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24 de março de 2015

Pre RC 2.0 – Nefal, a Desgraça de Falena.



Símbolo: folha azul; cor azul.

Plano Natal: Meliny

Tendência: caótico e mau

Portfólio: Natureza selvagem

Adoradores: Druidas malignos, rangers, orcs e goblinóides.

Tendência dos clérigos: Caótica e neutro; neutro e mau.

Domínio: Natureza, destruição.

Arma preferida: Cajado


A questão da natureza no mundo de Meliny, que floria com pulsantes civilizações e influência mágica, sempre foi sensível. E isso afetou mesmo os deuses eternos. Gorak , o destruidor e criador dos monstro e dos desastres sempre foi visto como o principal opositor de Falena e sua corte, mas os servos dos demais deuses, em especial os seres humanos, já levaram a Mãe Natureza a lágrimas por diversas vezes.
A entidade conhecida como Nefal, membro da Corte de Falena, é retratada como uma elfa de face severa, vestindo um manto de folhas azuis. Usava um Mantor domesticado como uma capa, e montava um Urso-coruja como montaria. Inclusive creditavam a ela certas manticoras naturais como o Urso-coruja. Seu principal santuário alegava ser um bosque nas expansíveis fronteiras de Ahoshan, na época dos Reinos Antigos.

Nebuloso se pela necessidade, ganância, por um equívoco legítimo, ou guiados por uma manipuladora mão polemista, as matas do Santuário de Nefal foram maculadas. A orgulhosa deusa de azul e seu secto escolhido rebelaram-se, e uma grande guerra entre os seus druidas e os Ahoshanos começou. A deusa estava com seus druidas de túnicas azuis, mas os deuses da civilização estavam com Ahoshan.

O bosque foi vitalmente afetado á época – não certo se exclusivamente pela ação humana ou se devido à guerra -  e posteriormente foi eliminado dando a luz a mais uma cidade. Nefal, envergonhada e humilhada, fugiu em exílio aos Domínios da mãe Natureza, e seu culto estava dado por encerrado. Mesmo a posterior devastação de Ahoshan nas batalhas com Stygh e na Era da Magia não trouxe alegria a seu coração rancoroso.

Nefal recuperou seu prestígio de forma questionável. Seus últimos agentes sussurravam em círculos druídicos de outras divindades, e mesmo em tribos descontentes de adoradores de Argueza. Falam que mesmo com o próprio Gorak Nefal buscou meios para recuperar seu poder. Dizem que quando um druida está à beira de um dilema, vendo seus domínios ameaçados, A Desgraça de Falena sussurra em seus ouvidos.

O coração de Nefal tornou-se negro e maligno. Seu ódio contra aqueles que desmatam desarmoniosamente era tanto que por muito pouco não a fez desafiar diretamente a própria Falena. A deusa de azul teve seus círculos druídicos banidos na maioria das florestas conhecidas do mundo e mesmo tidos como criminosos a serem caçados, mas sempre há um bosque mais obscuro, uma mata ignorada, ou mesmo um braço verdejante mais afastado das grandes florestas no qual druidas vestem o azul escuro, aterrorizam cidades vizinhas com monstros, e realizam rituais sinistros.

A deusa, apesar da alcunha pejorativa, ainda ama e respeita Falena. Contudo, a considera por demais passiva. Lembra sempre que pode o exemplo de Argueza, que já foi a mais importante das divindades e hoje é relegada a tribos esquecidas. Mesmo o destruidor Gorak e seu secto é tratado com cordialidade, ou pelo menos o respeito devido a antagonistas.

Humanos são a raça mais comum dos seguidores de Nefal. Mesmo ela odiando os filhos de Luminahak, ela diz que "um humano que veste o azul deixa de ser um humano". Goblinóides tendem a serem a segunda mais comum raça de druidas. Elfos são mais raros, por serem melhor disciplinados pela deusa da natureza, mas ainda existem. Rangers goblinóides e mesmo orcs costumam aliar-se a indivíduos ou círculos druídicos de Nefal, pela nobreza de sua causa, ou mesmo por ser um bom motivo para aplicar violência.

Santuários: Um círculo comum de Nefal possui ao menos um druida, aliados rangers, e animais adestrados, preferencialmente Ursos-coruja ou lobos. Nunca animais atrozes. Outros animais são atraídos pelos dons druídicos, mas estes não lutarão até a morte como os aliados normais. Um corpo de rangers aliados aos druidas servem como espiões e batedores quando seus domínios são ameaçados. Com dons de caminhar sem rastros, podem se passar anos sem que as vítimas encontrem a base de operações dos seguidores da Desgraça de Falena.

O Santuário de um círculo de Nefal é em regra uma região dentro do bosque a ser protegido, onde a mata é agigantada magicamente. Druidas podem caminhar com seus dons de movimentos livres, mas demais seres só conseguem seguir a 1,5 metros por rodada (3 metros por rodada, se forem seres de tamanho Enorme). Os rangers usam pontes de galhos em pontos específicos, e os animais adestrados formam redes de túneis, em regra difícil para os seres de porte médio ou maior. Dentro desta mata, clareiras são convertida nas dependências funcionais do círculo. Se atacado, o druida pode atrair os aventureiros para essas clareiras, atacar da mata alta e desaparecer na folhagem repetidas vezes até minar as forças dos inimigos.

Se prestes a ser derrotado, o druida Nefal transforma-se em um animal voador e não hesita em abandonar a batalha, mas certo de que voltaria. Não há desonra ou julgamento em uma derrota.

Gancho de aventuras

  • - É difícil para um grupo de aventureiros descobrir se estão lidando com um monstro errante que aterroriza uma vila ou se é um círculo de devotos de Nefal. Normalmente eles descobrem tarde demais. Nestas circunstâncias, ou eles conseguem diplomaticamente que a cidade aceite ser orientada pelo druida-líder do círculo, ou uma batalha sangrenta contra Ursos-coruja, wolverines, aves de rapinas e armadillos os aguardam, antes mesmo de confrontar os integrantes do círculo.
  • - Eco-terrorismo não está fora da cartilha de um devoto de Nefal. Sabotagens a grandes obras, maldições a povoados, tudo é válido para o bem maior. A morte é parte da vida, e nenhum morador da cidade é um inocente atingido pelo fogo cruzado.
  • - Um devoto de Nefal entre missões pode tomar ciência de devotos dos deuses a quem respeita, como outros druidas, rangers, ou mesmo destruidores de Gorak, e os colocar contra alguma cidade abusiva ou prestes a eclodir. Sua causa, embora sinistra, é nobre, e não raro aventureiros de boa índole são usados pela deusa.
  • - O Druida de Nefal é sempre hostil com aventureiros civilizados, e quaisquer negociações diplomáticas exigem mudar seu estado para ao menos neutro. Elfos e devotos de Argueza ou Falena possuem bônus de circunstâncias ao tentar negociar, enquanto magos e guerreiros que usem machados concedem penalidades, mesmo se não encabeçar os debates.
  • - Apesar do que dizem, um servo de Nefal não é um fanático irracional. Mesmo se sua postura for sempre hostil, não é impossível negociações diplomáticas com um círculo. A presença de druidas normais ou de elfos costumam a conceder bônus na diplomacia, enquanto magos e combatentes que utilizem armas cortantes – mesmo se não encabeçarem as negociações – causam penalidades.

20 de novembro de 2014

Patologias Comportamentais dos jogadores em mesa



Já tratei AQUI de patologias na gênese do personagem. Agora tratarei de doenças e desvios de conduta que surgem nos personagens já com as sessões em andamento.

O Jogador Narrador

 Tipo de esquizofrenia rara em que o personagem acredita ser o Mestre de Jogos. Especialmente se ele possuir qualquer nível de influência sobre personagens diversos (npcs companheiros, familiares, mestres ou protegidos). Mas pode delirar sobre o próprio universo, declarando que existem coisas que não existam.
 Ha algum tempo, um personagem chegou a "0" pontos de vida, e o sistema permitia ao narrador declarar que aquilo era um atordoamento, a exaustão física total ou inconsciência. Em qualquer dos casos, o personagem estava imobilizado e fora de ação. Antes da decisão, o jogador "decidiu" que estava atordoado, que saiu andando cambaleante (e não ficou no chão imóvel, como deveria ser o sentido da regra), entrou zonzo num churrasco numa casa vizinha (nota: Era um cenário medieval), e os convidados acharam que era um de seus colegas bêbados e curtiram com ele, enquanto o destino do mundo era resolvido num duelo do outro lado dos muros.
 Infelizmente, houve muito menos exageros nesta frase do que eu preferiria.

O Jogador incoerente

 Versão menos grave - mas igualmente danosa - da patologia acima, o personagem torna-se uma bomba-relógio. Entenda: EXISTE personagens "Bombas-relógio" por definição... Com benefícios e penalidades decorrentes deste comportamento. O caso em estudo é uma flagrante tentativa de se aproveitar de um e de outro, ou apenas encher o saco do Narrador.
 Passamos ao exemplo: O personagem nasce como Paladino "leal e bom", com alta humanidade, bondade, honra e respeito. Com isso, recebe naturalmente autorização de príncipes e lordes para ter acesso à Corte. Mas uma vez na mesa, ele decide matar indistintamente, agir como um imbecil, descumprir a palavra dada e tudo o mais. Isso quebra as expectativas do pobre Narrador, e extrapola quando, na cidade vizinha o regente alertado do comportamento do espécime em estudo, nega-lhe quaisquer privilégios, e o narrador tem de ouvir: "Mas Mestre... ele é um paladino! Ele deveria ser paparicado como tal!".
 Isso segue para o próximo exemplar:

O Savático da conveniência.

 Nem sempre o Narrador é o melhor conhecedor do sistema na mesa. Eu mesmo conheço brilhantes montadores de ficha que eu só aceito jogar ao seu lado se meu personagem for pelo menos 2 níveis de personagem acima dele.
 Esta não é a questão. O Narrador onipotente pode controlar o nível de ameaça, caso ache que os monstros ou desafios indicados para o nível dos jogadores não esteja bastando.
 O Savático ou Matemático da Conveniência é um profundo estudante das regras de seu personagem, seja a classe, seja a raça, combinações de raças e classes, e até mesmo uma única manobra específica. Ele memoriza com exaustão a regra a ser explorada e extrapolada tal qual um físico teórico estuda um buraco negro, e está sempre pronto para interromper o narrador se sua programação for ameaçada por coisinhas como "Resultado de dados", "conveniência da história", "Ordem do Narrador", E ETC.
 O aspecto "conveniência" da patologia é porque a maioria dos sistemas buscam equilíbrio, e exigem pontos positivos e negativos de igual monta... Mas os défices são "convenientemente" ignorados ou arredondados ao zero quando esquecidos pelo Narrador. Dane-se o pré-requisito, penalidades de acerto ou dano, ou se há limites de uso diário. Se não é uma regra favorável, "eu não sou obrigado a reportar".
 Parta do princípio do equilíbrio se um paciente irromper com um "bônus omitido": Se existir penalidades esquecidas do mestre que são negligenciados pelo jogador, não hesite em dizer "não". Mesmo que o paciente mostre a declaração textual do livro de regras daquele evento específico. É muito provável que uma ação anule outra que ele não teve tanta presteza em demonstrar.

O Narcoléptico

 Também conhecido como "Personagem de corpo presente", este personagem é quase um NPC. O narrador deduz que ele caminha com os companheiros, mas ele fica alheio à explanação, não toma iniciativas, chegando ao cúmulo dos outros jogadores tomarem decisões por ele. "O Ladrão! Ande para a esquerda, aí eu vou poder flanquear o Goblin" e "eu fico no corredor. O ladrão vai destrancar a porta. E quando ele conseguir, eu tomo a dianteira e a gente segue na masmorra".
 Existe uma possibilidade de ser culpa do Narrador (o que se confirma se a situação for endêmica na mesa), mas normalmente é um novato ainda receoso sobre até que ponto pode ir com o personagem, ou alguém que realmente não está envolvido no passatempo, estando lá apenas pelo companheirismo. Ambas as situações louváveis... Mas um estudo direcionado ao desenvolvimento do personagem (e do jogador) é melhor do que meramente empurrar o personagem para onde ele seria mais convenientemente aproveitado.

