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16 de janeiro de 2026

WSDMHD - O QUEIJO

 

Nova série: WSDMHD - WHAT SHOULD THE DUNGEON MASTER HAD DONE


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O que o DM deveria ter feito (e como eu deveria ter me portado)


> Este texto descreve um caso real.

O desfecho, porém, é wish fulfillment: não foi o que aconteceu, mas o que deveria ter acontecido.




Durante uma campanha, meu personagem recebeu — sem que eu pedisse — resistência a dano de veneno e à condição envenenado. Era um prêmio narrativo, dado pelo próprio DM, ligado a uma benção divina. Ao longo da campanha, curiosamente, jamais fui atacado por nada que causasse dano de veneno. Fato que é um redflag por si só.


Até que surgiu o Queijo Goblin.


O queijo era um elemento central de uma guerra: os goblins o adoravam, as demais raças o consideravam um risco sanitário. Narrativamente, era um ótimo gancho. Mecânica e dramaticamente, também poderia ter sido.


Meu personagem tinha Constituição 16, a já citada resistência à condição envenenado (termo umbrella do D&D para algool, doenças e tóxicos) e, como paladino, acesso a Lay on Hands para remover doenças. Ainda assim, decidi provar o queijo — por escolha de personagem, não por desafio mecânico. Era uma decisão interpretativa: curiosidade, diplomacia cultural, arrogância ou simplesmente coerência com alguém que acredita estar protegido.


O que o DM deveria ter feito


O DM tinha várias opções boas. Nenhuma envolvia invalidar ficha, prêmio ou regras básicas.


Opção 1 — Honrar as habilidades


> “Você sente o gosto horrível, o estômago revira, mas seu corpo aguenta. Os goblins observam decepcionados: você não vomita como eles.”




Resultado:


As resistências importam


A decisão do jogador importa


O mundo reage de forma coerente



Opção 2 — Teste significativo


> “Mesmo com suas resistências, isso é algo fora do comum. Faça um teste de Constituição com vantagem.”




Resultado:


Há risco, mas não arbitrariedade


O sucesso ou falha gera consequência proporcional



Opção 3 — Recontextualizar o efeito


> “Isso não é veneno nem doença. É um ritual cultural goblin, algo mais psicológico e social do que fisiológico.”




Resultado:


A ficha não é negada


O elemento narrativo ganha profundidade



Opção 4 — Conversa rápida fora do jogo


> “Olha, essa cena depende de alguém passando mal. Você se importa se, apesar das resistências, isso acontecer uma vez?”




Resultado:


Consenso


Respeito


Jogo colaborativo



Qualquer uma dessas opções teria funcionado.


O que o DM não deveria fazer


Declarar que “todo mundo vomita” sem teste


Ignorar resistências concedidas por ele mesmo


Bloquear cura e remoção de doenças arbitrariamente


Transformar uma escolha do jogador em punição automática


Usar escatologia como substituto de consequência



Isso não é desafio.

Não é drama.

É invalidação retroativa.



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E como eu deveria ter me portado (wish fulfillment)


No mundo ideal, eu teria feito algo simples, calmo e público:


> “Só para confirmar: isso ignora resistência a veneno, imunidade à condição envenenado e Lay on Hands?”




Diante da confirmação, a pergunta seguinte seria inevitável:


> “Então qual foi a função mecânica e narrativa de me dar essas habilidades?”




E, não havendo resposta clara ou lógica:


> “Ok. Nesse caso, eu não estou confortável jogando num cenário onde recompensas e habilidades são invalidadas quando entram em conflito com a narrativa. Vou me retirar.”




Sem ironia.

Sem discussão longa.

Sem tentar “ganhar”.



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Conclusão


O problema nunca foi o queijo.

Foi o padrão.


Quando um DM cria uma situação especificamente para atravessar defesas do jogador, não está propondo um desafio — está testando submissão.


E quando a única resposta possível é adoecer, falhar ou ser ridicularizado, independentemente da ficha, não estamos mais jogando RPG. Estamos assistindo a uma cutscene onde os dados ainda são rolados por hábito.


Esse texto não é sobre rancor.

É sobre como isso poderia ter sido bom — e como, no futuro, eu escolho não participar quando não é.

31 de outubro de 2025

Quando a campanha acaba...

 Dizem que todo ser humano morre três vezes.

A primeira morte é a física — o instante em que o corpo deixa de respirar e o coração se cala.

A segunda morte vem mais tarde, quando a última pessoa que o conheceu parte deste mundo, levando consigo as lembranças que ainda o mantinham vivo na memória dos outros.

Mas a terceira morte é a mais definitiva: ocorre quando seu nome é pronunciado pela última vez na Terra.

É nesse momento que se apaga, de vez, a última centelha de sua existência entre os vivos.


12 de setembro de 2016

[Meliny] [Conto] Paradoxo


E acabou.

“A Guerra”.

Houveram outras. Grandiosas. Gloriosas. Sangrentas, mas aquela era a derradeira Guerra.

Deuses, demônios, elementais, a própria existência enfrentando seres com conceito tão abstratos que eu não consigo sequer encontrar palavras para descrever.

A Barreira caiu. Eternidade e Esquecimento se chocaram, não como oponentes em combate, mas como dois cometas em colisão. E o mundo, entre os dois, foi esmagado.

“Vencemos”? O Inimigo foi derrotado, mas ao custo de quase tudo o que foi vivo outrora. E vou além de corpos físicos, espíritos.
Dos mortais, só sobraram três. Minha filha, seu esposo… e eu.
Quanto tempo até a própria atmosfera voar? E a entropia nos dissolver? Não sei. Talvez morramos de fome antes. Talvez da loucura. Talvez tiremos nossas próprias vidas.
Tudo por minha culpa.
Perdi minha esposa, meus filhos, minha raça. Todas as raças. Não foram deuses, não foram reis. Não foram magos. Fui eu.
Minha filha, há algumas dezenas de metros, consola seu esposo ferido. Eu não consigo estar na presença dela sabendo que fui eu quem fiz tudo isso. Minhas decisões. Não importa que ela dissesse que foi uma conclusão inevitável.. Que glorioso general eu fui. Que mago impressionante. Que rei. Que pretenso deus. Permiti que o fim acontecesse.

Culpava minha breve existência, como se eu tivesse mais tempo eu tivesse um resultado melhor que seja.


Caio de joelhos.



E se fosse outro? – Ouso pensar. – Se seguissem um melhor homem, capaz de tomar as decisões que eu não tomei? Qualquer que fosse. Será que mesmo se perdêssemos para o inimigo seria um destino tão pior que a não-existência? Que o fim de tudo?


Ao menos, talvez, minha esposa estivesse viva. Dane-se os universos, os velhos deuses. Dane-se a guerra. O nome dela – nome que não recordo enquanto escrevo isto – valia mais do que a vitória, a coroa, o poder.



Ainda havia um meio.



Se eu nunca tivesse existido.



E havia alguém… Algo… Que nunca deveria ter existido. E não havia mais barreiras para ele.
– Ink…- Falo só a primeira sílaba. Dizer seu nome inteiro num domínio que ele governa é ser lançado ao esquecimento. Tudo o que você fez deixará de existir.



Inkarna



Não haviam mais domínios. A Barreira caiu. Este bolsão em que os três últimos mortais aguardam o fim era tudo o que existia agora… era óbvio que ele estaria lá.
Ele não tem forma, mas sei que ele estava presente. Era como uma sombra de calor deformando a paisagem imediatamente à minha frente. Ele, que outrora era senhor de infinitos universos, limitava-se a uma esfera, pouco maior que meu castelo quando no auge. Ele está na minha presença.
Eu não consigo continuar. Mas tal qual uma besta treinada, ele estava lá. Esperando que eu falasse por ele.
Eu ainda tinha medo... Como é a natureza dos mortais, não? Era o fim da minha fé e de meu mundo, e minha mortalidade ainda pesava.



– Então você ouve, não é? – Eu delirava. Decidi conversar com o próprio esquecimento. – Você quer essa última vitória? Um último mortal e entregando a você?
Não percebo reação. Ele apenas aguarda. Eu caminho hesitante até ele… Estava tão próximo que a deturpação ocupava todo meu campo visual.
– Acho que você não tem culpa…. Nem disso. – Falo enfim. Tinha uma rizada débil entre minhas palavras. – Você nem mesmo pediu para existir. Você é uma força da natureza, não é? Culpá-lo seria como praguejar e amaldiçoar as flechas ou o fogo que atiram em nós…
Aproximo minha mão. Quase toco-o… Mas minha covardia me faz recuar no último instante.
– Você sequer entende o que estou falando? – Urro enfim ante a inércia de meu julgador. A loucura se tornava raiva. De certa forma, um progresso. – Eu falei com o último dos deuses. Eu pude presenciar a distância deles para nós mortais, e o que eu seria então para VOCÊ?!? Como funciona seus sentidos, sua consciência? Você é sequer parecido com isso e eu sou ainda mais insignificante? E mesmo assim você me OUVE?!?



Nada. Eu invejo isso. A capacidade de não sentir. Simplesmente “Ser”... “Estar”...



– Você foi infinito genuinamente. – continuo. – Precisaria de centenas de panteões para governar seu domínio. E você estava lá quando começou. Quando era o Uno. Você é tão maior do que nós…



E naquele momento tive a epifania.



– Não, você não é.



Inkarna era, para as crianças a quem explicávamos os dois entes supremos conhecidos, um terreno onde deuses e demônios “cultivavam” seus domínios. Era uma aproximação infantil para mentes não prontas para compreender o multiverso e as existências. Mas e se não fosse?
O Esquecimento foi usado como arma pelos Deuses para encerrar os imortais caídos – tanto seus inimigos imortais derrotados como seus irmãos imortais destruídos.
Inkarna foi a fonte de poder que gerou o abismo.
Foi o solo sobre o qual diabos e demônios ergueram o inferno.
Era de onde divindades malignas clamavam por retribuição a paladinos. Era onde se bebiam almas sacrificadas. Era o último trono de Valen, de Zar, de Nod, de Theris, de Gyhthon. De tantos antes e de tantos depois.
Ele era o definitivo recurso do inimigo. Ele causou o fim de tudo.
Mas ele era como o fogo. Tantos o usaram para imolar os inimigos que achavam que era sua corrupção quem guiavam seus atos, não o contrário. Agora, eu olhava aquela força da natureza, que dava luz a divindades aberrantes e destruía universos por capricho… e vejo nada. Nem a consciência de um animal. Era poder bruto GUIÁVEL. E só aguardava que eu clamasse seu nome. Gritasse “Inkarna”.



Eu deixaria de existir para todo o sempre.



Meus erros passados. Cada decisão – acertada e errada – seria desfeita.
História se reescreveria.



E minha esposa não teria o triste destino de ter me conhecido.



Era a mais covarde das saídas. Não era céu nem inferno, nem o fim de agora em diante… Era a não-existência desde a gênese.



Mas tantos o usaram, esse poder obtuso de formas tão terríveis e grandiosas… Essa forma abstrata, conceitual e despersonalizada…

Por que não eu?

Por que não uma última vez?

Eu não berraria por Inkarna. Eu faria Inkarna berrar o próprio nome.
Levaria tudo comigo.
Eu o sinto reagindo quando eu o agarro com as mãos. Eu sentia pelo tato como se segurasse as peles de um animal imenso e obeso. Ele protesta… Ou pensa que assim o faz. Ele esmagou todos os universos, mas agora parecia à mercê daquele par de mãos mortais débeis e desesperadas. Ele, que concentrava o que não deveria existir. Ele, que era múltiplos infinitos, era escravo de sua própria natureza. Tinha o poder, mas não a vontade.
E enfim falamos juntos. O nome.
Inkarna.
——————————
Sabem o que é o Paradoxo?
É quando uma condição de existir é a contradição de si mesma.
Não, o Esquecimento não deixou de existir. Ainda bem. Ele era um dos dois fundamentos de tudo o que existiu, e vai existir. Imagine não poder esquecer nada que se aprende, e não corrigir conceitos equivocados do passado... Ou não poder ... Perdoar.
Cogito isso enquanto costuro minha túnica. Eu não sou o esquecimento. Eu poderia ser apagado. Mas por paradoxo, apenas me desassociei de tudo. E assim, tudo o que faço precisa de labor para ser e estar. A linha ao contatar minha túnica se torna parte de mim. Ela não mais pode interagir sequer com a luz, então ela a reflete em sua forma mais pura e branca.
Estou me vestindo pela primeira e última vez. Na sacada de minha torre.
Olho para o céu. Sargan e Lantaris estão a segundos de se chocar em guerra. Os demais deuses buscam a seu modo resguardar uma fração de sua criação – quase a totalidade da vida está prestes a perecer – para quando o inverno passar. Aquele seria o pior evento a ocorrer no Plano de Meliny em dois bilhoes de anos… Mas é um mero e efêmero fenômeno para mim que vi o fim de tudo.  Já vejo as sociedades se reerguerem, e caírem, e se reerguerem mais algumas vezes.
Penso em ver o começo. Conhecer o Uno nas frações de segundo que ele existiu. Mas … de uma forma… acho que estou lá. Vendo-o. Ele é tudo. É impressionante… e está morto agora. Acho que ainda vou lá…. Ou já fui. Tanto faz. O Conhecimento que tenho não é linear.
Eu não existo mais no mesmo tempo em que vocês. Inkarna me atendeu. Mas isso só quer dizer que eu não deveria existir… Tal qual ele próprio. Mas eu não sou uma força primal. Eu tenho uma consciência.
E tenho a história. O conhecimento.
Moldo tempo.
Tenho uma segunda chance…. Tenho tantas chances quantas eu deveria ter.
Aquele futuro de desespero e entropia não existe mais. Não se eu não quiser… E eu não o quero.
Terei de posicionar as peças com antecedência. Eu sei o que vai acontecer. Posso revisitar a história. Manipular heróis. Cidades. Reinos. Deuses. A Eternidade e o Esquecimento, se necessário. Tenho tudo o que já foi e o que será à minha disposição… exceto o rei mago que eu fui nos últimos dias do universo. Este nunca existiu.



