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16 de agosto de 2026

EDGELORD - EPÍLOGO - Arco da Montanha Morta


Eu sonhei com um dia de dois anos atrás.

O "Cadete Mamãe" estava lá para me receber. O uniforme de cadete dele, uma versão de gala um pouco justa demais nos ombros...

Então, acordei. Era noite fechada. Não tinha noção de tempo, se acabou de escurecer ou o sol surgiria por trás daquelas montanhas marrons.

Eu estava envolvida na capa roxa de "Lord Edgy". Bentho ainda estava de armadura ao meu lado; o garoto simplesmente apagou de exaustão. Não era um acampamento de verdade. Tínhamos apenas uma fogueira franzina e alguns galhos e moitas secas mal distribuídos para barrar o vento cortante da altitude. Como estávamos numa encosta íngreme e eu havia desabado num choro inconsolável, eles preferiram improvisar um abrigo ali mesmo.

— Você acordou — a voz mansa de Xitarro quebrou o estalar do fogo. — Está bem?

— Eu... acho que sim — murmurei, ajustando o tecido pesado sobre os ombros. — Vocês ficaram aqui? Por minha causa?

— Bentho só dormiu tem uns minutos — o monge informou, ajeitando as garras. — Ele não me deixou ajudar a carregar você... Disse que ele mesmo faria. Eu até me ofereci para carregar ele depois, mas...

— Eu vou erguer a Barraquinha Arcana — interrompi, esforçando-me para sentar. — Só... preciso fazer uma coisa antes.

— Eu vou com você — disse o catfolk, estendendo a pata-mão para me ajudar a pisar na cascalheira instável da encosta.

— Eu preciso ir... sozinha.

— Sozinha? Eu imaginei — Xitarro compreendeu imediatamente, acenando levemente. — Só alguns metros, então. Até a curva da rocha. Depois eu volto para o acampamento.

Ele olhou de soslaio para Bentho. Depois para a cintura... Para a empunhadura da Gladius Aeternum.

Aquilo era uma novidade. Uma mudança sutil na postura dele.

Afastamo-nos alguns passos. Em tom baixo, quase balbuciado contra o vento, Xitarro falou:

— Desculpe por ter desconfiado de você. Você estava certa... A nossa "amiga" metálica não é legal.

Levei o indicador aos lábios, pedindo silêncio absoluto. A lâmina podia ouvir. Mas era um alívio imenso saber que Xitarro estava do meu lado agora... O que exatamente o fez mudar de ideia? Um dia, talvez, ele me contasse.

Dobrei uma rocha protuberante para me afastar da fogueira, garantindo que não seria vista nem ouvida por Bentho. Tirei a esfera do bolso. Aguardar Estebán e Àquela atender parecia uma tortura...

Cortei a comunicação antes de desabar de novo. Fiquei ali, na escuridão, encarando as nuvens roxas da montanha.




— Esta... — Khao rosnou, o olhar cravado no calçamento antigo parcialmente coberto pela vegetação e pela terra seca. — Não pode ser a Antiga Estrada Imperial!

— O desvio do seu amigo "guaxinim" nos tirou da Montanha Morta, Rhoy?! — surpreendeu-se Vlana.

Quando saíram por um túnel perfeitamente reto — no qual Rhoy identificara a mudança drástica na composição mineral da rocha, sem o fedor característico de petrume da Montanha Morta — os tenentes ainda olharam para trás, desconfiados.

— Tudo parece natural, mas grama não nasce na boca de uma caverna assim, do nada — observou o anão, ajoelhando-se no chão para examinar o solo. — Este túnel é recente... Eu diria que tem HORAS de existência! E para onde foi todo o entulho da escavação?

— Afinal de contas, o que era aquele guaxinim?! — Vlana olhava ao redor, abismada.

— Eu tenho um mapa... — Arletta desembrulhou um pergaminho da mochila. — São apenas alguns acres além da Montanha Morta, mas...

— Esqueça o mapa — Khao interrompeu, a voz grave ressoando como um trovão contido. — Estamos no Vale Arcaico, antes do Entroncamento dos Ossos. Dois dias de caminhada até a Marca de Bearlord.

— Não... Não posso afirmar isso com certeza — comentou Arletta, hesitante. — Rhoy?

— Esta é a terra do capitão — Ornub interveio, ajeitando as tiras de sua armadura. — Minha mãe falava da Horda que veio pelo Entroncamento dos Ossos. Estas já são as Zonas Selvagens.

— Ordens, Capitão? — perguntou Larrincher.

Khao baixou o semblante soturno. O vento das terras livres zumbia por suas orelhas e cabelos, trazendo o cheiro de urze, terra seca e poeira antiga.

