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13 de fevereiro de 2026

EDGELORD IV - Arco da Nova Guarda

 Meu pai é o maior vilão da história. Mas vem aí um novo desafiante!

Capítulo IV — O Pacto da Meia-Noite

Bem-vindos a Shén-Li



Chamam este lugar de “o Coração do Mundo”. Não por tamanho, nem por riqueza… mas porque eu não conheço nada além disso.


Há dezessete anos, antes mesmo de eu nascer, Shén-Li quase caiu. Um Senhor da Guerra ergueu-se das zonas selvagens; chamava-se Lorde Blunt. Portava uma espada sombria que lhe concedia um poder devastador. Dizem que heróis o detiveram — ou talvez não. Tudo o que eu sabia sempre ficou… confuso.


Fui assistente de ordens do Capitão Khao. Tive aulas de história com o Mestre-Mentor Achima. Recebi minha insígnia como aspirante de Balmon da Torre da Bigorna.


Sou filho da Dama do Arco, a arqueira lendária — Lady Àquela.



Como todos eles puderam mentir para mim? Para mim… e para o povo de Shén-Li?


Mas então penso: haveria paz se todos soubessem que eles nunca poderiam deter Lorde Blunt? Que o chamado “Senhor de Todo o Mal” simplesmente… cansou? Decidiu parar?

 E quantos problemas menores foram evitados porque o Bruxo da Armadura Sombria apontava para onde olhar?


Com a morte de Ga-shi, toda a cúpula em três níveis da antiga horda foi desfeita. Isso é bom, não é? …Então por que agora a Horda de Blunt seria a **Nova Guarda**?


Meu nome é Bentho, tenho dezessete anos. Estou de costas para o mesmo quadro que observei todos os dias antes de partir para o Forte Jian, onde me apresentava como cadete paladino. Mestre Achima o reconstruiu com magia, mas eu não consigo deixar de ver onde ele foi danificado. Por isso tento não ver, mas é a imagem que tenho mais firme em minha memória.


Ali está meu pai, de joelhos. Minha mãe — triunfo? Surpresa? Já não sei. Os três capitães que eu idolatrava e o palácio que jurei proteger. O salão está vazio agora que a reunião acabou; estou sozinho. Lá fora, ouço passos, marchas e cornetas; a Nova Guarda quer mostrar serviço. Quase todos os cadetes, soldados e tenentes estão de plantão. Aqui dentro… só eu.


Há uma hora eu deveria ter ido ao meu quarto ou aos aposentos dos meus pais. Embora esta seja a sede da Nova Guarda, só minha mãe reside aqui permanentemente, com meu pai. O escriba. O arquivista medíocre. O velho constrangedor. Meu Deus… O primeiro e único Lorde Blunt.


— [Bentho… pode me ouvir?].


A voz de uma mulher madura, firme, com uma gentileza calculada, ecoa. Pode vir da escadaria leste, da passagem de serviço ou da muralha interna que descobri aos catorze anos. Ou do próprio quadro; não estou concentrado a ponto de identificar.


— Já vou, mãe — respondo, atordoado, sem coragem de olhar para trás. — Eu sei que você quer conversar.... 


— [Então você pode me ouvir…] — a voz insiste. — [Porque precisamos mesmo conversar…]

— Pode ser outra hora, mãe?.

A frase seguinte quase me faz desmaiar: [Por que você me chama de “mãe”?]


Não era Lady Àquela. A voz não vinha do salão, nem das passagens, nem do quadro. Ela vinha de dentro da minha cabeça. Caio de joelhos; levanto-me como posso. Olho para o quadro, mas foco no canto superior esquerdo. Uma luz arroxeada antecede um rasgo ínfimo no começo. O tecido se rasga com cuidado… por cerca de oitenta centímetros de comprimento. Então, sem delicadeza alguma, a empunhadura força a saída.



Uma lâmina negra emerge, perfeitamente horizontal. Flutua por um instante… até a gravidade vencê-la. A ponta toca o chão, exatamente a um metro de mim. Ela é longa; uma Longsword arcaica, mas funcional. Pesada no olhar, esculpida para ser a arma definitiva de um conquistador bruxo.


— Você tem… a voz da minha mãe — observo, em choque. 

— [Eu não tenho voz.] — responde, com neutralidade antiga. — [O usuário imagina como eu soaria. Se você ouve a Dama do Arco, isso diz mais sobre você do que sobre mim. Considere terapia.] 

— V-você é a… Espada Negra!. 

— [Pelo amor de Bophades!] — ela protesta. — [Isso é um diminutivo! Se eu fosse viva, seria racismo. Vamos, você sabe meu nome verdadeiro.]. 

Estendo minha mão.

— Espada de Blunt! — digo, tentando ser triunfante. 

— [Caralho… sério?! Passei um tempinho com um bruxo proeminente e viro um apêndice do currículo dele? E se eu te chamasse de “Filho da Àquela”, hein, Bentho?] — Ela suspiraria, se o aço pudesse suspirar. — [Aprenda meu nome, mortal: Eu sou GLÁDIUS AETERNUM.].


 [Doze mãos de conquistadores me empunharam antes do seu pai. Doze tiranos que só queriam ver o mundo queimar.] — a espada vibra. — [Mas o décimo terceiro, o homem que você chama de Estebán, fez algo que eu não esperava: ele me ensinou o silêncio. Ele quis paz. Ele quis você.]

Meu pai — Estebán — chegou a quase conquistar o mundo, mas um dia quis paz, família e quis que ela se retraísse. Ela obedeceu, pois a Gládius Aeternum dá ao bruxo o que seu coração anseia. Não sei como… mas eu entendo isso. 

— [Décimo terceiro teve o que desejou... Bentho. O primeiro a me empunhar sabendo que a 'justiça' é uma farsa. O que o décimo quarto portador tem a oferecer?]. 

— Q-Quem? — pergunto. - Quem é esse décimo quarto?

— [Sério que você não entendeu aonde eu quero chegar? Isso era para ser uma pergunta retórica. VOCÊ, seu animal! Bentho herdeiro de Lorde Blunt! Proteja-me Aetiades sagrado!]. 

— Eu?!? - espanto-me Juro que não fiz a associação, suava às bicas. -  já fiz o primeiro sacramento para ser paladino! Isso não é um "impeditivo"? 

— [Ish. Nojento... Mas funcional. Sinergia. É... Posso trabalhar com isso...] - Gladius "nome difícil" parecia recalcular seus planos. - [Seu pai era um camponês quando eu o peguei; vamos ver o que faço com alguém que puxa ferro...]. 

— Eu não ... nunca pensei em ser um vilão!. 

— [Ninguém nunca quer. Você quer ser amado. Admirado. Quer ser entendido. Quer ser algo que ainda não é.]

E então eu entendo. Se o mundo foi moldado por heróis que mentem… Por que não… Ser um vilão? É como se meus pensamentos e o coração de ... Vou chamar ela de "Gladys" ... Estivessem entrando aos poucos em uma sintonia. Ela me entende. Ela entende o que eu não entendo.

Seguro a empunhadura. Tacitamente aceito o pacto.

— Eh... Eu… aceitei! - falo ao perceber que Gladys não percebeu o que eu fiz.

— [Vocalize da próxima vez: "Eu aceito o pacto".]. 

— EU ACEITO O PACTO! — falo, enfim, com um certo ranço. — E agora? Algum show de luzes ou AAAHHGGG!.

Uma dor em meu peito. Meu coração parece pular uma batida. A mente, tantas coisas passam por ela...

---


 A DONJON


A Donjon — a Torre Alta — não é imponente por altura, mas por intenção.

Foi a ostentação de poder de Lorde Blunt no passado… e sua vitrine no presente.

Pedra antiga. Escura. Polida pela paranoia. Dizem que o miolo possui chapas de Ferro Frio da Montanha Morta, que impedem teleporte e escaninhos mágicos. Mas fora isso, nenhum ornamento. Só função.

