1996. Em Cornwalls, Alabama, o velho ginásio da cidade transformou-se para uma nostálgica festa de Halloween dos anos 90, enfeitado com fitas negras e alaranjadas, fantasmas de papel e abóboras. Na pista de dança encerada, dezenas de jovens fantasiados dançavam e riam ao som da música sob refletores multicoloridos. À direita do salão, um corredor levava a uma área onde uma placa destacava as inscrições para o show de talentos (Talent Show Sign-Ups), com jovens conversando e organizando o evento. Em meio àquela atmosfera vibrante e festiva de juventude, ninguém imaginava que aquela seria uma noite inesquecível e que algo estranho começava a se esconder entre as luzes e as fantasias.
Seguindo pela penumbra do corredor, Marcus e Leonel caminhavam lado a lado, trocando provocações. Marcus, o mais baixo e musculoso, ostentava os braços livres em uma roupa de cigano, complementada por um coldre repleto de facas de arremesso. Ele era o ousado da dupla, o idealizador daquela incursão que pretendia testar os limites do colégio ao se inscrever como atirador de facas. Ao seu lado estava Leonel, alto e de membros compridos, vestido com um collant estampado simulando uma armadura medieval e carregando uma espada de LARP feita essencialmente de silvertape. Eles eram improváveis amigos — uma ponte construída porque a mãe de Leonel trabalhava com a de Marcus —, mas a descoberta recente do Live Action Roleplay havia dado a Marcus a desculpa perfeita para seu "amor por lâminas": se o colégio vetasse as facas de arremesso, eles entrariam com uma simulação de combate medieval.
A fila, contudo, parecia minguada. Não havia professores ou qualquer autoridade fiscalizando o registro; apenas placas improvisadas indicando a entrada de um vestiário em reformas. Ao empurrarem a porta, imaginando encontrar dezenas de concorrentes, depararam-se com apenas duas pessoas.
A primeira era Margaret, conhecida dos dois embora não do mesmo círculo. Sabichona e filha de um ex-professor, ela exibia uma atitude confiante, vestida com um chapéu fedora, um sobretudo escuro e um colete sobre o vestido.
— Eita! Os dois psicopatas! — observou ela, cruzando os braços. — Leonel, eu até imaginava nessa vibe, mas você... Michel né?
— Marcus — corrigiu o jovem, irritado. — E errou feio, a ideia foi minha.
— Bem... — ela deu de ombros. — Qualé da parada? Não ficou claro. Só estou eu e a novata aqui até vocês chegarem.
Os dois olharam então para a última competidora. Era Bia, uma garota de 17 anos, muito magra e baixa, vestida de fada com um chapéu cônico, asas de celofane e um calçado negro robusto. Toda a sua roupa puxava para tons de violeta, combinando com a varinha de condão DIY que segurava e a lanterna de luz roxa que iluminava fracamente o ambiente. Ela abriu um sorriso hesitante, parecendo prestes a desistir.
— Eu... eu sou a Bia — murmurou, encolhida. — E meio que já desisti. Só queria assistir aos testes, se deixarem.
— Ué, desistir por quê? — Marcus cresceu-se para a novata.
Leonel cutucou Margaret de relance, conhecendo bem o jeito conquistador do amigo, que era anos mais velho e costumava arrumar confusão com isso.
— Bia, você nem disse o que ia fazer — interveio Margaret, salvando a situação.
— Ah, eu pensei em desfilar, mas a roupa não é tão boa... Ou então poderia cantar. Mas vou morrer de vergonha com plateia — disse a garota, acuada.
— Ah, canta aí! — insistiu Marcus. — A esta hora só vamos ser nós quatro!
— Dê espaço para ela, Marcus — pediu Leonel, cuja timidez natural muitas vezes cedia lugar ao instinto protetor que tinha com as irmãs.
— Pelo visto... — Margaret cortou o assunto, olhando para o aspirante a cigano. — Só eu e o Marcus vamos pensar fora da caixa. Facas de novo?
Marcus abriu um sorriso maroto e exibiu seu colete. As bainhas sustentavam facas de arremesso reais, adaptadas de malabares. Colecionador de canivetes e facas desde a infância, ele praticava o lançamento desde cedo por pura fascinação temática, e não por violência. Contudo, bem no momento em que ele exibia suas armas, um som seco ecoou pelo vestiário vazio: uma porta batendo com força no fim do corredor, seguida pelo barulho estridente de papel sendo rasgado.
O barulho de papel rasgado pareceu vir acompanhado de uma risada abafada. E a figura estava lá dentro, enfim.
Era um homem obviamente mais velho, indefinido pela maquiagem pesada, alto e magro, trajando uma fantasia de palhaço com mestre de picadeiro, que parecia ter consumido todo o orçamento de figurino de uma pequena companhia teatral. O rosto estava coberto por uma camada de maquiagem branca, aplicada com entusiasmo mais do que precisão, cortada por desenhos negros ao redor dos olhos e um sorriso vermelho exagerado que se estendia além dos limites naturais da boca. Um nariz vermelho completava o conjunto. Sobre os cabelos desgrenhados repousava uma cartola com chifres.