O #Vidaloka

 Preocupe-se se o seu jogador já chegar com duas ou mais fichas e já adiantar "é para quando meu chars morrer".
 Na mesa de jogos, a mortalidade é um aspecto dramático. Claro, deve ficar restrito à mesa, e naqueles momentos da sessão, mas a princípio todos os participantes devem temer a morte e suas consequências. Mesmo aqueles que são por naturezas prontos ao sacrifício.
 O #Vidaloka (Leia-se: Hast Tag Vida Lô-k) extrapola um pouco no quesito "diversão". Toma atitudes conscientemente imbecis que arriscam a si mesmo - e aos seus companheiros - sem a necessidade. Quase que sempre na intensão de "aparecer" e conseguir rizadas.
 Normalmente um pouco da personalidade "engraçaralho" transcende do personagem ao Jogador, tornando-o um cara de convívio e aos olhos dos outros inofensivo. Logo, muitas vezes o narrador erra e confronta o jogador, tornando-o malquisto na mesa.
 Deve o maestro dos dados estudar muito bem caso-a-caso, verificar se o grupo concorda com sua opinião quanto ao espécime, e agir rápido se achar que a mazela ameaça se espalhar pelo resto do grupo.
 Ou então, jogar TOON ou PARANÓIA.

15 de outubro de 2014

Patologias dos Backgrounds dos jogadores

Se você é um herdeiro, mas também um órfão abandonado na porta de um templo, local ou indivíduo que vai treiná-lo na classe que você decidiu ser, este texto é para você.

 Para o Narrador (o narrador direcionado a incluí-los na história) o Background serve para direcionar o enredo a um paralelo de suas motivações. Para que sua experiência de jogo seja completa, porque há um abismo entre "inocentes morrendo" e "os últimos sobreviventes da sua vila" sendo massacrados pelos capangas do vilão.

9 de julho de 2014

Mestrar é Padecer no Paraíso V - Ao longo da campanha

  • Dia 1 - As fichas de jogos.

Narrador - Usaremos o sistema "Misterious e Detectives". Vocês são personagens envolvidos em mistérios do sobrenatural e têm de se virar com seus talentos. São todos humanos e sem poderes. Liza, você primeiro: qual o Background de seu personagem?

Liza - Ela é uma ex-bruxa expulsa de uma cabala. E fará de tudo para ingressar em uma nova.

Narrador - Bom. Muito bom. Pode ser o personagem com conhecimento oculto desacreditado! O que mais?

Liza - Ela é Filha de Mennon, o deus da Wicca. Em algum momento da campanha eu vou desenvolver poderes.

Narrador - Eh, não. Não é daquelas campanhas com Poderes. Pode reconhecer rituais e desfazer runas... Mas não...

Liza - Mas eu não quero nada demais. Só um poder similar ao de um filho qualquer de Mennon. Tipo, se fosse uma campanha católica, seria mais ou menos o nível de poder do Jesus Cristo.

Narrador - Eu disse sem poderes, e não com poderes extremos.

Timóteo - Vai usar aquela biblioteca Noir que a gente discutia?

Narrador - Sim. Vai ser um dos pontos focais.

Timóteo - Ótimo. Meu personagem foi um cara que salvou ela!

Narrador - Como assim?

Timóteo - Ele estava lá quando a inquisição tentou incendiá-la. Ele disse: "Não, não incendeie". E como ela não incendiou, os elisiares o consideram um herói.

Narrador - Eu pretendo que todos sejam iniciantes, não heróis renomados. E você só tem 13 pontos para distribuir, enquanto os heróis são feitos com 50 ou mais.

Timóteo - Bem, faz o seguinte: Ele cansou da fama e mudou de nome. Mas é um herói, mesmo sem ter talentos de herói experiente.

Narrador - Bem... Verei o que posso fazer. Algo mais?

Timóteo - Sim: Ele tem poderes.

Narrador: ¬¬!

  • Dia 2 - Primeira aventura

Liza - Minha personagem vai atirar sal grosso na Mestra da Cabala quando chegar para o ritual de minha congregação.

Narrador - Pera lá... Isso é uma ofensa imperdoável pelo Livro da Wicca. Sua personagem foi de uma Cabala e sabe que se você fizer isso estará humilhando a sociedade em que você pretende entrar.

Liza - Faz o seguinte: Eu não fiz isso, mas quando ninguém estiver olhando, eu mostro a língua para a Mestra.

Narrador - Certo. Jogando o Carisma e... Sim. Ela não vai interferir no ritual de ingresso, mas você provavelmente ganhou uma inimiga... E ainda nem foi efetivamente aceita.

Timóteo - Enquanto isso, eu vou entrar no círculo e confrontar a Irmã Zhelaide, porque ela planeja assassinar a Mestra da Cabala.

Narrador - O... Como assim?!? Eu... Acabei de introduzir Zhelaide! Como você sabe que ela vai fazer qualquer atentado?

Timóteo - Ué... Tá aí anotado nesse papel pardo.

Narrador - Você quer dizer, minhas anotações particulares que estão atrás do escudo para meus olhos apenas?

Timóteo - Se não quisesse que nós lêssemos, não teria se abaixado para pegar a caneta que eu joguei para distrair você e ler suas anotações.

Liza - Narrador, quero ouvir os pensamentos de Timóteo com meus poderes de filha de Mennon.

Narrador - >ai-ai<

  • Dia 3 - Cena de ação

Narrador - Eis a situação: Vocês viram no chão um círculo de Horus, uma armadilha de congelar, bem na porta de serviços da Biblioteca Noir. o beco de acesso é estreito e sem saída. Não tem volta: é a Biblioteca ou lutar com os Lobsomens.

Liza - Vish! Eu não luto e o Timóteo está nas últimas!

Narrador - Precisam de alguém com conhecimento das runas de cabalas para apagar o círculo de Horus e alguém com acesso biométrico para abrir a porta eletrônica da biblioteca Noir. Se demorarem mais de dois turnos, os lobisomens vão alcançar e estraçalhar vocês. Liza, Timóteo... A escolha é bem óbvia.

Timóteo - Certo... Eu vou trabalhar nas runas, e Liza, assim que eu as apagar, você corre para a porta da biblioteca e a abre.

Narrador - O Que?!? Não! Não! Liza é ex-bruxa e conhece as runas cabalísticas. Timóteo, você tem suas impressões digitais nos arquivos da Biblioteca!

Liza - Mas Timóteo deve evitar expor isso, e eu suspeito de armadilhas da Cabala!

Narrador - Claro que deve suspeitar! O círculo de Horus É a armadilha que por sorte vocês foram informados! Precisa desarmar ele antes de alcançarem a porta!

Timóteo - Já que temos pressa para abrir a porta, Liza vai na frente e abre a porta enquanto eu desfaço o círculo.

Liza - Eu faço isso.

Narrador - O... Okey. Liza ativa a armadilha ao entrar no círculo de Horus, mesmo sabendo que ele estava lá, e fica congelada a poucos centímetros da porta que não saberia como abrir, enquanto Timóteo curva-se atrasado ao círculo de Horus, o qual não faz idéia como desarmar. Claro, os Lobisomens alcançam você e eu vou inventar um motivo para vocês não serem estraçalhados...

  • Dia 4 - A Babá entra em ação.

Narrador - O novo grupo foi composto por Timóteo, o herói que perdeu uma mão, um olho e o pênis no ataque de lobisomens; Liza, a ex-ex-ex-bruxa que acha que é filha de Mennon, com runas malditas cravadas na carne pela vilã Zhelaide; e Houston Van Helsing, NPC, veterano destruidor das trevas que está só acompanhando vocês para diminuir as cagadas que fizeram na última semana na Biblioteca, na Cabala, no tótem que protegia sua cidade do mal arcano e no sanatório do qual precisaram fugir.

Liza - Certo

Timóteo - Okey. Isso resume bem.

Narrador - Aí, descobriram que o gárgula vigia fica no alto da torre do outro lado da rua, mas o tempo urge para que quebrem o círculo de invocações que Zhelaide escreveu no porão da biblioteca antes que ela chegue... Seria razoável em termos narrativos que se separem aqui.

Timóteo - Eu achei aquela passagem secreta para o porão da Biblioteca, e Liza possui conhecimento para desarmar o ritual.

Narrador - E como personagem combativo mais forte, seria lógico que Houston se encarregasse do gárgula, para não descer voando e atrapalhar vocês dois.

Liza - Ainda bem que decidi procurar as vítimas do gárgula. Assim, desvendamos todo o mistério!

Narrador - Quer saber? Eu vou ser sincero. Inclui Houston no grupo para impedir barbaridades como a que vocês fizeram ontem... Mas vocês jogaram de forma perfeita! O NPC não precisou intervir em nada. Dá para ter confiança e deixá-los cuidar da conclusão da saga e recolhê-lo a uma missão menor de eliminar a gárgula. Houston se despede, e deseja boa sorte aos dois.

Timóteo - Só que está ficando tarde. Podemos terminar na próxima sessão?

Narrador - Claro!

  • Dia 5 - Poucos minutos depois de reiniciada a aventura

Narrador - VOCÊS INCENDIARAM A BIBLIOTECA NOIR E INVOCARAM CHTULLU?!? NEM ZHELAIDE QUERIA INVOCAR CHTULLU!

Timóteo - E eu vou intimidar Chtullu com minha fama de herói que impediu o incêndio da Biblioteca Noir!

Narrador - VOCÊ ACABOU DE INCENDIAR A BIBLIOTECA! Ela agora alimenta CHTULLU!

Liza - Não tem problema. Eu vou usar meu poder e invocar Mennon para deter Chtullu.

Narrador - Você NÃO TEM POD... Ahf, tenho de salvar a campanha mesmo! Mennon ouve sua convocação e sente o distúrbio do despertar de Chtullu. Um deus antigo de proporções colossais rivalizando com o monstro que invocaram está à sua disposição para combater o Horror inominável.

Liza - AH! AGORA ele aparece?!? Desgraçado me deixou ser sequestrada por lobisomens e amaldiçoada pela Zhelaide?!? EU TE REJEITO, MENNON! NÂO SOU SUA FILHA PORRA NENHUMA!

Narrador - ... O-key. O-key. Eh, não vejo outro rumo de ação... Mennon regressa ao supra-mundo. Chtullu destruiu vocês e sua cidade em dois turnos e até o fim do dia, o mundo estará mergulhado em horror, loucura e escuridão. Fim da campanha.

  • Dia 6 - Nova campanha

Narrador - Vocês são super-heróis no espaço! Alienígenas com todo e qualquer super-poder que quiser.

Timóteo - Eu sou um cavaleiro medieval do passado da terra.

Liza - Eu sou uma dona de casa. Não posso sair de casa porque tenho um bebê ainda amamentando.

Narrador. - Okey. Bem, a campanha... Coisas ... Acontecem no espaço. Vocês não ficam sabendo. Fim.

19 de março de 2014

Mestrar é Padecer no Paraíso IV

Padecer na Net

 [Narrador] Vocês são convocados pelo General Adams para formar uma equipe de resposta emergencial, porque são famosos por suas habilidades. Estão todos reunidos na Sala de Guerra, Uma sala com quatro cantos revestida de armas, equipamentos, e uma mesa de reunião no centro. Vocês aguardam o Brieffing da missão. Interajam.