— A Nova Guarda... Shén-li não tem autoridade além da Montanha Morta — decretou ele, com uma finalidade fria. — Fizemos descobertas cruciais sobre a masmorra. Devemos supor que os traidores já deixaram o local. A missão de vocês agora é simples: retornar ao alcance do rádio, reportar ao Comando e preparar uma incursão adequada para neutralizar as ameaças ainda ativas.

Arletta anotava as instruções rapidamente em um bloco de campo, embora soubesse que os relatórios detalhados seriam redigidos depois. No entanto, ela percebeu a falha evidente na construção da frase.

— O senhor disse... "Vocês".

— Sim — confirmou Khao, sem olhar para eles.

— O... O senhor não vem com a gente? — interrocou Ornub, dando um passo à frente.

— Shén-li não tem negócios aqui — o bárbaro no capitão rosnou, o olhar perdido nas curvas da estrada que subia a montanha. — Eu vou seguir sozinho.

— Capitão! Aquele garoto de armadura, o Lord Edgy, roubou o arsenal de Blunt por cima de mim... literalmente! — protestou Larrincher, o gnomo, indignado. — Eu vou com o senhor! Posso agir de forma não oficial, sem a farda...

— Vocês vão obedecer às ordens do seu CAPITÃO e ponto final! — Khao elevou a voz, e o rugido de seu esporro ecoou pelas paredes do vale, retornando em ecos segundos depois. — Ornub assume o comando dos meus fortes. Larrincher e Arletta, voltem para o Castelo Negro e assumam a Chefia de Sentinelas e o antigo cargo de Estebán, respectivamente.

— E para mim, uma folga? — Rhoy rindo, coçando a barba. — Por mim, tudo certo.

O Capitão havia decretado. Era o fim da incursão. Era uma despedida. Sem Khao, e com Lady Àquela formalmente debandando, a liderança da Nova Guarda se reduziu à metade.

— Boa viagem, capitão — Ornub bateu uma continência impecável, o olhar carregado de respeito ancestral. — Obrigado por confiar em mim.

Sob a autoridade de Ornub, os Tenentes da Nova Guarda viraram-se e iniciaram a marcha de retorno para dentro da caverna artificial.

Khao permaneceu sozinho à beira da estrada pavimentada, que riscava o vale de forma irregular, embrenhando-se entre penhascos e subindo em serpentinas íngremes rumo ao alto das Montanhas Castanhas.

Ele estivera fora por tempo demais.

Ele não era mais o bruto impetuoso que fora expulso daqueles vales na juventude, nem o monge disciplinado em busca de poder absoluto.

Era o Filho das Montanhas voltando para casa. E o acerto de contas contra o Sargento começava a cada passo que dava sobre aquela poeira antiga.




Àquela observava com os olhos semicerrados, já ajustado à escuridão do corredor que seguia a partir do campanário. Ele adentrava a rocha da montanha; no centro, dois esqueletos mantinham arcos armados, separados por exatamente nove metros de distância um do outro.

A arqueira colocou uma flecha na corda. Ponderou a trajetória, calculou o peso...

Não! — censurou Estebán, surgindo silenciosamente às suas costas. A luz do alvorecer banhava a silhueta do Senhor do Sombrio.

— Que susto! quase me revelou! — ela protestou, recuando um passo e baixando o arco, até estar oculta completamente dos esqueletos. — Só acho irônico você, que supostamente odeia mortos-vivos em masmorras, ter deixado esses dois aqui ...

— Não gosto de empilhar mortos-vivos em masmorras, mas sei seu valor. — corrigiu Estebán, impassível.

Recuaram ao antigo campanário da Montanha Morta, uma das entradas secretas da masmorra. O ponto mais alto da face oeste, debruçado sobre a imensidão da Ravina Avelã.

— Os esqueletos pesam vinte quilos cada... — explicou o marido. — Estão posicionados sobre alçapões ajustados para ceder com qualquer peso superior a isso. Eles seguram arcos para atacar à distância sem deixar sua posição, mas não têm órgãos ou carne para serem afetados por flechadas de retorno. O que um guerreiro ou bárbaro imprudente faria ao ver dois arqueiros ósseos naquela formação?

— Correria para fechar a distância antes que eles pudessem atirar...  — Deduz Àquela.

— E o peso combinado da carga extrapolaria o gatilho, o alçapão abriria e fecharia. — concluiu Estebán. — O idiota seria isolado do grupo, caindo dez metros em uma fossa de estacas, com dois mortos-vivos caindo logo atrás dele para terminar o serviço. Brilhante na simplicidade, não preciso de um Eyespy.