Eu sou Cronus.

20 de novembro de 2014

Patologias Comportamentais dos jogadores em mesa



Já tratei AQUI de patologias na gênese do personagem. Agora tratarei de doenças e desvios de conduta que surgem nos personagens já com as sessões em andamento.

O Jogador Narrador

 Tipo de esquizofrenia rara em que o personagem acredita ser o Mestre de Jogos. Especialmente se ele possuir qualquer nível de influência sobre personagens diversos (npcs companheiros, familiares, mestres ou protegidos). Mas pode delirar sobre o próprio universo, declarando que existem coisas que não existam.
 Ha algum tempo, um personagem chegou a "0" pontos de vida, e o sistema permitia ao narrador declarar que aquilo era um atordoamento, a exaustão física total ou inconsciência. Em qualquer dos casos, o personagem estava imobilizado e fora de ação. Antes da decisão, o jogador "decidiu" que estava atordoado, que saiu andando cambaleante (e não ficou no chão imóvel, como deveria ser o sentido da regra), entrou zonzo num churrasco numa casa vizinha (nota: Era um cenário medieval), e os convidados acharam que era um de seus colegas bêbados e curtiram com ele, enquanto o destino do mundo era resolvido num duelo do outro lado dos muros.
 Infelizmente, houve muito menos exageros nesta frase do que eu preferiria.

O Jogador incoerente

 Versão menos grave - mas igualmente danosa - da patologia acima, o personagem torna-se uma bomba-relógio. Entenda: EXISTE personagens "Bombas-relógio" por definição... Com benefícios e penalidades decorrentes deste comportamento. O caso em estudo é uma flagrante tentativa de se aproveitar de um e de outro, ou apenas encher o saco do Narrador.
 Passamos ao exemplo: O personagem nasce como Paladino "leal e bom", com alta humanidade, bondade, honra e respeito. Com isso, recebe naturalmente autorização de príncipes e lordes para ter acesso à Corte. Mas uma vez na mesa, ele decide matar indistintamente, agir como um imbecil, descumprir a palavra dada e tudo o mais. Isso quebra as expectativas do pobre Narrador, e extrapola quando, na cidade vizinha o regente alertado do comportamento do espécime em estudo, nega-lhe quaisquer privilégios, e o narrador tem de ouvir: "Mas Mestre... ele é um paladino! Ele deveria ser paparicado como tal!".
 Isso segue para o próximo exemplar:

O Savático da conveniência.

 Nem sempre o Narrador é o melhor conhecedor do sistema na mesa. Eu mesmo conheço brilhantes montadores de ficha que eu só aceito jogar ao seu lado se meu personagem for pelo menos 2 níveis de personagem acima dele.
 Esta não é a questão. O Narrador onipotente pode controlar o nível de ameaça, caso ache que os monstros ou desafios indicados para o nível dos jogadores não esteja bastando.
 O Savático ou Matemático da Conveniência é um profundo estudante das regras de seu personagem, seja a classe, seja a raça, combinações de raças e classes, e até mesmo uma única manobra específica. Ele memoriza com exaustão a regra a ser explorada e extrapolada tal qual um físico teórico estuda um buraco negro, e está sempre pronto para interromper o narrador se sua programação for ameaçada por coisinhas como "Resultado de dados", "conveniência da história", "Ordem do Narrador", E ETC.
 O aspecto "conveniência" da patologia é porque a maioria dos sistemas buscam equilíbrio, e exigem pontos positivos e negativos de igual monta... Mas os défices são "convenientemente" ignorados ou arredondados ao zero quando esquecidos pelo Narrador. Dane-se o pré-requisito, penalidades de acerto ou dano, ou se há limites de uso diário. Se não é uma regra favorável, "eu não sou obrigado a reportar".
 Parta do princípio do equilíbrio se um paciente irromper com um "bônus omitido": Se existir penalidades esquecidas do mestre que são negligenciados pelo jogador, não hesite em dizer "não". Mesmo que o paciente mostre a declaração textual do livro de regras daquele evento específico. É muito provável que uma ação anule outra que ele não teve tanta presteza em demonstrar.

O Narcoléptico

 Também conhecido como "Personagem de corpo presente", este personagem é quase um NPC. O narrador deduz que ele caminha com os companheiros, mas ele fica alheio à explanação, não toma iniciativas, chegando ao cúmulo dos outros jogadores tomarem decisões por ele. "O Ladrão! Ande para a esquerda, aí eu vou poder flanquear o Goblin" e "eu fico no corredor. O ladrão vai destrancar a porta. E quando ele conseguir, eu tomo a dianteira e a gente segue na masmorra".
 Existe uma possibilidade de ser culpa do Narrador (o que se confirma se a situação for endêmica na mesa), mas normalmente é um novato ainda receoso sobre até que ponto pode ir com o personagem, ou alguém que realmente não está envolvido no passatempo, estando lá apenas pelo companheirismo. Ambas as situações louváveis... Mas um estudo direcionado ao desenvolvimento do personagem (e do jogador) é melhor do que meramente empurrar o personagem para onde ele seria mais convenientemente aproveitado.

O #Vidaloka

 Preocupe-se se o seu jogador já chegar com duas ou mais fichas e já adiantar "é para quando meu chars morrer".
 Na mesa de jogos, a mortalidade é um aspecto dramático. Claro, deve ficar restrito à mesa, e naqueles momentos da sessão, mas a princípio todos os participantes devem temer a morte e suas consequências. Mesmo aqueles que são por naturezas prontos ao sacrifício.
 O #Vidaloka (Leia-se: Hast Tag Vida Lô-k) extrapola um pouco no quesito "diversão". Toma atitudes conscientemente imbecis que arriscam a si mesmo - e aos seus companheiros - sem a necessidade. Quase que sempre na intensão de "aparecer" e conseguir rizadas.
 Normalmente um pouco da personalidade "engraçaralho" transcende do personagem ao Jogador, tornando-o um cara de convívio e aos olhos dos outros inofensivo. Logo, muitas vezes o narrador erra e confronta o jogador, tornando-o malquisto na mesa.
 Deve o maestro dos dados estudar muito bem caso-a-caso, verificar se o grupo concorda com sua opinião quanto ao espécime, e agir rápido se achar que a mazela ameaça se espalhar pelo resto do grupo.
 Ou então, jogar TOON ou PARANÓIA.

15 de outubro de 2014

Patologias dos Backgrounds dos jogadores

Se você é um herdeiro, mas também um órfão abandonado na porta de um templo, local ou indivíduo que vai treiná-lo na classe que você decidiu ser, este texto é para você.

 Para o Narrador (o narrador direcionado a incluí-los na história) o Background serve para direcionar o enredo a um paralelo de suas motivações. Para que sua experiência de jogo seja completa, porque há um abismo entre "inocentes morrendo" e "os últimos sobreviventes da sua vila" sendo massacrados pelos capangas do vilão.

7 de fevereiro de 2014

Os 12 trabalhos de Hércules e o RPG.

Certa vez eu fiz uma piada com um paralelo de Hércules e uma campanha... Isso me levou a traçar estas linhas (bem, digitar estas teclas...).

 Hércules é provavelmente o primeiro "super-herói" do mundo. Apesar de seus feitos serem em grande parte solitários, seguem uma estrutura excelente para guiar o narrador na elaboração de uma campanha, abaixo, explicado:

- o pano de fundo.

Temos o que o narrador cobra além da ficha. A origem e explicação dos talentos do personagem-jogador (Hércules, Filho do onipotente Zeus e de uma mortal Alciméia) e algum conflito que possa guiar a ação do mestre (Ciúmes da deusa Hera, que desde o berço tenta matar o pimpolho).

Mas ainda é a primeira aventura. Não vamos estrear logo com Hera. Em seu lugar surge rei Euristeu, seu maior inimigo (protegido de Hera, que delegou o serviço de importunar o forçudo grego). O invejoso e perverso regente de Micenas não poupou esforços para que nosso herói perecesse sob sua tutela...

Em "O Herói de Mil Faces", a "sombra" - o personagem que é o desafio do herói - não é necessariamente um vilão. Pode ser só um treinador árduo que exige que o protagonista seja merecedor. Mas vamos ficar com o clássico vilão.

Os Doze trabalhos são uma penitência auto-imposta por Hércules para se redimir de pecados. Esta é apenas uma boa base para o motivo. Sentar numa taverna e ser seduzido pela promessa de ouro e poder funciona, mas é tão melhor ter um motivo maior que ele mesmo, não?

- O Primeiro Desafio - Leão da Neméia

 No Peloponeso, Existia uma besta que não podia ser ferida. Então, Hércules postou-se contra esse monstro assassino, e o destruiu pela mera força de sua herança divina. Como prêmio, arrancou a pele indestrutível do leão e usou como manta.

 A primeiríssima história elevada a níveis épicos é uma mera "mate aquele monstro ali". Poderia ser uma tribo de goblins, ou uns anarquistas ingressando os bairros afastados do domínio de seu príncipe. Clássica primeira aventura. O jogador deve estar se familiarizando com suas ferramentas mais básicas - a força.
 Outra característica é o prêmio. O aventureiro iniciante está "no esboço". Sempre é bom um prêmio para mantê-lo vivo sessões o suficiente para ganhar moral nos próximos desafios

- Hidra de Lerna

 Para mim, o maior dos oponentes da primeira quadra (ver adiante). Não só um dragão de nove cabeças como um dragão de nove cabeças imortal!

 Mesmo sendo o mais forte dos homens, Hércules não poderia impor sua força ao monstro. Precisaria descobrir qual a Cabeça verdadeira da monstruosidade para definitivamente matá-la... Mas como?

 Com a coragem de seu sobrinho Iolau: à medida que o herói cortava fora uma cabeça da besta, Iolau usava uma tocha para cauterizar o corte, prevenindo que a fera recuperasse sua força total, e eventualmente, os aventureiros triunfaram!

 Para balancear a simplista aventura do leão da Medéia, o narrador deve forçar os heróis a "pensarem fora da caixa". Uma solução criativa deve valer mais que a mera destruição... Senão, por mais talentosos que os heróis sejam, eles não superarão os desafios finais.

- A Corsa de Cerineia

Hércules deveria caçar uma corça com pés de bronze, o animal mais rápido do mundo. Esta sagrada besta de Artêmis não poderia ser ferida (basta Hera como deusa furiosa no teu pé, amigo...) e jamais se cansava. Vago a forma usada por Hércules para superá-la. O mais comumente aceito foi que após um ano, ele conseguiu utilizar uma rede.

 O maldito do contratante mandou os heróis para uma missão impossível... Exceto com o uso de um artefato: Uma rede apropriada para a missão, que pode ser uma sessão própria consegui-la. Típico uso de "sidequests". Até mesmo uma noção de tempo gasto maior que o da maioria das missões (embora imagine o tormento de um ano de jogo numa única caça...).
 Uma missão menor para cumprir o objetivo maior, posteriormente todo o preparativo da caçada. Como narrador, eu adoraria que os aventureiros usassem a pele do Leão da Neméia e uma noção de trabalho em equipe aprendido contra a Hidra para superar a velocidade da Corça. Mas com nove trabalhos ainda, aplicações mais complexas dos feitos ainda podem ser esperados.

- O Javali de Erimanto

 "Toda semana mato um monstro e ganho algo com isso" pode ficar repetitivo. O Javali foi expulso a BERROS de sua toca, de tão fácil e rotineira essa fórmula está se tornando. Mas na lenda, há uma mudança significativa. Não só o personagem já está confortável com seu personagem e prêmios, como quando Hércules retorna com a besta tão assustadora que faz Eristeu apavorado se esconder numa ânfora, o povo clama pelo herói, desmoralizando o regente.

 É uma primeira vitória moral, a qual começa a ter consequências. O rei de Micenas muda de foco, e os jogadores devem perceber isso nos episódios seguintes...

