A balsa de peixes subia o rio. nós achamos uma extensão mais tranquila para ficar, fora das vistas do rebocador.
Estávamos quase no meio do rio, onde a margem oeste era uma linha negra recortando o horizonte… a Montanha Morta. À leste, Hálcora já tinha desaparecido, como se nunca tivesse existido.
Amellie dedilhava o alaúde. Pequenas músicas mágicas, quase distraídas. Ajudavam a relaxar.
Mas quando o silêncio se firmou de vez, o mais improvável dos bardos tomou a manhã para si.
- ... E então... - Xiatrro contava aquela história em que Cahuters colocou Capitão Lizzo para lutar contra um lagarto elétrico que ignorava seus talentos. - Quando o lagarto morreu, eles abriram e viram que... NÃO TINHA NADA!
A história estava um caos. E está fora de contexto, sem coesão. Uma barda como Amellie deve perceber sem esforço, mas ela gargalhava mesmo assim.
— Acontece que o LAGARTO NUNCA teve reflexos de trovão! — Xitarro conclui, triunfante. — A culpa disso era…
Uma breve pausa combinada.
- CAHUTERS! - urramos todos, sorrindo. Depois, escarramos e cuspimos.
— E Bentho lhe contou essas histórias todas em uma noite no Olho da Maré?! — Amellie pergunta, entre risos.
— Quando eu estava em Forte Jian, chegou um cadete daqui de Hálcora cheio de aventuras de Barbasuja, Ben Filler, e Capitão Lizzo. — explico. — Eram divertidas, nem pensava que essa gente saqueava navios e cidades costeiras. Era só... aventura livre no mar.
— Vamos cogitar trocar o projeto “Ledgyão” por um navio? — ela pergunta, ainda dedilhando, como se a ideia fosse metade brincadeira, metade tentação.
— Ah, Xitarro não sabe nadar, e minha armadura é uma âncora. — respondo. — Quero muito ter uma aventura pirata um dia… mas precisamos nos firmar em terra primeiro. E, para isso…
Eu saco Gladys.
— A senhora deve ter algo para nos falar, não é?
A tensão tinha diminuído o bastante. estávamos fora de perigo. Então, era hora de ver o que deu tão errado.
— [Bem…] — Gladius Aeternun começa, hesitante. — [Existe uma chance… não zero… de que Lord Blunt esteja nos rastreando, já que ele tem um pacto comigo anterior ao seu.]
— Gladys confirmou. — traduzo. — Meu pai está nos rastreando.
— E por que ela não avisou antes? — Xitarro pergunta.
Eu ouço e repasso.
- Ela diz que "Estebán" estava preso ao castelo e achou que jamais sairia... E... Ela me insultou com algo sobre "ela poderia ter esperado mais".
- Nossa organização não vai prosperar se um inimigo como Estebán puder sempre nos encontrar. - Amellie toma a dianteira. - Espada… consegue romper a ligação com Blunt?
Eu espero ela responder.
— [Eu não posso cortar unilateralmente. Mas, se ele perder o sinal, estaremos livres. No Castelo Negro, ele me mantinha isolada com Ferro Frio nas paredes. E o Ferro Frio vem de… olhem para o oeste.]
Eu olho. Entendo.
— A Montanha Morta… — digo. — Gladys acha que a Montanha Morta vai interferir na conexão de meu pai.
Amellie ergue as sobrancelhas.
— Certo. Eu conheço uma trilha até a Marca de Bearlord um dia rio acima. Tem alguns… inconvenientes, já aviso.
— Gladys diz que precisamos ir pelo subterrâneo. — continuo. — Estar cercados pelos veios originais de Ferro Frio. Precisamos ... atravessar as minas. E acho que vai ser pior que "inconvenientes"...
— Ela… disse isso? — Amellie estranha. Mas guarda o que quer que pensasse para si.
— [Bentho…] — Gladys hesita. — [Eu tenho a voz de Estebán? Ele é haltenor, sabia?]
— Não, Gladys. Não é a voz de meu pai... — eu resmungo desanimado.
— A espada está tentando descobrir de quem é a voz? — Xitarro se inclina, curioso demais. — Quem é, Bentho? Quem é?