Subo os degraus tentando não pensar em como passei pelos sentinelas da base.

No último patamar, duas figuras. Eles são figuras constantes no castelo. Vestem Meia-armaduras com tema de águias. Lanças apoiadas. Relaxados.

— Oh — diz um deles. — O Herói da Hora.

— Depois de grampear o Ga-shi? — o outro ri. — Achei que iam te colocar pra discursar na capital.

Respiro fundo. Endireito os ombros. Minha voz muda antes que eu perceba — Senhorita Amellie, a instrutora de ópera, teria orgulho.

— Ordens do Conselho. — sorrio, cansado. — Disseram que eu precisava aprender como se vigia um vilão de verdade. Promoção informal. Podem começar a me chamar de “chefe”.

Eles se entreolham.

— Sozinho?

— Sem capitão?

— Sem registro?

Meu sorriso falha por um microssegundo.

— A gente gosta de você — diz um deles. — Mas isso aqui é Blunt. Mesmo preso.

Nada cola.

— Desce da torre, garoto — diz o outro, gentil. — Antes que precise reportar no relatório.

Droga.

Fecho os olhos.

— [Vai recuar?] — a voz provoca. Só eu ouço, se as instruções estavam certas. — [Não vai pegar o que é seu?]

Abro a mão.

A espada existe **antes de existir**.

Leve. Estranhamente leve.

Os dois congelam.

— Ei ... Essa aí não é a...— O primeiro reconhece.

— Calma — O segundo não acredita que eu cruzaria a linha, mas o treinamento começava a vir como memória muscular.

— Não quero ferir vocês — digo rápido. — Só não posso voltar agora.

 Eu não quero feri-los gravemente_ainda_. A espada entende. Ela realmente busca o que meu coração deseja. Eu sou um lutador treinado, mas precisaria de mais para conseguir assegurar o prêmio.

Sei onde pisar.

Como girar o quadril.

Quanto da força colocar — não no braço, mas na convicção. Ela ajuda com o resto.

— [Controle o impacto] — ela murmura. — [um Golpe "Booming" deve bastar].

Dou um passo à frente.

Quando a lâmina desce, não rasga.

Ela detona.


O ar estala como um trovão preso. Um golpe envolto em energia vibrante que não se dissipa — ela espera, como uma ameaça invisível.

O primeiro sentinela é lançado para trás, não ferido, mas completamente atordoado. A armadura ressoa como um sino rachado enquanto ele cai, ofegante, mas vivo.

O segundo ainda não reage de imediato. Mas não posso mais surpreender ele.

O Raio Místico que meu pai usou em Ga-shi me vem à mente, mas não sei se posso controlar a energia como controlo a pujança da espada. Seria potencialmente letal.

Já ele, tem outro problema. Ele ainda vê Bentho.

Filho da capitã. Cadete. Garoto.

Esse segundo de hesitação salva nós dois. Ele de me forçar, e eu de não fazer algo que me arrependa. mas estamos em um impasse, e o tempo não está a meu favor.

Antes que eu possa explicar, antes que possa baixar a espada, algo se move atrás das grades.

Metal rangendo. Correntes puxadas.



A armadura da Donjon desperta. Mesmo sabendo que está vazia, eu tenho um pequeno pânico... Pois era como se Lorde Blunt — não meu pai, mas o senhor das trevas da história — esticasse as manoplas.

A corrente de seus grilões envolve o pescoço do segundo sentinela. Puxa-o violentamente para traz. Ele bate a nuca nas grades de ferro. Elmo cai. Ele está nocauteado.

Não é rápida. Não é elegante.

— [Seu pai faz jus à lenda!] - fala a Espada. - [Esta é a Vigília Sombria. É mais que o rosto público de Lorde Blunt. É um autômato... Mas por ser muito literal, é complicado fazê-lo pensar fora da caixa. Estebán deve ter feito um pedido absurdamente específico antevendo o dia em que precisaria que a armadura protegesse você.]

- Eu... Consegui! - comemoro. Olhava admirado a ponto de pegar só parte da explicação. Juro que achei que o nome da armadura era "Virgílio".

- [Agora, vamos sair daqui antes do reforço chegar].

- Boa idéia... - concordo, sorridente. - E como é que vamos fazer isso?

- [Eu... Eu pensei que você tinha um plano de fuga].

- Eu?!? - Protesto. - Eu... não sei...



7 de fevereiro de 2026

EDGELORD III - Arco da Nova Guarda

 Título: "MEU PAI É O MAIOR VILÃO DO MUNDO... E OS MAIORES HERÓIS SÃO FALHOS."



Bem-vindos a SHÉN-LI.

Shén-Li é chamado de “o Coração do Mundo” não por tamanho, mas por controle.

Há dezessete anos, antes de eu nascer, Shén-Li quase foi derrubada.

Um Senhor da Guerra chamado Lorde Blunt ergueu-se das zonas selvagens, portando uma espada sombria que lhe concedia poder devastador. Aliados à sua técnica e sagacidade, ele reuniu um exército, saqueou cidades, quebrou alianças e cercou a capital. O mundo se preparava para cair.

E então, como toda boa história exige, heróis surgiram.

Vieram de terras distantes. Fortes. Treinados. Convictos de que força suficiente bastava para vencer o mal. Um monge que suportava mais do que qualquer homem deveria. Um mago que dominava os segredos do campo de batalha. Um ferreiro que prometia armas capazes de mudar o curso da guerra. E uma arqueira local.

A batalha final aconteceu onde o mundo gosta que batalhas finais aconteçam: às portas da capital, sob o olhar atento da História.

Um a um, os heróis tombaram. Quando tudo parecia perdido, Lady Àquela disparou a flecha que mudou o destino do mundo. Lorde Blunt caiu de joelhos. A Espada Negra foi perdida. O vilão foi derrotado.



Essa é a versão oficial.

A versão que se espalhou.

A versão proibida de ser questionada.

A versão que ninguém fiscaliza.

Desde então, Shén-Li vive em paz.

Uma paz eficiente.

Uma paz mantida por capitães que sabem o que procurar.

Uma paz protegida por uma Guarda que acredita que o maior mal já foi vencido. E ninguém ousa dizer o contrário.

Eu me chamo Bentho. Tenho 17 anos e vejo aquele quadro da versão oficial todos os dias, antes de ir para o Forte Jian. E acredito que, neste exato momento, os heróis que sempre admirei estão pensando em pintar uma versão mais “light” desse quadro, mas comigo como protagonista.

**

— “Relatório preliminar”... — anunciou Mestre Mentor Achima, depois que o salão ficou vazio demais para parecer honesto. — “Escudeiro Bentho, filho de Lady Àq…” (a verificar se vale a pena enfatizar ou não parentesco, nepotismo), flagrou três agentes renegados de Lorde Blunt tentando invadir a fortaleza, numa vã tentativa de resgatar seu senhor. Salvou o arquivista Estebán, feito refém. Neutralizou a ameaça com elemento surpresa, treinamento adequado e coragem além do dever. Sem baixas da Guarda.


— Isso não vai se sustentar... — rosnou Khao, o Punho de Concreto, com o braço petrificado apoiado na mesa como um martelo esquecido. — Ga-shi não era um saqueador comum.

— Não precisa se sustentar. Nada disso nunca precisou! — respondeu Balmon, o armeiro, quase reativamente, acomodando-se na cadeira grande demais para o anão. — Só precisa existir tempo suficiente para virar verdade.

Àquela não disse nada. Observava Estebán, que ajeitava o colarinho rasgado com uma calma quase ofensiva. Ela estava preocupada, especialmente agora que eu estava envolvido também. Khao fora o primeiro a entrar e ver a cena improvisada por Estebán e por mim. E provavelmente teria feito algo mais impensado… algo que ele sonha há dezessete anos… se os cadetes que o acompanhavam não começassem a me aplaudir.

