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19 de agosto de 2026

[EDGELORD] MARY SUE: ORIGINS


 Entrando nas Montanhas Castanhas, o Império (também chamado de "Império Humano", e depois "Império de Caruthers") vai entrar na narrativa...

... por que não aproveitar e explorar o prometido primeiro spin-off de EDGELORD?

"Mary Sue" é uma expressão clássica que surgiu numa fanfic de Star Trek sobre a personagem perfeita, uma autoimagem do autor, mas depois virou só o "personagem preferido" para quem as regras não valem.

Às vezes é um DMPC, ou só o personagem do melhor amigo - ou das namoradas.

Coisas como ser forte o suficiente, ter todas as magias, estar sempre certa como se o enredo se dobrasse para encaixar suas teorias.


Ou simplesmente: meu PJ tem atributos, talentos e está interagindo ativamente com o NPC, e então o NPC " enxerga através dele"  e diz: "ei... aquela não é a fulana que esteve aqui há um ano quando era nível 1?" Se referindo ao personagem do jogador que está calado, olhando o celular... e só por ISSO que o plot anda.


É... eu ainda guardo rancor.


Como tudo mais em Edgelord, há um spinn positivo (exceto Caruthers). Nossa MS é uma adorável avoada que margeia a história a-la Forest Gump. Sigamos.


_________________________

18 anos atrás.

Tempo do Levante de Blunt.

LITERALMENTE.


Marsha ouviu o desencadeamento frenético de estampidos. Ela os associou às novas "armas de repetição". Lembrou-se de quando escutou, no salão do Conselho Regente — provisoriamente transferido para o Palácio da Sagrada Família por causa da guerra —, que um dos Prospectos, o anão "Balmond" ou "Baumão" (eles nunca se acertaram na pronúncia), teria tais armas montadas no percurso de Lord Blunt.


Durou 12 segundos.


Não adiantou.

Os gritos de horror se tornaram mais distantes... A Guarda Cerimonial da Sagrada Família — definitivamente não pronta para a guerra — recuou, fechou os portões e cobriu as janelas, avançando para os andares principais.

Ignoravam a pequena princesa de seis anos, atrás de uma armadura decorativa.

Marsha sabia o que era aquilo.

A Capital caiu.

Os forasteiros fracassariam.

Um breve som de luta lá fora... Mas parecia um único pugilista contra o maior mal da era moderna. Um último esforço.


Blunt estava próximo.


Ela estimava menos de trinta metros dos portões. Trinta e cinco dela.

Uma morningstar? Funcional, mas não especial. Marsha a usaria contra Gladius Aeternum... Seria brutal... Seria divertido.


Ela estava pronta.


Seria a primeira linha de defesa de...

— Princesa Marsha! — Anthon surgiu subitamente. O meio-driade que cuidava dos jardins do palácio... Parte da pele dele era madeira verde, seus cabelos, de folhagem. Ele estava com roupas de cerimônia em vez de seu tradicional equipamento. — Seu pai está procurando pela senhora!

— Avise a ele que eu vou cuidar disso!

— Minha criança... Lord Blunt está aos nossos portões! Dois dos três forasteiros já caíram!

— Então... eu serei a próxima a lutar! — ela falou. — Eu posso vencer um bruxo chifrudo!

— Eu não tenho dúvidas... — ele resmungou, lembrando do estado em que ficou a sala de treino na última semana. — Mas temos nossas ordens...

Por instinto, o driade tentou apanhar a princesa Marsha como a uma criança normal... e quase caiu. Era como erguer, sem firmeza, uma estátua de chumbo.

— Por que vocês aceitam isso? — ela resmungou. — Lord Blunt é um valentão! A gente deve enfrentar os valentões?


— Não, não devemos...



A voz era calma, mas tinha o peso da autoridade.

O Príncipe N'aetil chegava. Passos firmes e controlados. Dedos das mãos entrelaçados. O capuz branco e azul, com os escarfes sagrados de Aetíades, o cobria, mostrando apenas a ponta do queixo e as mechas loiras que o revelavam. Um breve brilho azulado proveniente de seus olhos demonstrava sua ascendência aasimar.