 [Lt. Sunders] Meu Sniper sinistrão fica no canto, só observando os outros convocados.

 [Sg. Montanha] Meu Boina Verde grandalhão caminha até um canto, e fica encarando os demais.

 [Cabo Spitfire] O ranger texano faz barulho enquanto anda para uma das paredes da sala, Recosta nela, e fica pensativo.

 [Cpt. Spitfire] O veterano Capitão ruivo olha ao redor, vê seu irmão mais novo, e os outros que não conhece, e busca mais um canto e fica em silêncio, transbordando sabedoria dos veteranos.

 [Ag. Cahuters] Meu agente da CIA arruma o terno, olha ao redor discretamente e caminha para um canto solitário, dividindo-se dos demais.

 [Narrador] Okey... Não me deram nada para trabalhar aqui, mas segue. A cena... Cada um em um canto... Supomos que é uma sala com cinco cantos a partir de agora. Todos em silêncio por cerca de quinze minutos, quando o General Adams, um militar de altíssima patente entra na sala.

 [Lt. Sunders] Fico encarando o General

 [Sg. Montanha] Eu observo o general

 [Cabo Spitfire] Eu aguardo o general falar comigo

 [Cpt. Spitfire] Eu encaro meu jovem irmão encarar o General

 [Ag. Cahuters] Eu saco um cigarro e começo a fumar.

 [Narrador] Eh, pessoal, vamos entrar um pouco no personagem. Oficiais de alta patente devem ser recebidos com uma continência!

 [Lt. Sunders] Eu aceno levemente com a mão.

 [Sg. Montanha] Eu maneio a Cabeça.

 [Cabo Spitfire] Eu faço uma continência, depois faço "arminha" com os dedos e sorrio para o general.

 [Cpt. Spitfire] Sou um oficial também. Vocês deviam ter batido Continência para mim também!

 [Ag. Cahuters] Eu sou da CIA. Não ligo para essas coisas.

 [Narrador] O general releva a total falta de ... Bem, qualquer coisa. Ele começa a explanação:
- às 18-00 Horas, um satélite espião caiu em território inimigo, e temos razões para crer que uma célula terrorista o apreendeu. Precisamos de um grupo de resposta urgente para recuperar o aparelho e eliminar quaisquer hostis que possam ter conseguido alguma de suas informações vitais. Perguntas?

 [Lt. Sunders] Meu sniper diz: "Só uma: Quando partimos?”

 [Sg. Montanha] Ei! Eu ia dizer isso!

 [Cabo Spitfire] "Só uma: Quando Partimos?”

 [Cabo Spitfire] Putz. Esquece. Ele postou primeiro!

 [Cpt. Spitfire] Eu concordo que só precisamos partir.

 [Ag. Cahuters] "Só precisamos saber quando partimos.”

 [Narrador] - Sério? Não querem saber em que território inimigo caiu o satélite? Nem que informações ele tinha? Qual o efetivo inimigo e a resistência que poderão enfrentar? Alvos civis?

 [Lt. Sunders] Okey... "Que informações o Satélite tinha?”

 [Narrador] - Isso é Confidencial, tenente. - respondeu o General.

 [Sg. Montanha] Viu? Para que perguntar coisas se não vão responder?

 [Cabo Spitfire] Eu fico com o "quando Partimos".

 [Cpt. Spitfire] Foi o Tenente Sunders quem falou, na verdade.

 [Ag. Cahuters] Para mim, chega de papo e mais ação.

 [Narrador] Vocês nem sabem se foi no Deserto, ou na Sibéria! Todos estão com uniforme de frio? Sério, pessoal. "Confidencial" dá uma informação... Que é uma missão importante acima do seu nível de segurança! Era para deixar intrigados!

 [Lt. Sunders] Imagino que o General Vai nos dar todas essas informações. Eu sou inferior hierárquico, então, só posso obedecer. Por isso, fico calado e aguardo.

 [Sg. Montanha] Eu também.

 [Cabo Spitfire] Eu também.

 [Cpt. Spitfire] Eu também.

 [Ag. Cahuters] Cahuters não é Militar. É da CIA. Não é subalterno do general... Mas fico calado e aguardo.

 [Narrador] O General Adams observa o quanto o grupo é calmo. Acredita que eles possuíam as habilidades necessárias para a missão, e este é o motivo de tanta confiança. Deixa uma pasta negra na mesa e diz: "O Avião parte em uma hora. Equipem-se da melhor forma". E aí? O que vocês vão fazer pela próxima hora?

 [Lt. Sunders] - O Tenente Sunders vai adquirir munição para sua "matadora-de-passarinho".

 [Sg. Montanha] - Meu Boina Verde está sempre preparado. Vou pegar munição para meu fuzil, e uma cartucheira extra.

 [Cabo Spitfire] - Vou pegar munição para minha Desert Eagle.

 [Cpt. Spitfire] - Minha Magnun 44 e uma arcáica porém confiável Tommy-gun são recarregadas.

 [Ag. Cahuters] - Eu verifico as balas na minha pistola camuflada na canela, e da minha arma pessoal.

 [Narrador] Só isso? Vocês não gastam mais do que, sei lá, cinco minutos com munição. Tem uns aos outros para conhecer, planos para elaborar... Outras coisas para comprar! A Pasta do general está em cima da mesa!

 [Lt. Sunders] Eu vou pegar... Corda. Vai que precisa escalar algo, não é?

 [Sg. Montanha] Boa! Eu pego uns quinze metros de corda também!

 [Cabo Spitfire] ranger do Texas podem transformar cordas em redes com facilidade. Vou pegar corda também.

 [Cpt. Spitfire] Eu fiz muitas armadilhas para Vietcongues em meus tempos de mocidade. Vou pegar corda.

 [Ag. Cahuters] Ah, já que todo mundo pegou, me dá corda também!

 [Narrador] Okey, todos têm armas, corda e munição. Falta meia hora para o avião partir para o ponto misterioso onde vocês devem resgatar um satélite e matar todo mundo. Ou vão para o avião conversar com o piloto sobre a rota, ou conversam entre vocês, ou Abrem a porra da pasta do general e descobrem mais sobre a missão!

 [Lt. Sunders] Meu Sniper sinistrão fica no canto, concentrando. Precisa ser frio e preciso para cumprir a missão!

 [Sg. Montanha] Meu Boina Verde grandalhão é fodão demais para falar com o resto da galera. Fica num canto aguardando a hora de agir.

 [Cabo Spitfire] O ranger texano saca uma gaita, e sopra uma única e singular nota, mostrando que ele é que é o fodão da sala!

 [Cpt. Spitfire] O velho Capitão ri e recosta no seu lado da sala, sabendo que aqueles garotos precisariam comer muito angú ainda para ter a fodacidade dele.

 [Ag. Cahuters] Meu agente da CIA saca outro cigarro. Ironiza consigo mesmo como aquele bando estava vinculado ás forças armadas enquanto ele era tão fodão que faria o que quisesse.

 [Narrador] Certo. Passam-se meia hora, e vocês todos, em silêncio, ficam... "se achando"... Literalmente. Finalmente toca o sinal e todos partem para o transporte: Um bombardeiro de modelo desconhecido por vocês, com carcaça antirradar. Ficam um olhando para o outro, vendo por uma portinhola o piloto e o copiloto. Não querem falar nada com eles?

 [Lt. Sunders] Entro sinistrão e vou para uma cadeira lá no fundo.

 [Sg. Montanha] Meu Boina Verde fica perto da porta, pois não teme a ação!

 [Cabo Spitfire] Meu ranger Texano esbarra no Boina Verde, mostrando que ele tem de aprender seu lugar.

 [Cpt. Spitfire] O capitão aguarda todos entrarem, e só então, como o oficial mais graduado, vai dar autorização para a missão começar.

 [Ag. Cahuters] Eu vou tomar o tempo de terminar meu cigarro, e vou sentar perto do Sniper, de preferência vendo o piloto e copiloto.

 [Narrador] O grupo de vocês, carregando armas e corda, voa por aproximadamente quatro horas. Sem bussola, vocês não sabem em que direção. Não há janelas no jato. Enfim, pelo comunicador interno o piloto diz: "Zona verde em cinco segundos! Todos de pé!”

 [Lt. Sunders] Meu sniper está sereno e frio como um atirador de elite tem de ser. Levanta-se e engatilha seu rifle.

 [Sg. Montanha] Meu Boina Verde coloca uma faca entre os dentes e um fuzil nas mãos. Está pronto para tudo.

 [Cabo Spitfire] Meu Ranger certifica-se de que pegou a corda, olha com confiança para seu irmão e sorri. Pois com ele na companhia, iriam sobreviver a qualquer ambiente inóspito.

 [Cpt. Spitfire] O velho capitão posiciona-se de prontidão. Mas sabe que aquele bando de "dente de leite" precisaria de missões como aquelas para se tornar homens de armas completos.

 [Ag. Cahuters] Eh, ele disse "Zona Verde"? E a gente está num avião... Isso não é Jargão de paraquedistas?

 [Narrador] Exato. Dado cinco segundos, portinholas do chão de cargas se abrem, e todos caem de cinco mil metros. Se tivessem estudado a missão iriam aproveitar aquela hora que tiveram conseguindo paraquedas. A fabulosa equipe de resposta emergencial morre ao esbarrar no chão. Grande jogo, gênios!

7 de fevereiro de 2014

Os 12 trabalhos de Hércules e o RPG.

Certa vez eu fiz uma piada com um paralelo de Hércules e uma campanha... Isso me levou a traçar estas linhas (bem, digitar estas teclas...).

 Hércules é provavelmente o primeiro "super-herói" do mundo. Apesar de seus feitos serem em grande parte solitários, seguem uma estrutura excelente para guiar o narrador na elaboração de uma campanha, abaixo, explicado:

- o pano de fundo.

Temos o que o narrador cobra além da ficha. A origem e explicação dos talentos do personagem-jogador (Hércules, Filho do onipotente Zeus e de uma mortal Alciméia) e algum conflito que possa guiar a ação do mestre (Ciúmes da deusa Hera, que desde o berço tenta matar o pimpolho).

Mas ainda é a primeira aventura. Não vamos estrear logo com Hera. Em seu lugar surge rei Euristeu, seu maior inimigo (protegido de Hera, que delegou o serviço de importunar o forçudo grego). O invejoso e perverso regente de Micenas não poupou esforços para que nosso herói perecesse sob sua tutela...

Em "O Herói de Mil Faces", a "sombra" - o personagem que é o desafio do herói - não é necessariamente um vilão. Pode ser só um treinador árduo que exige que o protagonista seja merecedor. Mas vamos ficar com o clássico vilão.

Os Doze trabalhos são uma penitência auto-imposta por Hércules para se redimir de pecados. Esta é apenas uma boa base para o motivo. Sentar numa taverna e ser seduzido pela promessa de ouro e poder funciona, mas é tão melhor ter um motivo maior que ele mesmo, não?

- O Primeiro Desafio - Leão da Neméia

 No Peloponeso, Existia uma besta que não podia ser ferida. Então, Hércules postou-se contra esse monstro assassino, e o destruiu pela mera força de sua herança divina. Como prêmio, arrancou a pele indestrutível do leão e usou como manta.

 A primeiríssima história elevada a níveis épicos é uma mera "mate aquele monstro ali". Poderia ser uma tribo de goblins, ou uns anarquistas ingressando os bairros afastados do domínio de seu príncipe. Clássica primeira aventura. O jogador deve estar se familiarizando com suas ferramentas mais básicas - a força.
 Outra característica é o prêmio. O aventureiro iniciante está "no esboço". Sempre é bom um prêmio para mantê-lo vivo sessões o suficiente para ganhar moral nos próximos desafios

- Hidra de Lerna

 Para mim, o maior dos oponentes da primeira quadra (ver adiante). Não só um dragão de nove cabeças como um dragão de nove cabeças imortal!

