Eu fui... bem, SOU Omar Yarol. "Omar IORAL" para os mais comuns.
Para saber como eu me meti nesta encrenca: Clique aqui!
Omar Yarol sempre foi uma mentira. "A Estrada é minha única paixão"? Não queria ser malfalado como Cyrak. E as donzelas "vítimas" de cair por mim tinham menos ganas de desmentir se suas virtudes foram preservadas.
Eu podia cantar em recôncavos que Lord Blunt fugiu da Torre negra, humilhando a Nova Guarda de Shén-li. E que eu me pus a caçá-lo. E encontrei uma emboscada que ele fez á sua maior inimiga, a Arqueira lendária.
Que eu desafiei o bruxo. Superei ele na espada, ignorei seus truques diabólicos. Removi o elmo com um golpe e o pus de joelhos.
Que a infinitamente agradecida Dama do Arco jogou-se a meus pés, grata, e eu insisti que ela merecia mais que uma emboscada traiçoeira.
Que ela deveria erguer a cabeça, levar o prisioneiro.
Que sua afeição por mim era apenas gratidão, e mesmo se não o fosse...
Repitam comigo, ouvintes:
Eu não criava laços.
Eu estava longe quando alguém viria tirar satisfação.
Nenhum aldeão iria levar minhas obras ao Castelo negro de Shén-li para perguntar se aquilo aconteceu mesmo... Ir ao Capitão Khao do Punho de Concreto perguntar se eu realmente cortei fora (e colei depois) seu petrificado braço lendário. Ninguém tem acesso aos grandes heróis do mundo que minha versão fantástica de "Omar Yarol" interagia.
E em meio a soldados sem nome, sem glória, em frente a um chanceler da "cultura" — leia-se propaganda do reino — Fui banido de Shén-li. Proibido de por os pés no reino, sob pena de ser trancado em ... Não na Grande Torre como Blunt. Eu era irrelevante. Um quarto escuro e mofado em algum buraco sem nome.
Vim às Montanhas Castanhas com minha família convidado para ser um menestrel do palácio de Bearlord, sem viagens, um "Bobo da corte" com regalias. Mas quando o banimento de Shén-li chegou aos ouvidos da marquesa Ydal, dias antes de minha chegada física, perdi meu emprego.
Só me restava a estrada, que não era uma amante tão carinhosa assim.
Sem opções, Poeira da Estrada se tornou meu lar.
Foi a terra de onde Cardullion partiu com o Trio Quimera. Ele era só um animal doméstico, e se tornou um deus. Eu tinha esperança...
Eu acomodei. Vi o mundo glorioso de nomes, títulos, e aventuras. Me adicionei artificialmente, e aproveitei bem aqueles anos. mas agora, estava fora.
...
Ou eu achei. Até que um anjo de ouro e mythral entra na espelunca onde gasto minhas últimas moedas e energias.
Quando a mulher cruzou a porta, o silêncio na taverna foi instantâneo. Uma amazona loira e imponente. Uma aljava às costas.
A capa de seda pura, a armadura reluzente sem um único risco de viagem e a cabeleira loira perfeitamente alinhada pareciam o figurino caro de uma peça de teatro imperial. Ninguém andava assim nas Montanhas Castanhas. Ninguém.
— Não pode ser... — murmurei, encolhendo-me na cadeira.
Era a iconografia exata de Àquela. A Arqueira Lendária. Aquilo contudo, tinha cara de encenação. Uma atriz contratada para me humilhar? Uma fúria das montanhas brincalhona zombando da minha sanidade?
Ela sentou-se à minha mesa com uma graciosidade estudada, tomando minhas mãos como se fôssemos velhos companheiros de infantaria.
— Que felicidade Cartallas me deu! — declarou ela, alto o bastante para a taverna ouvir. — Nosso último encontro... você estava com tanta pressa para a sua "amada" estrada! Detestei as consequências do Conselho Regente denegando-o.
— Eu... A senhora se engana! — Eu sou um bardo, palavras são meu instrumento de trabalho, mas elas estavam escassas diante do meu choque. — Posso ter dito algo assim, mas...
— >AH< ESSA È BOA!
Minal, o Taverneiro, sai do seu próprio estupor, com seu cenho enrugado.
— Você não tem um tostão para um caldo, Omar, mas pagou uma guria de armadura de latão pra fingir que te conhece?
