BLOGGER TEMPLATES AND MyYearBook Layouts »

20 de fevereiro de 2018

[Conto] Thrummaz - o Rei Anão - Parte I


Mesmo após quase duas semanas de cativeiro, algemado de pé rente ao muro, o porte majestoso daquele anão ainda se mantinha. Vestia um trapo na cintura cobrindo sua virilha, meio que uma tentativa de "pudor" dos cativos. Talvez, mesmo no meio dos orcs, havia alguma reverência ao veterano combatente, ao Rei dos Anões.

Thrummaz de Tyrum, que regia quando Tyrum ainda ostentava bandeiras e glórias da batalha que levou ao que chamamos de “Nova Era”, sabia dos riscos, mas achou que sua presença poderia ser um fator definitivo na negociação. Mas os orcs viram a oportunidade e não hesitaram. A guarda pessoal do rei era composta de cento e cinquenta guerreiros, mas foi emboscado por cinco vezes esse número. Somente o rei e o príncipe foram poupados, embora as perdas dos orcs tenham sido consideráveis.

O Rei Anão estava sujo, mas não ferido. Seu vigor racial e sua moral talhada por meia-vida anã de lutas e treinamento o garantiriam quase que indefinidamente. Sua barba rala começava a ficar espessa, e isso o incomodava moralmente quase tanto quanto as ausências de Elger, seu filho, que o acompanhou.

Após duas horas, um orc aparecia. Já o tinha visto antes... Era menos bruto que o normal, mas considerando seus adornos metálicos deveria ter algum status entre os demais. Talvez fosse de alguma "nobreza", ou pelo menos mais vaidoso que os guerreiros com suas cicatrizes, partes do corpo faltando, ou adornos de peças ressecadas de suas vítimas.

Ele abre a jaula, prende uma corrente à canela do príncipe, e fecha a porta.

O rei analisa seu filho. Escoriações de golpes contundentes. Era de certa forma um alívio que os orcs não possuíam práticas de torturas, pois o príncipe Elger, segundo filho da Casa de Tyrum, era jovem e forte. Estaria novo em folha até o fim da tarde.

- Eles arrancaram um dente meu. - Fala o príncipe. - Deve ser para enviar como prova que estamos aqui e vivos.

- Tolos. - Ri o rei. - Eles enviaram um item para nos rastrearem. Precisamos resistir um pouco mais, meu filho.

 Talvez no seu íntimo Elger esperasse que seu pai demonstrasse mais preocupação por suas torturas diárias, e o fato de não torturarem o rei fazia o jovem anão ficar preso num paradoxo emocional entre o alívio e a inveja. Era humilhante estar impotente entre aquelas bestas. O príncipe chegava a salivar pensando na possibilidade de massacrar cada um daquelas criaturas. Mas o experiente pai disse que uma oportunidade seria rara, e não poderia ser desperdiçada.

 O Rei, contudo, ponderava. Preferiam que tentassem o torturar. Ou ao menos viessem zombar dele, para ele tentar negociar e mesmo fracassando entender qual a posição de seus captores. Precisava do artefato que o levou à tribo de Odnenga, escondida na secção oeste da Cordilheira do Ouro, território do Império Áureo. Precisava ocultar sua jornada pessoal para não levantar questionamento dos aurianos ou mesmo de Lyon. Jamais provocaria incidentes tão desconfortáveis se o artefato não fosse tão importante.

 Foram dois anos de negociações secretas. Presentes de valores obscenos enviados. Enfim, a visita de um rei deveria reafirmar a boa-vontade de Tyrum com seus inimigos ancestrais, mas não estavam tratando com seres honrados, nem mesmo negociadores competentes.

 Os cativos, rei e príncipe, preparavam-se para um décimo terceiro dia tedioso - em uma hora chegaria a sopa imunda, que o príncipe tomaria uma parte e alimentaria o pai amarrado com o resto, dormir como pudesse, e novamente a tortura com os primeiros raios do sol da manhã - quando algo mudou a rotina. Barulho por toda a caverna que os orcs usavam como prisão. Cheiro de fumaça e sangue no ar. Era uma batalha.

 O mesmo orc vaidoso de antes corre caverna adentro, com uma faca enferrujada nas mãos. Ele berrava algo em seu idioma, e destrambelhadamente tentava desenrolar um molho de chaves amarrado em uma pele que fazia vezes de uma toalha de mesa.

 Pai e filho acenaram, instintivamente, reafirmando sua cumplicidade e preparo para a próxima ação.

 Ignorando isso, o orc apressa-se à jaula. Estende a faca para o príncipe Elger e com a mão esquerda destrancava a porta da jaula.

"Canhoto!" - Observou Thrummaz mentalmente.

 A criatura então adiantou-se contra o príncipe. Este, depois de dias de relativa submissão, projetou-se em um encontrão no limite que podia com a corrente em sua perna. O orc cambaleou para o fundo da cela.

 Thrummaz usou as correntes para içar-se a altura suficiente para que com suas pernas envolvessem o pescoço do orc em uma chave. Ao mesmo tempo que sufocava a criatura, agarrou a mão esquerda da criatura com a sua própria e com a direita apertava o excesso de corrente reforçando a captura. O orc estava com a mão direita livre e com uma faca, mas não conseguia ângulo para esfaquear o rei com a mão inábil.

 Sabendo que a diferença de força entre o rei e o monstro impedia que tal manobra se sustentasse, Thrummaz concentrou-se em arrancar o molho de chaves da mão do orc. Ele torceu e mordeu, e enfim, o molho escapuliu. Com um ousado lance, o molho pousou nas mãos do príncipe Elger, que por dias estudava aquelas chaves e sabia exatamente qual livraria sua perna.