 Mesmo sendo o mais forte dos homens, Hércules não poderia impor sua força ao monstro. Precisaria descobrir qual a Cabeça verdadeira da monstruosidade para definitivamente matá-la... Mas como?

 Com a coragem de seu sobrinho Iolau: à medida que o herói cortava fora uma cabeça da besta, Iolau usava uma tocha para cauterizar o corte, prevenindo que a fera recuperasse sua força total, e eventualmente, os aventureiros triunfaram!

 Para balancear a simplista aventura do leão da Medéia, o narrador deve forçar os heróis a "pensarem fora da caixa". Uma solução criativa deve valer mais que a mera destruição... Senão, por mais talentosos que os heróis sejam, eles não superarão os desafios finais.

- A Corsa de Cerineia

Hércules deveria caçar uma corça com pés de bronze, o animal mais rápido do mundo. Esta sagrada besta de Artêmis não poderia ser ferida (basta Hera como deusa furiosa no teu pé, amigo...) e jamais se cansava. Vago a forma usada por Hércules para superá-la. O mais comumente aceito foi que após um ano, ele conseguiu utilizar uma rede.

 O maldito do contratante mandou os heróis para uma missão impossível... Exceto com o uso de um artefato: Uma rede apropriada para a missão, que pode ser uma sessão própria consegui-la. Típico uso de "sidequests". Até mesmo uma noção de tempo gasto maior que o da maioria das missões (embora imagine o tormento de um ano de jogo numa única caça...).
 Uma missão menor para cumprir o objetivo maior, posteriormente todo o preparativo da caçada. Como narrador, eu adoraria que os aventureiros usassem a pele do Leão da Neméia e uma noção de trabalho em equipe aprendido contra a Hidra para superar a velocidade da Corça. Mas com nove trabalhos ainda, aplicações mais complexas dos feitos ainda podem ser esperados.

- O Javali de Erimanto

 "Toda semana mato um monstro e ganho algo com isso" pode ficar repetitivo. O Javali foi expulso a BERROS de sua toca, de tão fácil e rotineira essa fórmula está se tornando. Mas na lenda, há uma mudança significativa. Não só o personagem já está confortável com seu personagem e prêmios, como quando Hércules retorna com a besta tão assustadora que faz Eristeu apavorado se esconder numa ânfora, o povo clama pelo herói, desmoralizando o regente.

 É uma primeira vitória moral, a qual começa a ter consequências. O rei de Micenas muda de foco, e os jogadores devem perceber isso nos episódios seguintes...

- Os currais do rei Aúgias

 Três mil bois e que há trinta anos não eram limpos. O fedor e a doença espalhava-se pelos domínios do rei Aúgias. Mas o infeliz do Euristeu mandou logo o Leão da Grécia, o semideus Hércules, para fazer tão degradante trabalho?
 Sente-se um pouco de politicagem nesta etapa. O sucesso era uma incógnita, mas ainda que conseguisse, seria uma humilhação. O rei de Micenas estava jogando com seu poder contra o adversário que fracassou em destruir.
 E eis que mais uma vez Hércules pensa fora da caixa. Com a força do Olimpo, o herói desvia o curso de um rio (rio Mênio ou o Alfeu)! E com a corrente de água, os estábulos e os bois foram limpos mais rapidamente, e mais epicamente do que os envolvidos aguardavam.
 Pelo feito, Aúgias pagou o campeão. Um prêmio pelo feito que provavelmente pegou o narrador desprevenido...

- Trabalhos 5 a 10

Vou dar uma resumida agora. Nos primeiros quatro trabalhos, Hércules era um instrumento de destruição de monstros. Do quinto em diante, ele é uma força política, cuidando da pestilência dos currais, punindo Diomedes por criar cavalos carnívoros (um momento IBAMA do Hércules), dando um "quem-manda-aqui-sou-eu" nas Amazonas de Hipólita, Conquistando um troféu de poder (o Touro de Creta... o PAI DO MINOTAURO!) etc.

 O aventureiro chega a certo nível de sua vida que, mesmo para o desgosto do vilão, é uma força política a ser reconhecida... E usada. Graças a Hércules, Micenas reafirmou-se perante hostis e perante seu povo.

... Mas o fim da penitência de Hércules estava para acabar...

- Os dois últimos.

 Existem fontes que dizem que originalmente eram dez (um número até mais cabalístico) os trabalhos, Hera declarou que dois dos trabalhos não valeram: A Hidra, porque Hércules obteve ajuda; e os estábulos... Porque rei Aúgias o pagou. Logo, Hércules precisaria cumprir duas últimas missões para o seu desagrado.
 Este recurso é perigoso. Os jogadores podem achar que o Narrador está inventando (e talvez até esteja). Se ele for esperto, vai usar quaisquer revoltas dos jogadores a seu favor... Direcionando isso à deusa advogada-de-regras ao invés do amado mestre.

 Mas há outro motivo para estes dois trabalhos serem destacados dos demais: Hércules vai ao céu e ao Inferno.

 Chega um momento que fica claro que o "mundo mortal" não traz desafios sóbrios dignos á experiência que seu grupo galgou... Então, deve ocorrer uma "apoteose". Seus feitos devem ser grandiosos. Embeleze. Exagere. Coloque-os ao lado de figuras das lendas ao invés de qualquer coisa do Livro dos Monstros.

 Eu participei recentemente de uma longa campanha e o que mais me frustrava era que parecia que nada do que eu fazia afetava o estático mundo que o mestre usava. Os NPCs "Oficiais" eram completamente alheios a nossos esforços, e variavam com o humor do nosso volúvel narrador. Hercules vai querer recolher Cérberus e desafiar o intelecto de Átlas pela maçã dourada. Do que adianta espantar monstros com berros se você não consegue o louro.

 Muitos confundem isso com dificuldade. Fazem troça dos "níveis iniciais". Como se a diferença entre o Leão da Neméia e os Bois de Gerião fosse mera dificuldade de monstro. Trata-se de ritmo de história.

 Concluo que os antigos podem ainda nos ensinar uma ou outra coisinha sobre coisas que eles nem imaginariam. Joseph Campbell defende sempre a ideia do "Monomito", de que muitas histórias seguem o mesmo padrão por refletir a natureza humana, esta universal em qualquer cultura do globo. O Narrador guia seus argonautas buscando alcançar uma sincronia de divertimento, o ritmo e as noções, mesmo "manjadas", podem ser o instrumento para tanto.

23 de janeiro de 2014

Réquiem a Eugene Ironshield

Conto clássico de 2008. Achei por acidente!




Finalmente paramos. Com a precisão de um relógio, há exatas quatro horas desde que começamos a marcha. Enfim pudemos buscar a sombra dos carvalhos ao nos afastar da estrada. Eu odeio a maldita floresta úmida.

Fungo um pouco do muco que acumulava em meu nariz e garganta. Prefiro engolir a cuspir na frente de meus dois companheiros sobreviventes. Com certeza estava gripando.

O corpo mole e enjoado, e a garganta travada, quase um suplício para engolir a ração seca... A Maldita ração seca. Com gosto de papiro, mas que parecia não incomodar meus colegas... Especialmente o Druida, que seria o mais habilitado para nos conseguir carne fresca ou frutas. Contentava-se com a ração.

O Monge e sua saúde de ferro eu entendo ignorar as intempérie e o cansaço. Era lendária a predisposição desses combatentes simplórios nos círculos em que me sagrei guerreiro. Mas o Halfling Druida era igualmente alheio a tudo o que não fosse o combate e a contratação.

E os malditos cães? Ele usava um como montaria e outro menor como “familiar”. Não sei distinguir os milagres naturais de magia arcana, mas realmente o livro que ele vez por outra folheia antes de conjurar suas energias me lembra mais os magos que os servos da Natureza. Como será que aquele exótico halfling conciliou dois mundos tão distantes?

Os cães continuam a latir. Rosnam um para o outro como se fosse uma disputa de ferocidade pouco mais contida. O Halfling e o monge pareciam ignorar. Talvez meu estado levemente febril deixou-me irritadiço. Ou talvez seja o luto por São Michael.

Eu gostava do meio-elfo, embora igualmente não conhecesse bem. Ele era sempre animado para nossas tarefas mais rotineiras. Ele era devoto do deus do Saber, mas jamais se mostrou tão formalista quanto os demais... Às vezes falava empolado diante de lideranças locais, mas só. Ele poderia desfazer minha doença agora se estivesse aqui. Esse pensamento me martiriza por tão elevado grau de egoísmo, mas nada como a divisão de seus bens pelos meus colegas. Eu não deveria reclamar... Estou com sua armadura por insistência do resto do grupo, mas penso em honrar sua busca enquanto o metal luminoso pesar em meus ombros.

- Há algumas semanas o senhor conjurou alguns pégasos para deixarmos o vale de Sangue, lorde Tarzã. – falei ao Druida. – Somos apenas em três agora. Seria uma boa dianteira se pudéssemos contar com tal auxílio agora.

- Ta brincando? – fala ele com uma entoação suspeita. – Gastar uma magia tão alta agora no comecinho?

- Tarzã... – ri o Monge, em um raro lampejo de falta de disciplina dele. Sim, estranhava a sonoridade do nome de nosso acompanhante, mas não a ponto de achar graça.

- Alto. – fala Tarzã. – Alguém vem lá... Guerreiro, prepare sua arma e tome a dianteira.

- Sou Eugene Ironshield, milorde. – falo. – Sangramos juntos por quatro vezes nesse último mês. Tenha a liberdade de...

Não termino minha frase. Realmente as capacidades de ouvir daquele pequeno guardião da selva eram impressionantes, pois passo a ouvir também. Mas estranho a falta de prontidão do grupo... Eu suo a ponto de embaçar a visão. Sempre temo por minha vida ao abraçar um combate. Era a maldita sina daqueles que viajam em busca de aventura.

Ouço um bambolim. Quem em sã consciência andaria por uma floresta repleta de gnols e kobolds fazendo tanto barulho? Insistentemente os meus colegas não demonstravam preocupação com o intruso... Pelo contrário, Tarzã parecia mais calmo do que quando ele percebeu sua chegada.

Enfim nosso visitante surge. Era um elfo verde de vestes práticas, exceto pelo belo bambolim e pelo sabre em sua cintura. Ele dedilhava o instrumento e ostentava um sorriso confiante. Quem era aquele louco para estar nessa zona da floresta?

- Saudações, viajante! – inicia o Monge Shao-lin. – O que fazes nesta passagem.

Lá estava de novo, os estranhos surtos de formalidades dos meus companheiros.

- Eu sou um menestrel em busca de minha musa, e viajo de lá para cá, enfrentando perigos e escrevendo sobre o mundo que testemunho.

Eu não sou do tipo letrado, mas a construção da frase daquele suposto artista era-me estranha. Especialmente porque não via nenhum volume de monta na pequena mochila que o bardo trazia consigo. Mas aparentemente o elfo havia conquistado a confiança do resto do grupo.

- Está bastante longe da civilização, amigo. – atrevo-me. – é uma estrada um tanto dura para quem anda em grupo. Nós mesmo perdemos um dos nossos esta manhã, e éramos em quatro.

- O Guerreiro está certo. – fala Shao-lin, como se igual a Tarzã não lembrasse meu nome. Mas também já vi ele se referindo a Tarzã por Rafael, e ao falecido Michael por “beiçola” durante arranjos de combate.

- Por isso, andará conosco agora. – fala Tarzã, igualmente com empostação na voz. Eu estava horrorizado, pois não tinha como sabermos a real intenção do estranho.

- Poderia dizer a sua graça, meu senhor? – falo enfim.

- Eh... Jackson. – retruca ele com desconfortável hesitação. “Jackson” sem dúvida não era um nome élfico. E outra vez os meus companheiros riem... Shao-lin chega a sussurrar... “Michael... Jackson”.