— Olhe para ela, Minal! — eu protesto. — Eu... Eu... Toda a moeda atualmente nesta cidade não custearia essa armadura, mesmo se for de neóbio!!
— Meu senhor... — A "Àquela" se volta para ele com terço-de-perfil obviamente incomodada. — O senhor está sendo indelicado com este meu velho amigo. Eu gostaria de ter um momento, e duas... Não, três canecas de cerveja com Hidromel.
Ela tentou o dispensar com um gesto. Minal não cedeu.
— Claro "Dama da flecha" — o taberneiro calvo se debruça sobre a mesa, entre eu e a misteriosa loira. — Sabe, eu quero fazer ciúmes a minha ex... Poderia se passar pela Princesa do Império? Eu gosto de mais jovens, sabe? E aleijad...
Eu ... Estava sem cor. "Omar Yarol" tocaria uma gaita, sacaria um florete — Os mesmos que já empenhei há anos por moedas — e defenderia a honra de uma dama...
... Mas o que eu estava pensando? Mesmo de Minal não fosse duas vezes maior do que eu, e se eu o espancasse, jamais teria uma refeição quente na aldeia outra vez.
"Àquela" estende a mão a mim. Segura meu pulso através da mesa.
— Omar... esse não È o Bruxo Sombrio. — ela fala com orgulho contido. — É só um camponês com um pouco de poder sobre os outros exercendo-o e abusando-o. Por favor, contenha sua fúria.
— "Fúria"?!? — Bufa Minal. — Eu já vi ele baixando a...
Ele não termina a frase.
Àquela saca uma flecha.
Não a põe num arco ou besta, ela a arremessa com uma mão, como se atira uma adaga ou um dardo, mas com ainda mais displiscência. E foi no avental do taverneiro, e...
Eu honestamente não sei o que aconteceu.
Uma ventania explodiu de onde estávamos.
Meu caldo voou, não sei para onde.
Mesas e cadeiras próximas se afastaram pela ventania, mesmo as pesadas e com ocupantes.
Minal foi erguido no ar meio metro, arrastado pela minúscula peça, chocou-se contra a parede oposta a nós com força, e lá ficou, sob o som de uma ventania centrada na flecha manualmente arremessada.
E assim ficou uns bons cinco ou seis segundos... Até que ele começou a descer. Lento...
... Tão lento que deu tempo à agressora se erguer, caminhar até a parede onde ele estava...
E apertar-lhe o maxilar. Com uma mão. Uma força naqueles dedos associo à arte de puxar a corda de um arco, travava o crânio inteiro do taverneiro contra a parede.
— Você deve estar se questionando — ela expressava com um tom de desdém instrutivo. — "Que arqueira não utiliza um arco para suas flechas"? Primeiramente, sim, minha proficiência é notável; em segundo lugar: A Flecha da Ventania de Velakrya é capaz de gerar um tufão proporcional à velocidade do projétil em movimento — ela elucidou, com uma postura didática e condescendente. — Caso eu utilizasse o arco, a uma velocidade de cem metros por segundo, seu estabelecimento seria completamente desintegrado antes que pudesse reagir. Diante disso... você optará por confiar em minhas palavras e respeitar meu companheiro, ou prefere que eu demonstre com o arco?
Ela diminui o aperto no maxilar de Mina.
— ... Vou... Dar a você e seu amigo um momento... — o taverneiro fala abafado.
— E três cervejas com hidromel. — "Àquela" completa, colocando algumas moedas na mão esquerda dele. — Uma para o homem moreno chateado no fim do balcão.
Eu olho minha refeição no chão... Eu tinha chance de salva-la... mas eu salvei o meu livro ao invés. Mesmo tendo mais cópias do que eu teria o que fazer. Mesmo só vendendo a cada treze anos.
Mal vi quando ela tinha voltado a minha mesa. Cotovelo na mesa e mão a apoiar o queixo... Aqueles olhos brilhantes e entusiasmados...
— Sabe, você é um dos poucos que viu Lord Blunt sem o elmo... — ela fala casualmente. — Já contou a eles como era o bruxo da Lâmia Negra por baixo do elmo? O Senhor do Sombrio?
— Eu... Eu escrevi sobre isso neste livro! — eu falo e... O que eu estava dizendo? Eu jamais vi tal homem! Eu jamais vi aquela mulher também!