— Papai! — Marsha comemorou. — Onde está o resto dos primos?

— Marsha... — ele falou com paciência, mas autoridade. — O Poderoso Aetíades nos deu uma missão com limites claros. É a história dos mortais que se escreve lá fora. Se este é o fim de nossa regência, foram oitocentos anos de paz e glória.

— Eu não vou sair daqui! — Marsha insistiu.

O príncipe inspirou fundo e então se colocou na frente da filha.



— Façamos o seguinte... — ele falou. — Seus primos... O corpo auxiliar... Mesmo o Conselho Regente, que se abrigou conosco, precisa de proteção. Eu fico aqui, e você os mantém em segurança... que tal?

Marsha bufou.

— Está bem...

Ela entregou a morningstar a Anthon, que quase caiu com o peso da peça... absurdamente mal balanceada.

Marsha caminhou com um primeiro pensamento:

"Se eu, que sou criança, posso fazer tudo o que eu posso, papai, que é adulto, vai varrer o chão com esse bruxo de..."

Então percebeu.

Parou na alcova para o corredor interno. Ainda de costas, tentando negar a própria dedução.

— O senhor não pretende brigar com Lord Blunt, não é? — ela falou, com a voz embargada.

— Não — N'aetil falou, com calma.

— M-Mas ele vai te matar! — ela protestou. — O senhor não vai nem tentar se defender?

O príncipe sorriu.

— Marsha, não era hora de falar, mas eu não acredito que ele possa...


Ele foi interrompido.


Um grito...


...não de horror. Não de guerra... mas de...


 TRIUNFO.


O príncipe caminhou até a janela reforçada pelas tábuas e observou por uma fresta. Mal viu quando Marsha se juntou a ele, escalando o batente para ver por outra fresta e arrancando uma das tábuas.

Nas escadarias... aquela silhueta feminina dourada com a luz do sol. Punho para o ar. Uma jovem, cabelos loiros. Manto verde e um arco nas mãos. Olhava surpresa para o alto, atrás dela.

A seus pés, de joelhos, a presença vultosa de Lord Blunt, vestindo a Vigília Sombria, entre flechas partidas no chão. O elmo, deixado no chão aos pés da misteriosa arqueira. Infelizmente, ela estava num ângulo que ocultava a face do Senhor do Sombrio...

Os três forasteiros se reuniam ao redor deles... Feridos, mas mais em choque do que com dor.

— Ela está... comemorando?!? — Anthon se juntou aos dois, olhando também.

— É um gesto de "cessar-fogo" da arquearia — o príncipe informou. — Mas essa arqueira providenciou um milagre... Ela é...

— É fabulosa! — Marsha declamou.


A guerra havia acabado.


O Conselho Regente fez as tratativas do armistício, mas Marsha metralhava seu pai com perguntas. Detalhes da batalha. Se podia ficar com o elmo de Lord Blunt. Mas mesmo N'aetil sabia pouco sobre o que acontecera.

Shén-li perdurou.

A heroína se revelou como "Àquela", uma das batedoras da floresta. Migrou para Shen-dao nos primeiros momentos... e seria a "arma secreta" dos grandes heróis de Dol'oan, Yalatanil e das Montanhas Castanhas reunidos para deter o Maior Vilão do Mundo. Foi-lhe dada a posse do Castelo Negro, outrora pertencente a Lord Blunt, e o título de Lady Àquela, a Primeira, a Dama do Arco.

Marsha admirava aquela figura. Queria ser como ela. Mas era proibida por seu status e por seu pai.


Mas... às vezes conseguia escapar... como no décimo sexto ano da comemoração do Levante de Blunt...

###

Marsha não era uma criança mais, mas ainda era muito mais velha do que aparentava. Trocou as vestes cerimoniais pelo que ela "acreditava" serem roupas comuns. Esgueirou-se do palácio, e foi para as ruas.