O restante da roupa era ainda mais extravagante. Um casaco comprido de veludo vermelho e preto, cheio de bordados dourados, correntes, botões metálicos e ombreiras que lembravam uma armadura medieval, cobria uma camisa de babados. Faixas de tecido pendiam da cintura sobre calças escuras listradas, enquanto botas pesadas completavam o visual. Em uma das mãos, ele carregava um cajado dourado cuja ponta ostentava uma pequena cabeça de bufão de aparência macabra.
Apesar de toda aquela parafernália, o sujeito parecia perfeitamente à vontade.
— Oh, meus ~Heróis e Horrores~ desta noite! — ele começou, com voz alta e divertida, como um profissional dramático. — Parece que temos um verdadeiro set aqui! Eu sou *SILAS RICTUS*, e serei seu pré-avaliador!
— "Pré... avaliador"? — Margaret ergue uma sobrancelha com atitude.
— Por mais que meu vasto currículo me torne um expert em artes, talentos, halloween, sobrenatural, psicologia infantil e Educação Física... — ele fala sem pausa, como um monólogo de improviso cômico. — Eu no final não escolho os vencedores. Os APLAUSOS serão o júri! O veredito! Vá, o que me diz, Columbo?
— Bem, "Silas" — Margaret ainda tinha a voz desafiadora. — Primeiro, ganhou uns pontos por não me chamar de "Carmen Sandiego". Meu nome é Margaret, e eu estou pretendendo fazer... Sabe o que é "mentalismo"?
— A arte milenar de fingir que lê mentes? — Silas gargalha. — A Psicologia Invertida com Ar de Superioridade?
Margaret se impressiona. Seu lábio inferior contrai com espanto.
— Eu tenho um ato assim. Tecnicamente é "mágica", mas eu me passo por detetive. Sabe como Sherlock Holmes faz nos livros dele? Olha manchas no joelho e deduz que o assassino enterrou a arma do crime no gramado?
— Poderia demonstrar? — o mestre fala.
A detetive fica receosa.
— Eu... pretendia fazer com o público. — Ela confessa. — Sempre tem uns que, se eu jogar certo, adivinho até o que ele está pensando, uns mais predispostos...
— Eu sou seu público, querida! Tente em mim!
Silas joga as mãos para trás e a encara. O olhar vidrado, sem piscar. O sorriso travado como se os dentes estivessem colados.
— Eh... o senhor é difícil... — ela confessa. — Tá comprando o papel de "palhaço psicótico"... Não pesco nada...
— Eu ajudo. — Silas inclina a cabeça para o lado. — Esta noite eu cometi meu primeiro crime. Pode dizer qual seria?
Leonel cutuca Marcus, apreensivo. O "cigano" cutuca de volta.
— Eu...
Margaret hesita. Mas ela inspira... Estende o dedo quase tocando o nariz vermelho do palhaço... Ela passa ao seu lado... E algo branco sai do rosto do palhaço.
Não era a maquiagem... Era...
— Glacê? — Margaret comenta. — Você roubou a torta que estava no armário 63!
Silas sorri. Mostra as mãos. Uma torta branca, mais um spray de glacê acumulado em um prato de papelão que um prato genuíno. Todos aplaudem.
— Quando foi que ele pegou aquilo? — Marcus comenta.
— Qualé? Foi combinado? — Leonel protesta. — Até o número do vestiário?
— Eu vejo grandes coisas em seu futuro, detetive Margaret! Vai ver, sou mentalista também! — Silas cumprimenta. — Considere-se pré-aprovada. Vamos para o palco em breve... Quem quer ser o próximo?
Marcus levanta o dedo com confiança. Leonel dá um passo para o lado.
— Eu não sei se o colégio vai aprovar. — ele fala. — Mas eu faço malabarismo e arremesso com facas. Trouxe até as minhas!
Silas entra no espaço do jovem, quase afundando o rosto no colete do jovem.
— Estas não seriam Kurotetsu V-10? — ele fala. — Boa aerodinâmica!
— Especialista em facas também? — Marcus desafia.
— Eu sou mais um cara das Viper-Edge Pro, argola no cabo para girar antes de lançar. — Ele ri. — Eu acho que tem umas assim na Grande Audiência... Se quiser tentar com elas na hora do vamos-ver.
— Parece legal. — Marcus se esforçava para conter seu entusiasmo.
— Bem, quem gostaria de se voluntariar para o mestre das lâminas? — Silas estende as mãos até Bia. — Podemos fazer aqui se tivermos uma assistente corajosa...
Os quatro se assombram.
— Eu não... não ia usar alvos humanos. — Ele confessa. — Tenho uma boneca inflável que eu ia...
— Boneca inflável?!? — Leonel ri.
— Não começa! — ele protesta. — Bem, eu não acho que a escola iria...
— Se o "não" você já tem, por que não mostra? - Silas insiste. — Se não tiver risco de vida... que graça tem?