— Mas um bom bardo passa as sensações direitinho declamando! — ela se levanta. Pega minha mão... me coloca sobre a mesa. — Fala... Fala como ele era!
Todos paravam para olhar. Eu ... era o centro das atenções. Mesmo Minal estava lá, parado, com três canecas equilibradas numa bandeja.
— Ele é ... Um draconato. — Eu arrisco.
— Um draconato negro! — urra "Àquela". — Escamas protuberantes!
— C-como Obsidianas! — Eu começo a criar coragem, e gesticulo.
— Fale dos cabelos! — Ela me encoraja.
— Longos cabelos brancos desengranhados! Como teias e aranhas acumuladas por milênios debaixo daquele elmo! — eu estava... Eu estava quase dançando. — Os chifres não eram do elmo, era buracos para encaixar!
— Quase não tirei quando o derrubei no levante! — Ela completa, sem perder o ritmo da minha descrição.
— Os olhos irradiavam crueldade roxa como uma luz adoecente. — Eu gesticulava, como se estivesse duelando com o Bruxo. Não... eu estava duelando.
Em minha mente.
A suposta Àquela era minha parceira na dança. Encarnava Lord Blunt, com movimentos longos e pesados usando uma metade de bisnaga como espada. Eu passava facilmente por seus gestos. Eu narrava, e ela interpretava.
— Ele ergueu a Espada Negra, quase dois metros de aço contra meu florete... — eu gesticulo. — Então eu falo: "Isso está compensando alguma coisa?"
Eu faço um gracejo. Àquela segura o peito como se levasse um golpe.
Todos riem.
— "Provocação mordaz!" Eu lembro! — Àquela comenta. — Você desestruturou o ego dele!
— Sim... — Estava em meu livro esse detalhe? Acho que sim! Eu escrevi? mal lembrava! — Ele buscou minha mente, corromper minha alma, mas eu não venderia meu ser aos demônios do Submundo. Pois minha alma tinha uma dona!
— "A Estrada é minha única paixão" — A taverna urrou em uníssono.
E o clímax da batalha. Eu entro na guarda de "Lord Blunt". Uma espada imaginária entra em seu flanco. "Àquela" faz a expressão de dor e horror. E cai de joelhos. Lentamente, eu "agarro o elmo" imaginário e revelo seu "rosto".
— Minha expectativa estava no nível do chão para este duelo... — eu falo, ofegante como se tivesse lutado por dias. E termino: — Mas vejo que você certamente trouxe uma pá!
"Àquela" simulou cair no chão.
E a taverna explodiu em um cântigo, cada vez mais rápido. Cada vez mais alto. Cada vez mais empolgado!
"Omar Ioral"
Eu estava sendo ovacionado não em saraus, mas por pessoas simples que gostam de histórias. Que sentiram que tinham direito de acreditar, sem ser censurados. Talvez até soubesse no subconsciente que era falso, mas não deixava de ser divertido, entretenimento. A graça é comprar a loucura.
A mentira é mais espetaculosa que a verdade. Era válido acreditar que um de seus vizinhos seria Omar Yarol, "O Maioral".
Recebo cumprimentos, tapas nas costas. Abraços.
E logo, me vi de volta à mesa com Àquela.
Não vou usar "aspas" mais. Ela pode ser um fantasma me torturando, uma fada brincalhona ou uma atriz paga que massageia meu ego. Não ligo.
Não quero saber da verdade. Aquela é a Dama do Arco na minha realidade, que me admira desde o dia em que lutamos juntos contra o demoníaco Lorde Blunt numa estrada de Shén-li.
Ela olha para mim de uma forma... eu não ouso afirmar, mas senti algo lá... Algo perigoso.
Algo que eu usava a desculpa da "estrada" para evitar. Mas...
Eu gostaria de fazer isso?
Mas ela se detém em minha mão esquerda.
Àquela se aproxima de Estebán com duas canecas.
— Você estava certo! Era mesmo Omar Yarol! — ela fala com um sorriso entusiasmado. — Sua memória é impressionante!
— Impressionante foi você ter validado as loucuras daquele charlatão! — protesta Estebán. — Eu falei como curiosidade, estamos muito longe de Bentho e dos amigos!
— Estebán, olhe para ele... — ela fala.
