— Okey, sabichões... vocês viram essa chegando? — desafiei.
— [Não!] — Gladys exasperou em minha mente. Parecia genuinamente sincera.
— Beeem... Eu falei que ele era maior que o Khao... — Xitarro insistiu ao meu lado, as orelhas caídas. — O que eles comem nessas montanhas para ficar tão grandes?
O Monsenhor não parou de provocar o Capitão Khao até ele libertar sua fúria. Depois, mandou uma revelação que o "tirou" por completo do estado colérico. Khao estava atordoado... EU estava atordoado!
— O que você pretende ganhar com essas MENTIRAS?!? — urrou Khao. — Um cão imperial de armadura se chamando de bárbaro?
— Oh, insultos típicos de uns vinte anos atrás! — Capri parecia se divertir. — Pedramonte, não? Quem era seu chefe na época? Khor ou Khul? Os dois estão à sua esquerda.
O Capitão virou-se na direção apontada.
Os fantasmas, ao pararem de voar agressivamente pelo pátio, começavam a ficar visíveis o suficiente para que suas feições fossem reconhecíveis. Eu não saberia dizer quem era quem... mas Khao olhava para eles com um assombro genuíno e doloroso.
— Tahak Sangue-Gélido... Zuhl... — Capri ia apontando à medida que Khao olhava e, aparentemente, reconhecia os guardiões do Monsenhor. — Nem preciso apresentar o grandalhão me olhando com cara de nojo. Teth-Ymosso... Rastreei minha genealogia até as Tribos Baixas... Esse aí deveria ser meu chefe.
— Você aprisionou os líderes dos Bárbaros?!? — Khao tentou deduzir, a voz falhando.
— Pelo contrário! Eles me mantêm na rédea curta! — o Monsenhor deu de ombros. — Eu até gosto. Cardullion não era muito de disciplina. Se dependesse dele, eu ainda estaria bebendo e arrumando brigas pelos vales. O homem que chamei de "pai" era um colono da primeira leva, anterior ao Senhor dos Ursos. Ou me roubou, ou me "adotou". Cresci entre crianças "humanas civilizadas" que, sempre que queriam me provocar, me comparavam aos bárbaros. Era o pior dos insultos no meu tempo... No fundo, acho que sempre soube o que eu era, mas não aceitava. Ao prestar armas a Bearlord, converti esse preconceito em força.
— "Oh, que historinha triste!" — rosnou Khao, num misto de deboche e fúria desesperada.
— Eu falei: não me desculpo pelo meu passado, por mais que não me orgulhe dele — Capri deu as costas ao Capitão. — Sou um homem prático. Conserto o que posso. E não posso trazer os mortos de volta... (hoje até posso, mas é um pesadelo logístico).
— Vai me dizer que PALLAS escolheu VOCÊ? — Khao urrava, ofendido até o fundo da alma. — Um assassino?
— Não por meu mérito... ou por minha força... e nem por meu "charme". Era a única opção — o Monsenhor desfez a insinuação com um aceno displicente. — Quando vivo, antes de Cyrak despertá-lo, Cardullion era um animal de sacrifício a Pallas. Trazia consigo as bênçãos que deveriam ser de todas as tribos. Mas quando Cardullion morreu e ascendeu, os bárbaros estavam mortos na guerra ou tinham fugido das montanhas. Eu era tudo o que restava com sangue nativo. Cardullion agiu como uma para-divindade no meu caminho clerical informal, nos meus primeiros atos.
Ele fez uma pausa, o olhar perdendo-se nas memórias da guerra.
— Quando o Império mostrou sua verdadeira face, Pallas já estava enfraquecido pela perda de devotos e foi aprisionado por Cahuthers. Meu grupo e eu só não fomos escravizados porque Cardullion era teimoso demais para ser dominado pelo "trono" da Princesa do Império. Mas o velho carneiro não ia durar muito. Cardullion devolveu a Pallas tudo o que havia resguardado em si... e dessa união, os dois se tornaram um.
Capri apontou para a fachada da catedral e para os seus entalhes em pedra. Realmente, ninguém sabia ao certo que espécie caprina Cartallas deveria ser. Chifres longos e pouco torcidos, porte próximo ao de um alce e uma pelagem única. Volta e meia, cabeças de carneiro ou bode representavam diferentes funções na burocracia da igreja, mas tudo convergia no Deus da Perseverança Encarnada.
Cartallas.
Eu vi lágrimas correrem pelos olhos do Capitão. O punho de pedra tremia... O conflito rasgava a sua mente.
Repentinamente, ele se ergueu e correu com o punho armado para golpear o Monsenhor por trás. Nenhum dos fantasmas interferiu. Mas a fúria, o ímpeto destrutivo original do Capitão... já não estavam mais lá.
Capri percebeu o movimento e reagiu sem pressa. Esquivou no último instante e apanhou o braço de concreto, envolvendo-o com o braço esquerdo enquanto erguia a mão direita.
— Como você falou há pouco? — Capri urrou, tanto pelo esforço de imobilizar a mão de Khao quanto pela concentração misteriosa. Seus olhos ganharam uma forma estranha... sua íris ficou horizontal, como a de um bode. — "... arranco o braço inteiro?"
Parecia apenas um tapa, mas uma oscilação de energia mística e pulsante irradiou do braço do Capitão. Por um instante, pudemos ver o Punho Indestrutível ficar translúcido.
Víamos os ossos por baixo dele. Depois, fibras de tendões e ligamentos. Aos poucos... carne viva.