- Os currais do rei Aúgias

 Três mil bois e que há trinta anos não eram limpos. O fedor e a doença espalhava-se pelos domínios do rei Aúgias. Mas o infeliz do Euristeu mandou logo o Leão da Grécia, o semideus Hércules, para fazer tão degradante trabalho?
 Sente-se um pouco de politicagem nesta etapa. O sucesso era uma incógnita, mas ainda que conseguisse, seria uma humilhação. O rei de Micenas estava jogando com seu poder contra o adversário que fracassou em destruir.
 E eis que mais uma vez Hércules pensa fora da caixa. Com a força do Olimpo, o herói desvia o curso de um rio (rio Mênio ou o Alfeu)! E com a corrente de água, os estábulos e os bois foram limpos mais rapidamente, e mais epicamente do que os envolvidos aguardavam.
 Pelo feito, Aúgias pagou o campeão. Um prêmio pelo feito que provavelmente pegou o narrador desprevenido...

- Trabalhos 5 a 10

Vou dar uma resumida agora. Nos primeiros quatro trabalhos, Hércules era um instrumento de destruição de monstros. Do quinto em diante, ele é uma força política, cuidando da pestilência dos currais, punindo Diomedes por criar cavalos carnívoros (um momento IBAMA do Hércules), dando um "quem-manda-aqui-sou-eu" nas Amazonas de Hipólita, Conquistando um troféu de poder (o Touro de Creta... o PAI DO MINOTAURO!) etc.

 O aventureiro chega a certo nível de sua vida que, mesmo para o desgosto do vilão, é uma força política a ser reconhecida... E usada. Graças a Hércules, Micenas reafirmou-se perante hostis e perante seu povo.

... Mas o fim da penitência de Hércules estava para acabar...

- Os dois últimos.

 Existem fontes que dizem que originalmente eram dez (um número até mais cabalístico) os trabalhos, Hera declarou que dois dos trabalhos não valeram: A Hidra, porque Hércules obteve ajuda; e os estábulos... Porque rei Aúgias o pagou. Logo, Hércules precisaria cumprir duas últimas missões para o seu desagrado.
 Este recurso é perigoso. Os jogadores podem achar que o Narrador está inventando (e talvez até esteja). Se ele for esperto, vai usar quaisquer revoltas dos jogadores a seu favor... Direcionando isso à deusa advogada-de-regras ao invés do amado mestre.

 Mas há outro motivo para estes dois trabalhos serem destacados dos demais: Hércules vai ao céu e ao Inferno.

 Chega um momento que fica claro que o "mundo mortal" não traz desafios sóbrios dignos á experiência que seu grupo galgou... Então, deve ocorrer uma "apoteose". Seus feitos devem ser grandiosos. Embeleze. Exagere. Coloque-os ao lado de figuras das lendas ao invés de qualquer coisa do Livro dos Monstros.

 Eu participei recentemente de uma longa campanha e o que mais me frustrava era que parecia que nada do que eu fazia afetava o estático mundo que o mestre usava. Os NPCs "Oficiais" eram completamente alheios a nossos esforços, e variavam com o humor do nosso volúvel narrador. Hercules vai querer recolher Cérberus e desafiar o intelecto de Átlas pela maçã dourada. Do que adianta espantar monstros com berros se você não consegue o louro.

 Muitos confundem isso com dificuldade. Fazem troça dos "níveis iniciais". Como se a diferença entre o Leão da Neméia e os Bois de Gerião fosse mera dificuldade de monstro. Trata-se de ritmo de história.

 Concluo que os antigos podem ainda nos ensinar uma ou outra coisinha sobre coisas que eles nem imaginariam. Joseph Campbell defende sempre a ideia do "Monomito", de que muitas histórias seguem o mesmo padrão por refletir a natureza humana, esta universal em qualquer cultura do globo. O Narrador guia seus argonautas buscando alcançar uma sincronia de divertimento, o ritmo e as noções, mesmo "manjadas", podem ser o instrumento para tanto.

23 de janeiro de 2014

Réquiem a Eugene Ironshield

Conto clássico de 2008. Achei por acidente!




Finalmente paramos. Com a precisão de um relógio, há exatas quatro horas desde que começamos a marcha. Enfim pudemos buscar a sombra dos carvalhos ao nos afastar da estrada. Eu odeio a maldita floresta úmida.

Fungo um pouco do muco que acumulava em meu nariz e garganta. Prefiro engolir a cuspir na frente de meus dois companheiros sobreviventes. Com certeza estava gripando.

O corpo mole e enjoado, e a garganta travada, quase um suplício para engolir a ração seca... A Maldita ração seca. Com gosto de papiro, mas que parecia não incomodar meus colegas... Especialmente o Druida, que seria o mais habilitado para nos conseguir carne fresca ou frutas. Contentava-se com a ração.

O Monge e sua saúde de ferro eu entendo ignorar as intempérie e o cansaço. Era lendária a predisposição desses combatentes simplórios nos círculos em que me sagrei guerreiro. Mas o Halfling Druida era igualmente alheio a tudo o que não fosse o combate e a contratação.

E os malditos cães? Ele usava um como montaria e outro menor como “familiar”. Não sei distinguir os milagres naturais de magia arcana, mas realmente o livro que ele vez por outra folheia antes de conjurar suas energias me lembra mais os magos que os servos da Natureza. Como será que aquele exótico halfling conciliou dois mundos tão distantes?

Os cães continuam a latir. Rosnam um para o outro como se fosse uma disputa de ferocidade pouco mais contida. O Halfling e o monge pareciam ignorar. Talvez meu estado levemente febril deixou-me irritadiço. Ou talvez seja o luto por São Michael.

Eu gostava do meio-elfo, embora igualmente não conhecesse bem. Ele era sempre animado para nossas tarefas mais rotineiras. Ele era devoto do deus do Saber, mas jamais se mostrou tão formalista quanto os demais... Às vezes falava empolado diante de lideranças locais, mas só. Ele poderia desfazer minha doença agora se estivesse aqui. Esse pensamento me martiriza por tão elevado grau de egoísmo, mas nada como a divisão de seus bens pelos meus colegas. Eu não deveria reclamar... Estou com sua armadura por insistência do resto do grupo, mas penso em honrar sua busca enquanto o metal luminoso pesar em meus ombros.

- Há algumas semanas o senhor conjurou alguns pégasos para deixarmos o vale de Sangue, lorde Tarzã. – falei ao Druida. – Somos apenas em três agora. Seria uma boa dianteira se pudéssemos contar com tal auxílio agora.

- Ta brincando? – fala ele com uma entoação suspeita. – Gastar uma magia tão alta agora no comecinho?

- Tarzã... – ri o Monge, em um raro lampejo de falta de disciplina dele. Sim, estranhava a sonoridade do nome de nosso acompanhante, mas não a ponto de achar graça.

- Alto. – fala Tarzã. – Alguém vem lá... Guerreiro, prepare sua arma e tome a dianteira.

- Sou Eugene Ironshield, milorde. – falo. – Sangramos juntos por quatro vezes nesse último mês. Tenha a liberdade de...

Não termino minha frase. Realmente as capacidades de ouvir daquele pequeno guardião da selva eram impressionantes, pois passo a ouvir também. Mas estranho a falta de prontidão do grupo... Eu suo a ponto de embaçar a visão. Sempre temo por minha vida ao abraçar um combate. Era a maldita sina daqueles que viajam em busca de aventura.

Ouço um bambolim. Quem em sã consciência andaria por uma floresta repleta de gnols e kobolds fazendo tanto barulho? Insistentemente os meus colegas não demonstravam preocupação com o intruso... Pelo contrário, Tarzã parecia mais calmo do que quando ele percebeu sua chegada.

Enfim nosso visitante surge. Era um elfo verde de vestes práticas, exceto pelo belo bambolim e pelo sabre em sua cintura. Ele dedilhava o instrumento e ostentava um sorriso confiante. Quem era aquele louco para estar nessa zona da floresta?

- Saudações, viajante! – inicia o Monge Shao-lin. – O que fazes nesta passagem.

Lá estava de novo, os estranhos surtos de formalidades dos meus companheiros.

- Eu sou um menestrel em busca de minha musa, e viajo de lá para cá, enfrentando perigos e escrevendo sobre o mundo que testemunho.

Eu não sou do tipo letrado, mas a construção da frase daquele suposto artista era-me estranha. Especialmente porque não via nenhum volume de monta na pequena mochila que o bardo trazia consigo. Mas aparentemente o elfo havia conquistado a confiança do resto do grupo.

- Está bastante longe da civilização, amigo. – atrevo-me. – é uma estrada um tanto dura para quem anda em grupo. Nós mesmo perdemos um dos nossos esta manhã, e éramos em quatro.

- O Guerreiro está certo. – fala Shao-lin, como se igual a Tarzã não lembrasse meu nome. Mas também já vi ele se referindo a Tarzã por Rafael, e ao falecido Michael por “beiçola” durante arranjos de combate.

- Por isso, andará conosco agora. – fala Tarzã, igualmente com empostação na voz. Eu estava horrorizado, pois não tinha como sabermos a real intenção do estranho.

- Poderia dizer a sua graça, meu senhor? – falo enfim.

- Eh... Jackson. – retruca ele com desconfortável hesitação. “Jackson” sem dúvida não era um nome élfico. E outra vez os meus companheiros riem... Shao-lin chega a sussurrar... “Michael... Jackson”.

O jovem sentou-se confortavelmente na nossa clareira, e foi trocando alguns itens com o Tarzã. Estranhamente todos eles pareciam novos, e ele falava como se conhecesse de cor o que Tarzã trazia consigo.

- Guano! Estava mesmo precisando! – comemora o Druida. E eu penso porque um bardo viajaria com Guano entre seus pertences.

- Bem, ainda temos muito chão. – fala Shao-lin. – Já podemos continuar.
- É. – fala Jackson. – Vamos capar o gato, pessoal.

“Capar o Gato”?!?

- Michael?!? É você? – exclamo.

“Capar o Gato” era uma expressão absurda que só tinha ouvido da boca de nosso companheiro Michael. E agora eu percebo a intimidade dele para com os outros dois. Os trejeitos. Tudo o mais.

- Não... Michael não sou eu. Ele morreu esta manhã na emboscada dos gnols, lembra? – fala Jackson.

- Como você sabe, já que não esteve conosco?

- Eh... Temos um contrato. – fala Tarzã tentando desconversar. – Temos de ir...

- Vocês sabiam, não é? – falo entusiasmado. – Quando foi que o trouxeram de volta? E porque ele se disfarça de Bardo? Alias, ele se tornou um elfo puro agora?

- ai-ai roleplay... – sussurra Shao-lin.

- Senhor, eu não sou o Michael. Sou um personagem diferente.

- Dá para irmos logo? Tenho que alimentar as cachorras!

- “Cachorras”? – estranho - Sua matilha era de machos até a pouco, senhor Tarzã? O que está acontecendo aqui? Deveria ser uma alegria o retorno de Sir Michael Eu exijo saber o que está acontecendo!



     Em outro plano de existência, um som silibante de uma lata de coca-cola ressoa despertando a tensão criada por mim e meus companheiros. Beiçola toma um gole enquanto Rafael puxa o D-20.

- Eu vou fazer um teste de diplomacia para o guerreiro se acalmar e seguir conosco. – fala ele.

- Certo. – fala o narrador. – O que Tarzã vai argumentar?

- Tarzã... – ri Henrique, jogador do Monge Shao-lin. – Mas depois disso, vá dar comida para suas cachorras que latindo assim tá incomodando.

- Elas já comeram. – fala Rafael. – Ô Marcelo, não dá para só jogar os dados não? Guerreiro tem Vontade fraca.

- Vejam bem... Ironshield desenvolveu uma afeição pelo clérigo de Beiçola. Se ele continuar agindo como o São Michael, ele vai perceber. Agora ele é o Bardo Jackson, terá que se portar como tal, ou Ironshield vai surtar.

- Quer saber? – fala Beiçola. – Ce colocou o guerreiro para aquela aventura que o Rafael faltou... ‘tamos todo mundo junto, não precisamos mais de NPC.

- Ta demorando para chegar no maldito templo. Eu tenho aula amanhã!

- Okey... O que pretendem fazer com Ironshield?

- Não dá para só esquecer não? – fala Henrique. – Diz que ele voltou para chorar o corpo do Michael ou coisa assim.

Talvez pelo entusiasmo de Mestre Marcelo pelo desfecho da campanha, talvez por sua impaciência de lidar com os demais jogadores desse drama fantástico, eu deixei de existir. Ninguém lembrará que estive ao lado deles quando kobolds seqüestraram a filha do Burgomestre. Minha presteza de proteger Tarzã do zumbi no cemitério de Hamerfield será esquecida. A espada e escudo que estiveram com minha família a gerações serão apagadas da história, assim como meus feitos, os feitos de meu pai, de meu avô. Minha cidade inteira.

Tudo por eu ser incompreendido. Humano, mais humanos que a “criação” dos ditos “personagens de verdade”.

Há justiça nisso?

28 de maio de 2013

Os PJs: A formação do Grupo

Mirumoto Nobunada. Tholen da Torre do Martelo. Hellen'ae Mooredriff. Yuuhi Midori.

