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29 de agosto de 2026

[MONSTRO DA SEMANA] "Lord Blunt" por Omar Yarol

Fato: OMAR YAROL, no Interludio de ontem criou um LORD BLUNT muito mais intimidante que meu Estebán. Então decidi imaginar como um bardo charlatão imaginaria "O Maior Vilão do mundo" (que para ele deve ser um CR4). E Eis o "Falso Lord Blunt", um oponente ocasional para colocar na sua campanha, excelente em duelos (exceto contra O Maioral) mas limitado se enfrentar um grupo. 

Falso Lord Blunt

Humanoide Médio (draconato), caótico e maligno


Classe de Armadura: 16 (armadura natural, manto de placas)

Pontos de Vida: 95 (10d8 + 50)

Deslocamento: 9 m


FOR DES CON INT SAB CAR
16 (+3) 12 (+1) 20 (+5) 10 (+0) 12 (+1) 16 (+3)

Testes de Resistência: Con +7, Car +5

Perícias: Intimidação +5, Arcana +2, Percepção +3

Resistência a Dano: Necrótico

Sentidos: Visão no Escuro 18 m, Percepção Passiva 13

Idiomas: Comum, Dracônico, Infernal

Nível de Desafio (ND): 4 (1.100 XP)  |  Bônus de Proficiência: +2


Ancestral Dracônico. O Falso Lord Blunt tem vantagem em testes de resistência contra ser Amedrontado. Além disso, sua aparência dracônica e presença sobrenatural concedem vantagem em testes de Carisma (Intimidação) feitos para ameaçar criaturas que possam vê-lo.

Maldição da Lâmina Sombria (1/Combate). Como ação bônus, o Falso Lord Blunt amaldiçoa uma criatura que possa ver a até 9 m por 1 minuto. Enquanto a maldição durar, ele recebe os seguintes benefícios contra o alvo:

  • Recebe +2 de bônus ao dano contra o alvo;
  • Obtém um acerto crítico com 19 ou 20 no dado;
  • Recupera 7 PV quando o alvo chega a 0 PV.
A maldição termina antecipadamente se o Falso Lord Blunt morrer.

Guerreiro da Lâmina Maldita. O Falso Lord Blunt usa Carisma para suas jogadas de ataque e dano com sua espada amaldiçoada. Sua espada conta como mágica.

Ações

Ataques Múltiplos. O Falso Lord Blunt realiza dois ataques de Espada do Falso Lord.

Espada do Falso Lord. Ataque Corpo a Corpo com Arma: +7 para atingir, alcance 1,5 m, um alvo. Acerto: 10 (1d10 + 5) de dano cortante, mais 3 (1d6) de dano necrótico.

Explosão da Lâmina Negra (Recarga 5–6). O Falso Lord Blunt canaliza energia sombria através de sua espada. Cada criatura à escolha dele em um raio de 3 m deve realizar um teste de resistência de Destreza CD 14. Em caso de falha, sofre 13 (3d8) de dano necrótico. Em caso de sucesso, sofre metade do dano. Nota: esta habilidade substitui o Multiataque na rodada.

Conjuração

O Falso Lord Blunt é um conjurador de 5º nível. Sua habilidade de conjuração é Carisma (CD 14 para resistir às magias; +6 para atingir com ataques mágicos).

  • À vontade: Eldritch Blast, Mage Hand, Minor Illusion
  • 2/dia cada: Armor of Agathys (2º círculo), Hex, Misty Step
  • 1/dia: Darkness

Reação

Escudo da Lâmina Maldita. Quando uma criatura que ele possa ver o atinge com um ataque, o Falso Lord Blunt pode adicionar +2 à sua CA contra aquele ataque, possivelmente fazendo-o errar. Se o ataque errar, o atacante sofre 3 (1d6) de dano necrótico.


Tática de Combate

Rodada 1 (O teatro começa): Abre com Maldição da Lâmina Sombria no alvo que parece mais perigoso (não necessariamente o mais frágil, pois ele quer provar que é um verdadeiro "Lord"). Se houver tempo de preparação prévia, entra no combate com Armor of Agathys já ativo.

Rodadas Seguintes: Mantém um padrão estável de dois ataques por rodada. Utiliza Misty Step se for cercado, derrubado, ou para alcançar conjuradores na retaguarda.

Uso de Darkness: Reservado para momentos estratégicos (contra ataques à distância, para cobrir uma fuga ou isolar o grupo), evitando virar uma mecânica frustrante no combate.





28 de agosto de 2026

EDGELORD Interludio: Omar Yarol

 


Eu fui... bem, SOU Omar Yarol. "Omar IORAL" para os mais comuns.

Para saber como eu me meti nesta encrenca: Clique aqui!

Omar Yarol sempre foi uma mentira. "A Estrada é minha única paixão"? Não queria ser malfalado como Cyrak. E as donzelas "vítimas" de cair por mim tinham menos ganas de desmentir se suas virtudes foram preservadas.

Eu podia cantar em recôncavos que Lord Blunt fugiu da Torre negra, humilhando a Nova Guarda de Shén-li. E que eu me pus a caçá-lo. E encontrei uma emboscada que ele fez á sua maior inimiga, a Arqueira lendária.

Que eu desafiei o bruxo. Superei ele na espada, ignorei seus truques diabólicos. Removi o elmo com um golpe e o pus de joelhos.

Que a infinitamente agradecida Dama do Arco jogou-se a meus pés, grata, e eu insisti que ela merecia mais que uma emboscada traiçoeira.

Que ela deveria erguer a cabeça, levar o prisioneiro.

Que sua afeição por mim era apenas gratidão, e mesmo se não o fosse...

Repitam comigo, ouvintes:

"A Estrada é minha única paixão".

Eu não criava laços.

Eu estava longe quando alguém viria tirar satisfação.

Nenhum aldeão iria levar minhas obras ao Castelo negro de Shén-li para perguntar se aquilo aconteceu mesmo... Ir ao Capitão Khao do Punho de Concreto perguntar se eu realmente cortei fora (e colei depois) seu petrificado braço lendário. Ninguém tem acesso aos grandes heróis do mundo que minha versão fantástica de "Omar Yarol" interagia.

Até que um dia alguém foi.

E em meio a soldados sem nome, sem glória, em frente a um chanceler da "cultura" — leia-se propaganda do reino — Fui banido de Shén-li. Proibido de por os pés no reino, sob pena de ser trancado em ... Não na Grande Torre como Blunt. Eu era irrelevante. Um quarto escuro e mofado em algum buraco sem nome.

Vim às Montanhas Castanhas com minha família convidado para ser um menestrel do palácio de Bearlord, sem viagens, um "Bobo da corte" com regalias. Mas quando o banimento de Shén-li chegou aos ouvidos da marquesa Ydal, dias antes de minha chegada física, perdi meu emprego.

Só me restava a estrada, que não era uma amante tão carinhosa assim.

Sem opções, Poeira da Estrada se tornou meu lar.

Foi a terra de onde Cardullion partiu com o Trio Quimera. Ele era só um animal doméstico, e se tornou um deus. Eu tinha esperança...
... Que em meia década ainda não se concretizou.

Eu acomodei. Vi o mundo glorioso de nomes, títulos, e aventuras. Me adicionei artificialmente, e aproveitei bem aqueles anos. mas agora, estava fora.

...

Ou eu achei. Até que um anjo de ouro e mythral entra na espelunca onde gasto minhas últimas moedas e energias.
   
Quando a mulher cruzou a porta, o silêncio na taverna foi instantâneo. Uma amazona loira e imponente. Uma aljava às costas. 

A capa de seda pura, a armadura reluzente sem um único risco de viagem e a cabeleira loira perfeitamente alinhada pareciam o figurino caro de uma peça de teatro imperial. Ninguém andava assim nas Montanhas Castanhas. Ninguém.

— Não pode ser... — murmurei, encolhendo-me na cadeira.

Era a iconografia exata de Àquela. A Arqueira Lendária. Aquilo contudo, tinha cara de encenação. Uma atriz contratada para me humilhar? Uma fúria das montanhas brincalhona zombando da minha sanidade?

Ela sentou-se à minha mesa com uma graciosidade estudada, tomando minhas mãos como se fôssemos velhos companheiros de infantaria.

— Que felicidade Cartallas me deu! — declarou ela, alto o bastante para a taverna ouvir. — Nosso último encontro... você estava com tanta pressa para a sua "amada" estrada! Detestei as consequências do Conselho Regente denegando-o.

— Eu...  A senhora se engana! — Eu sou um bardo, palavras são meu instrumento de trabalho, mas elas estavam escassas diante do meu choque. — Posso ter dito algo assim, mas...

— >AH< ESSA È BOA!

Minal, o Taverneiro, sai do seu próprio estupor, com seu cenho enrugado.

— Você não tem um tostão para um caldo, Omar, mas pagou uma guria de armadura de latão pra fingir que te conhece?

— Olhe para ela, Minal! — eu protesto. — Eu... Eu... Toda a moeda atualmente nesta cidade não custearia essa armadura, mesmo se for de neóbio!!

— Meu senhor... — A "Àquela" se volta para ele com terço-de-perfil obviamente incomodada. — O senhor está sendo indelicado com este meu velho amigo. Eu gostaria de ter um momento, e duas... Não, três canecas de cerveja com Hidromel.

Ela tentou o dispensar com um gesto. Minal não cedeu.

— Claro "Dama da flecha" — o taberneiro calvo se debruça sobre a mesa, entre eu e a misteriosa loira. — Sabe, eu quero fazer ciúmes a minha ex... Poderia se passar pela Princesa do Império? Eu gosto de mais jovens, sabe? E aleijad...

Eu ... Estava sem cor. "Omar Yarol" tocaria uma gaita, sacaria um florete — Os mesmos que já empenhei há anos por moedas — e defenderia a honra de uma dama...

... Mas o que eu estava pensando? Mesmo de Minal não fosse duas vezes maior do que eu, e se eu o espancasse, jamais teria uma refeição quente na aldeia outra vez.

"Àquela" estende a mão a mim. Segura meu pulso através da mesa.

— Omar... esse não È o Bruxo Sombrio. — ela fala com orgulho contido. — É só um camponês com um pouco de poder sobre os outros exercendo-o e abusando-o. Por favor, contenha sua fúria.

— "Fúria"?!? — Bufa Minal. — Eu já vi ele baixando a...

Ele não termina a frase.

Àquela saca uma flecha.

Não a põe num arco ou besta, ela a arremessa com uma mão, como se atira uma adaga ou um dardo, mas com ainda mais displiscência. E foi no avental do taverneiro, e...

Eu honestamente não sei o que aconteceu.

Uma ventania explodiu de onde estávamos.

Meu caldo voou, não sei para onde.

Mesas e cadeiras próximas se afastaram pela ventania, mesmo as pesadas e com ocupantes.

Minal foi erguido no ar meio metro, arrastado pela minúscula peça, chocou-se contra a parede oposta a nós com força, e lá ficou, sob o som de uma ventania centrada na flecha manualmente arremessada.

E assim ficou uns bons cinco ou seis segundos... Até que ele começou a descer. Lento...

... Tão lento que deu tempo à agressora se erguer, caminhar até a parede onde ele estava...

E apertar-lhe o maxilar. Com uma mão. Uma força naqueles dedos associo à arte de puxar a corda de um arco, travava o crânio inteiro do taverneiro contra a parede.

— Você deve estar se questionando — ela expressava com um tom de desdém instrutivo. — "Que arqueira não utiliza um arco para suas flechas"? Primeiramente, sim, minha proficiência é notável; em segundo lugar: A Flecha da Ventania de Velakrya é capaz de gerar um tufão proporcional à velocidade do projétil em movimento — ela elucidou, com uma postura didática e condescendente. — Caso eu utilizasse o arco, a uma velocidade de cem metros por segundo, seu estabelecimento seria completamente desintegrado antes que pudesse reagir. Diante disso... você optará por confiar em minhas palavras e respeitar meu companheiro, ou prefere que eu demonstre com o arco?