 Urros vinham do interior da caverna. Algum reforço ou patrulha se aproximava. Podia ser um caminho para o subterrâneo, ou uma guarnição reserva. Era um fato desconhecido e que aumentava a urgência dos anões para a fuga.

Elger tomou com facilidade a arma do orc. Mesmo enfraquecido pelas semanas de cativeiro, percebia em combate que era superior ao seu captor, e triunfaria mesmo sem a imobilização providenciada por seu pai. Mesmo querendo terminar a vida da criatura, o príncipe se conteve a tirá-lo de combate para libertar seu pai. Precisariam lutar para sobreviver, e o tempo era incerto.

 Os urros dos orcs vindos do interior da caverna aumentavam gradualmente, mas logo foram abafados pelo urro de um único anão.

 Rei e príncipe só viram um borrão. Era um anão de cabelos e barbas castanhas e longas, com armadura pesada, um martelo de pedra rúnica em uma mão, um enorme escudo torre na outra. Não reconheceram flâmbulas ou cores nesse guerreiro intruso. Ele partiu como uma fera furiosa, mas assentou num gargalo da caverna. Enterrou com força sobrenatural o enorme escudo quase tão alto quanto ele mesmo à sua esquerda, e tomou para si o pouco espaço á direita que restava. O rei reconheceu a Postura dos Defensores de Dol'oan.... Aquele guerreiro não arredaria o pé daquele lugar, e ai de quem tentasse passar...

 Por cima da cabeça do anão, um virote de Besta passou na direção dos orcs, minguando quem avançasse contra o defensor. Um segundo anão se aproximava dos cativos. Este, Thrummaz e Elger reconheceram logo.

- Volthrur! - Comemorou com alívio o príncipe. - Que a Forjadora o abençoe!

 Volthrur era o capitão da Khro Rym, guarnição de elite das forças miliciais de Tyrun. Seus quarenta soldados eram tão bem treinados que não havia dúvida ao regente que triunfariam onde os cento e cinquenta da Guarda Pessoal fracassou.

- Que a forjadora abençoe o Rei e o Príncipe! - Responde o capitão. - Ajude-nos, Mestre Castelão!

 Aquela alcunha surpreendeu o rei mais que a emboscada dos orcs. Além do misterioso guerreiro que sozinho interrompeu o avanço dos orcs interioranos, outros dois anões acompanhavam o capitão da Khro Rym. Este recém-chamado, possuía um porte majestoso que rivalizaria com o próprio Thrummaz... E que seria o último que imaginaria agindo em seu benefício.

- Belkarl do Machado Anão - o rei fala com espanto palpável. - O que ... quem solicitou seu apoio?

 O Mestre Castelão era o líder dos Anões do Escudo. Aquilo explicava o Defensor de Dol'oan que irrompeu a caverna. Mas os Anões Escudos deram as costas a Tyrun faziam décadas, rejeitando as determinações raciais e religiosas dos herdeiros de Forjia. Belkarl deixa um hiato de silêncio. Talvez gostasse de deixar o rival pensando no preço daquele apoio inusitado. Mas o Mestre Castelão deixa de lado a rixa.

- Seu filho mais velho e seu capitão não fizeram nada que você precise se envergonhar, majestade. Seu cativeiro é sigilo ainda aos olhos do mundo. - Fala enfim. - Só os orcs não souberam guardar segredo dos guardiões das Torres das Armas a quais eu sou regente. Decidi interceptar Khro Rym e guia-los pelas montanhas mais propriamente.

- Sua armada está aqui? - Pergunta o príncipe.

- Não. O Forte das Armas não trata com Tyrum. - Belkarl dá espaço para que Volthrur entregasse cobertas para os dois nobres cativos. - Eu fui "voluntário". Não é sempre que você participa de uma campanha para salvar um rei. Mas trouxe comigo meus dois melhores guerreiros...

- Eu conheço ele... - Elger aponta para o guardião com escudo, que retornava de sua posição no interior da caverna, embora ainda não reconhecesse o martelo negro como heráldica. Era visivelmente um guerreiro anão testado em combate, com longas barbas que mostrava despresar a Ordem do Luto, e que triunfou sobre os monstros das cavernas com a ajuda da Besta Pesada em poder de Volthrur a superar sua muralha de aço e carne. - É Therin Dueguir do Clã Mercenário!

- Therin da Torre do Martelo hoje. Líder da Torre do Martelo. - Corrige o Mestre Castelão, reforçando que aliciara aquele grande campeão para sua facção. - ... E este é o Paladino Bufir da Torre do Martelo, filho de Therin.

 O jovem anão, terceiro daquele grupo avançado, portava uma maça mas trazia a mesma flâmbula e um martelo de batalha preso ás costas. Ele se ocupava até então com a entrada da caverna enquanto seu pai e os outros dois asseguravam o domínio do calabouço. Mas com o triunfo, aproximava-se do regente, com um brilho sagrado nas mãos.

- Não necessito de cura. - Fala o orgulhoso rei, reconhecendo o Poder restaurador. - E o príncipe de Tyrun também não requer nada a não ser uma arma e um escudo. Assim como eu.

- Será uma honra, Alteza. Majestade. - Fala o capitão com um aceno reverencial. - Quais as ordens? Recuo ou subjugar os inimigos?

- Meu rei... - fala o Príncipe. - Essas criaturas ousaram nos aprisionar! Devem pagar com seu sangue!

