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29 de setembro de 2026

EDGELORD - Cap. VII - Arco da Perseverança

 

**Bem-vindos ao povoado de Bearlord.** Outrora, a última fronteira entre o Império Humano e Shén-Li. Agora, o palco de um duelo entre dois colossos.

De um lado, o Capitão Khao. Meu antigo treinador... e, até poucos minutos atrás, o homem que estava tentando nos capturar desde o Castelo Negro, do outro lado do continente.

Do outro... bem.

O bêbado inconveniente que eu havia carregado pelo povoado acabara de se revelar como o Monsenhor Capri, da Igreja da Perseverança. 

— Sério?!? — Xitarro me olhou com uma cara de espanto. — Você não sabia? Era até bem óbvio a partir dos "Cinco Máscaras"...

— [Eu também sabia...] — a voz de Gladys ressoou na minha mente, transbordando deboche. — [E só não falei nada porque estava esperando para ver a sua reação.]

Nisso eu acredito.

E, considerando o que eu acabara de descobrir sobre ele, talvez eu devesse ter demonstrado um pouco mais de respeito. Se não por ele ser o líder da maior cavalaria do mundo, ou o guardião de Amellie e possui a forma mais garantida de restaurarmos minha armadura/amigo, ao menos porque tem o hábito de atirar gente da minha idade do penhasco.

Eu nunca tinha visto ninguém que ameaçasse fisicamente o Capitão Khao... Talvez meu pai — Lord Blunt — fosse uma das poucas exceções. E olha que meu pai é uma calamidade apocalíptica por si só.

Mas ver Khao avançar contra aquele homem como se não estivesse diante de um adversário qualquer... e perceber que Capri não parecia nem um pouco preocupado...

Aquilo me dava um receio profundo.

No primeiro avanço, Khao não lutou como o "garoto selvagem de dezessete anos". Ele avançou com a precisão cirúrgica de um veterano da Nova Guarda. Executou uma sequência avassaladora de socos — um Flurry of Blows focado nas articulações da armadura do Monsenhor. Capri mal se deu ao trabalho de esquivar; suportou o impacto das placas de aço rangendo e bloqueou os golpes com o cotovelo e com a empunhadura pesada de Avalanche.

Porém, ao desfazer o último golpe, o capitão de forma espetacular usou o próprio ímpeto para girar por trás do velho e travar o braço que segurava a espada numa chave de articulação perfeita, usando a mão de pedra indestrutível como alavanca.

— Ah, qual é! — o cavaleiro resmungou, a voz abafada pelo esforço e incômodo. — Você sabe que a espada é a maior ameaça a você e tá querendo tirar ela da brincadeira? Prá quê isso?!?

— Se eu não tirar a espada... tiro seu braço inteiro! — Khao urrou, os músculos do pescoço explodindo enquanto forçava a articulação do Monsenhor ao limite.

— Hmm... Não. Você não vai.

A figura de Capri oscilou sutilmente, como a imagem de um reflexo na água perturbada por uma pedra. Por uma fração de segundo, a carne e o aço do Monsenhor pareceram perder a densidade, tornando-se quase intangíveis.

O aperto de Khao perdeu o ponto de apoio. A chave de braço simplesmente deslizou pelo nada. O Capitão perdeu a firmeza do agarrão e o equilíbrio, rolando de costas pela poeira do pátio e levantando-se num impulso acrobático, piscando incrédulo.

— E-essa não... — murmurei, sentindo um nó se dar no meu estômago.

— O que foi aquilo?!? — Xitarro sussurrou ao meu lado, com a cauda completamente eriçada. — Como ele fez isso? Ele... ele virou fumaça?!

— A gente caiu no erro de achar que o Monsenhor é só um "grandalhão com uma espada gigante" — comentei, ajustando o aperto na Gladius. — Esquecemos que o desgraçado é um conjurador divino de alto nível!

— E o que isso significa?! — Xitarro perguntou, o olhar desesperado oscilando entre mim e o colosso de armadura.

— Significa *Liberdade de Movimento* — expliquei com um suor frio descendo pela nuca. — Não sei se é pela proximidade do templo ou se ele lançou essa magia antes de sair para brigar... Mas agarrar, derrubar ou imobilizar aquele homem não são opções. Se o Capitão quiser vencer... vai ter que derrubar ele na pura pancada!