Ela diminui o aperto no maxilar de Mina.

— ... Vou... Dar a você e seu amigo um momento... — o taverneiro fala abafado.

— E três cervejas com hidromel. — "Àquela" completa, colocando algumas moedas na mão esquerda dele. — Uma para o homem moreno chateado no fim do balcão.

Eu olho minha refeição no chão... Eu tinha chance de salva-la... mas eu salvei o meu livro ao invés. Mesmo tendo mais cópias do que eu teria o que fazer. Mesmo só vendendo a cada treze anos.

Mal vi quando ela tinha voltado a minha mesa. Cotovelo na mesa e mão a apoiar o queixo... Aqueles olhos brilhantes e entusiasmados...

— Sabe, você é um dos poucos que viu Lord Blunt sem o elmo... — ela fala casualmente. — Já contou a eles como era o bruxo da Lâmia Negra por baixo do elmo? O Senhor do Sombrio?

— Eu... Eu escrevi sobre isso neste livro! — eu falo e... O que eu estava dizendo? Eu jamais vi tal homem! Eu jamais vi aquela mulher também!

— Mas um bom bardo passa as sensações direitinho declamando! — ela se levanta. Pega minha mão... me coloca sobre a mesa. — Fala... Fala como ele era!

Todos paravam para olhar. Eu ... era o centro das atenções. Mesmo Minal estava lá, parado, com três canecas equilibradas numa bandeja.

— Ele é ... Um draconato. — Eu arrisco.

— Um draconato negro! — urra "Àquela". — Escamas protuberantes!

— C-como Obsidianas! — Eu começo a criar coragem, e gesticulo.

— Fale dos cabelos! — Ela me encoraja.

— Longos cabelos brancos desengranhados! Como teias e aranhas acumuladas por milênios debaixo daquele elmo! — eu estava... Eu estava quase dançando. — Os chifres não eram do elmo, era buracos para encaixar!

— Quase não tirei quando o derrubei no levante! — Ela completa, sem perder o ritmo da minha descrição.

— Os olhos irradiavam crueldade roxa como uma luz adoecente. — Eu gesticulava, como se estivesse duelando com o Bruxo. Não... eu estava duelando.

Em minha mente.

A suposta Àquela era minha parceira na dança. Encarnava Lord Blunt, com movimentos longos e pesados usando uma metade de bisnaga como espada. Eu passava facilmente por seus gestos. Eu narrava, e ela interpretava.

— Ele ergueu a Espada Negra, quase dois metros de aço contra meu florete... — eu gesticulo. — Então eu falo: "Isso está compensando alguma coisa?"

Eu faço um gracejo. Àquela segura o peito como se levasse um golpe.

Todos riem.

— "Provocação mordaz!" Eu lembro! — Àquela comenta. — Você desestruturou o ego dele!

— Sim... — Estava em meu livro esse detalhe? Acho que sim! Eu escrevi? mal lembrava! — Ele buscou minha mente, corromper minha alma, mas eu não venderia meu ser aos demônios do Submundo. Pois minha alma tinha uma dona!

"A Estrada é minha única paixão" — A taverna urrou em uníssono.

E o clímax da batalha. Eu entro na guarda de "Lord Blunt". Uma espada imaginária entra em seu flanco. "Àquela" faz a expressão de dor e horror. E cai de joelhos. Lentamente, eu "agarro o elmo" imaginário e revelo seu "rosto".

— Minha expectativa estava no nível do chão para este duelo... — eu falo, ofegante como se tivesse lutado por dias. E termino: — Mas vejo que você certamente trouxe uma pá!

"Àquela" simulou cair no chão.

E a taverna explodiu em um cântigo, cada vez mais rápido. Cada vez mais alto. Cada vez mais empolgado!

"Omar Ioral"

"Omar Ioral"

"Omar Ioral"

Eu estava sendo ovacionado não em saraus, mas por pessoas simples que gostam de histórias. Que sentiram que tinham direito de acreditar, sem ser censurados. Talvez até soubesse no subconsciente que era falso, mas não deixava de ser divertido, entretenimento. A graça é comprar a loucura.

A mentira é mais espetaculosa que a verdade. Era válido acreditar que um de seus vizinhos seria Omar Yarol, "O Maioral".

Recebo cumprimentos, tapas nas costas. Abraços.

E logo, me vi de volta à mesa com Àquela.

Não vou usar "aspas" mais. Ela pode ser um fantasma me torturando, uma fada brincalhona ou uma atriz paga que massageia meu ego. Não ligo.

Não quero saber da verdade. Aquela é a Dama do Arco na minha realidade, que me admira desde o dia em que lutamos juntos contra o demoníaco Lorde Blunt numa estrada de Shén-li.

Ela olha para mim de uma forma... eu não ouso afirmar, mas senti algo lá... Algo perigoso.

Algo que eu usava a desculpa da "estrada" para evitar. Mas...

Eu gostaria de fazer isso?

Mas ela se detém em minha mão esquerda.

Duas alianças.

Uma no dedo anelar e outra no dedo médio. Ela me encara... eu sei o que ela deduzia.

— Sim... — eu aceno com a cabeça. — Na minha cultura, quando nos casamos, trocamos alianças. E... Quando um dos parceiros se vai, a aliança é devolvida, e passa a ocupa o dedo mais próximo. Para estarmos juntos em vida e em morte.

— Eu sinto muito. — Àquela fala.

— Não foram muitos anos, mas foram bons anos. — eu conforto. — A estrada é uma paixão, mas quando os joelhos nos impedem de segui-la, é bom ter um lar, alguém com mesmo espírito que você. Eu tive sorte.

Àquela remove sua manopla. Mostra um anel negro e discreto.

— Eu só posso imaginar o que nós seríamos se você ficasse em Shén-li, ao invés de partir. — ela fala. — Mas desde então, eu tive uma família também. Marido e filho.

— Que maravilha! — eu a cumprimento.

— Alias, estamos nestas terras buscando meu filho. — ela comenta. — eu e meu esposo, o homem sisudo no fim do balcão.

O marido estava aqui?!?

E eu flertando com ela... E ela flertando comigo!

Eu ... Eu conheço aquele senhorzinho. É o mesmo viajante que comprou meu livro naquela manhã.

— Ele não é muito mais novo que eu! — eu protesto. — Eu tinha chance então!

Ela gargalha.

— Ele é Estebán, e é um grande fã seu.

— Se este é o caso, ter um exemplar de meu livro sem meu autógrafo é inconcebível! — eu bato na mesa. — Traga para mim o exemplar dele agora!

Ela sorri.

Se levanta e declama:

— Uma rodada para a taverna inteira! Por minha conta! — ela fala.

— A segunda por conta da casa! — Minal declara logo em seguida.

Os patronos começam a cantiga outra vez.

"Omar Ioral"
"Omar Ioral"
"Omar Ioral"



Àquela se aproxima de Estebán com duas canecas.

— Você estava certo! Era mesmo Omar Yarol! — ela fala com um sorriso entusiasmado. — Sua memória é impressionante!

— Impressionante foi você ter validado as loucuras daquele charlatão! — protesta Estebán. — Eu falei como curiosidade, estamos muito longe de Bentho e dos amigos!

— Estebán, olhe para ele... — ela fala.

— Sim... O único ser vivo banido de Shén-li que não estava envolvido em minha insurreição. — o Senhor do Sombrio toma um gole de sua caneca. — A Nova Guarda com dificuldades em estabelecer a narrativa, e essas histórias deturpadas ganhando popularidade. Poderia ter comprometido todo o esforço.

— Como nós dois colocamos agora? — Àquela encara a realidade.

— Dezessete anos depois. — ele insiste roçando os dentes nervoso. — E eu sei que você o fez dar aquela descrição descabida de mim como um draconato para me provocar. Ele misturou Morro e Valérius, mais a capa de escamas de dragão negro que eu uso com a Vigília Sombria.

— Estebán, olhe para ele. — Àquela comenta. — Isto é tudo o que lhe restou. E estes são seus dias de repousar. Em Shén-li chamamos de "tempos da Dama Doji". Em que merecemos ter a admiração dos nossos vizinhos e amigos. Ele mendigava caldos quentes antes. Hoje, ele não mais precisará negociar um prato digno.

Lord Blunt jamais sorriria. Mas era um alívio ver o esforço e o quanto sua esposa se dedicou para aquela pequena e insignificante gentileza.

Era um desvio incômodo para eles, mas valia muito para

Omar Yarol

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Vinte e quatro horas depois, Capitão Khao chega a Poeira da Estrada.

Queria suprimentos e ferramentas adequadas para o próximo dia de jornada.

Queria ver a nova realidade das montanhas Castanhas.

Queria ver onde Cardullion se batizou. Onde o tempo do Fogo Frio começou...

... Mas um cântico atraiu sua atenção.

"Omar Ioral"
"Omar Ioral"
"Omar Ioral"

Da taverna, uma porta se abre e saem patronos, alguns ainda festejavam. Um deles era um Ínfero, vermelho, e audaz.

O ínfero o encara o capitão, aponta e fala...

— Pequeno Khao! — ele comemora, ébrio e com os braços estendidos. — Você TAMBÉM veio!

Khao ficou pálido e disse:

— Não!

E virou para ir embora.

— Espere, Khao! — insiste o ínfero. — Deixe-me pagar um Hidromel!

— Não estou com HUMOR para palhaçadas de Omar Yarol hoje! — e o capitão rumou de volta à estrada para a Marca de Bearlord.

— Que sujeito sem graça! — Omar ri. — Definitivamente um mal perdedor.

— Não pode culpa-lo! — Minal comenta, colocando o braço nos ombros do bardo. — Afinal, você cortou o braço dele fora!

— ... Mas eu colei de volta!

25 de agosto de 2026

EDGELORD - Cap. II - Arco da Perseverança

⚠️ Clique para ver o spoiler

Começamos com uma descida no cascalho logo após cairmos do Vazio, fugindo do colapso da Mansão de Cyrak. Depois veio a travessia da ravina: acampamos, conversamos, zoamos, brigamos com lobos falantes.
E agora... uma escarpa.

Um paredão íngreme açoitado por um vento congelante. Tínhamos equipamento e tínhamos Xitarro, que caminhava na parede quase vertical com a mesma facilidade que eu andaria em uma superfície plana. Mas nem de longe aquilo era seguro.

A culpa, no fim das contas, foi minha. Eu estava carregando peso demais e acabei ficando para trás. Tive orgulho de reclamar ou de pedir uma pausa ao ver Amellie e Xitarro subindo com tanta facilidade.

Por causa disso, perdemos um dos nossos companheiros. Um desfalque irreparável para a Ledgyão.

As lendas das Montanhas Castanhas falam do "Vento Uivador", uma corrente de ar brutal que sopra entre as frestas das rochas; dizem que pode matar um homem desprotegido em minutos. Estávamos agasalhados, mas aquele último sopro doeu até o fundo dos meus ossos. Parei a escalada para abraçar o próprio corpo e tentar recuperar a sensibilidade dos dedos. Pelo que pude ver, Xitarro fizera o mesmo, embora estivesse quase no limite da corda que nos prendia. Amellie, contudo, continuava a subir quase o alcançando.

Eu já tinha ouvido alguns estalos antes... até que veio o evento que todo montanhista teme.

A rocha cedeu sob o meu espigão.

Eu caí.

A corda de segurança possuía múltiplas salvaguardas, e todas foram acionadas de uma vez. Amellie sentiu o solavanco da minha queda, mas seu gancho resistiu. Xitarro percebeu o perigo e cravou as garras na pedra, pronto para nos segurar caso o ponto de ancoragem de Amellie cedesse.

O problema é que parei em um trecho de rocha negativa — o paredão se projetava meio metro para fora, sem qualquer contato com os meus pés. Eu não tinha onde me apoiar, não podia fixar outro espigão nem ajudar de forma alguma. Estava inteiramente à mercê dos meus amigos.

E os estalos continuavam.

A pouca distância do meu peito, a corda começava a desfiar, soltando fibras como fios de cabelo mal penteados.