- Essas vinganças não são o costume de Tyrun... - Belkarl comenta com certa ironia na voz.

- Não... não o é. - Thrummaz concorda, mas avalia que aquele ataque covarde podia ser interpretado como fraqueza para os anões. Também tinha o fato de uma operação como aquela não-autorizada pelo Império Áureo, perguntas do trono de Lyon as quais não queria responder, e o segredo do artefato. Belkarl mesmo demonstrou que aquela tribo deveria ser silenciada. - Mas é o que faremos. Capitão Volthrur, nenhum orc adulto deve sair vivo desta montanha.

(...)

 A elite Khro Rym tinha força e treinamento para suplantar aquela tribo marcial, especialmente porque os orcs jamais se recuperaram completamente do confronto com a Guarda Pessoal do Rei. Mas guiados pelos três anões escudos que conheciam melhor aquelas montanhas, seu ataque foi devastador. Quando o rei surgiu e juntou-se à batalha, aqueles 45 soldados passaram a lutar como se fossem mil.

 Não houve baixa por parte do Khro Rym. As barracas da superfície da tribo foram incineradas. Os totens da tribo derrubados e destruídos. Os Odnenga foram condenados a serem esquecidos da história.

 E seu tesouro, deveriam ser saqueado.

- Por aqui... eu já estive lá. - O príncipe Elger guiava o rei e o capitão. Eles tentaram desestimular que o Mestre Castelão os seguissem. Apesar de ele alegar não querer recompensa, sua insistência em ver o prêmio era impossível de dissuadir.

- Eu soube que o príncipe fez os primeiros contatos... - comenta Volthrur. - Chegou a vir ao cofre das criaturas antes da captura?

- Sim... eu e seu filho, Ythrun negociávamos antes da traição. - Confirma o príncipe. - Sinto que ele não tenha sobrevivido.

- Ele está com Othen agora. Orgulhe-se. - fala Belkarl. Os anões escudos não se entristeciam com a perda de heróis em combate.

- Ainda assim, pais enterrarem filhos é um evento de pesar e respeito. - O rei Thrummaz perdia a paciência com aquela aliança, e nenhuma gratidão poderia atenuar a falta de respeito daquele proscrito.

- Só estou comentando. Eu só tenho admiração por um soldado leal que deu a vida pela sua família real... - comenta sem muita mudança de tom.

- Perdão, majestade... - O capitão Volthrur manifesta-se com respeito. - Mas eu concordo com o Mestre Castelão. Carrego tristeza sim, mas orgulho da coragem de meu filho.

 O rei media em silêncio se aquelas palavras eram mesmo verdade ou se seu capitão tentava a diplomacia entre dois que clamavam a regência do povo robusto.

- Aqui... chegamos.

Era uma alcova mais larga, iluminada com dispensáveis tochas, com um par de baús simplesmente largados no chão, transbordando peças de metais preciosos, alguns dos presentes que os orcs receberam nas primeiras negociações, e a estátua.

 Era uma estátua de anã anciã, com roupas antiquadas, e face severa. Ela usava o Malho curto pesado, símbolo das sacerdotisas de Hannah. O material que compunha a estátua era cinza com tons de roxo. A base possuía runas com discreta luminescência púrpura.

- Este é o artefato. - Anuncia o príncipe. - Como aquele bardo élfico falou.

O Rei Thrummaz ajoelha-se até a base e estuda com cuidado aquelas inscrições.

- Tudo isso por uma estátua de pedra semipreciosa? - Resmunga o Mestre Castelão.

- Caro mestre Belkarl... - O rei fala com um tom de humor na voz. - Já viu trabalho de escultor tão perfeito assim?

 O Anão guerreiro decide prestar melhor atenção. Ele reconhece detalhes intrigantes. Primeiro, a diferença visível da textura da pele, da arma e do tecido. Depois detalhes ultrarealísticos das rugas e bolsões dos olhos. Mesmo alguns fios de cabelo imperfeitamente penteados destacavam-se da cabeleira da "obra".

- Esta é uma criatura petrificada?!? - Espanta-se Belkarl. - Quem é ela?

- Ynahum Thyrin. Malho de cobre. Minha tia-avó de quarto grau... E última sacerdotisa de Hannah. - O Rei Thrummaz levanta-se e encara Belkarl. - Ela foi designada antes do sacrifício da deusa a guardar informações pessoais da própria Forjadora. Ela se escondeu por cem anos até que dissidentes dos magos a encontraram e aprisionaram nesta forma que você vê.

 Belkarl demonstra em seu semblante duro e desafiador uma mudança surpreendente. Um pesar respeitoso pela figura histórica. Mesmo assim, alfineta.

- Sabe que os orcs pediram Resgate por você e seu segundo filho, não? - Comenta. - Orcs da época de nossa juventude, com as mãos em um rei anão, o estraçalharia no ato. Usaria seu crânio como adorno e suas barbas como tecido. Até os Orcs mudaram com o novo mundo.

- ... E você está achando que deveríamos fazer o mesmo? - Interrompe iradamente o príncipe Elger. - Esquecer a Forjadora? Nosso voto? Se entregar nossa honra da mesma forma como o senhor...

- Chega, Elger. - Repreende o rei anão antes que o príncipe passasse dos limites do respeito.