— Bentho... — Xitarro me encarou, subitamente sério. — Acha mesmo que o Capitão vencer é uma boa coisa? Para nós?

Eu pisquei, surpreso com a clareza da pergunta. Não sabia direito o que responder.

— Bem... com sorte, se Khao vencer, ele estará cansado demais para nos perseguir — Xitarro ponderou, as orelhas ainda baixas. — Sugiro que, se a Amellie chegar antes, a gente dê no pé...

— Mas aí não poderemos usar o portal da Igreja para consertar o Virgílio — lembrei, ajustando o aperto na empunhadura da Gladius.

— É mesmo... — O monge coçou a cabeça, encarando o rastro de poeira e o estalar de placas de aço no pátio. — Então... torcer para o Monsenhor?

Eu... realmente estava em conflito.

Khao não perdeu tempo absorvendo a surpresa. Adaptando-se no ar, ele usou o impulso do próprio giro e salto para contornar a guarda pesada de Capri e projetar o corpo para cima, cravando uma joelhada voadora devastadora no rosto desarmado do Monsenhor.

Um estalo seco ecoou pelo pátio. Um rastro de sangue espirrou do lábio de Capri, e a cabeça do veterano foi forçada para o lado — a primeira vez em que o gigante parecia ser verdadeiramente abalado.

— Ah... seu bosta! — Capri rosnou, o olhar estreitando-se numa raiva fria.

E então, a Avalanche resolveu se apresentar.

Não foi um golpe comum; foi um arco de aço cortando o ar de cima para baixo numa velocidade assustadora para uma arma daquele porte. Uma ventania gélida e um tremor sob o solo de pedra acompanharam a lâmina.

O Capitão Khao já a esperava. Ergueu o braço esquerdo numa guarda perfeita, aparando o impacto de frente com seu punho de pedra petrificado.

O som do metal colidindo contra o concreto místico soou como uma explosão de artilharia. Estilhaços de pedra e poeira voaram para todos os lados. Qualquer outro objeto — qualquer escudo de aço reforçado ou arma comum — teria sido destroçado por aquele impacto, mas o braço de Khao nem sequer rachou. Ainda assim, Khao parecia afundar ligeiramente no pátio. Sob a pressão do impacto, as rochas do pavimento trincaram e algumas pedras menores saltaram do solo como projéteis.

... E foi então que Capri mostrou o Cardullion, o "deus da guerra e da putelância", era quem o patronava.

O movimento parreado não foi o fim do ataque. A Avalanche não parou; ela continuou girando, fluida e devastadora como uma roda de moer ossos. Khao não conseguiu aparar todos os golpes daquela sequência frenética. Após uma verdadeira chuva de aço e poeira, a parte larga da lâmina atingiu o Capitão em cheio no rosto. Sangue esguichou do nariz.

Um efeito sobrenatural cobriu o impacto. Ondas de gravidade distorceram o ar, multiplicando a massa da espada e fazendo o Capitão despencar e rolar pesadamente pelo chão. Khao tentou se levantar de novo... mas não com um movimento acrobático como da outra vez. Apoiou a mão na terra, arfando. Ele tinha sentido aquele golpe.

... Mas Capri não esperou. Avançou e acertou um chute brutal no seu abdômen, fazendo o Capitão rolar de costas pela poeira.

— Todos esses anos e é ISSO que você traz para mim?!? — o Monsenhor urrou, a fúria finalmente se mostrando.

Ele ergueu a Avalanche com as duas mãos, elevando a lâmina acima da cabeça. Khao tentou posicionar o braço de pedra para parear do chão... mas será que aquilo bastaria contra o peso de uma montanha caindo? 

Um pé de vento rondava os dois, e a própria gravidade parecia se acumular no fio da espada, distorcendo a poeira ao redor. Energias acumulavam. Um Smite? O que quer que fosse, seria ... eu... 


Eu não podia deixar aquilo acontecer.

Avancei no desespero. Interceptei o corte bem no meio do caminho, cruzando a lâmina de Gladius Aeternum para segurar o golpe descendente.