— Bentho! — Amellie gritou por entre o uivo do vento. — Segure firme!

Comecei a subir pela corda a seco. Queria alcançar a parte intacta antes que tudo se rompesse...

Não deu tempo.

Despenquei como um petardo.

Caí por bons cinco metros até sentir Gladys surgir espontaneamente na minha mão direita.

— [Atenção na encosta!] — ela ordenou na minha mente. — [Só vamos ter uma chance!]

Entendi o plano na hora.

Mais abaixo havia um paredão liso e contínuo. Nós o evitamos durante a subida por ser uma face rochosa sem fendas, mas agora ele era minha única esperança para reduzir a velocidade.

Cravei a lâmina de Gladys na rocha. Deslizamos abrindo um sulco profundo, lançando faíscas e cascalho. Meus ombros ardiam com o esforço, mas mantive as mãos firmes.

Enfim, parei...

...Mas Gladys começou a deslizar para fora da fenda em pequenos lances.

— [Está pesado demais!] — ela alertou. — [Livre-se do peso!]

— Tudo o que eu tenho está na Sacola de Armazenamento! — protestei, sem fôlego. — O peso é insignificante!

— [Não... Não tudo.]

Um gelo desceu pela minha espinha. Percebi na hora o que ela estava insinuando.

— Eu não posso largar o Virgílio! — gritei contra o vento.

— [Eu tolerei seu apego infantil, mas ela não é um ser vivo! Você é!] — Gladys contra-argumentou com severidade. — [SOLTE-A!]

— Bentho, estou chegando! Aguenta! — ouvi o berro de Xitarro vindo do alto, embora não pudesse vê-lo. O som de suas garras raspando a rocha estava cada vez mais perto.

Gladys cedeu mais um pouco. A lâmina vibrava no limite do metal.

— Só mais alguns segundos! — supliquei.

— [Eu estava lá quando seu pai forjou a Armadura no Limbo das Sombras. Eu a respeito... mas como um instrumento!] — a espada insistiu, implacável. — [Tal qual ela, minha missão é proteger o Portador.]

— Gladys... por favor...

Houve um segundo de silêncio absoluto.

A ponta da lâmina começou a se afastar da fenda. Uma chuva de pedrinhas caía sobre mim, indicando que Xitarro estava a poucos metros — tão perto, mas ainda inalcançável.

Então, a voz de Gladys ressoou, fria e diretiva:

— [Vigília Sombria... você põe em perigo o Sangue de Blunt.]

A mochila nas minhas costas sacudiu violentamente.

Soltei uma das mãos para tentar segurá-la, quase perdendo o equilíbrio. As peças metálicas da armadura começaram a se rearranjar Sozinhas dentro da bolsa, esquivando-se do meu toque.

De repente, a estrutura ejetou-se da mochila.


Vi a forma esquelética de metal negro despencar. Atravessou a névoa fria da montanha e desapareceu na escuridão da base.

Dez segundos depois, veio o eco do impacto final: um estrondo seco de ferro se despedaçando contra a rocha.

Nem vi quando a garra de Xitarro finalmente se cravou no meu pulso.

Fiquei completamente entregue enquanto ele me puxava de volta para um trecho escalável. Eu estava tão anestesiado que nem notei quando desanquei Gladys da rocha e a embainhei no automático.

— Bentho! Você está bem?! — o monge perguntou, arfando.

— A G-Gladys me salvou... — murmurei, a voz embargada. — E Virgílio me salvou...

— Vamos esperar a Amellie — disse ele, tentando me acalmar.

— Não. Vai lá ajudar ela — respondi, enxugando as lágrimas com a manga do casaco. — Chega de acidentes. Eu vou descer. Talvez... talvez ainda dê para recuperar as peças.

— Bentho, não acho uma boa ideia...

— Eu preciso fazer isso, Xitarro! — esbravejei, caindo em si com uma raiva impotente.

O catfolk assentiu em silêncio e voltou a subir para dar suporte à barda. Fixei um novo espigão na rocha e verifiquei a tensão da corda.

Inspirei fundo, invoquei Gladys de volta ao cinto e comecei a descida sozinho rumo ao nevoeiro.




— Foi cortada, não foi? — Xitarro indaga Amellie.

— Não. — Ela fala. Quando soube que Bentho estava bem, ela decidiu reaver a corda que foi rompida. — É estranho uma corda romper, mas não foi lâmina, calor, ou atrito. Para todos os efeitos, a fibra irregular mostra um ponto fraco que não suportou. E Bentho realmente estava pesado.

— Então a espada é inocente ao menos nisso?

— Não iria tão longe, mas não podemos provar. — Amellie suspira. — Mesmo considerando que ela sabia que poderia salvar Bentho, ganhar pontos caso a gente confrontasse ela... A Armadura é parte do Bruxo. Ela não largaria a armadura mais importante do continente, não acha?

— Eu... — Xitarro baixa a cabeça confuso. — Não tenho capacidade de elaborar como vocês. E é melhor eu nem saber, não é mesmo?

Amellie olha triste para o monge.

— Bem, a espada estava certa. Vigilia Sombria era extraordinária, mas uma armadura. A vida de Bentho era mais importante... Mas ele não vai pensar assim. Vamos... Vamos guardar luto e respeito por ele.

— Certo. — o Monge concorda. — Vamos descer.



Dois cavaleiros surgiram no horizonte, ostentando flâmulas marrons ao vento. Um parecia mais próspero — um anão robusto em uma armadura adornada —, enquanto o outro era um jovem humano vestindo um gibão reforçado para se proteger do frio. Pareciam cavaleiros andantes.

Cavalos tinham alcance limitado nas Montanhas Castanhas; poucas eram as passagens com solo plano o bastante para cavalgadas longas. Por isso, enquanto o anão, que parecia o líder, manteve-se à distância, o jovem de gibão — um escudeiro, arriscaria Khao — cavalgou em sua mula até o solo ficar pedregoso demais. Ali, desmontou e seguiu a pé, parando a respeitáveis doze metros do Capitão.

Khao havia tirado a armadura reluzente e acendera uma fogueira de carvão mineral — um truque clássico de seu povo para esconder a fumaça. Sem identificação e com o peito exposto ao Vento Uivador, ele tomara o cuidado de envolver o antebraço esquerdo com uma manta puída para ocultar seu braço petrificado, uma identificação inegável.

— Está longe de tudo, estranho! — gritou o jovem, com uma confiança (ou petulância) desconcertante. — Não há caça por estas paragens. Está em viagem?

— Pode-se dizer que sim — Khao retrucou, firme.

— Não vejo armas com o senhor — o rapaz insistiu, estreitando os olhos.

— Talvez eu não queira que as veja.

O jovem sorriu, debochado. Virou-se para o cavaleiro anão no topo do declive e urrou:

— Thur-gûn ur-kâz durn-gâr!

— Respeite o estranho, garoto! — ordenou o anão, esbravejando no idioma comum. — Fale o que quiser falar na cara dele, não em meu idioma!

O escudeiro se voltou para Khao, pronto para inventar uma desculpa, mas o Capitão o interrompeu antes:

— "Um bárbaro orgulhoso e perdido" — recitou Khao com sotaque perfeito. — Eu conheço o idioma do Povo Robusto de Dol'oan.

— Hmm... culto... — o jovem deu de ombros, sem se abalar. — Vamos resumir, então.

— Faça o seu pior — Khao o desafiou, tensionando os músculos do tronco.

O rapaz olhou para trás, encarou o Capitão de cima a baixo e franziu a testa, confuso:

— O... o senhor acha que eu vim fazer o quê? Assaltá-lo?

Khao arqueou as sobrancelhas.

— Era o que parecia.

O jovem ajoelhou-se devagar, colocou uma bolsa de lona sobre o cascalho e começou a recuar. Deu alguns passos de costas antes de se virar e caminhar de volta à sua montaria.

— Se seguir nessa direção, vai dar direto na Marca de Bearlord! — informou o cavaleiro anão, gritando do alto. — Mas acho que seu destino é mais ao norte, contornando o penhasco!

— E por que você acha que eu não deveria ir para Bearlord? — Khao desafiou, apontando com o queixo para o volume na poeira. — E o que é isto na sacola?

— Ração desidratada, vinho velho e um mapa geral da região — o escudeiro respondeu, ajustando a sela da mula. — Achamos que você estava a caminho do chamado. O Assentamento de Teth Ymosso.

— Ymosso foi um chefe das Tribos Baixas — observou Khao. — Morreu na Guerra de Bearlord.

— Bem informado, o sujeito... — riu o anão. — Batizaram o assentamento em homenagem a ele. Mas se preferir ir à Marca de Bearlord para cortejar a Lady Ydal ou encher o saco do meu chefe na Igreja da Perseverança, fique à vontade!

Khao buscou na memória as antigas interações que tinha com os homens do Império em sua juventude. Aqueles novos "homens da lei" eram bem mais rústicos e afetados, mas transbordavam um tipo diferente de postura...

— Vocês são Cavaleiros de Cartallas?

— Eu sou — respondeu o anão, estufando o peito. — Capítulo de Cardullion. Este aqui ainda não, é meu escudeiro... embora não seja dos melhores!

— Foda-se — resmungou o jovem humano, sem se importar.

Khao era alto comandante das forças da Nova guarda. Aquela informalidade e falta de disciplina absoluta eram simplesmente desnorteantes.

— E vocês viajam por aí... "ajudando" bárbaros?

— Podemos usar a palavra "bárbaros"? — riu o cavaleiro anão, divertido. — As mocinhas das aldeias nos ameaçam de "cancelamento" se não os chamarmos de "povos das montanhas" ou "nativos originais".

— Bem-vindo às montanhas, "original"! — o escudeiro zombou, montando na mula e pondo-se a trotar ao lado de seu senhor. — E persevere!



A armadura mudava de forma, mas o elmo sempre era o mesmo.

Desde o tempo do Levante de Blunt.

Desde a primeira vez em que o coloquei no rosto na Donjon.

Agora, o elmo estava partido.

A segunda metade só foi encontrada a vinte metros do rochedo onde imaginei que ocorreu a primeira colisão. Eu trazia nos braços um punhado de ferragens retorcidas; algumas exigiam uma dose amarga de imaginação para deduzir que, um dia, aquilo fora uma armadura. Ou uma forma semi-humanoide. Um amigo. Eu juntei o que achei em uma primeira procura... Mas sei que há mais por aqui.

Xitarro e Amellie finalmente se aproximaram. Caminhavam em silêncio.

Eu sabia exatamente o que pensavam: que eu estava exagerando, que era só um monte de metal.

— [Há um meio-termo, Bentho.]

Gladys?

— [Eu não me arrependo do que fiz. Salvei sua vida no limite das minhas condições, mas não me sinto feliz por ser a responsável pela destruição da Vigília Sombria.]

— Eu... eu entendo — falo, enfim. — A culpa foi minha. Eu deveria ter verificado a tensão da corda. Eu...

— Bentho? — Amellie dá um passo à frente, os olhos fixos na espada na minha cintura. — A Gladys está...

— Está tentando tirar a culpa de cima de mim — digo, me levantando. A poeira da montanha cobria meu rosto, misturando-se ao suor e formando uma crosta cinzenta. — A Armadura de Lord Blunt... a armadura do Lord Edgy... se foi.

— [Não necessariamente.]

Olho para a empunhadura, surpreso.

— Gladys? O que quer dizer?

Amellie e Xitarro me rodeiam na hora, compenetrados, quase como se pudessem ouvir a voz ressoando na minha mente.

— [As Cavernas de Han-do ficam a dez dias daqui. Há uma passagem para o Submundo, um labirinto perigoso. Mas, a partir do Submundo, teríamos acesso direto ao Limbo das Sombras.]

— O Limbo das Sombras... — vocalizo para os dois. — Foi lá que a mestra ferreira Hamme forjou a Vigília Sombria.

— [Após tantos anos, é provável que ela já tenha partido. Mas suas ferramentas devem continuar lá... com sorte, talvez um aprendiz.]

