A velha Madame Morgan levantou a voz para Amellie. Sabe, aquela mesma língua ferina que faz meu pai, o terrível Lord Blunt, preferir imobilizar a dar a chance de ela falar algo e desestruturá-lo?
Amellie só ouviu. Assimilou. Baixou a cabeça e saiu.
Caminhou em passos firmes — obviamente pesados pela raiva contida — enquanto subia as escadarias do Foyer até desaparecer no segundo piso.
— Eu estou acomodada na Suíte Major! — resmungou Morgan em tom alto, fazendo questão de ser ouvida.
— Não mais! — respondeu Amellie lá do alto.
Levou alguns segundos antes de ouvirmos uma porta bater com força.
— Bem... — puxei a palavra. — Na falta da oradora do grupo, eu me vejo na obrigação de perguntar... Que MERDA é essa, vovó?!
A bruaca se arrepiou de espanto. Estranho para uma oráculo "não ver o que vinha".
— Linguagem, jovemzinho! — resmungou ela.
— O caralho! — retruquei. — Estou cansado de ver a senhora nos tratando como lixo estando no mesmo balde que a gente, esperando o mesmo lixeiro recolher!
— Eu vi e vivi os Segredos do universo e do destino, seu pivete, que você nem...
— Sim, e o que viu é que vai morrer num mausoléu sozinha, exatamente como Cyrak morreu! — Levantei a voz. — Amellie jamais será Cyrak? Pode ter certeza! E nem falo de gente como o Capitão Lizzo, minha mãe e toda a Igreja da Perseverança, que ela elevou ao seu melhor potencial. Se a gente não sair desse casebre, a Amellie vai ter a mim... — Hesitei por um segundo antes de emendar: — ...e ao Xitarro ao lado dela. Cyrak não vale a sombra dela. A SENHORA não vale a sombra dela!
As sobrancelhas dela se cerraram.
— Você acredita mesmo que Amellie vale tudo isso? — resmungou a velha. — Que ela não fez nada disso apenas por glória e prestígio?
— Eu... eu nem sei por que preciso me justificar a VOCÊ, dentre todas as pessoas.
Comecei a caminhar em direção à escadaria, ia atraz dela... Mas a bengala da velha foi atravessada no meu caminho.
— Me deixe tentar remediar, então — resmungou ela.
— Com essa má vontade? — protestei, empurrando a bengala para tirá-la da minha frente.
— Por favor.
Ok... essa me pegou desguarnecido.
Dei um passo para trás. A velha começou a caminhar em direção à escada... Não sei se estava literalmente queimando seu tempo restante de vida ou se era apenas limitação de movimento... mas começou a subir as escadas.
Sentei-me no sofá e deixei o sangue esfriar. Xitarro sentou-se ao meu lado.
— B-bentho... — ele começou. — Você falou... Não diria "bonito", tinha palavrões demais... Mas falou bem.
— Obrigado.
— Você acredita mesmo nisso? — perguntou Xitarro. — Amellie claramente tem coisas que não nos conta.
— Coisas de que tem vergonha — falei. — Mas se for importante, ela falaria. Não está resmungando por causa da barraquinha arcana de novo, está?
— Eu... Só acho que somos um grupo. Em teoria, amigos — disse ele. — Esconder coisas dos amigos, mesmo que seja para protegê-los... não sei se seria o certo. Você não faria isso.
Essa não.
Afundei no sofá.
— Faria sim, Xitarro.
— Eu não acho...
É... não tinha mais jeito.
Abri minha mochila e saquei um caderno velho, mofado.
— Ei... — Xitarro comentou, inclinando a cabeça. — Eu já vi esse livrinho!
— É o diário do capitão. Do navio em que você naufragou.
Xitarro arregalou os olhos.
— Eu lembro... Derramei tinta nele quando tinha dez anos...
— O capitão completou o diário. Leia as duas últimas páginas.
Entreguei o livro a ele. Xitarro hesitou.