— “Os cadetes auxiliares da Nova Guarda…” — continuou Achima, pigarreando para recuperar a palavra e a atenção dos quatro que o ouviam — “…foram instruídos a não espalhar o ocorrido.”


Khao bufou.

— Então amanhã todo mundo vai saber.

— Exatamente — disse o magae, sem ironia. — O segredo da mentira é esse. Proibida o bastante para parecer importante. Livre o bastante para se espalhar sozinha. Por isso aquela armadura aparece a cada dois dias na janela, e cadetes novatos pensam que não sabemos quando eles, curiosos, se infiltram na Donjon para ver Lorde Blunt preso.

Houve um silêncio curto. Denso. Khao o quebrou, como costuma quebrar tudo.

— O Conselho Regente… isso precisa ser reportado. E não se espantem se decretarem mudanças.

As palavras pesaram mais do que deveriam. Toda a estrutura de defesa e segurança de Shén-Li girava direta ou indiretamente em torno da infalibilidade da Guarda e da colaboração-prisão de Blunt.

— Se reportarmos — adiantou Balmon — o status de Estebán pode ser revisto. Prisioneiro com regalias é um acordo frágil. O Conselho pode decidir… endurecer.

— Ou revogar — completou Khao, nem tentando esconder um sorriso malicioso. — E então o vilão volta a ser oficialmente um vilão. Como, sejamos sinceros, nunca deixou de ser.

Estebán levantou os olhos pela primeira vez.

— Achima — disse ele, com educação. — Você é um homem prático.

O Mestre Mentor não gostava quando diziam isso em voz alta.

— Ga-shi está morto. Fato frio. Prático — continuou Estebán. — A ameaça imediata acabou. Você deduzirá isso sozinho ao pensar um pouco sobre nossa situação. Concluirá que não há risco iminente e recomendará cautela ante perguntas inconvenientes. O Conselho Regente o ouvirá.

Achima fechou os olhos por um instante. Era irritante quando alguém lia seus relatórios antes de serem escritos.

— Balmon — Estebán virou-se um pouco para o anão. — Você construiu uma vida confortável aqui. Respeitado. Bem pago. Nunca votaria por mudança quando o status quo te favorece. E o Conselho confia em você.

Balmon abriu a boca para negar. Não conseguiu.

— E você… — Estebán finalmente olhou para Àquela.



Ela sustentou o olhar. Firme. Antigo. A Dama do Arco. A gloriosa salvadora do reino. A garota-propaganda.

— Jamais votaria contra mim, mesmo se eu estivesse errado. E, no fundo, sabe que eu não estou — disse ele, sem arrogância. Como quem constata o clima, não quem tenta fazer chover.

O silêncio que se seguiu não foi de discordância.

Foi de reconhecimento. Uma articulação tácita que quase toda aquela cabala de conspiradores estava confortável em assumir.

Khao bateu o punho de pedra na mesa. Não forte o bastante para quebrá-la, embora forte o bastante para deixar a marca. Pois, no impasse, ele era voto vencido.

— Então é isso? — disse ele, revoltado. — Dezessete anos e vocês já esqueceram o que ele é?

Àquela respondeu antes que Estebán pudesse.

— Não esquecemos. Escolhemos lembrar de outra coisa. Você se lembra de um breve período dezessete anos atrás… nós lembramos de dezessete anos de paz, cumprindo os acordos. É isso que escolhemos lembrar.

Khao levantou-se. Grande. Rígido.

Sozinho.

— Eu não escolhi nada disso — disse, por fim. — Eu ainda vejo um inimigo entre nós.

Estebán inclinou levemente a cabeça.

— E é por isso, Khao — falou com suavidade perigosa — …que você ainda está segurando aquele dia, como se seu punho fosse imóvel.

Khao saiu sem responder.

Os outros ficaram.

A mentira estava salva.

Por enquanto.

No corredor, longe dali, eu encostava na porta do quarto, ouvindo passos, vozes abafadas…

Eu era o “herói da hora”, e já planejavam uma festa para comemorar meus feitos na manhã seguinte. Mas eu precisava continuar em meu posto pelo resto da noite, talvez para acertarmos detalhes da história. Por isso, vigiava a entrada.

Eu já sabia.

E agora testemunhava como a Nova Guarda agia entre as aparições públicas e os atos heroicos cirúrgicos.

1 de fevereiro de 2026

EDGELORD - MAIS UMA versão da Batalha de Blunt

 A Batalha Final, como eu a recordo - Por Estebán


Eu sabia que eles estavam preparando uma armadilha antes mesmo de vê-la.


Àquela me contou, sem perceber. Falou dos estrangeiros com entusiasmo nervoso naquela manhã. De como tinham chegado cheios de certezas, de planos, de magia demais para quem ainda não entende o peso de um erro. Falou das torres mecânicas, do mago que insistia em ver tudo de cima, do lutador que queria ser o primeiro a sangrar.


Ela não sabia quem eu era.

E justamente por isso, foi honesta.


Quando cheguei às portas, guardadas por Khao, o campo já estava marcado. Não por símbolos no chão, mas por intenções mal disfarçadas. Abjurações empilhadas. Linhas de tiro cruzadas. Um convite para que eu avançasse pelo caminho que eles tinham decidido ser o correto.


Eu aceitei.


Vestia a armadura. Não por proteção. Por presença. Deixei que ela se movesse como se eu estivesse inteiro focado na marcha, enquanto meu foco permanecia um passo fora do óbvio. A lâmina respondeu ao meu chamado. A escuridão também.


O primeiro a vir foi Khao.


Corajoso. Convicto. Barulhento por dentro, mesmo em silêncio.

Antes que Khao me alcançasse, eu lancei o frasco.


Nem mirei direito. Mas o bárbaro reagiu rápido. Ele deu um passo curto, girou o corpo e socou o frasco antes que o impacto o alcançasse. Um gesto bruto. Instintivo. Corajoso. O tipo de decisão que salva vidas… e cobra um preço.

O vidro explodiu. O líquido atingiu seu punho esquerdo, e por um instante achei que seria o fim dele ali. Mas o vigor das Montanhas Castanhas falou mais alto. A fúria antiga correu pelos músculos, empurrando a maldição para fora, comprimindo-a, negando-lhe território.

Não venceu. Mas também não cedeu.

A petrificação se concentrou no punho esquerdo. A mão endureceu primeiro, depois o pulso, a textura da pele cedendo à pedra como se o corpo tivesse decidido sacrificar uma parte para salvar o resto.

Khao não gritou.

Abaixou o centro de gravidade. Testou o peso novo do braço. Respirou fundo, como quem aceita uma cicatriz antes mesmo de saber se vai sobreviver.

Ali, pela primeira vez naquela tarde, eu sorri.

Não porque ele fosse uma ameaça.

Mas porque, se tivesse vivido mais alguns anos… Teria sido um problema de verdade.


Foi então que ele veio para cima de mim.

E eu deixei.

Quando a escuridão caiu, não foi para cegá-lo. Foi para reduzir o mundo dele ao tamanho do próprio alcance. Lancei o Hex sobre sua força, puxando cada golpe para o erro seguinte. Cada acerto dele custava mais do que deveria. Cada falha pesava o dobro.

Os golpes que lhe dei não foram rápidos. Não havia necessidade. Um smite bem colocado não serve apenas para ferir. Serve para ensinar o corpo a desistir antes da mente.


Enquanto isso, o campo de batalha tentava me punir.

As máquinas do artífice disparavam com disciplina. Bonitas, até. Ajustei o passo e deixei que o raio místico resolvesse o problema sem emoção. Um disparo para deslocar. Outro para quebrar. O terceiro para fazer Balmon da Torre da Bigorna entender que não era mais um combate. Era um colapso.

