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21 de agosto de 2026

EDGELORD - Cap. I - Arco da Perseverança

 — Vai lá... — Amellie encoraja.

Fico constrangido.

Estávamos em um acampamento no meio da Ravina Avelã. fogueira, saco de dormir, e "algo mais". Decidimos escalar a encosta: seria difícil, mas faríamos em dois dias o que levaria cinco se recuássemos até o Entroncamento dos Ossos para subir pela Estrada Imperial. Felizmente, as roupas de frio que encontramos na Montanha Morta nos protegiam dos elementos. O tecido mágico adaptava sua aparência seguindo a paleta de cores das roupas que usávamos por baixo. Bem survivor chic...

— Vocês têm certeza? — insisto.

— Ah, sabemos que você quer! — Xitarro reforça.

Ora essa... Gladys?

— [Se eu disser "não", é aí que você vai querer fazer mesmo, não é?]

— Certamente.

— [Ai, ai... Manda ver no seu monólogo de abertura!]

BEM-VINDOS ÀS MONTANHAS CASTANHAS! As Zonas Selvagens em sua forma mais bruta! (aplausos de Amellie e Xitarro)

Shén-li venera a "Trindade das Aves": Dama-Dai, a Cegonha, representa o nascimento; Aetíades, a Águia, a vida iluminada; e Dama-Doji, a Garça, o repouso tranquilo.

Mas nas Montanhas Castanhas, tudo é mais duro. O terreno, o clima, a vida. Aqui vigora a Trindade Caprina.

Pallas, o Grande Carneiro, deus da resiliência. Você precisa ser o mais duro dos duros, o mais forte dos fortes. Cardullion, o Bode, é o deus da teimosia: não apenas seu corpo deve ser resistente, mas também sua mente — você nunca deve baixar a cabeça para ninguém. E da união de ambos surge Cartallas, o Deus da Perseverança. Pois quando tudo estiver contra você e ainda lhe restar um sopro de vida... você continua.

Por uma década, estas terras lutaram contra a opressão do Império de Caruthers, até que o herói que se tornaria o Monsenhor Capri e seus companheiros derrubaram o regime, revelaram a trama e libertaram as divindades aprisionadas. Desde então, a fé uniu as Montanhas com a Trindade dos carneiros; Shén-li, com a Trindade das Aves; e Yalatanil, com Velakrya, a Coruja Arcana dos Segredos (ei, outra ave!).

Igreja da Perseverança — dona da maior cavalaria do mundo e responsável por feitos lendários, como a queda de um titã e o fim do Tempo do Fogo Frio. E...


— Algo a acrescentar, Amellie? — pergunto, enfim. — Afinal, a igreja é sua quase tanto quanto do Monsenhor!

A barda baixa o olhar.

— Eu não sou a pessoa mais religiosa do mundo — diz ela, em tom suave. — Eu estava tão perdida quanto o Lizzo quando me juntei a eles. Éra os sobreviventes do Império e outras almas com seus conflitos buscando motivos para continuar nos primeiros momentos. Muitos prometeram dedicar a vida inteira à causa. Eu, dei uns três anos e olhe só para mim: parte de uma guilda de vilões!

— Somos mesmo uma guilda de vilões? — Xitarro questiona, franzindo o cenho. — A gente quase não fez vilania... Aliás, Bentho, como paladino você não deveria ser Leal e Bom?

— Paladinos são cavaleiros vinculados a um juramento, não obrigatoriamente "pureza e radiância" — explico. — Katzophlis disse que eu não precisava ajoelhar no milho. Mas eu realmente acho que deveríamos começar a...

Sou interrompido.

Nhan-nhan! Um ruído seco de metal batendo contra metal.

Virgílio, nosso "sistema de vigilância", faz um breve escarcéu.

— Ah, não! Vocês fizeram isso de novo?! — resmunga Amellie. — O que foi dessa vez?



Fico de pé e forço a vista na escuridão. Sou o primeiro a enxergar, mas é Xitarro quem vocaliza, tomado por um pavor puramente felino:

— AI! CACHORROS GRANDES! — ele berra.

Eu e o monge entramos em postura de combate. Amellie apenas observa com certo interesse, ainda sentada confortavelmente ao lado da fogueira, sem pressa alguma.

Uma matilha de lobos-cinzentos nos cerca. Esgueiravam-se no limite da penumbra, mas agora, descobertos, disparam em velocidade total contra o nosso pequeno ponto de luz na imensidão das montanhas.