Eu sabia exatamente o que ele leria. Mais insultos velados à criança. E, de repente, a tempestade. O navio encalhando. O pequeno catfolk caindo no mar. Sendo avistado e ignorado pela tripulação que abandonava a embarcação...
...Pelos seus próprios pais.
Xitarro ficou alguns segundos olhando para o nada. Em transe.
— Eu sinto muito, Xitarro.
— Eu... deduzi que eles tinham esquecido de mim — o monge comentou, a voz baixa.
Ele abriu a boca, mas ficou em silêncio alguns segundos antes de completar...
— Não imaginei que tivesse sido tão rápido.
— Eu deveria ter te contado. Isso foi imperdoável, e nem acredito nas minhas próprias desculpas. — falei. — Mas a Gladys comentou... Não importa.
— O que ela falou? A espada? — ele perguntou, ainda em choque. — É importante.
Respirei fundo.
— Quando nos conhecemos... você estava com tanto medo de ser deixado para trás que a Gladys comentou comigo. Ela disse que eu poderia usar esse seu medo para te moldar. Quebrar seu espírito para você odiar o mundo e virar um capanga sob o meu controle.
Xitarro congelou. As orelhas baixaram de vez.
— Eu achei... cruel — continuei, encarando as minhas próprias mãos. — Mas pensei que estava te protegendo ao não contar do diário. E não estava.
— A Gladys falou isso...? — Xitarro perguntou. — Eu... Estava sim, e isso... isso dói. Mas eu precisava ouvir. Obrigado.
— Você pode gritar comigo ou sentir raiva — comentei. — Prometo fazer de tudo para reconquistar sua confiança. Mas...
— Você achou que estava me protegendo da Gladys... — Xitarro insistiu. Ele ainda parecia desorientado. — E talvez tenha me ajudado. Estamos de boa!
Não sei se ele estava realmente "de boa"... mas não parecia guardar hostilidade comigo, o que era um alívio imenso.
— Então... — perguntei, ainda hesitante. — Acha que a Amellie está escondendo algo assim da gente?
Xitarro olhou para mim lentamente, com os olhos arregalados.
Há dois dias...
O PACTO DA MONTANHA MORTA
Meu nome é Amellie... e passei a última hora tramando com os pais de meu melhor amigo. O tempo era curto. Gladys podia estranhar se percebesse Blunt e Àquela parados tanto tempo tão perto de nós.
Só tínhamos uma hora. Traçamos os planos.
Não poderíamos parecer aliados, ou Gladys perceberia...
...Isso me garantiria mais algum tempo com Bentho... Dias talvez. Até o inevitável momento em que o segredo seria revelado. E eu seria tão não-grata quanto tantos que mentiram para ele.
Estendi a esfera a Estebán. Era um sofisticado comunicador de duas vias, e seria usado em exceções.
— Bem, acho que essas bolinhas sempre foram suas, não é?
Ele olhou sério para o meu gesto, ponderando.
— Entregue a Àquela — ele falou seco, afastando-se.
Não entendi no momento... Mas logo vi.
Ela desviou o olhar.
Eu desviei.
Não importa quantas vidas eu viva, sempre decepciono as melhores pessoas. Por algum motivo, Blunt queria que eu falasse com a esposa. Bentho tinha comentado como Lady Àquela idealizava a figura da "Senhorita Amellie", a professora de ópera. Ela não devia ter muitas amigas fora as nobres deslumbradas pelo mito dela, ou os militares...