- Admito que tinha conceitos errados da força de Tyrun. - Fala o Mestre Castelão. - Eu vi com satisfação Khro Rym em combate. Tal qual seu capitão, seu rei... E seu príncipe. - O Mestre castelão, combatente mais experiente, faz da aprovação uma indulgência ao jovem com a pausa desnecessária. - Sei que a Malho de Cobre pode trazer a história gloriosa de uma época em que éramos um povo só e enfrentamos o que julgavam uma guerra perdida. Mas sua tia-avó não viu o desfecho da batalha. Não acredito que possa indicar a Forjadora... Ainda mais dependendo de quantos séculos ela ficou presa como uma estátua.

- O que sugere o Mestre Castelão do Forte das Armas? - O rei fala com ironia.

- Você sabe o que eu sugiro! - Belkarl perde a compostura por um segundo. - Que trate a queda da Deusa como um momento de glória. Do sangue e da fé dos anões que foram usados para estocar o coração do deus lunático!

- Hannah deu mais que sua alma, Belkarl. - Thrummaz de Tyrun tivera aquela mesma discussão com adoradores de Othen por quase toda a sua regência. Estava estafado de sempre lembrar isso. - A Deusa não está nos Campos de Guerra de Othen, como deveria ser o destino daqueles que conseguem a glória na batalha. Ela ficou em Meliny, e aguarda que nós a encontremos!

- Não comemore sua morte, comemore sua vida! - Retruca uma última vez o Mestre Castelão. Mas enfim, dá as costas e prepara-se para partir. Conforme afirmou, não queria tesouros ou sequer agradecimento por sua colaboração no resgate do rei. Mesmo não sendo mais súdito, jamais deixaria a nobreza anã nas mãos de orcs.

Mas talvez, se um dos dois regentes não fosse tão orgulhoso, perceberia que o Mestre Castelão almejava ser uma única família outra vez.

Os passos pesados de Belkarl ecoavam pelas cavernas desertas. Três ficaram ante o Artefato, os tesouros anões recuperados, e o excedente de Odnenga. A guarda Khro Rym deveria fazer as vezes da guarda pessoal do rei, e ainda guiar aquele saque pelas montanhas, em segredo do império e de Lyon, até o trono de Tyrun ou alguma casa aliada.

Mas aos comandantes da empreitada, a próxima etapa os incomodava: Seria a quebra da maldição que aprisionava Ynahum Thyrin, Malho de cobre, a última serviçal pessoal da Deusa dos Anões...

E as runas deixavam claro: Precisariam de magia anã Niebelunga.

26 de setembro de 2017

Meus arquivos de Meliny

A quem possa interessar...

1 de junho de 2017

O Perverso Narrador



Eu narrei pelo MIRC em algum momento dos anos 90 uma partida de RPG que era crueldade, mas servia para demonstrar o quão fraco é o roleplay dos jogadores médios, afinal eu era "o fodão" que sabia de tudo, certo?... Mas mesmo para meus padrões eu me surpreendi.

Lembro que estavam numa sala e pediram alguém para narrar. Queriam jogar "Caçadores de Vampiros" para 3d&t. Basicamente, seres com poderes por motivo de "razões" que iam atrás de Vampiros, seguindo o suplemento da White Wolf. Entranhei terem pedido o 3d&t, logo, deduzi que eles pensavam apenas na parte violenta do jogo, perdendo totalmente o foco do “Terror pessoal” e da “Narrativa”.

Então, rascunhei uma ideia em mente e a apliquei para ver até onde eles iam.

- Vocês são caçadores de vampiros, certo? Odeiam vampiros porque mataram algum parente, ou destruíram uma cidade... (coisa bem "Máscara" destruir uma cidade). Então, um ANCIÃO VAMPIRO do Clã Ventrue liga para cada um de vocês com uma dica, para acabar com o "mais maligno dos vampiros" que traficava drogas e pessoas. Dá um endereço e recomenda ir à noite e atacar os asseclas deles com o máximo de violência, pois eles são perigosíssimos!

Eles nem questionaram o fato de estarem fazendo o serviço para um vampiro. Simplesmente foram lá.

Chegando no endereço do alvo, um bairro pobre, mas com grandes obras no quarteirão, exceto por uma casa pobre. Um único homem estava na porta, armado de uma ripa de madeira com prego.
- Eu fico invisível e me aproximo dele e guardo minha ação. - Anuncia um
- Eu vou lançar minha nuvem de veneno à distância. - Diz o outro.
- Assim que for atingido, uso minha supervelocidade (teleporte) e ataco-o primeiro. - Fala um terceiro

E assim vai. Todos descrevendo ações devastadoras contra o homem maltrapilho com uma ripa de madeira com pregos. Era um ataque surpresa, então só lanço os ataques dos caçadores... Todos acertaram. Somo os danos e informo que antes ele agir em seu turno, o maltrapilho estava morto e estraçalhado no chão. Alguns fizeram questão de se certificar que ele estava morto, para não aparecer de surpresa no futuro.

Deixando o indigente onde estava, eles arrombam a porta. Anuncio o cheiro de comida azeda que permeia o ambiente - um sala-cozinha, com um único cômodo afastado mas com a porta fechada. A luz não acendia. Um deles, com seus sentidos especiais que só o 3d&t podem conferir detectam duas outras pessoas no ambiente, embaixo da mesa coberta com uma toalha esburacada, um deles era anormalmente menor que um ser humano adulto.

Desta vez o grupo prefere circular a mesa. Todos a postos, eles jogam longe com toalha e tudo... e vêem uma mulher e uma menina, abraçadas em pânico.

No meio das ameaças vociferadas, a mulher diz: - Vocês são da empresa, né? A empresa que veio nos despejar e roubar a casa?