Khao não sentia tanto frio há muito tempo... Mas deveria ser pior. A armadura da Nova Guarda tornava as rajadas cortantes algo entre o "tolerável" e o "confortável".

Ele jamais percebera isso antes, pois Shén-li possuía um clima muito mais ameno e temperado; Hálcora chegava a ter ondas de calor sufocantes nos verões. Nas Montanhas Castanhas, por outro lado, chamava-se de "verão" a estação em que se podia andar na rua sem morrer instantaneamente ao ser atingido pelo Vento Uivador.

Avançava pela Antiga Estrada Imperial que, apesar de abandonada há anos, continuava sendo um caminho incrivelmente estável e fácil de seguir. Aquela pavimentação duraria muito mais do que o próprio Império.

Tudo aquilo o incomodava. Havia uma inquietação sutil roendo seu peito. Ele não era mais o batedor, o caçador solitário, o devoto de Pallas pronto para ser o mais duro dos duros. Sentia que as montanhas estavam jogando no "modo fácil" com ele, graças à sua armadura reluzente e ao solo nivelado. Mas sabia que aquela facilidade não iria durar.

Khao ouviu um rosnado na escuridão.

Não era de lobo. Não era dos carneiros-montanheses, tampouco das aves de rapina locais. Era algo gutural.

Sentiu o cheiro acre. A presença densa no ar.

Avançou pela estrada e notou, logo acima, uma reentrância na rocha onde costumava correr uma várzea de degelo. O fluxo podia ter apenas congelado na nascente, mas também era bem possível que estivesse obstruído por algo.

O bárbaro dentro do capitão despertou.

Agachou-se e, silencioso como um predador, aproximou-se da elevação, oculto na penumbra. Em sua juventude, a escalada teria sido absolutamente silenciosa. Porém, como seu punho esquerdo era um artefato permanentemente fechado, dependia de três apoios para subir — a mão direita e os pés. Em certos trechos de cascalho, o ruído da rocha contra rocha da mão petrificada tornava-se inevitável.

O que quer que estivesse lá em cima não pareceu importar-se. Limitava-se a soltar urros contidos. O cheiro de vísceras frescas subia com o vento, misturado ao som metálico de algo sendo devorado e estalos de ossos partidos.

Khao finalmente alcançou a beirada da encosta e espiou.

Era uma criatura não-natural das montanhas. Tinha fácil quatro metros de comprimento e um peso medido em toneladas. Absurdamente obesa, com garras que lembravam espadas e presas projetadas como estalactites.

Aquele focinho colossal e poderoso provavelmente farejara o Capitão antes mesmo de ele deixar a estrada... mas era uma besta de tamanho poder que simplesmente não ligava. Nada naquele ermo ousaria ameaçar uma ursa atroz adulta daquele porte.





— Relaxa, Xitarro... — tento acalmar.

— Vista a armadura, Bentho! — o catfolk insiste, já caindo em posição de combate. Nunca reparei o quanto Xitarro detestava cães. — São cachorros grandes!

Olho de relance para Virgílio, mas não acho que vá ser preciso convocá-lo.

Xitarro estava nervoso demais para o meu gosto, enquanto Amellie mantinha uma tranquilidade quase debochada. Eu era meio termo. Acho que deveriam ter ao menos um pouco de apreensão, mas confiar no nosso abrigo. Afinal, a Barraquinha Arcana segurara a queda de uma montanha... seis sacos de pulgas não seriam desafio.

Dito e feito: os seis lobos tentaram avançar de uma vez e esbarraram no ar, revelando a cúpula rubra e discreta que nos protegia na penumbra. Alguns dentes se quebraram no impacto; focinhos sangravam, mas as criaturas insistiam, forçando a barreira mágica com unhas e dentes.

— Satisfeitos? — debochou Amellie, sem nem se levantar da fogueira.

— N-não chegue perto da borda! — alarmou-se Xitarro.

Então, algo estranho aconteceu.

Primeiro, os lobos começaram a circular em volta do perímetro, testando as brechas. Em seguida, os seis se concentraram em um único ponto da cúpula... exatamente onde Amellie estava sentada.

— Isso é machismo com a única mulher do gruopo? — eu estranho.

— Eles perceberam que de alguma forma eu sou a responsável por manter esta proteção e querem me desligar — Amellie analisa, impressionada. — São bem espertos para a espécie deles. E aí, Bentho?

— "E aí" o quê? — pergunto.