— Você é louco, cara!
O palhaço vai até o fim do corredor, apanha uma mesa de compensado sem uma das pernas e a levanta. Era um "alvo" improvisado. E então estende-se na forma de um "T" na frente do compensado. Silas se torna um alvo.
— Eu não vou fazer isso! — Marcus protesta.
— Eu sei que você QUER! — Silas fala com a voz sinistra.. — Sempre foi o seu sonho. Mas sempre teve medo! Treinou com manequins, bonecas... Aqui é o próximo passo... Um homem!
— Vamos embora, Marcus. — Leonel insiste.
Marcus parecia aéreo. Sim, ele confiava em sua mira... Mas o medo de "e se não" sempre o reteve. Mas esse medo parecia longe... Algo nas palavras do palhaço... O inspirava.
— Afastem-se!
Leonel deu um passo para trás, não obedecendo, mas de assombro. Margaret puxou Bia pelos ombros, colando-a no corredor estreito.
Havia uma linha reta, só com Marcus, Silas e o compensado atrás dele... Três facas.
Concentração... Silêncio.
*Thwap. Thwap. Thwap.*
A terceira por pouco não corta os cabelos desengrenhados do palhaço... Silas nem sequer piscou.
— Eu... — Marcus começava a respirar profundamente. — Não sei o que deu em...
— Pré-aprovado. — declarou Silas.
— Cara, isso é loucura! — Leonel protesta. — Eu estou indo embora...
Silas se adianta e interrompe o "cavaleiro". Precisa empurrar a porta de volta quando Leonel ameaçõu abri-la.
— Já tão cedo?!? — Ele fala.
— Vocês estão loucos?!? — Leonel resmunga.
— É isso mesmo ou você só não se acha bom o suficiente?
— EU... — Leonel hesita. A coisa com as facas realmente o deixou ansioso, mas não. Era apenas uma desculpa. — Eu era só o "plano B" se Marcus não pudesse usar facas. Agora que ele está pré-aprovado, eu não... Não sei?
— O que é essa coisa em suas mãos?
Ele estende a espada de LARP.
— O plano B era uma demonstração. — ele fala enfim. — Eu... Eu e Marcus íamos simular um duelo, talvez chamar alguém para o palco...
— Leonel é campeão de nossa liga local. — Marcus comenta. — É por causa desses "braços de orangotango" dele.
— Essa espada não parece ser capaz de extrair sangue... — Silas olha como se avaliasse.
— É acolchoada. — Leonel explica. — Ninguém se machuca com ela... a não ser que faça merda, golpeie o rosto... Tem regras.
Silas saca algo do bolso: um balão murcho de fazer bichos. Ele começa a soprá-lo. O látex se alonga, formando um longo cilindro imperfeito. Com gestos rápidos, Silas faz um guarda-mão. Ele tinha agora um "sabre" de balão.
— En garde!— diz ele. — Permita-me não tirar sangue de você!
A figura era tão patética que os quatro começam a rir, mas Silas só para quando encosta a ponta do balão no coração de Leonel. Então, pendura seu "sabre" na cintura.
— É... você não é tão bom nisso. — Ele fala. — Mas na audiência tem um coroa japonês com... Como é o nome daquela espada de madeira de treino?
— Um Bokken? — arrisca Leonel.
— Isso! — o palhaço sinaliza. — E todo um aparato... Luvas com reforços, a máscara que parece uma grade?
— É... Um professor de Kempô?
— Algo soa certo, acho que é isso. — o palhaço concorda. — Que tal fazer um Katá, ou um sparring só para tentar? Deixa que eu faço a ponte. Pode até rolar umas aulas grátis, mesmo se não for o campeão do concurso.
Marcus começa a sussurrar algo com Leonel. Silas dá um passo para trás. Olhos vidrados. Em Bia.
— E a senhorita? O que veio fazer aqui?
Bia parecia congelada... sem saber o que responder.
— Ela é costureira e cantora! — Margaret, protetiva, assume a frente.
— Eu só vim assistir, na verdade. — Bia corrige. — Ia usar isso como desculpa para ver o show mais de perto.
— Oh, típico da "fada violeta". — Silas observa. — Sabem criptozoologia? Antropo-arcadiano?
Os quatro adolescentes olham confusos.
— Já viram desenhos da Disney?
Os quatro concordam.
— Tinker Bell, uma fada verde. Selvagem e artreira, geniosa. A fada azul de Pinóquio... matrona... diz o que é certo e o que é errado... — Ele enumera. Mas sua voz parecia sombria. a maquiagem escorria um pouco sobre a testa. — Mas a fada violeta... Ela toma as coisas que ela gosta. E se deleita assistindo você perdê-las ...
Um silêncio entre o palhaço e a novata se instalou. Até que Marcus colocou a mão no ombro de Silas.
— Leonel concordou. — Ele fala enfim. — É isso? Nós três?
— Quatro! — Margaret observa. — A Bia vai querer assistir. Tem problema?
Silas se levanta com um sorriso enigmático.
— Vamos para o picadeiro!

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