— A Gladys está sugerindo ir às Cavernas de Han-do! — explico aos meus companheiros, recuperando um resquício de esperança. — Para achar o lugar onde a Virgílio possa ser restaurada!

— Han-do? Tsk... — Amellie resmunga. Havia uma hesitação estranha em seu tom. — Se o objetivo é apenas chegar ao Limbo, não bastaria usar um portal direto?

— Um... portal?

— A Igreja da Perseverança tem um portal, e nós temos as gemas do cofre da Montanha Morta para alimentá-lo — Amellie lembra, cruzando os braços. — Por mais que eu adorasse uma viagem até a casa de Bophades após um labirinto mortal, se apertarmos o passo, no fim da tarde chegamos à Marca de Bearlord e vamos direto ao destino.

— Pergunte à Gladys se isso é uma alternativa — interveio Xitarro, desconfiado.

Espero a resposta mental.

— Ela... ela está aliviada por nossa jornada ser mais curta! — comemoro. — Mas... tem certeza disso, Amellie?

— É pelo Edgy... e pela Virgílio — Amellie comenta, desviando o olhar.

— O quê?! — Xitarro pisca, perdido.

— A Amellie não queria usar os recursos da Igreja nas nossas "vilanias" — explico ao monge. — Foi algo que conversamos antes de eu te encontrar.

— Já que você tocou no assunto... — Amellie hesita, o semblante ficando sério. — Eu talvez não deva entrar com vocês na cidade.

— O quê?! Por quê?

— Eu pude fazer emendas com a Morgan. Mas há uma viúva em Bearlord... Uma que faz a bruxa da Mansão parecer uma vovozinha que faz doces.

— A esposa de Bearlord? A Lady Ydal?

Amellie baixa o olhar, o tom pesado.

— Assim que entrarem na igreja, peçam santuário — recomenda a barda. — Não façam tratativas com ninguém até que o bode velho, o Monsenhor ou algum oficial sóbrio, venha até vocês. Se o assunto do portal surgir, conversem sobre ele. Senão, fiquem quietos e me esperem.

— "Santuário". Entendi. Algo mais?

— Bem... os Cavaleiros de Cartallas são meio desbocados. Se preparem.




Omar Yarol. "A Canção Entre as Lâminas".

A capa tinha um acabamento arcano — uma pequena pintura extremamente realista. Minha juventude. Meu ápice. Vivia aventuras, triunfava. Era cortejado pelas mais belas donzelas, mas respeitosamente as rejeitava, pois "A estrada era minha única paixão". 

Cyrak, Geddarm, Shorthalt... Omar Yarol, ou "Omar Ioral", era um dos grandes.

Eu tenho uma dezena de livros com essa capa. Me renderiam um ano de vida bem confortável se os vendesse.

Aquele era o primeiro exemplar que eu vendia nos últimos treze anos. Um senhor mais velho, cabelos negros, olhar cansado. Pagou com moedas de cunhagem de Shén-li...

... O reino da minha ruína. Onde Omar Yarol se tornou uma piada, um farsante.

O velho andarilho usava um manto muito grosso e prático, mas não parecia nativo de Shén-li. Não captei sotaques específicos... E honestamente, se ele insinuasse que queria pechinchar, levaria meu livro por um terço do que pagou.

Dos salões de sarau, das festas em minha honra nas principais aldeias do mundo, me resta Poeira da Estrada: um povoado com um pequeno templo, uma guilda, uma estátua de bode e a taverna onde, até ontem, eu tinha uma dívida que garantiria ao dono a posse da minha pele vermelha.

Omar Yarol sou eu.


 Ínfero. Chegando à velhice, enfim. Minhas roupas remetem às da capa do livro, mas obviamente apenas as traças ainda as apreciavam.

Minal, o taverneiro, olha para mim com desdém.
— Eu vendi um livro! — falo, enfim. — Vim acertar minha dívida!

Ele não acreditava até eu despejar as moedas no balcão. Sua ampla testa se enrugou de surpresa. Ele recuou até o fundo da sua estação para apanhar os cadernos de fiado.

— Cunhagem de Shén-li! — observei. — Pode ter valor de colecionador! Elas...

— Uma moeda de Shén-li vale exatamente uma moeda!

Ele conta aquela pequena fortuna que eu auferi, rabisca no livro e me mostra o resultado.

Meu sorriso desaparece.

— Duas peças de cobre abaixo... — constato. — Jurava que teria um troco... ou... um caldo quente?

Ele cerra as sobrancelhas.

— Eu realmente queria comemorar — insisto. — Pode ser a renascença de Omar Yarol! Outros podem vir atrás dos livros!

— Eu vou deixar de lado os cobres faltantes e dar o caldo quente... — Minal fala, arrancando a minha pendura do livro. — Mas, à noite, você faz o entretenimento ao lado do meu sobrinho.

Esforço-me para manter o sorriso enquanto concordo com a cabeça.

— Sabe dizer se ele... melhorou com o alaúde? — pergunto.

— Você me diz... Você é o instrutor dele!

Pois é. Ganhei alguns meses de teto e comida dando aulas para um jovem de dedos curtos e com a ilusão de que é um novo Cyrak.

Sento-me e observo uma das cópias do meu livro, que trago esperando o caldo.

Aqui estão as histórias de quando fui a Shén-li.

Duelei com o Capitão Khao por um incidente na ponte. Cortei fora seu lendário braço de concreto.

(Mas colei de volta. Estamos de boa).

Quando ouvi sobre a fuga de Lord Blunt, rastreei os passos até ver que Lady Àquela, a Arqueira Lendária, tinha sido capturada na estrada.

Intervim.

Derrotei o Bruxo da Lâmina Negra.

Bem... Nada disso aconteceu.

Também não reencontrei a ilha de Hatamon, perdida há duzentos anos, não cavalguei nas costas de Phyrros, nem integrei em segredo o Trio Quimera. Mas eu disse que fiz essas coisas. E o público amou.

Não ter compromisso com a verdade é libertador... As minhas histórias eram melhor que as verdadeiras. Não precisava pegar fôlego entre uma luta e outra. Os vilões caíam em minhas artimanhas. Eu controlava o conflito, e me saia bem sempre... até que a verdade o alcança.

Como fazia agora.

As portas da taverna são escancaradas de uma vez. A luz cega nossos olhos, já habituados à penumbra interna. O vento frio torna ignorar aquele ato rude impossível.

— Quem deixa o frio entrar vai se ver comigo! — urra Minal, deixando meu caldo e enrolando as mangas de suas vestes. — Falta de consideração, seu... sua... Oh, em nome dos... Deuses...

Não.

Não podia ser...

Ela... olha para mim. Murmura: "Omar? é você mesmo?!?"... Mas é impossível...


 

24 de agosto de 2026

A Saga de Namek seria uma porcaria como campanha de RPG?


A Saga de Namek é, discutivelmente, uma das melhores histórias da era clássica de Dragon Ball Z. Talvez justamente porque, naquele momento, quase tudo ainda parecia novidade. Um planeta alienígena. Uma raça desconhecida. Esferas do Dragão diferentes. Um novo tirano absurdamente poderoso. Vegeta agindo por conta própria. Goku fora de cena.


Mas, olhando para ela com olhos de jogador de RPG, existe uma pergunta curiosa:


Será que seria divertido jogar essa campanha?


Imagine que os personagens jogadores são Kuririn e Gohan. Um healer - Dende entra sessões dentro da história maior.


Goku está gravemente ferido, então não pode participar da expedição. Isso significa que, finalmente, Kuririn e Gohan têm a oportunidade de assumir o protagonismo. Eles viajam para Namek, um mundo completamente novo, para encontrar as Esferas do Dragão e tentar ressuscitar seus amigos.


Até aí, parece uma campanha fantástica.


Eles exploram o cenário, descobrem uma nova cultura, fazem contato com os habitantes e começam a entender a situação do planeta. Encontram Dende, e percebem, aos poucos, o tamanho do horror que está acontecendo.

Enquanto isso, Vegeta e Freeza estão no mesmo planeta, cada um buscando as Esferas por seus próprios motivos.

Os jogadores estão cercados por forças muito maiores que eles.

Perfeito para um RPG.

Kuririn e Gohan não precisam vencer tudo no braço. Eles podem fugir, se esconder, negociar, fazer aliados e sobreviver usando inteligência. Pela primeira vez desde que chegaram, existe a sensação de que estão explorando um mundo perigoso onde qualquer decisão pode importar.

Então chegam as Forças Ginyu.

E fica imediatamente claro que esses inimigos estão em uma categoria completamente diferente.

O líder, Capitão Ginyu, sequer precisa lutar com os heróis imediatamente. Ele pode simplesmente sair porque pode. E quando os membros mais fracos das Forças Ginyu entram em combate, surge a grande pergunta:

Kuririn e Gohan vão lutar contra eles?

Não.

Vegeta entra em cena, porque o desafio é demais para os jogadores.

Vegeta, o NPC que até pouco tempo antes era um dos maiores inimigos da história. Coloca lá porque os Gniu são fodões... mas se matassem Gohan e Kuririm, quem ia ficar lá encantado por eles?

E isso é quase cômico quando você imagina a situação numa mesa de RPG. Os personagens jogadores são tão inferiores aos novos inimigos que precisam se unir ao NPC absurdamente poderoso para ter alguma chance.

No máximo, ajudam.

Dão suporte.

Criam uma abertura.

Fazem uma espécie de Help Action para o NPC fodão e heroico da cena.

E então acontece o que, numa campanha de RPG, seria o momento em que os jogadores começam a olhar para o Mestre com desconfiança.

Goku chega.

E Goku chega com Kaio-ken.

Depois, com novos aumentos de poder.

Depois, enfrenta inimigos que ninguém mais consegue enfrentar.

Depois, luta contra Freeza.

E finalmente se transforma em Super Saiyajin.

A aventura que começou com Kuririn e Gohan explorando um planeta alienígena, conhecendo os habitantes e tentando sobreviver a ameaças que não compreendiam vai lentamente se transformando em uma história onde existe uma pessoa que realmente importa.

O resto está lá.

Kuririn está lá.

Gohan está lá.

Mas a história já encontrou seu centro gravitacional. Sem os Jogadores.

E existe ainda a vítima mais curiosa de todas nessa análise:


Bulma.


Porque Bulma também estava em Namek. Eu nem citei ela no começo, e vocês nem ligaram não é?

Bulma passou boa parte do tempo tentando sobreviver sozinha, cuidando da nave e das Esferas do Dragão.

Bulma é o jogador novato, que pensou em fazer algum "suporte" num cenário em que suporte é insignificante. Ou só tinha menos pontos/níveis que Kuririm e Gohan.

Bulma era insignificante perante Kuririm e Gohan.

E estes, insignificantes perante os NPCs.


E isso talvez seja o melhor exemplo do problema.



A questão não é que a Saga de Namek seja uma história ruim. Pelo contrário. Ela funciona justamente porque uma narrativa pode mudar de protagonista, aumentar a escala e permitir que personagens secundários se tornem irrelevantes quando a história exige.

Mas RPG não é uma narrativa assistida de fora.

Existe alguém jogando Kuririn.

Alguém jogando Gohan.

Alguém jogando Bulma.


Ou com Bullford.


E, em algum momento, esses jogadores perceberiam que passaram uma grande parte da campanha explorando Namek, fazendo aliados, sobrevivendo aos perigos e construindo a aventura.


Até Goku chegar.


Porque, quando Goku chegou, todos os demais ficaram irrelevantes. E o Goku é só mais um NPC. 

21 de agosto de 2026

EDGELORD - Cap. I - Arco da Perseverança

 — Vai lá... — Amellie encoraja.

Fico constrangido.

Estávamos em um acampamento no meio da Ravina Avelã. fogueira, saco de dormir, e "algo mais". Decidimos escalar a encosta: seria difícil, mas faríamos em dois dias o que levaria cinco se recuássemos até o Entroncamento dos Ossos para subir pela Estrada Imperial. Felizmente, as roupas de frio que encontramos na Montanha Morta nos protegiam dos elementos. O tecido mágico adaptava sua aparência seguindo a paleta de cores das roupas que usávamos por baixo. Bem survivor chic...

