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27 de setembro de 2026

MISSÃO HALLOWEEEN - CENA (2) - A Grande Audiência


 À frente de todos, Silas Rictus lidera a marcha com os seus passos largos e cômicos, balançando a lanterna dourada cujos reflexos dançam sobre a relva alta do terreno baldio. Ao fundo, a silhueta do colégio decorado para o Halloween brilha fracamente, cada vez mais distante à medida que avançam para as traseiras, em direção ao futuro e descampado campo de futebol.

A empolgação é palpável em dois dos jovens: Marcus caminha com passos firmes, ainda a sentir a adrenalina do número das facas, enquanto Bia o acompanha de perto, fascinada com cada detalhe daquele cenário sombrio e teatral, absorvendo o espetáculo à sua volta. No entanto, o clima entre os outros dois é bem diferente. Leonel segue um passo atrás, os olhos atentos ao horizonte escuro da mata, visivelmente receoso com o rumo que a brincadeira tomara e com a distância da civilização. Ao lado dele, Margaret cruza os braços dentro do seu sobretudo, visivelmente incomodada e com o cenho franzido, lançando olhares frequentes para trás.

— Estamos indo para longe dos prédios principais — resmunga Margaret, a voz cortante quebrando o silêncio da noite, enquanto a bota afunda ligeiramente na terra solta. — Isto já deixou de ser uma avaliação escolar há muito tempo.

Silas para por um segundo, vira-se com um sorriso largo pintado na maquiagem branca e ergue os braços, ignorando o desconforto da detetive:

— Elementar, minha cara Margaret! O verdadeiro espetáculo nunca acontece onde há regras e paredes de cimento. Mas o verdadeiro picadeiro estará ... bem perto agora pelo que vejo...

A lanterna de Silas começa a mudar de cor. Primeiro, uma luz mais fria... mas logo, estabiliza-se em uma luz violeta.

— O que eu falei das "fadas violetas", Bia? — Ele comenta sem olhar totalmente para trás.

Bia hesita em continuar.

— Ei... foi um truque de química! — Marcus cola nela.

— Isso está estranho... — Bia comenta.

— Eu vou levar Bia para o ginásio. — Margaret se voluntaria. — Eu volto logo...

— Que nada! — Marcus comenta. — Halloween é para isso mesmo! Um pouquinho de susto...

— Para com isso, Marcus. — Leonel se interpõe. — Não vamos fazer pressão nela. Se Bia quiser ir embora, ela vai! Certo, senhor Silas?

— Tal qual uma mamãe pássaro fico triste, mas deixo minha passarinha voar do ninho... — O palhaço fala, teatralmente.

Bia encara o resto da estrada. Havia um bosque bem próximo, com lanternas. Havia algo preparado.

Marcus e Leonel eram grandes. Maiores que Silas.

— Marcus... — ela comenta. — Você me protegeria?

Leonel fica ofendido. Marcus estufa o peito.

— Eu prometo que estarei lá para você! — fala enfim.

— Ai-ai... — Margaret resmunga.

Silas ainda espera algum desenvolvimento, mas com os quatro mais ou menos na mesma mentalidade, ele volta a marchar.

— A gente vai para algum ensaio ou a apresentação é por aqui? — Leonel pergunta.

— Já iremos perante a Grande Audiência! — Silas responde.

— Que "audiência"? — Margaret comenta. — Todos os carros estão lá atrás!

Silas não responde.

As primeiras árvores do bosque surgem. Além delas, a trilha tinha tochas tiki, feitas de bambu e acumulando óleo para um pavio, mas o pavio também usava chamas violetas, dando um ar tenebroso.

Foram poucos metros, o colégio ainda era visível, até que as lanternas japonesas, igualmente violetas, indicavam um espaço entre duas árvores, com iluminação de ambiente interno, limitado só àquele espaço. Precisariam se encolher para passar... mesmo Bia, a menor dos cinco...

E de lá, uma música circense era ouvida. Um vozeril animado. De tempos em tempos, aplausos. Mas as árvores não podiam ocultar algo tão vultoso como aqueles sons estavam deixando transparecer.



— Aí! — Comemora Marcus. — Estava errada, Margaret! Tem um festival por aqui!