O jovem sentou-se confortavelmente na nossa clareira, e foi trocando alguns itens com o Tarzã. Estranhamente todos eles pareciam novos, e ele falava como se conhecesse de cor o que Tarzã trazia consigo.

- Guano! Estava mesmo precisando! – comemora o Druida. E eu penso porque um bardo viajaria com Guano entre seus pertences.

- Bem, ainda temos muito chão. – fala Shao-lin. – Já podemos continuar.
- É. – fala Jackson. – Vamos capar o gato, pessoal.

“Capar o Gato”?!?

- Michael?!? É você? – exclamo.

“Capar o Gato” era uma expressão absurda que só tinha ouvido da boca de nosso companheiro Michael. E agora eu percebo a intimidade dele para com os outros dois. Os trejeitos. Tudo o mais.

- Não... Michael não sou eu. Ele morreu esta manhã na emboscada dos gnols, lembra? – fala Jackson.

- Como você sabe, já que não esteve conosco?

- Eh... Temos um contrato. – fala Tarzã tentando desconversar. – Temos de ir...

- Vocês sabiam, não é? – falo entusiasmado. – Quando foi que o trouxeram de volta? E porque ele se disfarça de Bardo? Alias, ele se tornou um elfo puro agora?

- ai-ai roleplay... – sussurra Shao-lin.

- Senhor, eu não sou o Michael. Sou um personagem diferente.

- Dá para irmos logo? Tenho que alimentar as cachorras!

- “Cachorras”? – estranho - Sua matilha era de machos até a pouco, senhor Tarzã? O que está acontecendo aqui? Deveria ser uma alegria o retorno de Sir Michael Eu exijo saber o que está acontecendo!



     Em outro plano de existência, um som silibante de uma lata de coca-cola ressoa despertando a tensão criada por mim e meus companheiros. Beiçola toma um gole enquanto Rafael puxa o D-20.

- Eu vou fazer um teste de diplomacia para o guerreiro se acalmar e seguir conosco. – fala ele.

- Certo. – fala o narrador. – O que Tarzã vai argumentar?

- Tarzã... – ri Henrique, jogador do Monge Shao-lin. – Mas depois disso, vá dar comida para suas cachorras que latindo assim tá incomodando.

- Elas já comeram. – fala Rafael. – Ô Marcelo, não dá para só jogar os dados não? Guerreiro tem Vontade fraca.

- Vejam bem... Ironshield desenvolveu uma afeição pelo clérigo de Beiçola. Se ele continuar agindo como o São Michael, ele vai perceber. Agora ele é o Bardo Jackson, terá que se portar como tal, ou Ironshield vai surtar.

- Quer saber? – fala Beiçola. – Ce colocou o guerreiro para aquela aventura que o Rafael faltou... ‘tamos todo mundo junto, não precisamos mais de NPC.

- Ta demorando para chegar no maldito templo. Eu tenho aula amanhã!

- Okey... O que pretendem fazer com Ironshield?

- Não dá para só esquecer não? – fala Henrique. – Diz que ele voltou para chorar o corpo do Michael ou coisa assim.

Talvez pelo entusiasmo de Mestre Marcelo pelo desfecho da campanha, talvez por sua impaciência de lidar com os demais jogadores desse drama fantástico, eu deixei de existir. Ninguém lembrará que estive ao lado deles quando kobolds seqüestraram a filha do Burgomestre. Minha presteza de proteger Tarzã do zumbi no cemitério de Hamerfield será esquecida. A espada e escudo que estiveram com minha família a gerações serão apagadas da história, assim como meus feitos, os feitos de meu pai, de meu avô. Minha cidade inteira.

Tudo por eu ser incompreendido. Humano, mais humanos que a “criação” dos ditos “personagens de verdade”.

Há justiça nisso?

10 de junho de 2013

Os PJs: Mesa de Jogos




Mesa de Jogos

Tholen e Hellen refizeram o grupo, como pretendiam. Maior do que imaginavam, uma vez que além de Nobunaga, dezenove soldados da Guarda Vermelha acompanhariam o Hatamoto enquanto estivessem em terras estrangeiras. O anão do Forte das Armas não estava muito contente com aquilo. Fora Nobunaga, havia grande grau de – em suas palavras – incapacidade de manter-se vivo em briga de macho por parte dos vermelhinhos todos. Mesmo o tenente Akashi.

Alias... Tholen só tinha a “fama” do samurai e o fato de reconhecer que ele era veloz e rápido. Não chegou a assistir uma luta sua... Sequer ver o “daichô dos Quatro Ventos”, suas armas-assinatura.

Gen Nobunaga era um samurai perfeito. Em sua fachada, tratava aquela missão autoimposta como um encargo. Algo que o destino, coisa importante para os wenhajins espiritualizados, tinha colocado em seu caminho. Mas em seu ânimo, sua alma de guerreiro e sua ambição de espadachim fervilhavam. Chegara bem cedo ao topo da hierarquia dos homens de armas. Acreditava que somente os servos pessoais dos shoguns e os seus iguais hatamotos poderiam sequer fazer frente a ele em armas. Mas os primeiros eram intocáveis, invioláveis, por seu status.

Os segundos... Salvaram sua esposa e filho. Jamais poderia tornar a erguer lâminas contra o menor deles.

Midori era o extremo nesses sentidos. Refém político, ainda esperava que uma vez alertados de sua situação, seu pai e seus compatriotas tomassem uma atitude. Mas deixaram a capital insular da Doravânia rápido demais. No continente, não havia preparativos para rastrear Nobunaga. E a rota por terra daria considerável dianteira aos viajantes... Se é que seu pai fosse descumprir os termos da trégua honrada de Nobunaga.

- O senhor vai adorar Tréville, Nobunaga-sama. - falava Hellen, animada, forçando cada vez mais as barreiras de status, testando e moldando as formalidades do Hatamoto. - Eles têm muito em comum com os Wenhajins. A população inteira é voltada para a arte da lâmina...

- População inteira?!? - exclama surpreso. - A espada é um privilégio em minhas terras. Como o país inteiro não se esquarteja em guerras civis?

- Porque os Trevilenses são frouxos como um povo. - resmunga Tholen.

A feiticeira sorri.

- Tholen... Indique um povo, fora seus queridos compatrícios, que não seriam... “Frouxos como um todo”.

O anão se cala um segundo, olhando pensativo.

- Dol'oam não é vassala da coroa de Lyon, os austeros cavaleiros do oeste?

- São sim... - rosna Tholen. - E daí?

Hellen volta-se a Nobunaga.

- Não baseie suas impressões nas opiniões de Tholen, meu senhor. - fala ela. - Grandes heróis de Meliny são nativos de Tréville. Saint Paul DeLuca... Mosseur Bleur... Cap. Hardman...

- As grandes cidades de Tréville estão fora de nosso itinerário. - observa Nobunaga. - Contornar o monte Janar foi uma garantia de rumamos para o oeste do lado certo do rio sem depender de travessias. Não creio que encontraremos grandes nomes da espada no norte.

- Mesmo se for uma fração menor... Não seria uma nova visão? Uma arte não-familiar?

O hatamoto sorri. A possibilidade o animava.

- Anão! - eleva a voz o wenhajin. - Uma boa resposta à pergunta que lhe fizeram: kara dansei Wen-ha.

- Ah, não pergunte o que não quer ouvir, ô do vestidinho verde... - resmunga Tholen. - Eu ainda estou pensando!

(…)

Era o fim do primeiro dia de viagem. O grupo seguia uma trilha na montanha que os forçavam a seguir em linha. Carroças de mantimentos eram guiadas por mulas robustas adquiridas ainda em Habênia. A maior parte dos suprimentos eram sacas de arroz, cogumelos e vegetais desidratados. No percurso, Tholen soube que “o glorioso” samurai não comia carne e por isso não traziam nos mantimentos. E protestou muito...

Já passava da hora de conseguirem um abrigo, mas a estrada estreita não era o ideal para erguer um acampamento. Seguiam em busca de uma reintrância ou de cavernas, mas aquele trecho antigo era pouco utilizado. Com as Doravânias em guerra, os destinos finais eram arriscados, assim, o comércio buscou as rotas marítimas, alcançando Habênia. Era verão, então a luz do dia perdurava um pouco mais. Mas o frio daquelas altitudes começava a se fazer sentir. Tholen quem primeiro percebeu, primeiro uma trilha desgastada, na rocha, subindo a montanha. Depois um longo platô, de rocha branca com bordas arredondadas. Protuberâncias solitárias e quase cilíndricas eram percebidas nos dois extremos da formação.

(...)

- Que mesa estranha... - observa o anão.

- “Mesa”? Estranha Hellen.

- É como nosso povo chama essa formação. - adianta o anão. O Flagelo não era versado no trato social, mas seu povo era consideravelmente culto ao se tratar de aço e rocha, desde avaliação e trabalho nestes materiais a identificar as formações rochosas. - Pequeno para um platô, grande demais para uma rocha solta. Era uma bela peça em sua formação... As chuvas e os ventos lavaram bem, bordas desta rocha...

- É isso que acha … “Estranho”? - pergunta Nobunaga. Não estava interessado, mas sentia-se obrigado a saber de todas as possíveis peculiaridades da viagem, e identificar pontos de referência.

- Bem, é estranho porque isso aí não é uma formação natural!

Hellen olha de um extremo ao outro.

  • Parece natural para mim. É a mesma rocha do resto da montanha onde não está sedimentado... Mesmo período de tempo...
- Para olhos bem treinados, não. - fala Tholen, destacando-se do grupo. - A erosão indica que tem mais de milênio largado aí, exposto ao tempo... Ficando igual à rocha nua natural. Mas vai por mim... Essa mesa não foi feita por Falena ou Gorak!

- De qualquer forma... - fala Nobunaga. - É o melhor ponto de acampamento que vemos em horas. Vamos para lá.

(…)

A teoria de Tholen mostrou-se correta ao subir na formação. Quanto mais longe da borda, mais fácil eram reparar sulcos regulares horizontais e verticais formando quadrados de 1,5 metros de raio, impossíveis de terem sido naturais. Os mais grossos demarcavam o meio da mesa no sentido maior. Ela revelou-se ter 63x42 metros. Os cilindros – dois ao todo, em cantos de extremos diagonalmente opostos – elevavam-se a 3 metros e tinham diâmetro de 3 metros. Era possível ficar de pé e mover-se regularmente por eles, mas precisava escalar em sulcos desgastados pelo tempo. Um fosso circundava parcialmente a formação retangular, parandodo lado da encosta da montanha, por onde pareceria um platô.

- Eu já vi algo assim antes... - observa o Hatamoto. - Na cidade de Shora. É uma arena de magos de batalha. Mas em Shora, é menos largo, mais longínquo. As “torres de artilharia” são mais altas, e há um fosso com água no centro, com uma ponte ligando os dois campos. E costumam usar magia para tornar parte dos dois campos armadilhas de terreno.

- Este deve ser mais rústico então. - fala Hellen. - Opiniões, Tholen?

- Esta bagaça foi restaurada pelo menos uma vez antes de ser abandonada... - fala o anão. - Sabe... Leva perto de mil anos para desgastar rocha tão regular como essa... Então, não só 'sa porra é quase tão velha quanto a montanha como foi bem usada no intervalo de sua criação e seu abandono perto de mil anos atrás. Quanto tempo tem seu reino, hein, Wenjaca?

- A gloriosa terra das Cerejeiras tem mais de três mil anos de história. - resmunga revoltado Akashi. - Nossa era atual encontra-se no ano 977. Contada de quando os Deuses nos separaram do maligno e belicoso continente! Mas já éramos um reino de honra antes, e sempre fomos uma província respeitosa ao Grande Stygh quando parte do império dracocrata!