Cai a ficha ao grupo. O empresário Ventrue queria construir um shopping, mas para isso precisaria comprar todas as casas do quarteirão. Aquela família se recusou. Mesmo com a luz e água cortada, e provavelmente alguns capangas enviados para assusta-los, eles permaneceram... Até o grupo chegar.

- Pera lá... ainda dá para salvar o cara? - Pergunta em off um jogador.

- Ele era um humano comum de 3d&t. Tinha um ponto de vida apenas. - Informo friamente. - vocês causaram... deixa eu ver ... 30 de dano, e ainda o envenenaram.

- Pera lá... pera lá... - fala um extraordinariamente. - Ainda dá para salvá-lo ... Se um VAMPIRO depositar seu sangue no cadáver, ele vira um vampiro e volta à vida!

Vamos ignorar essa regra absurda... Apenas para lembrar... Que este grupo deveria ser de CAÇADORES de vampiros, não criadores.

- Eu tenho contatos. - Fala outro (detalhe: Não tinha. Gastaram tudo em combate). – Posso encontrar um vampiro que queira fazer isso. A gente paga!

Entre uma e outra barbaridade que os moleques falavam, eu fazia a filhinha perguntar apavorada: "Onde está o papai?"

Eu imaginei que os jovens iriam fazer isso... Prejudicar a família na ânsia de cumprir a missão. E que daí se tornaria uma missão de vingança contra o Ventrue, que obviamente filmou o ataque dos caçadores e apresentou á polícia, e os "heróis" teriam de combater as autoridades antes de chegar ao vilão... Mas acho que peguei pesado demais. O grupo estava tão triste com o que tinham feito, e parou a parida com pouco mais de meia hora de jogo.

Eu fiz "aventuras de vingancinhas" antes, mas desta, eu me sinto um pouco culpado. O pessoal estava mal mesmo. Queriam uma aventurinha hack-'n-Slash via internet no final dos anos 90 e eu dei a eles um gosto de crueldade madura. Era via MIRC, só posso supor a idade deles. Eu mesmo devia ter 17 anos. Tinha esse "ideal purista" quanto à "A Máscara" e buscava pregar ... Mas a mão pode ter sido mais pesada do que era necessário.

Ainda acho divertido o evento, mas me sinto culpado mesmo assim.

12 de setembro de 2016

[Meliny] [Conto] Paradoxo


E acabou.

“A Guerra”.

Houveram outras. Grandiosas. Gloriosas. Sangrentas, mas aquela era a derradeira Guerra.

Deuses, demônios, elementais, a própria existência enfrentando seres com conceito tão abstratos que eu não consigo sequer encontrar palavras para descrever.

A Barreira caiu. Eternidade e Esquecimento se chocaram, não como oponentes em combate, mas como dois cometas em colisão. E o mundo, entre os dois, foi esmagado.

“Vencemos”? O Inimigo foi derrotado, mas ao custo de quase tudo o que foi vivo outrora. E vou além de corpos físicos, espíritos.
Dos mortais, só sobraram três. Minha filha, seu esposo… e eu.
Quanto tempo até a própria atmosfera voar? E a entropia nos dissolver? Não sei. Talvez morramos de fome antes. Talvez da loucura. Talvez tiremos nossas próprias vidas.
Tudo por minha culpa.
Perdi minha esposa, meus filhos, minha raça. Todas as raças. Não foram deuses, não foram reis. Não foram magos. Fui eu.
Minha filha, há algumas dezenas de metros, consola seu esposo ferido. Eu não consigo estar na presença dela sabendo que fui eu quem fiz tudo isso. Minhas decisões. Não importa que ela dissesse que foi uma conclusão inevitável.. Que glorioso general eu fui. Que mago impressionante. Que rei. Que pretenso deus. Permiti que o fim acontecesse.

Culpava minha breve existência, como se eu tivesse mais tempo eu tivesse um resultado melhor que seja.


Caio de joelhos.



E se fosse outro? – Ouso pensar. – Se seguissem um melhor homem, capaz de tomar as decisões que eu não tomei? Qualquer que fosse. Será que mesmo se perdêssemos para o inimigo seria um destino tão pior que a não-existência? Que o fim de tudo?


Ao menos, talvez, minha esposa estivesse viva. Dane-se os universos, os velhos deuses. Dane-se a guerra. O nome dela – nome que não recordo enquanto escrevo isto – valia mais do que a vitória, a coroa, o poder.



Ainda havia um meio.



Se eu nunca tivesse existido.



E havia alguém… Algo… Que nunca deveria ter existido. E não havia mais barreiras para ele.
– Ink…- Falo só a primeira sílaba. Dizer seu nome inteiro num domínio que ele governa é ser lançado ao esquecimento. Tudo o que você fez deixará de existir.



Inkarna



Não haviam mais domínios. A Barreira caiu. Este bolsão em que os três últimos mortais aguardam o fim era tudo o que existia agora… era óbvio que ele estaria lá.
Ele não tem forma, mas sei que ele estava presente. Era como uma sombra de calor deformando a paisagem imediatamente à minha frente. Ele, que outrora era senhor de infinitos universos, limitava-se a uma esfera, pouco maior que meu castelo quando no auge. Ele está na minha presença.
Eu não consigo continuar. Mas tal qual uma besta treinada, ele estava lá. Esperando que eu falasse por ele.
Eu ainda tinha medo... Como é a natureza dos mortais, não? Era o fim da minha fé e de meu mundo, e minha mortalidade ainda pesava.