— E quem é que veio aqui, se quase todo mundo do colégio tá no salão? — A detetive insiste. — Senhor Silas... você é professor? Funcionário? Qual sua ligação com o colégio?

— É tão... lindo... — Bia comenta enfim.

— Pode ir na frente, querida. — Silas dá um passo para o lado..

Bia parecia hesitante. Ela olha para Marcus, que sorri e acena.

Mesmo Leonel estava mais crédulo agora que parecia algo com "estrutura", não uma "Vala" com um palhaço psicopata.

— Acho que são caixas de som. — ele comenta. — Mas a perspectiva é legal... não é, Margaret?

A detetive estava ainda receosa.

Tochas violetas... A lanterna... Poderia ser um efeito químico... E Silas tinha o "jeitão" de professor de química que leva seu trabalho a sério demais.

Mas Margaret também... fumava.

Escondido.

E com o maço, um isqueiro.

Ela pega o isqueiro, como se sua intuição dissesse algo...

Era um isqueiro normal.

Ainda assim, quando acendeu... a chama saiu violeta.

— Puta que pariu...

Ela estava tão perplexa que mal percebeu que Bia já havia entrado. Margaret corre, não na direção da entrada, mas para contornar uma das árvores...

... Não havia nada do outro lado.

Nem a passagem, nem os barulhos. Nem Bia, que deveria ter passado segundos atrás.

— Puta que pariu! — ela urra e começa a correr, parando nos braços de Leonel e Marcus.

— Legal, né? — Marcus comenta. — Eu vou agora...

— Não... — Margaret protesta. — É bruxaria! Isso aí é que nem o filme "Poltergeist"! A menina na TV!

— Sim, espelhos e fumaça! — Leonel comenta. — Eu vi um documentário do Spielberg...

— Não! — a detetive protesta. — A Bia SUMIU MESMO!!!

Os jovens olhavam com desdém o comentário, mas não podiam negar que algo estava errado.

— Vamos embora daqui! — Margaret agarra Leonel, mais confiável, e começa a se afastar.

Então, Silas solta, com um tom sinistro:

— Seria uma pena... Bia... Sozinha lá...

Aquilo detém a detetive.

Iam mesmo abandonar uma garota... a mais nova deles?

Precisavam de um adulto? Não. Leonel era maior que Silas... Marcus tinha faca e instinto de sobrevivência. Era só um palhaço psicopata... Mas ia fazer o jogo dele.

— E aí, Margaret? — Pergunta Leonel. — Acha que é maluquice ou devemos sair?

A jovem se encolhe junto do Cavaleiro e mostra... Um telefone celular StarTAC. Ela mostrou ao amigo que já havia digitado "911", e bastava apertar "enviar".

— Tá... é um truque assustador. — Margaret comenta. Ela suava, mas disfarçava como podia.

— Se quiser saber como é que se faz... basta cruzar o portal! — Fala Silas como desafio. — O último desafio de Margaret P.I.



Ela fez um sorriso convincente e de atitude.

— Eu sou a próxima então... — Fala com deboche.

Silas sorri de volta. Aqueles olhos vidrados sem piscar.

Margaret não consegue esconder um descontentamento. Esbarra no ombro do palhaço para conseguir espaço... e se aproxima.

Realmente ela via o que parecia um corredor, com música e gargalhadas. Era como a porta de um picadeiro de um circo, por mais improvável que fosse. Mas antes de cruzar o limiar, Silas fala:

— Detetive, eu cometi um segundo crime esta noite! 

Margaret, alertada, para. Olha para trás.

— Deixe-me adivinhar... — ela diz debochada. — Sequestro?

— Não. — Silas responde. — Destruição de propriedade.

Silas bate o seu cajado no chão. Um *crack* é ouvido...

Margaret olha para o chão. E vê... Seu Motorola, destruído.

Ela entra em pânico. Se espreme para voltar... Mas Silas toca nela com a ponta do cajado...

Um flash de luz ocorre, e a detetive é empurrada através do vão. Margaret dá um berro de assombro, que após alguns segundos, some.

— QUE PORRA É ESSA?!? — Urra Leonel.