A luz azulada nos olhos, sinal da ascendência aasimar de Marsha, precisava ser escondida. O capuz azul e branco era "nobre demais", mas era melhor que as roupas cerimoniais. O plano era confiar nos óculos especiais — sugeridos por sua prima Sil — para dispersar o brilho dos olhos e manter a cabeça e o capuz abaixados na multidão.

O capuz ainda era "nobre demais"... mas era melhor que as roupas cerimoniais da Família Sagrada. Ainda assim, atraía atenção.

Ela ia entrando, pedindo licença, mas reconhecendo a própria força ao avançar na multidão e conseguir chegar à primeira fila, antes do gradil de aço que isolava a estrada por onde a parada iria passar... Naquele ano, Lady Àquela estaria presente!

Marsha não podia esperar...

Mas algo estava errado. A multidão começou a empurrar o gradil, que estava prestes a colapsar.

— Cadetes! — resmungava um gnomo com um tridente duas vezes maior que ele. — Se este gradil cair, vocês todos estarão desligados do programa!

— Sim, senhor Larrincher! — os quatro jovens falaram em uníssono.

— Isso inclui você, Cadete Sete! — o gnomo apontou para um jovem de cabelos negros, imediatamente à frente de Marsha. — Não importa quem é a sua mãe!

— S-Sim, senhor Larrincher — Bentho respondeu.

Os cadetes empurravam com toda a força, tentando devolver o gradil à posição em que se firmasse com o resto da estrutura, mas o peso da multidão era um fardo que estava acima deles.

Marsha temia que, se eles "perdessem o controle", o desfile não passaria por ali.


Então, resolveu ajudar.


Segurou o gradil e, com uma mão, puxou-o discretamente e com facilidade ante o peso da multidão, encaixando-o em seguida. Disfarçou para não chamar a atenção.

— Bom trabalho, Bentho! — um dos cadetes mais próximos cumprimentou, alheio à ajuda.

O cadete acenou e restaurou a posição, de costas para a multidão, protegendo a estrada. A parada começou a se aproximar da primeira linha do desfile. Os veteranos, seguidos de uma banda.

Depois viriam os carros alegóricos e, por fim, viriam os quatro heróis, cada qual em sua montaria.

— Ei, ei, mocinho... — Marsha perguntou ao cadete, de costas, à sua frente. — Pode confirmar que Lady Àquela vai estar nessa parada? Ano passado ela não veio!

— Está sim, senhora — Bentho nem olhou para trás. — E tenho a "impressão" de que ela vai prestar atenção neste lado. Se quiser aparecer para ela... é só ficar atrás de mim.

Tudo certo... O coração da princesa aasimar pulava.

A banda passou... os carros dobravam a esquina...

E então o cadete falou:

— Ei... aquele é um dos príncipes?!?

Marsha olhou de lado...

Era o primo De'sar. Ele apontava para... ela?

Marsha abaixou-se e voltou na multidão. Cabeça baixa... Bentho só deu passagem aos guardas que seguiam o príncipe.

A jovem apressou-se dentre a plateia, tendo o espaço atrás de si imediatamente preenchido. Quando enfim emergiu, atrás de todos, viu-se cercada.

Cinco membros da Guarda Cerimonial.

E o próprio N'aetil, seu pai.

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— Eu posso conseguir AUDIÊNCIA com Lady Àquela, com os quatro! — ele falou, contrariado. - Quer um baile com eles como convidados? Consigo sem esforço algom!

— Eu não quero que ela me veja como "sua chefa superior"! — Marsha protestou, fazendo birra. — Eu já falei!

— Marsha, você tem suas obrigações, ela tem as delas. — O príncipe caminhava pelos corredores. Era o terceiro evento da comemoração da queda de Blunt que a princesa o fazia perder. — Estou quase com saudades de quando você pleiteou um cargo no Conselho Regente, mesmo depois que eu proibi...