Meliny
Por que Meliny? Bem, a facilidade que eu tenho em junta-los por melhor domínio do cenário. Um mundo de fantasia medieval, com um "inferno" bem explorado em "O Demônio interior II" e "Mystara: princesa Succubus", com um influente reino oriental, com conflitos entre rigorosos samurais e misteriosos seres com poderes absurdos. 
Particularmente, ando trabalhando bastante no modesto reino Doravânia, que é coincidentemente o mais próximo do orientalíssimo Wen-ha. 
CONSIDERAÇÔES::
Não só sistemas, como cenários diferentes marcam os quatro personagens. Curiosamente, Hellen e Tholen tem muito em comum. De campanhas alternadas em Forgotten. Decidi que havia uma ligação anterior aos dois. Os demais PJs dos outros colegas ainda existem... De forma "fusionada (como Nindrile) e etc. Outros, podem ser ajustado ao comportamento dos outros. Midori agiria exatamente como Faelar uma vez ajustado ao grupo.
 Hellen tem um segredo... Bem, não para quem jogou comigo ou acompanhou o diário. E também não para quem pega as não tão sutis pistas. Mas quero apresentá-la ao longo de uma série de contos. Partindo do princípio que ela viajou com o Flagelo de Vorbyx...


 Ah, sim. Alguns nomes tive que mudar por "direitos autorais. Nobunaga tornou-se Geen Nobunaga, que seria o equivalente ao clã Dragão de Rokugan (com o bônus de ser a família imperial no tempo do conto). E Não mais Tholen poderá ser chamado de "Flagelo de Vorbyx", uma vez deixado Faerum.
 O grupo de Nobunaga anterior permanece. Alguns nomes mudarão; outros se verão como mais próximos (Hida Fuji e Moto Lee são ambos adequaddos ao clã Tsé, enquanto a divina Shiba Maya seria uma Shorian inegável). Mas vou pincelando esse passado ajustado ao longo da série. 

Sem mais... que comece a loucura!


A nau de suprimentos cruzava as ondas solenemente. Trazia legumes e verduras de Borenia. Eram exemplares miúdos e tímidos, frutos de uma colheita prejudicada pela seca, imposta pela barragem nas nascentes daquele importante centro agrícola. Seu destino era a capital da Doravânia, Habênia. Mas com qualidade muito abaixo do desejado, seu destino seria as feiras do Porto das Comunas, e não as vultosas mesas de restaurantes da pérola costeira. E mesmo assim, certo que pechinchariam ao máximo para aliviar os mercadores daqueles produtos.

 Por isso, o casal que solicitou passagem foi mais que bem-vindo. Aventureiros perdem a noção de valores com o tempo, especialmente os bem-sucedidos. E por muito tempo, era o caso dos dois remanescentes.

 Hellen gostaria de cantar. Animar os marujos em sua ingrata função, de guiar um barco arruinado com produtos minguados. Mas deveria respeitar um certo tempo de luto. Era o "certo" a fazer. Saltava ás vistas uma humana de beleza fenomenal, longos cabelos lisos, cintura de vespa, e longas e torneadas pernas, visíveis nas aberturas da saia que he cobria à frente e atrás. Completava o conjunto com um corselete de couro, reforçado, mas ao mesmo tempo ornado, indicando que foi mais pensado na apresentação do que no combate. Ela olhava com tranquilidade seu companheiro de viagens.

 O grande escudo-torre quase cobria totalmente o anão. Era baixo, mas vigoroso. Mesmo para os padrões do Povo Robusto. Se Hellen era um encanto, que mesmo em silêncio seria convidativa aos transeuntes para trocar palavras, mesmo o respirar de Tholen Hammertower parecia um cão bravo a rosnar. Ao alcance de suas mãos, o pesado Martelo dos Ogros da Neve, chamado de "Flagelo". Uma arma encantada de um antigo regente ogro, o primeiro grande prêmio do anão em combate. Nas mãos de um combatente especialista, o Flagelo era uma devastadora arma. E Tholen nasceu basicamente com martelos de guerra pesados ás mãos. Seus bigodes e barbas maltratadas pelas andanças e lutas constantes davam a ele um ar de bárbaro, mesmo sendo ele um talentoso mercenário, e destemido lutador.

 - Você não parece muito triste. - resmunga Tholen. Ele não fazia contato visual, mas Hellen sabia que é com ela que lhe falava.

 - Já você... - retruca singelamente a feiticeira. - Pensei que não gostava da "elfa"...

 A "Elfa". Nindrille. A companheira de viagem do grupo, a segunda a ser abatida. O motivo para os dois aventureiros rumarem para a capital da Doravânia.

 - E não gosto!... Não gostava. - retruca Tholen, voltando-se para Hellen. - Primeiro: Porque era um elfo. Segundo: Porque era elfo drow. Terceiro: Porque insistia em não me deixar fazer o que faço de melhor.

 - Clérigos de Nivee... Fazer o que. - ri a feiticeira... Impróprio essa alcunha, mas cabia ao disfarce da aventureira.

 - Eu estou chateado comigo mesmo. Quando um de vocês cabeças-de-brague caem é porque eu não fiz meu trabalho direito. Mas não mude de assunto: Você foi a última a vê-la com vida, e não parece sequer abalada!

 Hellen via o teste do anão em suas palavras. Ha pouco tempo sua verdadeira natureza havia sido exposta, e pela confiança - ou indiferença, no caso de Tholen - foi-lhe dado um voto. E agora, o guerreiro testava.

 - Sim, Nindrille morreu. - fala casualmente Hellen. - Era minha melhor amiga nesta terra, e entendia o que eu passo. Se eu quisesse fingir sentir pena... Bem, você me viu infiltrar na legião dos Kzarianos... Eu não precisaria esforçar sequer para convencê-lo do que eu quisesse, querido. Minhas “lágrimas de crocodilo” são perfeitas.

 O anão estranha a resposta. Discretamente, sua mão desliza para mais perto do cabo do martelo de guerra.

 - Você sabe de onde eu vim, Tholen... - fala, após suspirar, olhando para os céus. - Eu tenho certeza que a causa de nossa amiga era justa, e que ela foi recolhida ao lado da sua deusa. Mas se os "elfos-do-sol" estavam certos... Se ela, como todo o Drow, estava “mancomunada com deuses negros”, estará com seus familiares. A morte... É uma bela forma de encerrar. Vocês mortais são favorecidos neste aspecto. Quando eu morrer... Acabou-se.

 - Nunca imaginei alguém sendo tão ... Egoísta. - resmunga Tholen. - Mas... Eh, né? Parece o certo para "sua laia".

 Hellen'ae sorri para o anão, mesmo sabendo que o gesto seria perdido.

 Meras formalidades.

 Ghunter, o primeiro do grupo a morrer, era o ideal. O "príncipe nômade" era o expoente mais indicado para um líder do grupo. Aventureiro promissor e destemido... Esse desprendimento, seu próprio heroísmo o levou à ruína, mesmo com os esforços de Tholen ao seu lado na batalha.

 Realmente, de "membro descartável", o Anão tornou-se muito valioso para Hellen. Podia contar com sua palavra de honra, mas ele não fazia grandes distinções entre bem e mal. Podia não gostar de ninguém - mesmo ela própria - mas estaria lá pelo grupo.

 Nindrille... Bem, só poderia haver uma "abelha-rainha" na colméia.

(...)

 O cristal flutuava pelas ondas. Uma mais alta projetou-se da superfície e chegou a alcançá-lo, mas o losango róseo não se deteve. Ao longe, o saveiro que se afastáva da costa wenhajin, origem do cristal. Que flutua até a linha da praia. De lá, a estreita mata antes dos rochedos, á sombra de galhos carregados das pétalas rosas, que dá a Wen-ha o título de "terra das cerejeiras". E enfim, à mão.

 O Wenhajin de porte esguio e trajes azulados era acompanhado de sua subordinada, uma guerreira. Ele ergue a mão, e toca o cristal brevemente.

 Com o toque, a mensagem é passada.

 - O barco está retornando. - fala enfim o líder de azul. - O hatamoto não percebeu nada, e só perceberá quando for tarde demais.

 - ... E?...

 Renai sabia o que a guerreira queria saber. A informação extra que exigia do membro infiltrado da sua aldeia. Mesmo conhecido por ser "piedoso", um pouco de tortura não lhe é estranha. E essa tortura era a demora em responder.

 - E... Ele mandou dizer que está se alimentando e que te ama.

 Inagami, a guerreira, a mãe, sorri.

(...)

 Tholen e Hellen desembarcam no Porto das Comunas, a "porta de entrada" de Habênia. O pier era alongado, indo mar adentro, mostrando-se adequado para embarcações maiores atracarem. As palafitas eram robustas e as tábuas do píer eram longas o bastante para grandes carretas receberem contêineres e pesos. Desnecessários à barcaça boreniana, mas por conta de safras mais vistosas de tempos anteriores à guerra, o capitão tinha privilégios de ancoradouro do prático.

 Mesmo sendo o "porto do povo", a vista recuada era um privilégio. Habênia era um belo balneário, mesmo antes de ser a capital da Doravânia. O grande distrito chamado de "porto das Comunas" ia além da margem portuária, e envolvia quase todo o comércio mundano. Seus prédios eram baixos, e a área dele era plana, quase sempre ao nível do mar. Isso dava destaque ás zonas mais elevadas, que era a "cidade funcional". O Bairro do "Coração", e uma parte das rampas acidentadas que formam o distrito "Saudosas colinas". Ambos de bela arquitetura. Coroada, no ponto mais elevado, pelas torres do Palácio Doravan, lar da família real. Sede administrativa do reino.

 - Estalagem ou Taverna? - resmunga Tholen. O anão, sempre que disposto, falava da sua terra natal, a "Torre das Armas", uma obra de arquitetura anã. Monolitos esculpidos ao longo de um século pelos talentosos membros de sua comunidade. Assim, por mais grandiosa que fosse a paragem forjada por humanos ou elfos, Tholen torcia o nariz e ignorava.

 - Sério que não quer esticar as pernas... Conhecer a cidade? - Perguntava animada a acompanhante.

 - Eu só preciso conhecer a Taverna. - Resmunga o anão. - E de preferência, as tavernas com bebidas fortes.

 - Não quer que eu ajude com a carga?

 - Não. - Thonlen sacode vigorosamente a cabeça. - Quando for hora de vender o espólio dos elfos-do-sol, você assume. Lábia é contigo... Cerveja, comigo. - O anão deslocava-se com certa morosidade, mas sempre constante, não importava o quando carregasse. Trazia além dos pertences de Hellen'ae e seu arsenal pessoal, o saco de truques de Nindrille abarrotado com tudo o que tirou da "Ordem dos Elfos do Sol", uma facção élfica de adoradores de Sargan, que declarou guerra aos Drows, independente de serem bons ou maus. Por semanas, eles seguiram o grupo por causa da presença de Nindrille. Então, em uma noite inesperada, quando Tholen estava longe, o grupo cercou a arqueira drow. Hellen estava presente, mas não foi capaz de detê-los, até o anão juntar-se a ela na luta.

 Sem a Drow, ao menos, aquele bando estaria fora da lista de problemas do grupo. Ainda assim, reduzidos a dois, as andanças seriam complicadas. O objetivo era encontrar uma nova companhia aventureira.

 Enquanto Tholen era rabujento e objetivo, Hellenn'ae era espairecida e encantadora. Era tão empática quanto talentosa nas interações sociais, com grandiosos e abstratos planos. E seu olho clínico buscava oportunidades onde pudesse. E ainda naquele porto, a oportunidade lhe apareceu.

 - Tholen... Olhe lá.

 Hellen apontava um saveiro, um barco de pesca com proa a meia-lua. Era consideravelmente grande, normalmente indicando potencial de pesca oceânica. Estava, naquele momento, ancorando em um píer alongado, vizinho ao qual eles andavam no momento.

 - A-ham. - Tholen deu com os ombros.

 - Olhe a tripulação... - aponta a feiticeira. - Seis marujos, e vinte ... Olhe lá! - repetia freneticamente.

 Os exóticos tripulantes - Tholen não pode constatar se eram mesmo vinte, mas pelo volume de cabeças era uma aproximação crível - eram homens de armas leves, com corseletes de couro em loringas, adornado com seda, protegendo do frio. Eram todos idênticos, tal qual um uniforme.

 - Aquilo é seda Wenhajin... - sussurrava Hellen'ae. Se tinha alguém capaz de identificar tecidos a trinta metros de distância, esse alguém era ela. - Eles marcham regularmente. Aquilo...

 - É um exército regular. - resmunga Tholen. - Eu não sou um acéfalo, sabia?

 - Certo, "não-acéfalo"... - brinca Hellen, dando um peteleco nas barbas dele. - Então, o que está errado nesta cena?

 Tholen olha duramente. Faz algum esforço mental. Detestava reconhecer suas limitações.

 - Isso mesmo. - Interrompe Hellen. - Não é uma mera guarda pessoal ou mercenários. São soldados Wenhajins.

 - Do reino-ilha do oriente?

 - Exato. - Hellen leva os dedos ao queixo. - As roupas e armas não parecem gastas. E nenhum reino deixaria um bando invasor entrar em sua capital assim... Eu chutaria que é uma comitiva diplomática...

 - Provavelmente é isso... - fala Tholen. - Mistério resolvido... Vamos beber.

 A feiticeira não tinha concluído ainda.