— Vocês têm certeza? — insisto.

— Ah, sabemos que você quer! — Xitarro reforça.

Ora essa... Gladys?

— [Se eu disser "não", é aí que você vai querer fazer mesmo, não é?]

— Certamente.

— [Ai, ai... Manda ver no seu monólogo de abertura!]

BEM-VINDOS ÀS MONTANHAS CASTANHAS! As Zonas Selvagens em sua forma mais bruta! (aplausos de Amellie e Xitarro)

Shén-li venera a "Trindade das Aves": Dama-Dai, a Cegonha, representa o nascimento; Aetíades, a Águia, a vida iluminada; e Dama-Doji, a Garça, o repouso tranquilo.

Mas nas Montanhas Castanhas, tudo é mais duro. O terreno, o clima, a vida. Aqui vigora a Trindade Caprina.

Pallas, o Grande Carneiro, deus da resiliência. Você precisa ser o mais duro dos duros, o mais forte dos fortes. Cardullion, o Bode, é o deus da teimosia: não apenas seu corpo deve ser resistente, mas também sua mente — você nunca deve baixar a cabeça para ninguém. E da união de ambos surge Cartallas, o Deus da Perseverança. Pois quando tudo estiver contra você e ainda lhe restar um sopro de vida... você continua.

Por uma década, estas terras lutaram contra a opressão do Império de Caruthers, até que o herói que se tornaria o Monsenhor Capri e seus companheiros derrubaram o regime, revelaram a trama e libertaram as divindades aprisionadas. Desde então, a fé uniu as Montanhas com a Trindade dos carneiros; Shén-li, com a Trindade das Aves; e Yalatanil, com Velakrya, a Coruja Arcana dos Segredos (ei, outra ave!).

Igreja da Perseverança — dona da maior cavalaria do mundo e responsável por feitos lendários, como a queda de um titã e o fim do Tempo do Fogo Frio. E...


— Algo a acrescentar, Amellie? — pergunto, enfim. — Afinal, a igreja é sua quase tanto quanto do Monsenhor!

A barda baixa o olhar.

— Eu não sou a pessoa mais religiosa do mundo — diz ela, em tom suave. — Eu estava tão perdida quanto o Lizzo quando me juntei a eles. Éra os sobreviventes do Império e outras almas com seus conflitos buscando motivos para continuar nos primeiros momentos. Muitos prometeram dedicar a vida inteira à causa. Eu, dei uns três anos e olhe só para mim: parte de uma guilda de vilões!

— Somos mesmo uma guilda de vilões? — Xitarro questiona, franzindo o cenho. — A gente quase não fez vilania... Aliás, Bentho, como paladino você não deveria ser Leal e Bom?

— Paladinos são cavaleiros vinculados a um juramento, não obrigatoriamente "pureza e radiância" — explico. — Katzophlis disse que eu não precisava ajoelhar no milho. Mas eu realmente acho que deveríamos começar a...

Sou interrompido.

Nhan-nhan! Um ruído seco de metal batendo contra metal.

Virgílio, nosso "sistema de vigilância", faz um breve escarcéu.

— Ah, não! Vocês fizeram isso de novo?! — resmunga Amellie. — O que foi dessa vez?



Fico de pé e forço a vista na escuridão. Sou o primeiro a enxergar, mas é Xitarro quem vocaliza, tomado por um pavor puramente felino:

— AI! CACHORROS GRANDES! — ele berra.

Eu e o monge entramos em postura de combate. Amellie apenas observa com certo interesse, ainda sentada confortavelmente ao lado da fogueira, sem pressa alguma.

Uma matilha de lobos-cinzentos nos cerca. Esgueiravam-se no limite da penumbra, mas agora, descobertos, disparam em velocidade total contra o nosso pequeno ponto de luz na imensidão das montanhas.




Khao não sentia tanto frio há muito tempo... Mas deveria ser pior. A armadura da Nova Guarda tornava as rajadas cortantes algo entre o "tolerável" e o "confortável".

Ele jamais percebera isso antes, pois Shén-li possuía um clima muito mais ameno e temperado; Hálcora chegava a ter ondas de calor sufocantes nos verões. Nas Montanhas Castanhas, por outro lado, chamava-se de "verão" a estação em que se podia andar na rua sem morrer instantaneamente ao ser atingido pelo Vento Uivador.

Avançava pela Antiga Estrada Imperial que, apesar de abandonada há anos, continuava sendo um caminho incrivelmente estável e fácil de seguir. Aquela pavimentação duraria muito mais do que o próprio Império.

Tudo aquilo o incomodava. Havia uma inquietação sutil roendo seu peito. Ele não era mais o batedor, o caçador solitário, o devoto de Pallas pronto para ser o mais duro dos duros. Sentia que as montanhas estavam jogando no "modo fácil" com ele, graças à sua armadura reluzente e ao solo nivelado. Mas sabia que aquela facilidade não iria durar.

Khao ouviu um rosnado na escuridão.

Não era de lobo. Não era dos carneiros-montanheses, tampouco das aves de rapina locais. Era algo gutural.

Sentiu o cheiro acre. A presença densa no ar.

Avançou pela estrada e notou, logo acima, uma reentrância na rocha onde costumava correr uma várzea de degelo. O fluxo podia ter apenas congelado na nascente, mas também era bem possível que estivesse obstruído por algo.

O bárbaro dentro do capitão despertou.

Agachou-se e, silencioso como um predador, aproximou-se da elevação, oculto na penumbra. Em sua juventude, a escalada teria sido absolutamente silenciosa. Porém, como seu punho esquerdo era um artefato permanentemente fechado, dependia de três apoios para subir — a mão direita e os pés. Em certos trechos de cascalho, o ruído da rocha contra rocha da mão petrificada tornava-se inevitável.

O que quer que estivesse lá em cima não pareceu importar-se. Limitava-se a soltar urros contidos. O cheiro de vísceras frescas subia com o vento, misturado ao som metálico de algo sendo devorado e estalos de ossos partidos.

Khao finalmente alcançou a beirada da encosta e espiou.

Era uma criatura não-natural das montanhas. Tinha fácil quatro metros de comprimento e um peso medido em toneladas. Absurdamente obesa, com garras que lembravam espadas e presas projetadas como estalactites.

Aquele focinho colossal e poderoso provavelmente farejara o Capitão antes mesmo de ele deixar a estrada... mas era uma besta de tamanho poder que simplesmente não ligava. Nada naquele ermo ousaria ameaçar uma ursa atroz adulta daquele porte.





— Relaxa, Xitarro... — tento acalmar.

— Vista a armadura, Bentho! — o catfolk insiste, já caindo em posição de combate. Nunca reparei o quanto Xitarro detestava cães. — São cachorros grandes!

Olho de relance para Virgílio, mas não acho que vá ser preciso convocá-lo.

Xitarro estava nervoso demais para o meu gosto, enquanto Amellie mantinha uma tranquilidade quase debochada. Eu era meio termo. Acho que deveriam ter ao menos um pouco de apreensão, mas confiar no nosso abrigo. Afinal, a Barraquinha Arcana segurara a queda de uma montanha... seis sacos de pulgas não seriam desafio.

Dito e feito: os seis lobos tentaram avançar de uma vez e esbarraram no ar, revelando a cúpula rubra e discreta que nos protegia na penumbra. Alguns dentes se quebraram no impacto; focinhos sangravam, mas as criaturas insistiam, forçando a barreira mágica com unhas e dentes.

— Satisfeitos? — debochou Amellie, sem nem se levantar da fogueira.

— N-não chegue perto da borda! — alarmou-se Xitarro.

Então, algo estranho aconteceu.

Primeiro, os lobos começaram a circular em volta do perímetro, testando as brechas. Em seguida, os seis se concentraram em um único ponto da cúpula... exatamente onde Amellie estava sentada.

— Isso é machismo com a única mulher do gruopo? — eu estranho.

— Eles perceberam que de alguma forma eu sou a responsável por manter esta proteção e querem me desligar — Amellie analisa, impressionada. — São bem espertos para a espécie deles. E aí, Bentho?

— "E aí" o quê? — pergunto.

— Um verdadeiro "Senhor do Sombrio" impõe sua autoridade — Amellie provoca suavemente. — Este é um ambiente controlado, criaturas caóticas mas com alguma consciência, já que pensam tão a fundo de tentar me isolar. Eu já ensinei tudo o que podia, e você aprendeu muito com a viagem e com os palpites da Gladys. Essas criaturas não respeitam você... Como vai lidar com elas?

Entendi o recado. Se eram inteligentes a esse ponto, eu podia influenciá-los. Se não nos livrássemos deles agora, ficariam de tocaia esperando desmontarmos a barraquinha pela manhã.

Começo a caminhar pacificamente para o lado oposto da barreira, longe de onde a matilha se concentrava.

— Bentho... — Xitarro aponta, aflito. — Eles estão do outro lado!

— Eu sei... Mas eles não são o Alfa, são?

Com o Olhar Diabólico do meu pacto, as sombras da noite não eram nada. Eu enxergava muito além do alcance da fogueira. O afastado "Rei Cinzento" era maior do que os outros, mas não iria se expor enquanto tivesse seis asseclas para testar o terreno.

Assim que me aproximei de onde ele se escondia na mata, dois dos lobos se desligaram da barreira e vieram me interceptar do outro lado da cúpula, rosnando e latindo raivosamente.

Em Huo-fen, eu teria feito um discurso dramático. Eu assistira a muitas peças sobre o "Levante de Blunt" e achava que aquilo era o que definia um Senhor do Sinistro. Mas a realidade era outra. Lizzo nunca discursava; ele simplesmente tinha presença. Madame Morgan transbordava uma confiança inabalável só pelo olhar — ela governava o próprio destino.

E o meu pai? O verdadeiro Lord Blunt? Ele apenas ergueria uma mão. Como eu erguia agora. Comedido. Poderoso.

Ouço um chiado vindo do escuro. Uma marca mágica e reluzente flutua sobre a cabeça do Alfa, simulando o contorno da Gladius Aeternum. A marca da maldição, que dizia que ele era o meu alvo.

Não disse uma única palavra. Deixei apenas que o "Rei Cinzento" assimilasse quem eu era e o que eu faria se eu decidisse atravessar aquela barreira.

E então, o líder da matilha soltou as doces palavras:


— Puta que pariu, um bruxo! — urrou o Alfa. — S'imbora, cambada!

Os lobos calaram-se no ato e dispararam em fuga. Foram tão rápidos que mal percebi quando o líder sumiu na escuridão e os retardatários viraram poeira na encosta.

— É isso aí! — comemorou Xitarro, socando o ar. — Corram, seus cachorros pulhentos!

— Espera... — Amellie finalmente se levanta, boquiaberta. — Aquele lobo... falou?

Xitarro paralisa por um segundo, piscando surpreso.

— Graças a Cartalas, achei que eu estivesse ouvindo coisas!

— Bem... a Igreja já tinha alguns relatos soltos — Amellie tenta racionalizar. — O surgimento espontâneo de "animais despertos" na natureza aumentou muito ultimamente.

— "Animais despertos"? — Xitarro indaga. — Aquele lobo era "um deus", como o meu guaxinim?

— Não... longe disso — desconsidera a barda. — Mas Cardullion foi um animal desperto em vida. Teorizam que, agora como parte de Cartallas, ele de vez em quando concede a bichos selvagens a mesma centelha que recebeu de Cyrak. Ainda é um caso raro, mas...

Amellie abre um sorriso largo, orgulhosa:

— Mas e quanto a LORD EDGY, o Senhor do Sombrio?! — ela celebra, aproximando-se. — Este é o líder que iremos seguir!

Amellie passa os braços sobre os meus ombros e me abraça de lado...