— G-Gladys... — eu resmungava, me dobrando pelo esforço absurdo enquanto segurava aquela tempestade. Era como tentar erguer uma montanha usando apenas um graveto. — Sei que você vai me encher o saco por ter ...

— [Deixa disso!] — surpreendentemente, a espada comentou, a voz vibração na minha mente cheia de uma empolgação selvagem: — [Eu tô morrendo de vontade de tirar uma casca dessa "Avalanche" aí!]

________________________

 A loira estava em lágrimas quando me encarou antes de fugir do Castelo Negro: "Eu não sou tão nobre quanto você, Khao.  O que é "certo" não é o que eu quero. Eu quero meu filho de volta ... Para mim!" E eu estava lá para prender Bentho. E ela sabia que eu não era nem de longe tão nobre quanto me julgavam.
 Eu tenho recordações... Eu caído, um cara monstruoso sacodindo uma espada para me finalizar, mas alguém fracote pula na minha frente, confrontando o inimigo. Familiar?
 A loira? o filho?
 Blunt? o Sargento?
...
   INACEITÁVEL!

________________________

Eu não ia manter a firmeza por muito tempo. O peso era absurdo... mas o Capitão aguentaria.

Ainda no chão, Khao mudou sua postura e agarrou a lâmina da Avalanche com as duas mãos, contendo a queda do aço por uma fração de segundo e me dando uma brecha perfeita.

— *Raio Místico Repulsor!*

Apontei a ponta da Gladys a queima-roupa contra o peito do Monsenhor. A explosão de energia mística o empurrou em ondas por três metros, e ele cambaleou mais alguns passos para trás antes de recuperar a base.

Ganhamos espaço.

Xitarro disparou até nós, ajudando o assombrado Capitão Khao a se erguer. O catfolk imediatamente sacou e estendeu seu bastão, assumindo uma postura defensiva rápida ao nosso lado.

— Ele é grande, mas é um só, Capitão! — tomei a iniciativa, a adrenalina a mil. — Ele não vai conseguir evitar o flanco, e nós temos a economia de ação a nosso faaaav...

Senti meus pés deixarem o chão.

Khao me agarrou pelo colarinho com sua mão humana. Levantou-me do solo e me arremessou de volta para a rua, como se eu não passasse de um saco de trapos sem peso algum.

— Eu mandei CAIR FORA, escudeiro Bentho! — ele urrou para mim. Para *mim*! — Esta luta é **MINHA**!

Ele então se virou para Xitarro... Pairando *sobre* Xitarro, bufando como um animal selvagem enraivecido.

O monge deu de ombros, com uma calma quase inacreditável.

— Ah, não... — Xitarro falou, com pouca (quase nenhuma) sinceridade na voz. — Eu estava mesmo ~tããão~ a fim de me meter na briga de dois caras que se pesam em toneladas... oh, bem...

E saiu caminhando de volta para a rua, bastão repousando no ombro, sem o menor remorso. Khao, respirava pesado como um cão acumulando fúria. Capri, diferente, ria.

— Não seja idiota, Capitão! — protestei elevando a voz, levantando-me e limpando a poeira das roupas. — Eu sou um recurso! Eu sou a sua tropa aqui!

— Não é sobre ser inteligente ou "administrar recursos", pirralho — o Monsenhor deixou o nosso drama correr e enfim interrompeu-me, a voz profunda ressoando. — Isto aqui e agora... É sobre Orgulho. É sobre o seu lugar no mundo.

O__0 ... Okey...

Eu não esperava que o bêbado defenestrador de adolescentes tivesse tanta... sabedoria.

Naquele instante, lembrei-me dos lobos na ravina... Daquela "vitória fácil" imitando os passos do meu pai, que não tinha me trazido satisfação alguma. Mas... ah, eu não era o protagonista desta história.

Khao limpou o sangue do rosto com o antebraço. Respirava arfando, encarando Capri. O Monsenhor fincou displicentemente a ponta da Avalanche no chão e, com a mão livre, fez um gesto provocativo, chamando-o para cima.

— Venha... Eu sei que é isso que você quer... "Rapaz" — provocou, por fim.

Então, o som que outrora fazia Shén-Li tremer de pavor ecoou pelo pátio.

O Capitão Khao entrou em fúria.

