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1 de fevereiro de 2026

EDGELORD - MAIS UMA versão da Batalha de Blunt

 A Batalha Final, como eu a recordo - Por Estebán


Eu sabia que eles estavam preparando uma armadilha antes mesmo de vê-la.


Àquela me contou, sem perceber. Falou dos estrangeiros com entusiasmo nervoso naquela manhã. De como tinham chegado cheios de certezas, de planos, de magia demais para quem ainda não entende o peso de um erro. Falou das torres mecânicas, do mago que insistia em ver tudo de cima, do lutador que queria ser o primeiro a sangrar.


Ela não sabia quem eu era.

E justamente por isso, foi honesta.


Quando cheguei às portas de Kaoh, o campo já estava marcado. Não por símbolos no chão, mas por intenções mal disfarçadas. Abjurações empilhadas. Linhas de tiro cruzadas. Um convite para que eu avançasse pelo caminho que eles tinham decidido ser o correto.


Eu aceitei.


Vestia a armadura. Não por proteção. Por presença. Deixei que ela se movesse como se eu estivesse inteiro focado na marcha, enquanto meu foco permanecia um passo fora do óbvio. A lâmina respondeu ao meu chamado. A escuridão também.


O primeiro a vir foi Kaoh.


Corajoso. Convicto. Barulhento por dentro, mesmo em silêncio.

Antes que Kaoh me alcançasse, eu lancei o frasco.


Nem mirei direito. Mas Kaoh reagiu rápido. Ele deu um passo curto, girou o corpo e socou o frasco antes que o impacto o alcançasse. Um gesto bruto. Instintivo. Corajoso. O tipo de decisão que salva vidas… e cobra um preço.

O vidro explodiu. O líquido atingiu seu punho esquerdo, e por um instante achei que seria o fim dele ali. Mas o vigor das Montanhas Castanhas falou mais alto. A fúria antiga correu pelos músculos, empurrando a maldição para fora, comprimindo-a, negando-lhe território.

Não venceu. Mas também não cedeu.

A petrificação se concentrou no punho esquerdo. A mão endureceu primeiro, depois o pulso, a textura da pele cedendo à pedra como se o corpo tivesse decidido sacrificar uma parte para salvar o resto.

Kaoh não gritou.

Abaixou o centro de gravidade. Testou o peso novo do braço. Respirou fundo, como quem aceita uma cicatriz antes mesmo de saber se vai sobreviver.

Ali, pela primeira vez naquela tarde, eu sorri.

Não porque ele fosse uma ameaça.

Mas porque, se tivesse vivido mais alguns anos… teria sido um problema de verdade.


Foi então que ele veio para cima de mim.

E eu deixei.

Quando a escuridão caiu, não foi para cegá-lo. Foi para reduzir o mundo dele ao tamanho do próprio alcance. Lancei o Hex sobre sua força, puxando cada golpe para o erro seguinte. Cada acerto dele custava mais do que deveria. Cada falha pesava o dobro.

Os golpes que lhe dei não foram rápidos. Não havia necessidade. Um smite bem colocado não serve apenas para ferir. Serve para ensinar o corpo a desistir antes da mente.


Enquanto isso, o campo de batalha tentava me punir.

As máquinas do artífice disparavam com disciplina. Bonitas, até. Ajustei o passo e deixei que o raio místico resolvesse o problema sem emoção. Um disparo para deslocar. Outro para quebrar. O terceiro para fazer Belmon da Torre da Bigorna entender que não era mais um combate. Era um colapso.

Foi aí que o medo o encontrou. Não o pânico. O medo útil. Aquele que esvazia as mãos.


Acima de tudo isso, o mago.

Voava. Sempre voam a partir de certo nível de domínio da magia. Acreditam que distância é controle. Vi quando ele começou a preparar alguma magia que "encerraria a história". Parecia boa. Elegante. Não dependia de concentração. Eu teria respeitado se tivesse sido lançada.

Mas ele estava ocupado demais sustentando o próprio orgulho no ar.

Não mirei nele.

Mirei no pensamento. "Mind Sliver".

Um sussurro mínimo. Um fragmento de dúvida lançado como lâmina.

O tipo de magia que não dói, mas desorganiza.


A concentração se rompeu.

O mundo o alcançou.

Ele caiu antes de entender por quê.


Kaoh ainda respirava aos meus pés quando ouvi o som.


A flecha não me feriu.


Ela atingiu a armadura em cheio, trincando a superfície apenas o suficiente para produzir um som seco, definitivo. O impacto correto. A força errada. A placa desviou o ataque como devia.


Mas eu me virei.


Não por causa da flecha.


Por causa de quem a disparou.


Reconheci a postura antes do rosto. A arqueira da cidade. A jovem que ajudara um arquivista cansado a carregar papéis demais para braços de menos. Coragem sem cálculo. Lealdade sem estratégia.


Afastei o punho de Kaoh e ergui a espada. O golpe final já existia. Bastava vontade.


Ela saiu do esconderijo.


Ficou entre mim e o homem que eu estava prestes a quebrar.


E ali, naquele instante, tudo o que eu vinha fazendo perdeu o sentido.


Ela tremia. Não escondia.

E ainda assim, não saiu do lugar.


A força sempre foi fácil. O difícil é parar quando ninguém pode impedir você.


Eu podia atravessar aquele portão. Podia tomar o palácio. Podia ser tudo o que o mundo já tinha decidido que eu era.


Mas pela primeira vez em anos, alguém me enfrentava não por ódio, nem por glória, nem por medo do que eu faria depois.


Ela me enfrentava apesar do medo.


Abaixei a espada.


Não porque perdi.

Porque entendi.


Eles chamariam isso de vitória. Precisariam chamar. O mundo não tolera a verdade nua.


Mas eu sei o que aconteceu naquele dia.


Eu não fui derrotado.

Eu escolhi parar.


E desde então, tudo o que fiz foi garantir que, quando a próxima armadilha fosse montada…

ninguém precisasse atravessá-la vestindo uma armadura negra.

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