 - Tanto as embaixadas quanto os convidados do reino atracam no Porto Real, do outro lado da ilha. - Hellen era bem entendida sobre os reinos de Meliny. Conseguia puxar da memória o que estudara sobre as capitais, incluindo a distribuição social da capital insular doravaniana.

 - E... Que comitiva usaria um saveiro? - resmunga Tholen, entrando no jogo. - Ah, não me diga que...

 - Creio que vamos saber logo... - Hellen já ignorava a rabugice do colega àquela altura.

(...)

 Hellen e Tholen acompanharam quando um quarteto destacou-se do grupo principal. Perceberam alguma comoção quando misturaram aos transeuntes do porto para observar os exóticos visitantes. Tholen não entendia "o que" faziam, mas sabia que Hellen era uma caçadora de aventuras e experiências. Desde conseguir convite para bailes de famílias ricas de cidades onde o grupo pernoitou a grandes festejos de tavernas, ela sempre estava ocupada. E arrastava todos consigo.

 Os dois cogitaram dividir-se quando um destacamento partiu para terra firme. Mas optaram por seguir junto os quatro batedores wenhajins. Hellen era discreta e habilidosa para fazer "sombra", mas em ruas caóticas como aquelas, o barulhento Tholen passaria por mais um na multidão sem dificuldades. Um deles parecia o líder, trocava palavras com pessoas ao passar. Os que respondiam gesticulavam direções. O Wenhajin agradecia, e os quatro seguiam.

 Enfim, após algumas ruas tortuosas, os quatro encontram o que procuravam. Um prédio baixo, mas amplo, com barulho de movimento de seu interior. Na soleira da porta, pendia uma placa: "Paella Rala".

 - Uma taverna?!? - resmunga Tholen. - Eles devem precisar de bebidas mais do que eu.

 - Eles não vieram pelo ambiente. - ri Hellen, excitadamente batendo a ponta dos dedos. - Eles vieram contratar!

 - Trabalho? - resmunga Tholen. - Eu nem bebi ainda!

 A dedução de Hellen estava acertada. Mas não era tão absurda de se chegar. Aventureiros em busca de missões reúnem-se em tavernas por toda Meliny, mesmo em reinos mais reservados como Wen-ha.

 "Paella Rala" era um restaurante moderado, mas com um bar amplo, o qual, era a principal fonte de moedas. a freguesia prioritária eram os beberrões do porto e os desocupados da cidade, mas aventureiros a procura de trabalhos ou boatos tinham sua respeitosa parcela. Hellen e Tholen provavelmente iriam acabar naquele lugar, ou em estabelecimento parecido.

 Um "mural de recados", prática comum para terras com aventureiros, estava esposto singelamente na entrada. Mas a Doravânia era uma terra em guerra, a despeito do que parecesse na isolada e paradisíaca capital. Assim, o mural tinha mais "procuras" do que ofertas. E para piorar, o Melinês comum não era a língua materna dos soldados agora amontoados, tentando lentamente decifrar aquilo.

 Hellen'ae aproveitou a confusão. Um de seus talentos natos - raros mesmo dentre os de sua raça - era a leitura da mente. Pensamentos superficiais eram ouvidos como se falassem em voz alta. Tholen reconheceu os olhos fixos, quando ela não precisa disfarçar o uso de seu talento. Ele não se sentia confortável com meios escusos como aquele, mas não o suficiente para ter qualquer peso na consciência.

 Enfim, o tenente do grupo destaca-se. Ele primeiro olha na multidão. Parecia procurar alguma coisa. Concentra os olhos em um grupo desalinhado numa mesa afastada. Usavam armas e ostentavam armaduras, mas seu interesse esvai. Enfim, o desajeitado estrangeiro decide fazer uso da voz.

 - Mago! - fala ele. - Procuro um mago! Contrato um mago!

 Seu sotaque acanhado é ignorado ante a barulheira normal da taverna. O tenente estava definitivamente desconfortável com a cultura local para compreender o procedimento daquelas terras. Mas felizmente, alguém os mapeavam a tempo.

 - Eu sou o mais próximo que vai achar de um especialista, senhor. - Tholen espantou-se. Mal se distraíra, Hellen aproximou-se do tenente, e falou com um wenhajin impecável. Ela parecia extremamente solene, com o olhar baixo e as mãos unidas.

 O Wenhajin olhou a fêmea de cima a baixo.

 - Você não se parece com um usuário arcano. - retrucou igualmente em Wenhajin. - Mas me parece uma boa pessoa. - Havia uma aura sobre a feiticeira que a tornava um magneto social.

 - Perdoe esta humilde serva. - Completa Hellen. Por mais alma livre que Hellenae fosse, ela podia se desdobrar como um verdadeiro camaleão social, e sabia que a questão de gêneros em Wen-ha era muito mais sensível do que no resto do continente. - Eu sou Hellen'ae Mooredriff, e creio que os deuses nos colocaram em seu caminho para iluminá-lo.

 O tenente uniu as mãos igualmente e maneou a cabeça. Não se curvou, mostrando que ainda se julgava superior. Mas estava satisfeito.

 - Peço que nos siga, Mestra Mooredriff. Meu amo tem negócios para você.

 A feiticeira quebra a formalidade, piscando para Tholen positivamente.

 - Por favor... - responde ela, em Melinês. - Pode me chamar de Hellen.

(...)

 A presença de Tholen foi estranhada pelo quarteto, mas o anão simplesmente juntou-se a Hellen'ae sem sequer trocar palavras com ela. Acabou não sendo impedido, embora estivesse constantemente sob o olhar atento dos três subalternos de Akashi, o tenente de guarnição.

 - Meu senhor é um homem importante. - fala ele, quando se aproximava. - O Glorioso provavelmente só solicitará uma consultoria. Mas se ele quiser que o siga, vocês o seguirão. Senão, melhor nem vir comigo.

 - Tudo tem seu preço, humano. - rosna Tholen

 - O oni peludo está dispensado. - retruca, demonstrando quanto insatisfeito estava com o anão. - O Glorioso possui as melhores espadas do reino.

 - Mas não um martelo arrancador de dentes. - O anão adiantava o passo, provavelmente para tomar a frente do tenente e afrontá-lo cara a cara.

 - Tholen estará aqui por mim. - adianta Hellen, detendo o avanço do anão, mas sem perder a compostura. - Mesmo o seu glorioso hatamoto segue com aqueles a cobrir-lhe... O que dirá uma humilde arcanista como eu...

 Akashi fingiu ignorar a provocação contida do anão. A presença de Hellen era inebriante. Em outro tempo, Tholen seria uma minoria no grupo, deixaria que tratassem democraticamente com os contratantes. Mas com eles reduzidos a dois, sua opinião forte tinha muito mais poder.

 - Cada uma que me fala... - rosna o anão. - "as melhores espadas do reino"... Já vi elfos com mais carne no braço que esses baixinhos de pijamas.

 - Tholen... Esta é a Guarda Vermelha. - explica Hellen. - São esgrimistas de segurança pessoal, oficiais em treinamento. Creio que não eram eles a quem Akashi se referia.

 - Ah é? - ri Tholen com escárnio. - E quais seriam "as melhores espadas do reino"?

 - As minhas.

 O grupo é surpreendido. O impaciente mestre encontrou-os no meio do caminho. Era um jovem adulto alto e esbelto, com traços orientais. Usava elegante roupão de viagem das cores verdes com detalhes em dourado, e trazia um daichô – conjunto de espadas, uma Katana e uma wakizaki - à cintura, amparado pela faixa de condão e pela mão esquerda firme. O quarteto cessa a marcha e põem-se de joelhos ante Geen Nobunaga.

(...)

 "Hatamoto", os aventureiros souberam, era uma posição de grande prestígio no clã regente wenhajin. O equivalente a general em tempos de guerra. Geen Nobunaga era o "hatamoto da lâmina". Era instrutor esgrimista do exército imperial. Respondia a homem nenhum exceto o Shogun.

 Em suas terras, Nobunaga era um guerreiro famoso. Não só com a espada, mas com poesia. Foi campeão de hai kai / Haiku de um grande torneio de Akiobara, e no quadro geral, somado seus talentos marciais e sociais, foi o segundo colocado. Fato que rendeu o cargo de prestígio que possuía agora.

 A cabine do capitão do saveiro foi ajustada às peculiaridades do nobre. Capitães tendem a ser figuras de alto grau de orgulho. A tolerância dessa excentricidade indicava que Nobunaga fez por onde: em ouro ou em respeito.

 Ainda assim, o aposento sem mobílias exceto tatames e uma discreta mesa baixa, com incensos disputando espaço com o cheiro natural de uma barcaça pesqueira, cabia somente três indivíduos. Akashi, o tenente, permaneceu no vão de entrada, como se defendesse seu mestre. Hellen, habilmente, acompanhou os movimentos de Nobunaga, ajoelhando-se com os calcanhares semi-cruzados.

 Tholen até tentou, mas suas juntas duras e membros curtos tornavam a formalidade impossível, então, permaneceu de pé. Qualquer um mais alto que o membro de maior estirpe, na cultura wenhajin, estava em ofensa. Mas Nobunaga era paciente ao entender que não lidava mais com seus patrícios.

 - Sinto muitíssimo em não oferecer um chá. - começa o hatamoto. - A embarcação é menos que satisfatória, embora necessária.

 Tholen agita a mão sobre o que parecia ser uma mosca. Ouvira dizer que não havia moscas em Habênia... Mas aparentemente era outra mentira humana.

 - Perdoe a ousadia, Nobunaga-sama... - interfere Hellen. - Mas tememos sobre a natureza de subterfúgio de seu intento neste reino. Perdoe-me a ressalva...

 - Dobre sua língua caluniosa, mulher! - urra Akashi, de sua posição afastada.

 - Deixa os adultos conversar, ô serventia. - Tholen move seu obtuso corpo à frente do samurai.

 - Akashi... Chega. - Nobunaga não eleva a voz, mas consegue colocar seu subalterno em postura tranquilizante, mais que as ameaças de Tholen. - Ela está errada sim, mas teve seus motivos. É óbvio a qualquer observador, mesmo não crendo em minha identidade, ver que este barco pesqueiro foi improvisado.

 "Tenho a minha disposição uma barcaça imperial, senhorita". - Começa a narrar o wenhajin. - "Esta devidamente ancorada no Porto Real. Eu compareci a pedido do Shogun-imperador em um evento diplomático, que por hora, não deve ser debatido fora das salas de trono dos regentes reconhecidos ao trono dos Deuses-dragões. Eis o motivo da Guarda Vermelha me acompanhar. Minha missão diplomática acabou semanas atrás... Mas na falta de um diagnóstico melhor... Direi que me encontro amaldiçoado".

 - Amaldiçoado?!? - Tholen arrepia-se. Não costumava a ser supersticioso... Mas em uma de suas aventuras sofreu algo parecido com "maldição".

 - Akashi, meu tenente, também é um capitão competente. E a Ilha está a menos de um dia de viagem. três ou quatro dias, se contornarmos para alcançar as terras do shogun-imperador... Mas desde o fim de minha missão, sempre que lançamo-nos no mar, não encontramos as terras. Acabamos sempre, de uma forma ou de outra... Retornando a Habênia.

 - Tentou trocar de capitão? - perguntou Hellen. Akashi poderia sentir-se ofendido, mas o assombro era tanto que não parecia insultado.

 - Sim... E o mesmo ocorreu. O mais bizarro: em uma tentativa-e-erro, Akashi assumiu a capitania da embarcação e partiu uma quinta ou sexta vez em direção a nossa terra... E enfim conseguiu alcançar a costa de Wen-ha.

 - E o que tinha de diferente desta vez? - perguntou Tholen.

 - Eu não estava a bordo. - retruca Nobunaga. - Empenhamos este saveiro do porto das comunas, e parti em total segredo. Ainda assim, tanto Akashi quanto o proprietário da embarcação deram instruções claras e inequívocas. Os marinheiros, alertados para em advento de coisas estranhas confrontar mesmo seus senhores... E amanhecemos de volta ao Porto das Comunas.

 A narração é abruptamente interrompida por Tholen, batendo com a manopla na parede de lenha do barco. Tentava matar a mosca mais uma vez. Nobunaga começava a se irritar com o anão, e Hellen percebe.

 - Eu tenho uma teoria, senhor. - adianta ela. E a meu ver, teve muita sorte.

 - De encontrar você? - espanta-se o wenhajin.

 - De encontrar Tholen, mais precisamente.

 - A mim? - mesmo o anão parecia surpreso.

 - Prefiro não falar abertamente o que eu penso... Mas eu teorizei sobre o que acontece com seus capitães. Um efeito mental... Sou ligeiramente entendida neles. Posso afirmar que Tholen é a pessoa ideal para a capitania... Veja, ele é membro de uma raça chamada "anã". Suas mentes são protegidas contra efeitos como os que descreve.

 - Não parece uma boa ideia... - resmunga Tholen. - E eu não sei navegar...

 - Siga minha deixa, meu amigo. - interrompe Hellen, falando no idioma anão. Depois, continuou em comum. - Tholen pode muito bem ler uma bússola, ou reconhecer o sol. Se ele for a autoridade máxima, poderá prevenir mudanças de rumo grosseiras como esta. Mas de qualquer maneira, eu seguirei com o senhor... Humildemente, investigarei a origem sobrenatural de sua suposta maldição.

