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O que o DM deveria ter feito (e como eu deveria ter me portado)
> Este texto descreve um caso real.
O desfecho, porém, é wish fulfillment: não foi o que aconteceu, mas o que deveria ter acontecido.
Durante uma campanha, meu personagem recebeu — sem que eu pedisse — resistência a dano de veneno e à condição envenenado. Era um prêmio narrativo, dado pelo próprio DM, ligado a uma benção divina. Ao longo da campanha, curiosamente, jamais fui atacado por nada que causasse dano de veneno. Fato que é um redflag por si só.
Até que surgiu o Queijo Goblin.
O queijo era um elemento central de uma guerra: os goblins o adoravam, as demais raças o consideravam um risco sanitário. Narrativamente, era um ótimo gancho. Mecânica e dramaticamente, também poderia ter sido.
Meu personagem tinha Constituição 16, a já citada resistência à condição envenenado (termo umbrella do D&D para algool, doenças e tóxicos) e, como paladino, acesso a Lay on Hands para remover doenças. Ainda assim, decidi provar o queijo — por escolha de personagem, não por desafio mecânico. Era uma decisão interpretativa: curiosidade, diplomacia cultural, arrogância ou simplesmente coerência com alguém que acredita estar protegido.
O que o DM deveria ter feito
O DM tinha várias opções boas. Nenhuma envolvia invalidar ficha, prêmio ou regras básicas.
Opção 1 — Honrar as habilidades
> “Você sente o gosto horrível, o estômago revira, mas seu corpo aguenta. Os goblins observam decepcionados: você não vomita como eles.”
Resultado:
As resistências importam
A decisão do jogador importa
O mundo reage de forma coerente
Opção 2 — Teste significativo
> “Mesmo com suas resistências, isso é algo fora do comum. Faça um teste de Constituição com vantagem.”
Resultado:
Há risco, mas não arbitrariedade
O sucesso ou falha gera consequência proporcional
Opção 3 — Recontextualizar o efeito
> “Isso não é veneno nem doença. É um ritual cultural goblin, algo mais psicológico e social do que fisiológico.”
Resultado:
A ficha não é negada
O elemento narrativo ganha profundidade
Opção 4 — Conversa rápida fora do jogo
> “Olha, essa cena depende de alguém passando mal. Você se importa se, apesar das resistências, isso acontecer uma vez?”
Resultado:
Consenso
Respeito
Jogo colaborativo
Qualquer uma dessas opções teria funcionado.
O que o DM não deveria fazer
Declarar que “todo mundo vomita” sem teste
Ignorar resistências concedidas por ele mesmo
Bloquear cura e remoção de doenças arbitrariamente
Transformar uma escolha do jogador em punição automática
Usar escatologia como substituto de consequência
Isso não é desafio.
Não é drama.
É invalidação retroativa.
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E como eu deveria ter me portado (wish fulfillment)
No mundo ideal, eu teria feito algo simples, calmo e público:
> “Só para confirmar: isso ignora resistência a veneno, imunidade à condição envenenado e Lay on Hands?”
Diante da confirmação, a pergunta seguinte seria inevitável:
> “Então qual foi a função mecânica e narrativa de me dar essas habilidades?”
E, não havendo resposta clara ou lógica:
> “Ok. Nesse caso, eu não estou confortável jogando num cenário onde recompensas e habilidades são invalidadas quando entram em conflito com a narrativa. Vou me retirar.”
Sem ironia.
Sem discussão longa.
Sem tentar “ganhar”.
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Conclusão
O problema nunca foi o queijo.
Foi o padrão.
Quando um DM cria uma situação especificamente para atravessar defesas do jogador, não está propondo um desafio — está testando submissão.
E quando a única resposta possível é adoecer, falhar ou ser ridicularizado, independentemente da ficha, não estamos mais jogando RPG. Estamos assistindo a uma cutscene onde os dados ainda são rolados por hábito.
Esse texto não é sobre rancor.
É sobre como isso poderia ter sido bom — e como, no futuro, eu escolho não participar quando não é.


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