– Então você ouve, não é? – Eu delirava. Decidi conversar com o próprio esquecimento. – Você quer essa última vitória? Um último mortal e entregando a você?
Não percebo reação. Ele apenas aguarda. Eu caminho hesitante até ele… Estava tão próximo que a deturpação ocupava todo meu campo visual.
– Acho que você não tem culpa…. Nem disso. – Falo enfim. Tinha uma rizada débil entre minhas palavras. – Você nem mesmo pediu para existir. Você é uma força da natureza, não é? Culpá-lo seria como praguejar e amaldiçoar as flechas ou o fogo que atiram em nós…
Aproximo minha mão. Quase toco-o… Mas minha covardia me faz recuar no último instante.
– Você sequer entende o que estou falando? – Urro enfim ante a inércia de meu julgador. A loucura se tornava raiva. De certa forma, um progresso. – Eu falei com o último dos deuses. Eu pude presenciar a distância deles para nós mortais, e o que eu seria então para VOCÊ?!? Como funciona seus sentidos, sua consciência? Você é sequer parecido com isso e eu sou ainda mais insignificante? E mesmo assim você me OUVE?!?



Nada. Eu invejo isso. A capacidade de não sentir. Simplesmente “Ser”... “Estar”...



– Você foi infinito genuinamente. – continuo. – Precisaria de centenas de panteões para governar seu domínio. E você estava lá quando começou. Quando era o Uno. Você é tão maior do que nós…



E naquele momento tive a epifania.



– Não, você não é.



Inkarna era, para as crianças a quem explicávamos os dois entes supremos conhecidos, um terreno onde deuses e demônios “cultivavam” seus domínios. Era uma aproximação infantil para mentes não prontas para compreender o multiverso e as existências. Mas e se não fosse?
O Esquecimento foi usado como arma pelos Deuses para encerrar os imortais caídos – tanto seus inimigos imortais derrotados como seus irmãos imortais destruídos.
Inkarna foi a fonte de poder que gerou o abismo.
Foi o solo sobre o qual diabos e demônios ergueram o inferno.
Era de onde divindades malignas clamavam por retribuição a paladinos. Era onde se bebiam almas sacrificadas. Era o último trono de Valen, de Zar, de Nod, de Theris, de Gyhthon. De tantos antes e de tantos depois.
Ele era o definitivo recurso do inimigo. Ele causou o fim de tudo.
Mas ele era como o fogo. Tantos o usaram para imolar os inimigos que achavam que era sua corrupção quem guiavam seus atos, não o contrário. Agora, eu olhava aquela força da natureza, que dava luz a divindades aberrantes e destruía universos por capricho… e vejo nada. Nem a consciência de um animal. Era poder bruto GUIÁVEL. E só aguardava que eu clamasse seu nome. Gritasse “Inkarna”.



Eu deixaria de existir para todo o sempre.



Meus erros passados. Cada decisão – acertada e errada – seria desfeita.
História se reescreveria.



E minha esposa não teria o triste destino de ter me conhecido.



Era a mais covarde das saídas. Não era céu nem inferno, nem o fim de agora em diante… Era a não-existência desde a gênese.



Mas tantos o usaram, esse poder obtuso de formas tão terríveis e grandiosas… Essa forma abstrata, conceitual e despersonalizada…

Por que não eu?

Por que não uma última vez?

Eu não berraria por Inkarna. Eu faria Inkarna berrar o próprio nome.
Levaria tudo comigo.
Eu o sinto reagindo quando eu o agarro com as mãos. Eu sentia pelo tato como se segurasse as peles de um animal imenso e obeso. Ele protesta… Ou pensa que assim o faz. Ele esmagou todos os universos, mas agora parecia à mercê daquele par de mãos mortais débeis e desesperadas. Ele, que concentrava o que não deveria existir. Ele, que era múltiplos infinitos, era escravo de sua própria natureza. Tinha o poder, mas não a vontade.
E enfim falamos juntos. O nome.
Inkarna.
——————————
Sabem o que é o Paradoxo?
É quando uma condição de existir é a contradição de si mesma.
Não, o Esquecimento não deixou de existir. Ainda bem. Ele era um dos dois fundamentos de tudo o que existiu, e vai existir. Imagine não poder esquecer nada que se aprende, e não corrigir conceitos equivocados do passado... Ou não poder ... Perdoar.
Cogito isso enquanto costuro minha túnica. Eu não sou o esquecimento. Eu poderia ser apagado. Mas por paradoxo, apenas me desassociei de tudo. E assim, tudo o que faço precisa de labor para ser e estar. A linha ao contatar minha túnica se torna parte de mim. Ela não mais pode interagir sequer com a luz, então ela a reflete em sua forma mais pura e branca.
Estou me vestindo pela primeira e última vez. Na sacada de minha torre.
Olho para o céu. Sargan e Lantaris estão a segundos de se chocar em guerra. Os demais deuses buscam a seu modo resguardar uma fração de sua criação – quase a totalidade da vida está prestes a perecer – para quando o inverno passar. Aquele seria o pior evento a ocorrer no Plano de Meliny em dois bilhoes de anos… Mas é um mero e efêmero fenômeno para mim que vi o fim de tudo.  Já vejo as sociedades se reerguerem, e caírem, e se reerguerem mais algumas vezes.
Penso em ver o começo. Conhecer o Uno nas frações de segundo que ele existiu. Mas … de uma forma… acho que estou lá. Vendo-o. Ele é tudo. É impressionante… e está morto agora. Acho que ainda vou lá…. Ou já fui. Tanto faz. O Conhecimento que tenho não é linear.
Eu não existo mais no mesmo tempo em que vocês. Inkarna me atendeu. Mas isso só quer dizer que eu não deveria existir… Tal qual ele próprio. Mas eu não sou uma força primal. Eu tenho uma consciência.
E tenho a história. O conhecimento.
Moldo tempo.
Tenho uma segunda chance…. Tenho tantas chances quantas eu deveria ter.
Aquele futuro de desespero e entropia não existe mais. Não se eu não quiser… E eu não o quero.
Terei de posicionar as peças com antecedência. Eu sei o que vai acontecer. Posso revisitar a história. Manipular heróis. Cidades. Reinos. Deuses. A Eternidade e o Esquecimento, se necessário. Tenho tudo o que já foi e o que será à minha disposição… exceto o rei mago que eu fui nos últimos dias do universo. Este nunca existiu.