 Nobunaga olha com renovada admiração para o robusto guerreiro. Mesmo assim, apressa-se a se por de pé, e não mais aguentar alguém o olhando de cima para baixo.

 - Posso cobrir valores mais do que razoáveis que solicitarem...

 Hellen faz o movimento de curvar-se.

 - Sua amizade é o que nos move, Nobunaga-sama.

 - Ela não fala por nós dois... - Retruca Tholen.

(...)

 - Certo... - resmunga posteriormente Tholen. Hellen e o anão ganharam um compartimento de carga seca como aposentos provisórios enquanto uma nova jornada era preparada. - O que você está pensando, fofinha?

 - Como assim?

 - Primeiro... Você estava lá quando o abolete me transformou em “isca-reversa”... Eu aguento mais que a maioria, mas não sou imune a encantamentos. E você sabe disso.

 - Você estava fazendo muitos inimigos, Tholen... - Fala ela com leveza, enquanto escrevia algo intraduzível aos olhos do anão. - Eu não queria que o expulsasse desta aventura, meu querido... Agora, você é parte essencial da equipe.

 Tholen parecia ofendido... O que indicava que ele acreditou.

 - E o papo de "sua amizade"?

 - Lorde Nobunaga é consideravelmente próximo de uma realeza wenhajin, e é também um nome grande em aventuras. É um bardo e aventureiro de espírito. Se fizermos um grande favor para ele, conquistarei a fama que busco como aventureira. isso nos dará o acesso para que o busquem... E ouro? Nem temos como gastar nosso espólio atual. Como aventureiros famosos, podemos leiloar nossos serviços, não concorda?

 - Sei não... - pondera insatisfeito o anão. - Eu definitivamente não gostei do cabeludo com olhos puxados. Quase tanto quanto do vermelhinho do Achati...

 - Akashi... - corrige a feiticeira. - De qualquer forma, vamos limitar nossas conversas privadas à mente de agora em diante, certo? Falar em seu idioma nativo pode ofender nossos sensíveis anfitriões.

 - Como assim? - estranha Tholen. Sabia que sua colega podia ler pensamentos superficiais e transmitir os próprios ha consideráveis distâncias.

 - Eu não acreditei muito na história de maldição... Mas penso em sabotagem...

(...)

 A Guarda Vermelha é uma força militar diplomática, não o exército regular. Ainda assim, era um dos encargos de Geen Nobunaga orientá-los na arte da espada. Um dia, os melhores deles servirão como oficiais, guerreiros, e mesmo embaixadores eles mesmos... Mas naquele momento, o corpo de disciplinados jovens não estavam prontos para reagir a uma emboscada.

 Saisho percebeu tarde demais a armadilha. Pode ver nos olhos o seu inimigo, mas jamais sacaria sua arma. Quando enfim libertou-se, soube que a comitiva de Nobunaga já estava no estrangeiro. Ao que percebeu, com sua ausência, somente dezenove dos componentes da Guarda Vermelha seguiu com o hatamoto, e uma vez retornando, aquela mancha provavelmente condenaria a carreira do jovem oficial.

 Mas aos olhos de Nobunaga, os vinte esperados compareceram. E agora, impossibilitado de retornar a sua terra, ele nem desconfia que Saisho não seja quem clama ser...

(...)

 Tholen foi sincero em proclamar-se inapto á capitania. Em fato, água em si foi um dos grandes desafios de seu grupo no passado. isso até o anão conseguir uma gema mágica que torna sua armadura capaz de se mover livremente em corpos aquáticos. Aquele abolete - um enorme monstro aquático capaz de controlar mentes e atrair incautos a seus refúgios - aprendera da pior forma, uma vez o anão livre de sua influência.

 Hellen, por sua vez, dava vida ao seu papel de "consultora". Nindrille era a especialista em ocultismo de seu grupo, e mesmo os "feitiços" que ela lançava era um truque sobrenatural. Mas todos os soldados - alvos primários da desconfiança - eram disciplinados o suficiente. Somente no ato da "traição", ela perceberia quem seria o impostor.

 - Anão! - urrou Akashi. - Podemos ir direto à costa ou dar a volta e atracarmos na capital.

 - Direto para a praia. - Tholen decide sem pensar muito. Estavam na proa em meia-lua, mais especificamente onde deveria estar dobrada a rede de pesca.

 - A viagem a pé será longa e desgastante. O glorioso tem preferência por atracar em Akiobara.

 - DIRETO! - urra Tholen, chegando a salivar sobre o rosto do tenente. - Na Torre das Armas, um capitão não dá uma ordem duas vezes!

 - Você não é um capitão! - protesta contido.

 - Ao que me consta... Você querendo evitar o caminho mais adequado é muito suspeito... - Rosna Tholen entre os dentes, quase colando seu rosto no queixo do desafeto. - Eu vou dar uma mijada, e vou estar de olho no sol e nas bússolas. Não quero um grauzinhoerrado na rota, entendido, Hashishi?

 Tholen deixa seu posto cuspindo injúrias.

 - É Akashi... Youkai peludo maldito... - resmunga inaudível o tenente.

(...)

 Nobunaga postava-se em posição de lótus, e tentava preencher sua mente com seus katar. Mas seus pensamentos eram seguidamente assolados com a possibilidade de estar amaldiçoado. Mais do que não poder voltar a sua terra... Como seu prestígio ficaria afetado em seu reino. Dentre os hatamotos, mesmo Lee Bayushi que lhe tomou o título no Torneio de Jade, o "Dragão Verde" era o mais completo e reconhecido. Nobunaga acabou se levando por isso. Tornando-se perfeccionista. Obcecado.

 Ainda assim, deveria ser uma rocha. Era a estabilidade que o império wenhajin precisaria. Que seus subordinados esperavam dele. Deveria mascarar suas dúvidas e seu ego...

 Mas era difícil mascarar em frente àquela visão.

 Hellen havia trocado-se desde que embarcaram. Escolhera um generoso decote de uma vestimenta élfica, ornado com uma saia de seda, que lhe cobria as pernas, mas eram leves o suficiente para desenhar-lhe a silhueta como se fosse sua própria carne. Seus esvoaçantes cabelos negros estavam amarrados em um rabo-de-cavalo, revelando as linhas de seu pescoço, busto e orelhas.

 - H... Hellen-san? - espanta-se o hatamoto, desguarnecido à surpresa.

 - Espero não estar sendo indelicada, Geen-sama... - fala ela, com voz sussurrante. Mas já entrava, com passos felinos nos aposentos do nobre.

 - Eh, alguma pista? Veio trazer-me informações de seu capitão? Ou do fenômeno? - disparou, tentando apressar a revelação da visita.

 Hellen sorria. A confusão mostrava como abalava o tão disciplinado general. Ela enfim saca o papiro que escreveu na viagem.

 - Ainda temos tempo. Tomei as providências necessárias. - adianta ela. - Mas eu estou diante de uma oportunidade única... Em sua presença... de mostrar a um mestre numa arte tão ... Uma excitante noite de...

 - Pe-perdoe-me, Senhorita.... - Nobunaga dá alguns passos para trás. - Creio que me sinto obrigado a informar que tenho esposa e filhos em minha terra natal... e ...

 - Hai kai... - Hellen quebra gentilmente a cabeça para o lado, com um sorriso maroto. - Poesia...

(...)

 Tholen não avistou a companheira quando desceu ao último tombadilho, onde a dependência sanitária - um buraco que evacuava tudo para o mar - estava. Mas foi bem avistado pelos membros da guarda vermelha ao longo do convés. Sabia que Hellen precisaria começar o contato para sua comunicação pudesse ocorrer. A demora em ter notícias incomodava por demais o anão. Ao ponto de virar os olhos para cima e pensar repetidamente o nome "Hellen" ou sua alcunha racial, como se auxiliasse na comunicação.

 Mal Tholen percebia que "Saisho" da guarda vermelha aproximava-se. O corredor era estreito, e um ligeiro toque era inevitável. O impostor, contudo, pretendia dar uma trombada forte... Provocar o Anão. O fato de ele parecer perdido em pensamentos só facilitava seu intento.

 E os ombros se esbarram com violência, ampliada por uma inoportuna onda que balançou o saveiro. O pequeno guarda vê-se projetado com a reação contra a parede e chega a perder o equilíbrio e cair.

 Aquilo era imprevisto. O espião esfregava freneticamente o ombro, certo que ficaria um hematoma roxo... Mas ainda postou-se no chão vulnerável. Um erro que seria fatal...

 ... Se Tholen sequer percebesse que cruzou com alguém. Não só era mais denso que seu "agressor" e guarnecido com armadura de qualidade anã, como a sua estabilidade racial passou despercebido pelo ataque.

(...)

"Pedir sua amizade

Amigos vem e não vão

Ou não o são"


 Em Wenhajin, a frase formava um hai-ku devido. Cinco caracteres na primeira linha, sete na segunda, e novamente cinco na primeira. A poesia não precisava rimar, mas obedecer a métrica. O desafio era concentrar a sabedoria de uma lição ou de um sentimento no formato.

 - Muito bom... - Nobunaga falava quase academicamente. - O tema "Amizade". Que você pediu quando nos conhecemos... Indica que escreveu para mim, não?

 - Sim. - Baixava as feições envergonhada. - Mas também fiz uma coisa com este verso... Você precisaria ver o...

 - Você desenhou?

 Hellen surpreende-se. Busca o olhar de Nobunaga, e vê que o wenhajin estava com os olhos fechados. Em sua mente, ele montava os kanjis.

 - A primeira letra da primeira linha... e a segunda letra da segunda linha... É a cabeça do dragão. E os sub-vocábulos, um corpo de dragão-serpente, em curva de arco.

 Ela sorri e mostra o papel. Sua demonstração havia sido desmascarada. Realmente para o efeito visual, precisou desalinhar ligeiramente a segunda linha, mas ainda era um Hakai informal válido.

 - Fui pretensiosa em achar que podia surpreender o campeão wenhajin? - ri ela contidamente.

 - Não deve ter sido fácil... - Pondera Nobunaga, aproximando-se. - Precisa de bom domínio do meu idioma, e imagino algumas tentativas. E o resultado é um fenômeno visual, não literal. Ouso dar um parecer?

 - Por favor... - fala Hellen. Estava desguarnecida... Queria ver onde isso seguia.

 - Não preciso dizer que sua beleza está fora dos padrões... - começa. - E o foco de sua poesia é o visual, a apresentação. A mensagem, por bela que seja, é algo já declamado. Eu vejo alguém que tem um belo exterior, física e mentalmente. E gosta de expô-lo... Mas também teme o interior. Labora em sua arte, não simplesmente a produz. Vejo algo escondido, mas ao invés de muralhas, uma distração aos olhos.

 - Não estou certa se foi um elogio... Ou a mais educada crítica que eu já recebi... - fala Hellen. Suaria por estar tão perto, se não fosse tão competente atriz. - Mas devo confessar a inspiração?

 A feiticeira aproxima-se decidida de Nobunaga, e toma suas mãos, descobrindo as mangas amplas do kimono, revelando o antebraço. Dele, uma tatuagem surgia. Um dragão verde que serpenteia pelo braço, e sua cabeça termina nas laterais internas das mãos. O maxilar do lagarto era projetado no polegar e o focinho no indicador.

 - Quando empunha uma espada... - fala ela. - É como se dragões mordessem o cabo. Então as míticas bestas agitam lâminas quando você encontra-se em combate?

 Hellen'ae conseguiu facilmente reverter o confronto. Uma vez descoberta como se aproximar do nobre wenhajin, tocar sua pele e olhar em seus olhos a curta distância, ela o tinha domado...

(...)

 Tholen continuava tentando inutilmente comunicar-se com a aliada, ignorando que ela estava no quarto do hatamoto, imediatamente acima de si. Mas enfim, desperta de seus pensamentos quando algo o atinge no elmo, ressoando com o eco metálico.

 O anão olha para o chão, e vê uma bolota. Uma fruta-semente, redonda e cascuda como um coco, mas pequena em proporções.

 Lentamente, volta-se para a única vivalma naquele nível...

 Saisho, estava parado a sete metros dele. Mesmo se ele tentasse disfarçar - o que não estava propriamente fazendo - seria impossível negar a autoria.

 - Ô moleque... - rosna o rude anão. - Foi você quem atirou isto aqui na minha cabeça?!?

 O impostor não precisava falar. Apenas dá com os ombros casualmente e sacode a cabeça com um riso zombeteiro.

 - Eu já dobrei ogros por menos do que isso, seu borra-botas furta-cor... - ameaça Tholen, agora voltado completamente para o estranho.

 Como consequência da ameaça, o guarda vermelha repete o gesto, e estica as mãos em movimentos circulares, um deboche da guarda de boxe.

 - Ah, você pediu por isso, seu elfo flozô... - Tholen estica o pescoço, para a direita e para a esquerda, estalando-o em ambos os movimentos. Não sacara o martelo ou as machadinhas, como a regra de briga de rua ensina. E enfim, investe em corrida.