— Eu acertei as quinhentas questões, memorizei o Teólito de Aetíades e preciso de indicação de um aasimar da Família Sagrada? EU ME INDICO!

— Quer então o MEU parecer como aasimar da Família Sagrada? — O príncipe falou, irritado. — Você está pensando pequeno. O que lhe agrada. O que você pode socar... ou o que pode falar. A Família Sagrada deve transcender isso, governo ou aventuras. O poder que dispomos é muito grande e facilmente pode ser abusado. O próprio Aetíades aprendeu isso em seu sacrifício na Guerra dos Dois Horizontes. Quer terminar como Bophades?

— Não — ela assentiu.

N'aetil inspirou fundo.

— Eu vou viajar em breve. Preciso saber se você vai ficar no palácio até eu voltar. Nem que eu mude de ideia quando voltar sobre como você vai ajudar na Família Sagrada.

— Da última vez, você voltou com a Sil e não mudou nada...

— A Queda do Império de Caruthers foi... problemática. — O príncipe insistiu. — Mas eu reconheço que sua prima Sil não teria se recuperado tanto sem sua ajuda... Sua amizade. Quando eu voltar, conversaremos.

O príncipe N'aetil era um dos poucos autorizados a deixar livremente o palácio. Sempre em "missões diplomáticas", embora o Conselho Regente tivesse toda a "Chancelaria da Fronteira" para isso. Às vezes passava meses fora. Uma vez, passou anos. No incidente com a Sil, ele foi carregado da capital do Império até o palácio pelo próprio Aetíades, na forma da Fênix da Radiância. As histórias de como Cardullion libertou "a princesa" por pura teimosia e como Capri derrubou o Império ainda ecoavam pelos salões.

Marsha sabia que muito dificilmente iria mudar qualquer coisa.

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O tecido dos mantos da Família Sagrada era azul-profundo, ornamentado com filigranas alvas que reluziam suavemente à luz do sol. Para qualquer pessoa, vesti-los era o ápice da honra divina; para Sil, era como vestir a pele de um estranho. Ela jamais se sentira parte daquela linhagem augusta e imaculada. Por isso, recusava as vestes sagradas e mantinha-se firme em seus vestidos negros — um luto constante por tudo o que havia perdido e uma barreira entre ela e o resto do palácio.

Sil odiava o modo como o mundo a olhava, pois parecia não haver espaço para que ela fosse apenas uma jovem. A Família Sagrada estava dividida em dois extremos sufocantes em relação a ela.

O primeiro grupo a olhava com uma pena corrosiva. Viam apenas a garotinha frágil, de olhos cinzentos e vagos, presa a uma condição irreversível. A própria cadeira mágica e aveludada onde se sentava — um artefato gracioso que flutuava suavemente a poucos centímetros do chão, suave como uma nuvem — parecia gritar a todos que ela precisava de proteção e amparo constante. Sil detestava essa complacência condescendente.

O segundo grupo era ainda pior: o dos que temiam o que ela representava. Sussurravam às suas costas pelos corredores, mantendo uma distância cautelosa e encarando-a com desconfiança mal disfarçada. "É a Princesa do Império de Caruthers", murmuravam. "É a Escravizadora de Deuses". Para esses, a memória do antigo trono de ferro e espinhos em que ela fora forçada a se sentar alimentava o mito aterrorizante de que ela guardava um poder profano e incontrolável.

Sil erguia o queixo, fingindo não se importar com nenhum dos lados. Construíra uma carapaça de indiferença fria para esconder a dor e a solidão que a consumiam por dentro.

Apenas uma pessoa ignorava essa carapaça. Apenas uma pessoa recusava-se a tratá-la como uma coitada ou como um monstro. E desprezava a carapaça como se pudesse ver dentro de qualquer armadura.

E essa pessoa era insuportavelmente irritante. Que insistia em tratá-la por "prima", mesmo sendo aasimares obviamente de linhagens distintas...

E era sua melhor amiga.