— Temos o primeiro talento oferecido à Grande Audiência! — Silas diz. — Sua amiga terá a mente sugestionável de milhares para ler e deduzir!

— O que você fez com elas, seu filha da puta?!?

Sem pensar direito, Leonel estendeu a espada de LARP para Silas, que olha incrédulo.

Percebendo o que fez, Leonel olha para Marcus. Ele tinha facas de verdade.

Mas Marcus, o sobrevivente, fascinado por facas, estava apavorado e sem reação.

— O Cavaleiro quer salvar as donzelas com uma espada que não tira sangue? — Silas provoca. — Eu aceito seu desafio, herói!

O palhaço estende a mão ao bolso, tirando de lá seu "sabre de balão" que fez ainda no ginásio.

— Você é um puto louco! — Leonel urra. — Eu vou quebrar tua cara!

— *En garde!* — fala debochado o palhaço. — Vamos não-tirar-sangue um do outro!

Leonel era maior, mais alto. E mesmo sendo só uma espada de LARP, ele podia fazer um estrago se descumprisse as regras: acertar no rosto ou virilha do inimigo. O palhaço tinha uma espada de balão...

Silas sacode a espada de balão contra a espada acolchoada. O balão estoura. O acolchoamento e o cano interno da espada são cortados.

Dentro do látex inflável havia um sabre de verdade.

Quando Leonel percebeu, a ponta da espada estava estocada em seu coração. Uma enorme mancha vermelho-escura, quase preta sob as luzes violetas, cobria sua fantasia estampada.

A força das pernas cessa. O jovem se ajoelha diante do palhaço.

— Oh, vasos sanguíneos são tão... delicados... — o palhaço resmunga com ironia. — Será que consegue se arrastar de volta ao colégio ou sangrará antes de conseguir ajuda?

Leonel olha para Marcus, que estava pálido... Não concebia o que estava acontecendo.

— Eu vejo uma saída, cavaleiro... — O palhaço sussurrava ao jovem. — Você precisa de tempo. Aqui fora, o tempo não está do seu lado... Mas na Grande Audiência, o tempo é perpétuo. Você é um "sacrifício". Um herói nobre, embora tolo. Viverá para lutar, perder, sangrar, por anos e anos... Basta seguir... Vá atrás de suas amigas!

Leonel chorava. Estava com medo.

Estava sozinho.

Ouvia ao longe as gargalhadas. A vida. O espetáculo.

Lá, talvez tivesse chances.

Ele cambaleou, ajudado por Silas nos primeiros passos. Continuou sozinho mais alguns, e eventualmente, caiu de bruços.

Precisou se arrastar. Chorava copiosamente.

Uma vez que suas pernas cruzaram o limiar, ele também sumiu.

— E então... restou um.

Silas encara Marcus.

Toda a bravata. Toda a adoração por facas. O talento de atirar.

Mas jamais imaginou algo como aquilo.

Três vítimas. Sobrenatural. Será que tem drogas envolvidas? Ele bebeu do ponche...

Silas aponta com o queixo. Aos pés dele.

Marcus olha.

Eram um estojo. Seis *Viper-Edge Pro*. Argola no cabo.

O palhaço não expressou preocupação com aquelas armas estarem ao alcance do cigano. Nem que ele ainda tinha as suas próprias facas. Nem estava em "posição de duelo"... Estava só apoiado no cajado, na lateral daquela entrada "poltergeist" como definiu Margaret.

Na mente dele: podia atirar as adagas mais rápido que o palhaço poderia reagir. Poderia até usar as vipers. Acertaria nas pernas para a polícia interrogar.

Mas Marcus, com seus problemas de disciplina e atitude... era só um garoto.

Ele correu.

Ele tinha vergonha da covardia. De não lutar. De abandonar seu amigo... A Margaret que viu o problema acontecendo...

... Mas e Bia?

— Marcus... — uma voz fantasmagórica e familiar ecoou. — Você prometeu me proteger...

Era Bia. Mas também não era.

Marcus ainda queria correr... mas não conseguiu.

Seu corpo paralisou, com uma aura violeta.

Silas voltou-se para a entrada, apavorado.

— Não! Não era esse o acordo!