— Sim... O único ser vivo banido de Shén-li que não estava envolvido em minha insurreição. — o Senhor do Sombrio toma um gole de sua caneca. — A Nova Guarda com dificuldades em estabelecer a narrativa, e essas histórias deturpadas ganhando popularidade. Poderia ter comprometido todo o esforço.
— Como nós dois colocamos agora? — Àquela encara a realidade.
— Dezessete anos depois. — ele insiste roçando os dentes nervoso. — E eu sei que você o fez dar aquela descrição descabida de mim como um draconato para me provocar. Ele misturou Morro e Valérius, mais a capa de escamas de dragão negro que eu uso com a Vigília Sombria.
— Estebán, olhe para ele. — Àquela comenta. — Isto é tudo o que lhe restou. E estes são seus dias de repousar. Em Shén-li chamamos de "tempos da Dama Doji". Em que merecemos ter a admiração dos nossos vizinhos e amigos. Ele mendigava caldos quentes antes. Hoje, ele não mais precisará negociar um prato digno.
Lord Blunt jamais sorriria. Mas era um alívio ver o esforço e o quanto sua esposa se dedicou para aquela pequena e insignificante gentileza.
Era um desvio incômodo para eles, mas valia muito para
Omar Yarol
╲
Vinte e quatro horas depois, Capitão Khao chega a Poeira da Estrada.
Queria suprimentos e ferramentas adequadas para o próximo dia de jornada.
Queria ver a nova realidade das montanhas Castanhas.
Queria ver onde Cardullion se batizou. Onde o tempo do Fogo Frio começou...
... Mas um cântico atraiu sua atenção.
Da taverna, uma porta se abre e saem patronos, alguns ainda festejavam. Um deles era um Ínfero, vermelho, e audaz.
O ínfero o encara o capitão, aponta e fala...
— Pequeno Khao! — ele comemora, ébrio e com os braços estendidos. — Você TAMBÉM veio!
Khao ficou pálido e disse:
— Não!
E virou para ir embora.
— Espere, Khao! — insiste o ínfero. — Deixe-me pagar um Hidromel!
— Não estou com HUMOR para palhaçadas de Omar Yarol hoje! — e o capitão rumou de volta à estrada para a Marca de Bearlord.
— Que sujeito sem graça! — Omar ri. — Definitivamente um mal perdedor.
— Não pode culpa-lo! — Minal comenta, colocando o braço nos ombros do bardo. — Afinal, você cortou o braço dele fora!
— ... Mas eu colei de volta!
Omar Yarol sempre foi uma mentira. "A Estrada é minha única paixão"? Não queria ser malfalado como Cyrak. E as donzelas "vítimas" de cair por mim tinham menos ganas de desmentir se suas virtudes foram preservadas.
Eu podia cantar em recôncavos que Lord Blunt fugiu da Torre negra, humilhando a Nova Guarda de Shén-li. E que eu me pus a caçá-lo. E encontrei uma emboscada que ele fez á sua maior inimiga, a Arqueira lendária.
Que eu desafiei o bruxo. Superei ele na espada, ignorei seus truques diabólicos. Removi o elmo com um golpe e o pus de joelhos.
Que a infinitamente agradecida Dama do Arco jogou-se a meus pés, grata, e eu insisti que ela merecia mais que uma emboscada traiçoeira.
Que ela deveria erguer a cabeça, levar o prisioneiro.
Que sua afeição por mim era apenas gratidão, e mesmo se não o fosse...
Repitam comigo, ouvintes:
"A Estrada é minha única paixão".
Eu não criava laços.
Eu estava longe quando alguém viria tirar satisfação.
Nenhum aldeão iria levar minhas obras ao Castelo negro de Shén-li para perguntar se aquilo aconteceu mesmo... Ir ao Capitão Khao do Punho de Concreto perguntar se eu realmente cortei fora (e colei depois) seu petrificado braço lendário. Ninguém tem acesso aos grandes heróis do mundo que minha versão fantástica de "Omar Yarol" interagia.
Até que um dia alguém foi.
E em meio a soldados sem nome, sem glória, em frente a um chanceler da "cultura" — leia-se propaganda do reino — Fui banido de Shén-li. Proibido de por os pés no reino, sob pena de ser trancado em ... Não na Grande Torre como Blunt. Eu era irrelevante. Um quarto escuro e mofado em algum buraco sem nome.