 O alvo não se mexeu. Provocou ainda mais, à medida que o anão desembestado se aproximava. Mas enfim, instantes antes dos lutadores colidirem, Tholen sente seu movimento ser amortecido ao longo de seu corpo, mas com o tato no rosto percebe que linhas invisíveis estavam se esticando quando ele passou por um vão. Mal parou completamente a investida, um estalo e sons de equipamento mecânico era ouvido. Uma rede irregular agora içava o anão até o teto do convés da barcaça.

 - Ar, seu covarde e traiçoeiro merdinha do ... - Tholen esforçava-se para se libertar. Mas suas injúrias não vinham à mente na mesma velocidade que as proferiam. O impostor fez alguma troça em Wenhajin. Tholen desconhecia o idioma, mas reconhecia pelo olhar triunfante o significado... E o fato da voz esganiçada quase gargarejar cada sílaba estrangeira reforçava a ideia.

 Como se não pudesse estar pior, o wenhajin espalha um estranho pó sobre uma folha em "V", e aponta para o anão. Em seguida, um sopro competente espalha a nuvem de poeira sobre todo o rosto enfurecido do guerreiro. Seus olhos ardem ligeiramente, e o forte cheiro entra por suas narinas.

 - Hah! - bufa Tholen provocando. - Chama isso de veneno?!? Eu já peidei coisas mais letais que isso!

 - P... Pe-peido mortal! - urra assombrado o impostor. O pó não era venenoso, mas sim um potente anestésico. De qualquer forma, era impressionante o vigor da sua vítima para não cair em torpor. Outro, que não um vigoroso anão, estaria fora de ação.

 - Ah, então fala minha língua, não é?!? - rosna furioso. - Pois então anote minhas palavras: O enterro vai ser caixão fechado, viu? CAIXÃO FECHADO!

 Aquilo não estava nos planos do espião. Preferia a vítima desacordada. Não ousava tentar atacar sua mente... Acreditara no que Hellen proclamou. Mas suas ilusões prévias distrairiam curiosos. Mesmo se gritasse, Tholen não conseguiria alertar a tripulação de sua ação.

 Mas o Anão sequer pensou em pedir ajuda. Não conseguia livrar os braços para alcançar suas armas... Mas lembrou de um de seus pertences: A Bota do Pisão. Era um item mágico que concentrava energias psíquicas. Uma vez acionada - ao todo, três vezes por dia - um cone de cinco metros projetava onda de força pelo solo. Tholen usava contra múltiplos oponentes ou para derrubar inimigos e objetos. Mas desta vez, iria servir na vertical.

 O casco externo e a parede interna do saveiro vibram quando Tholen consegue um chute bem dado gastando uma das cargas. A onda de choque atinge os mecanismos do teto, fazendo-os, para a surpresa do falso Saisho, despencar já quase livre das amarras.

 Uma consequência inesperada ao anão, no entanto, foi que a onda alcançasse o quarto de Nobunaga. Com a vibração, o hatamoto e Hellen'ae são abruptamente separados, jogados um em cada canto.

 - Batemos em algo?!? - exclama confuso Nobunaga.

 - Não... - fala Hellen, recompondo-se e cobrindo seu busto adequadamente. - Reconheço isso. Foi Tholen.

 - O que o capitão fez?!?

 - Ele não era um capitão. Era uma isca... - confessa enfim. - Confio em meu amigo para duas coisas: Se virar em situações arriscadas e sua capacidade de fazer barulho.

 E os dois partem em direção ao convés inferior.

(...)

 Tholen estava sorrindo. Ha algum tempo queria bater em um wenhajin destes... Sequer a possibilidade de estar lidando com um impostor lhe ocorreu. O inimigo jamais se moveu enquanto ele se levantava, com o Flagelo de Gelo já estava na mão.

 Com perícia, o martelo descreve um giro no ar e mergulha na direção do seu alvo. Acerta-o em cheio, com peso e formando uma camada de gelo destrutiva no ponto de impacto... Mas o som que ouve era impróprio... Era o som de metal contra madeira.

 O que parecia ser um corpo, mostra-se um boneco de tronco com as roupas da guarda vermelha.

 Um vulto projetava-se de trás do boneco no instante anterior ao golpe. Ele rola no ar, abrindo espaço entre os dois lutadores. Ele vestia corselete verde com uma fishnete - uma armadura similar à cota leve - por baixo. Seu corpo era tracejado de tatuagens simulando listras de um tigre, e cabelos castanhos espetado completavam a figura. Em sua testa, adornando as feições tradicionais wenhajins, uma pedra losangular. Tholen estranha aquela cor... Recorda-se de ter espantado uma mosca daquela coloração e tamanho quando discutiam com Nobunaga. Mas só via com sua visão periférica.

 - Ah, desgramado... - resmunga o anão, adiantando-se lentamente a novo combate. - Era você que a Hellen estava tentando desmascarar, não é?!? Você estava nos espiando o tempo inteiro...

 - Um po-porco babarulhento que nem vovocê? - ri o espião. Seu melinês era carregado, e a peculiaridade da fala contrastava com a confiança que seu olhar desafiador transmitia. - Fa-fácil dema-mais para "Kyōju no itazura".

 - Com-noju... - torce o nariz Tholen. - Que merda de nome é esse?!?

 - Me-mestre dos T-trotes, seu o-oni incu-culto! - o espião saca um machadinho e uma kunai, uma espécie de adaga metálica de lâmina larga, adequada tanto como ferramenta, arma corpo-a-corpo e de arremesso. - Se-seu opoponente ago-gora é Yuuhi Midiri!

 O intruso pontua atirando a kunai contra o anão. Tholen não tem dificuldade em apará-la com o escudo de ferro com cravos que trazia consigo. A arma fica atrelada em um ornamento, e o desprezo do anão não podia ser maior contra o mínguo ataque do oponente. Ele parecia uma criança nos padrões humanos. Estava certo que bastava encostar nele que a luta estaria acabada.

 Mas seu instinto guerreiro o trai. Ele chega a sentir o cheiro de queimado, mas sequer cogitou haver algum truque na kunai. Quando um discreto pavio acaba, ela explode. Era uma bomba de pequeno poder, e o escudo absorveu quase toda a energia, mas a fumaça e o barulho atordoam o anão.

 - Mu-uito lento! - Com agilidade invejável, Midori abre distância do anão, correndo na direção das escadarias internas. Seu plano era forçar o barbudo inimigo a segui-lo e continuamente cair em armadilhas. Até cogitava se sua suposta invulnerabilidade a efeitos mentais seria um engodo também. Recorda que a fêmea sussurrou algo em um idioma estranho... E martiriza-se por não ter atentado na ocasião.

 Ouvia Tholen recuperando o escudo e pegando velocidade. O plano parecia que iria funcionar... Mas antes de chegar á escada, o ninja percebe que estava com a passagem bloqueada. Nobunaga estava de pé lá, encarando-o com fúria, e as mãos segurando no cabo de suas espadas familiares.

 - Mu-muito rarápido. - estanca a corrida. Sabia que Nobunaga era outro nível de lutador. Prefere dar vez a correr na direção contrária.

 O Samurai entende só o suficiente do que precisava, e parte furioso, logo atrás, e não deixando a desejar a velocidade do espião. Hellen sequer tenta acompanhar os dois. Foi rápido demais para usar seus dons de sugestão em Midori... Mas tinha ao seu lado uma janela boa o suficiente para conseguir passagem. Mesmo sendo uma que desaguava para o mar sem acesso ao tombadilho...

 Tholen sorri maniacamente ao ver seu alvo correndo de volta, e olhando mais para trás - de onde vinha o samurai - do que para frente. Assim, ele para no corredor, ocupando o máximo de espaço possível, e erguendo o martelo acima da cabeça. Quando Midori entrou em seu alcance, o anão desceu a arma num golpe mortal.

 Mas ignorando completamente, o jovem gago troca a postura de corrida por um deslizar. Pequeno, ele passa entre as pernas do anão, surpreendendo-o, e esquivando do ataque, que afunda no assoalho de madeira.

 Tholen ainda estava na inércia da martelada e curva-se completamente. Nobunaga não desacelera também. Simplesmente salta sobre Tholen, apoiando uma mão às costas formes e ligeiramente mais baixas do anão, e segue no encalço de sua preza.

 - Eu ... Odeio... Wenhajins... - resmunga o anão, frustrado. Somando sua velocidade consideravelmente menor e o fato de não estar no embalo, jamais alcançaria qualquer um dos dois. Mesmo assim parte na perseguição.

(...)

 A segunda escada ascendente era determinante na disputa entre o ninja e o samurai, equiparados em velocidade. Eles venceram o primeiro piso sem problemas, mas a escada que dava acesso ao deque superior era mais íngreme e apertada. O mínimo de atraso que Midori tivesse o colocaria no alcance do dai-sho de Nobunaga. Sabia do preparo da missão que aquele era um dos maiores mestres de Yaijutsu de Wen-ha, e uma vez que sentisse confortável com o alcance, aquela lâmina seria projetada da bainha com velocidade e precisão mortais.

 Assim, o gago ousa. Precisou saltar para permanecer na inércia, e fez os gestos de sua magia. Aquele atraso reanima a sede de Nobunaga pelo combate... Mas aos seus olhos, uma porta inesperadamente surge e fecha-se entre os dois. O samurai tenta frear, mas corria a toda a velocidade, e o assoalho de madeira não dava atrito o suficiente.

 Sua providência instintiva viu-se desnecessária. Atravessou aquela ilusão rápida com nenhum dano exceto o coração ligeiramente acelerado. E sua frenagem deu a Midori a vantagem que precisava.

 Alcançou o convés com um salto e guarda armada na defensiva. Olhou ao redor... Só viu três dos membros da guarda vermelha... E todos o ignoravam completamente... Permitiu-se sorrir triunfante. Foi desmascarado, mas não capturado...

 E daquele dia em diante, Yuuhi Midori jamais vai deixar a guarda aberta por um lado inesperado:

 Em cima.

 A sombra alada tardou em denunciar o ataque de rapina. Sentia garras forçar o Fishnet por baixo de suas roupas, e conseguia discernir na ilusão das mãos de Hellen sobre seus ombros as protuberâncias ósseas da ponta dos dedos. Em segundos, estava sendo carregado pelo ar.

 A agitação chama a atenção dos guardas no tombadilho. Nobunaga e Tholen enfim chegam, olhando surpresos para os céus, a feiticeira com asas quirópteras vermelhas voando em círculo com o jovem em seu poder.

 - É me-melhor me la-largar... - ameaça Midori. Ostentava o machado e uma kunai com um pavio aceso em o que parecia ser uma tarja rúnica. Realmente não estava rendido ainda.

 - Quer mesmo que eu te largue, jovenzinho? - fala com ironia na voz. - Olhe para baixo.

 Midori se dá conta que alcançava dezenas de metros em segundos. Mesmo caindo na água, seria um baita tombo.

 Enfim, ele sopra o pavio, e leva as mãos á nuca.

 - Eh... - Tholen conversa desconfortável com o hatamoto. - Creio que quer saber das asas da garota...

 - Ela é uma feiticeira formidável! - exclama assombrado.

 - Bem... Que seja... - rosna aliviado o anão. - quero ser o primeiro a dar um cascudo no pirralho.

(...)

 Midori não se sentia centro das atenções daquela forma ha muito tempo. Em um círculo maior, os dezenove guardas vermelhos com armas desembainhados. Em um menor, os três que o combateram. Hellen cuidadosamente amarrou as mãos, pés e braços do prisioneiro. Apesar das ameaças, Tholen jamais agrediria um rendido... Bem, já o fez uma vez, mas em regra não se valeria de deslealdade.

 Nobunaga quem olhava com certa satisfação. Em momentos de angústia, cogitou que os deuses-dragões teriam expulsado-o das terras sagradas de Wen-ha. Um elemento externo minimizava esta teoria.

 - Fale, prisioneiro... Se presa sua vida. - ameaça o hatamoto.

 - Nobunaga-sama... - Interrompe Hellen. Ela estava atrás do ninja, fiscalizando-o. Midori podia ouvi-la, mas não vê-la. - Ele jamais diria a você quem o mandou.

 O wenhajin estranha a intervenção da feiticeira.

 - Acredite... Eu sei como fazê-lo falar.

 - Creio que um homem honrado como o hatamoto de Son-yohama não iria apelar para a tortura. Jamais o jovem lhe dirá por que ele foi enviado aqui.

 Midori sorri. Mas quem gargalha mesmo é Tholen.

 - Vocês estrangeiros estão loucos?!? - exclama indignado. - Entendo suas ressalvas, mas não na frente do prisioneiro!

 - Ei, moleque... - Ri o anão. - Você nunca iria pensar em um elefante...

 - Um o-o que?!? - estranha Midori. Tal animal era desconhecido em Wen-ha.

 - Perdão, vossa gloriosidade. - fala Tholen com deboche. - Conheço a moça ha muito tempo. Se ela pede que não fale ou não pense... Já está cavoucando a mente da gente...

 - Ouvindo pensamentos superficiais, para ser mais precisa... - corrige Hellen. - É uma manobra psicológica... Eu peguei “Tribo shinobi das Montanhas dos Quatro Rostos”. Capitaneado por Yuuhi Renai. Estou certa?