— Marcus prometeu me proteger, e eu demando a proteção.

"Bia" saía pelo portal. Mas não era Bia. Não era mortal.

— Isso não faz parte do nosso acordo! — Silas protestou.

— Três atrações garantidas na Noite de Todas as Bruxas. — A voz de Bia era um eco. Como se múltiplas jovens com tons ligeiramente diferentes falassem ao mesmo tempo.

— Foi por isso que você veio para o colégio?!? — Urrou Silas. — Para me sabotar? Eu ainda ia caçar o garoto! Você...

"Bia" olhou para o mestre de picadeiro. Com autoridade.

Silas começou a suar. Seus olhos mostravam um horror que contrastava com o sorriso pintado em seu rosto.

— V-você tem todo o direito de mudar os termos. — Silas corrige-se. — Você é a Fada Violeta. Você é a *Grande Audiência*.


Marcus não escolheu atravessar o limiar. Ele teve a vontade roubada por uma promessa que fez sem pensar.

Por isso, não contava para o Palhaço.

Silas Rictus prometeu três atrações.

Só conseguiu duas.

Por mais um ano, ele deverá entreter a Grande Audiência, que não é uma garotinha vestida de fada, nem uma jovemzinha. Ela era o que quer que escolhesse ser. O que quer que alguém oferecesse a ela. Não precisava ser um corpo só, podia ser todo um auditório. Ou algo abstrato como o som de aplausos, ou lanternas violetas refletidas em uma poça.

... Para Silas, Sempre terá o ano que vem.




MISSÃO HALLOWEEEN - Cena (1) - Show de Talentos



1996. Em Cornwalls, Alabama, o velho ginásio da cidade transformou-se para uma nostálgica festa de Halloween dos anos 90, enfeitado com fitas negras e alaranjadas, fantasmas de papel e abóboras. Na pista de dança encerada,  dezenas de jovens fantasiados dançavam e riam ao som da música sob refletores multicoloridos. À direita do salão, um corredor levava a uma área onde uma placa destacava as inscrições para o show de talentos (Talent Show Sign-Ups). Contudo, à medida que se avança por aquele acesso, a música alta do ginásio ia ficando abafada, distante... dando lugar a uma penumbra deserta.


Seguindo pela penumbra do corredor, Marcus e Leonel caminhavam lado a lado, trocando provocações. Marcus, o mais baixo e musculoso, ostentava os braços livres em uma roupa de cigano, complementada por um coldre repleto de facas de arremesso. Ele era o ousado da dupla, o idealizador daquela incursão que pretendia testar os limites do colégio ao se inscrever como atirador de facas. Ao seu lado estava Leonel, alto e de membros compridos, vestido com um collant estampado simulando uma armadura medieval e carregando uma espada de LARP feita essencialmente de silvertape. Eles eram improváveis amigos — uma ponte construída porque a mãe de Leonel trabalhava com a de Marcus —, mas a descoberta recente do Live Action Roleplay havia dado a Marcus a desculpa perfeita para seu "amor por lâminas": se o colégio vetasse as facas de arremesso, eles entrariam com uma simulação de combate medieval.

A fila, contudo, parecia minguada. Não havia professores ou qualquer autoridade fiscalizando o registro; apenas placas improvisadas indicando a entrada de um vestiário em reformas. Ao empurrarem a porta, imaginando encontrar dezenas de concorrentes, depararam-se com apenas duas pessoas.


A primeira era Margaret, conhecida dos dois embora não do mesmo círculo. Sabichona e filha de um ex-professor, ela exibia uma atitude confiante, vestida com um chapéu fedora, um sobretudo escuro e um colete sobre o vestido.

— Eita! Os dois psicopatas! — observou ela, cruzando os braços. — Leonel, eu até imaginava nessa vibe, mas você... Michel né?

— Marcus — corrigiu o jovem, irritado. — E errou feio, a ideia foi minha.

— Bem... — ela deu de ombros. — Qualé da parada? Não ficou claro. Só estou eu e a novata aqui até vocês chegarem.