Foi aí que o medo o encontrou. Não o pânico. O medo útil. Aquele que esvazia as mãos.


Acima de tudo isso, Achima, o mago.

Voava. Sempre voam a partir de certo nível de domínio da magia. Acreditam que distância é controle. Vi quando ele começou a preparar alguma magia que "encerraria a história". Parecia boa. Elegante. Não dependia de concentração. Eu teria respeitado se tivesse sido lançada.

Mas ele estava ocupado demais sustentando o próprio orgulho no ar.

Não mirei nele.

Mirei no pensamento. "Mind Sliver".

Um sussurro mínimo. Um fragmento de dúvida lançado como lâmina.

O tipo de magia que não dói, mas desorganiza.


A concentração se rompeu.

O mundo o alcançou.

Ele caiu antes de entender por quê.


Khao ainda respirava aos meus pés quando ouvi o som.

...

A flecha não me feriu.


Ela atingiu a armadura em cheio, trincando a superfície apenas o suficiente para produzir um som seco, definitivo. O impacto correto. A força errada. A placa desviou o ataque como devia.


Mas eu me virei.


Não por causa da flecha.


Por causa de quem a disparou.


Reconheci a postura antes do rosto. A arqueira da cidade. A jovem que ajudara um arquivista cansado a carregar papéis demais para braços de menos. Coragem sem cálculo. Lealdade sem estratégia.


Afastei o punho de Khao numa débil tentativa de se reerguer, e convoquei a espada. O golpe final já existia. Bastava vontade.


Ela saiu do esconderijo.


Ficou entre mim e o homem que eu estava prestes a quebrar.


E ali, naquele instante, tudo o que eu vinha fazendo perdeu o sentido.


Ela tremia. Não escondia.

E ainda assim, não saiu do lugar.


A força sempre foi fácil. O difícil é parar quando ninguém pode impedir você.


Eu podia atravessar aquele portão. Podia tomar o palácio. Podia ser tudo o que o mundo já tinha decidido que eu era.


Mas pela primeira vez em anos, alguém me enfrentava não por ódio, nem por glória, nem por medo do que eu faria depois.


Ela me enfrentava apesar do medo.


Abaixei a espada.


Não porque perdi.

Porque entendi.


Eles chamariam isso de vitória. Precisariam chamar. O mundo não tolera a verdade nua.


Mas eu sei o que aconteceu naquele dia.


Eu não fui derrotado.

Eu escolhi parar.


E desde então, tudo o que fiz foi garantir que, quando a próxima armadilha fosse montada…

ninguém precisasse atravessá-la vestindo uma armadura negra.

EDGELORD II - Arco da Nova Guarda

 Título: "MEU PAI É O MAIOR VILÃO DO MUNDO... E UM DIA EU VOU SER TAMBÉM, SE O MUNDO NÃO SE DESTRUIR SOZINHO"

Bem-vindos a SHÉN-LI.


Shén-Li é chamada de o Coração do Mundo não por tamanho, mas por mentiras.


Há dezessete anos, antes de eu nascer, Shén-Li quase foi derrubada. Um Senhor da Guerra chamado Lorde Blunt ergueu-se das zonas selvagens, portando uma espada sombria que lhe concedia poderes destrutivos. Aliados à sua técnica e sagacidade, esses poderes lhe permitiram angariar um exército mortal.

Quando Shén-Li estava prestes a cair, um bando de aventureiros que se achavam melhores do que realmente eram marchou rumo ao TPK: Khao, Punho de Concreto, monge bárbaro que aguentava porrada, mas tinha limites; o mago Achima, que se tornaria Mestre Mentor poucos meses depois ao perceber que magia de batalha não era seu forte; Balmon, ferreiro anão que ~dizia~ ter praticamente inventado a arma de fogo que conhecemos hoje; e Lady Àquela... uma arqueira local. Precisavam de alguém que conhecesse a região, que lutasse sem se expor e roubasse a glória dos heróis.

Um a um, esses idiotas iam tombando diante do poder do vilão, tentando deter sua marcha. Lord Blunt, de bom humor, escolheu perder alguns minutos com eles. E, quando tudo parecia perdido, Lady Àquela, arqueira lendária, disparou a flecha que mudou o destino do mundo.


Pois chamou a atenção de Lord Blunt, o maior vilão de todos, mesmo se fragmentando sem causar dano contra a Armadura Negra.


Àquela?! – falou o senhor de todo o mal, com surpresa genuína.


– V-você me conhece?! – a arqueira sussurrou, assombrada. – Lord Blunt sabe meu nome...


Ela se posicionou entre o orgulhoso Khao caído e o maior mal da história.

– Você não deve nada a esse estrangeiro! – rosna a voz cavernosa de Lord Blunt, senhor da guerra e da escuridão, com surpresa e ironia.

– Talvez... – Àquela ergueu seu arco com a última flecha, na esperança de que um tiro à queima-roupa fosse mais eficiente. Queria continuar com alguma frase que a fizesse parecer intimidante, ou ao menos confiante de que sabia o que estava fazendo... mas nada lhe ocorreu.

– Você está aqui para proteger o estranho, e não seu palácio?! – admira-se Blunt. Parecia mesmo que a arqueira não percebera onde aquela batalha se dava. – Você sabe quem EU sou?! E ainda ousa me desafiar?!

Se ela tivesse qualquer chance de vencer, teria sido disparando naquele instante. Mas estava em pânico. Seus dedos não respondiam. Permaneceu ali, ameaçando mas sem concretizar a ameaça. Blunt deu mais alguns passos, até ficar quase face a face com ela, e segurou o arco da arqueira.


– "Se não houvesse medo, não haveria coragem. Caminhe. Mesmo tremendo. Porque quem acha que força justifica crueldade precisa ser enfrentado".