Vim às Montanhas Castanhas com minha família convidado para ser um menestrel do palácio de Bearlord, sem viagens, um "Bobo da corte" com regalias. Mas quando o banimento de Shén-li chegou aos ouvidos da marquesa Ydal, dias antes de minha chegada física, perdi meu emprego.
Só me restava a estrada, que não era uma amante tão carinhosa assim.
Sem opções, Poeira da Estrada se tornou meu lar.
Foi a terra de onde Cardullion partiu com o Trio Quimera. Ele era só um animal doméstico, e se tornou um deus. Eu tinha esperança...
... Que em meia década ainda não se concretizou.
Eu acomodei. Vi o mundo glorioso de nomes, títulos, e aventuras. Me adicionei artificialmente, e aproveitei bem aqueles anos. mas agora, estava fora.
...
Ou eu achei. Até que um anjo de ouro e mythral entra na espelunca onde gasto minhas últimas moedas e energias.
Quando a mulher cruzou a porta, o silêncio na taverna foi instantâneo. Uma amazona loira e imponente. Uma aljava às costas.
A capa de seda pura, a armadura reluzente sem um único risco de viagem e a cabeleira loira perfeitamente alinhada pareciam o figurino caro de uma peça de teatro imperial. Ninguém andava assim nas Montanhas Castanhas. Ninguém.
— Não pode ser... — murmurei, encolhendo-me na cadeira.
Era a iconografia exata de Àquela. A Arqueira Lendária. Aquilo contudo, tinha cara de encenação. Uma atriz contratada para me humilhar? Uma fúria das montanhas brincalhona zombando da minha sanidade?
Ela sentou-se à minha mesa com uma graciosidade estudada, tomando minhas mãos como se fôssemos velhos companheiros de infantaria.
— Que felicidade Cartallas me deu! — declarou ela, alto o bastante para a taverna ouvir. — Nosso último encontro... você estava com tanta pressa para a sua "amada" estrada! Detestei as consequências do Conselho Regente denegando-o.
— Eu... A senhora se engana! — Eu sou um bardo, palavras são meu instrumento de trabalho, mas elas estavam escassas diante do meu choque. — Posso ter dito algo assim, mas...
— >AH< ESSA È BOA!
Minal, o Taverneiro, sai do seu próprio estupor, com seu cenho enrugado.
— Você não tem um tostão para um caldo, Omar, mas pagou uma guria de armadura de latão pra fingir que te conhece?
— Olhe para ela, Minal! — eu protesto. — Eu... Eu... Toda a moeda atualmente nesta cidade não custearia essa armadura, mesmo se for de neóbio!!
— Meu senhor... — A "Àquela" se volta para ele com terço-de-perfil obviamente incomodada. — O senhor está sendo indelicado com este meu velho amigo. Eu gostaria de ter um momento, e duas... Não, três canecas de cerveja com Hidromel.
Ela tentou o dispensar com um gesto. Minal não cedeu.
— Claro "Dama da flecha" — o taberneiro calvo se debruça sobre a mesa, entre eu e a misteriosa loira. — Sabe, eu quero fazer ciúmes a minha ex... Poderia se passar pela Princesa do Império? Eu gosto de mais jovens, sabe? E aleijad...
Eu ... Estava sem cor. "Omar Yarol" tocaria uma gaita, sacaria um florete — Os mesmos que já empenhei há anos por moedas — e defenderia a honra de uma dama...
... Mas o que eu estava pensando? Mesmo de Minal não fosse duas vezes maior do que eu, e se eu o espancasse, jamais teria uma refeição quente na aldeia outra vez.
"Àquela" estende a mão a mim. Segura meu pulso através da mesa.
— Omar... esse não È o Bruxo Sombrio. — ela fala com orgulho contido. — É só um camponês com um pouco de poder sobre os outros exercendo-o e abusando-o. Por favor, contenha sua fúria.
— "Fúria"?!? — Bufa Minal. — Eu já vi ele baixando a...
Ele não termina a frase.
Àquela saca uma flecha.
Não a põe num arco ou besta, ela a arremessa com uma mão, como se atira uma adaga ou um dardo, mas com ainda mais displiscência. E foi no avental do taverneiro, e...
Eu honestamente não sei o que aconteceu.
Uma ventania explodiu de onde estávamos.
Meu caldo voou, não sei para onde.