Os dois olharam então para a última competidora. Era Bia, uma garota de 17 anos, muito magra e baixa, vestida de fada com um chapéu cônico, asas de celofane e um calçado negro robusto. Toda a sua roupa puxava para tons de violeta, combinando com a varinha de condão DIY que segurava e a lanterna de luz roxa que iluminava fracamente o ambiente. Ela abriu um sorriso hesitante, parecendo prestes a desistir.

— Eu... eu sou a Bia — murmurou, encolhida. — E meio que já desisti. Só queria assistir aos testes, se deixarem.

— Ué, desistir por quê? — Marcus cresceu-se para a novata.

Leonel cutucou Margaret de relance, conhecendo bem o jeito conquistador do amigo, que era anos mais velho e costumava arrumar confusão com isso.

— Bia, você nem disse o que ia fazer — interveio Margaret, salvando a situação.

— Ah, eu pensei em desfilar, mas a roupa não é tão boa... Ou então poderia cantar. Mas vou morrer de vergonha com plateia — disse a garota, acuada.

— Ah, canta aí! — insistiu Marcus. — A esta hora só vamos ser nós quatro!

— Dê espaço para ela, Marcus — pediu Leonel, cuja timidez natural muitas vezes cedia lugar ao instinto protetor que tinha com as irmãs.

— Pelo visto... — Margaret cortou o assunto, olhando para o aspirante a cigano. — Só eu e o Marcus vamos pensar fora da caixa. Facas de novo?

Marcus abriu um sorriso maroto e exibiu seu colete. As bainhas sustentavam facas de arremesso reais, adaptadas de malabares. Colecionador de canivetes e facas desde a infância, ele praticava o lançamento desde cedo por pura fascinação temática, e não por violência. Contudo, bem no momento em que ele exibia suas armas, um som seco ecoou pelo vestiário vazio: uma porta batendo com força no fim do corredor, seguida pelo barulho estridente de papel sendo rasgado.



O barulho de papel rasgado pareceu vir acompanhado de uma risada abafada. E a figura estava lá dentro, enfim.

Era um homem obviamente mais velho, indefinido pela maquiagem pesada, alto e magro, trajando uma fantasia de palhaço com mestre de picadeiro, que parecia ter consumido todo o orçamento de figurino de uma pequena companhia teatral. O rosto estava coberto por uma camada de maquiagem branca, aplicada com entusiasmo mais do que precisão, cortada por desenhos negros ao redor dos olhos e um sorriso vermelho exagerado que se estendia além dos limites naturais da boca. Um nariz vermelho completava o conjunto. Sobre os cabelos desgrenhados repousava uma cartola com chifres.

O restante da roupa era ainda mais extravagante. Um casaco comprido de veludo vermelho e preto, cheio de bordados dourados, correntes, botões metálicos e ombreiras que lembravam uma armadura medieval, cobria uma camisa de babados. Faixas de tecido pendiam da cintura sobre calças escuras listradas, enquanto botas pesadas completavam o visual. Em uma das mãos, ele carregava um cajado dourado cuja ponta ostentava uma pequena cabeça de bufão de aparência macabra.

Apesar de toda aquela parafernália, o sujeito parecia perfeitamente à vontade.

— Oh, meus ~Heróis e Horrores~ desta noite! — ele começou, com voz alta e divertida, como um profissional dramático. — Parece que temos um verdadeiro set aqui! Eu sou *SILAS RICTUS*, e serei seu pré-avaliador!

— "Pré... avaliador"? — Margaret ergue uma sobrancelha com atitude.

— Por mais que meu vasto currículo me torne um expert em artes, talentos, halloween, sobrenatural, psicologia infantil e Educação Física... — ele fala sem pausa, como um monólogo de improviso cômico. — Eu no final não escolho os vencedores. Os APLAUSOS serão o júri! O veredito! Vá, o que me diz, Columbo?

— Bem, "Silas" — Margaret ainda tinha a voz desafiadora. — Primeiro, ganhou uns pontos por não me chamar de "Carmen Sandiego". Meu nome é Margaret, e eu estou pretendendo fazer... Sabe o que é "mentalismo"?

— A arte milenar de fingir que lê mentes? — Silas gargalha. — A Psicologia Invertida com Ar de Superioridade?

Margaret se impressiona. Seu lábio inferior contrai com espanto.