— Eu ainda não acho certo deixar uma armadilha dessas exposta aqui — resmungou a arqueira, mas sua atenção foi desviada. A esfera comunicadora em seu cinto começou a emitir um pulso de luz prateada. — A esfera... está brilhando! É a Amellie?! Eles voltaram?!

— Tem algumas horas. Senti a ressonância da Gladius Aeternum — confirmou Estebán. — Se você não estivesse brincando de exploradora de ruínas, eu já teria te avisado.

Os dois recolheram-se à penumbra da alcova do campanário. A Projeção de Amellie surgiu entre eles — a barda estava pálida, com o rosto limpo às pressas por um pedaço do próprio vestido, mas com os olhos ainda carregados de poeira e dor.

Ela deu a notícia sobre Morgan. Falou das palavras finais da oráculo, da estima de Myrlen, da carta não entrege, e do amor e da graça com que deveriam encarar os dias sombrios que viriam. E então, antes que o pranto a dominasse por completo, ela cortou o sinal de seu lado.

Àquela permaneceu em silêncio, o peito apertado pela tristeza, mas seu olhar buscou imediatamente o marido. Ela sabia que aquele golpe cortaria mais fundo nele.

— Morgan... Myrlen... Cyrak... — enumerou Estebán, a voz quase inaudível contra o vento do campanário. — Mesmo Katzophlis e o Arquidruida estão além do mundo. Eu sou o último de uma era. Alguns não eram meus amigos... Alguns eram meus inimigos... mas era a minha geração!

Àquela aproximou-se e abraçou o marido por trás, pousando os cabelos loiros sobre o ombro dele com infinita ternura.

— Você... quer continuar agora? — perguntou ela, suavemente. — Podemos acampar por um dia ou dois se você precisar de...

— Precisamos seguir. Por Bentho — determinou o Senhor do Sombrio, reerguendo a cabeça. — Mas não deste jeito.

Ele se afastou com passos firmes, retirando uma bolsa de armazenamento do cinto. Puxou um manto pesado de viagem, ideal para o clima das Montanhas Castanhas, e depois retirou um segundo volume envolto em feltro escuro.

— Você sabia que viríamos para o frio das montanhas? — Àquela franziu a testa.

— Aqui tem algo que pertence a você — afirmou ele, entregando-lhe o volume. — Isso vai protegê-la dos elementos. Eu ... Deveria ter pedido para você vestir isso há muito tempo... Mas agora, com os riscos que enfrentaremos, tornou-se imperativo.

Àquela abriu o pacote de feltro. Suas mãos trêmulas tocaram o acabamento em mithral, o couro trabalhado e o tom azul radiante inconfundível.

— Eu não... Eu não posso vestir isso — balbuciou ela, dando um passo para trás.

— Deixamos Shén-li para trás — insistiu Estebán, o tom firme e inabalável. — E sua verdadeira vocação ficou clara.

— Eu não sei se sou digna...

— A Nova Guarda jamais teria existido sem você — relembrou ele. — O Conselho Regente estaria mofando em um calabouço sem você intervindo na guerra. Eles é que deveriam pedir a sua autorização para usar essa heráldica, e não o contrário.

— Eu nunca me achei digna... — A esposa insistia. — Você sabe o peso que isso carrega.

— Já eu, nunca duvidei — afiançou Estebán, dando um passo à frente e segurando o queixo dela com gentileza. — Amellie disse a verdade... Bentho precisa de você, e você precisa dele. Não apenas porque você é uma boa arqueira, mas porque você precisa mostrar a ele o porquê de nós lutarmos.

Àquela olhou para a armadura em suas mãos. Nos últimos dias, o conflito interno a corroera por dentro. O desespero para proteger Bentho a levara por caminhos tenebrosos — a ponto de fazer o próprio "Senhor do Sombrio" pedir para que ela recuasse de volta à luz. Ela ferira a honra de Khao. Ferira a confiança de Bentho.

A pessoa que vestia aquela armadura era uma lenda viva de Shén-li. Alguém irreal, com feitos inatingíveis e uma moral impecável. Ela sentia que jamais estaria à altura do mito. Quando ela usava a armadura nos últimos anos, não era uma mentira. Era uma esperança. Fé de que um dia aquela figura reluzente fosse real.

Mas, ali no alto do campanário, encarando o vale que se abria para a terra de Cartallas, o espartilho de couro comum foi desabotoado.

O manto e o capuz rasgados caíram ao chão.

Os cabelos loiros soltaram-se ao vento da manhã.

E o aço, o mithral e o couro sagrado da Heroína da Nova Guarda foram ajustados ao seu corpo mais uma vez.




 

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