Mesas e cadeiras próximas se afastaram pela ventania, mesmo as pesadas e com ocupantes.
Minal foi erguido no ar meio metro, arrastado pela minúscula peça, chocou-se contra a parede oposta a nós com força, e lá ficou, sob o som de uma ventania centrada na flecha manualmente arremessada.
E assim ficou uns bons cinco ou seis segundos... Até que ele começou a descer. Lento...
... Tão lento que deu tempo à agressora se erguer, caminhar até a parede onde ele estava...
E apertar-lhe o maxilar. Com uma mão. Uma força naqueles dedos associo à arte de puxar a corda de um arco, travava o crânio inteiro do taverneiro contra a parede.
— Você deve estar se questionando — ela expressava com um tom de desdém instrutivo. — "Que arqueira não utiliza um arco para suas flechas"? Primeiramente, sim, minha proficiência é notável; em segundo lugar: A Flecha da Ventania de Velakrya é capaz de gerar um tufão proporcional à velocidade do projétil em movimento — ela elucidou, com uma postura didática e condescendente. — Caso eu utilizasse o arco, a uma velocidade de cem metros por segundo, seu estabelecimento seria completamente desintegrado antes que pudesse reagir. Diante disso... você optará por confiar em minhas palavras e respeitar meu companheiro, ou prefere que eu demonstre com o arco?
Ela diminui o aperto no maxilar de Mina.
— ... Vou... Dar a você e seu amigo um momento... — o taverneiro fala abafado.
— E três cervejas com hidromel. — "Àquela" completa, colocando algumas moedas na mão esquerda dele. — Uma para o homem moreno chateado no fim do balcão.
Eu olho minha refeição no chão... Eu tinha chance de salva-la... mas eu salvei o meu livro ao invés. Mesmo tendo mais cópias do que eu teria o que fazer. Mesmo só vendendo a cada treze anos.
Mal vi quando ela tinha voltado a minha mesa. Cotovelo na mesa e mão a apoiar o queixo... Aqueles olhos brilhantes e entusiasmados...
— Sabe, você é um dos poucos que viu Lord Blunt sem o elmo... — ela fala casualmente. — Já contou a eles como era o bruxo da Lâmia Negra por baixo do elmo? O Senhor do Sombrio?
— Eu... Eu escrevi sobre isso neste livro! — eu falo e... O que eu estava dizendo? Eu jamais vi tal homem! Eu jamais vi aquela mulher também!
— Mas um bom bardo passa as sensações direitinho declamando! — ela se levanta. Pega minha mão... me coloca sobre a mesa. — Fala... Fala como ele era!
Todos paravam para olhar. Eu ... era o centro das atenções. Mesmo Minal estava lá, parado, com três canecas equilibradas numa bandeja.
— Ele é ... Um draconato. — Eu arrisco.
— Um draconato negro! — urra "Àquela". — Escamas protuberantes!
— C-como Obsidianas! — Eu começo a criar coragem, e gesticulo.
— Fale dos cabelos! — Ela me encoraja.
— Longos cabelos brancos desengranhados! Como teias e aranhas acumuladas por milênios debaixo daquele elmo! — eu estava... Eu estava quase dançando. — Os chifres não eram do elmo, era buracos para encaixar!
— Quase não tirei quando o derrubei no levante! — Ela completa, sem perder o ritmo da minha descrição.
— Os olhos irradiavam crueldade roxa como uma luz adoecente. — Eu gesticulava, como se estivesse duelando com o Bruxo. Não... eu estava duelando.
Em minha mente.
A suposta Àquela era minha parceira na dança. Encarnava Lord Blunt, com movimentos longos e pesados usando uma metade de bisnaga como espada. Eu passava facilmente por seus gestos. Eu narrava, e ela interpretava.
— Ele ergueu a Espada Negra, quase dois metros de aço contra meu florete... — eu gesticulo. — Então eu falo: "Isso está compensando alguma coisa?"
Eu faço um gracejo. Àquela segura o peito como se levasse um golpe.
Todos riem.
— "Provocação mordaz!" Eu lembro! — Àquela comenta. — Você desestruturou o ego dele!
— Sim... — Estava em meu livro esse detalhe? Acho que sim! Eu escrevi? mal lembrava! — Ele buscou minha mente, corromper minha alma, mas eu não venderia meu ser aos demônios do Submundo. Pois minha alma tinha uma dona!