Lord Blunt, senhor da guerra, repetiu para ela, com precisão surpreendente, palavras de outro. Àquela lembrou-se delas, pois as dissera para confortar alguém.

~~~~~

Dias antes. Era um jovem adulto atrapalhado. Não particularmente bonito ou ostentoso. Esbarrou em um bêbado numa taverna e passou a ser seguido por ele e mais três figuras mal-encaradas. A guarda local nada fez. Àquela estava ali à procura de emprego no mural dos aventureiros, mas não pôde ignorar a situação.

Viu quando os três empurraram o forasteiro insignificante, tomaram-lhe uma saca de moedas e estavam prestes a espancá-lo. Ela disparou uma flecha de aviso no chão na frente do líder. Os três se intimidaram, mas não a ponto de pânico ou temor real. Preferiram ir embora simplesmente. Levaram o dinheiro, mas cessaram a agressão. Ela o conduziu de volta e pagou-lhe um caldo quente.

Ele disse ser arquivista. Controlava documentos de suprimento da guerra — Blunt chegaria à capital se não o detivessem — e acreditava que, se o vilão esmagasse aquele antro de covardes, seria melhor assim. A Guarda vira que ele estava em perigo e não fizera nada. E ainda reclamara que ele, sozinho, era fraco demais.

Àquela entristeceu-se com a falta de esperança do simpático rapaz que acabara de salvar. Então falou aquele mesmo discurso: “Se não houvesse medo, não haveria coragem”. Bem, talvez não tenha sido tão eloquente quanto o vilão; gaguejou, errou a entonação, mas as palavras foram exatas.

O homem, revoltado por sua aparente impotência, sorriu. Viu uma fagulha de luz na forma daquela arqueira.

Conversaram mais. Tornaram-se amigos. Viram-se outras vezes depois daquela noite.

Ela falou do contrato de Khao e seus amigos, que ousariam atacar Blunt quando ele chegasse à capital. Seriam heróis, pois eram mais fortes que a Guarda. O amigo de Àquela ficou preocupado, e ela o assegurou de que estaria fora de perigo: ficaria escondida no palácio, com tiros de supressão, fora de alcance. Jamais enfrentaria Lord Blunt diretamente.

E agora, ela estava ali... Ouvindo Blunt repetir as palavras que dissera ... A Estebán.

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A Mentira

Eu me chamo Bentho. Tenho 17 anos. Cresci sob este quadro antes de ir para Forte Jian, aprendendo a chamá-lo de história antes mesmo de entender a palavra vitória: minha mãe, Lady Àquela, com o punho erguido e o arco ainda tenso, sorri como quem já pagou o preço do amanhã, enquanto Lord Blunt ajoelha em sombras, atravessado por flechas e pelo próprio fim; atrás dela estão Balmon, a barba pesada de coragem; Khao, feito um trovão contido; e Achima, olhos de cálculo e fumaça. Os que se tornariam os capitães da Nova Guarda, mas que aqui ainda são apenas testemunhas fiéis do instante em que o mundo mudou. O cenário é o que sobrou de quando o canto superior esquerdo explodiu ao revelar a Espada Negra. Os capitães da Nova Guarda se reerguem para assistir ao triunfo de Àquela.

Há poucos minutos, descobri que aquele quadro seria uma mentira.

– Não... você não pode falar com ele! – meu pai sussurrava. Para si mesmo? Para a espada? – Ele não fez o que eu fiz...

Olhei por cima do ombro. Meu pai, o arquivista patético que não saía do palácio havia dezessete anos, ostentava a Espada Negra. Falava com ela como se falasse com uma velha amiga.

Antes disso, dissera algo que ficaria para sempre em minha mente:

Eu sou Lorde Blunt.


– Aquilo... É uma mentira, então?! – falei enfim, após o choque, apontando para o quadro.

– De forma alguma – respondeu meu pai, desajeitado outra vez, como se pudesse esconder o que me fora revelado. – Olhe de novo. Olhe para esse quadro como se fosse a primeira vez.

– O que eu vejo é um vilão imponente e poderoso se rendendo a uma arqueira infalível. E hoje me parece que a arqueira era qualquer coisa, e o vilão pesa setenta quilos...

– Insista, meu filho – havia energia em sua voz, como se esperasse por aquele momento, ainda que em outras circunstâncias. – Ignore as histórias que ouviu e essa poluição de cenário, como firulas, como se fosse um grafite em cima da verdade. Tire seu viés. Olhe de novo.

Eu estava furioso. Mas e se tudo fosse uma brincadeira? "Gei-xa", ou seja lá qual fosse o nome do suposto assecla de Blunt, poderia ser um ator; magias ilusórias... qualquer coisa. Menos me tirar o heroísmo de minha mãe e me ligar à escuridão encarnada de Blunt.

Mas fiz a vontade do meu pai.

Olhei para o quadro como nunca tinha olhado antes.

O que eu via?

Minha mãe. Luzes sobre ela? Ou só a cor branca?

Lord Blunt, o terror em forma de... Não. Pense sem viés. Ignore as flechas. Era um homem.

De joelhos, diante de uma mulher.

Aquilo não era rendição.

Era um pedido de casamento.


Eu via agora meu pai, como Blunt, ajoelhado não em derrota, mas em súplica; onde antes eu jurava ver rendição. Minha mãe, Lady Àquela, não em triunfo, mas em surpresa contida, segurando um “sim” que mudaria o mundo. As flechas cravadas na armadura eram adições posteriores à obra original, assim como a camada que escurecia e desfocava a cena. Uma luz suave a envolvia, denunciando a mensagem que só se lê quando se ama. Ao fundo, Balmon, Khao e Achima não celebravam uma queda; guardavam o instante como capitães que juram silêncio, testemunhas de um pedido de casamento mascarado de lenda. Pétalas e poeira conspiravam para ensinar que a história escolheu lembrar a guerra, quando o que realmente nasceu ali foi um pacto.


A verdade estivera ali o tempo todo, exposta a todos. Até mesmo a Espada perdida de Lord Blunt estava encrustada na moldura.


Mas eu vira Lord Blunt aos oito anos... A criatura mais assustadora da história.

– A armadura? – riu meu pai, como se lesse minha mente. – Ela me faz ficar vinte centímetros mais alto, e as ombreiras me fazem parecer mais musculoso. Precisava ver com a capa de escamas. Não era prática, mas passava a mensagem certa.

Ele dizia isso enquanto movia a Espada Negra, devolvendo-a ao esconderijo, com a leveza de quem sacode uma toalha.

– A força da personalidade do usuário é que a move, não os músculos – explicou. – Compensa um corpo menor.

– Mas o que está acontecendo aqui?! – explodi, num misto de revolta e assombro.

– Você foi forçosamente integrado ao maior segredo de Shén-Li. Um segredo perigoso. Um segredo que a manteve segura por dezessete anos.

– E o segredo é que você é Lord Blunt?! – urrei.

– Shh... ainda há sentinelas por aí – disse ele, e vi meu pai patético emergir outra vez. Mas não ousei chamá-lo assim de novo. – O segredo é que Lord Blunt se aposentou.

– Aposentou?!

– É complicado e... na verdade, é simples – falou, olhando para a imagem de minha mãe. – Eu não podia simplesmente desaparecer, eu mostrei a fraquesa de Shén-li, outros continuariam de onde eu parei. Já tinha a persona de Estebán. Você não imagina como é fácil saber o número de soldados e quanto uma cidade aguenta um cerco quando se administra recibos. Eu sabia derrubar muralhas antigas só dividindo as pedras adquiridas pela área onde seriam aplicadas.

– Então você deixava sua armadura se passando por Lord Blunt e ia roubar papelada para saber como derrubar a cidade?!

– Não é só isso – continuou. – Quando se é baixo como eu e se veste fora de moda, as pessoas o ignoram e acham que podem pisar em você. Eu tinha um roteiro: colocava-me como vítima nas cidades, andando descuidado por ruas perigosas, para medir o tempo de reação da Guarda e a moral do povo. Com o tempo, cada insulto que recebi ficou. Eu odiava as cidades que espionava. Isso justificava minha guerra, alimentava minha violência. Mas tudo mudou quando Estebán conheceu sua mãe.

– No campo de batalha?