— Um verdadeiro "Senhor do Sombrio" impõe sua autoridade — Amellie provoca suavemente. — Este é um ambiente controlado, criaturas caóticas mas com alguma consciência, já que pensam tão a fundo de tentar me isolar. Eu já ensinei tudo o que podia, e você aprendeu muito com a viagem e com os palpites da Gladys. Essas criaturas não respeitam você... Como vai lidar com elas?

Entendi o recado. Se eram inteligentes a esse ponto, eu podia influenciá-los. Se não nos livrássemos deles agora, ficariam de tocaia esperando desmontarmos a barraquinha pela manhã.

Começo a caminhar pacificamente para o lado oposto da barreira, longe de onde a matilha se concentrava.

— Bentho... — Xitarro aponta, aflito. — Eles estão do outro lado!

— Eu sei... Mas eles não são o Alfa, são?

Com o Olhar Diabólico do meu pacto, as sombras da noite não eram nada. Eu enxergava muito além do alcance da fogueira. O afastado "Rei Cinzento" era maior do que os outros, mas não iria se expor enquanto tivesse seis asseclas para testar o terreno.

Assim que me aproximei de onde ele se escondia na mata, dois dos lobos se desligaram da barreira e vieram me interceptar do outro lado da cúpula, rosnando e latindo raivosamente.

Em Huo-fen, eu teria feito um discurso dramático. Eu assistira a muitas peças sobre o "Levante de Blunt" e achava que aquilo era o que definia um Senhor do Sinistro. Mas a realidade era outra. Lizzo nunca discursava; ele simplesmente tinha presença. Madame Morgan transbordava uma confiança inabalável só pelo olhar — ela governava o próprio destino.

E o meu pai? O verdadeiro Lord Blunt? Ele apenas ergueria uma mão. Como eu erguia agora. Comedido. Poderoso.

Ouço um chiado vindo do escuro. Uma marca mágica e reluzente flutua sobre a cabeça do Alfa, simulando o contorno da Gladius Aeternum. A marca da maldição, que dizia que ele era o meu alvo.

Não disse uma única palavra. Deixei apenas que o "Rei Cinzento" assimilasse quem eu era e o que eu faria se eu decidisse atravessar aquela barreira.

E então, o líder da matilha soltou as doces palavras:


— Puta que pariu, um bruxo! — urrou o Alfa. — S'imbora, cambada!

Os lobos calaram-se no ato e dispararam em fuga. Foram tão rápidos que mal percebi quando o líder sumiu na escuridão e os retardatários viraram poeira na encosta.

— É isso aí! — comemorou Xitarro, socando o ar. — Corram, seus cachorros pulhentos!

— Espera... — Amellie finalmente se levanta, boquiaberta. — Aquele lobo... falou?

Xitarro paralisa por um segundo, piscando surpreso.

— Graças a Cartalas, achei que eu estivesse ouvindo coisas!

— Bem... a Igreja já tinha alguns relatos soltos — Amellie tenta racionalizar. — O surgimento espontâneo de "animais despertos" na natureza aumentou muito ultimamente.

— "Animais despertos"? — Xitarro indaga. — Aquele lobo era "um deus", como o meu guaxinim?

— Não... longe disso — desconsidera a barda. — Mas Cardullion foi um animal desperto em vida. Teorizam que, agora como parte de Cartallas, ele de vez em quando concede a bichos selvagens a mesma centelha que recebeu de Cyrak. Ainda é um caso raro, mas...

Amellie abre um sorriso largo, orgulhosa:

— Mas e quanto a LORD EDGY, o Senhor do Sombrio?! — ela celebra, aproximando-se. — Este é o líder que iremos seguir!

Amellie passa os braços sobre os meus ombros e me abraça de lado...

Eu... "registro" o toque. Mas não sinto a mesma alegria juvenil de quando triunfei contra os Corvos ou contra o Eyespy. Eu fiz tudo certo... mas pareceu tão mecânico. Tão sem sabor.

Sera que era assim que meu pai se sentia em seu tempo?



Ursos não eram nativos das Montanhas Castanhas. A única fera daquela espécie que Khao poderia conceber estar ali era...

— Avelã?

O Capitão colocou-se de pé, abandonando qualquer pretensão de emboscar a criatura.

A lua era minguante, mas a penumbra oferecia claridade suficiente para seus olhos treinados.

Um Khao muito mais jovem — pouco mais velho que Bentho e dois palmos menor do que era hoje — lembrou-se de Glen Bearlord. Foi justamente por causa daquela ursa que o Império rebatizara a ravina. Naquela época, o Sargento furioso afundava a cara do jovem bárbaro na lama e certamente o teria matado se a ursa e seu cavaleiro não tivesse urrado, interrompendo o espancamento.