— "A Estrada é minha única paixão" — A taverna urrou em uníssono.
E o clímax da batalha. Eu entro na guarda de "Lord Blunt". Uma espada imaginária entra em seu flanco. "Àquela" faz a expressão de dor e horror. E cai de joelhos. Lentamente, eu "agarro o elmo" imaginário e revelo seu "rosto".
— Minha expectativa estava no nível do chão para este duelo... — eu falo, ofegante como se tivesse lutado por dias. E termino: — Mas vejo que você certamente trouxe uma pá!
"Àquela" simulou cair no chão.
E a taverna explodiu em um cântigo, cada vez mais rápido. Cada vez mais alto. Cada vez mais empolgado!
"Omar Ioral"
"Omar Ioral"
"Omar Ioral"
Eu estava sendo ovacionado não em saraus, mas por pessoas simples que gostam de histórias. Que sentiram que tinham direito de acreditar, sem ser censurados. Talvez até soubesse no subconsciente que era falso, mas não deixava de ser divertido, entretenimento. A graça é comprar a loucura.
A mentira é mais espetaculosa que a verdade. Era válido acreditar que um de seus vizinhos seria Omar Yarol, "O Maioral".
Recebo cumprimentos, tapas nas costas. Abraços.
E logo, me vi de volta à mesa com Àquela.
Não vou usar "aspas" mais. Ela pode ser um fantasma me torturando, uma fada brincalhona ou uma atriz paga que massageia meu ego. Não ligo.
Não quero saber da verdade. Aquela é a Dama do Arco na minha realidade, que me admira desde o dia em que lutamos juntos contra o demoníaco Lorde Blunt numa estrada de Shén-li.
Ela olha para mim de uma forma... eu não ouso afirmar, mas senti algo lá... Algo perigoso.
Algo que eu usava a desculpa da "estrada" para evitar. Mas...
Eu gostaria de fazer isso?
Mas ela se detém em minha mão esquerda.
Duas alianças.
Uma no dedo anelar e outra no dedo médio. Ela me encara... eu sei o que ela deduzia.
— Sim... — eu aceno com a cabeça. — Na minha cultura, quando nos casamos, trocamos alianças. E... Quando um dos parceiros se vai, a aliança é devolvida, e passa a ocupa o dedo mais próximo. Para estarmos juntos em vida e em morte.
— Eu sinto muito. — Àquela fala.
— Não foram muitos anos, mas foram bons anos. — eu conforto. — A estrada é uma paixão, mas quando os joelhos nos impedem de segui-la, é bom ter um lar, alguém com mesmo espírito que você. Eu tive sorte.
Àquela remove sua manopla. Mostra um anel negro e discreto.
— Eu só posso imaginar o que nós seríamos se você ficasse em Shén-li, ao invés de partir. — ela fala. — Mas desde então, eu tive uma família também. Marido e filho.
— Que maravilha! — eu a cumprimento.
— Alias, estamos nestas terras buscando meu filho. — ela comenta. — eu e meu esposo, o homem sisudo no fim do balcão.
O marido estava aqui?!?
E eu flertando com ela... E ela flertando comigo!
Eu ... Eu conheço aquele senhorzinho. É o mesmo viajante que comprou meu livro naquela manhã.
— Ele não é muito mais novo que eu! — eu protesto. — Eu tinha chance então!
Ela gargalha.
— Ele é Estebán, e é um grande fã seu.
— Se este é o caso, ter um exemplar de meu livro sem meu autógrafo é inconcebível! — eu bato na mesa. — Traga para mim o exemplar dele agora!
Ela sorri.
Se levanta e declama:
— Uma rodada para a taverna inteira! Por minha conta! — ela fala.
— A segunda por conta da casa! — Minal declara logo em seguida.
Os patronos começam a cantiga outra vez.
— Sim... — eu aceno com a cabeça. — Na minha cultura, quando nos casamos, trocamos alianças. E... Quando um dos parceiros se vai, a aliança é devolvida, e passa a ocupa o dedo mais próximo. Para estarmos juntos em vida e em morte.
— Eu sinto muito. — Àquela fala.
— Não foram muitos anos, mas foram bons anos. — eu conforto. — A estrada é uma paixão, mas quando os joelhos nos impedem de segui-la, é bom ter um lar, alguém com mesmo espírito que você. Eu tive sorte.