— Ah, não... mais nomes? — Sil suspirou quando a porta se abriu e Marsha entrou no recinto segurando um bloco de anotações amarelado.

— Eu estou confiante hoje! — declarou Marsha com entusiasmo inabalável, ignorando a postura defensiva da amiga e sentando-se sem pedir licença na armação da cadeira flutuante. — O tema de hoje é: "Nobreza de Yalatanil entre o ano 200 e 215".

Marsha começou a recitar a lista com uma seriedade quase cômica:

— Sildara... Silfana... Sizl'air — fez uma pausa didática: — O "z" é mudo, tá? — e continuou: — Siljain...

Ela buscava combinações cada vez mais exóticas e improváveis, já que os nomes comuns haviam se esgotado semanas atrás.

Sil olhou para a janela, deixando a voz da amiga fluir como pano de fundo. No fundo, a memória daquela tragédia ainda a assombrava. Quando Aetíades trouxe o príncipe e a garota ensanguentada em suas garras divinas, a verdade terrível veio à tona: Caruthers, o Deus Menor da Mesquinharia, descobrira o ritual do "Trono de Jasmim" — o antigo assento da Rainha Celeste que governara o mundo antes do Grande Apagamento, a Mãe de Bophades e Aetíades.

Para reativar a relíquia, o ritual exigia "Ferro Quente", mineral mágico obtido com sangue puro de um aasimar. Poderia ter sido qualquer integrante da Família Sagrada, ou um dos "aasimares selvagens" — linhagens esquecidas ou afastadas de Shén-li ao longo dos séculos. A vítima fora a jovem Sil. Ela se tornou "a princesa", face do império e instrumento de manipulação.

Ninguém sabia qual era a sua verdadeira casa, nem seu nome verdadeiro. "Sil" fora a única fonética que restara em sua mente quando ela acordara. As lesões brutais impostas por Caruthers arrancaram-lhe as asas imateriais e sua identidade, a capacidade de andar... e toda a sua memória.

— ...E Silzzzzzy! — Marsha concluiu com um floreio dramático. — Esse último eu inventei. E aí? Algum clique?

— Nada — Sil respondeu baixinho. Ela mal prestara atenção à lista, mas o simples som da voz de Marsha a tirara da espiral de pensamentos sombrios. Observou a amiga guardar o lápis e perguntou: — Então? Se apresentou a Lady Àquela na parada?

— Não... meu pai me achou de novo — Marsha resmungou, afundando os ombros, mas logo inflou o peito novamente: — Mas estou frustrada porque eu tinha certeza absoluta de que hoje seria o dia de achar uma nova pista sobre você!

— Isso porque você "está sempre certa"? — Sil ironizou.

— Eu costumo estar certa com essas coisas — Marsha resmungou. — Bem, tudo o que temos é uma sílaba... Pense bem, nunca tentamos "Sílaba". E se for Sílaba?

Marsha falou aquilo em tom de brincadeira, mas a palavra ecoou de forma estranha no ar.

Algo estalou na mente da princesa de negro. Uma engrenagem esquecida no fundo de suas memórias soterradas pareceu girar, trazendo um calafrio involuntário.

— Sílaba... — murmurou Sil, o olhar ficando distante. — "Sil La..." "Síl Ha..."

Os olhos de Marsha brilharam instantaneamente.

— É isso?!? Você lembrou?!

— Não... mas... — Sil piscou, tentando capturar o rastro do pensamento. A memória ainda era inalcançável, coberta por uma névoa de tristeza profunda e dor antiga, mas a sensação era inegável. — Tem... tem algo aí.

— E se o seu nome não for um nome próprio? — Marsha começou a se agitar, vasculhando os bolsos atrás de papel antes de constatar que todas as folhas estavam preenchidas. — E se for um substantivo? Que nem o de Àquela?!

A empolgação de Marsha era contagiosa, derretendo a última camada da postura fria de Sil. A princesa de negro suspirou, derrotada pela insistência afetuosa da amiga.

— Mas antes... fale — exigiu Marsha com um sorriso vitorioso.