Eu... "registro" o toque. Mas não sinto a mesma alegria juvenil de quando triunfei contra os Corvos ou contra o Eyespy. Eu fiz tudo certo... mas pareceu tão mecânico. Tão sem sabor.

Sera que era assim que meu pai se sentia em seu tempo?



Ursos não eram nativos das Montanhas Castanhas. A única fera daquela espécie que Khao poderia conceber estar ali era...

— Avelã?

O Capitão colocou-se de pé, abandonando qualquer pretensão de emboscar a criatura.

A lua era minguante, mas a penumbra oferecia claridade suficiente para seus olhos treinados.

Um Khao muito mais jovem — pouco mais velho que Bentho e dois palmos menor do que era hoje — lembrou-se de Glen Bearlord. Foi justamente por causa daquela ursa que o Império rebatizara a ravina. Naquela época, o Sargento furioso afundava a cara do jovem bárbaro na lama e certamente o teria matado se a ursa e seu cavaleiro não tivesse urrado, interrompendo o espancamento.

Glen Loren nascera no Império. Fora caçador até o dia em que adotou uma filhote de ursa atroz. A fera cresceu. Naquele tempo, não era maior que um cavalo de carga, mas bastou para se tornar a montaria oficial do nobre, concedendo-lhe o famigerado título de "Bearlord, o Senhor Urso".

Para o Império, ele representava a "Ordem". Mais tarde, o mundo descobriu o quão cruel e corrupto o regime podia ser, mas Bearlord era diferente: Justiça seja feita, ele era brutal e severo com o povo de Khao, porém estritamente justo. Ele queria à sua forma "civilizar" aquelas terras a qualquer custo — o que incluía a proibição sumária de execuções públicas. Khao só foi banido, não desmembrado.

Aquela ursa fora o maior símbolo dos colonizadores. O emblema vivo dos homens vestindo "roupas de ferro e aço" que, um dia, expulsariam ou exterminariam os povos bárbaros.

Khao não estava presente durante a Guerra de Bearlord, quando ambas as facções, levadas ao seu limite, pegaram em armas a derradiera vez. Apostava que o nobre marchara contra seu povo montado naquela mesma ursa. Enquanto a guerra destruía suas origens, Khao servia em Shén-li, "vigiando Lord Blunt" no Castelo Negro — ou sob qualquer outra desculpa institucional para mantê-lo afastado.

— O que aconteceu com você?! — indagou Khao, dando um passo à frente.

A ursa gigante esgueirou-se com pesada indiferença, ignorando a presença do capitão.

Usava o corpanzil monumental para represar o córrego de degelo, formando um pequeno lago artificial onde os peixes rapidamente se acumulavam. Com patadas certeiras, ela os arrebatava da água, mastigando crânios, devorando tripas e cuspindo as espinhas.

Ao dar mais dois passos, Khao ficou perto o bastante para notar algo preso à pata traseira da fera: uma algema de ferro retorcida, ostentando o elo partido de uma pesada corrente.

— Fiquei sabendo que Bearlord morreu em uma escaramuça em Portos Dourados anos depois da Guerra de Cyrak. — murmurou Khao, juntando as peças. — Mas... por que VOCÊ está aqui fora? No mundo selvagem, em vez dos estábulos de...

A ursa pareceu incomodar-se com o falatório do Capitão, ou talvez já estivesse saciada da pesca noturna. Ergueu a parte superior do corpo, sentou-se sobre a cascalheira e soltou um arfar pesado. Sem a barreira de seu corpo, o córrego voltou a fluir, mas a pequena lagoa momentaneamente estagnada transformara-se em um espelho límpido.

Khao olhou para o reflexo da criatura na água e, logo ao lado, encarou o seu próprio.

Em sua mente, em outra época, veria aquela ursa adornada com sela e armadura de gala, servindo de montaria ao Senhor nomeado das montanhas, enquanto ele próprio não passava de um bruto selvagem e maltrapilho.

Hoje, a ironia era avassaladora: Khao era o homem de armadura. Ele era o civilizado. Ele buscava impor a ordem e a moral.

E Avelã? Avelã era livre. Selvagem. Indomável.

Ela crescera de uma forma que jamais conseguiria dentro de um estábulo imperial. Provavelmente a desprezível Ydal Bearlord, a viúva, abandonara a criatura favorita do falecido marido à própria sorte, crente de que ela morreria nos ermos. Mas a fera perseverou. Cresceu exatamente como mandava o seu destino.

Ela era a verdadeira Colosso das Montanhas Castanhas.

Perdendo a paciência com o Capitão da Nova Guarda — aquele "macaquinho minúsculo" de metal que ousava encará-la — a ursa ergueu-se sobre as quatro patas e marchou para longe. Estava suja, saciada e soberana. Foi explorar o restante daquelas terras indomáveis.

Sem o corpo do bicho, o lago desfez-se por completo na correnteza. Khao continuou encarando a água, observando o homem em quem havia se tornado: cabelo bem cortado, armadura reluzente de mithral, ostentando com orgulho os emblemas sagrados de Aetíades e Dama-Doji.

Era aquilo que as Terras Selvagens enxergavam agora quando olhavam para ele. Não mais o filho das montanhas... mas o "homem mais forte de Shén-li", amaciado pela civilização e pelos confortos do continente.

19 de agosto de 2026

[EDGELORD] MARY SUE: ORIGINS


 Entrando nas Montanhas Castanhas, o Império (também chamado de "Império Humano", e depois "Império de Caruthers") vai entrar na narrativa...

... por que não aproveitar e explorar o prometido primeiro spin-off de EDGELORD?

"Mary Sue" é uma expressão clássica que surgiu numa fanfic de Star Trek sobre a personagem perfeita, uma autoimagem do autor, mas depois virou só o "personagem preferido" para quem as regras não valem.

Às vezes é um DMPC, ou só o personagem do melhor amigo - ou das namoradas.

Coisas como ser forte o suficiente, ter todas as magias, estar sempre certa como se o enredo se dobrasse para encaixar suas teorias.


Ou simplesmente: meu PJ tem atributos, talentos e está interagindo ativamente com o NPC, e então o NPC " enxerga através dele"  e diz: "ei... aquela não é a fulana que esteve aqui há um ano quando era nível 1?" Se referindo ao personagem do jogador que está calado, olhando o celular... e só por ISSO que o plot anda.


É... eu ainda guardo rancor.


Como tudo mais em Edgelord, há um spinn positivo (exceto Caruthers). Nossa MS é uma adorável avoada que margeia a história a-la Forest Gump. Sigamos.



18 anos atrás.
Tempo do Levante de Blunt.
LITERALMENTE.


Marsha ouviu o desencadeamento frenético de estampidos. Ela os associou às novas "armas de repetição". Lembrou-se de quando escutou, no salão do Conselho Regente — provisoriamente transferido para o Palácio da Sagrada Família por causa da guerra —, que um dos Prospectos, o anão "Balmond" ou "Baumão" (eles nunca se acertaram na pronúncia), teria tais armas montadas no percurso de Lord Blunt.


Durou 12 segundos.


Não adiantou.

Os gritos de horror se tornaram mais distantes... A Guarda Cerimonial da Sagrada Família — definitivamente não pronta para a guerra — recuou, fechou os portões e cobriu as janelas, avançando para os andares principais.

Ignoravam a pequena princesa de seis anos, atrás de uma armadura decorativa.

Marsha sabia o que era aquilo.

A Capital caiu.

Os forasteiros fracassariam.

Um breve som de luta lá fora... Mas parecia um único pugilista contra o maior mal da era moderna. Um último esforço.


Blunt estava próximo.


Ela estimava menos de trinta metros dos portões. Trinta e cinco dela.

Uma morningstar? Funcional, mas não especial. Marsha a usaria contra Gladius Aeternum... Seria brutal... Seria divertido.


Ela estava pronta.


Seria a primeira linha de defesa de...

— Princesa Marsha! — Anthon surgiu subitamente. O meio-driade que cuidava dos jardins do palácio... Parte da pele dele era madeira verde, seus cabelos, de folhagem. Ele estava com roupas de cerimônia em vez de seu tradicional equipamento. — Seu pai está procurando pela senhora!

— Avise a ele que eu vou cuidar disso!

— Minha criança... Lord Blunt está aos nossos portões! Dois dos três forasteiros já caíram!

— Então... eu serei a próxima a lutar! — ela falou. — Eu posso vencer um bruxo chifrudo!

— Eu não tenho dúvidas... — ele resmungou, lembrando do estado em que ficou a sala de treino na última semana. — Mas temos nossas ordens...

Por instinto, o driade tentou apanhar a princesa Marsha como a uma criança normal... e quase caiu. Era como erguer, sem firmeza, uma estátua de chumbo.

— Por que vocês aceitam isso? — ela resmungou. — Lord Blunt é um valentão! A gente deve enfrentar os valentões?


— Não, não devemos...



A voz era calma, mas tinha o peso da autoridade.

O Príncipe N'aetil chegava. Passos firmes e controlados. Dedos das mãos entrelaçados. O capuz branco e azul, com os escarfes sagrados de Aetíades, o cobria, mostrando apenas a ponta do queixo e as mechas loiras que o revelavam. Um breve brilho azulado proveniente de seus olhos demonstrava sua ascendência aasimar.

— Papai! — Marsha comemorou. — Onde está o resto dos primos?

— Marsha... — ele falou com paciência, mas autoridade. — O Poderoso Aetíades nos deu uma missão com limites claros. É a história dos mortais que se escreve lá fora. Se este é o fim de nossa regência, foram oitocentos anos de paz e glória.

— Eu não vou sair daqui! — Marsha insistiu.

O príncipe inspirou fundo e então se colocou na frente da filha.



— Façamos o seguinte... — ele falou. — Seus primos... O corpo auxiliar... Mesmo o Conselho Regente, que se abrigou conosco, precisa de proteção. Eu fico aqui, e você os mantém em segurança... que tal?

Marsha bufou.

— Está bem...

Ela entregou a morningstar a Anthon, que quase caiu com o peso da peça... absurdamente mal balanceada.

Marsha caminhou com um primeiro pensamento:

"Se eu, que sou criança, posso fazer tudo o que eu posso, papai, que é adulto, vai varrer o chão com esse bruxo de..."

Então percebeu.

Parou na alcova para o corredor interno. Ainda de costas, tentando negar a própria dedução.

— O senhor não pretende brigar com Lord Blunt, não é? — ela falou, com a voz embargada.

— Não — N'aetil falou, com calma.

— M-Mas ele vai te matar! — ela protestou. — O senhor não vai nem tentar se defender?

O príncipe sorriu.

— Marsha, não era hora de falar, mas eu não acredito que ele possa...


Ele foi interrompido.


Um grito...


...não de horror. Não de guerra... mas de...


 TRIUNFO.


O príncipe caminhou até a janela reforçada pelas tábuas e observou por uma fresta. Mal viu quando Marsha se juntou a ele, escalando o batente para ver por outra fresta e arrancando uma das tábuas.

Nas escadarias... aquela silhueta feminina dourada com a luz do sol. Punho para o ar. Uma jovem, cabelos loiros. Manto verde e um arco nas mãos. Olhava surpresa para o alto, atrás dela.

A seus pés, de joelhos, a presença vultosa de Lord Blunt, vestindo a Vigília Sombria, entre flechas partidas no chão. O elmo, deixado no chão aos pés da misteriosa arqueira. Infelizmente, ela estava num ângulo que ocultava a face do Senhor do Sombrio...

Os três forasteiros se reuniam ao redor deles... Feridos, mas mais em choque do que com dor.

— Ela está... comemorando?!? — Anthon se juntou aos dois, olhando também.

— É um gesto de "cessar-fogo" da arquearia — o príncipe informou. — Mas essa arqueira providenciou um milagre... Ela é...

— É fabulosa! — Marsha declamou.


A guerra havia acabado.


O Conselho Regente fez as tratativas do armistício, mas Marsha metralhava seu pai com perguntas. Detalhes da batalha. Se podia ficar com o elmo de Lord Blunt. Mas mesmo N'aetil sabia pouco sobre o que acontecera.