- Se não me engano... - recorda Hellen. - Os Shorians são uma família antiga, dessa época, não é?

- Exato. - concorda o Hatamoto. - Mais antigos que muitos dos shogunatos inclusive.

- E se essa “Arena de duelos” foi uma evolução de um jogo dos dragões? Podemos estar em cima da arena original. Dragões de outrora teriam poder mais do que suficiente para moldar algo como isso.

- Você nunca viu um dragão, né, garota? - brinca o anão. - Isto não foi feito para eles... Mas para humanóides. Aqueles lagartos sádicos deveriam sentar nesses fossos, deixar os escravos se digladiarem, ou então ficariam cuspindo fogo e raio nos desgraçados.

- O que importa... É que não tem lagartos por aqui. - fala Nobunaga, inibindo sua coriosidade arqueológica. - Vamos acampar e com mais luz do dia, investigamos ou partimos.

(…)

- O que é isto?!?

Midori nem imaginou como Hellen aproximou-se dele sem ser percebida, mas mal ouviu, sentiu as tarjas serem tiradas de sua mão.

- Ei! - protestou. - D-devolva!

Esquecendo sua condição de prisioneiro, salta da carroça de suprimentos que servia como “cela” no encalço da saltitante feiticeira. Os soldados ao seu redor só o viram quando já estava longe. Midori preservava as amarras, e Hellen, mais alta, esticava o braço deixando as anotações além do alcance do jovem.

- Soldados! - urra Akashi, interpretando um ataque do prisioneiro. Três da Guarda Vermelha projetam-se na direção do shinobi, que se dá por rendido. Hellen afasta-se e trata de folear as quatro tarjas em papel de seda.

- O que foi agora? - protesta Tholen, levantando-se tão rápido como seu desajeitado corpo permitia. Era o único, fora os guardas do turno de vigília, ainda de armadura. Costumava a dormir com a proteção.

- O prisioneiro pegou papéis explosivos enquanto os carcereiros estavam dormindo em serviço! - repreendia Akashi, com o olhar acusador levando vergonha aos que deveriam vigiar Midori.

- Minhas r-runas pre-precisam de mama-mais que ca-carvão e seda... - fala desafiador o jovem. - Isso aí é pe-pessoal!

- Creio que ele tem razão... - responde a feiticeira. - Tholen, este aqui é seu... Este é meu... E olha, Nobunaga-sama! Ele fez um para você também!

Tholen toma “o seu”. Nobunaga estava ignorando a comoção até Hellen acenar com um dos papéis, e passou a caminhar na direção do grupo.

- Okey... Desenho de uma casinha num pentágono... - olha de sobressalto o anão. - E letrinhas de Wenha.

- No canto direito, é o seu nome... Bem, fonemas. - ensina Hellen. - E nas arestas do “pentágono”, está escrito... - ela força a memória, procurando termos para traduzir. - Sagacidade, Chi, estamina, Ninj... Ninja, combate …

- Ninjutsu. Taijutsu. -Enumera Midori. - Chi. Estamina. Sagacidade.

- O desenho é um gráfico matemático. Ele está enumerando nossos talentos. - observa Hellen torcendo o nariz. - Olha só quanto Chi ele me deu... Mas eu creio que sou mais Sagaz que isso aqui...

Nobunaga toma a sua e analisa por alto. Depois, dá uma olhada na de Tholen

- Você diz que o anão é melhor do que eu?!? - fala ofendido.

- s-s-Só em Estamina. - defende Midori. - você o su-supera em Ninjutsu... A-a-aagililidade e furtivi-vi-dade. E t-também em Ta-Taijutsu, a arte do cococo-combate.

- Ei! - protesta Tholen. - Tá certo que eu não sou gracioso... Mas eu parto ao meio qualquer um aqui se precisar.

- Não comece algo que não possa terminar, anão... - fala Nobunaga com descaso.

- Certo, senhores da testosterona... - Hellen interrompe e toma os papéis. Sabia para onde a conversa iria se Tholen tomasse para o pessoal a alfinetada de Nobunaga. - Parece que nosso pequeno espião está tendo sucesso em jogar com nossa vaidade. E este papel aqui sem nome? É do Akashi?

Midori não responde.

- Está claro que ele pretendia informar algum grupo de resgate contra o que estariam lidando... - fala Tholen, tomando os papéis de Hellen para si.

- Duvido. - fala Nobunaga. - Ainda estou certo que ele honrará sua palavra. A fuga seria a destruição de sua aldeia.

- Neste caso... - observa Hellen. - Por que as amarras então? Está óbvio que ele circula por nossas coisas independente delas.

Nobunaga encara o shinobi e depois Akashi. Ponderava as palavras.

- Ela tem razão. - decide enfim. - Quero dois guardas com o garoto o tempo inteiro. Mas tire as cordas.

- T-tem certeza que n-n-não poposso fificar com elas?

Midori mostra as mãos desamarradas. As cordas enroladas em um laço para resguardo. Akashi roça os dentes.

- Três guardas, é melhor. - corrige Nobunaga, deixando o local, e entregando sua “ficha” a Tholen. - Deixem-no ir à fogueira.

Akashi indicava os que ficariam. Hellen e Tholen percebem-se sozinhos com o jovem.

- Eu vi que haviam muitas rasuras na minha ficha... - fala a feiticeira com um sorriso. - Sou tão difícil de ler assim?

- É... É que n-n-nem sei que ti-tipo de Youkai é vo-vo-você...

A resposta do gago deixou a dupla desguarnecida. Quando Hellen enfim capturou Midori no Saveiro, Nobunaga e seus servos assumiram que a manifestação das asas era uma mera transmutação arcana. Mas Midori não só esteve mais tempo e mais perto de Hellen como era um shinobi versado em ilusões. Ele poderia não saber onde estava se enveredando, mas não se iludia tão facilmente.

- Entendo o que diz... - ela fala enfim. E remove uma tiara de seus cabelos. Quando destaca-se deles, a tiara vira uma “quipá”. - Conhece isto? É um Chapéu dos Disfarces. Não sou muito boa em ilusões, e mesmo se fosse, com um destes, posso fazer sutis alterações e até mesmo me disfarçar.

- E-eu conheço o e-e-encantamento “hengê”. - fala Midori. - E d-d-daí?

Hellen sorri. Depois joga o disfarce para Tholen.

- Se esta não fosse minha forma, se fosse uma ilusão, eu deveria retornar sem ele, não é?

- F-f-faz sentido... - Midori não era ingênuo, mas estava tratando de outro nível. Não só Hellen era convincente com as palavras como uma propensão sobrenatural minava a pouca resistência que seu alvo poderia erguer a seus argumentos.

- Sinta... - completa ela. - Esta é a minha mão... E esta é minha pele... - A feiticeira segura a mão do jovem shinobi. Sente-a fria e suada, em contraste com sua mão quente e pulsante. E lentamente aproxima-a de seu rosto, sem tirar o contato visual. A alva face wenhajin ganhava tonalidades róseas e vermelhas de embaraço. Mas enfim, ele é salvo pelo anão.

- Mocinha, venha cá... - fala o anão abruptamente, pegando Hellen pelo ombro e arrastando-a para longe de Midori. - Questão de Ordem.

(…)

A linha do centro foi escolhida como local para a fogueira. A vegetação nos arredores não era propícia a lenha, sendo apenas algumas plantas rasteiras e arbustos secos. Peças sobressalentes de uma da carroça forneceu o lenho necessário. Nobunaga encontrava-se em posição de Lotus diante da fogueira. Akashi usava um braseiro para colher carvão da fogueira. A maioria da guarda vermelha preparava-se para dormir nos arredores da fonte de luz, deixando seis de guarda nas bordas da Mesa, e mais três alimentando e vigiando Midori.

Mal eles percebiam movimentações no fosso e na encosta. Uma emboscada particularmente traiçoeira estava sendo orquestrada.

(…)

- O que foi aquilo?

- O que você acha? - protesta Hellen, esfregando o ombro que Tholen agarrou rudemente para afastá-la do resto do grupo. Estavam junto de uma das pedras cilíndricas, a que aproximava-se do penhasco. Avistavam um sentinela armado com arco longo, e por isso controlavam a voz.

- Estava hipnotizando o garoto? - interroga o anão.

- Não. Estava convencendo que eu não sou uma impostora.

- Ou seja... Estava Mentindo!

- O que quer dizer? Midori é mais esperto que Nobunaga e os seus homens. Ele já estava desconfiado!

- E daí?

- Tholen... - olha assustada a feiticeira. - Você … Quer que eu seja desmascarada?!?

- Claro que quero! - resmunga o anão. - Entendo que precisa ganhar confiança antes de se mostrar... Foi assim comigo, com Gunther e Nindrille... Mas se tirar a ideia do garoto e depois ele vier a descobrir... Você nunca mais terá a confiança dele!

- Está confiando que ele não vai fugir, morrer, ou nos entregar aos seus superiores, Tholen. - fala com um peso de malícia e crueldade em sua voz a feiticeira.

- Bem, ele não quer isso. - rosna o anão. - ele está vivendo um sonho aqui fora, conosco!

- Como é que você sabe?

Tholen tira as tarjas de dados que confiscou do jovem. Ergue uma que não tinha nome.

- Esta aqui... Tem as informações DELE! - fala o anão. - E fez em papel de seda porque ele fica translúcido contra a luz.

Rudemente, ele estende as tarjas à moça. Hellen recebe-os. Percebe alinhados como cartas de baralho. Estimulada pelo anão, ela analisa as quatro peças contra a luz da fogueira no centro da Mesa.

As sombras do carvão dessas tarjas atravessam a seda. E as arestas dos dados dos quatro constantes deles formam uma figura geométrica quase perfeita.

(…)

- Sé-sério que n-n-não tem carne? - protesta Midori.

- Carne é impura e indigna do Glorioso. - responde um dos guardas, de nome Dai Ni. - A Guarda Vermelha segue sua dieta.

- O Hahatamoto não está s-s-sempre com vo-vo-vocês... - observa Midori. - E-e-então vo-vocês po-po-podem co-comer c-c-carne qu-quando n-n-não p-prestando a-a-armas a Nobunaga-sama?

- Não importa. - retruca ele.

- S-se não p-por mim, p-pense nos g-gaijins. - insiste Midori. - Eu v-v-vi um la-la-lagarto no c-cilindro... la-lagartos não s-são saborosos, mas é me-me-melhor que a-aroz e cocogumelo seco.

Midori aponta com o rosto um dos extremos, a pedra quase rente ao vão da Mesa. Dai Ni aguça o olhar e percebe o rabo da criatura e seu volume escondendo-se. Deveria ser um animal selvagem. Talvez trinta centímetros de corpo e o dobro disso com a cauda. Se não servisse como alimento, ao menos deveria ser afastado como praga.

O guarda pega um Boken – espada de madeira envernizada - e avisa aos colegas para ficarem com o prisioneiro. Ele aproxima-se pela extremidade oposta à da sua presa. Estava sem armadura e era disciplinado. Esgueirava-se com competência na direção da caça

Despretensiosamente, Midori projeta sua “jóia do espírito” da testa na direção do caçador. Ia por um flanco tido por protegido. Ele só o alcança pouco antes do guarda, já avistando a silhueta do alvo, fazer mira com o Boken. Midori queria vislumbrar o ataque... Mas o que ele vê o choca...

- N-n- … - a gagueira trava seu alerta. - VOLTE! - urra enfim Midori.

Simultaneamente, Dai Ni golpeia o lagarto que mirava. Era azul, e seu golpe o surpreendeu. Ele tem a coluna partida e cai morto no piso de pedra.

Os doze que o seguiam, todos maiores que o primeiro, não aceitam o ato com passividade.