— Eu tenho um ato assim. Tecnicamente é "mágica", mas eu me passo por detetive. Sabe como Sherlock Holmes faz nos livros dele? Olha manchas no joelho e deduz que o assassino enterrou a arma do crime no gramado?

— Poderia demonstrar? — o mestre fala.

A detetive fica receosa.

— Eu... pretendia fazer com o público. — Ela confessa. — Sempre tem uns que, se eu jogar certo, adivinho até o que ele está pensando, uns mais predispostos...

— Eu sou seu público, querida! Tente em mim!

Silas joga as mãos para trás e a encara. O olhar vidrado, sem piscar. O sorriso travado como se os dentes estivessem colados.

— Eh... o senhor é difícil... — ela confessa. — Tá comprando o papel de "palhaço psicótico"... Não pesco nada...

— Eu ajudo. — Silas inclina a cabeça para o lado. — Esta noite eu cometi meu primeiro crime. Pode dizer qual seria?

Leonel cutuca Marcus, apreensivo. O "cigano" cutuca de volta.

— Eu...

Margaret hesita. Mas ela inspira... Estende o dedo quase tocando o nariz vermelho do palhaço... Ela passa ao seu lado... E algo branco sai do rosto do palhaço.

Não era a maquiagem... Era...

— Glacê? — Margaret comenta. — Você roubou a torta que estava no armário 63!

Silas sorri. Mostra as mãos. Uma torta branca, mais um spray de glacê acumulado em um prato de papelão que um prato genuíno. Todos aplaudem.

— Quando foi que ele pegou aquilo? — Marcus comenta.

— Qualé? Foi combinado? — Leonel protesta. — Até o número do vestiário?

— Eu vejo grandes coisas em seu futuro, detetive Margaret! Vai ver, sou mentalista também! — Silas cumprimenta. — Considere-se pré-aprovada. Vamos para o palco em breve... Quem quer ser o próximo?

Marcus levanta o dedo com confiança. Leonel dá um passo para o lado.

— Eu não sei se o colégio vai aprovar. — ele fala. — Mas eu faço malabarismo e arremesso com facas. Trouxe até as minhas!

Silas entra no espaço do jovem, quase afundando o rosto no colete do jovem.

— Estas não seriam Kurotetsu V-10? — ele fala. — Boa aerodinâmica!

— Especialista em facas também? — Marcus desafia.

— Eu sou mais um cara das Viper-Edge Pro, argola no cabo para girar antes de lançar. — Ele ri. — Eu acho que tem umas assim na Grande Audiência... Se quiser tentar com elas na hora do vamos-ver.

— Parece legal. — Marcus se esforçava para conter seu entusiasmo.

— Bem, quem gostaria de se voluntariar para o mestre das lâminas? — Silas estende as mãos até Bia. — Podemos fazer aqui  se tivermos uma assistente corajosa...

Os quatro se assombram.

— Eu não... não ia usar alvos humanos. — Ele confessa. — Tenho uma boneca inflável que eu ia...

— Boneca inflável?!? — Leonel ri.

— Não começa! — ele protesta. — Bem, eu não acho que a escola iria...

— Se o "não" você já tem, por que não mostra? - Silas insiste. — Se não tiver risco de vida... que graça tem?

— Você é louco, cara!

O palhaço vai até o fim do corredor, apanha uma mesa de compensado sem uma das pernas e a levanta. Era um "alvo" improvisado. E então estende-se  na forma de um "T" na frente do compensado. Silas se torna um alvo.

— Eu não vou fazer isso! — Marcus protesta.

— Eu sei que você QUER! — Silas fala com a voz sinistra.. — Sempre foi o seu sonho. Mas sempre teve medo! Treinou com manequins, bonecas... Aqui é o próximo passo... Um homem!

— Vamos embora, Marcus. — Leonel insiste.

Marcus parecia aéreo. Sim, ele confiava em sua mira... Mas o medo de "e se não" sempre o reteve. Mas esse medo parecia longe... Algo nas palavras do palhaço... O inspirava.

— Afastem-se!

Leonel deu um passo para trás, não obedecendo, mas de assombro. Margaret puxou Bia pelos ombros, colando-a no corredor estreito.