— Pss… — Amellie corta. — Isso é pessoal.
Pois é.
Gladys nunca explicou direito quando eu ouvi a voz da minha mãe pela primeira vez. “A pessoa que mais respeitamos.”
Uma posição perigosa.
Agora… todos sabem.
Preciso encerrar isso. E sabia o que responder. Estive pensando bastante. Era minha equipe... Mesmo a mala da espada.
— Eu ouço… Khao.
— [Como é que falam nas academias? “maneiro, franguinho”?] — Gladys se intromete.
Xitarro franziu a testa, como quem tenta montar um quebra-cabeça com peças de outro jogo.
— O Capitão Khao? Mas… isso não faz sentido. Ele queria te prender. Igual à sua mãe. Por que não gosta de um e gosta do outro?
Eu solto um meio sorriso, desses que não chegam aos olhos.
Cruzo os braços. Inclino a cabeça. Explico.
— Não é igual. — digo. — Khao queria responsabilizar Lord Edgy. Não prender por prender… mas tratar como um homem que fez escolhas… e deve paga por elas... Eu não vou obedecer, obviamente, mas posso respeitar isso. Já a minha mãe… — dou de ombros — via um garoto. Um problema ambulante que precisava ser contido.
— Então é bom ser procurado? E quem caça a gente é… respeitável? — Xitarro pisca, lento. — Ser vilão e capanga é muito contraintuitivo...
Aquilo claramente não era o tipo de diferença que ele costumava notar.
Amellie demora um segundo a mais do que devia.
— Uma voz te cobra. — ela murmura. — A outra te diminui.
Silêncio.
Eu concordo com a cabeça.
Amellie estava quieta demais.
— Isso… — ela começa. — Isso é culpa minha.
— O quê?! — meu coração dá um salto curto demais. Será que ela ... — Amellie, eu não falei…
— Uma coisa que Estebán me disse… dois anos atrás, no Castelo Negro. — ela não me olha. — Que coisas ruins acontecem ao meu redor. Você vivia em uma feliz ignorância… seus pais eram o casal mais estável que eu já conheci… então eu me envolvo… e você… Lady Àquela é a pessoa mais doce que…
— Eu não odeio minha mãe. — corto, rápido demais. — Amellie, isso é só mais uma das nossas histórias… “Narrativas”. As pessoas achariam conveniente demais. Mas eu sempre soube que estaríamos em lados opostos. Eu até… — hesito — fantasiei como lidaríamos com isso.
Eu pisco.
Um balão de fuga.
Corda rangendo.
Lord Edgy subindo pelos céus de Shén-li.
A Arqueira Lendária chega atrasada.
— “Da próxima vez, Lady Àquela!”
E haveria outras.
Eu pisco.
Volto à balsa.
— Mas a gente resolve. — digo, mais para encerrar do que para convencer. — A mentira deles começou isso. A incapacidade de me entender alimentou isso. Eu vou superar. Só preciso de tempo… vou resolver. E preciso de você e Xitarro a meu lado.
— [Resolve?] — Gladys entra animada demais. — [Você vai é PAGAR POLICHINELOS, Escudeiro! Quero ver suor! Muito suor! Tom de comando!]
Eu respiro fundo — rápido demais — e, antes que ela continue, atiro a Espada Eterna no rio.
Xitarro se assusta. Quase salta atrás dela, mesmo sem saber nadar.
— Ele pode materializar a espada, Xitarro! — Amellie lembra, colocando a mão no ombro dele antes que faça algo ainda mais estúpido. — Acho que… está na hora de mais uma história de piratas…
— Conhece alguma história de piratas, Amellie? — eu pergunto mais leve. Fizemos um progresso. E eles acreditaram no que eu falei.
— Porque não... Vivermos uma?
Um arpão colossal crava na lateral da balsa.
THUNK.
A embarcação inteira treme. Eu e Xitarro quase vamos para a água.
Amellie… nem pisca.
Uma embarcação surge na curva do rio, vindo da direção de Hálcora.
Rápida.
Direta.
Intencional.
Olho para o alaúde.
Olho para ela.
Era isso?
Ela estava… chamando?
Arranjando uma carona?
Claro que estava.
Claro que estava.

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