As criaturas saltam contra o guarda. Abocanham com fúria seu agressor. Mas seguindo o ataque, alguns dos que permaneceram sopram relâmpagos, completando o ataque. E com essa, começa uma infestação de lagartos relâmpagos por toda a Mesa.

(…)

Nobunaga é desperto de sua meditação com o alerta. Tholen e Hellen percebem o mar de criaturas escamosas emergindo das sombras do fosso. Haviam vitimado o primeiro dos guardas, e atacavam os sentinelas prontos. Mas a maioria renuía-se nas imediações.

A princípio parecia que as criaturas haviam encurralado o grupo tomando os acessos da mesa, mas felizmente Tholen possuía o dom racial da visão na escuridão. Puxou o sentinela com arco que os acompanhava antes que ele fosse vitimado por um dos lagartos que saltava do topo da rocha cilíndrica. Uma vez no chão, frustrado seu ataque, a criatura vira-se para Hellen, a mais próxima, e sopra um relâmpago certeiro. A energia elétrica corre pelo corpo da feiticeira e com arcos voltáquios riscam o chão.

Mas Hellen não se abala. Com um movimento, ela saca a espada que trazia consigo – a “Senhora do Fogo” - e com um comando, labaredas surgem de sua lâmina negra com runas. E com uma estocada, trespassa o lagarto azul fatalmente.

Mas com a nova fonte de luz, Hellen e o guarda avistavam o que Tholen estava vendo há algum tempo. Os lagartos escalavam na aresta do penhasco da Mesa, e tomavam a torrete. Quando saltassem para a Mesa, fechariam o círculo sobre o grupo.

Tholen pensa rápido, e dá um pisão.

O pisão sísmico de sua bota normalmente estende-se por alguns poucos metros com a onda de choque. Mas com os miúdos adversários na encosta, e empilhados na pedra cilíndrica, o efeito é maximizado. Absolutamente todas as criaturas são projetadas para trás. Os que não morreram com o baque sísmico estavam agora em queda, da qual ou morreriam ou sairiam de combate.

- Wenjaca! - urra Tholen, apressado. - Suba aí, que agora é seguro, e tome o terreno alto! Atire em tudo o que se mover e não for aliado!

O guarda não fala, mas acena positivamente com a cabeça.

- Cê tá bem? - pergunta enfim o anão a Hellen.

- Foi só eletricidade. - confirma ela. - Menos que uma briza.

- Bem, evite os dentes deles então... E ajude como puder.

O anão ruma para o centro da batalha.

(…)

Havia um único lagarto destacado do mar de atacantes. Solitário, ele entrou na direção da fogueira. Akashi agarra um toco de madeira incandescente e atiça na criatura, eliminando-a. Mas seu ato reflexo o fez não sacar suas armas imediatamente... Agora, improvisava contra sete dessas criaturas.

Nobunaga, ao contrário, já havia se armado. Enquanto o tenente cogitava qual a melhor alternativa para o combate, o vulto verde-escuro tomava-lhe a dianteira. Ele estava descalço e sem armadura, mas com um katar impecável, fez um jogo de pernas provocando os lagartos a atacar-lhe com mordidas e sopros de raios, mas nenhum atingia o Hatamoto.

Quando confiante que estava cercado, com o máximo das criaturas a seu alcance, O daicho deixou a baínha. O Ninten, arte com as duas lâminas, era poderosa contra aquele tipo de adversário. No saque de Iaijutsu, duas cabeças voaram. Com uma correção de trajetória, as lâminas regressam conservando a energia, vitimando mais dois e ferindo um terceiro. Este, certo que havia resistido, foi novamente atingido pela arma de apoio, agora encontrando seu fim, e com o encerramento do katar, uma estocada com a projeção do corpo. Duas lâminas encantadas, mais do que suficiente para acabar com os últimos dos animais agressores.

Akashi permanecia segurando a lasca de madeira, imóvel e espantado. Só a largou quando uma chama lambeu seu dedo.

(…)

Quando tomaram ciência da quantidade de inimigos que enfrentavam, a Guarda Vermelha recuou ordenadamente a um círculo protetor sobre Nobunaga. O mar de adversários movia-se pela borda, agora sendo contra-atacado por armas de distância. Particularmente, o soldado deixado na torrete por Tholen. Com posição elevada, podia cobrir seus companheiros sem risco de atingir ninguém com fogo amigo.

Intimidados, os lagartos passavam a soprar relâmpagos. Os ataques individuais feriam, mas não eram mortais, exceto se concentrados em um mesmo alvo. E a carga era limitada. Até aquele momento da batalha, nenhum deles havia cuspido mais de uma vez seus relâmpagos.

As criaturas escalavam, mas não com grande perfeição. Assim, a escada de acesso rente à segunda torrete era a maior concentração daquelas criaturas. Tholen rumou como um touro naquele local. Usava o escudo-torre, agora como uma pá de neve, levando os lagartos que encontrava pelo caminho borda abaixo. A queda no fosso não era uma alternativa definitiva como foi com os que escalaram o penhasco, mas formar um perímetro na entrada era vital.

- Não deixem esses desgraçados me cercarem! - urrou o anão, imediatamente antes de um trovão: um novo pisão sísmico debandar grande número daquelas criaturas.

Na linha de frente, o anão se assombrou quando uma sombra surgiu. Mas depois reconheceu Midori. Ele acocorava sobre os ombros do anão, com kunais com tarjas de runas. Atingiam alguns lagartos, e explodiam colhendo mais dois ou três no ataque.

- Ei! Sai de cima! - protesta o guerreiro. - E onde foi que pegou essas coisas?!?

- L-l-lagartos! - falava Midori nervoso.

- Tá certo... - resmunga, enquanto abanava o martelo na nova linha de atacantes que inutilmente tentavam passar por ele. - Qualquer ajuda é valida! Pode pegar seus lagartos também...

- N...Não! - protesta Midori, mas com o nervosismo, não conseguia se comunicar direito. - E-e-esses s-s-são os pe-pe-pequenos! Eu v-v-vi mamai-maior...

“Maiores” era a palavra. Depois, o grupo iria deduzir que os lagartos relâmpagos temiam humanos, e caçavam solitariamente. Aquele bando era tangido.

Os Trogloditas azuis eram raros em Meliny. Bestiais que se apossaram do Monte Janar, caçados pelas caravanas quando as colônias humanas chegaram, voltaram a prosperar com o fim da rota para Doravânia. Os poucos que transitavam por aquelas paragens acabavam não dando notícias de seu infortúnio.

Tholen não estava esperando um lagarto de quase dois metros emergindo do meio dos pequenos lagartos relâmpago. É atingido no ouvido por uma clava de pedra e atordoado. Mas permanece em sua posição. O troglodita em um ato contínuo envolve o anão em seus poderosos membros, incluindo a cauda, e passava a uma manobra de supressão. O anão resiste a ir ao chão, mas cedia à força da criatura metro a metro.

Subitamente, o abraço fatal encerra. Tholen vê que a criatura parecia hipnotizada, com os braços estirados, e movia-se como se quisesse sair de alguma amarra invisível. Deduz que era uma ilusão assassina de Midori quando o jovem salta sobre o lagarto, e sai impune da confrontação. Tem tempo para uma estocada arterial com a kunai, e uma segunda. A criatura sente duramente o ataque, cambaleia para trás. Midori salta de volta ao topo da cabeça de Tholen, grudando no torrete. Nem imaginava o anão que tipo de imagem mental desguarneceu o inimigo de tal forma.

- Golpe baixo, pivete... - rosna Tholen. - Eu gosto disso.

(…)

Hellen martiriza-se por ter se livrado do Chapéu dos Disfarces quando começou a falar com Tholen. Sem ele, precisava usar sua forma verdadeira para poder voar e contornar a Mesa. Felizmente, com a noite, estava oculta da vista dos seus aliados. O único que poderia enxergá-la seria Tholen, mas este já conhecia seu segredo.

A presença dos trogloditas foi uma surpresa para ela. Mas ao perceber o primeiro, era um que subiu por um lado diferente do guarnecido por Tholen. Ele investiu contra Nobunaga, mas o Hatamoto estava ciente dele, e apto ao combate. Hellen, das sombras, poderia assistir à luta.

O lagarto era imenso e poderoso. A pouca inteligência que tinha não bastava para domar a selvageria, e em uma carga furiosa, ele lança-se contra o espadachim. E então, cessa.

O daichô, ambas as lâminas, apontadas para o lagarto, e a postura de combate do samurai pareciam tirar a fera de sua sede de sangue original. Teria sido intimidada? Não... Criaturas como aquelas não hesitam em atacar. Talvez fugissem se feridas, mas ela era a agressora origial.

A mera presença do poderoso mestre das armas wenhajin soprava a fúria agressiva do selvagem como se fosse uma vela. Geen Nobunaga não triunfara em tantos torneios somente pela força e pelas armas: O vazio que ele projetava avassalava adversários menos que dignos.

Então, uma chuva de lâminas no catar do “ataque que nunca acaba”. O inimigo estava arruinado, tombado ao chão.

Hellen sorri. O Glorioso Dragão era um combatente impressionante. Sua fama era merecida. Deixar as fronteiras isolacionistas de Wen-ha só trará à tona isso. Guiando-o e aos demais, conseguiria o intento de sua mestra em pouquíssimo tempo...

… Mas ainda precisariam sobreviver àquela noite.

Com Tholen na barreira de acesso e Nobunaga atacando os adversários que contornavam ou subiam de formas diferentes na Mesa, bastaria verificar a quantidade de inimigos restante. E o Vão das laterais era a maior trincheira para as criaturas esconderem-se. A feiticeira pousa em uma curva, saca a espada em chamas, reverte à forma humana e aproxima-se. A luz era insuficiente, então mesmo arriscando ser descoberta, ela aproxima a espada incandescente.

O que percebe é que o restante dos lagartos amontoavam nas escadas. Pouco mais de uma dúzia. Eles eram açoitados contra Tholen, que não tinha dificuldade nenhuma em esmagá-los, auxiliado por Midori. Com certeza o anão já havia percebido que estava prestes a triunfar... E também que quem açoitava os lagartos eram dois trogloditas azuis restantes.

Um deles, mais afastado, percebe a feiticeira. Urra a seu colega em seu idioma bestial, alertando-o, mas parte ele mesmo. Avançava curvado tanto que corria. Hellen posiciona-se com ambas as mãos no cabo da “Senhora do Fogo”, descaçada ao lado de seu corpo... Mas não era esse o ataque.

Confiante, o Troglodita estica-se em uma postura ereta. Salivava entre seus dentes, com o peito estufado de macho alfa. A bela fêmea indefesa o olhava com uma expressão vazia. A criatura já imaginava que tomara o grande prêmio. Que a fêmea serviria como chocadeira para sua cria, para acasalar, e como troféu perante o resto do grupo, e todo o mais.

O que a criatura não compreendia era o efeito de três habilidades sobrenaturais simultâneas. A capacidade de vencer a barreira de idiomas tornava a comunicação mais genuína. A telepatia carregava as palavras inaudíveis até a mente do alvo. E o poder sobrenatural de sugestão, tornava um pensamento crível, e escravizara o troglodita aos desejos de Helle'nae, enquanto as sugestões fossem razoáveis.

O segundo troglodita se aproximava. A feiticeira não poderia manter dois presos ao mesmo tempo... Mas não precisava. Bastava mandar um único pensamento para o seu escravo atual:

“Meu companheiro vai me roubar a fêmea”.

A possessão e a testosterona fazem o resto. O lagarto parte correndo com o máximo de velocidade e fúria que pode contra o rival. O companheiro troglodita observa surpreso quando seu aliado o agride com a clava e com fúria. Uma vez provando seu próprio sangue, a criatura entra em fúria e responde ao agressor de forma igual, e assim os lagartos azuis começam uma batalha até a morte. Mesmo o primeiro esquece o motivo da luta, só sabia que deveria matar seu inimigo.