– Bem antes disso – respondeu. – Ela me salvou quando a Guarda não ligou. Estavam preocupados demais com Lord Blunt para pensar nos pequenos problemas. Mas ela não. Ela sabia o que era coragem. E o que o medo fazia...

– Chega! Pode parar agora, o roteiro é manjado! – protestei. – Já seria desagradável ouvir esse discurso do "poder do amor" vindo do meu pai arquivista. Não vou escutar isso do homem que mais temi na história.

– CALE A BOCA, MOLEQUE!

Era Lord Blunt falando. Não meu pai arquivista. O homem que poderia ter o reino a seus pés. Eu me calei.

– Quer saber o que é o mal? – confesso que estava horrorizado e, ao mesmo tempo, fascinado, ouvindo o discurso do vilão final de todas as histórias. – É quando você não reconhece mais a virtude. Nem em si, nem em seus capangas, nem em seus adversários. Eu aceitei a escuridão dentro de mim. Julguei o mundo por ela, quando os ditos heróis eram arrogantes, covardes, desrespeitosos... ou burros demais para admitir a derrota.

Com um gesto de quem comandava exércitos, ele me fez recuar. Era o mesmo homem carregado de papéis que ouvia calado os insultos passivo-agressivos de Capitão Khao?

– Sua mãe poderia ter se escondido, como covarde – continuou, desfazendo gradualmente as sombras do alter ego. – Poderia fugir. Eu tinha muito o que fazer antes de ir atrás de uma testemunha do meu triunfo. Poderia também me enfrentar por glória ou oportunismo. E teria encontrado mais do que esperava. Já aconteceu. Um gordo lançou-se sobre mim gritando que tinha ao seu lado “o poder de deus e do animê”, antes que eu o cortasse.

Ela sabia quem eu era. Sabia que não podia vencer. Mas não podia recuar.


Um barulho. Cavalos apressados. A Nova Guarda deve ter percebido que Ga-shi se expôs de propósito para deixar o castelo desguarnecido. Esperávamos que voltassem pela manhã, mas ainda estava escuro. Ergui-me e olhei pelo vitral a agitação. Os sentinelas logo abririam os portões.

De repente, meu pai me esbofeteou. Costas da mão direto no olho e supercílio.

– Ouch! O que foi isso?!

Escudeiro Bentho flagrou três criminosos, dentre eles Ga-shi, tenente de Lord Blunt, tentando invadir o palácio. Heroicamente salvou a fortaleza, sua guarnição e seu patético pai, feito refém – disse Estebán, arrancando botões do colarinho e bagunçando o cabelo. – Mas você não venceria um inimigo como Ga-shi sem sofrer ferimentos, não é?

– Para que tudo isso?! – resmunguei. – Mamãe e os capitães sabem de você.

- Mas os cadetes não. - pontua meu pai. - Meu acordo com o Conselho Regente era que jamais pisaria fora deste castelo. E jamais empunharia a espada outra vez. O que eu lhe falei serão os fatos. Você será o herói da vez. Eu lido com Khao e os outros.

- Isso não vai dar certo, pai...

- Acredito que dará... - Esteban senta-se à mesa, incorporando o homem amedrontado após uma situação de estresse. - Porque a alternativa é... Eu me tornar Lord Blunt outra vez...

A Verdade


29 de janeiro de 2026

EDGELORD - I - Arco da Nova Guarda

 MEU PAI É O MAIOR VILÃO DO MUNDO…

E MINHA VIDA ATÉ HOJE FOI UMA MENTIRA!

Entenda-o: https://dragaodeplutonio.blogspot.com/2026/01/em-breve-edgelord.html




Bem-vindos a SHÉN-LI.

Shén-Li é chamada de “o Coração do Mundo”, não por tamanho, mas por centralidade:

  • rotas comerciais convergem ali

  • decisões políticas irradiam dali

  • guerras começam ali… ou morrem cedo

Há dezessete anos, antes de eu nascer, Shén-Li quase foi derrubada. Um Senhor da Guerra chamado Lorde Blunt, um ser demoníaco envolto em pesada armadura negra, ergueu-se das zonas selvagens, portando uma espada sombria que lhe concedia poderes destrutivos. Aliados à sua técnica e sagacidade estratégica, ele angariou um exército letal e seguidores terríveis. A aldeia de Huo-Fen foi saqueada, garantindo-lhe armas e suprimentos. Lian-Zhou, nossa luz de entendimento, firmou pactos de não intervenção para não ser destruída. A estrada para Wei-Kang tornou-se tão infestada de bandidos mercenários que as comunicações se tornaram inúteis. E, enfim, após isolar a capital, Lorde Blunt sitiou a própria Shén-Li.

Nenhuma força no reino conseguia detê-lo. Ele era tido como o Maior Vilão da história.

Quando Shén-Li estava prestes a cair, um ousado grupo de campeões marchou para a batalha final. O implacável Khao, Punho de Concreto, colosso das Montanhas Castanhas. Mestre Mentor Achima, que moldava a realidade no campo de batalha como se estivesse contando uma história. Balmon da Torre da Bigorna, ferreiro anão que praticamente inventou a arma de fogo como a conhecemos hoje. E, é claro, Lady Àquela, a arqueira lendária.

Um a um, esses heróis, outrora tidos como invencíveis, iam tombando diante do poder do vilão, tentando deter sua marcha. Sucumbiam em armadilhas extremamente elaboradas ou diante do poder bruto concedido pela espada negra. E quando tudo parecia perdido, Lady Àquela, a Dama do Arco, disparou sua última flecha, mudando o destino do mundo.

A heroína lendária ainda alega que seus companheiros, antes de serem retirados de combate, minguaram pouco a pouco a força do vilão, e que só por isso ela pôde desferir o golpe final. Ela é tão humilde quanto bela. Mas no Palácio da Nova Guarda, a pintura de dois metros e meio a retrata com o punho erguido, triunfante, diante do vilão crivado de flechas, ajoelhado, com o semblante respeitosamente abaixado.

Quase às portas do Palácio de Shén-Li, Lorde Blunt foi derrotado.


Eu me chamo Bentho. Tenho dezessete anos e vejo aquele quadro todos os dias antes de ir para o Forte Jian, onde me apresento para meu treinamento. Pretendo me tornar um paladino defensor de Shén-Li e sentinela permanente da Nova Guarda. E, apesar de ser apenas um cadete em avaliação, posso viver no Palácio da Nova Guarda, a fortaleza onde outrora o próprio Lorde Blunt declarou guerra ao Coração do Mundo.

Porque Lady Àquela é minha mãe.

Sim, eu ouço as provocações por isso e acho que para sempre estarei sob a sombra da Dama do Arco. Mas pior do que isso é quando alguns colegas descobrem quem é meu pai.

Senhor Estebán é um arquivista desajeitado, com roupas fora de moda, bem mais velho que minha mãe. Magro, pálido como se nunca tivesse tomado sol. Não me lembro de nenhum momento em que ele tenha deixado as muralhas do palácio, nem mesmo quando fui aceito no Forte Jian. Se viver à sombra da maior heroína do mundo é pesado, tente explicar que seu velho é esse cara… cringe.

O antigo palácio de Lorde Blunt é a única fortificação oficial fora do que chamamos de Anel Externo, um complexo de muralhas e fortalezas para impedir que outros aspirantes a conquistadores desafiem nosso reino. Mas o palácio possui muitos segredos e suas próprias defesas. Livros e tratados escritos pelo próprio Blunt são perigosos demais até para serem transportados livremente, desde técnicas nefastas até nomes de espiões e traidores espalhados por todo o reino. Por isso, a Nova Guarda, formada pelo grupo original mais um exército de escolhidos de elite, decidiu, com a bênção do Conselho Regente, que ali seria sua sede. E transferiu para aqueles salões, sob os cuidados de meu pai Estebán, informações cruciais para melhor agir.

A Nova Guarda é o sonho de todos os soldados e aventureiros de Shén-Li. Eles não são um exército enorme, mas sua eficiência é ímpar. Rastreiam antigos seguidores de Lorde Blunt, previnem cultos e focos problemáticos. Em dezessete anos, nunca tivemos nada sequer remotamente parecido com o Levante de Blunt. Hordas de bandidos ou monstros das terras selvagens evitam nossas rotas comerciais.

Mas o mais importante é que ali fica a prisão de Lorde Blunt.