Capri foi mais rápido desta vez. Girou a espada em um "X" perfeito — uma manobra complexa e devastadora de espadachim pesadíssimo, demonstrando uma técnica impecável. A lâmina rasgou o ar sobre Khao... não sei o quanto o Capitão conseguiu aparar ou o quanto a armadura da Nova Guarda aliviou o impacto, mas Khao não parou. Ele continuou avançando através da tempestade e encaixou um soco brutal, com o Punho de Pedra, diretamente na lateral da cabeça do Monsenhor.

Capri curvou o corpo inteiro com o impacto.

... E contra-atacou imediatamente com um último golpe, carregado de pura gravidade.

Khao foi empurrado para trás pela onda de choque, mas fincou os pés. Suas botas arrancaram os paralelepípedos do chão até frear o impacto. Ele não caiu desta vez. Permaneceu de joelhos por um segundo... e tornou a se levantar, avançando mais uma vez.

— Acho que subestimei o... — Capri tentou articular.

Mas Khao não deu espaço. Veio uma nova rajada de socos. Alguns começaram a entrar, rasgando a guarda. O Monsenhor ainda tinha uma vantagem clara na luta, mas já não possuía a mesma folga de antes para nos provocar. E estava ficando genuinamente incomodado e irritado. Até que berrou...

— CHEGA!

Uma explosão verde estourou no centro do pátio.

Uma esfera de energia divina envolveu tudo ao redor. Em um piscar de olhos, o Capitão se viu cercado por... fantasmas?

Guardiões Espirituais. Novamente, era o "padre da guerra" quem dominava o palco.

Khao foi arrastado até o limite do pátio por dezenas de formas difusas — vultos espectrais nos quais se podiam distinguir braços, elmos partidos e rostos tomados pela dor. O Capitão insistiu. Avançou lentamente, forçando seu caminho contra a maré invisível, como se estivesse nadando em melaço. Sua pele ardia e fumegava ao toque das criaturas...

... Mas, assim que ele entrou no alcance, Capri o socou.

Sem espada. Sem magias. Apenas o punho nu, de puro osso e músculo.

Khao oscilou. Era o peso das mãos do homem que um dia derrubou um titã, somado à força de uma multidão de espíritos travando suas pernas e mantendo-o preso ao solo.

Capri debruçou-se sobre o Capitão, que, mesmo com toda a força descomunal que possuía, mal conseguia erguer os braços. O Monsenhor cravou o joelho pesado sobre a placa peitoral de Khao, encarando a insígnia da Nova Guarda gravada no metal. Um sorriso enigmático e amargo surgiu em seu rosto.

— Eu não espanquei você para proteger meus subalternos... — o Monsenhor começou a urrar para o capitão, a voz caindo como uma lâmina. — Nem tentei te afogar por legítima defesa. Eu só vi a porcaria de um bruto das montanhas na minha cidade! É isso que você queria ouvir?!

Eu dar um passo à frente, revoltado, foi um reflexo puro. Eu comecei a caminhar em direção a eles sem nem perceber o que estava fazendo, até sentir a mão de Xitarro me segurar firmemente pelo ombro, impedindo-me de me meter.

— Eu odiava vocês por serem grandes brutos, brigões de pele escura! — Capri urrou, a voz ecoando pelas paredes de pedra do templo. Khao conseguiu libertar os braços e tentou forçar o corpo para cima, mas o veterano o empurrou de volta contra a poeira com um peso esmagador. — OLHE PARA MIM, RAPAZ! Eu sou MAIOR que você! Mais BRUTO que você! Mais ESCURO que você! Mais HIPÓCRITA que você!!! O que eu odiava em você não era o seu comportamento destrutivo... era a porcaria de um espelho do que eu via em MIM!

Khao enfim parou de se debater. A Fúria que queimava em seus olhos cedeu espaço ao mais absoluto espanto.

— Eu sou o último soldado da merda da gloriosa Tropa de Glen Bearlord que exterminou as tribos nativas! — Capri urrou, enfim soltando o peito do Capitão. Ele já não precisava mais segurá-lo; até mesmo os fantasmas da legião recuaram, flutuando em um silêncio sepulcral ao redor do pátio. — O sangue que eu derramei naquele penhasco era o MEU! Eu fui o ÚLTIMO BÁRBARO das Montanhas Castanhas!

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