Hellen guarda a espada e aguarda o desfecho.

(...)

Com o número minguado de lagartos, Tholen recua abruptamente. As criaturinhas no ânimo da luta, ignorando que seus feitores haviam deserdados, partem para o terreno amplo, onde estavam cercados pela Guarda Vermelha. Um círculo de morte guiado por Akashi forma-se, e os últimos dos monstros começam a ser esfolados.

Tholen olha com satisfação. Dai Ni foi vitimado no primeiro ataque, mas mais nenhum foi ferido mais seriamente. O anão, na linha de frente, tomou o golpe surpresa do troglodita, mas todos os demais foram ou superficiais ou sequer passaram por sua defesa sólida. Midori estava a seu lado, via-se com o talentoso anão. Graças ao desnecessariamente grande escudo que carregava, conseguia boa cobertura para prestar auxílio sem se expor muito.

Nobunaga estava ligeiramente mais afastado. Ele parecia igualmente incólume. Olhava severo para os corpos espalhados na “mesa”, a grande maioria dos lagartos relâmpagos e o único troglodita a alcançar o platô elevado, exterminados por sua técnica. Era um triunfo anunciado...

… Mas ainda não garantido.

Um urro de horror. E um tremor. O arqueiro que Tholen havia deixado no torrete não imaginava olhar nos olhos de tal inimigo. Um titã de outrora, escalou sem dificuldade o precipício, com seus quase quatro metros. Não era troglodita, mas um gigante com traços dracônicos. Com poder para escravizar trogloditas e lagartos-relâmpagos, e mais inteligência para usá-los em emboscadas, para cansar os oponentes, antes de colher os restos.

Nobunaga estava na linha de frente do novo adversário, temerário. Leva as armas às respectivas baínhas e concentra seu Iaijutsu. Não era tolo. Sabia que aberrações tão grandes exigiam ataques poderosos, e não cirúrgicos como fez com todos até então. Midori, contudo, percebia algo... Reconhecia que o inimigo era ainda mais do que trasparecia. Mas em seu espanto, sequer gaguejar conseguia. Corria com o máximo de sua velocidade para alcançar Nobunaga.

Temia que, se batesse de frente com o gigante, o hatamoto seria destruído.

O gigante movia-se com peso, diferente dos lagartos. Nobunaga apenas aguardava entrar em seu alcance e ter mais um glorioso duelo. Ouvia os passos apressados de Midori detrás de si, e sente quando seu kimono é agarrado, e começava a ser puchado.

Era tarde demais.

O lagarto começa a estralar a língua. Cada vez mais rápido. Seu avanço cessa antes mesmo de entrar no que o samurai considerava área ameaçada. Cada estalo, mais e mais relâmpagos se acumulavam. A criatura tinha uma arma de sopro. Um destrutivo cone de raios, liberados com fúria.

(…)

Hellen percebeu o clarão e o som trovejar sobre a fenda, mas estava ocupada.

O duelo entre os dois trogloditas havia se encerrado. O primeiro triunfou. Talvez por ser mesmo superior, talvez por ter dado um primeiro ataque no inimigo surpreso. O fato é que pagou em sangue a vitória. Perdeu metade da garra esquerda. Sangrava rios de cortes ao longo do tórax e crânio. Perdera os dentes do lado direito. Talvez ficasse cego do olho direito. Ao menos a cauda arrancada ele sabia que cresceria de volta.

Mas sob a influência que tinha, achou que valeu a pena.

Caminhou triunfante, curvado para trás, com o peito estufado para a fêmea. A cabeça balançava com seu andar falho projetando uma cômica sensação de arrogãncia. Hellen olhou para seu “senhor”, o enorme lagarto de mais de dois metros, que enfim estica sua garra boa para tomar seu prêmio.

Helle'nae toma a garra com suas próprias mãos.

E pronto.

O lagarto não entendia o que acontecia. O braço inteiro começou a formigar. Logo depois, as pernas perdiam forças, e o vitorioso estava de joelhos diante da fêmea. O olhar dela era uma perversão do que havia visto antes... Uma luminescência rubra como brasa, cara enrugada em um esforço sobrenatural e sádico. Com um toque, ela drenava as energias restantes do troglodita. Se saudável, talvez a criatura pudesse conseguir tempo, afastar-se, livrar-se do toque da morte... Mas não. Respirar torna-se uma penúria. O sangue para de verter das chagas com a diminuição e eventual ausência de pressão arterial.

Helle'nae Mooredriff não tinha uma refeição tão boa há meses. A liberdade de agir sem a supervisão de Tholen era magnífica. Estasiante. Libertadora.

(…)

- Nobunaga-sama... Nobunaga-sama...

Foi tudo rápido demais. Aquele pequeno shinobi conjurou forças que nem imaginava ter para tentar tirar do cone de morte o samurai. Agora estavam caídos no chão. De relance, Midori percebeu uma proteção onde pode aplicar seu reflexo numa evasão desesperada com o hatamoto a tiracolo. Depois, veio a cegueira.

Com os olhos recuperados, os dois wenhajins percebem qual foi a salvadora cobertura que se apossaram... O escudo-torre de Tholen Hammertower, projetado para longe de seu corpo, a cobrir os dois.

A pele do anão parecia uma casca de queimadura velha. Barbas e bigodes tinham princípio de chamas, e os olhos do guerreiro estavam cerrados. Seu corpo pendia por cima do cabo do martelo, tal qual uma muleta. Para proteger os companheiros, o anão recebeu uma descarga que mataria um homem saudável...

… Descarga que o baixou para pelo menos um terço de sua vitalidade.

Parecia um morto regressando à vida quando os olhos de Tholen abriram de novo. Ele virou-se na direção do gigante. A pele cauterizada nas juntas rasgava com esses movimentos. O escudo-torre é enfim abandonado, caindo ruidosamente no chão. Ele só atrasava o anão.Era feito para proteger os outros, não a si mesmo.

Nobunaga não acreditava que ainda existia fulgor de luta no guerreiro. Lembrava Tsé Hida Fuji, seu companheiro hatamoto, em termos de vigor e desprendimento. Por um longo momento, era Tholen contra o Gigante. A criatura estalava a boca. Queria recuperar sua arma de sopro, mas demoraria ainda. Com isso, abre a guarda para o anão arremessar o Flagelo, seu martelo de gelo. Certeiro no focinho, a criatura híbrida cambaleia sangrando. E perplexo, percebe que a arma retornava em uma elipse à mão do anão.

O gigante não estava impressionado com o ataque, embora dolorosa combinação do impacto e do encantamento congelante. Mas com uma distância segura adquirida, Tholen saca seu escudo de ferro, bate os dois pés no chão, e urra em um clamor furioso, um desafio lançado. Entrava na postura de Dol'oan, dos anões defensores.

- T... taijutsu! - olhava admirado Midori, reconhecendo fibras e energias sobrenaturais na posição do anão. Ele recebia forças extraordinárias quando em posição defensiva, e guardara para o derradeiro combate.

O gigante pega velocidade, aceitando o desafio. Ergue a clava e choca com um arco baixo no anão, um quarto do seu tamanho, um décimo de seu peso. Tholen não vacilou. A clava encontrou uma barreira que não venceria. Vara ineficazmente para trás.

O anão pisa no chão uma última vez. A última carga de seu pisão sísmico. O gigante desequilibra-se, e cai de joelhos no chão diante de seu inimigo natural. Tholen passa a castigá-lo com o martelo, agora alcançando a face do oponente. O colosso tenta levantar-se, mas só para ser atingido mais uma vez pelo pequeno titã.

Refeito do assombro, Nobunaga levanta-se. Transcreve um arco com uma corrida, e agora flanqueava a monstruosidade com Tholen. Todo o poder e vigor do gigante meio-dragão era minado por um lado pela velocidade e precisão de um samurai, com golpes velozes. E por outro pelo peso da tradição anã de enfrentar gigantes. Um único instante que o oponente conseguiu voltar a ficar de pé e impor seu tamanho superior foi para no instante seguinte receber um corte definitivo, que míngua sua estamina e tomba de costas ruidosamente, fora de combate.

Midori pensou em auxiliar os guerreiros, mas estava além do assombro. Posicionou para um contra-ataque, mas jamais o monstro esteve perto de ferir qualquer um dos dois. O gigante ainda estava consciente quando percebeu seu destino. Estava de olhos abertos, e via que

Geen Nobunaga preparava um corte limpo de decapitação. Seu último ato de desafio foi encher a boca de cuspe e projeta-lo. O hatamoto escapou do ataque. O anão, não.

- Okey... Chega. -fala o anão, tomando a frente de Nobunaga. - Tentamos do seu jeito... é hora de fazer lambança.

O gigante percebeu o erro que cometeu. Ao invés de uma morte limpa e rápida, teria seu crânio esmagado seguidamente por um anão furioso. Nobunaga podia ser contra a selvageria, mas preferiu adiantar-se a Hellen que chegava, para poupar a dama da brutalidade.

(…)

O sol surgia no horizonte, mas pouco sono aconteceu naquele lugar. Helle'nae brincava da quantidade de cargas de varinhas de cura gastou para restaurar a vitalidade de Tholen, enquanto a guarda vermelha sepultava seus dois colegas caídos. Os corpos dos agressores, mesmo o gigante, jogado à vala do fosso lateral.

- O jogo dos Shorians são de dois times. - explicava Nobunaga a Tholen, enquanto o dia novo revelava os detalhes da construção em que a terrível batalha ocorreu. - Eles lutam com um artilheiro elevado nas torretes e dois combatentes. O melhor time é o que combina, com magia ou com aço, ataque, defesa, e artilharia protetora.

- Hmp... - resmunga Tholen. - Neste caso, quem ganho fomos nós, não foi?

Nobunaga olha admirado o companheiro de luta.

- Mais cedo, eu fiz troça de seu pensamento de que poderia... “quebrar qualquer um”. - fala enfim. - Pelo que vi esta noite... Creio que você poderia … tentar, com certeza.

- Hah... Você ainda não me viu sem ter de carregar cabeças-de-bagres nas costas! - resmunga em tom de desafio o anão.

O hatamoto e o guerreiro caminham lado-a-lado de volta ao acampamento que se desfazia, nos últimos preparativos para seguir viagem.

- Acha que podemos nos chamar... depois dessa, de os “Campeões da Mesa de Jogos”? - pergunta o anão. 

- “Mesa de Jogos”? - estranha o samurai. - Vai provocar confusões...

- Já fui “desbravador”... “flagelo”... - pondera Tholen. - Quero ser “Campeão”. Soa bem.

(...)

Midori estava afastado, com um último dos membros da guarda, passando unguento em queimaduras de raios que ele não alcançava. Hellen aproxima-se, e entrega um volume.

- Seus cartões. - fala ela, revelando o que se tratava. - Tomei a liberdade de corrigir os valores. E eu usei tinta... Melhor que carvão.

Midori observava. A caligrafia da feiticeira era muito melhor que a dele, e muitos dos prejulgamentos dos talentos do anão e da gaijin haviam sido corrigidos.

- Tholen tem uma teoria meio louca... - continua ela. - que ele serve para ser lido sobrepondo uns aos outros. Que o resultado é o conjunto dos valores, e não as forças individuais...

- Hai. Mas ele e-e-está c-c-certo! - Midori balança freneticamente a cabeça concordando. - Nobunaga-sama f-f-foi feito por um s-s-shinobi melhor que eu... P-p-para miminha missão... Mas eu p-p-prometo que n-n-não vou usar essa i-i-informação co-contra vocês.

- Eu sei que posso confiar em você, querido... - Hellen brinca com os cabelos espetados do jovem. - Eu sei que posso...
► Continua