— Você vai me fazer falar, não é?

— Vou sim!

Sil inspirou fundo, fechando os olhos por um segundo e entregando-se àquela pequena alegria:

— Você... está... sempre... certa.

— Como os Sinos de Aetíades! — Marsha comemorou, dando um abraço apertado na amiga e fazendo a cadeira flutuante balançar no ar.

###

Dois anos depois.

Antes de cruzar os portões do palácio, Marsha ainda precisou encarar o último obstáculo burocrático de sua rotina: o primo De'sar. Era mais velho, magro e andrógino, raspava os cabelos para buscar ser o mais visivelmente desagradável possível, aparentemente.

Ele a interceptou no Corredor dos Fundadores, vestindo o manto azul impecável e portando uma prancheta de pergaminhos com o selo do Conselho. Ao lado deles, flutuando suavemente em sua cadeira de vestidos negros, Sil observava a cena em relativo silêncio.

— Você devia estar na sala de recepção diplomática, Marsha — De'sar começou, ajustando a gola do manto e evitando olhar diretamente para Sil. Ele deu um passo sutil para o lado, mantendo a cadeira flutuante bem no limite de sua visão periférica.

— Tenho a sessão de "terapia" com a Sil — ela bufou.

— O príncipe N'aetil deixou ordens claras antes de partir. Como filha do nosso "Príncipe Embaixador", que passa mais tempo viajando pelo mundo do que qualquer um de nós, você deveria se inteirar da política real das Terras Selvagens e além, não ficar perambulando por aí.

Marsha soltou um suspiro profundo e entediado, encostando as costas na parede de mármore e cruzando os braços. Encarou o teto com um olhar terrivelmente entediado.

— A política do mundo é ver o Conselho votar se o imposto da madeira vai subir dois centavos, De'sar — Marsha resmungou com ironia. — É fascinante. Quase não consigo dormir de tanta emoção.

— O mundo lá fora não é um conto de heróis! — De'sar deu um passo à frente, exasperado, baixando o tom de voz para um sussurro ranzinza. — Você vive alimentando essa sua mania estranha de socar os problemas. Aquilo não é normal. Nem todo aasimar sabe fazer o que você faz, Marsha! A maioria de nós canaliza a luz divina para a diplomacia, a cura ou a regência, não para ter a densidade de uma âncora de encouraçado!

— Vocês é que são preguiçosos. Se eu consigo, vocês deveriam conseguir também. — Marsha apenas deu de ombros, ajustando os óculos no nariz com um gesto preguiçoso. — Já tentaram correr? Voar? Desintegrar um petardo de adamantina?

De'sar olhou de relance para Sil. A garota de olhos cinzentos sustentou o olhar dele por um segundo, e o nobre cobriu o desconforto dando meio passo para trás. Limpou a garganta, voltando a atenção para a prancheta.

— Enfim... se você ao menos lesse os relatórios da Chancelaria, saberia onde focar sua atenção em vez de cultivar essa adoração infantil por aventureiros "has-been" e decadentes.

A palavra fez Marsha piscar. O tédio deu lugar a uma sutil faísca de raiva por trás das lentes.

— Aventureiros decadentes? — ela perguntou, revoltada. — Que tipo de decadentes?

— Os velhos conhecidos da Nova Guarda, por exemplo — De'sar desdenhou, batendo a pena no pergaminho. — Eles acham que ainda estão na era de ouro. O Conselho acabou de receber o relatório do Aniversário da Libertação de Nova Ethiópia. A regente de lá, aquela... Princesa Andrômeda, está desesperada. Acha que vamos mandar nossos recursos e arriscar perder as "bandeirolas" que, convenhamos, é o que eles são?

— Desesperada por quê? — Marsha endireitou ligeiramente os ombros.