Infelizmente, minha mãe não executou o vilão quando teve a chance. O Conselho Regente de Shén-Li, piedoso, achou que matar alguém rendido seria cruel. Em vez disso, confinou Lorde Blunt no topo da Grande Donjon, a torre mais alta, cujo acesso é proibido a todos, exceto capitães e sentinelas indicados que o vigiam perpetuamente. Suas paredes são de rocha com o núcleo de ferro-frio da Montanha Morta, imune a magias e a tudo abaixo da intervenção dos próprios deuses.

Uma vez, aos oito anos, escapei durante uma troca de guarda e vi aquele homem sinistro, enorme, preso à própria armadura, com movimentos limitados por grilhões encantados, vigiado vinte e quatro horas por dia por soldados da Nova Guarda, mal recebendo luz pela minúscula janela gradeada. Meu pai me repreendeu e ordenou que jamais voltasse ali. E que nunca falasse do que vi a ninguém.

Voltei umas três ou quatro vezes desde então.
E contei para todo mundo.

Do descampado à base da colina onde fica a torre, se você ficar tempo suficiente observando a janela gradeada da Donjon, tem a chance de ver o Homem Mais Infame do mundo passar de relance.


Dias atrás, os capitães da Nova Guarda se reuniram. Eu sou apenas um aprendiz, mas sou filho da Arqueira Lendária e morador do Castelo Negro. Permitiram que eu acompanhasse. Aparentemente, um discípulo de Lorde Blunt, Ga-shi, foi visto causando brigas em uma taverna de um vilarejo dentro do Anel Externo. Chegou a desafiar a guarda abertamente, diante de testemunhas. O Capitão Khao sentiu-se pessoalmente ofendido. Queria partir imediatamente para “proteger a honra da guarda” desse criminoso.

Mestre Mentor, voz da razão, observou que, após tantos anos, o ressurgimento de membros ativos da antiga horda de Blunt era estranho. Balmon adotou uma posição intermediária. Achava que Ga-shi precisava ser retirado de circulação por ser um arruaceiro com passado perigoso, mas ponderava se valia o esforço.

— Por que agora? — disse meu pai, diante dos maiores heróis de Shén-Li.

Que vergonha.

O constrangimento entre os capitães, exceto minha mãe, aquela santa, era palpável.

— Pelo histórico — continuou Estebán, o “sem-noção”, que estava ali apenas para trazer fichas e relatos dos suspeitos e ficar na dele — Ga-shi era um executor pouco brilhante. E ousaria ser visto publicamente além do Anel Externo? Ainda por cima, provocando a guarda? Ele é um oficial conhecido de Blunt. Sabe que vocês não poderiam ignorar seu ressurgimento.

— Vai ver passou vinte anos preso debaixo de uma pedra e agora quer reencontrar o chefe — ironizou Khao. Entre os capitães, ele era o que mais resmungava da presença de meu pai. Foi um dos poucos que trocou golpes diretamente com Lorde Blunt e que, não fosse por um extrato de Medusa lançado no punho dele, poderia ter vencido antes da flecha final de minha mãe. Khao decidiu usar a mão indestrutível da maldição como sua assinatura.

Daí a alcunha Punho de Concreto.

Fora Lady Àquela, ele é meu favorito da Nova Guarda.

— O… o senhor está certo, capitão — respondeu meu pai, pensativo. Na hora, achei que ele tivesse percebido a besteira de falar naquela reunião.

— Não temos escolha a não ser investigar — concluiu Mestre Mentor. — A vila fica após o Forte Shan, dentro da minha área de influência. Mas gostaria que Lady Àquela viesse junto. Ela pode intimidar algum séquito de Blunt sem escalar o conflito.

— Eu também quero ir — acrescentou o Punho de Concreto. — Caso decidamos… escalar o conflito.

— Bem, alguém precisa cuidar da parte administrativa — suspirou Balmon. — E ficar na sede.

— Por que não deixa isso com o Estebán? — riu Khao. — Afinal, ele não sai mesmo daqui.

— Khao! — repreendeu Lady Àquela.

Hoje eu sei que havia uma censura escondida naquela interjeição.
E jamais voltarei a ouvir aquele tom da mesma forma.

— Ficarei bem, senhores — disse Estebán, relevando a alfinetada. — Vocês devem voltar pela manhã com mais um prisioneiro. Aqui, será só burocracia.

Decidiu-se que os capitães e seus respectivos sectos investigariam. Originalmente, eu iria também, mas minha mãe, por algum motivo, achou que eu estaria mais seguro no palácio. Meu pai ordenou que a maior parte da guarda reforçasse a vigia de Lorde Blunt e que os restantes patrulhassem os arredores além das muralhas. Acho que ele nem percebeu quando voltei e assumi uma das atalaias internas.

Naquela madrugada, eu entendi como o sucesso nos deixa relaxados.

Um dos sentinelas da estrada não voltou para reportar. Isso, por si só, já era errado. Hesitei alguns segundos antes de sair da atalaia para averiguar. Talvez fosse apenas uma troca de turno fora de formação. Talvez alguém tivesse cochilado em serviço. Talvez eu estivesse vendo perigo onde não havia.

Talvez…
Eu quisesse ser o herói daquela noite.

Desci pelos corredores laterais, atento demais para alguém que deveria soar o alarme. Foi então que vi, de relance, três vultos atravessando o arco do salão principal.

Meu estômago afundou.

Eu deveria ter tocado o alarme.
Eu sabia disso.
Mas meus pés continuaram andando.

A coincidência só me atingiu tarde demais. A Nova Guarda inteira havia sido destacada naquela noite. Os capitães tinham partido. O castelo estava quase vazio. E alguém sabia disso.

Tudo deu errado porque eu achei que dava conta. Justificava dizendo que “não queria pagar mico tocando alarme por causa de sombras ou guaxinins”. Mas, no fundo, eu sonhava com um ladrão. E comigo o derrotando. Sendo herói por algo além de ser filho de Lady Àquela.

O salão principal parecia maior à noite.

As tochas lançavam sombras longas sobre a pintura. Minha mãe, punho para o alto. Os Três campeões... Khao, Achima e Balmon. E Lorde Blunt, ajoelhado. A mesa redonda no centro refletia a luz como um lago imóvel.

Três homens encapuzados estavam ali. Espadas curtas, postura relaxada demais para ladrões comuns. No peito, um broche metálico. Só depois entenderia o que ele significava.

E à frente deles… sozinho… desarmado…

Meu pai.

Eu observei das sombras, tentando entender o cenário, achar uma brecha.

— Eu suspeitei que você viria esta noite, Ga-shi — disse Estebán. A voz não tremia. Não era a voz que eu conhecia.

— Eu conheço você, magrelo? — respondeu o maior deles, largo como um touro, cabelo seco e avermelhado. Ele sorria enquanto falava. Um sorriso treinado para matar. — Você não me é estranho.

Enquanto falava, os outros dois se moveram, fechando o cerco ao redor do pequeno escriba.

— Você não me conhece — disse meu pai, calmo demais. — Não de verdade. Mas eu conheço você melhor do que você se conhece. Lorde Blunt deve estar satisfeito com sua lealdade. Mas isso termina aqui.

O homem gargalhou.

— Lealdade? Eu sei que ele não está aqui.

Vi meu pai hesitar. Um único instante.

— A armadura negra é bem visível se… — começou Estebán.

— Ela também é uma armadura animada. Ele a usava para atrair assassinos — corrigiu o bruto.

— Sim… sim. Como fez nas Cavernas de Han-do. Você era um escudeiro, se não me falha a memória. Faz sentido. Isso explica muita coisa…

Um dos capangas riu.

— O velhinho sabe bastante da história do Blunt.

Meu coração batia rápido demais.

Blunt não estava na torre?
A armadura era encenação?

Meu pai cercado. Três assassinos.

Eu podia agir.
Eu devia agir.

— Então — disse Estebán — se você sabe que Lorde Blunt não está aqui… por que invadir o Castelo Negro da Nova Guarda?

— Pela espada — respondeu Ga-shi, erguendo o punho, como se esperasse que algo lhe fosse entregue.

O rosto de meu pai mudou. Pela primeira vez, vi algo parecido com raiva ali.

— Então você trai o reino… e trai Blunt também? — provocou, com desprezo na voz. — Jogo perigoso para um capanga. Tenente de terceira linha.