Glen Loren nascera no Império. Fora caçador até o dia em que adotou uma filhote de ursa atroz. A fera cresceu. Naquele tempo, não era maior que um cavalo de carga, mas bastou para se tornar a montaria oficial do nobre, concedendo-lhe o famigerado título de "Bearlord, o Senhor Urso".

Para o Império, ele representava a "Ordem". Mais tarde, o mundo descobriu o quão cruel e corrupto o regime podia ser, mas Bearlord era diferente: Justiça seja feita, ele era brutal e severo com o povo de Khao, porém estritamente justo. Ele queria à sua forma "civilizar" aquelas terras a qualquer custo — o que incluía a proibição sumária de execuções públicas. Khao só foi banido, não desmembrado.

Aquela ursa fora o maior símbolo dos colonizadores. O emblema vivo dos homens vestindo "roupas de ferro e aço" que, um dia, expulsariam ou exterminariam os povos bárbaros.

Khao não estava presente durante a Guerra de Bearlord, quando ambas as facções, levadas ao seu limite, pegaram em armas a derradiera vez. Apostava que o nobre marchara contra seu povo montado naquela mesma ursa. Enquanto a guerra destruía suas origens, Khao servia em Shén-li, "vigiando Lord Blunt" no Castelo Negro — ou sob qualquer outra desculpa institucional para mantê-lo afastado.

— O que aconteceu com você?! — indagou Khao, dando um passo à frente.

A ursa gigante esgueirou-se com pesada indiferença, ignorando a presença do capitão.

Usava o corpanzil monumental para represar o córrego de degelo, formando um pequeno lago artificial onde os peixes rapidamente se acumulavam. Com patadas certeiras, ela os arrebatava da água, mastigando crânios, devorando tripas e cuspindo as espinhas.

Ao dar mais dois passos, Khao ficou perto o bastante para notar algo preso à pata traseira da fera: uma algema de ferro retorcida, ostentando o elo partido de uma pesada corrente.

— Fiquei sabendo que Bearlord morreu em uma escaramuça em Portos Dourados anos depois da Guerra de Cyrak. — murmurou Khao, juntando as peças. — Mas... por que VOCÊ está aqui fora? No mundo selvagem, em vez dos estábulos de...

A ursa pareceu incomodar-se com o falatório do Capitão, ou talvez já estivesse saciada da pesca noturna. Ergueu a parte superior do corpo, sentou-se sobre a cascalheira e soltou um arfar pesado. Sem a barreira de seu corpo, o córrego voltou a fluir, mas a pequena lagoa momentaneamente estagnada transformara-se em um espelho límpido.

Khao olhou para o reflexo da criatura na água e, logo ao lado, encarou o seu próprio.

Em sua mente, em outra época, veria aquela ursa adornada com sela e armadura de gala, servindo de montaria ao Senhor nomeado das montanhas, enquanto ele próprio não passava de um bruto selvagem e maltrapilho.

Hoje, a ironia era avassaladora: Khao era o homem de armadura. Ele era o civilizado. Ele buscava impor a ordem e a moral.

E Avelã? Avelã era livre. Selvagem. Indomável.

Ela crescera de uma forma que jamais conseguiria dentro de um estábulo imperial. Provavelmente a desprezível Ydal Bearlord, a viúva, abandonara a criatura favorita do falecido marido à própria sorte, crente de que ela morreria nos ermos. Mas a fera perseverou. Cresceu exatamente como mandava o seu destino.

Ela era a verdadeira Colosso das Montanhas Castanhas.

Perdendo a paciência com o Capitão da Nova Guarda — aquele "macaquinho minúsculo" de metal que ousava encará-la — a ursa ergueu-se sobre as quatro patas e marchou para longe. Estava suja, alimentada e soberana. Foi explorar o restante daquelas terras indomáveis.

Sem o corpo do bicho, o lago desfez-se por completo na correnteza. Khao continuou encarando a água, observando o homem em quem havia se tornado: cabelo bem cortado, armadura reluzente de mithral, ostentando com orgulho os emblemas sagrados de Aetíades e Dama-Doji.

Era aquilo que as Terras Selvagens enxergavam agora quando olhavam para ele. Não mais o filho das montanhas... mas o "homem mais forte de Shén-li", amaciado pela civilização e pelos confortos do continente.

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