Eu sou Cronus.

8 de março de 2016

A Espada de Nod

Hannah, a Forjadora dos Deuses. A primeira e uma das últimas dos Titãs. Martelava com a força de seus músculos ampliados pelas bênçãos de suas ferramentas. Um vulcão era a fornalha. Era necessário para gerar o calor suficiente para purificar os metais a serem redobrados e ao mesmo tempo manter o sigilo daquele acordo tenebroso.
Foram semanas só neste processo final. A lâmina era uma peça inteiriça estreita, sóbria e pouco floreada. Ainda assim, uma arma digna de um dos Deuses Guerreiros da corte de Othen, embora destinado a outro. A alguém que, muitos diriam, era menos que digno.
Mas o pagamento era mais valioso do que qualquer obra de arte. Qualquer montante de pedras preciosas ou metais que pudessem ser expelido de estrelas distantes ou do interior dos próprios planos. E ela não podia negar tal bênção ofertada.
O Deus do Sangue ganharia sua espada.
Ele estava lá. Chegara. Ela sentia. Não adentrava à câmera de lava, cujas paredes se incandesciam por um calor de segunda mão. Seria o fogo sua fraqueza? Não. Seria fácil demais. Ele apenas aguardava no conforto de uma antecâmara natural. Ele era pontual, tinha de admitir. Outra arma, Hannah poderia ficar mais tempo trabalhando, e o “cliente” que esperasse. Era a Deusa da Forja, a quem o metal e a rocha obedeciam aos caprichos... Mas aquela pobre folha delgada e inanimada estava destinada à profanação. Queria se desfazer dela o quanto antes.
E a peça de 90 centímetros emergia da última requentação.  Estava amarela brilhante tal qual um sol nascente tamanho o calor aplicado, mas reduz seu brilho à luminescência rubra com o tempo fora do fogo. Assim podia adequadamente mergulhar no gelo de óleos e sais preparados que dariam o tratamento final. Uma coluna de fumaça branca-azulada emerge quando a lâmina beija a tina. Ela se torna negra, exceto pelo delgadíssimo gume, tal qual uma listra cromada que começava na espiga da empunhadura, cruza o guarda-mão e ascendia até a ponta em delta.
Estava pronta, embora inacabada. O cabo e o pomo, e outros detalhes posteriores seriam personalizados pelo que a encomendou. Mas a peça bruta era uma espada digna de Hannah.
Ela caminha solenemente. Produziria um receptáculo e uma bainha se estivesse orgulhosa de seu labor. Mas sentia vergonha. Entregaria apenas o que Nod Dracul pediu, e pelo que ele pagaria. Nada mais.
Para alguém que nasceu homem, ele era titânico. Alto e musculoso, mas seu porte era elegante e imponente. Vestia suntuosa composição de camisa reforçada e colete de ouro em placas ornamentado. Botas pesadas, mas alinhadas à composição. Uma fita presa tal qual uma gravata e afixada num rubi circular que parecia vivo. Mas quase tudo isso ofuscado pela longa capa dupla vermelho-sangue a envolvê-lo. Pousava nos ombros duas vezes, e descia até a altura das canelas de forma esvoaçante. Dela, aquele rosto duro e aterrorizante emergia. Cabelos impecavelmente penteados com um topete e encaminhos nas laterais. Seus olhos semicerrados não demonstravam íris, mas era possível saber para o que ele olhava. Aquilo em que seu olhar pousava sentia o peso do seu julgamento.
E agora, era a espada negra na mão da deusa/titã.
Só depois desse escaninho, Hannah se deu conta do corpo no chão. Fora brutalmente agredido o que parecia ser um drow, um elfo negro sem vida. Suas vestes em farrapos impossibilitavam a identificação, mas o rosto era conhecido de Hannah, o que a fez gelar.
- Esse é Thanberdetris, o Fazedor de viúvas?!? – pergunta enfim.
- O ingrediente do despertar... A alma de um deus. – Thanberdetris, assim como o próprio Nod, havia ascendido dentre seus iguais à divindade menor, e pertencia à corte de Naron. Era um vil assassino, mas tremendamente poderoso e cheio de recursos. Se Nod o derrotou e aparentava tão bem, talvez como guerreiro ele fosse digno de uma espada de Hannah.
- Honestamente... – fala ela. – Pensei que tentaria usá-la contra mim. Mas mais provável que um dos seus asseclas fosse vitimado outra vez.
Ela se referia aos Regentes das Trevas. Era uma corte menor emancipada por Lantaris, composta pelos senhores dos mortos-vivos. O Dracul, deus dos Vampiros, seria um dos componentes, não alguém com liderança, embora considerassem que na prática não fosse assim. O comentário ácido de Hannah referia-se também ao caído Jiholian, senhor dos Liches e dos esqueletos, que muitos suspeitam ter sido arquitetado por Nod.
- Eu me ressinto de que pense que eu me sujeitaria a manobras tão desprezíveis, minha senhora. – fala o Deus do Sangue com leveza, embora sua voz soasse como um rosnado. – O mundo seria um lugar pior sem você e seu ofício, mas ficou muito melhor sem um monstro como aquele. – Nod maneia a cabeça em direção do corpo caído.
