minhas artimanhas. Eu controlava o conflito, e me saia bem sempre... até que a verdade o alcança.

Como fazia agora.

As portas da taverna são escancaradas de uma vez. A luz cega nossos olhos, já habituados à penumbra interna. O vento frio torna ignorar aquele ato rude impossível.

— Quem deixa o frio entrar vai se ver comigo! — urra Minal, deixando meu caldo e enrolando as mangas de suas vestes. — Falta de consideração, seu... sua... Oh, em nome dos... Deuses...

Não.

Não podia ser...

Ela... olha para mim. Murmura: "Omar? é você mesmo?!?"... Mas é impossível...


 

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