...E eu era apenas outra impostora.— Eu... Estebán pediu para entregar a você...— Eu ouvi — ela respondeu.Ficamos em silêncio enquanto ela apanhava a esfera mensageira que tínhamos "encontrado" no cofre da Montanha Morta.— Não atendam imediatamente, pode ser Bentho ou Xitarro brincando com minhas coisas. — adiantai. — Esperem a imagem aparecer.— Farei isso — ela disse, desviando o olhar. Bem... era um progresso não ter um par de flechas mirando nos meus olhos.— E também... — arrisquei. — Independentemente do que eu fiz... do que eu sou... Pense no Bentho. Vocês dois precisam um do outro.Àquela baixou o semblante.— Você quer ser chamada de "Amellie"... É assim que se identifica — apontou ela. — Eu vou respeitar isso.Eu queria sorrir. Queria abraçá-la. Queria pedir um perdão mais apropriado.Mas não era adequado. Não tínhamos tempo.Contei em minha mente enquanto deixava a cena do complô. Blunt e Àquela me deram uma dianteira de uma hora. Quanto tempo eu conseguiria guardar aquele segredo?...Quase nada.Dobro uma esquina e vejo Xitarro.Sentado. Abraçando os joelhos. Encarando o vazio.Eu sou bem atenta... Àquela era uma militar treinada... Blunt era sobrenatural, se nenhum de nós o percebeu, então a capacidade dele de ficar quieto era assustadora... Mas Xitarro simplesmente estava ali.— Olá, amigo... — comecei.— Oi... — ele falou, tentando inutilmente esconder o choque. — Eu vi um guaxinim falante.— Mesmo? — perguntei. — E o que mais?Ele baixou o semblante.— Eu vi você e os pais do Bentho tramando contra ele.Direto e sincero.— Não é contra ele — sentei-me ao seu lado. — Eu temo pelo que a Gladys pode fazer com ele. Tenho motivos para crer que a Espada está jogando com as nossas vidas.— E por que não contou para o Bentho?— A Espada está constantemente na mente dele — expliquei. — Com experiência, ele poderia aprender a segmentar pensamentos como o Estebán faz... Mas é perigoso, e não temos tempo... Você entende?— Eu não sei... — ele falou.— Xitarro, eu só quero o melhor para o Bentho — falei, por fim. — Mas preciso ser cuidadosa. Se você não confiar em mim, pode ficar de olho. Prometo que jamais farei nada de ruim para você ou para ele...— Eu não sei se posso...— Eu não sei se EU posso! — ri fraco. — E olha que mentiras meio que são a minha vida. Não quero envolver você... E se tudo mais der errado, eu assumo a culpa e arcarei com as consequências. Prometo que não vai ter nada entre você e o Bentho... Só quero protegê-lo da Gladys, entende?Ele fez que sim com a cabeça, mas eu sabia que não. Só esperava que ele entendesse no caminho, antes que o pior acontecesse. Não sabia como eu poderia convencer a ele que Gladius Aeternum não tinha o melhor para nós em suas intensões...
— Não — Xitarro respondeu sem piscar. — Amellie está de boa.
— Bem... — Dei os ombros, sem imaginar o peso daquele silêncio. — A propósito: parabéns pela vindoura promoção a
Exemplar.
Ele piscou, saindo do transe e ponderando por alguns segundos.
— Como assim?
— A coisa que Madame Morgan previu. —Dou um tapinha nos ombros dele. — Se não sou eu e não é a Amellie, sobrou você. O futuro
Exemplar dos Monges! Mesmo nível de meu pai!
— Mas monges vivem em monastérios longínquos para virar monges alto-sei-lá-o-quê...
— Você viveu em uma ilha por cinco anos e bate mais forte do que muitos tenentes que eu já vi!
— C-catfolks vivem no máximo trinta anos! Monges não precisam ser anciões com séculos de...
— Monges de alto nível, quando passam a controlar o próprio corpo, simplesmente param de envelhecer — Lembrei. — Acho que ficar agindo como capanga pode só atrasar seu apogeu...
Xitarro baixou o semblante.
— Sei lá... Não gosto de saber meu destino — resmungou ele. — Preferia só curtir com meus amigos.
— É... — Estiquei os ombros. — A Madame Morgan estava certa sobre isso... Mesmo destinos teoricamente "bons" estragam a jornada e a surpresa.
— Ela é sábia... Embora rancorosa — ele comentou. — Espero que saiba lidar melhor com a Amellie...