- E é isso que tem em mente? Um mundo “melhor”? – protesta intimamente Hannah. – Que seja. Nós tínhamos um acordo.
- Aqueles que vêm de Wehha e do Plano da Infinita Guerra tem a confiança de Othen, por que eu perderia meu tempo com desconfiança minha? – Nod Dracul caminha firme na direção da deusa da forja. – Há muito eu paguei o que você me pediu. Os anões estão livres pela eternidade.
 Os Anões. Foram gerados quando os titãs revoltosos ousaram desafiar os Deuses. Hannah não se uniu à revolta, mas implorou para que recebessem uma nova chance. Desde então, a Deusa da Forja era a guardiã dos anões. Prometera a Nod uma espada digna dos deuses maiores se o mal que corre no sangue dele não afetasse seus protegidos.
- E quanto a minha confiança? – fala ela, ainda hesitando em aumentar ainda mais o poder daquela criatura para proteger os seus. – Como eu posso confiar?
- Cogitei em trazer um dos seus robustos aqui mesmo, executa-lo e conferi-lhe meu sangue pessoalmente. Assistiríamos juntos se ele se ergueria como um filho meu, uma criatura do sangue... Ou se simplesmente definharia e morreria como é o natural. – Nod silencia um segundo ou dois antes de continuar. – Não achei de bom gosto.
Hannah ergue a lâmina... A espada que forjou. Talvez a maior e mais poderosa que já fez arma até então, abaixo apenas da Lancastorm. Ainda hesita.
- Que o tempo diga então se o Dracul trai sua palavra. – fala enfim. Ele não ergueu a mão e pediu... Ele queria que a Deusa lhe entregasse a arma espontaneamente, assinando assim sua complacência com horrores vindouros. – Se surgir um anão com meu sangue, com qualquer similaridade com minhas crias, ele e seu criador serão inimigos tanto seus quanto meus. Até lá, seu sigilo é mais benéfico a você do que a mim. Mas a mancha de eu faltar com a palavra não me é interessante. Agora, minha senhora... Só cabe a você a conclusão.
O que Othen pensaria? Era um acordo digno. Ao Senhor da Guerra, o fato de Nod ser um flagelo ao mundo dos mortais era irrelevante. Ela era a Deusa da Forja. Aplicava seus talentos em prol dos seus protegidos, garantindo potencialmente todas as almas de seu povo – atuais e futuras – da escravidão vampírica. Os termos eram claros, isso não impedia que as crias de Nod se alimentassem deles, apenas que de um anão não nasceria um vampiro.
O peso do mundo estava naqueles quinze quilos de aço-liga de Arkâniun, minério estrelar, Aetérniun e de puras trevas. Era uma arma e um receptáculo. Indestrutível aos meios mortais. A lâmina que cortaria tudo com a qual a força do esgrimista aplicasse. Capaz de absorver as qualidades e essências de tudo o que toca. Potencial simbiôntico com o Deus dos Vampiros. Rasgaria até as dimensões e os caminhos dos planos, se manuseada adequadamente.
Para ativar, faltava a alma de um deus menor. E ai entra Thanberdetris.
Nod segura a peça pelo espigão, ainda sem empunhadura. Aqueles olhos mortos pesam na lâmina. Um sorriso desenha em sua marmórea face. Um discreto sinal de aprovação.
- Como a chama? – pergunta enfim.
- “Espada de Nod”. – Hannah não daria um nome mais rebuscado ou personalizado. Aquela peça teria usos tenebrosos, que constasse apenas o óbvio. Nod Dracul não pareceu decepcionado, insultado ou homenageado por isso.
Agora caminhava até o corpo do deus drow.
- Imagino que tenha resguardado a alma dele. – fala a Deusa. – Era preciso a alma de um deus menor, não um cadáver.
Nod não responde. Apenas se aproxima até ficar a distância da estocada. E de forma firme e lenta, ele a faz. Fazia mira e corrigia o trajeto da ponta.
E o corpo sofre uma convulsão. Hannah se assusta. Podia jurar que estava morto... E sua suposição era muito mais precisa que a mera observação mortal. Eram os sentidos de uma deusa, não uma constatação devido a inércia. No assombro, em uma fração de segundos, ela também constata que o espasmo se deu instantes antes da ponta da folha sequer tocar no corpo. Como se a alma de Thanberdetris estivesse de alguma forma invisível a ela, mas deitada sobre o cadáver.
O cromado da lâmina lentamente se tornava rubro como sangue. Subia à medida que ela ia absorvendo as energias. E o cadáver tremia mais e mais violentamente. Hannah não entendia o que acontecia. Como poderia alguém estar vivo e morto ao mesmo tempo? Derrotar em combate Thanberdetris era um feito de poder bruto significativo, mas aquela perversão da própria natureza dos seres – mesmo considerando que Nod é por si só um deus, um demônio e um morto-vivo – lhe fugia a compreensão.
Mas como lhe foi instruído, uma alma de um ser, não menos que um deus menor, deveria ser sacrificado e seus dons coletados no receptáculo para despertar a arma. Tal qual a vindoura obra maior de Hannah em alguns séculos cobraria sua própria vida, um item único nasceu naquele vulcão.
Uma arma e uma entidade por si só.
Digna de um deus.