Havia uma linha reta, só com Marcus, Silas e o compensado atrás dele... Três facas.

Concentração... Silêncio.

*Thwap. Thwap. Thwap.*

A terceira por pouco não corta os cabelos desengrenhados do palhaço... Silas nem sequer piscou.

— Eu... — Marcus começava a respirar profundamente. — Não sei o que deu em...

— Pré-aprovado. — declarou Silas.

— Cara, isso é loucura! — Leonel protesta. — Eu estou indo embora...

Silas se adianta e interrompe o "cavaleiro". Precisa empurrar a porta de volta quando Leonel ameaçõu abri-la.

— Já tão cedo?!? — Ele fala.

— Vocês estão loucos?!? — Leonel resmunga.

— É isso mesmo ou você só não se acha bom o suficiente?

— EU... — Leonel hesita. A coisa com as facas realmente o deixou ansioso, mas não. Era apenas uma desculpa. — Eu era só o "plano B" se Marcus não pudesse usar facas. Agora que ele está pré-aprovado, eu não... Não sei?

— O que é essa coisa em suas mãos?

Ele estende a espada de LARP.

— O plano B era uma demonstração. — ele fala enfim. — Eu... Eu e Marcus íamos simular um duelo, talvez chamar alguém para o palco...

— Leonel é campeão de nossa liga local. — Marcus comenta. — É por causa desses "braços de orangotango" dele.

— Essa espada não parece ser capaz de extrair sangue... — Silas olha como se avaliasse.

— É acolchoada. — Leonel explica. — Ninguém se machuca com ela... a não ser que faça merda, golpeie o rosto... Tem regras.

Silas saca algo do bolso: um balão murcho de fazer bichos. Ele começa a soprá-lo. O látex se alonga, formando um longo cilindro imperfeito. Com gestos rápidos, Silas faz um guarda-mão. Ele tinha agora um "sabre" de balão.

— En garde!— diz ele. — Permita-me não tirar sangue de você!


A figura era tão patética que os quatro começam a rir, mas Silas só para quando encosta a ponta do balão no coração de Leonel. Então, pendura seu "sabre" na cintura.

— É... você não é tão bom nisso. — Ele fala. — Mas na audiência tem um coroa japonês com... Como é o nome daquela espada de madeira de treino?

— Um Bokken? — arrisca Leonel.

— Isso! — o palhaço sinaliza. — E todo um aparato... Luvas com reforços, a máscara que parece uma grade?

— É... Um professor de Kempô?

— Algo soa certo, acho que é isso. — o palhaço concorda. — Que tal fazer um Katá, ou um sparring só para tentar? Deixa que eu faço a ponte. Pode até rolar umas aulas grátis, mesmo se não for o campeão do concurso.

Marcus começa a sussurrar algo com Leonel. Silas dá um passo para trás. Olhos vidrados. Em Bia.

— E a senhorita? O que veio fazer aqui?

Bia parecia congelada... sem saber o que responder.

— Ela é costureira e cantora! — Margaret, protetiva, assume a frente.

— Eu só vim assistir, na verdade. — Bia corrige. — Ia usar isso como desculpa para ver o show mais de perto.

— Oh, típico da "fada violeta". — Silas observa. — Sabem criptozoologia? Antropo-arcadiano?

Os quatro adolescentes olham confusos.

— Já viram desenhos da Disney?

Os quatro concordam.

— Tinker Bell, uma fada verde. Selvagem e artreira, geniosa. A fada azul de Pinóquio... matrona... diz o que é certo e o que é errado... — Ele enumera. Mas sua voz parecia sombria. a maquiagem escorria um pouco sobre a testa. — Mas a fada violeta... Ela toma as coisas que ela gosta. E se deleita assistindo você perdê-las ...

Um silêncio entre o palhaço e a novata se instalou. Até que Marcus colocou a mão no ombro de Silas.

— Leonel concordou. — Ele fala enfim. — É isso? Nós três?

— Quatro! — Margaret observa. — A Bia vai querer assistir. Tem problema?

Silas se levanta com um sorriso enigmático.

— Vamos para o picadeiro!


🔽Prontos ou não, vamos à CENA 02!