Àquela remove sua manopla. Mostra um anel negro e discreto.
— Eu só posso imaginar o que nós seríamos se você ficasse em Shén-li, ao invés de partir. — ela fala. — Mas desde então, eu tive uma família também. Marido e filho.
— Que maravilha! — eu a cumprimento.
— Alias, estamos nestas terras buscando meu filho. — ela comenta. — eu e meu esposo, o homem sisudo no fim do balcão.
O marido estava aqui?!?
E eu flertando com ela... E ela flertando comigo!
Eu ... Eu conheço aquele senhorzinho. É o mesmo viajante que comprou meu livro naquela manhã.
— Ele não é muito mais novo que eu! — eu protesto. — Eu tinha chance então!
Ela gargalha.
— Ele é Estebán, e é um grande fã seu.
— Se este é o caso, ter um exemplar de meu livro sem meu autógrafo é inconcebível! — eu bato na mesa. — Traga para mim o exemplar dele agora!
Ela sorri.
Se levanta e declama:
— Uma rodada para a taverna inteira! Por minha conta! — ela fala.
— A segunda por conta da casa! — Minal declara logo em seguida.
Os patronos começam a cantiga outra vez.
"Omar Ioral""Omar Ioral""Omar Ioral"
Àquela se aproxima de Estebán com duas canecas.
— Você estava certo! Era mesmo Omar Yarol! — ela fala com um sorriso entusiasmado. — Sua memória é impressionante!
— Impressionante foi você ter validado as loucuras daquele charlatão! — protesta Estebán. — Eu falei como curiosidade, estamos muito longe de Bentho e dos amigos!
— Estebán, olhe para ele... — ela fala.
— Sim... O único ser vivo banido de Shén-li que não estava envolvido em minha insurreição. — o Senhor do Sombrio toma um gole de sua caneca. — A Nova Guarda com dificuldades em estabelecer a narrativa, e essas histórias deturpadas ganhando popularidade. Poderia ter comprometido todo o esforço.
— Como nós dois colocamos agora? — Àquela encara a realidade.
— Dezessete anos depois. — ele insiste roçando os dentes nervoso. — E eu sei que você o fez dar aquela descrição descabida de mim como um draconato para me provocar. Ele misturou Morro e Valérius, mais a capa de escamas de dragão negro que eu uso com a Vigília Sombria.
— Estebán, olhe para ele. — Àquela comenta. — Isto é tudo o que lhe restou. E estes são seus dias de repousar. Em Shén-li chamamos de "tempos da Dama Doji". Em que merecemos ter a admiração dos nossos vizinhos e amigos. Ele mendigava caldos quentes antes. Hoje, ele não mais precisará negociar um prato digno.
Lord Blunt jamais sorriria. Mas era um alívio ver o esforço e o quanto sua esposa se dedicou para aquela pequena e insignificante gentileza.
Era um desvio incômodo para eles, mas valia muito para
Omar Yarol
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Vinte e quatro horas depois, Capitão Khao chega a Poeira da Estrada.
Queria suprimentos e ferramentas adequadas para o próximo dia de jornada.
Queria ver a nova realidade das montanhas Castanhas.
Queria ver onde Cardullion se batizou. Onde o tempo do Fogo Frio começou...
... Mas um cântico atraiu sua atenção.
"Omar Ioral"
"Omar Ioral"
"Omar Ioral"
Da taverna, uma porta se abre e saem patronos, alguns ainda festejavam. Um deles era um Ínfero, vermelho, e audaz.
O ínfero o encara o capitão, aponta e fala...
— Pequeno Khao! — ele comemora, ébrio e com os braços estendidos. — Você TAMBÉM veio!
Khao ficou pálido e disse:
— Não!
E virou para ir embora.
— Espere, Khao! — insiste o ínfero. — Deixe-me pagar um Hidromel!
— Não estou com HUMOR para palhaçadas de Omar Yarol hoje! — e o capitão rumou de volta à estrada para a Marca de Bearlord.
— Que sujeito sem graça! — Omar ri. — Definitivamente um mal perdedor.
— Não pode culpa-lo! — Minal comenta, colocando o braço nos ombros do bardo. — Afinal, você cortou o braço dele fora!
— ... Mas eu colei de volta!


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