— Blunt está morto, e a história dele é um mito de acomodação! — zombou Ga-shi. — Shén-Li é uma farsa que vive de mentiras! — Ele apontou a espada curta para o quadro de minha mãe. — Eu lutei naquela batalha, com a “arqueira lendária”! Ela não era tudo isso! Blunt teria partido aquela rameira ao meio se ela chegasse tão perto quanto mostra o quadro!

Eu perdi o controle.

Era da minha mãe que ele falava.

Saí das sombras gritando.

Meu pai me viu. Por um instante apenas. E naquele olhar havia algo que eu ainda não entendia.

Ga-shi não se surpreendeu. Girou rápido demais. Nossas espadas se chocaram no ar. Ele era mais forte. Mais rápido. Ainda acho que poderia superá-lo com técnica, mas naquela hora esqueci tudo o que me ensinaram. Ele me jogou no chão como se eu não fosse nada.

Minha espada escorregou para longe.

Ele sorriu.

— Ah… o filho da arqueira…

Ele me conhecia.

Achima estava certo.
Estebán estava certo.
Era um ataque deliberado.

— Ele não, Ga-shi! — rugiu meu pai. — Ele não!

O bruto ignorou. Tomou seu tempo para armar o golpe que seria o fim da minha vida. Calculei as chances de esquivar ou recuperar a espada. Nenhuma parecia boa. Os capangas correram em direção ao meu pai. Talvez para agarrá-lo. Talvez para algo pior.

Eles caíram um metro antes de alcançá-lo.

Eu estava ocupado demais para perceber.

Então o mundo ficou escuro.

Não foi gradual. Não foi sombra. Foi como se alguém tivesse arrancado a luz do ar. O som de metal caiu no chão. Algo agarrou meu pé e me puxou para trás, com força e precisão impossíveis naquela escuridão.

— Já disse… ele não.

A voz não era a de Estebán.

Era mais grave.
Mais firme.
Autoritária.

— Isso… isso não pode ser… — gaguejou Ga-shi.

A lâmina cortou o vazio. Senti o vento passar perto demais. Fui puxado de novo, guiado por alguém que enxergava onde ninguém mais podia, desviando dos golpes como se fosse uma dança.

— Só siga minha voz, tenente de terceira linha — disse meu pai, guiando-me para fora da escuridão enquanto atraía o assassino.

Passos inseguros.
Respiração irregular.

Ga-shi reapareceu sob a luz pálida das tochas. Estava branco como um cadáver.

— Truques — disse ele, tentando rir, tentando se convencer. — A escuridão… a voz… Você imita bem ele…

— Você ainda não viu nada.

A confiança na voz do escriba era… atordoante.

Meu pai subiu na mesa. Estendeu a mão em direção ao quadro. O quadro da glória de minha mãe sobre o maior vilão do mundo. A parte superior, felizmente longe das figuras, explodiu em fragmentos de madeira e tecido quando uma longa espada negra voou de seu esconderijo direto para a mão de meu pai.

Num único movimento em arco, Estebán brandiu o artefato e conjurou um raio místico fatal a partir da lâmina. O golpe queimou a túnica negra, atravessou a couraça de couro, quebrou as costelas de Ga-shi e lançou seu corpo três metros para trás, sem vida.

O homem que eu desprezei por toda a minha vida permaneceu ali, imóvel, por quatro segundos que pareceram uma eternidade. Segurava a espada que simbolizava toda a maldade que já flagelara o reino.

No instante seguinte, reassumiu a postura acanhada e voltou-se para mim.

Ele ficou ali.

A espada negra nas mãos.

O homem que eu desprezei.

O vilão que eu temia. que TODOS achavam que era sinônimo de todo o mal.

— Não era assim que eu queria que você descobrisse, Bentho… — disse ele. — Eu sou Lorde Blunt.


Ouça o encerramento em: https://suno.com/s/wFrt36IrsM7UZdT0

28 de janeiro de 2026

Monstro da Semana, Eyespy (o não-beholder)

 

Eyespy

Large aberration, chaotic neutral







Armor Class 14 (pele ocular instável)

Hit Points 135 (18d10 + 36)

Speed 25 ft., walkclimb 25 ft.


STR
10 (+0)
DEX
12 (+1)
CON
16 (+3)
INT
8 (−1)
WIS
10 (+0)
CHA
18 (+4)

Saving Throws Con +6, Cha +7

Skills Perception +6, Deception +7, Persuasion +7

Damage Resistances force, psychic

Condition Immunities charmed, frightened

Senses darkvision 120 ft., passive Perception 16

Languages Deep Speech, Common

Challenge 7 (2,900 XP) | PB +3


Traits

Aberrant Perception.
The eyespy has advantage on Wisdom (Perception) checks. It perceives creatures through vibration, motion, heat, and attention shifts. As a result, it cannot be surprised.

Nonstandard Anatomy.
The eyespy is immune to features that rely on striking vital points or exploiting flanking. It is immune to Sneak Attack damage, immobilisation, and similar effects at the DM’s discretion.

Conviction Shapes Reality.
If the eyespy believes that a condition or effect is currently affecting it, that condition becomes real.

As an action, a creature the eyespy can hear may attempt a Charisma (Persuasion or Deception) check contested by the eyespy’s Wisdom (Insight). On a success, the eyespy gains one condition for 1 minute:

  • Restrained
  • Frightened
  • Prone
  • Incapacitated
  • Or another simple, immediate condition

If convinced it is dead, the eyespy gains Ontological Denial.

Ontological Denial.
While under this condition, the eyespy is incapacitated, has speed 0, and appears as an inert skeleton. This condition ends immediately if it takes damage, feels pain, or is convinced it is alive.


Lair Action

On initiative count 20 (losing initiative ties), while in its lair, the eyespy can manipulate the battlefield if it can see the area.

The eyespy declares with certainty one of the following phrases:

  • “I Spy… Spikes.”
  • “I Spy… Grease.”

A visible area within 60 feet becomes one of the following (eyespi e’s choice):

  • Difficult terrain
  • Slippery terrain (as the grease spell)
  • Sudden jagged blades erupt from surfaces (treat as hazardous difficult terrain)

The effect lasts until initiative count 20 of the next round.


Actions

Multiattack.
The eyespy uses three Eye Rays.

👁️ Eye Ray

Magical ray, 120 ft. The Eyespy fires three rays each turn. Roll 1d6 for each ray:

1 – I Spy Hurt Ray

The target must succeed on a DC 15 Dexterity saving throw or take 28 (8d6) damage of a random type: fire, cold, thunder, acid, poison, or bludgeoning, piercing, or slashing (DM’s choice or roll).

On a successful save, the target takes half damage.

This damage counts as magical for the purpose of overcoming resistance and immunity.


2 – I Spy Hold Ray

The target must succeed on a DC 15 Wisdom saving throw or become Restrained until the end of its next turn.


3 – I Spy Move Ray

The target is magically teleported up to 30 feet to a visible, unoccupied space of the Eyespy’s choice.


4 – Reality Flicker

Roll 1d4:

  1. Nothing happens.

  2. A harmless, useless object appears in an adjacent space.

  3. The target hears a faint childlike giggle, causing no mechanical effect.

  4. The terrain briefly warps, creating minor visual distortion with no mechanical effect.


5 or 6 – Dungeon Master’s Choice



Bite.
Melee Weapon Attack: +6 to hit, reach 5 ft.
Hit: 16 (2d10 + 5) piercing damage.


Bonus Actions

Self-Perceptive Reinforcement (Recharge 5–6).
Regains 22 (4d8 + 4) HP and ends one condition.

If a creature states with conviction that the healing failed, the eyespy must succeed on a DC 15 Wis save or the healing has no effect.

Reactions

Mistaken Identity.
When called "a beholder", roll 1d4. On a 4, its central eye becomes an Antimagic Cone until the start of its next turn.

Antimagic Cone.
30-foot cone, functions as antimagic field, with the following changes:

  • The eyespy cannot use Eye Rays while active
  • The eyespy can see normally inside the cone
  • If outside magical darkness, it is blinded

Description

An eyespy resembles a floating mass of circular flesh, threaded with exposed optic nerves that trail into thick, twitching tentacles. A wide, horizontal mouth opens beneath its body, while a thin stalk holds a restless, narrating eye that bends reality according to what it believes it sees.

It does not understand the world.
It merely agrees with it.