Não sei se o processo era doloroso, mas certamente era angustiante. Podia-se ver o horror e o esforço transparecerem nas veias do pescoço e da testa do Capitão...
Capri é um cara absurdamente pesado — eu e Xitarro que o digamos, já que o carregamos bêbado pelo povoado todo. Então, quando vi Khao levantá-lo pelo cotovelo acima da cabeça, quebrando sua concentração e girando-o no ar para jogá-lo longe, foi algo assombroso!
Em seguida, o Capitão caiu de joelhos na terra. Segurava o próprio punho petrificado... que retornava ao estado mineral "normal". Ele olhava para a própria mão como se ela estivesse fervendo por dentro. Como se a visse pela primeira vez na vida.
Capri sentou-se no chão com um sorriso enigmático. Passou a lamber a ponta dos dedos.
— Conheço bem esse sabor... — disse o Monsenhor, limpando o lábio. — Culpa. Minha velha amiga.
— O que você estava fazendo?!? — urrou Khao.
— O que você não fez nos últimos dezoito anos — o Monsenhor levantou-se e caminhou calmamente até ele. — O que quer que Lord Blunt tenha feito com sua mão não é mero extrato de medusa... é uma maldição difícil, mas curável. Diga-me: seus chefes da Família Sagrada têm acesso ao próprio Aetíades e, mesmo assim, você nunca tentou curar isso?
— Essa mão é minha arma! — urrou o Capitão, ainda em choque.
— Nenhuma "arma" vale o direito de mover os dedos. Sentir a grama. Tocar um ente querido. Apertar a mão de um companheiro. Essa mão é um lembrete, uma punição, tal qual os chefes tribais que me guardam. É um Artefato, não uma cicatriz — Capri comentou. — Eu disse: eu não sabia quem você foi... mas sabia quem você é! Desde que estabeleci a igreja, busquei pelo mundo os sobreviventes e descendentes das Tribos das Montanhas. Obviamente, soube do grande herói do Levante de Blunt.
— Então por que não veio atrás de mim até hoje? — desafiou o Capitão.
— Há uns três anos... no velório do Arquimago Myrlen, conheci sua amiga Àquela — Capri olhou direto para Khao. — Ela só tinha coisas boas a falar sobre você. Não só suas proezas militares, mas sua fibra. Quem mantinha a Nova Guarda honesta consigo mesma. Mas também, sendo discreta com detalhes particulares, deixou a entender que você guardava uma grande tristeza quando pensava em seu velho lar. Ela sabia que um dia você viria até aqui, até mim. Seria uma grande perda para Shén-Li, e teria de ser uma decisão sua. Preferi não acelerar.Pois Isso é quem você é.
O Monsenhor olhou para mim.
— Alguém a quem pirralhos sem juízo respeitam e de quem aspiram ser dignos.
Khao bufou com raiva, o rosto corando.
— Na estrada, falaram do "Assentamento de Ymosso" — rosnou. — É coisa sua?
— O primeiro de muitos — Capri comentou. — Vai levar tempo. Haverá obstáculos, pessoas tentando impedir. A vida nas montanhas sempre foi difícil e, com tão poucos de nós, será um desafio... Mas a resiliência forjou o povo mais forte do continente. A perseverança é o seu destino.
Capri estendeu a mão ao Capitão, que ainda segurava o próprio punho.
Khao a recusou. Levantou-se sozinho, em seus próprios termos.
— Eu não vou entrar para o seu culto — Khao resmungou. — Mas... eu gostaria de ver o assentamento.
O Monsenhor assentiu com a cabeça.
— A partir do desfiladeiro...
— Eu consigo encontrar.
Khao começou a caminhar em direção à saída do pátio. Ele trocou um olhar comigo antes de ir... um olhar indecifrável, entre o cansaço e uma espécie estranha de respeito.
Os fantasmas dos guerreiros se dissiparam no ar como névoa. O Capitão partiu em silêncio por uma estrada auxiliar.
O Monsenhor passou a massagear a mandíbula e a têmpora — afinal, mesmo para um herói lendário, cinquenta quilos de concreto no queixo eram demais para se aguentar com ressaca — quando uma voz sem origem declamou alto, ecoando como um trovão e parodiando dramaticamente a voz do próprio Monsenhor:
— "EU SOU CAPRI, LÂMINA DE CARTALLAS! EU CURO AS PESSOAS COMO CARDULLION ME CUROU!"
Eu, Xitarro e o Monsenhor corremos os olhos pelo pátio, buscando a origem daquela encenação teatral.
Vimos duas figuras observando a cena, recostadas discretamente contra a muralha de pedra. Um homem com as roupas elegantes de oficial de Bearlord e, ao lado dele, uma garota de cabelos escuros e alaúde nas costas: Amellie.
O Monsenhor gargalhou com vontade e começou a caminhar na direção da barda, que fez o mesmo correndo.
Vendo o Capitão encontrar finalmente o seu caminho, os espíritos da montanha descansarem e o Monsenhor e Amellie se reencontrarem como velhos companheiros de aventura, um sentimento morno e piegas no meu peito me fez sorrir.
O mundo, afinal de contas, parecia um lugar um pouco mais justo. As feridas do passado estavam se curando, o drama havia acabado e uma nova esperança surgia no horizonte. Tudo ficaria bem a partir de agora.
... O que, olhando em retrospecto, foi o meu maior e mais ingênuo erro.


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