— Porque a ilha é atacada todo ano, no mesmo dia, por hordas de Dragas e por um "kraken ancestral" ou coisa que o valha — disse De'sar, balançando a cabeça com tédio burocrático. — Mas não vamos arriscar enviar a Nova Guarda para lá, perder uma das "bandeirolas" e arriscar o povo interno se revoltando na perspectiva de Lord Blunt fugir. Precisamos pensar em nosso povo primeiro.

Marsha segurou o sorriso que ameaçava brotar em seu rosto.

Uma nação insular. A prima Andrômeda — sim, consta que era uma aasimar da linhagem de Cassiopéia — em perigo. Dragas, um kraken, uma causa perdida no meio do oceano.

Era o cenário perfeito.

— É mesmo? — Marsha bocejou de forma ostensiva, fingindo um desinteresse profundo enquanto dava meia-volta em direção aos seus aposentos. — Que trágico, De'sar. Realmente, a diplomacia é muito complexa. Acho que vou para o meu quarto refletir sobre o imposto da madeira...

— Excelente. Pela primeira vez você está sendo razoável — De'sar suspirou aliviado, voltando a anotar na prancheta enquanto se afastava apressado, ansioso para sair da presença de Sil.

Assim que o primo dobrou o corredor, Marsha olhou para Sil. A princesa de negro tinha um pequeno e quase imperceptível canto de boca erguido.

— Você não vai refletir sobre madeira nenhuma, vai? — Sil perguntou baixinho.

— Nem pensar — Marsha ajeitou as roupas simples de viagem escondidas sob o manto cerimonial, bem como uma bolsa de gemas. — O De'sar acabou de me dar o roteiro todinho. E, no fim das contas, a equação é simples: Andrômeda é uma prima. E uma prima em necessidade a gente não deixa na mão.

— Dessa vez, use um nome ordinário para não rastrearem você — Sil falou, fazendo sua cadeira flutuante retornar a seu quarto. — Como era o nome daquela jovem camareira que deixou o palácio? Maria... Suelen...

A Princesa Marsha ficaria trancada naquele palácio. Para os navios que rumavam para o Mar de Fora, para a Nova Guarda e para qualquer um em Nova Ethiópia, ela seria apenas uma garota de óculos. Tímida. Inofensiva. Uma passageira pagante. Seu nome seria...

...


###

— Okay, mais uma vez... Quem de vocês é o Ryan e quem é o Cyrus? — Amellie insistiu, chutando a canela de um dos dois corvos. Eles apenas gemiam, encolhidos e amarrados na poeira recostada na muralha externa. Eram jovens com tatuagens de corvos que acharam que poderiam surpreender a reencarnação de Cyrak, o Conquistador.

A barda se ajoelhou e tateou as vestes de... "Ryan ou Cyrus", retirando um objeto pesado de metal: um rádio rúnico de curto alcance.

— Desde quando os corvinhos têm esse tipo de...

— UAU! Você bateu em dois assaltantes corvos?!?

Amellie deu um salto para trás, postando-se de pé com o florete apontado no ato para a recém-chegada.

Era uma jovem de vestes discretas, óculos e uma postura completamente tranquila, apesar de flagrar aquela "atividade" em um canto escuro do Caminho da Muralha, a estrada que ligava Huo-fen a Hálcora.

— Você está bem? — a garota perguntou, ajeitando as lentes. — Eles te machucaram?

A barda analisou a estranha de cima a baixo. Tranquila demais... Mas não via armas ou símbolos visíveis.

— Você acredita que uma garota não pode viajar sozinha sem ser abordada por esses ratos da Cidade-Arsenal? — Amellie disfarçou, abaixando o florete devagar. — Encontraram mais do que esperavam, com certeza...

— Girl power! — a jovem ergueu um punho cerrado em comemoração festiva. — Meu nome é Marsh... Mary Sue.

— Janete — Amellie apresentou-se com um nome falso automático. — Hum... que cheirinho bom é esse?

— Ah... porco! — "Mary Sue" puxou uma marmitinha de pano ainda fumegante de dentro da bolsa. — Eu ganhei no leilão do orfanato. Mas eu sou vegetariana... quer um pouco?