Shén-li perdurou.

A heroína se revelou como "Àquela", uma das batedoras da floresta. Migrou para Shen-dao nos primeiros momentos... e seria a "arma secreta" dos grandes heróis de Dol'oan, Yalatanil e das Montanhas Castanhas reunidos para deter o Maior Vilão do Mundo. Foi-lhe dada a posse do Castelo Negro, outrora pertencente a Lord Blunt, e o título de Lady Àquela, a Primeira, a Dama do Arco.

Marsha admirava aquela figura. Queria ser como ela. Mas era proibida por seu status e por seu pai.


Mas... às vezes conseguia escapar... como no décimo sexto ano da comemoração do Levante de Blunt...


Marsha não era uma criança mais, mas ainda era muito mais velha do que aparentava. Trocou as vestes cerimoniais pelo que ela "acreditava" serem roupas comuns. Esgueirou-se do palácio, e foi para as ruas.

A luz azulada nos olhos, sinal da ascendência aasimar de Marsha, precisava ser escondida. O capuz azul e branco era "nobre demais", mas era melhor que as roupas cerimoniais. O plano era confiar nos óculos especiais — sugeridos por sua prima Sil — para dispersar o brilho dos olhos e manter a cabeça e o capuz abaixados na multidão.

Ela ia entrando, pedindo licença, mas reconhecendo a própria força ao avançar na multidão e conseguir chegar à primeira fila, antes do gradil de aço que isolava a estrada por onde a parada iria passar... Naquele ano, Lady Àquela estaria presente!

Marsha não podia esperar...

Mas algo estava errado. A multidão começou a empurrar o gradil, que estava prestes a colapsar.

— Cadetes! — resmungava um gnomo com um tridente duas vezes maior que ele. — Se este gradil cair, vocês todos estarão desligados do programa!

— Sim, senhor Larrincher! — os quatro jovens falaram em uníssono.

— Isso inclui você, Cadete Sete! — o gnomo apontou para um jovem de cabelos negros, imediatamente à frente de Marsha. — Não importa quem é a sua mãe!

— S-Sim, senhor Larrincher — Bentho respondeu.

Os cadetes empurravam com toda a força, tentando devolver o gradil à posição em que se firmasse com o resto da estrutura, mas o peso da multidão era um fardo que estava acima deles.

Marsha temia que, se eles "perdessem o controle", o desfile não passaria por ali.


Então, resolveu ajudar.


Segurou o gradil e, com uma mão, puxou-o discretamente e com facilidade ante o peso da multidão, encaixando-o em seguida. Disfarçou para não chamar a atenção.

— Bom trabalho, Bentho! — um dos cadetes mais próximos cumprimentou, alheio à ajuda.

O cadete acenou e restaurou a posição. A parada começou a se aproximar da primeira linha do desfile. Os veteranos, seguidos de uma banda.

Depois viriam os carros alegóricos e, por fim, viriam os quatro heróis, cada qual em sua montaria.

— Ei, ei, mocinho... — Marsha perguntou ao cadete, de costas, à sua frente. — Pode confirmar que Lady Àquela vai estar nessa parada? Ano passado ela não veio!

— Está sim, senhora — Bentho nem olhou para trás. — E tenho a "impressão" de que ela vai prestar atenção neste lado. Se quiser aparecer para ela... é só ficar atrás de mim.

Tudo certo... O coração da princesa aasimar pulava.

A banda passou... os carros dobravam a esquina...

E então o cadete falou:

— Ei... aquele é um dos príncipes?!?

Marsha olhou de lado...

Era o primo De'sar. Ele apontava para... ela?

Marsha abaixou-se e voltou na multidão. Cabeça baixa... Bentho só deu passagem aos guardas que seguiam o príncipe.

A jovem apressou-se dentre a plateia, tendo o espaço atrás de si imediatamente preenchido. Quando enfim emergiu, atrás de todos, viu-se cercada.

Cinco membros da Guarda Cerimonial.

E o próprio N'aetil, seu pai.


— Eu posso conseguir AUDIÊNCIA com Lady Àquela, com os quatro! — ele falou, contrariado. - Quer um baile com eles como convidados? Consigo sem esforço algum!

— Eu não quero que ela me veja como "sua chefa superior"! — Marsha protestou, fazendo birra. — Eu já falei!

— Marsha, você tem suas obrigações, ela tem as delas. — O príncipe caminhava pelos corredores. Era o terceiro evento da comemoração da queda de Blunt que a princesa o fazia perder. — Estou quase com saudades de quando você pleiteou um cargo no Conselho Regente, mesmo depois que eu proibi...

— Eu acertei as quinhentas questões, memorizei o Teólito de Aetíades e preciso de indicação de um aasimar da Família Sagrada? EU ME INDICO!

— Quer então o MEU parecer como aasimar da Família Sagrada? — O príncipe falou, irritado. — Você está pensando pequeno. O que lhe agrada. O que você pode socar... ou o que pode falar. A Família Sagrada deve transcender isso, governo ou aventuras. O poder que dispomos é muito grande e facilmente pode ser abusado. O próprio Aetíades aprendeu isso em seu sacrifício na Guerra dos Dois Horizontes. Quer terminar como Bophades?

— Não — ela assentiu.

N'aetil inspirou fundo.

— Eu vou viajar em breve. Preciso saber se você vai ficar no palácio até eu voltar. Nem que eu mude de ideia quando voltar sobre como você vai ajudar na Família Sagrada.

— Da última vez, você voltou com a Sil e não mudou nada...

— A Queda do Império de Caruthers foi... problemática. — O príncipe insistiu. — Mas eu reconheço que sua prima Sil não teria se recuperado tanto sem sua ajuda... Sua amizade. Quando eu voltar, conversaremos.

O príncipe N'aetil era um dos poucos autorizados a deixar livremente o palácio. Sempre em "missões diplomáticas", embora o Conselho Regente tivesse toda a "Chancelaria da Fronteira" para isso. Às vezes passava meses fora. Uma vez, passou anos. No incidente com a Sil, ele foi carregado da capital do Império até o palácio pelo próprio Aetíades, na forma da Fênix da Radiância. As histórias de como Cardullion libertou "a princesa" por pura teimosia e como Capri derrubou o Império ainda ecoavam pelos salões.

Marsha sabia que muito dificilmente iria mudar qualquer coisa.


O tecido dos mantos da Família Sagrada era azul-profundo, ornamentado com filigranas alvas que reluziam suavemente à luz do sol. Para qualquer pessoa, vesti-los era o ápice da honra divina; para Sil, era como vestir a pele de um estranho. Ela jamais se sentira parte daquela linhagem augusta e imaculada. Por isso, recusava as vestes sagradas e mantinha-se firme em seus vestidos negros — um luto constante por tudo o que havia perdido e uma barreira entre ela e o resto do palácio.

Sil odiava o modo como o mundo a olhava, pois parecia não haver espaço para que ela fosse apenas uma jovem. A Família Sagrada estava dividida em dois extremos sufocantes em relação a ela.

O primeiro grupo a olhava com uma pena corrosiva. Viam apenas a garotinha frágil, de olhos cinzentos e vagos, presa a uma condição irreversível. A própria cadeira mágica e aveludada onde se sentava — um artefato gracioso que flutuava suavemente a poucos centímetros do chão, suave como uma nuvem — parecia gritar a todos que ela precisava de proteção e amparo constante. Sil detestava essa complacência condescendente.

O segundo grupo era ainda pior: o dos que temiam o que ela representava. Sussurravam às suas costas pelos corredores, mantendo uma distância cautelosa e encarando-a com desconfiança mal disfarçada. "É a Princesa do Império de Caruthers", murmuravam. "É a Escravizadora de Deuses". Para esses, a memória do antigo trono de ferro e espinhos em que ela fora forçada a se sentar alimentava o mito aterrorizante de que ela guardava um poder profano e incontrolável.

Sil erguia o queixo, fingindo não se importar com nenhum dos lados. Construíra uma carapaça de indiferença fria para esconder a dor e a solidão que a consumiam por dentro.

Apenas uma pessoa ignorava essa carapaça. Apenas uma pessoa recusava-se a tratá-la como uma coitada ou como um monstro. E desprezava a carapaça como se pudesse ver dentro de qualquer armadura.

E essa pessoa era insuportavelmente irritante. Que insistia em tratá-la por "prima", mesmo sendo aasimares obviamente de linhagens distintas...

E era sua melhor amiga.


— Ah, não... mais nomes? — Sil suspirou quando a porta se abriu e Marsha entrou no recinto segurando um bloco de anotações amarelado.

— Eu estou confiante hoje! — declarou Marsha com entusiasmo inabalável, ignorando a postura defensiva da amiga e sentando-se sem pedir licença na armação da cadeira flutuante. — O tema de hoje é: "Nobreza de Yalatanil entre o ano 200 e 215".

Marsha começou a recitar a lista com uma seriedade quase cômica:

— Sildara... Silfana... Sizl'air — fez uma pausa didática: — O "z" é mudo, tá? — e continuou: — Siljain...

Ela buscava combinações cada vez mais exóticas e improváveis, já que os nomes comuns haviam se esgotado semanas atrás.

Sil olhou para a janela, deixando a voz da amiga fluir como pano de fundo. No fundo, a memória daquela tragédia ainda a assombrava. Quando Aetíades trouxe o príncipe e a garota ensanguentada em suas garras divinas, a verdade terrível veio à tona: Caruthers, o Deus Menor da Mesquinharia, descobrira o ritual do "Trono de Jasmim" — o antigo assento da Rainha Celeste que governara o mundo antes do Grande Apagamento, a Mãe de Bophades e Aetíades.

Para reativar a relíquia, o ritual exigia "Ferro Quente", mineral mágico obtido com sangue puro de um aasimar. Poderia ter sido qualquer integrante da Família Sagrada, ou um dos "aasimares selvagens" — linhagens esquecidas ou afastadas de Shén-li ao longo dos séculos. A vítima fora a jovem Sil. Ela se tornou "a princesa", face do império e instrumento de manipulação.

Ninguém sabia qual era a sua verdadeira casa, nem seu nome verdadeiro. "Sil" fora a única fonética que restara em sua mente quando ela acordara. As lesões brutais impostas por Caruthers arrancaram-lhe as asas imateriais e sua identidade, a capacidade de andar... e toda a sua memória.

— ...E Silzzzzzy! — Marsha concluiu com um floreio dramático. — Esse último eu inventei. E aí? Algum clique?

— Nada — Sil respondeu baixinho. Ela mal prestara atenção à lista, mas o simples som da voz de Marsha a tirara da espiral de pensamentos sombrios. Observou a amiga guardar o lápis e perguntou: — Então? Se apresentou a Lady Àquela na parada?

— Não... meu pai me achou de novo — Marsha resmungou, afundando os ombros, mas logo inflou o peito novamente: — Mas estou frustrada porque eu tinha certeza absoluta de que hoje seria o dia de achar uma nova pista sobre você!

— Isso porque você "está sempre certa"? — Sil ironizou.

— Eu costumo estar certa com essas coisas — Marsha resmungou. — Bem, tudo o que temos é uma sílaba... Pense bem, nunca tentamos "Sílaba". E se for Sílaba?

Marsha falou aquilo em tom de brincadeira, mas a palavra ecoou de forma estranha no ar.

Algo estalou na mente da princesa de negro. Uma engrenagem esquecida no fundo de suas memórias soterradas pareceu girar, trazendo um calafrio involuntário.

— Sílaba... — murmurou Sil, o olhar ficando distante. — "Sil La..." "Síl Ha..."

Os olhos de Marsha brilharam instantaneamente.

— É isso?!? Você lembrou?!

— Não... mas... — Sil piscou, tentando capturar o rastro do pensamento. A memória ainda era inalcançável, coberta por uma névoa de tristeza profunda e dor antiga, mas a sensação era inegável. — Tem... tem algo aí.