 Midori agita-se assustado.

 - Isso é tra-tra-trapaça! - protesta. - N-n-não tem o Di-di-direito de fa-fa-...

 - Calma, criança... Midori, não? - fala quase maternal a feiticeira. - Imagino que com preparo, você seria oponente mais que adequado com seus talentos. Mas o peguei com guarda baixa... Como fez com Nobunaga-san por tanto tempo, não?

 - Este marginalzinho meia-pessoa... Ele quem amaldiçoou nossa embarcação?!?

 - Na verdade, não. - fala ela. - Embora talentoso, o nível de poder e descrição para uma persuasão em larga escala está além do pequeno Midori. Mas infiltrado, atento a manobras de despiste como a troca de embarcações, alguém na praia ... O “capitão Renai”, mais precisamente... Eu nem imagino o poder necessário para esse feito.

 - Eu já ouvi falar de um guerreiro das terras do leste. Era tido como grandioso e generoso mesmo com seus inimigos. - fala Nobunaga. - Mas se ele me escolheu como inimigo, por qualquer motivo que seja, aprenderá que eu não sou tão virtuoso quanto ele.

 - Por isso, seria melhor ouvir o "por que". - adianta Hellen.

 - Eh, se posso sugerir... - fala Tholen. - Por mais que eu goste de confissões pessoais, o desgramado gagueja tanto que a gente vai morrer de velhice se esperar seu "de-de-depoimento". Entendo Que Hellen pescou tudo dessa cachola confusa...

 Midori faz uma careta e desvia o olhar. Hellen observa com interesse, e dá razão a seu aliado.

 - Nobunaga-sama... O senhor mencionou que era um homem casado, não? Quando eu fui a seus aposentos

 A indiscrição visivelmente constrangia o samurai. Mas ele assenta com a cabeça.

 - Percebi que honra seus votos e sua esposa... Mas o que pensa de seu sogro... Usagi Heyo, vulgarmente chamado de "Coelho Gordo", imagino...

 - Não tenho o que pensar dele. É meu sogro. pai de minha mulher. É o que importa.

 - Não há laços sanguíneos entre vocês. - fala Hellen. - Não pensaríamos menos se confessasse que seu “sogro coelho” é um tirano com seus servos, e um vizinho complicado aos daimatos menores ao redor dele.

 - Não me cabe julgar. - insiste o espadachim.

 Hellen temia que houvesse alguma ressalva moral de Nobunaga pelo parente legal. Mas felizmente havia a neutralidade necessária.

 - Sei que ele teve muitas filhas, e com elas, conseguiu casamentos vantajosos. Especialmente com o hatamoto. Com tal poder, ele pode ameaçar os daimatos vizinhos, tomando-lhes terras e gado, certo que possuía armas ao seu lado o bastante para rechaçar seus inimigos...

 - I-i-individualmente. - acrescenta Midori, mas sem encarar a feiticeira ou o hatamoto.

 - Uma aliança foi feita. - continua Hellen, após uma respeitável pausa. - Todos os prejudicados pelo “Coelho Gordo” juntaram-se em uma armada capaz de lutar com chances de vitória contra o vilão e seus samurais. Ao menos, com o que ele poderia bancar...

 - Como genro... - deduz Nobunaga. - Eu e meus homens teríamos laços para prestar auxílio.

 - Juntando-se suas forças com as dele, a aliança não teria grandes chances de fazer justiça. Se considerar que como hatamoto, a guarda do próprio Shogun poderia segui-lo... Os revoltosos seriam massacrados.

 - Então, mandam o pivete para matar o general. Cortar uma das maiores forças armadas vassalas ao “coelho”?

 - Co-cogitaram o assa-ssa-sinato. - defendia subitamente Midori. - E a A-a-aliança veio a miminha vi-vila bu-buscar agente ca-ca-apases. M-Mas a-achamos he-hedionda e-e-essa ssosolução.

 - Yuuhi Renai. Um mestre mental da aldeia, decidiu cortar comunicações entre Usagi e Nobunaga. A viagem foi conveniente. - adianta Hellen. - Mas afastar o navio era uma solução temporária... E era questão de tempo até o hatamoto buscar outros meios para chegar a seu lar. Daí, o espião infiltrado. Midori alertava seus líderes de manobras como trocar de navios. Devo deduzir que ele foi além do dever quando suspeitou que Tholen fosse imune à persuasão de Renai, e tentou separá-lo da comitiva. E Eis toda a história, "glorioso".

 Nobunaga vira as costas ao grupo interno. Encara Akashi e seus guardas. Parecia pensativo. Fala enfim, com a voz dura.

- Mas devo crer que mesmo sem ter mais o espião, Yuuhi Renai permanecerá afastando meus navios de minha terra natal...

 - E-enquanto peperdurar a g-guerra de Usagi. - pontua o gago.

 - Mesmo se eu tiver uma moeda de troca? - fala enfim. - O valioso filho deles?

 Midori prende a respiração tenso.

 - Renai não acredita que a vida de um soldado valha qualquer missão. - adianta Hellen, pescando mais um pensamento fugitivo da mente do gago. - O fato de ser o filho dele só reforça este entendimento.

 Nobunaga volta-se firme ao centro do grupo. - Então, eu venci. - proclama enfim. - Prisioneiro, não sei como vocês se comunicam, mas mande seu pai deixar a costa de Wen-ha e abandonar sua vigília. E faça-o prometer que jamais ousará ficar entre Geen Nobunaga e sua terra natal.

 - N-não.

 Midori se posta firme contra o samurai.

 - Me deixe colocar em termos que entenda... - Fala severamente. - Se esta ofensa continuar... O que eu farei com o prisioneiro é o menor dos problemas dele e de sua aldeia. Que se dane meu sogro e a aliança. Eu retornarei um dia... Com ou sem Renai. E não irei ao descanso eterno enquanto não encontrar seu pai, sua aldeia, e todos os que me afrontaram. E os colocarei por terra. Apagarei da história. Eu juro perante o deus dragão Verde... Perante todos os cinco deuses... E os inúmeros deuses gajins. Agora, criança... Vai enviar minhas condições ao seu pai?

 Midori encara o imponente general, mas sua consciência pesa. Tinha orgulho de sua terra natal, e acreditava que as promessas daquele homem amargurado não seriam concluídas... Mas ele era poderoso o bastante para levar conflito aos seus colegas. Haverá guerra. Haverá mortes. Independente do desfecho.

 - Eu... S-só prepreciso estar pe-pe-perto o susuficiente da co-costa papara enviar a memensagem. - fala enfim. - Eu f-farei o que diz.

 - Que treta você nos meteu desta vez, Hellen... - sussurra Tholen.

 - Pss... - repreende a feiticeira. - Não acabou.

 Nobunaga corrige sua postura.

 - Entendo porque seu pai não precisa decidir pela vida ou morte de seus enviados. - fala enfim. - Eles mesmos quem decidem se suas vidas e suas missões são importantes ou não. Chego a invejar tais seguidores... - O assunto parecia resolvido. Passou a tratar de arrumar seu kimono, desalinhado com a correria poucos instantes atrás. - Recomende que seu patriarca arranje alhures atividade para passar seu tempo. Creio que alguém capaz de afastar os inimigos deve ser útil na frente da guerra contra Usagi-sama.

 Midori se espanta.

 - O se-senhor n-não vai i-i-interferir na g-g-guerra?

 - Eu serei obrigado... Se contatado por meu sogro. Mas no estrangeiro, posso ficar incomunicável por semanas... meses até. - O hatamoto encara Hellen por alguns instantes. - Não faço juízo contra meu sogro, mas não sou cego à política de meu reino, senhorita Hellen'ae. Se não há mais força sobrenatural me exilando de meu lar... Isso me basta. Terão minha eterna gratidão.

(...)

 Midori não era o único agente da aldeia além da fronteira de Wen-ha. mas os demais eram meros carteiros. Mas eram ágeis o bastante para alertar o Honrado líder da tribo que haveria uma última tentativa de Nobunaga alcançar as Terras de Wen-ha. E como tal, estava a postos no porto de desembarque. E como sempre, a guerreira estava ao seu lado.

 A gema na testa de Midori, o presente de sua mãe, mais uma vez vence as distâncias e aproxima-se da margem. Aquilo era estranho... Pois Midori adiantou-se ao barco. Podia ser uma mudança de curso, ou alguma manobra dissimulada. O tempo para deslocamento era essencial, pois uma vez ancorados, Nobunaga e a guarda vermelha não retornariam ao mar.

 Mas a mensagem do "Mestre dos Trotes" era outra. Sua descoberta, e a decisão de Nobunaga ... A intervenção dos novos heróis. Com seus talentos únicos, o Líder de campo coçou os bigodes, revivendo os apuros que seu filho passou.

 - Renai? - interrompe Inagami. - Está calado ha tempo demais... O que aconteceu?

 - Creio que... Podemos interromper nossa vigília mais cedo. - pronuncia enfim. - Você vai ter mais um motivo para se orgulhar de seu filho...

(...)

 - Venha com a gente.

 Tholen ficou mais surpreso do que o próprio Nobunaga. com o súbito convite da feiticeira. Ancoraram desta vez no Porto Real de Habênia, e o Ronshi - uma escuna elegante wenhajin - estava aguardando o regresso dos seus senhores. O capitão do saveiro foi pago e liberado, enquanto a guarda transportava a carga entre as duas naves. Tholen e Hellen aguardavam um momento em que Nobunaga estivesse liberado da negociação e preparativos.

 - Ir com vocês.... - segue Nobunaga tentando entender o pensamento da mulher.

 - Eu e Tholen estamos rumando para Oeste. Até o reino de Lyon. Condado de Katzophlis. Será uma jornada de pelo menos dois meses às margens do Rio Janar. Se você ficar na Doravânia ou navegar pelos portos de Meliny, não poderá negar uma carta de Usagi exigindo sua presença na guerra... Mas andarilhos são imprevisíveis. Nosso grupo recentemente foi reduzido... Poderíamos usar um par de espadas... Ou um ladino...

 Hellen desvia o olhar para Midori.

 - Ei! - protesta Tholen. - O moleque é um prisioneiro, não um aliado.

 - Refém político. - continua Hellen. - Ele é a garantia que Nobunaga tem do fim da "maldição" de Renai. Acredita mesmo que cordas e novatos da guarda vermelha iriam deter um ninja?

 - S-só estou e-e-esperando vo-vocês dodormirem... - fala o gago, em desafio.

 - Com todo o respeito, senhorita... - fala o hatamoto. - Minha ausência do reino é tolerada... Mas como apontou bem, a vida de aventuras é perigosa. Porque eu, na altura em que estou minha vida, faria uma coisa dessas?

 - Você não é velho ainda, Nobunaga-sama. - insiste Hellen'ae. - Sei que o dragão tem ânsia de sacar as armas, não viajar em balsas com pessoas a lutarem em seu nome.

 - Esqueça, Hellen. - rosna Tholen. - Ele não tem nem os colhões nem a necessidade de do ouro.

 - "Colhões"...? - estranha o Wenhajin. Ainda mais ao ver Midori gargalhando.

 - É um... Uma forma vulgar de se referir à coragem.- traduz a feiticeira

 - Deduzi. - Emenda o espadachim. - Pois saiba que quando refinava minha arte, me passava por andarilho ronin para não ser incomodado ou ter de lidar com tratamento individualizado.

 - ... E ainda assim não aprendeu a rimar... - goza Tholen.

 - Referi-me á arte da espada! - o rosto de Nobunaga ficava vermelho de afrontado. - Está decidido! Eu vou com vocês.

 - O que?!? - exclama em uníssono Tholen e Midori.

 - De Lyon ou de Genesa consigo naus velozes de volta ao reino em um décimo desse tempo. Se não concluírem a guerra a meu sogro neste ínterim, não será mais problema meu. Caminhei por todos os cantos de Wen-ha... Quero andar pelo resto do mundo agora. E vai ser da forma tradicional. Sei que tenho meu velho sombreiro e a armadura de viagens.

 - Ei! - protesta Midori. - E qu-quanto a mim?!?

 - Eu sou seu captor. - fala Nobunaga, já partindo para o interior da embarcação. - Onde eu for, prisioneiro vai!

 Hellen aplaudia freneticamente seu sucesso. Em seu íntimo, a aliança com Geen Nobunaga era o ideal para seus planos em longo prazo. Mas Tholen demonstra preocupações.

 - Você não vai esconder dele por muito mais tempo... - fala o anão, em seu idioma nativo, certo que apenas Hellen entendia dentre os presentes.

 - Eu conquistarei a confiança dele... Como conquistei a sua. E a de Gunter e Nindrille. - fala ela animada. Igualmente em Anão.

 - Não que eu queira acusar... - insiste. - Ele já falou que é casado. Se está com isso em mente ... Tire o cavalinho da chuva!

 - Oh, Tholen... - ri a feiticeira. - Não sabe que samurais costumam a ter concubinas? Algumas escolhidas pela esposa inclusive! Creio que eu posso ser amiga da "coelhinha"!

 Tholen encara o infante Midori. Ele olhava confuso.

 - Cê não fala anão, né? - resmunga o guerreiro. - Acredite... Não está perdendo nada!

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