— Se eu me importo?! Estou faminta! — Amellie aceitou a marmita sem pensar duas vezes. — Vai para o Oeste?

— Hálcora. Pegar um barco.

— Que coincidência... Tipo, não para pegar um barco, mas... Se importa se formos juntas? Diminui a chance de assaltantes incompetentes.

— Não se preocupe... eu protejo você — Mary falou com uma confiança serena e inabalável.

As duas começaram a jornada lado a lado, deixando os corvos desacordados e amarrados para trás.

Amellie achava que viajar separada de Bentho seria o bastante para despistar os Corvos... mas o rádio indicava que eles estavam muito melhor coordenados do que o normal. E as saídas da cidade estavam prestes a fechar. Algo sério estava ocorrendo em Huo-fen; ela esperava, do fundo do coração, que Bentho tivesse escapado da confusão.

Mas... qual era a daquela mocinha de óculos?

Decidiu testar.

— Eu vou encontrar um rapaz em Hálcora... — Amellie comentou, mantendo o passo na estrada, simulando uma excitação para despistar sua companheira de jornada. — Tenho um desenho dele, quer ver?

— Adoraria! — Mary acenou, empolgada.

Amellie desembrulhou um dos cartazes que trazia consigo, dobrando a folha com cuidado para ocultar os dizeres "DESAPARECIDO". Queria ver a reação da estranha ao ver o rosto de Bentho: se fosse da Guarda ou dos corvos, iria dar algum sinal. Enquanto segurava o papel com a mão direita, sua mão esquerda repousava discretamente na empunhadura do florete.

— Oh... ele é bonitão! — Mary comentou, inclinando-se para olhar.

— Você acha? Eu não sei... — Amellie insistiu, observando as reações da garota.

— Vem cá... ele não foi cadete ou algo assim?

Amellie arqueou uma sobrancelha, os olhos estreitados. Disfarçava como mestra sua tensão quase plena.

— Por que a pergunta?

— Acho que eu o vi uns anos atrás, na parada de aniversário do Levante de Blunt — ela comentou com a simplicidade de quem lê a previsão do tempo. — Por causa de meu pai, eu não pude ficar e perdi o desfile dos capitães... Mas acho que trocamos duas palavras no gradil... Sim, eu estou sempre certa, com certeza é ele!

A garota de óculos parou abruptamente e olhou para a barda com os olhos arregalados de susto:

— Por favor! Ele é seu namorado, né? Eu juro que não quis insinuar nada!

Amellie piscou, tentando capturar qualquer vestígio de falsidade, mas não conseguiu nenhuma leitura dúbia na jovem. Mary Sue parecia genuinamente confusa e com a cabeça a mil, mas sem um pingo de medo real.

— Quando eu me encontrar com ele, eu mando um "alô" seu — Amellie falou, estampando seu sorriso mais convincente. — E você... de Hálcora vai para onde?

— Nova Etiópia, visitar uns parentes.

— Uh, chique! — Amellie elogiou, enquanto mastigava um pedaço do que ela podia jurar ser o melhor filezinho de porco que comera nos últimos noventa anos. — Vai num navio nobre ou...

— Eu consegui uma passagem no mesmo orfanato do leilão e... olha que engraçado — ela mostrou o documento transacional com o carimbo de recebimento. — "Deixa em Branco". Que nome engraçado para um navio, não é? Se não fosse no orfanato, eu até suspeitaria que foi um golpe...

Amellie travou o passo no meio da estrada, com a carne no meio do caminho para a boca.

— Não... "Deixa em Branco" é um navio de verdade, mas... então ele vai estar em Hálcora daqui a dois dias?! — a barda murmurou para si mesma.

— Conhece alguém do navio?

Amellie abriu um sorriso de quem acabara de ganhar um trunfo na mesa de jogo.

— Não importa! — a barda desconversou, pegando mais um pedaço suculento de porco. — Esse prato é sensacional! Tem certeza de que não quer mesmo?

— Fique à vontade!

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