— E se o seu nome não for um nome próprio? — Marsha começou a se agitar, vasculhando os bolsos atrás de papel antes de constatar que todas as folhas estavam preenchidas. — E se for um substantivo? Que nem o de Àquela?!

A empolgação de Marsha era contagiosa, derretendo a última camada da postura fria de Sil. A princesa de negro suspirou, derrotada pela insistência afetuosa da amiga.

— Mas antes... fale — exigiu Marsha com um sorriso vitorioso.

— Você vai me fazer falar, não é?

— Vou sim!

Sil inspirou fundo, fechando os olhos por um segundo e entregando-se àquela pequena alegria:

— Você... está... sempre... certa.

— Como os Sinos de Aetíades! — Marsha comemorou, dando um abraço apertado na amiga e fazendo a cadeira flutuante balançar no ar.



Dois anos depois.

Antes de cruzar os portões do palácio, Marsha ainda precisou encarar o último obstáculo burocrático de sua rotina: o primo De'sar. Era mais velho, magro e andrógino, raspava os cabelos para buscar ser o mais visivelmente desagradável possível, aparentemente.

Ele a interceptou no Corredor dos Fundadores, vestindo o manto azul impecável e portando uma prancheta de pergaminhos com o selo do Conselho. Ao lado deles, flutuando suavemente em sua cadeira de vestidos negros, Sil observava a cena em relativo silêncio.

— Você devia estar na sala de recepção diplomática, Marsha — De'sar começou, ajustando a gola do manto e evitando olhar diretamente para Sil. Ele deu um passo sutil para o lado, mantendo a cadeira flutuante bem no limite de sua visão periférica.

— Tenho a sessão de "terapia" com a Sil — ela bufou.

— O príncipe N'aetil deixou ordens claras antes de partir. Como filha do nosso "Príncipe Embaixador", que passa mais tempo viajando pelo mundo do que qualquer um de nós, você deveria se inteirar da política real das Terras Selvagens e além, não ficar perambulando por aí.

Marsha soltou um suspiro profundo e entediado, encostando as costas na parede de mármore e cruzando os braços. Encarou o teto com um olhar terrivelmente entediado.

— A política do mundo é ver o Conselho votar se o imposto da madeira vai subir dois centavos, De'sar — Marsha resmungou com ironia. — É fascinante. Quase não consigo dormir de tanta emoção.

— O mundo lá fora não é um conto de heróis! — De'sar deu um passo à frente, exasperado, baixando o tom de voz para um sussurro ranzinza. — Você vive alimentando essa sua mania estranha de socar os problemas. Aquilo não é normal. Nem todo aasimar sabe fazer o que você faz, Marsha! A maioria de nós canaliza a luz divina para a diplomacia, a cura ou a regência, não para ter a densidade de uma âncora de encouraçado!

— Vocês é que são preguiçosos. Se eu consigo, vocês deveriam conseguir também. — Marsha apenas deu de ombros, ajustando os óculos no nariz com um gesto preguiçoso. — Já tentaram correr? Voar? Desintegrar um petardo de adamantina?

De'sar olhou de relance para Sil. A garota de olhos cinzentos sustentou o olhar dele por um segundo, e o nobre cobriu o desconforto dando meio passo para trás. Limpou a garganta, voltando a atenção para a prancheta.

— Enfim... se você ao menos lesse os relatórios da Chancelaria, saberia onde focar sua atenção em vez de cultivar essa adoração infantil por aventureiros "has-been" e decadentes.

A palavra fez Marsha piscar. O tédio deu lugar a uma sutil faísca de raiva por trás das lentes.

— Aventureiros decadentes? — ela perguntou, revoltada. — Que tipo de decadentes?

— Os velhos conhecidos da Nova Guarda, por exemplo — De'sar desdenhou, batendo a pena no pergaminho. — Eles acham que ainda estão na era de ouro. O Conselho acabou de receber o relatório do Aniversário da Libertação de Nova Ethiópia. A regente de lá, aquela... Princesa Andrômeda, está desesperada. Acha que vamos mandar nossos recursos e arriscar perder as "bandeirolas" que, convenhamos, é o que eles são?

— Desesperada por quê? — Marsha endireitou ligeiramente os ombros.

— Porque a ilha é atacada todo ano, no mesmo dia, por hordas de Dragas e por um "kraken ancestral" ou coisa que o valha — disse De'sar, balançando a cabeça com tédio burocrático. — Mas não vamos arriscar enviar a Nova Guarda para lá, perder uma das "bandeirolas" e arriscar o povo interno se revoltando na perspectiva de Lord Blunt fugir. Precisamos pensar em nosso povo primeiro.

Marsha segurou o sorriso que ameaçava brotar em seu rosto.

Uma nação insular. A prima Andrômeda — sim, consta que era uma aasimar da linhagem de Cassiopéia — em perigo. Dragas, um kraken, uma causa perdida no meio do oceano.

Era o cenário perfeito.

— É mesmo? — Marsha bocejou de forma ostensiva, fingindo um desinteresse profundo enquanto dava meia-volta em direção aos seus aposentos. — Que trágico, De'sar. Realmente, a diplomacia é muito complexa. Acho que vou para o meu quarto refletir sobre o imposto da madeira...

— Excelente. Pela primeira vez você está sendo razoável — De'sar suspirou aliviado, voltando a anotar na prancheta enquanto se afastava apressado, ansioso para sair da presença de Sil.

Assim que o primo dobrou o corredor, Marsha olhou para Sil. A princesa de negro tinha um pequeno e quase imperceptível canto de boca erguido.

— Você não vai refletir sobre madeira nenhuma, vai? — Sil perguntou baixinho.

— Nem pensar — Marsha ajeitou as roupas simples de viagem escondidas sob o manto cerimonial, bem como uma bolsa de gemas. — O De'sar acabou de me dar o roteiro todinho. E, no fim das contas, a equação é simples: Andrômeda é uma prima. E uma prima em necessidade a gente não deixa na mão.

— Dessa vez, use um nome ordinário para não rastrearem você — Sil falou, fazendo sua cadeira flutuante retornar a seu quarto. — Como era o nome daquela jovem camareira que deixou o palácio? Maria... Suelen...

A Princesa Marsha ficaria trancada naquele palácio. Para os navios que rumavam para o Mar de Fora, para a Nova Guarda e para qualquer um em Nova Ethiópia, ela seria apenas uma garota de óculos. Tímida. Inofensiva. Uma passageira pagante. Seu nome seria...

...



— Okay, mais uma vez... Quem de vocês é o Ryan e quem é o Cyrus? — Amellie insistiu, chutando a canela de um dos dois corvos. Eles apenas gemiam, encolhidos e amarrados na poeira recostada na muralha externa. Eram jovens com tatuagens de corvos que acharam que poderiam surpreender a reencarnação de Cyrak, o Conquistador.

A barda se ajoelhou e tateou as vestes de... "Ryan ou Cyrus", retirando um objeto pesado de metal: um rádio rúnico de curto alcance.

— Desde quando os corvinhos têm esse tipo de...

— UAU! Você bateu em dois assaltantes corvos?!?

Amellie deu um salto para trás, postando-se de pé com o florete apontado no ato para a recém-chegada.

Era uma jovem de vestes discretas, óculos e uma postura completamente tranquila, apesar de flagrar aquela "atividade" em um canto escuro do Caminho da Muralha, a estrada que ligava Huo-fen a Hálcora.

— Você está bem? — a garota perguntou, ajeitando as lentes. — Eles te machucaram?

A barda analisou a estranha de cima a baixo. Tranquila demais... Mas não via armas ou símbolos visíveis.

— Você acredita que uma garota não pode viajar sozinha sem ser abordada por esses ratos da Cidade-Arsenal? — Amellie disfarçou, abaixando o florete devagar. — Encontraram mais do que esperavam, com certeza...

— Girl power! — a jovem ergueu um punho cerrado em comemoração festiva. — Meu nome é Marsh... Mary Sue.

— Janete — Amellie apresentou-se com um nome falso automático. — Hum... que cheirinho bom é esse?

— Ah... porco! — "Mary Sue" puxou uma marmitinha de pano ainda fumegante de dentro da bolsa. — Eu ganhei no leilão do orfanato. Mas eu sou vegetariana... quer um pouco?

— Se eu me importo?! Estou faminta! — Amellie aceitou a marmita sem pensar duas vezes. — Vai para o Oeste?

— Hálcora. Pegar um barco.

— Que coincidência... Tipo, não para pegar um barco, mas... Se importa se formos juntas? Diminui a chance de assaltantes incompetentes.

— Não se preocupe... eu protejo você — Mary falou com uma confiança serena e inabalável.

As duas começaram a jornada lado a lado, deixando os corvos desacordados e amarrados para trás.

Amellie achava que viajar separada de Bentho seria o bastante para despistar os Corvos... mas o rádio indicava que eles estavam muito melhor coordenados do que o normal. E as saídas da cidade estavam prestes a fechar. Algo sério estava ocorrendo em Huo-fen; ela esperava, do fundo do coração, que Bentho tivesse escapado da confusão.

Mas... qual era a daquela mocinha de óculos?

Decidiu testar.

— Eu vou encontrar um rapaz em Hálcora... — Amellie comentou, mantendo o passo na estrada, simulando uma excitação para despistar sua companheira de jornada. — Tenho um desenho dele, quer ver?

— Adoraria! — Mary acenou, empolgada.

Amellie desembrulhou um dos cartazes que trazia consigo, dobrando a folha com cuidado para ocultar os dizeres "DESAPARECIDO". Queria ver a reação da estranha ao ver o rosto de Bentho: se fosse da Guarda ou dos corvos, iria dar algum sinal. Enquanto segurava o papel com a mão direita, sua mão esquerda repousava discretamente na empunhadura do florete.

— Oh... ele é bonitão! — Mary comentou, inclinando-se para olhar.

— Você acha? Eu não sei... — Amellie insistiu, observando as reações da garota.

— Vem cá... ele não foi cadete ou algo assim?

Amellie arqueou uma sobrancelha, os olhos estreitados. Disfarçava como mestra sua tensão quase plena.

— Por que a pergunta?

— Acho que eu o vi uns anos atrás, na parada de aniversário do Levante de Blunt — ela comentou com a simplicidade de quem lê a previsão do tempo. — Por causa de meu pai, eu não pude ficar e perdi o desfile dos capitães... Mas acho que trocamos duas palavras no gradil... Sim, eu estou sempre certa, com certeza é ele!

A garota de óculos parou abruptamente e olhou para a barda com os olhos arregalados de susto:

— Por favor! Ele é seu namorado, né? Eu juro que não quis insinuar nada!

Amellie piscou, tentando capturar qualquer vestígio de falsidade, mas não conseguiu nenhuma leitura dúbia na jovem. Mary Sue parecia genuinamente confusa e com a cabeça a mil, mas sem um pingo de medo real.

— Quando eu me encontrar com ele, eu mando um "alô" seu — Amellie falou, estampando seu sorriso mais convincente. — E você... de Hálcora vai para onde?

— Nova Etiópia, visitar uns parentes.

— Uh, chique! — Amellie elogiou, enquanto mastigava um pedaço do que ela podia jurar ser o melhor filezinho de porco que comera nos últimos noventa anos. — Vai num navio nobre ou...

— Eu consegui uma passagem no mesmo orfanato do leilão e... olha que engraçado — ela mostrou o documento transacional com o carimbo de recebimento. — "Deixa em Branco". Que nome engraçado para um navio, não é? Se não fosse no orfanato, eu até suspeitaria que foi um golpe...

Amellie travou o passo no meio da estrada, com a carne no meio do caminho para a boca.

— Não... "Deixa em Branco" é um navio de verdade, mas... então ele vai estar em Hálcora daqui a dois dias?! — a barda murmurou para si mesma.

— Conhece alguém do navio?

Amellie abriu um sorriso de quem acabara de ganhar um trunfo na mesa de jogo.

— Não importa! — a barda desconversou, pegando mais um pedaço suculento de porco. — Esse prato é sensacional! Tem certeza de que não quer mesmo?

— Fique à vontade!